Frank - O Caçador #89: "Prelúdio Para a Guerra"



Numa região da cidade na qual a cartomancia era um ramo de concorrência acirrada, uma mulher se distinguia dentre as outras de sua espécie consultadas pelo potencial clarividente. Seu local de trabalho situava-se discretamente, o que, contudo, jamais foi impeditivo de grande adesão por parte dos clientes da rua e adjacências. O pseudônimo escolhido chamava atenção, inclusive: Madame Zarathro, mulher de sangue europeu e ondulados cabelos negros que emolduravam seu alvo rosto de maçãs destacadas. Mulher esta cujo nome autêntico era Agnes Leinbow. 


Naquela noite, lá estava ela em seu recinto de ofício diante de um homem usando terno azul. Dois aspectos incomuns a sua rotina de divinação eficiente: um homem solicitando consulta e ainda trajando vestes elegantes. Ela o fitava com simpatia particular num sorriso fechado de expectativa. 

— Vamos, não há razão pra hesitar, por mais que exista a chance de uma retirada desagradável. Lembre-se que não é sua escolha, é o destino cumprindo seu eminente papel. — disse Agnes aguardando o homem pegar uma carta de tarô, mais precisamente a primeira no topo do baralho virado com a frente para baixo. A mão direita do homem relutantemente pegara a carta, quase trêmula. A entregou à cartomante que vira qual era e dispôs-se a explicar seu simbolismo, mas antes surpreendendo-se – Oh... De novo não. 

— Eu bem que havia previsto ser uma das piores. — disse o homem, tenso — Você sabe muito bem... das coisas horríveis que fiz pra não merecer um destino próspero de fortuna e felicidade. É o preço das ambições mais sedutoras que me levaram a cometer todos aqueles erros. Mas não posso fugir da minha sina, né? É tão irremediável quanto a morte. 

— Ora, não se torture tanto. — disse Agnes, compadecida do sofrimento interno pelo qual ele passava — Apesar de que... A carta que você tirou possuir um significado alarmante, tanto em relação a você quanto ao mundo. — virou a carta, mostrando-a — O arcano maior do Julgamento. Tem ideia do que seja?

— Me diga você. O quão ruim isso tem a ver comigo e com o destino do mundo inteiro? 

— Você passará por um período de punição, é o que normalmente esta carta quer dizer uma vez tirada por alguém que não embaralhou. A expiação final dos pecados. Agora compreendo seu mau pressentimento, pois ele agora é também meu. 

— Não se preocupe comigo. Como um homem que lida com questões relacionadas a segurança geral, a minha vida não está acima de bilhões. Isso foi eu sendo humilde? Nossa, não fazia ideia do quanto as últimas experiências me revitalizaram como ser humano. Mas se nada do que fiz será perdoado, então que eu pague, reconstruir quem sou não apaga meu passado, é tarde demais. E o outro significado? 

— Numa divinação passada para o futuro geral, tirei esta mesma carta. O que está sem jogo está inserido num contexto muito maior, ligado a um mal sem precedentes. O juízo final predefinido, tão temido e esperado. 

— O juízo final bíblico? 

— Não exatamente. Diria que é uma preparação para um evento de proporções que vão abalar as estruturas do cosmos, do espaço e do tempo, de todas as coisas viventes e funcionais no universo. — relatou Agnes, a face transmitindo temor — Já começou. Eles estão aqui, posso senti-los. 

— Eles quem? Que tipo de forças são essas? 

— Quatro... São quatro seres, encarnações de puro mal, arautos de uma força absurdamente maior selada há tempos abaixo de Danverous City. — disse ela, aparentando cansaço.

— Tudo bem, chega por hoje, já ouvi o bastante. — disse o homem, tocando na mão direita dela sobre a mesa redonda coberta de pano vermelho — Não se esgote por isso. Agora preciso que você cumpra sua reciprocidade... como eu fiz antes de nos conhecermos melhor. Quem de fato você é? O que garante suas previsões se concretizarem? 

Agnes inclinou-se para ele, pronta para revelar. 

— Já ouviu falar em bruxas? 

— O quê?! Ah, eu já devia imaginar... Em anos documentando o sobrenatural, me sinto um idiota de não ter suposto que a magia fosse o grande trunfo pra explicar esse seu dom. Sua espertinha, você não cansa de me surpreender. 

— Bem-vindo ao meu mundo, definitivamente, Theozinho. — disse Agnes com ar sedutor. 

— Não fala assim... — disse o homem que na verdade tratava-se de Hoeckler, um amante fiel a sua parceira — ... que senão podemos acabar em outro lugar. 

— Eu já até escolhi onde. — disse ela aproximando seu rosto ao dele. Hoeckler correspondera. 

Ambos beijaram-se demoradamente naquela exíguo espaço até como um meio de apaziguar a tensão com o inevitável cataclisma que estava em pleno aquecimento envolvendo as tais forças maléficas que aportaram na cidade há poucos dias. 

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CAPÍTULO 89: PRELÚDIO PARA A GUERRA

Um novo dia raiava para Frank que despertou na cama tacando sua mão direita no seu velho despertador digital para silencia-lo. Realizou todos os afazeres comuns antes de iniciar mais uma jornada hercúlea de trabalho no DPDC: tomara banho, escovou os dentes, vestiu-se e preparou seu café. Mas em todas as tarefas convencionais de sempre havia um pormenor que parecia pequeno, mas tornava aquele limiar extremamente distinto. De um jeito doloroso e que estrangulava seu coração para estimula-lo a cair em prantos. 

Na mesa ao terminar de comer, um movimento em falso o fez cair na realidade indesejada. 

— Axel, desce logo, senão vai esfriar o seu... — parou no meio da frase ao virar-se para a entrada da cozinha, sem ouvir a voz do seu hóspede. Seu olhar entristeceu-se na hora com um flashe de memória o torturando ao mostrar aquele míssil do lança-foguetes acertar em cheio o amigo junto a Nero, fazendo os dois homens amaldiçoados explodirem em pedaços de rochas para todos os lados junto a fogo e poeira. Martelava na sua mente a voz de Axel gritando em insistente pedido para que atirasse sem a menor hesitação. Frank passou a mão no rosto, reprimindo a comoção. Nada lhe tirava daquele luto desde o funeral acompanhado de Nathan que, como se não bastasse, resolvera se despedir partindo sem rumo no Expresso Temporal como aceitação de seu destino dado o cumprimento da sua missão de vida — Ah, Axel... Havia outro jeito disso terminar, cara. 

Entrar no carro não o afastou da sensação atordoante de rememorar a morte ainda muito recente do amigo. Havia ali presa no espelho retangular uma foto com os três tirada antes de partirem para a decisiva batalha contra Nero. Frank a pegou e ficou olhando com um tímido sorriso de canto. "Juntos até o fim", pensou ele, recordando o lema do trio naquele dia. "Esse fim chegaria pra um de nós três cedo demais, inevitavelmente."

Fechou os olhos por um instante, lutando internamente para conter a emoção que lhe pesava. Guardou a foto no porta-luvas e dera a partida. Ao chegar no DPDC, mais precisamente no corredor que levava a sala de Carrie e resolveu dar uma passadinha por lá a fim de ver se ela já havia chegado. Bateu na porta de leve e foi concedido a entrar. 

— Buenos días. — disse ele, adentrando — Parei na minha sala e você não tinha deixado nenhuma pasta, já que falou ontem que tinha uma montanha de relatórios pra organizar e nem teria tempo pra dizer oi pra mim. — notara uma inquietação na assistente que, sentada a sua mesa, masseagava as têmporas com olhos fechados — Eita, pelo visto foi um trabalho bem consumidor de umas horinhas pra cochilar. 

— Frank, bom dia pra você também. Isso é só maneira de dizer pois... acho que o seu dia não será nada bom. — disse ela erguendo um olhar cansado. 

— Sempre foi maneira de dizer. Quem dá bom dia esperando que seu próprio dia seja um mar de rosas de cabo à rabo ou deseja isso pra alguém? Da mesma forma que as pessoas perguntam se você está bem. Elas estão cagando pra como você se sente. Pelo menos, não entre amigos, como eu e você, gente de confiança mútua e de longa data. 

— Para de fingir que tá de bom humor. Você treina diante do espelho? Frank, senta aí, tem algo que preciso te informar. Inclusive, esse é um dos motivos pra minha enxaqueca. Ou melhor, pra reforça-la.

— Não, eu tô bem aqui de pé, pode mandar a nova. — contestou Frank se apoiando com a mão esquerda na cadeira — Quer uma água pra tomar um remedinho? 

— Você vai querer sentar, confia em mim. — disse ela com inquestionável seriedade — E sim, aceito a água pra finalmente tomar essa pílula anti-cefaleia. 

— Foi um trampo tão exaustivo assim? — indagou Frank pondo a água no copinho descartável — Virou a noite pra valer? 

— Nenhum segundo de sono regular. — respondeu Carrie que recebeu o copo e logo jogou a pílula na boca, por fim tomando a água. Deglutiu forte e preparou-se para contar a novidade preocupante — Vem aqui, quero te mostrar um vídeo que vai me poupar saliva. 

Frank se aproximou dela para conferir o vídeo. A assistente pós para reproduzir aquela matéria jornalística feita bem cedo da manhã sobre um corpo em avançado estado de putrefação encontrado numa linha férrea. O detetive estreitou os olhos para o momento em que os homens do instituto forense levavam o cadáver para o rabecão. 

— Pausa aí, pausa aí. — pediu ele, ao que Carrie atendeu, aproximando mais seu rosto da tela do monitor — Não... Não pode ser possível... Não pode ser verdade... 

— Frank, tenta não surtar, por favor. Mas... você precisa encarar a possibilidade... 

— Não, Carrie! — disse Frank exasperado, tomando distância da tela e pondo as mãos na cabeça em estado de pura aflição — OK, eu sei que o Nathan tava com passagem só de ida pro Expresso Temporal... 

— Isso foi há dois dias. — ressaltou Carrie — O Nathan se despediu de você há dois dias. 

— Ah, então resolveu esconder isso de mim nesse intervalo, né? 

— A dor de cabeça aumentou com a pressão que eu sentia de revelar. Você me conhece bem, não sou de guardar segredo por mais que umas 48 horas, no máximo, isso quando se trata de nós dois e um assunto de tamanha urgência como esse. Eu não escondo notícias ruins, mas nessa tive que me abrir uma exceção, até onde foi possível. Tô perdoada?

— Tá, mas... Não me convence de que ali seja o Nathan. 

— Como não? Como não, Frank? As imagens são nítidas, você viu as roupas, o sobretudo... Sem falar no lugar! Acha coincidência um cadáver com vestes parecidas com as do Nathan ser descoberto no meio de uma ferrovia e num estado decrépito no dia seguinte à sua despedida com ele? O estado do corpo, por sinal, nos leva a uma suspeita gravíssima.

— Lembrei agora do que o Adrael me contou sobre os riscos das viagens no tempo, as punições a que o Nathan poderia estar sujeito. — disse Frank, seu nervosismo não cessando — Alguma coisa sinistra foi lá e acabou com ele... Não... — fechou os olhos, balançando a cabeça — Só acredito vendo. 

— Meu Deus... A negação... O maldito primeiro estágio do luto. — disse Carrie cobrindo o rosto com as mãos em tristeza e estafa — Quando meu filho, Arthur, havia morrido, eu inicialmente não quis acreditar sem antes ver o corpo bem na minha frente. Te ver desse jeito me remeteu àquele dia infernal. Ótimo, faça como eu, vá constatar com seus próprios olhos. 

— Onde fica o necrotério? — perguntou Frank, determinado a tirar a prova de reconhecimento. 

***

No necrotério sob o radar de Frank, mais especificamente numa sala de examinação, lá estava o corpo de Nathan sendo estudado por um legista para determinar a real causa da morte. O médico analisava com minúcia o buraco profundo no peito, sendo instigado pela crescente dúvida. Tirou as luvas a fim de realizar uma pausa e saiu da sala para tomar ar fresco ou beber uma água. Mal sabia ele que tinha companhia observando seu trabalho com a mesma atenção. Nathan, ou seu espírito, se via encostado na parede próximo de um armário, fitando angustiantemente seu corpo sobre aquela mesa de metal. Aproveitando que o legista saíra, deu uns passos adiante até o cadáver  

— Vamos lá, tem que funcionar. — disse ele, levando sua mão direita ao corpo na esperança de toca-lo. No entanto, a mão atravessou a matéria putrefata, o frustrando com mais uma tentativa em vão — Acho que vou ter que pedir consultoria pra fantasmas veteranos sobre possessão de cadáveres. Será que é possível? Eu mesmo reanimar meu próprio corpo? Aqueles malditos... 

Alguém havia entrado na sala, mas não se tratava do mesmo legista que se encarregou de averiguar as condições do corpo. Um outro homem de jaleco branco, meio calvo e de feições orientais, veio aproximando-se do objeto de exame. 

— Ah, essa não... Lembrei que almas desencarnadas não podem retornar aos corpos. — disse Nathan que foi perceber a distinção do médico ao virar-se — Quem é esse? O que estava antes... simplesmente saiu e deixou a responsabilidade pra outro? Estranho.

O legista substituto olhava o cadáver com um sorriso malicioso de súbito interesse, logo dando uma risadinha misteriosa.

— E veja o que temos aqui. Se me lembro bem... Parece ser aquele cara com quem o Frank Montgrow tinha como parceiro quando eu fui pegar o Livro do Destino possuindo aquele caçadorzinho de recompensas. 

Nathan escutou bem aquelas palavras e recordou-se.

— Não pode ser... 

O legista piscou seus olhos que tingiram-se de preto vivo tal qual a escuridão. Nathan se alarmou.

— Esse deve ser... aquele demônio que matou o Jeffrey Holland... Qual era mesmo o nome desse desgraçado? 

O demônio ria infamemente para o corpo passando sua mão sobre o mesmo. 

— Uau, acabei de ter uma excelente ideia. Que tal pregar uma peça no Montgrow vestindo esta bela casca? Digo, não tão bela agora. Mas basta eu entrar que ficará novinha em folha. — disse ele que deu uns passos para trás e logo despossuiu o corpo do legista que foi largado ao chão. Possuiu o cadáver de Nathan num pulo sobre a mesa. O jovem caçador assistia sentindo uma impotência revoltante. O corpo de Nathan se restaurou instantaneamente e reabriu os olhos, estes inteiramente negros. Levantou-se da cintura para cima, conferindo o resultado, olhando para as mãos e tocando no rosto. 

— Ah, claro, era isso que me faltava ser esclarecido. Demônios podem livremente possuir carcaça morta, enquanto fantasmas benignos não. Muito justo. — apontou Nathan, consternado com seu corpo sendo vilipendiado por uma criatura tão repulsiva. 

— Olha só, coube direitinho, tem o meu tamanho. Agora é hora do show, não posso desperdiçar um segundo sequer nesse dia de sorte pro grande Zyndao. — disse o demônio, ajeitando a gola do sobretudo, logo depois desfazendo-se dos olhos negros ao piscar — Foi como ganhar na loteria. 

— Zyndao... Então é ele, vai usar meu corpo pra enganar meu pai. Sorte a sua mesmo eu não poder tocar em nada, seu filho da mãe, senão ia te enxotar da minha carne com uma surra que você merece!  

O legista anteriormente possuído despertava levantando-se. Zyndao pegou um bisturi na mesa escondido, olhando o médico com desdém. 

— Mas o que... Você não devia... 

— É muita informação pra sua mentezinha humana processar, eu sei, relaxa. 

— Vou chamar a segurança... 

— Hum, péssima escolha, amigo. — disse Zyndao que rapidamente tratou de usar o bisturi rasgando a garganta do médico num preciso corte diagonal. Sangue golfou profusamente da ferida enquanto ele tombava para agonizar. Nathan era incapaz de conter sua fúria e vontade de aniquilar o demônio com suas próprias mãos. Zyndao andou até a porta, passando sobre o legista como se ultrapassa um pedaço de lixo no caminho e saiu para levar a cabo a peça que pretendia pregar em Frank maquiavelicamente. 

Nathan pós as mãos na cabeça em desespero, deixando levar pela raiva. 

— Droga! — vociferou ele, queimando uma lâmpada da sala que explodiu em faíscas. 

***

O beijo ocorrido na noite anterior foi o estopim para uma tórrida aventura romântica que acabou indo parar na cama de Agnes e se seguiu até aquela manhã com amigos dormindo lado a lado debaixo dos lençóis. Estavam acordados e ainda com resquícios da atmosfera que os envolveu durante a madrugada. Hoeckler a beijava do ombro até a mão, o que a fazia sorrir de excitação. 

— Se continuar nesse ritmo, iremos começar tudo de novo. Um ciclo infindável. — disse Agnes, deitada de lado, meio de costas para ele — Você não tem trabalho a fazer? 

— O superintendente não tem restrição de carga horária. — disse ele, voltando a beija-la  no pescoço. 

— Sua legítima esposa sabe do seu segundo e exaustivo emprego? 

— Por que deveria? Ela não se importa mais em pôr uma coleira no meu pescoço como antes. 

— Ela andou pulando a cerca também? 

— Não. Os problemas sucessivos a fizeram adotar uma indiferença como estado de espírito único pra nossa relação, o que foi deixando mais leve a minha infidelidade conjugal. Ela passou a dizer que nunca prestei e tem toda razão, de uma maneira geral. 

Agnes virou-se para ele acariciando-o no rosto.

— Mas pode encontrar sua oportunidade redentora se sobreviver ao futuro reservado, o seu julgamento expiatório. 

— Estou mais preocupado com o futuro que realmente importa, você sabe. — disse Hoeckler, admitindo sua tensão com os eventos prestinados e caóticos que ameaçam se abater sobre a cidade — Já estou às vésperas de um divórcio, podemos nos casar, aproveitarmos ao máximo enquanto há tempo se o futuro que nos espera for morrermos juntos com essa cidade. O nosso "até que a morte nos separe" não pode acabar sem uma troca de alianças. 

— A menos que me substitua por uma bruxa genérica ou uma vadia comum. — disse Agnes endurecendo a expressão e o tom — Sua promessa não tem valor até você cumpri-la. 

— Pelo tempo que me resta, quero me comprometer a somente uma mulher... e ela está aqui, deitada comigo, pronta pra mais uma sessão terapêutica com o doutor Theodor W. Hoeckler. — disse ele, logo a enchendo de mais beijos. 

Contudo, o momento amoroso foi interrompido pelo barulho de vidro quebrando. A troca de beijos cessou com os dois olhando para a porta alarmados. 

— O que foi isso? — indagou Agnes — Theozinho, parece que... 

Hoeckler saiu da cama, pegando sua camisa azul marinho, a vestindo e a abotoando. 

— Fique aqui, vou verificar e já volto. — disse ele, logo saindo do quarto. Chegou a sala, deparando-se com um dos vasos de Agnes estilhaçado no chão. 

Foi surpreendido por um golpe telecinético que o jogou contra uma parede. Eis que um demônio usando o corpo de um jovem usando um gorro vermelho e casaco verde escura. Mostrou os olhos pretos junto a um sorriso diabólico. 

— Me disseram que uma certa bruxa holandesa vivia aqui e vim confirmar. Será que errei de endereço? 

— Veio perder seu tempo. — disse Hoeckler, levantando-se — Ela acabou de fugir pela janela. Sei que as bruxas holandesas são tão poderosas quanto espertas. A propósito, por que um reles demônio estaria interessado numa delas em particular? Quer seu amor de volta em três dias? 

Para o desprazer de Hoeckler, Agnes, já tendo posto seu vestido preto de volta, vinha correndo do quarto e parou na sala em meio aos dois adversários.

— Sua tola, disse pra ficar lá... — falou Hoeckler, baixinho. 

— Quem é você? — perguntou ela hostilmente ao demônio. 

— Não sabe que os olhos são a janela da alma, tia? 

— Estou vendo muito bem, quero saber quem você é e porque estou sendo procurada. Ouviu muito falar de mim, né? Se quiser, posso ler sua mão ou adivinhar nas cartas, mas terei que cobrar o triplo do que ganho em se tratando de um monstro. 

— Eu tô bem ciente do meu futuro, obrigado. — disse o demônio — Uns novatos na cidade, caras sinistros de armadura, me mandaram rastrear uma bruxa e como um bom cão farejador que sou... voilá, a montanha veio até mim. 

— Quem são esses turistas que resolveram escravizar demônios? — questionou Hoeckler. 

— São eles. — disse Agnes, temerosa, olhando para o amado — As forças das quais lhe falei ontem. Os quatro cavaleiros sombrios, servos de Zarathro, meu antigo mentor. Pro seu bem, não interfira em nada. 

— E ele não é tao inútil assim. — falou o demônio — Deixa eu apresentar meu parceiro. — disse o demônio, assoviando. Um cão da raça São Bernardo cruzou a porta dos fundos vindo em direção à eles — Vai por mim, esse cara não é o Beethoven. Acho que dá pra notar pela boquinha suja dele. Seu glutão de merda. 

O cão rosnava com sua boca suja de sangue que gotejava misturado a saliva pegajosa no carpete sépia de Agnes e logo emitiu um brilho vermelho nos seus olhos. 

— Cão do inferno. — disse Hoeckler que se armou com um castiçal — Pra trás. 

O São Bernardo se aproximou ousado lentamente, rosnando mais e seus olhos a brilharem tenebrosos. 

— Pra quê me querem tanto? — perguntou Agnes, apreensiva. 

— Segundo eles, você é a única discípula viva capaz de estabelecer contato espiritual com a alma do falecido bruxo que está sem eira nem beira por aí há séculos. É bem óbvio que não vou sair daqui ouvindo não como resposta. Do contrário, um assovio pro totó aqui e seu amante já era. Tic-tac, tic-tac... 

Agnes desviou o olhar assustado para Hoeckler que fez que sim com a cabeça permitindo-a se entregar. 

— Leve-me até eles. 

— Com prazer, madame. — disse o demônio, a pegando pelo braço direito com força. Desapareceu com a bruxa no piscar de olhos junto ao cão do inferno. Hoeckler largara o castiçal e correu ao quarto pegar o celular, discando o número de Frank.

— Você é o único disponível pra me ajudar, então acho bom me atender. — disse ele, aguardando. 

***

Pouco tempo após chegar ao necrotério, Frank se deparara com dois médicos legistas mortos num corredor, ambos com cortes profundos nas gargantas, como o detetive pôde averiguar mais de perto agachado até um deles. Repentinamente, sentiu uma brusca queda na temperatura ambiente, sinal com o qual já estava mais que familiarizado. Expeliu vapor gélido na boca, logo em seguida estando diante do vidro de uma janela que se embaçava com o frio que assumia o corredor. 

O detetive ficou a observar a janela inteira ser tomada pelo vapor, tendo a ideia de que aquilo significasse mais do que apenas um efeito do fenômeno paranormal de presença fantasmagórica. Palavras foram sendo escritas na janela. 

— Cacetada... — disse Frank acompanhando, surpreso, a formação da frase. 

"Pai, sou eu, o Nathan! Vai até a sala 19, por favor"

Na ida até a sala indicada, o aperto de luto que Frank sofridamente sentia no peito retornou duas vezes pior do que pela manhã. Ao adentrar no recinto, ele nada vira além dos móveis e objetos de trabalho para autópsia. Olhou em volta, não enxergando Nathan bem atrás dele se esforçando para tornar-se visível. 

— Nathan? Filho, dá um sinal. — disse ele, a voz meio trêmula de emoção. O espírito do jovem caçador finalmente estava pronto para ser visto. Assim que Frank virou-se, uma troca de olhares comovidos os fez sincronizarem seus sentimentos mórbidos — Nathan... Não dá pra acreditar, você... morreu quando estava prestes a embarcar no trem. Não foi? 

— É, pai. A morte veio mais cedo do que eu planejava. Eu sinto muito. Acho que... eu devia tê-lo escutado, reconsiderado ficar com o senhor pra podermos fazer o que gostamos juntos, sermos uma dupla e uma família. — disse Nathan, não escondendo seu arrependimento choroso — Mas veja, estamos aqui, nos reencontrando, nem foi tão difícil me tornar visível ou fazer aquele lance do frio pra chamar sua atenção. Eu tô pegando o jeito. 

Frank havia chegado ao limite de se conter e abraçou o filho numa expressão de choro e lamento. Nathan correspondeu, abraçando-o fortemente. 

— Eu ainda mal superei a perda do Axel, agora tenho que encarar a sua. É fardo demais pra um homem só. — disse Frank enxugando as lágrimas — Chegou a ver ele por aí vagando? Nesse plano ou no mundo espiritual? 

— Não. — respondeu Nathan, melancólico — Eu nem sequer pisei no mundo espiritual ainda, me sinto... preso demais à matéria, tô na fase do espírito que não desapega da carne, tanto é que vim pra cá justamente pra tentar retornar pro meu corpo. Quanto ao Axel, não o vi mesmo. Não tive a chance de reencontra-lo pra conversarmos pessoalmente... ou fantasmagoricamente. 

— E onde foi parar seu corpo? Ou melhor, quem ou o quê te matou? Sem dúvida alguma foi consequência direta das viagens no tempo que você fez. 

— Não faço ideia de quem eram, eles surgiram do nada... Quatro homens usando armaduras medievais, como cavaleiros, e com aparências horríveis. Um deles transpassou meu peito com uma mão e apodreceu minha carne de dentro pra fora, acredito que era o chefe. Essa nem é a pior parte. A razão de eu ter chamado o senhor vai além de só revê-lo. 

— Então o que rolou por aqui? Você parece bem nervoso... Roubaram seu corpo, é isso?

— Foi, e o nome do ladrão vai te surpreender. — disse Nathan que fez uma breve pausa como suspense — Zyndao. Familiar? 

— Nem me fale. Mas que merda, aquela peste desgraçada tinha que reaparecer e olha a maldita coincidência... Esse dia tá cada vez pior e esquisito. 

— Pai, tem mais uma coisa pra contar... Ahn... Na verdade, tem algo sinistro me impedindo de entrar no mundo espiritual. — revelou Nathan, sério — Uma luz vermelha me perseguindo a todo instante. Com certeza, não é a Eternidade. É bom lembrar que eu sou meio-monstro, então isso por si só já invalida meu passaporte pro céu ou pro inferno.

Frank pensou a fundo naquela questão pertinente, recordando-se de outro local metafísico destinado aos mortos, a terceira via reservada aos monstros. 

— O Limbo. — disse ele, voltando os olhos para Nathan — Quando fui a julgamento pelo Radamanto, ele mencionou esse lugar pro qual me mandaria caso eu afrontasse a autoridade dele, mas já ouvi falar antes que é pra lá onde vão os monstros no pós-morte. Mesmo sendo metade, se aplica a você também. Nathan, se ver essa luz te seguindo outra vez, não olha pra trás, evita isso ao máximo. 

— Eu não sei por quanto tempo mais vou poder fugir, uma hora vai ficar fora de controle, eu pressinto isso.

O celular de Frank tocara para quebrar o clima. Logo o detetive atende a chamada. 

— Hoeckler, o que foi? Me ligando por que? — indagou, ouvindo a seguir o superintendente na linha lhe reportando a situação critica ou pelo menos uma prévia — Quer que eu vá agora? Olha, tô num aperto danado aqui envolvendo demônios, fantasmas... Tá, OK, caso do meu absoluto interesse, não é um simples favor. Me passa o endereço via mensagem. Tá legal, falou. — encerrou a chamada. 

— O que tá pegando? Não era inimigo desse cara? 

— Pois é, a gente tem reajustado nossa relação conforme ele vem reajustando o caráter dele. As pessoas podem se reformar, né? Enfim, eu não vou colocar a recuperação do seu corpo em segundo plano. Quero mais é exorcizar o Zyndao e mandar o biltre pro inferno 2.0. 

— Sim, mas que tipo de favor ele te pediu? 

— Ele não foi claro, mas parece se tratar de um resgate envolvendo mais do que posso imaginar. Tô morrendo de curiosidade, mas não quero te deixar na mão esperando teu problema se resolver. É estranho ele me ligar, nunca me pediu favores assim com tanta urgência. Pelo jeito, não é coisa pequena. 

— Nesse caso, vai logo até ele. Deixa comigo, eu tento me virar, a ligação com meu corpo facilita que eu o rastreie, dependendo de onde ele estiver. — disse Nathan, logo tocando-o no ombro — Bom te rever, pai.

— Você também, filhão. — retribuiu Frank com um fraco sorriso — Promete que vai seguir meu conselho?

— Dessa vez vou te escutar. Boa sorte com seu chefe. — disse o jovem que logo desapareceu. 

Frank ficou um tempo parado, pensativo sobre aquele reencontro, não medindo a dor que sentia por duas partidas precoces de pessoas tão próximas e queridas. 

— Vou atrás de arrancar o miserável do corpo do Nathan nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida. — disse ele, em seguida saindo da sala. 

***

O local de encontro com os temidos cavaleiros parecia condizer com a natureza fúnebre e assombrosa que possuíam. Agnes era levada pelos braços por dois demônios no corredor de um matadouro, olhando-os de soslaio com elevada suspeita de qual seria o destino daquele passeio. 

— Não querendo ser inconveniente, mas... Poderiam me dizer o que os anfitriões desejam tanto discutir comigo? É uma proposta de aliança? Eu cortei minhas relações com Zaratro desde o motim. 

— A gente só tá cumprindo ordens expressas. — disse o demônio a esquerda da bruxa, possuindo um homem de porte robusto e truculento. 

— E não temos interesse algum nas suas historinhas com a múmia que os chefes querem ressuscitar. — disse o da direita que possuía um homem negro de envergadura atlética. 

— Ressuscitar Zaratro?! — disse Agnes, surpresa — Mas eu não faço a menor ideia de onde ele foi enterrado. É pra essa utilidade que estou aqui? Lamento por vocês e os cavaleiros, mas capturaram a pessoa errada, rapazes. 

— Sim, pra que a pessoa certa siga o rastro até você. — disse o demônio da esquerda. 

— Quem é essa pessoa? — perguntou Agnes. Os demônios pararam diante de uma porta pesada e enferrujada. O grandalhão a abrira. Em seguida, o outro fizera Agnes apertando-a no braço direito.

— Eu sou apenas uma isca, então? — questionou ela. 

— Já falamos demais. — disse o demônio que a colocou sala adentro.

Agnes avaliou o ambiente em que estava: uma espécie de depósito de carnes bovinas apodrecidas presas em ganchos. Inúmeras moscas varejeiras voavam em torno dessas carnes que exalavam um odor agressivo a qualquer olfato. A bruxa reagiu enojada, tapando as narinas. 

— Seu quarto de espera, milf. — disse o grandalhão. 

— Milf? É assim que os americanos tratam hoje mulheres de meia-idade? Eu não vou engolir esse desaforo de dois estrupícios que posso matar como se mata uma mosca. — disse ela, enfrentando-os como que querendo ultrapassa-los para sair dali. No entanto, a dupla a empurrou ao chão nauseabundo.

— Fica quietinha aí porque só vai sair depois que os chefes autorizarem. — disse o demônio possessor do homem negro. Ambos saíram, a trancando na sala cujo som predominante eram os zumbidos atordoantes das moscas. Agnes permaneceu no chão, um tanto pensativa quanto a uma questão. 

— Espera aí... Quem eles querem atrair... só pode ser... É isso. — disse ela, convicta — Theozinho. Ele virá com os homens dele pra cá enfrentar esse bando de vermes de olhos pretos e me salvar. 

Olhou para as moscas, tendo um súbito lampejo. A bruxa sorriu e levantou-se, dizendo palavras em latim numa conjuração de feitiço visando os insetos. Ergueu a mão direita, esticando-a. As moscas rapidamente agiram como se fossem teleguiadas pela magia infligida por Agnes, se agrupando. 

Paralelamente, Frank chegara a casa da bruxa onde Hoeckler o esperava. O detetive entrou depressa, fechando a porta, afoito por detalhes e revelações. 

— Muito bem, qual é a treta que tá te deixando tão emocionalmente vulnerável? — indagou Frank aproximando-se do superintendente que estava sentado no sofá com um laptop no colo. 

— É o estado de espírito mais natural possível quando alguém que você ama corre perigo. — disse Hoeckler, olhando-o. Levantou-se com o computador na mão — Sei que como seu chefe não devo satisfações da minha vida pessoal a você, mas não fique tão surpreso quando eu disser toda a verdade. 

— Já fiquei surpreso ouvindo você dizer que ama alguém. Agora sem enrolação, fala pra mim que diabos tá rolando nessa parada toda de cavaleiros, fantasmas, demônios e o escambau. A minha paciência hoje tá curta, seria bom você respeitar esse limite, assim como respeito os seus. 

— Espere, como sabe dos cavaleiros? 

— Eu não sei, só ouvi falar vagamente... O meu filho, o Nathan, ele morreu faz mais de dois dias. Acabei de voltar do necrotério pra onde levaram o corpo dele e fiquei sabendo por ele, como fantasma, de que um desses cavaleiros vindo de sei lá que inferno o matou a sangue frio. Esses caras tem relação direta com a sua donzela em apuros? 

— Um demônio com seu cãozinho infernal vieram aqui nos ameaçar e ela foi levada para se sujeitar as exigências desses homens que são poderosos e influentes o bastante para nos preocuparmos. — disse Hoeckler, hesitando um pouco em desnudar os fatos.

— Não esconde o jogo. Eu tô quase ciente do quão grave isso é, tenho uma noção prévia de que a coisa é pior do que encaramos antes, meu instinto de caçador não falha. Mas se quiser que trabalhemos juntos nessa, vai ter que ser inteiramente honesto comigo. — declarou Frank, sem rodeios. 

— Ela... — disse Hoeckler, fechando os olhos brevemente — ... é uma companheira extraconjugal. Agnes Leinbow. 

— Oh que bonito, você tem uma amante. Mas não explica a importância dela pros patifes. 

— É uma bruxa! — disse Hoeckler, rispidamente — Pronto, satisfeito? Qual sua opinião? Uma crítica? Uma piada? Estou esperando o seu parecer, Frank! 

O detetive o encarou sério analisando o que diria. 

— É irônico, realmente. Você ter alguém com quem chifrar a sua esposa e esse alguém ser justo uma pessoa ligada a feitiçaria. Mas não vim pra te julgar, se é o que você tava achando. Apesar da sua conduta, eu digo que estamos no mesmo barco. 

— O que quer dizer? 

— Esse caso envolve pessoas com as quais nos importamos. Sendo mais exato, meu filho tá metido nessa história pois os cavaleiros o mataram por ele ser um viajante do tempo, além disso um demônio chamado Zyndao se apossou do corpo dele, talvez numa tentativa de me tapear, e deve estar de rabo preso com os canalhas de armadura e elmo. 

— Supõe mesmo que esse Zyndao esteja no mesmo local em que Agnes está junto aos cavaleiros? 

— Aposto firme e alto.

— Ótimo, então veja isso. — disse Hoeckler mostrando a tela do laptop para o detetive — Fiz uma busca seletiva por câmeras do Big Brother que possuem sensores de rastreio paranormal. Nem preciso dizer de onde vem, certo? Bem, estes são os pontos marcados. — na tela era possível ver fotos de espaços nos quais haviam a letra Z marcada a sangue negro demoníaco — Cada um deles segue uma rota em direção a um local específico. 

— Esse Z... só pode ser o Zyndao. — disse Frank — A prova de que ele tá filiado aos cavaleiros da morte. 

— Não exatamente. — disse Hoeckler, virando o rosto para ele — Algo me diz que indique outro nome: Zaratro. 

— Quem é esse maluco? 

— O bruxo que havia sido mentor de Agnes e ensinou uma forma de magia das trevas sem precedentes. Esse sim um peixe enorme a ser pescado. Não duvido das palavras dela, não é qualquer feiticeiro... Se os cavaleiros o idolatram e o temem, significa que devemos servir de obstáculo pra cada esforço que eles investirem na conquista da tumba onde esse bruxo foi sepultado, sem dúvidas querem tirar essa informação de Agnes pra revive-lo. 

— Se ele é barra pesada mesmo, então o que deu fim nele? 

— Não sei, provavelmente Agnes também não. Mas vamos torcer pra que ela esteja viva sem ter dito que não sabe nada da localização da tumba. — disse Hoexckler voltando-se para o laptop — O último Z está bem em frente a um frigorífico e abatedouro. 

— Vamos nessa. — disse Frank, virando-se para ir. 

— Frank. — chamou Hoeckler, fechando o laptop. O detetive parara  — Sinto muito pelo seu filho. 

— Se tem alguém que vai ser revivido no fim das contas é ele. É a minha meta. A sua é salvar a bruxa. Finalmente uma parceria nossa em que eu tô totalmente de acordo. — falou Frank, saindo a seguir. 

No matadouro, um dos demonios fora mandado verificar como a prisioneira estava, não ainda para chama-la a se apresentar para os cavaleiros. Ao abrir a porta, a viu deitada no chão aparentemente com dificuldades respiratórias. 

— Por favor, eu posso ser uma bruxa milenar e requintada, mas meu sangue é vermelho como de qualquer ser humano, me ajude, esse... odor de carniça está me matando, meus pulmões estão... — disse ela, ofegante. O demônio aproximou-se e ela o olhava bem à medida que ele andava — Vocês me querem viva, não querem? Eu não sou a moeda de troca pro resgate? Oh céus, não aguento mais... 

— Cala a boca, eu já vou tira-la daqui, não precisa fazer draminha. — disse o demônio, o grandalhão que anteriormente a conduziu até ali. Agnes deu um cínico sorriso para ele quando a tocou para levantar. 

— Creio que já tenha ouvido um bom conselho... 

— Que conselho?

— Nunca confie em bruxas. — disse ela que o empurrou forte e logo depois esticou sua mão direita comandando o exército de moscas varejeiras que estavam escondidas atrás das carnes diretamente a ele. A nuvem de insetos o atacou impiedosamente, muitas delas entrando pelo ouvidos, narinas e boca, fazendo-o debater-se no chão tal qual numa convulsão. Aproveitando a inescapável deixa, Agnes se dirigiu a porta, a abrindo e dando um sorrisinho zombeteiro para o demônio. Porém, mais dois surgiram no corredor — Vieram ver o amiguinho de vocês? Ele está lá dentro, coitado, no meio de uma crise convulsiva. Eu tive que abrir a porta e pedir ajuda. 

— A gente vai muito cair nessa. — disse um deles.

— Se não acreditam... Melhor sentirem na pele. — disse Agnes, estalando os dedos e trazendo a horda de moscas para torturarem os dois demônios. Da mesma forma que com o primeiro, os insetos adentraram em cada orifício exposto de seus corpos e os levaram a agonia interna se debatendo no chão. 

O primeiro demônio afetado, vinha voltando trôpego, se apoiando na parede, expelindo sangue demoníaco pela boca, nariz e olhos, estes pratos e furiosos. 

— Vadia...  Você me paga. 

Agnes mandou mais moscas para adentrarem nele, mas era hora de acionar a etapa final do plano de fuga. Com palavras em latim, explodira um feitiço de combustão, como se as moscas invasoras tivessem se tornado minúsculas bombas incendiárias. Os três demônios queimaram de dentro para fora, aos berros, ardendo no fogo lancinante. A bruxa seguiu correndo passando pelo demônios enlouquecidos e flamejantes. Enquanto isso, Frank e Hoeckler haviam acabado de chegar ao matadouro, na área do abate que era um amplo espaço de paredes precárias e amareladas nas quais estavam fixas umas lâmpadas de luz dourada e sépia. 

— Alô! — chamou Frank em voz alta — Ninguém pra nos receber nessa pocilga aqui não? 

— Acho imprudente fazermos estardalhaço. — disse Hoeckler a direita do detetive. 

— Então por que você não foi pelos fundos, ô gênio? Deixasse apenas eu com o estardalhaço.

— Eu vim desarmado, idiota. – retrucou Hoeckler, irritado — Você trouxe a sua arma com balas molhadas em água santa e a lâmina anti-demônio, tem alguma vantagem. Eu trouxe somente minha esperança de livrar a Agnes dessa cilada nem que isso custe minha vida. Estou contando mais com você do que comigo, deixo você ser o herói hoje. 

— Sabe que pra mim a sua namoradinha de cama tá em segundo plano, né? Eu vou priorizar o Nathan, custe o que custar. A culpa é sua por ter vindo sem nada pra se defender e agora quer jogar a sua responsabilidade nas minhas costas. Não vou ser seu escudo o tempo todo. Desculpa ter que dizer isso, mas... se vira. 

As atenções da dupla imediatamente voltaram-se para frente quando a área mais opaca do local se tornou mais sombria. Vultos misturados as sombras rastejam pelo chão como serpentes visando um bote certeiro. Hoeckler suava frio com aquela onda de sombras parecer querendo preencher o piso. 

— A atmosfera mudou. — disse ele, visivelmente tenso — Minhas pernas... tremem... mas estão paralisadas. Em toda a minha vida nunca testemunhei uma entidade maligna que me fizesse sentir um medo tão genuíno e intenso. 

— Pra tudo tem sua primeira vez. — disse Frank — Experimenta ser caçador e com o tempo você se acostuma, vira uma sensação bem corriqueira até nenhum pelo do seu corpo se arrepiar mais. 

As sombras emergiram, quatro no total, se materializando em seres esguios trajando armaduras cinzentas e escuras com espinhos metálicos nos ombros. O quarteto de cavaleiros ostentavam elmos que ocultavam seus rostos do nariz para cima, na parte dos olhos aparentando estarem usando visores retangulares. Frank recuou um passo, admitido a si mesmo estar intimidado com a presença daqueles quatro indivíduos emanando alta energia negativa. 

— Estávamos esperando ansiosamente. — disse o que se colocou adiante dos demais, o líder — Qual de vocês atende pelo nome de Theodor Hoeckler? 

Uma relutância momentânea acometeu a Hoeckler, mas abandonada graças ao sue afeto por Agnes. 

— É a mim que desejam ter como refém, portanto sugiro que soltem a mulher que está em cárcere aqui. — disse ele encorajando-se a um passo adiante.

— Ela permanece conosco até que façamos contato com a forma espiritual de nosso mestre. — ditou o cavaleiro, categórico — Sua função tem importante equivalência. 

— Estou ciente. Afinal, sou o presidente da organização que pesquisa, cataloga e coleta materiais de origem paranormal de quaisquer essências. A tumba de seu estimado mestre não poderia nos passar despercebida. A questão é: como sabem da fundação e tudo que a circunda? Andaram nos espionando? 

— Tudo a seu tempo, senhor Hoeckler. — disse o cavaleiro líder. 

— Dispenso a formalidade. Se garantirem a segurança e liberdade de Agnes, acato seu pedido. 

Frank o olhou de lado com certa reprovação, julgando como arriscar tudo pela sobrevivência da bruxa.

— O que tá pensando em fazer? Botar tudo a perder pelo seu amor de cama? Entregar o ouro ao bandido por um trato com esses miseráveis? — perguntou Frank, em tom baixo e entortando a boca. 

— Confie em mim. — respondeu Hoeckler da mesma forma. 

"Confiar em você... Essa é boa.", pensou o detetive. 

— Após a localização da tumba ela estará em suas mãos novamente. — afirmou o cavaleiro. 

— Que assim seja. — disse Hoeckler. 

— E quanto a você? — indagou o cavaleiro dirigindo-se a Frank. 

— Vocês me tiraram algo com valor sentimental. Um certo viajante do tempo. — falou o detetive num tom endurecido — Ele só iria embarcar no maldito trem sem rumo, passagem de ida pra esperar a morte chegar.

— Não fizemos mais que nossa obrigação contratual. — disse o cavaleiro, frio. 

— Contratual? Que tipo de missão vocês se encarregaram que necessita matar viajantes do tempo? — questionou Hoeckler. 

— Temos uma incumbência para salvaguardar as leis universais. As medidas protetivas que tomamos estão dentro dos preceitos pré-determinados. 

— Vamos parar com esse papinho eloquente e sermos mais objetivos. — determinou Frank — Que negócio de três leis é esse? Não tô gostando disso.

— A pessoa que assassinamos ontem feriu uma destas leis. Tornar-se imortal, reviver dos mortos ou interferir no fluxo do tempo são graves infrações que nosso senhor nos orientou a impedir. 

— Acho que com nosso senhor... ele se refere à entidade. — disse Hoeckler.

— Que entidade? — perguntou Frank. 

— Um mal mais antigo que o tempo selado bem abaixo de Danverous City. 

— Como é que é? E você só me avisa agora?! 

— Estávamos com pressa e nervosos, certo? Então para de reclamar! Essa nem a problemática que merece nossa atenção, pelo menos não por agora. 

Sons de passos foram ouvidos vindos da escuridão.

— E eu que acreditava que esse dia não poderia me surpreender mais. — disse Zyndao no corpo de Nathan se avizinhando. Frank sentiu-se ligeiramente afetado ao vê-lo, como se Nathan estivesse ali fisicamente — Olá, Frank. Sou eu, o Zyndao. Saudades, velho amigo? — disse, piscando os olhos que tornaram-se negros — O que achou do meu novo visual? Tô pensando em aderir por definitivo. Bonito por fora, quentinho por dentro. Provei e aprovei. 

— Se depender de mim, será sua última fantasia. — disse Frank, sacando sua lâmina anti-demônio. 

— Temos umas continhas a acertar. Se puderem nos deixar a sós... — solicitou Zyndao aos cavaleiros. 

— À vontade. Ele não nos é util. — disse o líder. 

— Ah, você tá aí! Há quanto tempo, velho co-piloto. — disse Zyndao para Hoeckler que o fulminou com o olhar colérico — Sem ressentimentos, né? 

— Vai se arrepender das atrocidades que cometeu, não vou esquecer da matança que você provocou no meu prédio, as vidas de homens honrados que tirou.

— Aquela noite foi inesquecível, eu sabia que compartilhávamos desse sentimento. 

— Vai logo salvar a Agnes, cuido de passar o cerol nesse merda. — disse Frank — Anda, vai logo. 

Hoeckler tomou a corajosa atitude correndo para sair dali para os demais compartimentos do matadouro. Os cavaleiros não reagiram espantados ou furiosos. 

— Tem certeza de que devemos... — falou um dos cavaleiros.

— Deixem-no. Era um movimento esperado. — disse o líder, paciente — Hora de nos retirarmos. 

O quarteto saíra da mesma maneira que entraram, se utilizando das sombras, imergindo nelas como se afundassem em areia movediça até desaparecerem.

— O seu camarada agora é meu, Frank. Se conforma e supera, você acha outros amigos. — disse Zyndao.

— Ele era mais que um amigo. — disse Frank segurando firme a lâmina — Era minha família! — avançou contra Zyndao desferindo um golpe com o punhal que o demônio desviou. Zyndao defendeu-se habilmente dos ataques sucessivos de Frank que tentavam feri-lo, logo o chutando na canela para fazê-lo cair para frente, mas antes que o detetive tocasse o chão, o demônio o arremessou contra uma coluna. As costas de Frank bateram forte na estrutura. A lâmina escapou de sua mão. Quando fora reave-la, Zyndao a afastou com telecinesia e se teleportou para perto de Frank e o levantou para lhe esmurrar no peito e na barriga contínuas vezes. 

— Esse corpo tem um vigor sem igual! 

Frank revidou o derrubando ao joga-lo para trás e rapidamente pegar de volta a lâmina rolando. Porém, Zyndao, já reerguido, tentou um novo golpe, mas Frank agiu rápido e desferiu um corte no rosto que lhe foi doloroso. Zyndao recuou queixando-se de dor.

— Muita ousadia ferir o corpo de alguém que considera família. — disse o demônio, o corte na lateral do rosto fumaçando.

— Não me preocupo com isso. Ele é especial. — rebateu Frank que tornou a avançar, desta vez para fincar a lâmina no peito, mas Zyndao barrou a mão do detetive, em seguida lhe dando uma forte cabeçada e logo o arremessando telecineticamente contra uma vidraça quadriculada. 

Enquanto isso, Hoeckler corria à procura de Agnes, desesperadamente buscando um sinal de vida. Ao dobrar para um corredor, a viu em prantos sentada encostando na parede. Correu ávido para revê-la.

— Agnes! Amor, olha pra mim. — disse ele, agachando-se — Não tem nada que temer, eu cheguei, finalmente vim salva-la. Mas não sozinho. 

— Como assim... não há o que temer? — perguntou ela ainda chorando.

— Porque logicamente estou aqui pra sairmos desse açougue de quinta categoria. Vamos, quero te apresentar um amigo meu em breve.

— Eu receio que não. 

— Como não? O que há com você? 

— Há muito a ser temido... por você. — disse Agnes... ou um ser que se disfarçava usando sua aparência. O rosto falso de Agnes teve os olhos enegrecidos até nas órbitas, assumindo um aspecto caveiroso, como se a pele fosse frágil para ocultar a real face macabra. 

Não tão longe dali, Frank se levantava da pilha de cacos de vidro, sangrando pela boca e por uns cortes no rosto. Correu para novamente tentar golpear Zyndao, mas foi pego pelo braço esquerdo pelo demônio e seu corpo deu um rápido giro vertical até cair. Mas Frank cravara a ponta da lâmina no pé esquerdo do algoz o fazendo gritar em dor. 

— Tira essa faca de mim e continuamos a nossa luta justa. 

— Quer justiça? Então toma! — disse Frank, o socando no rosto, depois mais cinco vezes e depois sacando sua arma para dar sete disparos com as balas embebidas de água santa. Zyndao tremeu com os tiros penetrando na carne que ocupava, recuando vacilante e cambaleando. Frank ainda dera uma joelhada no peito do demônio como prova de fúria. 

— Vai precisar mais do que isso... Você tá sozinho, seu amigo te largou aqui, sua chance é mínima! 

— Ele não tá sozinho. — disse uma voz idêntica atrás do demônio que olhou por cima do ombro. Frank sorriu fracamente para Nathan reaparecendo como fantasma — Pensou que eu fosse deixar barato você sair com meu corpo como se tivesse ganhado uma roupa nova? Pai, primeiro você. 

Frank aproveitou a vulnerabilidade provocada pela lamjma fechada no pé de Zyndao para recitar o exorcismo romeno tocando na cabeça dele. Os olhos do demônio brilharam em amarelo ao sentir-se sendo expulso daquele corpo. O demônio saiu parecendo ter sido empurrado. Sem perder tempo, Nathan usou sua telecinesia de fantasma para joga-lo contra a parede e o prendê-lo. 

— Aprendeu rápido hein. — disse Frank ao filho. 

— O privilégio de ser autodidata. — respondeu Nathan

O detetive andou direto a Zyndao que tentava se desvencilhar para fugir covardemente. 

— Fim da linha. Teus dias de sangue, suor e covardia acabaram. — disse Frank segurando firmemente a lâmina ao encarar o demônio ferozmente. Cravou profundamente o punhal no peito do monstro que soltou um urro gutural com sua boca de dentes salientes e pontudos até se esvair explodindo em fumaça negra no ar. 

Noutro canto, a autêntica Agnes seguia procurando por seu amado, acabando por se deparar com um flagrante. Viu Hoeckler ser arrastado por dois indivíduos que a escuridão parcial não permitiu identificar. 

— Theozinho... Larguem ele, já!

A aparição súbita do líder dos cavaleiros sombrios conteve o avanço da bruxa se fazendo barreira intransponível. O devoto de Zaratro a repeliu com telecinesia contra a parede. 

— O que foi? Perdi a utilidade? 

— Se obtermos a tumba, podemos dispor de um outro meio para encontrarmos o espírito do mestre. 

— Que outro meio além da única bruxa sobrevivente da convenção de Zaratro? 

— Sua relação com o senhor Hoeckler nos traria sérios problemas, tramariam para escapar. — disse o líder, virando as costas. 

— Pra onde estão o levando? Me deixem ir junto!

O cavaleiro materializou uma espada negra na sua mão direita a partir das sombras que manifestou. Agnes deu um recuo de intimidação. 

— O preço da sua insolência será a morte imediata. Esse foi meu aviso. Se insistir, não direi uma palavra. 

— Espere... — disse Agnes, desolada, vendo o cavaleiro desaparecer em nanosegundos. 

No espaço de abate, Frank e Nathan olhavam desalentados para o corpo que retornou ao estado putrefato. O jovem caçador parecia conformado.

— Olha só, que estrago. Então foi por isso que me mataram. Eu violei uma regra fundamental do universo. Agora... sinto que posso ter merecido. 

— Discordo plenamente. — disse Frank ficando ao lado do filho — O seu lugar é aqui, vivo e comigo. 

— Está sendo egoísta, pai. — retrucou Nathan — E questionando leis que foram escritas desde o início dos tempos, não tem como enfrentar isso, era meu destino inevitável desde que invoquei o Expresso Temporal pela primeira vez. 

— Mas você não viajou no tempo pra causar uma bagunça de ferrar com toda a história, embarcou naquele trem consciente de realizar um bem maior, no caso impedir o governo tirânico e global do Nero. E nós derrotamos ele, deveríamos ser reconhecidos. 

— Essas leis são absolutas, não há nada que se possa fazer pra evitar que sejam executasas. 

— Leis que anulam o livre-arbítrio e nos tratam como insetos. Nathan, egoísta sim, eu sei, eu sou, mas você também foi ao viajar no tempo pra me conhecer e alterar o curso da história que levaria a minha morte. Eu não aceito o extremismo dessas tais leis. Somos livres tanto pra realizar atos egoístas como pra arcar com as consequências deles. E eu tô disposto a desafiar esses mandamentos supremos pra ter você de volta, não é justo punir com tanto rigor coisas que talvez não prejudiquem o universo. 

Nathan suspirou com a boca, virando-se para Frank a fim de explicar o que justificaria as punições. 

— É a ordem natural das coisas, pai. Sei o que tem em mente pra mim. A minha resposta é não. 

— Como é? Queria o seu corpo de volta, não queria? 

— Mas disse que reviver os mortos é uma das violações. Você morre e eu fico aqui sozinho, dando continuidade ao legado. Que lindo final feliz. Quer fazer uma troca, é isso? Não, pai. 

— Um membro da linhagem Montgrow não deve ser derrotista desse jeito...

— Não é derrotismo, pai! — disse Nathan, sua paciência exaurindo — É a aceitação de uma verdade absoluta. Tudo que vive deve morrer. Desculpa te desapontar, mas não aceito ser revivido, ainda mais com bruxaria. Você não tem que pagar o preço pra que eu possa seguir com minha vida. E seguir em frente numa vida em que aprendi, mesmo que tarde, a estar com você não vale a pena se você não participar dela. Não há como resolver esse impasse.

— Eu seria mais flexível com ele. — disse Agnes vindo até eles. 

— Você... Deve ser... — disse Frank, um pouco surpreso com a aparição repentina de Agnes. 

— Agnes Leinbow, prazer. 

— Sou Frank Montgrow, agente especial do DPDC, funcionário favorito do superintendente Hoeckler. 

— Sim, sim, o Theozinho já mencionou você em alguns de nossos encontros íntimos.

— Theozinho? — indagou Frank, levantando uma sobrancelha. 

— Ele não lhe contou da relação afetuosa que temos?

— Claro, só que... Deixa pra lá. Por falar no dito cujo, cadê ele? 

Agnes baixou um pouco a cabeça, entristecida. 

— Os cavaleiros o capturaram. Me dispensaram por considerarem que juntos causaríamos problemas ao grande plano deles. Nessa altura, já podem ter abandonado este lugar. 

— Então não tem nada que possa nos atrapalhar. — disse Frank, insistente na sua ideia — Preciso que você me faça um feitiço necromântico pra fixar a alma de volta no corpo. 

— Pai, não, para de ser teimoso. — repreendeu Nathan — Espera como você pode me ver? — perguntou ele para Agnes — Fantasmas podem escolher para quais pessoas ficar visível. 

— Bruxas como eu são capazes de ver além das superfícies. — disse Agnes que voltou seus olhos para o cadáver de Nathan — Sinto algo místico provindo do corpo. — ela agachou-se, levantando a camisa preta, constatando um detalhe arrebatador.

— O que foi? — indagou Frank. 

Agnes apontou para uma marca feita a sangue no peito do cadáver, indicando ser um símbolo mágico. 

— Um bloqueador místico. Feito com sangue demoníaco. 

— É, ele foi possuído por um demônio. Mas... o que é exatamente esse tal bloqueador? — perguntou Frank.

A bruxa levantou-se para revelar a impactante verdade que faria ruir as expectativas do detetive. 

— O nome já sugere a impossibilidade de fazer qualquer mágica de necromancia que unifique o espírito ao corpo. Eu lamento, este demônio foi bastante esperto. 

Frank voltara a ser atormentado pelo aperto no coração que lhe forçava a sufocar o sentimento do luto insuperado e inaceitável. Olhou para Nathan com melancolia estampada, denotando rendição a inexorável lei universal impossível de sobrepujar. 

— Mesmo que desse certo, ainda assim me recusaria. — disse Nathan — Não posso deixar você jogar sua vida fora pra que eu prossiga com a minha. 

— Ele está sendo sensato. — endossou Agnes — Os cavaleiros sombrios são os guardiões das leis universais respondendo a uma força superior à Zaratro. Sem o bloqueio, eu precisaria do seu sangue pra realizar o feitiço, mas isso colocaria a nós dois na mira deles — disse ela para Frank. 

O detetive não sabia como se pronunciar tamanho seu abalo. 

— Pai, tá tudo bem. — disse Nathan, tocando-o no ombro — Vou seguindo em frente, apesar de fugir sempre da maldita luz que me persegue. É dessa forma que escolho passar minha eternidade: fugindo do meu destino cruel. 

— Luz perseguidora, é? — indagou Agnes.

— O que sabe a respeito? — perguntou Frank. 

— Mais do que eu gostaria de conhecer, acima da minha tolerância. — respondeu ela em tom de tensão.

Uma porta de ferro começara a fazer ruídos, como se algo do outro lado intecionasse arromba-la. Pelas brechas na parte de cima, nas laterais e embaixo, contornou-se uma luz escarlate e forte. O trio encarava a porta com ansiedade apreensiva. O balançar da porta se intensificou, até que foi completamente aberta, deixando a luz rubra atravessar ao interior do vasto espaço se abate. Uma força de atração parecia querer sugar Nathan e ele a sentia querendo arranca-lo do chão. Uivos e gritos podiam ser ouvidos no outro lado que piscava relâmpagos vermelhos em meio a uma fumaça. 

— Tá na minha hora, pai. Tem que me deixar ir. — disse Nathan, tristemente olhando-o — Essa coisa não ia desistir, de qualquer modo. Querer fugir não era o mesmo que poder. 

— Isso é o Limbo? Nathan... Não tem que ceder a essa pressão, alguém como você não merece dividir um inferno pior do que o submundo que eu conheço com trocentos tipos de monstros! 

— Não, pai, dessa vez não. Ele cansou de brincar de brincar de pega-pega... e acho que eu tô cansado de fugir. Ficar me acorvadando só iria piorar meu sofrimento. 

— Daí vai escolher um sofrimento maior! 

— Não tenho escolha, parece que deixei ele bem bravo. — disse Nathan, andando em direção ao portal ameaçador que o encaminharia para o terrível pós-morte — Adeus, pai. Vê se não tenta virar um vampiro ou lobisomem pra vir me encontrar quando morrer. 

— Essa é a pior despedida que já vivi desde que vi seu tio caindo num buraco direto pro submundo. 

— Ao menos, ele se juntará a mim algum dia, então... vou ver o senhor espelhado nele. 

Frank rendeu-se a incontinência emocional derramando uma lágrima. De repente, tentáculos saíram do portal, cinco ao todo, e agarraram Nathan pelos braços, pernas e pescoço chegando a tapar sua boca. O jovem dava grunhidos de desespero ao cair no chão e ser arrastado portal adentro. 

— Nathan! — gritou Frank, aturdido, dando um passo adiante, mas fora impedido por Agnes que o segurou pelo braço direito. A porta fechou-se num baque seco. O detetive tentava assimilar o que havia presenciado. Seu filho foi tragado por um portal criado pelo Limbo, um desfecho inesperado para uma missão na qual se apostava todas as fichas. O sonho de sacrificar-se em prol do legado foi esmagado a partir da revelação no cadáver e aquilo fora a última pá de cal para o inevitável destino. 

— Você está bem? — perguntou Agnes. 

— Já perdi mais gente do que posso contar... O Nathan é mais uma soma pra lista dos que morrem porque se envolvem comigo. Mas no caso dele não tinha pra onde correr. Meu único filho. 

— Sinto muito. — lamentou a bruxa — Não posso deixar de falar algo pertinente em relação ao Limbo.

— O que é? — perguntou Frank, virando-se para ela. 

— Nathan se referiu ao Limbo achando que a própria dimensão fosse um organismo vivo, quando na verdade possui seu rei, como o submundo. 

— E quem é? 

— Khaleido. O governante absoluto que escraviza todos que são enviados pra lá. Zaratro tentava contatar astralmente essa entidade, mas nem exercendo o máximo de sua magia a alcançava. 

— Aqueles tentáculos que pegaram o Nathan são dessa entidade? 

— Certamente não. Subalternos, provavelmente. 

Frank passou as mãos no rosto em cansaço físico e mental. 

— Chega por hoje, foi muita dor, tristeza e fracasso pra um dia só. 

— Fracasso nada, estou livre. 

— Por permissão dos cavaleiros. Eu e o Hoeckler talvez nem devêssemos ter vindo, ele caiu numa tremenda armadilha. Mas pelo menos acabei a raça do demônio que possui o corpo do Nathan. 

— O que pretende fazer com ele?

Frank olhou em claro desalento para o cadáver. 

— Dar um enterro digno de um caçador. 

Distante dali, Hoeckler despertava da inconsciência num local que não tardou a lhe passar familiaridade. Quatro pessoas conhecidas de seu convívio o rodeavam. O superintendente estava amarrado numa cadeira sem braços pelos pulsos em cordas firmes. Reconheceu serem aquelas pessoas os membros do Conselho de Segurança de Danverous City. 

— Vocês... O que significa isso? A última coisa de que me lembro... Agnes. Onde ela está? Não são os reais membros do CDS. O respeito e consideração deles por mim não os faria me prenderem numa cadeira se quisessem me interrogar. A Agnes que vi não passava de uma ilusão... ou um disfarce. 

— Ela foi poupada. Por enquanto. — disse um membro do CDS, um homem na casa dos 40, de terno preto-azulado e gravata vermelha. Ele se aproximou de Hoeckler e se inclinou a ele para olha-lo no fundo dos olhos — Você, por outro lado, não teve a mesma sorte. Mas se quiser liberdade, terá de atender as nossas exigências. 

— O que vocês são? 

— Mais do que os olhos podem ver. — disse ele, o rosto ganhando o mesmo aspecto caveiroso que Hoeckler vira na falsa Agnes — Somos os daevas. E nossos senhores não gostam de esperar. Portanto, convém a ambas as partes esclarecer a localização da tumba do lendário Zaratro. 

Hoeckler estreitou os olhos numa expressão rebelde.

— Só por cima do meu cadáver. 

— Vejam isso, amigos. Eles quer mesmo nos divertir. 

O daeva arregaçou a manga direita do terno. 

— São alguma espécie de demônio ou o quê? — questionou Hoeckler. 

— Não nos compare àquela escória de baixa patente. Pelo visto, não tivemos um início promissor. Mas farei com que pense melhor — disse ele, logo atravessando a mão no peito de Hoeckler que sentiu um ardor queimar seu corpo como se o transformasse numa fornalha humana. O rosto dele emitiu um brilho vermelho e laranja com os olhos brilhando enquanto gritava para o alto devido a pujança com a qual sentia a mão incendiar sua alma.

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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagem retirada de: [1]


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