Frank - O Caçador #90: "Não Durma Como um Cadáver"


Na zona oeste, residia um casal que estava para comemorar as tão aguardadas bodas de prata e dividiam a ansiedade a cada dia de proximidade. Na véspera da data, Bonnie, usando um roupão de seda rosa e seus cabelos loiros presos sob uma toalha branca, estava no banheiro se aprontando para dormir, passando um creme antirrugas no rosto cuidadosamente enquanto seu marido, Norman, ocupava sua mente lendo um livro já deitado na cama a esperando. Ele desviava constantemente o foco da leitura para a porta entreaberta do banheiro com olhadelas desconfiadas. 


— Está hidratando seu rosto pra dormir ou já se arrumando pra nossa festa? — perguntou ele, ajeitando os óculos de armação quadrada. 

— Calma aí, só mais um segundinho. — respondeu Bonnie. 

— Ah, já sei: Máscara facial. — implicou Norman, mais impaciente — Se for, não exagera muito OK? Não quero acordar tomando um baita susto. 

— Ha-ha, morri de rir. — disse Bonnie, saindo do banheiro com as madeixas loiras que lhe caiam aos ombros — E você, já terminou sua leitura que se arrasta por... Quanto mesmo? Uns dois meses? 

— Meu ritmo não é mais o mesmo de quando eu era jovem. — disse Norman, fechando o livro — Além do mais, o livro também não é excepcional. Já você, sim. 

Bonnie sorrira ao deitar ao lado dele, enrolando-se com o cobertor. 

— Tá preparado para refazer os votos? — indagou ela, de barriga para cima. 

— Eu nem sei se vou conseguir pregar o olho tamanha minha ansiedade. Acho que só existe um modo de conter essa espera tão longa. — disse Norman, aproximando o rosto sedutoramente ao dela — Uma noite selvagem é a melhor preparação que devemos ter pela marca que atingimos. 

— Norman, sei que está empolgado, mas... Hoje não. — disse ela, logo pondo o dedo indicador na boca dele — Se vamos reviver a grande noite do sim amanhã... Não tem graça reviver a lua de mel antes. 

— É, tem razão. Durma bem. — disse Norman, acomodando-se e virando-se para o outro lado. 

— Sem beijo de boa noite? 

Norman fizera uma expressão séria como se descontentasse. Virou para presentea-la com um rápido beijo na boca. Apagaram os abajures ao mesmo tempo e então fecharam seus olhos. Bonnie dormia numa posição que era sempre repreendida pelo marido, mas naquela noite, em especial, ele não se manifestou a respeito. Pelo contrário, sorriu ao virar para ela, observando-a dormir de barriga para cima com as mãos juntas, a clássica posição do morto. Norman se ergueu, ficando de joelhos na cama e colocando-se sobre a esposa após um tempo esperado para que ela adormecesse. 

— Pois é, querida, sei o quanto se sente confortável dormindo assim. E sabe o que é melhor? Este conforto vai acompanha-la... direto pro caixão. — disse Norman, agarrando o pescoço de Bonnie com as duas mãos exercendo uma pressão que a acordava aos poucos — Mas antes vai sentir um aperto desconfortável. Depois... descanso eterno. Uma coisa que eu jamais tive. — seu rosto modificava-se, acinzentando e ganhando feições inumanas, as maçãs mais pontudas — Meus queridos tios privilegiados. Como eu os amo. — a voz também sofreu uma drástica alteração, mais grave e soturna, num tom monstruoso. 

Bonnie abrira seus olhos, sentindo a pressão extrema dos joelhos da coisa que usurpou Norman sobre seu peito e das mãos magerrimas e cinzentas lhe estrangulando. Ela entrara em desespero ao sentir-se imobilizada, asfixiada e fraca a medida que as mãos da criatura insistiam em apertar seu pescoço com os quisesse esmaga-lo. Abriu a boca não emitindo mais que sons entrecortados, balbucios de sofrimento. Em sua função neurológica ainda operante, não sabia dimensionar qual a pior: a pressão esmagadora sobre o corpo que a sufocava ou encarar o rosto e a forma da criatura. A face do monstro ocultava-se pela semi-escuridão, mas dava para se notar a cabeça sem pelos num formato meio achatado e com orelhas pontudas tais quais as de um duende. 

Os braços finos possuíam uma força descomunal, mas nada comparado a força de sucção como se naquelas mãos tivesse orifícios que absorviam cada partícula de vitalidade da mulher. Bonnie derramou lágrimas, uma em cada olho, seu corpo em deterioração rápida. Sentiu o hálito pútrido e gelado da criatura que soltou bafo pela narinas. O último odor que sentiu até falecer. 

Enquanto a criatura faminta por vigor como seu elixir e néctar terminava sua refeição, o corpo de Norman jazia decrépito debaixo da cama, posto lá após adormecer pela longa espera de ver Bonnie sair do banheiro e receber a visita do intruso. 

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CAPITULO 90: NÃO DURMA COMO UM CADÁVER 

Na sua ida para o trabalho, dirigindo seu sedã prata numa rua de tráfego meio lotado, Frank tivera a ideia de telefonar para Agnes para sanar uma dúvida que também a afetava, embora numa distinta intensidade. Aguardou a bruxa atender. 

— Alô? — disse Agnes em seu local de consulta para as adivinhações.

— Aqui é o Frank, desculpa não ter fornecido meu número ontem. 

— Sem problema, sei que estava perturbado com tudo que houve, não estava com cabeça para uma interação mais longa. Diria que eu também estava vibrando na mesma aura de desesperança e impotência. A culpa me devasta. Eu devia tê-lo salvo.

— Olha, eu não tenho noção do quão poderosa você é como bruxa, tendo sido aprendiz de um cara que mexia com magia negra da pesada que é idolatrado por seres das trevas que meteram um pouquinho de medo em mim, um caçador inveterado, mas... se sentir culpada por uma coisa fora do seu controle, tipo esses cavaleiros, só te faz sofrer mais pela ausência dele. Já tentou encontra-lo? 

— Eu esqueci de pôr um localizador mágico no bolso da camisa dele... como sempre faço, mas acho que nossa noite pra tirar o atraso acabou me desleixando. — respondeu Agnes, apoiada com o cotovelo na mesa expressando tristeza — Sem o item enfeitiçado é impossível rastrea-lo. Pra onde acredita que o levaram? 

— Não temos pista, nem nada que faça suspeitar se ele tá vivo ou morto. Teremos de esperar. Ou ele aparece depois de escapar ou se o tempo de sumiço se prolongar, aí já seria quase certeza que os demônios ou os próprios cavaleiros deram cabo dele se tiver dado a localização da tumba do tal Zaratro. Então, melhor torcer pra ele dar as caras dentro das próximas 72 horas, no máximo. 

— Na hipótese dele estar vivo... — disse Agnes, sentindo retomar a confiança em si mesma — ... eu imagino que ele, na posição de prisioneiro, esteja enrolando os cavaleiros na recusa de falar, assim nos dando tempo para agirmos. Eu não duvido da perspicácia dele, é uma estratégia bem plausível o conhecendo bem... e posso afirmar seguramente. 

— Com agirmos você tá insinuando... que sejamos parceiros nessa? — questionou Frank, estreitando os olhos, não muito receptivo com a proposta. 

— Naturalmente. — respondeu Agnes — Admita, sua aversão a praticantes de feitiçaria não sobrepõe a necessidade de contar com recursos que só alguém como eu é capaz de oferecer. Engula seu orgulho de caçador e aceite minha oferta. Theodor pode estar contando com isso. 

— Por que ele pensaria que nós dois trabalharíamos juntos enquanto é pressionado a abrir o bico pros cavaleiros por tempo o bastante pra ele pensar numa fuga? 

— É uma boa pergunta. Mas estou otimista, apesar de culpada e de lidar com a falta de evidências do paradeiro dele. A resposta é que deixei escapulir uma informação a respeito da única maneira de derrotar os cavaleiros sem arriscar a vida. Theodor ficou sabendo durante nossa última noite de prazer. 

— E que maneira seria essa? Você foi discípula de um bruxo poderoso que mandava e desmandava nos miseráveis, então... você poderia ter se fortalecido pra ficar páreo pra ele ou até supera-lo nesse longo tempo em que ele ficou mofando num sarcófago. 

— Zaratro tinha um código rigido de ensinamento que limitava nossa evolução temendo ser sobrepujado por um bando de bruxas presunçosas. Mas não é necessariamente da minha magia que precisamos. Antes de Zaratro descartar suas pupilas como lixo, isso incluindo a mim, claro, para priorizar aquelas quatro abominações, eu tive a ideia de forjar minha vingança movida a puro ciúme. Juntamente com minhas colegas, criei quatro cartas vinculadas a um feitiço de selamento inquebrável. 

Frank se ouriçou, vendo algo de promissor naquilo. 

— Peraí, tá querendo dizer... prender os desgraçados nas cartas? Pra toda a eternidade? Se esse é o plano, tá pra mim. Você pega as cartas pra selar os patifes e eu dízimo os demônios. 

— Ahn... Só tem um pequeno detalhe que não mencionei ao Theodor. — falou Agnes com uma expressão que denotava desânimo e preocupação — Zaratro havia descoberto nosso plano e causou uma matança, perdi muitas das minhas companheiras. Algims fugiram, mas provavelmente foram pegas mais tarde. Fui e sou a única remanescente viva a a guardar as cartas e a tabuleta pra encaixa-las. As escondi num antigo mausoléu de bruxos no subsolo em território americano. 

— Mais precisamente onde? 

— Califórnia... Aqui em Danverous City. 

— Então se os malditos quebrarem o sigilo do Hoeckler na marra, ficam sabendo das cartas e dessa tabuleta, mas pelo menos não sabem onde pegar. O problema mesmo é ele desembuchar sobre a tumba. Vamos ter que pensar muito positivo. 

— Temos uma aliança? Eu te digo onde conseguir as cartas e a tabuleta, afinal um mero caçador não representaria ameaça comparado a uma aluna de Zaratro correndo perigo de vigilância. 

— Mero caçador?! Essa é a consideração de parceria que eu mereço, muito obrigado, elevou a autoestima.

— Oh, não falei num tom depreciativo, relaxe. Espero que possamos nos reencontrar em breve. 

— Tá sem pressa pra me dizer onde fica o tal mausoléu? 

— Melhor esperarmos Theodor dar um sinal de vida. 

— Ou de morte... no caso dele não reaparecer. É torcer pelo melhor, mas esperarmos pelo pior também. — afirmou Frank de modo realista. Agnes fechou os olhos por uns segundos, não suportando pensar na grande possibilidade de Hoeckler ser morto independente do que faça. 

— Vou salvar seu número. Até mais. 

A bruxa desligara. Frank ficou a pensar ao longo de todo o trajeto nos improváveis rendimentos dessa aliança. Uma conversa profunda com Carrie talvez aliviasse a sensação incômoda de dúvida. Já dentro do prédio, o detetive caminhava ao lado da assistente em direção à sua sala para confabularem sobre o novo caso a ser investigado naquele dia. 

— Firmou parceria com a bruxa que foi seguidora do cara, o bruxo mandachuva, que está associado aos novos vilões do pedaço. Frank, olha o golpe bem na sua frente. Cai se você quiser. — disse Carrie, externando sua desconfiança com as intenções de Agnes — Tudo bem, não é a primeira bruxa com quem investe numa cooperação, mas olha o pano de fundo por trás disso. 

— Por mais que ela pareça estar preocupada com a própria segurança, a relação dela com o Hoeckler me parece séria o bastante pra acreditar na versão dela sobre se desligar do Zaratro e proteger as coisas que ela criou pra mandar os cavaleiros direto pro beleléu. — disse Frank, mostrando convencimento — Vai por mim, ela não tem mais qualquer conexão com esse bruxo da pesada, a não ser a magia que ele a instruiu a usar. Não é papinho furado pra conseguir minha confiança e depois me passar a perna. Do contrário não faria sentido ela ser chutada pelos cavaleiros que preferiram o auxílio do Hoeckler. 

— Por falar nele, está o maior ti-ti-ti no prédio inteiro sobre ele ter faltado. Todos conhecem o histórico de frequência, ele sempre fez jus ao topo da hierarquia. Além disso, os membros do CDS deram o maior bolo nos militares numa videoconferência marcada pra hoje de manhã. Já pensou que doideira? Os semideuses, os bastiões idôneos da segurança pública, simplesmente resolvem tirar férias. 

— O pessoal do CDS... deixou os boinas verdes no vácuo? Agora sim, algo inédito na história desse departamento. E pra lá de esquisito também. 

A dupla enfim chegava a sala, Frank pegando sua chave para abrir a porta. O detetive entrara primeiro. 

— Anjos, jovens com superpoderes, alienígena de outra dimensão, gárgulas do subterrâneo e agora... cavaleiros das trevas. — disse Carrie adentrando na sala com a pasta contendo os detalhes apurados do caso do dia — O que mais falta aparecer nessa cidade pra me surpreender? — questionou, fechando a porta — Tá tudo uma loucura. De todos os problemas grandiosos que enfrentamos nos últimos anos, esse é o que me deixa mais temerosa de como vai acabar. Frank, olha no fundo nos meus olhos. 

— O quê? — indagou Frank, virando-se para ela. 

— Confia verdadeiramente na postura de boa moça dessa tal Agnes? Você a conheceu ontem e pra mim tem motivos de sobra pra não embarcar de primeira no convite que ela te fez.

— Sabe que eu não subestimo sua intuição, né? 

— Aham. Mas não é minha intuição que precisa considerar e sim os aspectos que rodeiam ela. Eu odeio me sentir paranoica, tudo bem você achar que posso estar errada, a decisão é sua mesmo. Mas reflete um pouco, não diz sim pra tudo de imediato. 

O detetive ficou a pensar comigo mesmo sobre a questão de depositar confiança irrestrita em Agnes levando em conta o estado de vítima do qual ela poderia se beneficiar mascarando um apoio a Zaratro. A desconfiança da assistente semeou um dilema tortuoso em Frank que lhe trouxe cansaço.

— É, talvez ficar com um pé atrás me previna de cair numa furada aceitando os termos que ela me impõe. Ela propôs o negócio, aceitei porque me soou conveniente, diria que até fácil demais, isso sobre as tais cartas que ela falou. Mas ainda tem a preocupação pela vida do Hoeckler, eu percebi na fala dela um medo de perdê-lo. Enfim, aliada ou inimiga, o tempo dirá e espero que eu seja o primeiro a saber. Manda aí o caso de hoje que me entupi de cafeína só pra focar numa boa investigação e afastar essa confusão da minha cabeça. 

— Frank, antes eu gostaria de saber uma coisa... O que fez com o corpo do Nathan? 

Frank emudeceu por um instante, a face tomando uma seriedade melancólica. 

— Dei a ele um funeral de respeito que todo caçador merece. Primeiro se cobre o cadáver com um montão de panos, depois o põe sobre uma rocha envolto de palha e, por fim, ateia fogo. É um rito sagrado entre os caçadores de todo o país, meu pai já participou de vários quando perdia amigos. 

— Disse ter tido contato com o fantasma dele... Ele alcançou a paz eterna? 

O rosto do detetive se fechou completamente em desconsolo e desalento. 

— Não. — respondeu ele, baixando a cabeça e se encostando na sua mesa — Ele era metade monstro, e você sabe que monstros não tem lugar no céu ou no inferno. Acabou indo pra um pós-morte exclusivo. — o momento de quando Nathan foi arrancado pelos tentáculos que o agarravam para enfia-lo no portal retornavam na mente de Frank dolorosamente — O Limbo, esse é o mundo pra onde vão os monstros, um inferno aparentemente pior que o que conhecemos. Mas tá tudo bem... Eu tenho sido forte pra seguir lidando, superar duas perdas ao mesmo tempo não é tão difícil quando já se está acostumado com a morte encarando bem de perto. 

— Pra um caçador, talvez não. — disse Carrie — Mas será que isso vale pra todos? 

— Pra mim tem que valer, querendo ou não. — disse Frank dissipando qualquer traço de comoção na face — Será que dá pra gente mergulhar no caso agora?

— Toma aí. — disse Carrie entregando a pasta. Frank fez uma rápida leitura — Já ouviu falar em paralisia do sono? Eu tenho de tempos em tempos. 

— É, eu também as vezes, mas não como essas pessoas aqui. Elas morreram provalvemente enquanto dormiam. Mas qual o indício que sugere paralisia do sono? 

— Um sobrevivente. Olha mais um pouco. — disse Carrie apontando para mais páginas a frente — E sim, todas a vítimas estavam em profundo sono ao morrerem seja lá pelo que as deixou tão pálidas assim. Dá pra ver que a maioria está com os olhos fechados, todos encontrados em suas camas... 

— Essa palidez só significa uma causa: extração de força vital. Não como a que o Nathan sofreu com os cavaleiros, aquilo foi mais deterioração, isso aqui é parecido, mas num nível que não deixa o corpo tão feio. O nosso monstro pelo menos tem um poder de deixar a cara inteira pra não estragar o velório. 

— Achou sobre quem sobreviveu? 

— Tá aqui, Mallory Banks. Ela disse ter tido uma experiência de paralisia do sono, mas com o adicional de ver um vulto sombrio em cima dela sentindo agarrar fortemente seu pescoço com mãos geladas. É comum pessoas que sofrem desse distúrbio verem coisas a volta, ouvir vozes... 

— Quando eu tive da primeira vez escutei vozes de crianças rindo. Claro, isso não suavizava a situação. Mas OK, a Mallory escapou de ter sua vitalidade drenada por essa força paranormal desconhecida. O que é fora do padrão, eis a estranheza. 

— Pois é, as vítimas são todas da mesma família. Mallory é irmã mais nova de Bonnie Wilson, casada com Norman Wilson, também morto e tendo seu corpo descoberto embaixo da cama no mesmo estado que a esposa. A sobrevivência da Mallory é o ponto fora da curva que vou tratar de desvendar agorinha mesmo. Ela mora na zona sul. Ótimo, um caso de uma moça que vem perdendo entes queridos, que sugestivo pro meu dia. — disse Frank, logo largando a pasta sobre a mesa na página em que estava uma foto de Mallory com um rapaz sobre o qual Frank havia esquecido de perguntar. 

***

Parando o sedã prata à poucos metros da casa de Mallory, o detetive ficara curioso ao notar um caminhão com as portas da carroceria abertas em frente à residência. Se dirigiu até lá, esperando obter de Mallory qualquer elemento substancial. Parou na sacada, hesitando entrar sem solicitação, não vendo ninguém na sala de estar onde haviam caixas de papelão empilhadas no chão e no sofá. O detetive bateu palmas para chamar atenção. 

— Olá! Tem alguém em casa? 

Demorou alguns segundos para vir uma mulher caucasiana de cabelos negros que caiam aos ombros usando uma blusa roxo-azulada clara e calças jeans. Aquela era Mallory, parecendo estar bem atarefada com a organização que realizava.

— Oi, em que posso ajudar? 

— Você é Mallory Banks, certo? 

— A própria. Deseja... alguma coisa? É um detetive, claro... Olha, se for sobre as mortes dos meus parentes, já vou logo dizendo que... 

— Me escuta atentamente, por favor: Eu vim com a melhor das intenções de esclarecer o que pode realmente estar sendo causador de todo esse massacre. Se não for pedir demais me permitir entrar... Eu gostaria de ajuda-la já que foi a única sobrevivente até agora do ataque enquanto dormia.

Mallory deu uma olhadela para os homens do caminhão arrumando as coisas na carroceria e voltou-se ao detetive. 

— Tudo bem, fique à vontade. Essa casa já não será mais minha daqui há pouco. Vamos pro meu quarto. 

Ambos entraram no quarto já praticamente esvaziado, restando somente a cama, o criado-mudo e o guarda-roupa. 

— O que levou à decisão de se mudar daqui? — perguntou Frank. 

— Além da minha experiência de quase morte... As lembranças que tenho com minha família, especialmente meu irmão. Eu herdei essa casa dos meus avós paternos, praticamente nasci aqui. Depois que eles morreram, faz uma semana, eu passei a viver em crise emocional, me torturando... Ah, desculpa, eu não devia começar a falar de mim mesma, acho melhor contar do meu irmão, apesar de querer falar da minha irmã e do meu cunhado... — disse Mallory, a voz assumindo comoção e os olhos marejando. Ela deu um suspiro choroso com a boca e Frank aproximou-se dando um amistoso toque no ombro. 

— Eu sinto muito pelas suas perdas. Me fale desse seu irmão. Era muito apegada a ele? Foi morto também nas mesmas condições que os outros? 

— Não, ele era filho por parte da minha mãe, primeiro casamento dela, havia morrido de uma forma que até hoje é desconhecida pra mim. Nem meu avô sabe. Tudo que sei é do enterro péssimo que deram a ele. Sem um plano funerário em conta, tiveram de recorrer a um cemitério qualquer, o jogaram num buraco no meio de um terreno baldio onde cães enterram seus ossos. 

— Será mesmo que seu avô não tem uma mínima ideia do que possa ter matado seu irmão? — questionou Frank — Soa incoerente ele ser um patriarca e simplesmente não saber o que causou a morte do próprio neto. Ele alega isso toda vez? 

— Acredita em mim e nele, o Gunther morreu de uma doença desconhecida ou um infarto fulminante, um mal súbito, sei lá, foi tudo repentino demais. Nenhum médico determinou a causa precisa da morte. – disse Mallory passando as mãos no rosto em atordoamento — E quer saber no que acredito? Pode me chamar de alucinada, pensar que tô delirando, mas... acho que essa casa tá assombrada pelo espírito do Gunther, ele deve estar amargurado pelo funeral precário que teve e resolveu sair descontando esssa fúria em todos da família, inclusive eu, mas fui poupada, talvez ele ainda guarde alguma empatia por mim. Mesmo sendo bastardo, nos relacionávamos como se tivéssemos dividido o mesmo útero. 

— Espírito, é? — indagou Frank, suspeitoso. 

— Tá vendo? OK, manda ver, me chama de louca, pode até revirar meu guarda-roupa atrás de drogas, aproveita que tá quase desmontado. 

— Não, não, nada disso, eu levo sua especulação a sério. Vejo muita contundência nessa teoria. 

— Verdade? Nossa... Que espécie de investigador você é, afinal? Pra validar assim o que acabei de falar... 

— Mallory, a natureza estranha desse caso me leva a pensar que seja uma causa extraordinária. Familiares morrendo num efeito dominó em curtos espaços de tempo não é pra julgar como normal. Não mesmo.

Mallory fez que sim com a cabeça, sentindo-se acolhida pela compreensão de Frank. 

— Obrigada, desde já. 

— Onde posso encontrar seu avô? 

— A essa hora ele deve estar na academia. Aliás, tô me mudando pra perto da casa dele. É meu único refúgio como familiar pra lamentar todo esse pesadelo. Eu tenho medo dele ser o próximo tanto quanto ele teme sobre mim, mesmo sabendo que tive um livramento. 

— Ele faz academia?! Sério? Quantos anos ele tem? 

— Sessenta e nove. — disse Mallory, aparentando mais tranquilidade — O nome dele é Denzel, acho que ele vai gostar de você por se comprometer em me ajudar a enfrentar o Gunther e sua vingança doentia.  

— Pode deixar, só me dar o endereço que vou direto pra lá. 

***

Na sala de reuniões do Conselho de Segurança, Hoeckler permanecia sentado naquela desconfortável cadeira sem braços, as amarras firmes obstruindo suas veias dos pulsos. O superintendente estava inconsciente após a experiência terrificante ao sentir a mão de um ser submundano atravessar seu peito e lhe infligir uma tortura que não desejaria nem mesmo ao seu pior nêmese. Gotas de suor pingavam de sua testa vagarosamente. Um dos seres que assumia a forma de um conselheiro vinha ao seu encontro, o mesmo que havia lhe sujeitado a sensação agoniante de fornalha interna até o âmago de seu espírito. 

Hoeckler levara uma bofetada forte dele que o despertou no mesmo instante. 

— O que... O que ainda faço aqui refém? — perguntou ele piscando os olhos semicerrados para o ambiente — Por que insistem em me manter vivo? Já não deixei clara... a minha posição? Eu não direi nem um "a" sobre qualquer coisa relacionada a essa tumba. Disse que seus superiores não gostam de esperar... Pois bem, os avise... de que a paciência deles será testada ao extremo se continuarem tentando arrancar de mim as palavras que tanto desejam ouvir.

— Ao que parece, apreciou a experiência ardente que lhe submeti. — disse o falso conselheiro — Uma vez só e tirou umas horinhas pra dormir, justo quando queríamos aproveitar mais dessa sua rebeldia. Uma pena não termos que ultrapassar o limite de tolerância sem queimar sua alma até o último grão. 

— Como se infiltraram na fundação? 

— Nós, daevas, estivemos aqui desde a alvorada do tempos, somos criações sublimes do nosso supremo mestre, o mais elevado da hierarquia, aquele que esta abaixo... e que vai emergir das profundezas de onde foi deixado para levar este mundo ao expurgo. Apenas ficamos quietos esperando, nada demais. Mas todas as criaturas do submundo nos respeitam... temerosamente. — disse o daeva, rondando Hoeckler — Chegou a vez de vocês. — falou ao pé do ouvido direito do seu cativo. 

— Então... mataram mesmo os integrantes do conselho... pra depois vestirem essas peles falsas? 

— Ainda duvida? Por qual razão lógica deixaríamos quatro humanos insignificantes vivos quando estamos aqui para usurpa-los desempenhando o mesmo papel com mais afinco e rigor. 

— Pretendem assumir a alcunha... Seus miseráveis, vão destruir esta cidade. Farão um excelente trabalho de omissão e descaso pela vida, a menos que queiram manter as aparências. Será que são convincentes nisso? Eu não dou uma semana. Havia uma videoconferência com o exército ontem de manhã e vocês não compareceram. Que pretexto vocês inventarão pra justificar tamanha desonra? 

— Disso cuidamos em segundo plano, afinal não há absolutamente nada a temermos. Por outro lado, vocês humanos estão enquadrados nas regras de nosso jogo. E não terminaremos até vencermos. — disse o daeva, aproximando o rosto ao lado de Hoeckler, seu rosto mostrando rapidamente os traços macabros de sua forma real e sombria como os olhos e dentes caveirosos, a pele humana falsa revestindo-os. 

— Me matem logo de uma vez. Garanto que perderão mais tempo me pressionando a falar. Não vou mentir e muito menos ser honesto, nem sob tortura. 

— Tem plena certeza disso? — indagou o daeva, arregaçando a manga direita do paletó. Hoeclkler olhava tensamente para a mão levada ao seu peito — A sua expressão não deixa mentir. Aquela foi apenas a primeira vez. Sua alma pode resistir algumas mais.

O daeva enfiara a mão, transpassando o peito de Hoeckler que novamente sentia aquele ardor consumi-lo ao fundo da alma. Por fora, gritava em dor, seu rosto esquentando e avermelhando de tanto calor, além dos olhos fumegantes de brilho laranja. 

***

Frank se direcionou até a academia na qual o avô de Mallory realizava exercícios para manter a saúde física em plena estabilidade, dentro dos limites de sua faixa etária, entrando pela porta dos fundos, a partir dali seguindo por um corredor de paredes metade concreto e metade azulejos brancos. Parou próximo a uma janela retangular grande a sua esquerda, virando o rosto para conferir. Dentre os vários frequentadores, notou um senhor de corpo bem atlético, cabelos grisalhos, usando camisa regata azul, bermuda verde e tênis de marca, deitado numa mala de supino levantando uma barra com vários pesos juntos de ambos os lados. O detetive observou o número de vezes que ele erguia ao longo da série. 

— Caramba, com esse tanto de peso... Deve ter ali uns trinta quilos em cada lado... Sessenta no total, loucura pra um idoso já as portas dos setenta. 

Esperou que ele terminasse toda a grade de exercícios para iniciar a conversa acerca do perigo iminente que sua neta corria. Denzel saiu por uma porta direto ao corredor, limpando o suor do rosto com numa toalhinha branca, mas parou ao ver Frank encostado na parede o aguardando pacientemente. O detetive acenou com a cabeça, aproximando-se. 

— Bom dia, eu me chamo Frank Montgrow, detetive especial do DPDC. Denzel Banks, certo? 

— Eu mesmo, mas... No que posso ajuda-lo? Aliás, como sabe meu nome e ainda sabendo onde vir me procurar? 

— Cortesia da sua neta, Mallory. Falei com ela a respeito do ataque que ela sofreu ontem a noite, um dia depois da sua filha mais velha e do marido dela terem morrido. Ela quase somou a lista. 

— Crê não ter sido um pesadelo ou uma paralisia do sono? — indagou Denzel olhando-o meio desconfiado. 

— Não foi nem um e nem outro. Olha, preciso que me entenda, a sua neta corre sério perigo hoje a noite. Já orientei pra ela se manter acordada, não fechar os olhos nem pra meditar. Tome cuidado o senhor também. Pra mortes consecutivas assim só existe uma única explicação e não é baseado em nada que seja considerado normal. 

— Que tipo de detetive é você? 

— A sua neta me fez a mesma pergunta. Bem, eu lido com situações que fogem a compreensão comum, exatamente como esse caso que sem dúvidas é da minha total especialidade. Há algo de monstruoso matando parentes seus. E não vai parar até se fartar de toda a força vital que puder sugar. O que tem a dizer sobre o seu neto, o Gunther? De que ele morreu?

Denzel parecia apreensivo ao lembrar do neto perdido precocemente, olhando para o nada como se um filme corresse em sua mente. Tornou a visualizar Frank para lhe dar um aviso a ser seguido a risca. 

— A morte de Gunther nunca foi devidamente esclarecida pelos médicos. Colocar morte súbita na certidão de óbito não fez ninguém se convencer de que foi tão brusco pra ser justificado tão simplesmente. Era um rapaz saudável, exames em dia, rotina regular de treinos como eu faço... Escute, quero que seja o guarda-costas da Mallory, ela é de sua inteira responsabilidade agora. Por favor. 

— Não precisa pedir, eu já pretendia mesmo protegê-la do que viesse atentar conta a vida dela durante essa noite e eu te asseguro que dessa noite esse bicho sugador não passa ileso. Obrigado pela atenção, Sr. Banks. 

— Pode me chamar Denzel, sem problema. — disse o avô de Mallory apertando a mão direita de Frank.

— Ah, bom, OK... Se cuida, Denzel. — disse Frank, logo virando-se para sair. Denzel ficou a ver o detetive caminhar em direção a porta numa observância estudiosa. O detetive saiu do local, sacando o celular do bolso interno do sobretudo, telefonando para Carrie na intenção de informar uma forte suspeita que batia com todos os traços da natureza do caso.

— Carrie, não tá ocupada demais, né? — indagou ele, descendo a escada de poucos degraus com corrimãos de aço para ir até seu carro. 

— Tô fazendo uma checagem de relatório, nada que não possa ser postergado, ainda que possa me custar uns centavos do salário. E então, como vai indo? Algum indício significativo vindo da Mallory?

— A menção a um meio-irmão da parte da mãe dela. Mallory tava se mudando quando cheguei lá, ela acredita que o fantasma do irmão seja o assassino e tá assombrando a casa que foi herança dos avós paternos. Mas todos os elementos apontam pra uma coisa bem física e viva... ou morta-viva, pra ser exato.

— Um zumbi vampiro de energia vital? Será que devemos contatar a nossa especialista em criaturas absorvedoras de néctar da vida? — perguntou Carrie com um sorrisinho pretensioso. 

— Tá falando da Natasha? Não, não precisamos dela, eu acho que sei que troço medonho é esse. 

— Ah, só porque eu queria dizer um oi pra ela, muitas saudades, não a vemos desde o réveillon que passamos nos três juntos. 

— É, eu também sinto saudade dela, mas isso aqui é caso de um vampiro bem específico, não sei nem se é um propriamente dito. A Natasha talvez seja mais versada nos sedentos por sangue. O meu pai já caçou esse monstrengo poucos anos antes de eu nascer. Acho que o nome é Vryka... Não, Vryko... 

— Saindo uma pesquisasinha rápida pra nos situar. — disse Carrie, digitando no computador — Aqui está, se chama Vrykolaka, um ser revivido dos mortos. — deu uma lida breve — Diz a lenda que enterrar alguém num território não-consagrado ou fazer a pessoa beber do sangue de uma ovelha morta por um lobisomem seriam métodos eficazes para se criar um Vrykolaka. 

— A morte do Gunther, irmão da Mallory, é um mistério até pro avô, Denzel Banks. Acabei de falar com ele aqui na academia onde ele puxa ferro pesado até demais pra idade dele. O velho tem quase setenta anos e levanta uns sessenta quilos com a mesma facilidade que um jovem de vinte e poucos anos. É muita saúde e vitalidade pro bicho se fartar. 

— Espera aí... Isso não faz sentido. — disse Carrie, franzindo o cenho — As mortes estão ocorrendo em um padrão claro, do mais velho ao mais novo. Mallory é a próxima vítima. O avô deveria ter sido um dos primeiros. 

— Mas ela foi poupada, embora não signifique que foi descartada. Ela ressaltou a ligação fraternal muito forte com o irmão. — disse Frank , abrindo a porta do carro — O que pode ter sido um fator pra ela escapar.

— Mas e com o avô? Pela lógica, ele deveria ter um vínculo afetivo com o neto tão forte quanto havia entre ele e a Mallory para ser pulado ou reservado pra mais tarde. Mas padrões são padrões e este é definitivo considerando o número de vítimas. 

Frank olhou para a academia imaginando como a surpresa com o desempenho físico de Denzel deu um estalo de desconfiança, o que foi reforçado com a estranheza do avô não ter sequer chegado perto de ser um alvo. 

— O Denzel não me contou ter sofrido um ataque do Vrykolaka... A Mallory disse que o Gunther foi enterrado num terreno baldio qualquer por não conseguirem bancar plano funerário... 

— Você foi sincero com ele sobre seu trabalho, né?

— Sim, assim como pra Mallory. Com isso, ele teria me revelado uma experiência. Só seria pulado e poupado se a tivesse vivido, da mesma forma que com a neta. Olha, eu vou ligar pra ela pedindo o endereço da casa dele, inventar que não achei ele na academia, então já deveria ter voltado. 

— Mais uma invasão sorrateira? Cautela no máximo. 

— E quando fui pego com as calças arriadas? O Denzel tem algo a esconder e vou tirar a prova. Te ligo mais tarde. Tchau. — disse Frank, desligando posteriormente. Entrou no seu carro, fechando a porta e enfim dando a partida — Nem eu com quase cinquenta levanto mais que uns vinte quilos. 

***

Após a ligação para Mallory conseguindo dela o endereço da casa de Denzel, Frank cruzava a rua da área residencial onde ele vivia, não demorando a cravar os olhos no número informado. Saíra do veículo, verificando a sua volta se não havia quem passasse no risco de pega-lo num flagrante de invasão furtiva. O detetive andou até a porta, sacando seu grampo na espera de que estivesse trancada. Mas ao tocar na maçaneta, foi contrariado.

— Aberta? — indagou ele, estranhando — Denzel! 

Chamou mais três vezes, batendo com insistência e nenhum pio de resposta. Não existia alternativa segura, teria de entrar intrusivamente contando que não houvesse ninguém na casa. Abriu a porta e adentrou devagar, correndo os olhos pela sala. Frente a lareira havia um espaço um pouco mais amplo quase que totalmente coberto por um tapete redondo verde-pântano. Levantou uma sobrancelha, julgando que era bastante espaço para somente um tapete ocupar, sem móveis, poltronas para sentar-se com visitas diante da lareira acesa.

Aproximou-se do tapete em passos cuidadosos, até um pouco hesitantes, reparando numa marca branca embaixo que escapava para fora. Parecia ser giz de cera. Afastou uma parte do tapete com o pé direito, descobrindo um círculo ritualístico feito com certo esmero. Sua reação não foi de tanto espanto já que temia fortemente um envolvimento de Denzel com bruxaria que poderia explicar sua imunidade ao Vrykolaka. 

— Eu sabia que tinha trapaça pra todo aquele vigor jovial. Não me admiraria ter tido autoria na morte do neto. Velho safado. 

Antes que Frank pudesse virar-se, uma cadeira de madeira foi batida em sua cabeça, despedaçando-se completamente. O detetive caiu inconsciente com o golpe fortíssimo. Denzel o olhava altivo. 

— Pelo menos nunca entrei na casa de ninguém sem ser convidado. — disse ele intencionando prender Frank. 

O detetive recobrava a consciência vagarosamente, tendo a certeza, mesmo com a turva visão, de não estar no mesmo cômodo, muito menos numa posição agradável em relação aos seus pulsos. A figura parruda e austera de Denzel se esclarecia diante dele. Frank o fuzilou com o olhar de repulsa. 

— O que achou da sua nova cama? — indagou Denzel — É perfeita para uma morte lenta e sufocante. Eu poderia estar nela sem forças pra levantar, prostado, moribundo... Mas com meu recurso ativo, consegui reverter aquilo que a medicina tacharia de inevitável. 

— Te agradeceria se fosse mais específico, porque pedir pra me desamarrar eu sei que não vai adiantar. — disse Frank olhando para seus pulsos atados na cabeceira por cordas firmes. 

— Foi um erro ter sido honesto comigo, Frank. Aliás, me procurar foi um erro ainda pior. Se quisesse impedir o morto-vivo de sair fazendo o que faz de melhor, bastaria pedir a Mallory que indicasse o local da sepultura para cavar um buraco, jogar qualquer objeto de valor sentimental dentro e queimar. Uma pena pra você se impossibilitar disso.

— Então esse é o método pra fazer o Vrykolaka virar poeira... Que vergonha de caçador sou eu pra não ter me lembrado. — disse Frank, claramente ironizando — Diz aí, seu velho maluco, que enorme benefício usar o cadáver reanimado de um ente querido seu traz. Aquele círculo que vi... Os traços, os formatos... Que tipo de bruxaria da pesada é aquela? 

— Descobrir uma forma rara de necromancia foi a luz do fim do túnel de que eu precisava. Eu sou Pavlov enquanto ele é meu cão obediente. Nunca estivemos tão ligados um ao outro. 

— Filho da mãe... Usar o corpo do próprio neto. Mas pra quê, afinal? Seria loucura um mínimo de suspeita sobre você ter matado ele? 

— Como eu disse, Gunther era um rapaz que exalava vida, muito saudável e conservado. Mas com meu diagnóstico, o afeto que eu tinha por ele se modificou. 

— Diagnóstico de quê? Cê tá doente? 

— Carcinoma pulmonar. E corrigindo você: eu estava. Uma sobrevida longa por um meio doloroso em troca de aceitar um fim irremediável com meses contados.

— Entendi sua jogada... O Gunther não passa de um intermediário pra você se aproveitar da energia que ele consome e daí esticar seu tempo de vida, retardando a doença, te concedendo uma disposição pra jovem nenhum botar defeito... — disse Frank que repentinamente sentiu vontade de rir, mal controlando-se. 

— O que é? Acho que exagerei na força da pancada, transformei você num débil mental que vê graça da própria morte. 

— Não é isso, é que... — disse Frank se recompondo, mas ainda risonho — Você parece ter esquecido uma regra crucial do Vrykolaka ou pesquisado muito mal. Ele só vai matar o restante dos seus parentes. E quando tiver dizimado a família toda, como é que fica? O Vrykolaka fica inútil, a sua saúde enferruja e...

— Quem se enganou foi você. Acha que eu teria feito ele beber sangue de um animal morto por um predador mais brutal que um leão se soubesse? — perguntou Denzel aproximando-se de Frank e inclinou-se para ele — Gunther matará a todos que eu quiser que ele mate enquanto a conexão perdurar. E ela vai perdurar o suficiente pra que eu viva o tempo que me for satisfatório. Nem você nem ninguém vai romper nosso elo. 

— Desgraçado... O sangue de lobisomem causou uma reação adversa no Gunther, né? Depois enterrou o pobre coitado num terreno vagabundo. 

— Isso depois de cancelar o plano funerário com um débito planejado pra esse fim. — esclareceu Denzel. 

— Como tem tanta certeza de que ele não vai se tornar inútil quando terminar a farra com a energia vital da família? 

— Eu não me pauto em lendas vagas. — disse Denzel, virando as costas para sair do quarto — Aproveite o conforto, logo vai sentir sono e terá o desprazer de sua vitalidade sendo absorvida assim que todos os Banks se forem e eu o privilégio de recebê-la. 

— Volta aqui! Denzel, e a Mallory? É sua neta, seu miserável! Vai deixar ela ser sacrificada só pela sua ambição por longevidade? Pode ter se livrado do câncer com isso, mas tá com a mente adoecida! 

Denzel já estava saindo, menosprezando cada palavra do detetive que tentava encorajar um juízo que o fizesse repensar suas atitudes. Frank se concentrou no esforço de afrouxar os nós para salvar a vida de Mallory a tempo do Vrykolaka não ser teleguiado até onde ela está sob risco dela não conseguir cumprir a orientação de manter-se desperta.

***

Como Frank temia, Mallory não resistiu a sonolência e acabou deitando no sofá, adormecendo quando havia prometido usar de todas as forças para passar a noite em claro no intuito de evitar a invasão do Vrykolaka a sua casa para uma nova oportunidade de mata-la. Não bastando isso, a neta de Denzel ainda estava na chamada "posição do morto", o peito para cima vulnerável como a deixa perfeita para a criatura executar seu feito do qual nenhuma vítima foge. 

O Vrykolaka chegava em passos silenciosos, olhando pela janela sua presa exposta. Soltou um hálito pelas narinas, embaçando o vidro que tocava com suas mãos cadavéricas, excitado com a guarda aberta. Abriu a porta e foi ganhando proximidade até subir em cima de Mallory exatamente ficando sobre o tórax com os joelhos dobrados. Levou suas mãos ao pescoço dela, lentamente agarrando-o e empreendendo força para sugar o seu elixir que seria transferido para Denzel. O velho naquele instante estava também de joelhos, mas no centro do círculo ritualístico, as mãos abertas com os braços levemente erguidos, olhando para o alto e com os olhos inteiramente brancos. 

Frank pelejava para se desvencilhar das cordas, podendo ao menos afrouxar o nó esquerdo. Tentou morder o direito como maneira mais prática. Enquanto isso, o Vrykolaka usava seu poder de absorção, a pressão em sincronia crescente, logo fazendo Mallory acordar com o peso esmagador ameaçando asfixia-la até a morte certa. Sons fracos de um grito que queria sair foram os únicos que Mallory exprimia em tal condição, sua face enchendo-se de terror ao se ver novamente de cara com seu falecido irmão naquela abominável forma. Frank conseguira desatar o nó esquerdo, depois arrancando o direito com todos a força de que dispunha. O detetive levantou-se e, ao perceber a janela fechada, pegara um banco de madeira e o jogara contra o vidro que se estilhaçou inteiro. 

Fugindo pela janela e pegando seu carro, Frank partiu em disparada até a nova moradia de Mallory já numa outra rua apenas bastando dobrar. Mallory fez menção de erguer a mão direita para tocar o Vrykolaka, mas sentia um peso de toneladas impedir um mínimo movimento que pensasse em fazer. O sedã prata estacionou num freio brusco. Mallory tentava forçosamente dizer o nome do irmão enquanto sua vitalidade esvaía-se pouco a pouco. 

Felizmente, Frank entrara com um revólver em punho, atirando seis vezes nas costas do Vrykolaka que soltou um urro gutural ao ponto de desprender o pescoço de Mallory. O morto-vivo saiu de cima de Mallory rapidamente dando um pulo como um animal amedrontado. Mas o recuo durou pouco, pois o mesmo virou-se de frente a Frank ficando de pé, sua aparência cadavérica e hedionda ficando mais visível na semi-escuridão. O detetive atirou mais vezes para repeli-lo, mas a criatura resistiu podendo desferir um golpe com a mão direita que tirou a arma de Frank. Em paralelo, as pupilas dos olhos de Denzel retornavam e o mesmo franziu a testa ao sair do transe místico após a conexão ser romper de repente. Conferiu o quarto, dando conta da fuga de Frank e, furioso, encaminhou-se até um armário embutido de uma só porta onde pegara uma espingarda carregada e saiu com seu carro. 

Na casa de Mallory, Frank revidou socando o monstro e o chutando no peito em seguida o derrubando contra uma mesa que continha pequenos vasos de cristal. O Vrykolaka fugira, praticamente andando de quatro. 

— Mallory, tá tudo bem? Consegue respirar normal? — perguntou Frank vindo ajuda-la a levantar — Essa foi por pouco. Se eu tivesse demorado uns poucos minutos mais, ele já teria enchido o tanque. 

— Eu tô bem... Só me deixa recuperar o fôlego... — disse Mallory, ofegante e tossindo, sentando-se. 

— Tenho uma péssima notícia pra te dar sobre seu avô. Mas normaliza a respiração aí pra você reagir sem tanto estresse. 

— Pode falar... Ele morreu, não foi? 

— Não, acho que nunca se sentiu tão vivo. Mallory, o Denzel é um psicopata, matou seu irmão e o enterrou no cemitério precário, tudo obra pro grande plano dele de se salvar de um maldito câncer no pulmão. 

— O quê? Não pode ser verdade... 

— Por que acha que ele começou a praticar exercícios recentemente? O Gunther é aquela coisa, foi revivido com magia negra e tá sendo usado como fio pra canalizar a energia vital diretamente ao Denzel que vai estendendo o tempo de vida pra além do que o médico estimou. 

— Meu Deus... — disse Mallory, as mãos no rosto de cabeça baixa, aturdida — Por que ele não me contou? — questionou, caindo em prantos — Podíamos enfrentar isso juntos, conseguir um plano de saúde, bancar um tratamento... 

— Eu receio que não haveria tempo. — disse Frank, tocando-a no ombro — Ele tava com os dias contados e a julgar pelo desespero dele pra cometer essa atrocidade, o prazo era bem apertado. Acabei de voltar da casa dele, me fez prisioneiro pra que eu fosse a primeira vítima após toda a família morrer. Tem que acreditar em mim, sei o quanto era apegada ao seu avô, mas ele é o real monstro dessa história e essa sanha dele tem que parar já. Precisa me dizer onde fica o cemitério no qual o Gunther foi enterrado.

Mallory ficou de pé olhando fixamente para Frank com ar de decisão. 

— Eu conto com você seja lá como vamos acabar com isso. 

— OK, antes de irmos, será que você tem guardada alguma coisa do Gunther como lembrança? 

A dupla se enfiou no carro que dera logo a partida rumo ao cemitério. No entanto, o carro de Denzel veio no cruzamento batendo contra o sedã prata. A batida causou um estrago na lateral, danificando o farol esquerdo. Frank saiu do veículo ao mesmo tempo que Denzel e ambos se encararam coléricos. 

— Uma pena que você não vai viver pra ter que descolar uma grana pro meu farol, desgraçado! 

— Fique longe da minha neta! — vociferou Denzel mirando a espingarda em Frank que audaciosamente agarrou o cano da arma que atirou a esmo para cima e a tirou das mãos de Denzel, logo batendo a coronha contra o rosto dele. Com o nariz sangrando, Denzel se arrastava de volta pro carro enquanto Frank removia as balas da espingarda. 

— Toma aí e vê se não tenta nos seguir. — disse Frank largando a arma no chão. Voltou ao carro para retomar o trajeto — Eu ia dar uma baita surra nele, mas era arriscado alguém flagrar e me denunciar pro estatuto do idoso. Você viu, né? Ele mal se aguentou em pé com aquela bifa nas fuças. Acho que o vigor que ele obtém com a ajuda do Gunther só dura um dia e olhe lá. 

— Temos que ser rápidos antes que ele mate mais alguém. — disse Mallory, aflita. 

— Deixa eu te explicar como seu avô faz pra alvejar cada pessoa. — disse Frank dando a partida novamente. O sedã prata seguiu em direção ao cemitério, o detetive sendo guiado por Mallory. Ao chegarem, tentaram localizar a sepultura — Lugarzinho mais chinfrim pra se enterrar um defunto, ninguém merece. Onde é que tá a cova? — indagou Frank munido de uma lanterna. 

— Por aqui... Eu fiz uma lápide. Aliás, improvisei. Escrevi nome, data de nascimento e morte, até palavras de homenagem... Eu jamais vou perdoar o vovô por ter mentido sobre o plano funerário. — disse Mallory enxugando lágrimas. 

Enquanto isso, Denzel dirigia velozmente até o cemitério, possesso de ódio. Frank e Mallory enfim localizaram a sepultura graças a lápide que não passava de uma pedra com dizeres feitos a tinta preta. Havia um buraco aberto. 

— O tipo de monstro que o Gunther é volta pra sua cova sempre ao amanhecer. — disse Frank — Hoje ele não volta mais. Tá preparada? 

Mallory respirou fundo antes de responder. 

— É necessário praticar o desapego. Vou ficar bem. 

Frank jogou a gasolina que guardava numa garrafa d'água e derramou no buraco. Em seguida, acendeu um fósforo e o jogou lá. O fogo alastrou-se depressa no interior da cova. Porém, o Vrykolaka retornava saído das sombras correndo furiosamente até eles. 

— Agora é sua vez! Rápido! — disse Frank sacando sua arma, logo atirando contra o Vrykolaka que recuava devagar com os disparos. Mas a arma de Frank logo fez um barulho de "click click" no gatilho — Cacete! Lá se foi o resto que tinha. 

Mallory tirou do bolso um colar dourado que ganhou de presente de aniversário de Gunther e o fitou por um instante para se despedir. 

— Eu sinto muito ter que acabar desse jeito. Mas você merece um descanso eterno e se livrar desse sofrimento. Nas minhas memórias, você estará sempre vivo. — disse ela, emocionada, jogando o colar ao fogo. O corpo do Vrykolaka tremelicou, logo surgindo labaredas nas pernas e nos braços. Urrou pela última vez ao ser consumido pelas chamas e reduzir-se um ser de cinzas que se desfez tombando.

Denzel viu a vida passar diante dos olhos à medida que sentia a morte se avizinhar. Tossiu intensamente, perdendo o controle da direção. Cada gota de vitalidade roubada se eliminava de seu ser. O carcinoma se espalhou como metástase pelo corpo. Caído já sem vida sobre o volante, Denzel estava entregue ao seu destino fatal. O carro batera num poste, capotando na pista inúmeras vezes, por fim explodindo fragorosamente. 

***

Na manhã seguinte, Frank resolveu ir ao cemitério no qual Denzel, ou o que sobrou dele após a fatídica explosão, foi enterrado, chegando após o término do funeral. Encontrou Mallory, trajada toda de preto diante da lápide, imersa em sentimentos, memórias e reflexões. O detetive se pôs ao lado esquerdo dela, a afagando no ombro. 

— Minha vida acabou. — disse ela — Mas não tinha outro jeito a não ser cortar o mal dessa árvore genealógica pela raiz. Ele tinha que pagar. Apesar disso, a tristeza que sinto é mais pela decepção. 

— Acho que tá sendo precipitada ao dizer que a vida acabou ou não tem mais propósito. Você ainda tá aqui, é jovem, pode recomeçar. Só basta você querer. Eventualmente, as coisas se alinham, a vida entra nos eixos de novo. 

— Detetive, posso perguntar algo pessoal? 

— Claro. 

— Já chegou a perder a pessoa que mais amava? 

— São tantas que... nem sei direito definir qual delas merece ser considerada a maior. Mas sim, perdi. E como perdi. Sabe como a gente lida com isso? Não olhando pra trás o tempo todo. A ferida cicatriza mais rápido. É pra frente que a vida caminha. Isso não significa renegar ou desonrar a memória de quem se foi. É apenas um meio de superação. Se ainda existe vontade de viver em você, existe futuro. 

Mallory esboçou um fraco sorriso para Frank. 

— Obrigada por ter vindo. 

— Tenta apostar mais em si mesma. De repente, começar uma nova família, criar novos laços, essas coisas... Você vai conseguir. Fica bem, Mallory. Meus pêsames. Pelo Gunther. — disse Frank, a abraçando em seguida. O detetive a deixou sozinha em seu momento de introspecção, indo embora com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo. 

A quilômetros dali, mais precisamente na sala de reuniões do Conselho de Segurança, os daevas voltavam para conduzir uma nova sessão de interrogatório movida a tortura. Contudo, se depararam com uma desagradável surpresa que os estacarem boquiabertos.

— Mas... Isso não pode estar acontecendo... — disse o daeva que interrogava Hoeckler, estupefato. 

— Não sabem o quão prazeroso é ver essas caras de espanto olhando pra mim. — disse Hoeckler, de pé e.liberto das amarras — Deviam ter pego cordas mais firmes. Cabos de aço, talvez. Não importa mais, vocês perderam um cativo. Agora vem a reviravolta. 

— Não é possível! Estava sob nosso inteiro jugo. — disse um outro daeva — Visivelmente fraco demais pra tentar uma fuga desesperada!

— Não o deixaremos escapar. — disse outro daeva, este usurpando a conselheira Claire Sampson, mostrando traços de seu rosto horrendamente sombrio e caveiroso num rápido e tremido vislumbre.

— Melhor não darem mais nenhum passo. — disse Hoeckler, sacando um isqueiro e o acendendo. Os daevas olharam para o piso, vendo um círculo feito com um pó vermelho — Pelas suas caras, Agnes estava certa em colocar este pequeno frasco no bolso da minha camisa. Pó de tijolo vermelho os deixam tensos. Mas fica ainda mais ameaçador queimando. 

Jogou o isqueiro aceso no círculo que foi preenchido pelo fogo, prendendo os daevas numa grande virada. 

— Aproveitem a sauna. — disse Hoeckler andando para trás, o fogo no círculo se elevando — Espero que elaborem uma desculpa inteligente aos seus magnânimos chefes pra continuarem ignorantes.  

O superintendente saiu da sala apressado. O daeva que se encarregava da tortura tentou ultrapassar o fogo, mas foi impedido sentindo um ardor no rosto. Hoeckler andou pelo corredor telefonando para um agente da ESP.

— Agente Sparrow, ative o protocolo de remanejamento para o ESP-1456 imediatamente. — disse ele sedento para sair da sede do CDS — Sim, a maldita tumba. 

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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

*Imagem retirada de: [1]




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