Frank - O Caçador #91: "Compulsão Alimentar"

A vida de Spencer Claw havia sido radicalmente modificada após a aquisição de um simples pacote de biscoitos de uma marca, denominada Gulomania, que estava em plena difusão e mesmo ainda nova e amplamente desconhecida, passou a ser requisitada em diversos bairros da zona oeste e norte. O homem possuía saudáveis 45 anos, porém jogados no lixo devido a um repentino vício nos tais biscoitos que o levou a um estado de obesidade mórbida em apenas 4 dias. Sua rotina posteriormente a descoberta desse "néctar dos deuses" restringia-se a acordar, tomar banho e se fartar de mais uns 10 ou 15 pacotes com o traseiro afundado na poltrona vendo TV em grande parte do dia. A devoção ao consumo obsessivo e desenfreado custou seu emprego e relações interpessoais ‐ já não punha mais o pé para fora do seu mundinho nocivamente doce. 

Em seu quinto dia como um consumidor fiel da marca, no meio da tarde, Spencer assistia televisão despreocupadamente enquanto levava devagar seus amados biscoitos a boca, um por vez. Demorou para se atentar ao esgotamento do pacote, tateando o fundo vazio da caixa e olhando desinteressado para a TV. Quando sentiu apenas farelos nos dedos rechonchudos, sua expressão mudou de entendiado para terrificado num segundo. Levantou com esforço da poltrona para ir até a despensa e achar algum último pacote que o saciasse sua fome voraz, mesmo sabendo que a saciedade em si era uma condição praticamente inatingível depois que esvaziasse mais um pacote. 

Verificou a despensa, mas encontrara vazia de mais pacotes, havia devorado todo o lote que comprou no dia anterior. Entrando em pânico, rastejou pela casa buscando nem que fosse uma ínfima migalha. A campainha fora tocada, era uma das meninas trajando vestes amarelo e azul de bandeirante que vendiam os biscoitos de porta em porta alegando arrecadação de fundos para uma causa beneficente. Spencer sentia-se ofegante, o coração palpitante e dolorido, enquanto se arrastava pelo chão da sala buscando migalhas que o satisfizessem. A menina tornou a apertar o botão da campainha. 

— Sr. Claw, por favor, aqui é a Millie, vim cobrar o pagamento do último lote. — disse a menina que tinha lisos cabelos castanhos e usava óculos. 

— Já vai... Já estou indo! — disse Spencer mal podendo levantar-se dado o peso ultrapassando os 120 quilos. A pele caucasiana do homem avermelhava-se, seu corpo inciamdo um processo de inchaço súbito. Spencer sabia que algo estava horrivelmente errado dentro de si. Viu sua mão esquerda adquirir uma proporção descomunal, inflando. Logo todo o seu corpo foi inchando. Millie insistia na campainha, já impaciente. 

— Tenho mais um lote disponível. O senhor não vai querer? — perguntou ela — Sr. Claw? Está tudo bem?

Mas Spencer não tinha mais a menor condição de responder ao chamado. Seu corpo inflava como balão, a pele vermelha e esquentando, derrubando móveis e vasos, até ao ponto de preencher praticamente a sala inteira e... explodir completamente. O estrondo da explosão assustara Millie que recuou uns passos, vendo bastante sangue sujar as janelas quase que totalmente. Ela tocou na maçaneta, descobrindo estar a porta aberta. Ao abrir, via a cena horrenda e grotesca se descortinar diante dos seus olhos. A sala estava uma bagunça de sangue, vísceras e entranhas espalhadas, inclusive no outro lado da porta, as paredes antes brancas tendo recebido uma nova pintura.

Horrorizada, Millie gritara alto se afastando daquele recinto decorado com órgãos, carne, sangue e pele em consistência pastosa e nojenta. 

***

Poucas - ou melhor raríssimas - vezes em dias de folga com brechas para momentos de lazer, Frank se dava a oportunidade de passar pelo parque ecológico para estar em contato com a natureza e também realizar uma boa pescaria no lago. Mas naquela manhã ensolarada, excepcionalmente em dia de trabalho, o detetive teve de pisar no bem aparado gramado para encontrar alguém em especial antes que o tempo para sua ida ao DPDC apertasse. 

Olhou para o banco no qual avistou uma mulher de sobretudo cinza sentada com as pernas cruzadas calmamente esperando ao olhar para os lados, observando as pessoas transitarem no parque. "Ainda não tô gostando nada dessa parada", pensou Frank, indo ao banco sentar-se ao lado da moça afro-amareciana de cabelos pretos e lisos com uma franja diagonal bem expressiva sobre a testa. 

O detetive sentou a esquerda dela e a olhou de soslaio. A mulher o encarou de volta, séria. 

— Também esperando alguém? — indagou ela. 

— É... Um amigo. — respondeu Frank meio timidamente — Mas parece que ele se atrasou pro nosso encontro, daí quem vai pagar o pato sou eu que vai chegar depois do horário no trabalho. Já tô imaginando meu chefe com a faca nos dentes. 

— É uma pena ele não poder vir. — disse a mulher, quase que virando-se toda para o detetive — Digo, uma pena mais pra você do que pra ele. Se não for incômodo perguntar... Esse seu amigo te enviou uma espécie de bilhete? Particularmente passando pela porta da sua casa? 

Frank virou o rosto para ela numa lentidão a medida que sua expressão se enchia de desconfiança pura. A moça deu um sorriso fechado de mistério. 

— Quem é você? — perguntou ele. 

— Responde a minha pergunta que respondo a sua. 

— Sim, um bilhete com letrinhas douradas numa fonte bonitinha e sofisticada, dizendo pra me encontrar nesse exato lugar e nessa exata hora. E daí? Como foi que supôs isso? 

— Não supus. Eu sei. — disse ela logo piscando seus olhos que emitiram um brilho branco com o qual Frank tinha bastante familiaridade. O detetive surpreendeu-se, olhando-a com contrariedade. 

— Peraí, você é um anjo... digo, anja... Não, ninguém diz anja... 

— Centuriã. — corrigiu ela, a face séria, retirando o brilho ocular angelical numa piscada — Prazer, me chamo Ethrea. Vim em nome de Adrael para tratar com Frank Montgrow de um assunto de suma importância e que talvez deva requerer seu auxílio. Estou o substituindo como tenente do batalhão serafim. Além disso, o bilhete foi minha obra. Preciso que me prove sua identidade. 

— Provar que sou eu mesmo? Eu ter mencionado o bilhete e reconhecer o que você é não bastam? 

— Demônios estão espalhados por essa cidade como baratas, eu não vou confiar abertamente em qualquer humano, ainda mais agora que eles se subordinaram a uma nova liderança. Adrael pediria o mesmo. — disse Ethrea soando dura com o detetive. 

— Ele não exigiria prova alguma porque tem ciência do meu caráter. Eu não tenho visto ele nos últimos meses, mas temos uma ligação muito amigável, vejo ele como um parceiro de ocasião, um amigo distante. Eu sou um caçador, ele sabe disso, lido com demônios que nem dedetizador com pragas. Nunca sairia de casa sem me blindar contra possessão. Esse corpo aqui é fechado. 

— Mostre o bilhete. — exigiu Ethrea — Não estou pedindo. 

— Qual é? Pensei que anjos fizessem checagem de possessão demoníaca só de olharem. 

— Esse privilégio não vem no nosso pacote de atributos, não para os serafins. O bilhete, agora. 

— Tá aqui, eu trouxe. — disse Frank retirando o papel-cartão do bolso externo do sobretudo e mostrando-o frente e verso — Convencida? Quer ver minha identidade também? Ou pingar uma gota de água santa no meu braço? Posso fazer uma oração... 

— Está bem, você é quem eu procurava. Adrael falava muito a seu respeito, vários anjos comentam sobre sua existência, especialmente da concessão de matar o primeiro anjo caído. 

— Ele não mentiu dizendo que empalei o diabo com o tridente, né? Teoricamente anjos não devem mentir...

— Não, todos sabem a verdade. Mas vamos direto a minha oferta. 

— Adrael sabe que você tem me solicitado? 

— Ele está ocupado demais pra ficar a par dos meus planos. Na verdade, está desinformado sobre muita coisa. Enviei o bilhete por saber que ele confia em você. Aliado a isso existe o fato de você ser o único humano ciente da presença dos cavaleiros degenerados e seus acólitos, os daevas. Deve ter uma noção da tamanha urgência desse problema. 

— Pois é, eu sei bem o nível de periculosidade dos meliantes. Só não sabia de uma coisa: esses tais daevas. Não me estranha o nome, mas uma atualização seria bem-vinda. O que é sua oferta?

— Pois bem, os cavaleiros possuem um grupo de soldados que respondiam no princípio ao soberano maligno, a escuridão encarnada. São nossos inimigos naturais em vez dos demônios como o senso comum de sua sociedade tanto reforça. Agora vem a parte alarmante: são capazes de aniquilar anjos, ao menos somente serafins. Os querubins dariam algum trabalho a eles, mas restariam poucos sobreviventes caso não tivessem sido extintos. 

— Existe uma querubim restante, a Kezabel... Minha madrasta malvada. — disse Frank com ojeriza só de lembrar do dia em que a viu levar Fred para afasta-lo dele — Mas é claro que um só anjo não seria páreo pros desgraçados e mesmo que fosse ir pro submundo convencer aquela vadia a se juntar na luta seria uma missão ingrata demais pra mim. 

— Por isso mesmo que precisamos de alguém confiável aos anjos. Os daevas estão causando uma matança desenfreada, já contabilizamos muitias baixas. Você é um caçador, pode arranjar um meio de detê-los, obter recursos exclusivos. — relatou Ethrea, sua expressão assumindo um aspecto de aflição. 

Frank balançava a cabeça em negação, já denotando ser avesso a ideia que lhe soava absurda e ilógica. 

— Acho que perder muitos dos seus irmãos te fez perder o juízo também. Eu disse que não sabia nada desses escrotos matadores de anjos, nesse caso não tenho como oferecer nenhum suporte, absolutamente nada. Eu sinto muito, mas se minha opinião vale alguma coisa... Diria pra recuarem. 

— Não podemos e nem devemos. — contrariou Ethrea, irritada — Se acuar nessa altura é rendição sem luta. E não vamos nos dobrar. 

— Então vão ser extintos como os querubins. Se esses monstros estão aqui na cidade fazendo uma limpa como meta de extermínio, aqui é o lugar menos seguro pra vocês. Não contem comigo, é sério. Você me deu uma base, mas não adianta, buscar meios de matar coisas poderosas como essa que nenhum outro caçador já enfrentou na vida não rola. — disse Frank categoricamente. Seu celular tocara interrompendo a conversa. O pegou para atender — Alô, Carrie. — ouviu o que a assistente dizia — OK, já tô voando pra aí. A gente se vê. — desligou — Preciso ir trabalhar. Lamento pelos anjos. — falou ele com desapontamento. Levantou-se se encaminhando para seu carro estacionado ali perto. Ethrea ficou a observa-lo com preocupação. 

***

Já no DPDC, em sua sala, Frank dava uma olhada em matérias de assassinatos misteriosos e encontrou o relato de uma testemunha que jurava ter visto um homem ser transpassado no peito por outro e em seguida uma luz branca refulgiu da vítima que o deixou cego por uns instantes. A chegada de Carrie o levou a fechar a aba do site para concentrar a atenção no novo caso que ela trazia em mãos. 

— O que houve? Quase se atrasou. — disse Carrie, vindo até o detetive — Não vem dizer que o trânsito congestionou, já tinha passado da hora do rush. O Guiseppe vai querer uma explicação logo logo. 

— Fiz uma nova amiga hoje. — rebelou Frank deixando Carrie ouriçada e sedenta por maiores detalhes — Ô, calma aí, não é uma substituta da Lucy.

— Você não foi específico, dava pra ter sido mais sucinto e evitar que eu pensasse numa improvável redescoberta do amor. — disse ela parando bem próxima da mesa, deixando a pasta sobre o móvel. 

— Carrie, já falei que alguém como a Lucy jamais vou encontrar nessa vida. E eu superei. 

— É, de fato não encontrará mesmo. — disse Carrie referindo-se a Lucy ter sido uma das três górgonas — Não quer me contar sobre? O caso é urgente, mas podemos descontar uns minutinhos.

— Uma mulher anjo me mandou um bilhetinho pedindo por um encontro, informando horário e lugar.

— Por que enviar bilhetes? Os anjos não podem simplesmente se teletransportarem? 

— Tô achando que ela fez isso pra não ser rastreada. 

— Rastreada por quem? 

— Tem novos seres do inferno no pedaço. Mais turistas do submundo. Piores que os demônios, pois segundo ela podem passar o cerol nos anjos serafins como ela e o Adrael. Inclusive, ela mandou o bilhete se passando por ele já que temos uma relação mais estreita e o Adrael é o único anjo em que confio. 

— Espertinha ela. Mas o que são esses monstros tão poderosos quanto anjos? 

— Subordinados dos cavaleiros. O nome dela é Ethrea, quer que eu ajude por eu ser um caçador contemplado pelo anjos, ela acha que vou salvar a pele dos seus irmãos acreditando que posso peitar qualquer monstro. Talvez eu deva consultar a Agnes. 

— De novo você querendo fortalecer laço com essa bruxa. Não sabe a furada em que tá se metendo. — disse Carrie de olhos fechados e balançando a cabeça em negação, atordoada com o detetive cogitar apoio de uma bruxa para ela duvidosa.

— E a quem você acha que eu devo recorrer? Aos ofanins? Eles só interferem quando o negócio é apocalipse pra cima. A Ethrea não vai me deixar em paz, tô sentindo que ela vai insistir por estar desesperada com tantos anjos sendo massacrados. Mas não posso fazer nada contra monstros que nunca vi e nem cacei. Esses monstros, os daevas, são ligados aos cavaleiros que são ligados a Agnes que é ligada ao tal mago na tumba que é tão fodão a ponto de estar abaixo do grande mal selado abaixo de Dancerous City. Isso tudo só tá piorando e enchendo a minha cabeça de dúvidas. 

— Daevas... Zoroastrismo. Já ouvi falar. Frank, não é obrigado a se sujeitar. Ou você se impõe provando que não tem condições ou aceitar indo até a Agnes, arriscando confiar nela. 

— Olha, não sei nem se a Agnes pode lidar com esses panacas. Melhor focar no caso, sempre que toco nesse assunto parece que minha cabeça vai explodir. — disse Frank pegando a pasta. 

— Por falar em explodir... As vítimas desse fenômeno tiveram mais que a cabeça estourada.

— "Biscoito Gulomania é apontado como causa de terrível reação em consumidores. Duas mortes já registradas. Polícia deseja enquadrar fabricante desconhecida". — disse Frank lendo a manchete de um recorte de jornal no dossiê — As fotos aqui são pra quem tem estômago de aço... que nem os desses caras que explodiram após se empanturrarem de biscoito, isso até onde aguentaram.

— Essa marca não entrou legalmente em circulação no mercado. Seja quem for esse fabricante misterioso, está usando meninas vestidas como bandeirantes pra disseminar essa nova febre de porta em porta. 

— Verdade, as garotinhas foram interrogadas, mas não acusam o dono. Sigilo sob ameaça? Talvez. Elas se referem como ele, assim descartando a hipótese de organização. Mas quem em sã consciência vai querer comprar biscoitos de uma marca não regulamentada pelos órgãos competentes? O cara que lançou a empreitada já tá no prejuízo. 

— Vê mais adiante. — sugeriu Carrie. 

Frank virou a página, encontrando um relatório sobre os dois homens vítimas da reação explosiva, principalmente algo que os conectava ao criminoso. 

— Os homens-bombas eram críticos de um restaurante no qual o chef Benson Grimm produzia receitas de bolos e doces. Numa das degustações os críticos deram nota baixa. Benson caiu tanto em descrédito que foi afastado do cargo de confeiteiro até que ele inventasse uma receita que agradasse ao paladar refinadinho e exigente dos metidos. O último a morrer foi Spencer Claw, segunda vítima. 

— A menina que lhe vendia os biscoitos veio cobrar a última remessa justo no dia e hora em que ele explodiu. São alvos marcados. O biscoito tem virado uma febre no bairro nos últimos cinco dias. 

— Quem chegou a ver o Spencer nesse período disse que ele largou o emprego pra se isolar em casa e que ganhou bastante peso em tempo recorde, chegando a obesidade mórbida. O lance é esse: quem fica viciado no biscoito, come tanto que engorda num ritmo, sem dúvida alguma, sobrenatural. Será que o pessoal do programa Quilos Mortais não veio tirar uma casquinha dessa história? 

O celular de Frank tocou inesperadamente. Ele deu uma conferida no número, não reconhecendo. Ainda assim, atendeu a chamada, pondo no viva-voz.

— Ahn... Alô? 

— Fala aí, Frank! Tudo na boa? Cara, meu Deus, quanto tempo que faz, né? É ótimo ouvir o som da sua voz, mas preciso matar essa saudade pessoalmente. Sol da Meia-Noite. Te lembra algo? 

O detetive quase levantou-se da cadeira ao escutar aquele nome, associando à voz familiar do entusiasmado homem. 

— A memória tá começando a engrenar aqui... 

— Quem é? — indagou Carrie em tom baixo e impaciente, mas Frank pôs o dedo indicador direito na frente da boca pedindo silêncio e espera. 

— Todd Dugley. Acertei? Você é o dono da taverna onde eu e uns colegas de trabalho nos reuníamos pra encher a cara e comemorar nossas sobrevivências. 

O homem riu simpaticamente em confirmação. 

— Eita, rapaz, essa sua memória levou um tempinho pra dar um estalo hein. Você ainda tá naquele ramo? Tô afim de umas novas carcaças de bichos feios pras paredes do meu porão. 

— Sim, Todd, eu continuo vivendo mais perigosamente que qualquer outro policial. O problema é que... Não, espera, com quem obteve meu número? 

— Um amigo seu, o nome dele é Marcel, havia me dado faz uns anos. Fiquei receoso de você ter trocado. Mas felizmente pude aproveitar a oportunidade de te ligar pra uma ocasião especial. Esperei muito pra isso. Tam-tam-tam-tam...

— Odeio quando tu faz mistério, Todd. O que é essa tal ocasião especial? 

— Você está convidado para a grande reinauguração da Sol da Meia-Noite hoje as dez em ponto! — revelou Todd, sua voz grave estourando no viva-voz.

— Sério? Vai reabrir a Sol da Meia-Noite?! Puxa, que maravilha, cara. Só uma pena que meus parceiros não vão estar disponíveis pra celebrar. Eles... — Frank fez uma pausa recordando dos caçadores que matou no exato local após a discussão sobre Malvus — ... saíram da cidade, alguns até do país. Perdi contato com todos, até com o Marcel. Acho que será somente eu e... uns amigos do meu emprego formal. 

Carrie fez um joinha pra ele com uma piscadela, agradecendo a inclusão dela e de Giuseppe como acompanhantes. Frank não deixou de notar algo um tanto diferente no tom do velho amigo. 

— Ahn, Todd, é impressão minha ou... sua voz tá meio diferente? 

— É que eu tô comendo. Cara, tem que experimentar. — disse Todd falando de boca cheia, o que fez Frank e Carrie se entre olharem desconfiados e preocupados. 

— Não, você tá comendo agora, antes já tinha percebido sua voz mais grave... O que ocorreu contigo nesse tempo todo? 

— Ah, minha vida não mudou muito desde a última vez que nos vimos. Bem, só deixei de ser taxidermista porque você e os caras não vieram mais virar umas rodadas por conta da casa. Mas nos últimos dias eu senti uma mudança fenomenal com esse biscoito novo que andam vendendo nas casas. Acho que ganhei uns quilos a mais, finalmente tô pesando em dias o que em anos não conseguia com baldes de frango e massas. É estranho, mas... Sei lá, não me importo, só quero comer mais. Quando você vier, te dou um pacote pra você provar. Vai adorar. 

— É bom que você não morra de um ataque cardíaco com tanto tecido adiposo e gordura no organismo antes da festa. — disse Frank, tenso pelo amigo. 

— Que nada, chapa. Fica tranquilo, viu estar aqui te esperando, ansioso pra conhecer seus amigos normais. Eles são legais, né? Traz eles, espero que gostem da nova decoração. Incrementei mais classe.

— Ótimo, Todd... Tenha certeza que vou comparecer, tá combinado. Essa taverna é histórica, ela merece, você merece reerguer esse negócio, dedicou sua vida inteira nele.

— Depois de uns tempos sombrios, eu recuperei a energia e a esperança de dias melhores. A gente se vê hoje a noite, Frank. 

— Ah, Todd, só uma coisinha: qual o nome desse biscoito tão delicioso que você tá comendo?

— Gulomania. Umas meninas batem à sua porta vendendo, parecem bandeirantes, escoteiras... Elas dizem que arrecadam o dinheiro pra um hospital público. Espero que elas passem aí no seu bairro, mas se quiser te dou uma amostra grátis. 

— Talvez eu deguste. Olha, foi bom voltar a falar com você, Todd, tô muito feliz por essa sua volta por cima. Fica bem. Só não exagera nesse biscoito. Se sentir alguma coisa ruim, para de comer. 

— Não, eu tô super bem. Mais gordinho, mas de boa na lagoa. Vê se não fura comigo hein. Falou. 

— Falou, Todd, nos vemos a noite. — disse Frank logo encerrando a ligação. Ficou a encarar Carrie que parecia reprova-lo pela expressão decepcionada — O que foi? Tá olhando assim pra mim por que?

— A sua falta de coragem em aconselhar ele a parar de consumir o biscoito. Ele é seu amigo, iria ceder. 

— Ia soar esquisito pra ele, era capaz dele se irritar na teoria de que quem se vicia nesse bagulho fica num tipo de transe ou controle mental. Preciso descobrir a fórmula secreta da receita. A menina que testemunhou pode nos dizer. 

— Acha mesmo que Benson Grimm, mesmo nessa loucura vingativa, daria a receita pras suas pupilas? 

— É, tem razão. Mas posso conseguir uma informação robusta com ela, disso tô certo. 

— Ela se chama Millie, se instalou num retiro psicológico pra crianças na clínica psiquiátrica da zona oeste devido a exposição a toda aquela imundice de carne, sangue e tripas espalhadas pela sala. O endereço tá na pasta. 

— OK, já anotei mentalmente. — disse Frank, fechando a pasta — É caso de se resolver num dia só, então vou agilizar. A vida do Todd e as de muitos dependem disso. 

Frank e Carrje saíram juntos da sala antes de despedirem-se. 

— Te ligo assim que apurar as coisas. — disse Frank — É solucionar essa merda ou a festa do Todd vira um funeral. Até mais. 

— Até mais. — disse Carrie que logo dobrou para sua sala particular. Entrara, fechando a porta rápido e em igual ritmo se direcionou a sua mesa cuja gaveta estava entreaberta. Sentou-se na cadeira giratória, puxando a gaveta e dela retirou nada mais que um pacote de embalagem marrom do Gulomania. Se encostou confortavelmente, pondo um biscoito na boca, os olhos fechando ao saborear cada gota de chocolate que derretia na sua boca junto a massa. 

***

O retiro para crianças localizava-se entre o estacionamento e a clínica psiquiátrica. Frank se dirigiu até a área de lazer das crianças, um lugar bem arborizado e espaçoso com diversos brinquedos típicos de parquinhos urbanos. O detetive abordou a psicóloga responsável pela avaliação das crianças no tratamento de traumas desencadeados por situações trágicas, indagando sobre Millie. A psicóloga apontou para a menina que empilhava sobre uma mesinha alguns blocos minúsculos de madeira para fazer uma longa torre. Frank andara diretamente à ela, vendo-a de costas. 

— Olá, você é a Millie? 

A menina tomara um susto que a fez derrubar todos os blocos, desmoronando a torre. Chateada, ela levantou ao virar-se para Frank. 

— Olha só, estragou meu desafio! Quem é você? 

— Opa, me desculpa, não tive intenção. — disse Frank com um fraco sorriso de simpatia — Me chamo Frank, sou detetive a serviço do DPDC. Vim te fazer umas perguntinhas. Se importa? 

— Nem preciso adivinhar. Só quer meu depoimento pra me colocar na lista de suspeitos. — disse Millie cruzando os braços com rebeldia — Eu não tive nada a ver com a morte do Sr. Claw, se é o que veio saber.

— Não, de forma alguma vou te tratar como suspeita, por mais relacionada que você esteja com o caso. — disse Frank se abaixou apoiando-se num único joelho para um entrosamento melhor com ela. Porém, Millie contestou severa a atitude.

— Acha que eu tenho quantos anos? Sete? 

— Força do hábito, desculpa. — disse Frank, levantando — Millie, o que sabe a respeito dos biscoitos caseiros Gulomania? Quem te contratou? 

Millie comprimiu os lábios, desviando o olhar. 

— Não precisa ter medo se quiser revelar um nome. 

— Benson Grimm, o maior chef confeiteiro. Depois que ele foi suspenso do restaurante, resolveu lançar seu próprio negócio. Ele se isolou numa cabana. Sabia que ele tem uma cabana perto do lago? É lá onde ele fabrica os biscoitos. Mas... 

— Mas o quê? 

— Ele nos proíbe de ver a receita secreta. Na verdade, proíbe até de ver ele fazendo os biscoitos. Nenhuma de nós entra na cozinha sem permissão, principalmente enquanto ele bota a mão na massa. 

— Ele fornece alguma recompensa? Soube que o dinheiro que arrecadam com os biscoitos vai pra um hospital público sofrendo pela falta de insumos. Vocês fazem essas doações? 

— Sim, queremos ajudar a bater a meta ainda nessa semana. Bem, eu não vou poder ajudar, depois de tudo que eu vi... — disse Millie numa expressão de incômodo ao rememorar a visão grotesca na casa de Claw — Estão espalhando boatos de que os biscoitos fizeram o Sr. Claw explodir de tão gordo que ele ficou. Querem prender o Benson. Mas eu não disse nada pra polícia sobre onde ele vive. 

— Eu sou da polícia e você me deu a localização dele. Ele é um chef bem famoso, essa cabana dá pra achar rapidinho numa busca pela internet. 

— Por favor, não prende ele. Benson nunca colocaria nada no biscoito pra matar pessoas inocentes. O hospital precisa de verba urgente, as meninas dependem disso, é o primeiro emprego delas.

— Não vou até lá dar voz de prisão ao Benson. Minha obrigação é encontrar evidências comprobatórias da inocência dele ou não. Vou te fazer uma pergunta sincera: se acha que ele é tão inocente, por que os biscoitos estão fazendo todos que comem ficarem obesos? O que aconteceu com o Claw foi terrível, eu sei. Mas ele foi uma vítima especial. O Benson foi expulso do restaurante por ter sido reprovado numa crítica dele. Provavelmente, Benson pôs algum aditivo na receita que fez o Claw explodir. 

— Não pode ser verdade! Eu acredito no caráter do Benson, ele nunca se vingaria assim! — disse Millie, irritando-se com Frank — Um dos lotes que vendi pro Sr. Claw vinha com um brinde. Benson disse que era presente pra um amigo. Ele não guarda rancor só porque não passou no teste de degustação. 

— Então o que causou a explosão do Claw na sua visão? 

Millie silenciou, retraída, sentindo uma dúvida apertar sua consciência. Frank suspirou, pronto para ir. 

— Se eu for até a cabana do Benson, vou ter que pedir uma amostra pra analisar a composição da massa. Obrigado pela atenção, Millie. Mas reflita sobre uma coisa: a razão pela qual o Benson não deixa nenhuma de vocês saberem a receita. 

Frank deu as costas, deixando Millie a conjecturar sobre o mistério da fórmula. No estacionamento, o detetive caminhava em retorno ao seu sedã prata, mas ao passar por uma coluna a sua esquerda, Ethrea reaparecia andando ao seu lado. Notando-a surpreso, ele virou-se a tocando rudemente no ombro, parando-a.

— Ei, agora deu pra ficar no meu encalço onde quer que eu vou? Não é com espionagem que vai conseguir ouvir um sim saindo da minha boca. 

— Eu quero estabelecer uma relação saudável, mas o jeito que está me tocando parece ser seu sinal de indisposição com minha postura pacifica. 

— Oh, tentando ser legal me perseguindo. Tá se saindo bem. — ironizou Frank — Olha, me esquece, OK? Você e o resto do esquadrão angelical que se resolvam. Qual foi? Perderam os culhões? 

— Estamos tentando não perder a fé. Forças em conjunto numa batalha contra inimigos antigos não significa vitória. Toda ajuda é bem-vinda. Até de um simples e frágil humano com experiência vasta em criaturas submudnanas. 

— Vou ser sincero de novo com você: não conte comigo pra garantir a derrota desses monstros. Eu não tenho a arma secreta, a carta coringa, eu não sei tudo. Mas... — disse Frank, baixando a cabeça por um instante, um tanto relutante sobre o que diria — Eu sei de alguém que muito provavelmente pode dar um suporte bem mais robusto. O nome dela é Agnes Leinbow, uma bruxa, incomparável no que faz.

— Irei localiza-la, assim que possível. Se mudar de ideia... basta fazer uma prece... e o atenderei prontamente. — disse Ethrea que logo desapareceu em nanosegundos. Frank se deixou pensar nas implicações de uma aliança entre Agnes e os anjos sendo sua confiança na bruxa ainda pouco firme. 

***

A cabana de Benson Grimm situava-se na área mais bela da reserva florestal, uma em que abrigava um lago cristalino de ornar a paisagem digna de ser fotografada. Frank bateu à porta, sendo logo recebido pelo chef confeiteiro. 

— Olá, sou Frank Montgrow... 

— Em que posso ajuda-lo? – indagou Benson, um homem branco e gordo de papada destacada e bochechas coradas e cheias.

— Eu sou do serviço de inspeção sanitária, vim fazer umas averiguações de acordo com a ordem policial. Mais precisamente, acompanhar o processo de fabricação dos seus biscoitos caseiros que andam fazendo um sucesso explosivo... no mau sentido, infelizmente. 

Benson pigarreou forte para dar sua resposta. 

— Estou no meio do trabalho agora, minhas funcionárias acabaram de sair pra vender mais lotes de biscoitos e preciso fazer novas fornadas... 

— Não, tudo bem, juro que não vou fazer acusações, apenas quero analisar o controle de qualidade. Me permite? 

— Bem, se é assim... Está bem. Não sou louco de me encrencar com a polícia recusando a visita de alguém da vigilância sanitária mandado por eles. 

O detetive teve entrada concedida e acompanhou Benson até a cozinha onde o mesmo explícou sua metodologia culinária para fabricar os biscoitos. Frank evitou mencionar o efeito adverso da obesidade acelerada, se contentando em somente conhecer o ambiente. 

— Eu vou pegar meu livro de receitas e copiar pra você. Espere um minuto. — disse Benson indo até um cômodo, deixando Frank sozinho na cozinha. 

O detetive sabia o que elucidaria uma prova cabal naquele momento favorável e aproveitou. Após olhar pela brecha na porta entreaberta, Frank sacou seu medidor EMF e o ligou. O aparelho emitiu seu ruído característico, registrando leitura amena com variando entre dois a quatro traços no visor. Frank aproximou de uma panela cozinhando a massa e viu a leitura saltar de três dez traços, o limite. 

— Ele já incluiu o ingrediente secreto. Se eu pudesse levar um pouco dessa gororoba aqui... — disse ele mais próximo da panela, inclinando-se, meio que inebriado com o aroma doce. Benson voltara. 

— O que está fazendo? — indagou ele trazendo o livro. 

— Ahn... Eu não tava beliscando, só... sentindo esse cheiro delicioso. Você me convenceu. Mas a polícia não vai desistir, sinto muito. 

— Estão tentando sabotar minha honesta empreitada. Aqueles críticos são parte de uma corja que faria qualquer coisa pra não ver um talentoso chef como eu ser massivamente prestigiado. — disse Benson aproximando-se — Uma raça de víboras sedentas por destruir sonhos, planos e vidas. 

— Iriam mesmo tão longe só pra te tirar do circuito glamouroso da gastronomia? Até suicídio? Eu não faço ideia de que tipo de droga ou substância eles tenham ingerido pra explodirem que nem balões. Soa tão drástico, parece absurdo demais.

— Capazes de tudo, não duvide. Bom, aqui está meu livro, se quiser posso arrancar a página da receita...

— Não, não tô interessado em reproduzir sua ideia. Com certeza não vai nem chegar perto. — falou Frank de modo fingido, porém simpático. 

— Então fique com um pacote de cortesia. — disse Benson pegando uma caixa de Gulomania e a entregando a Frank — Esse vem com um brinde exclusivo. Meu presente pela aprovação. 

— Obrigado, Benson. — disse Frank, olhando para a caixa — Me diz uma coisa: onde fazem essas embalagens? 

— Eu encomendo numa gráfica industrial. 

— Espero que bata a meta de arrecadação em prol do hospital. Até mais, foi um prazer. 

— O prazer foi meu em recebê-lo. — disse Benson o acompanhando até a porta. Ao ver pela janela Frank se distanciando, Benson virou-se, mas com uma aparência horrivelmente distinta. Sua pele numa mistura de rosa e escarlate com saliências sinuosas no rosto. Seus lábios carnudos e roxos formavam um sorriso infame de quem estava certo em ter eliminado um obstáculo. 

Pelos fundos, as meninas retornavam de mais uma jornada produtiva de vendas. Eram um trio de garotas entre 9 e 11 anos, todas uniformizadas e parecendo contentes com o andamento da angariação. Benson, ou o sujeito monstruoso que o usurpava, rapidamente reassumiu sua aparência humana para receber suas pupilas. 

— Ora, mas que surpresa, voltaram tão rápido. E então? Progressos?

— Dessa vez, sobraram alguns. — disse a menina do meio entregando sua parte da arrecadação — Teve gente que bateu a porta na minha cara só de saber que eram nossos biscoitos. 

— Meus biscoitos. — corrigiu o falso Benson contando as notas — Nada dura pra sempre, crianças. E ninguém é insubstituível. O que acham que vou fazer depois que o hospital finalmente alcançar a meta? 

— Vai passar a dividir a grana conosco? — indagou uma das meninas, esta sendo a mais velha, de cabelo castanho e ondulado e usando aparelho ortodôntico — Merecemos um salário, pra variar. 

O falso Benson desatou a rir em tom de escárnio. As bandeirantes se entreolharam confusas. 

— Qual é a graça? — perguntou outra menina, esta sendo negra de cabelo crespo. 

— Admiro muito o entusiasmo de vocês, meninas. — disse ele, recompondo-se da crise de riso — Mas tenho de ser abertamente honesto: quando esse dia chegar, não precisarei mais de seus serviços, nossa sociedade infelizmente chegará ao fim, lamento. 

— Vai nos despedir?! — disse a menina do meio em postura de revolta — Não é justo! Temos dado o maior duro e você não dá valor a nosso esforço!

— É! Tem agido estranho desde a saída da Millie. Costumava ser legal no começo, agora tá bancando o chefe malvado. — disse a menina de cabelo crespo — Tá escondendo alguma coisa da gente? 

— Eu escondendo algo? O único segredo aqui é a receita e somente. Prometo que vou remunera-las para que saiam com dignidade. Combinado? Agora esperem aqui, pois tem mais um estoque novinho pra despachar. — disse o falso Benson saindo da sala. 

Frank ainda caminhava pela floresta tentando achar um ponto estável pada o sinal telefônico. Ao conseguir, ligou para Carrie. Enquanto chamava, o detetive abriu o pacote e arriscou uma mordida num biscoito. Mastigou, aprovando o sabor. Porém, balançou a cabeça em negação e largou o pacote no chão. Carrie incomumente demorou a atender a ligação.

— Ei, fiquei esperando uns dois minutos, eu acho. Você nunca leva tanto tempo assim pra atender. Tá fazendo o quê? A menos que seja algo mais importante que nossa investigação, eu vou relevar. 

— Eu tava... Olha, me desculpa. Não por isso, err... 

— Carrie, você... tá falando de boca cheia. Tá comendo o quê? 

— Ah, foi mal, não quis te irritar. Sabia que o som mais irritante pro ser humano é o de outra pessoa mastigando? Você não é exceção, eu sei... Me incomoda também, mas... Não acha hipocrisia... alguém ficar zangado... com som de mastigação alheio... e tolerar o seu próprio? 

Frank semicerrou os olhos, não pressentindo bem. 

— Foca no caso, a gente tá mais perto do que longe de desvendar o mistério acerca do Benson Grimm. Sai há pouco da cabana onde ele passava as férias com as família e agora fez morada fixa. Liguei o EMF pelas costas dele e cheguei perto da panela cozinhando a massa... e uma massa bem apetitosa, devo dizer... Enfim, deu leitura máxima. Benson armou uma arapuca paranormal das brabas pra retaliar contra os críticos. Ele até quis me oferecer a receita secreta no papel caindo no meu papo de agente sanitário, mas... recusei, não sei se agi certo. Ganhei um pacote grátis com um brinde. 

— Ah, traz pra cá! Digo, digo... Como saberia se era mesmo a receita original? — perguntou Carrie ainda mastigando enquanto falava — Você fez certo em dispensar... a suposta receita... Mas e o pacote? Que brinde é esse?

— Foi só um presentinho pra me tornar um viciado e me tirar da jogada, bem óbvio. Ele pensa que... — disse Frank interrompendo-se ao lembrar que deveria dar uma atenção especial ao brinde — O brinde. — falou, virando-se para o pacote no solo. O apanhou de volta — A Millie me disse que um dos lotes vendidos pro Claw vinha com o brinde especialmente destinado a ele como um presente. Só preciso encontra-lo no fundo da caixa, mas tô no meio da floresta, ele talvez tá me vigiando. Vou pra casa. 

— Não, me deixa fazer uma pesquisa... ou vem pra cá e traz esse pacote pra gente descobrir o brinde. 

— Não, Carrie. Melhor você ficar quentinha aí. Deixa a pesquisa com o papai aqui, você precisa recarregar, tá exausta. Relaxa, continua comendo o que você não para de mastigar um minuto, mas só cuidado pra não exagerar hein. 

— Não tem dizendo aqui "aprecie com moderação". As porções não importam. Ah, te mandei uma foto. Tô um pouco gordinha, mas deve ser o ângulo. Tchauzinho. 

Após a ligação ser encerrada, Frank verificou a foto enviada na rede social de compartilhamento de imagens. Carrie havia feito uma selfie segurando um pacote de Gulomania. A forma física da assistente estava visivelmente diferente, mostrando um rosto mais cheio. O alerta de Frank soou em apreensão.

— Ótimo, mais alguém que me importa vitima dos quilos mortais. Hora de comer... Digo, de correr. 

***

Enquanto isso, as meninas, ainda na sala de estar da cabana, discutiam bem juntas, colocando as mãos sobre os ombros umas das outras para formar uma roda a fim de deixarem a conversação o mais privada possível. Havia um desafio a cumprir por uma delas. 

— Tá legal, fazemos assim: pedra, papel ou tesoura pra decidir quem vai. — disse a mais velha — Prontas? Pedra... papel... tesoura! 

As três mostraram suas escolhas. A menina de cabelo crespo venceu com tesoura contra dois papéis, mas não demonstrou felicidade.

— Logo eu?! Tudo bem, mas só uns dez segundos. — disse ela, logo indo até a cozinha cuja porta via-se entreaberta. O falso Benson preparava novos biscoitos. A menina o flagrou bem no instante da extração do ingrediente secreto e arregalou os olhos em espanto. Viu seu chefe cortar tiras de sua própria carne com uma faca bem afiada e jogar uma na massa pré-cozida. Ela correu para avisar as demais, porém o falso Benson rapidamente virou-se ouvindo um ruído na porta, suspeitando ter sido observado e pego em flagrante. "Aquelas ratinhas..." pensou ele. 

***

Já em sua casa, Frank realizava a pesquisa a que se propôs fazer no lugar de Carrie, preferindo deixá-la ocupada satisfazendo sua fome entorpecente ao crer que a influência da fórmula do biscoito atrapalharia a concentração e o raciocínio. Sentado no sofá com o laptop no colo, o detetive digitou o nome do chef. Como chef de renome que era, Benson Grimm apareceu referido em diversos sites. 

Clicou na aba de notícias e cravou a atenção na mais recente, cujo título o fez sobressaltar. 

— É, isso explica quase tudo. — disse ele clicando na matéria jornalística que enunciava: "Onde está Benson Grimm, desaparecido há uma semana?" — Como que a polícia não ficou sabendo disso? A não ser que o Benson tenha prestado depoimento e... trataram isso aqui como notícia falsa. 

No texto mencionava que Benson havia partido num passeio de barco sozinho durante a noite na lagoa da zona norte, sendo até fotografado no fim da tarde enquanto se preparava. A informação do desaparecimento veio da família, tendo em vista que Benson planejava retorno na tarde do dia seguinte. 

— Se a própria família tá dizendo... Quem sou eu pra duvidar? 

O detetive foi até a cozinha pegar o pacote de Gulomania. Esvaziou-o sobre a mesa e procurou o brinde entre os biscoitos. Encontrou algo que se distinguia e pegara. Parecia uma espécie de chaveiro com um bonequinho artesanal, uma miniatura de Benson com vestes de cozinheiro, incluindo o gorro. Porém, o chef estava com uma aparência modificada, a pele vermelha e rosada, além da face com feições pouco humanas. 

Frank decidiu ir até os arquivos de seu pai e puxou a pasta com a letra G. Folheou até encontrar a figura que se assemelhava ao boneco. Um monstro exageradamente obeso com uma bocarra aberta repleta de dentes pontudos na sua barriga. 

— "Gulomor, o senhor da glutonaria. Emerge do submundo para o nosso a fim de espalhar a fome voraz como uma praga exterminadora. Basta um simples contato visual para levar suas vítimas a um estado de obesidade acelerada que culmina em morte a curto prazo. Também pode crescer de tamanho, engolindo pessoas com sua enorme segunda boca que funciona como um portal pra outra dimensão ligada ao seu estômago. Não importa quantas vítimas absorva, pode escolher assumir a aparência de quem estiver dentro." 

***

Retornando a floresta, Frank seguia com arma em punho pretendendo chegar a cabana sorrateiramente para salvar as meninas, crendo na hipótese de estarem mantidas reféns. Pensou em telefonar novamente para Carrie, mas considerou que seira um erro visto que a assistente estava sob efeito da fome incontrolável estimulada pelo biscoito, talvez sequer ouvisse o toque do celular. O detetive percorreu mas uns metros, podendo avistar a cabana ao longe. 

Contudo, uma presença vinda por trás foi impossível de ignorar. Virando-se, Frank pôs a arma em riste vendo se tratar do Gulomor usando a falsa aparência de Benson Grimm. 

— Agente Montgrow. Bom vê-lo de volta. Oh, espere, não devia estar apontando isso pra mim. Acha que sou um criminoso? 

— Se eu acho? Você é coisa pior, muito pior. Chega desse disfarce, mostra tua cara feia de verdade e partimos pra um papo reto e franco  É o meu aviso. 

O falso Benson sorriu cinicamente. 

— O que achou dos biscoitos? 

— Fiz uma degustação e até que gostei. Só que não caí na sua artimanha como você esperava. Afinal, eu nem estaria aqui se tivesse virando um biscoitólatra até virar um gordo com as artérias entupidas. Cadê as meninas? Espero que não tenha cozinhado elas. 

— Estão lá dentro, mas não por muito tempo. — disse Gulomor revelando sua verdadeira face cobrindo a pele falsa. Frank atirou contra o peito dele, mas o disparo não causou dano. Deu mais dois tiros, também ineficazes. Gulomor riu com infâmia. 

— É, pelo jeito tô vendo que não tem como te derrotar aqui do lado de fora. Tá esperando o quê? — perguntou Frank, abrindo os braços — Me engole, desgraçado! 

— Pela primeira vez alguém implora para conhecer meu porão. Tem certeza disso? Eu gosto de saborear em vez de engolir inteiro. 

— Não tô implorando, tô mandando você abrir sua bocona e me sugar pra dentro do seu mundinho! E acho bom não se vestir com minha pele. 

Gulomor tirava o avental e a camisa, largando no solo, mostrando seu corpo vermelho e cheio de banhas e pregas. Sua estatura aumentou conforme uma boca enorme com dentes pontudos se abria na sua barriga. Uma força de sucção pegou Frank por inteiro com os estivesse diante de um aspirador gigante, arrastando com ele pedrinhas e folhas secas. O detetive gritou enquanto era tragado para o interior da bocarra qie logo se fechou após o feito. 

— Ah, delícia. — disse Gulomor, satisfeito com a refeição.

As meninas esperavam na sala o falso Benson voltar. Se levantaram ao mesmo tempo assim que ele ressurgiu novamente como o chef, o encarando raivosas. 

— Por que ainda estão aqui? — questionou ele, ríspido, vendo o estoque no carrinho de puxar. 

— Não vamos a lugar nenhum. — disse a menina mais velha de braços cruzados. 

— Mentiu pra nós. Você é um monstro! — acusou a que o flagrara na cozinha. 

— Do que estão falando? Mas que absurdo! É só eu virar as costas por uns minutos e me vêm com essa! 

— Não se faz de sonso! — disse a outra, mais nova — A Claire viu tudo! Você cortando sua própria carne do braço e pondo na massa! Esse é o ingrediente secreto, não é? 

O falso Benson suspirou longamente, considerando uma ação radical. Se dirigiu até a cozinha. 

— Tomei uma decisão sobre vocês, meninas. Violaram nosso acordo de confidencialidade. Isso não pode passar incólume, vocês me traíram. 

As três aguardaram ele voltar, temerosas. Todas reagiram estupefatas ao vê-lo vir da cozinha segurando um cutelo afiado na mão direita. 

— Sinto muito, mas estão demitidas. — disse Gulomor sme mais seu disfarce de Benson. O trio gritou de horror e correu para fora da cabana, fugindo em desespero. Gulomor testou o fio de corte do cutelo passando na própria língua que se bifurcou e depois regenerou-se — Perfeito. 

Paralelamente, Frank quase se afogava num mar estranho, ardente e vermelho como o céu aterrorizante daquele mundo à parte.  O detetive cobrou os olhos ao ver a luz de um barco em aproximação ilumina-lo. O barco parou para socorre-lo, a pessoa que o comandava estendendo a mão. 

— Venha, segure firem! 

Frank nadou um pouco, logo agarrando-se a mão salvadora que o puxou para o barco. Ele olhara bem, constatando ser ninguém menos que o real Benson Grimm em pessoa. 

— Finalmente um colega de cela. — disse o chef — Como se chama? 

— Frank. Então você é o verdadeiro Benson Grimm... e isso aqui... — disse Frank, encharcado, olhando em volta — ... é o estômago interdimesional do monstrengo que tá sendo teu sósia lá fora. 

— Eu sei disso. — falou Benson — Estranhamente, vejo as ações dele nos meus pensamentos, como se nossas mentes estivessem conectadas. Isso desde que vim parar nessa terra de ninguém. — pegou uma toalha — Tome. Se eu não tivesse vindo a tempo, você teria virado carne corroída enquanto se afogava. Essa água é o suco gástrico dele. Ia te dissolver em instantes. E agora? 

— E agora? — repetiu Frank enxugando-se — A gente dá um jeito de sair desse esgoto estomacal. Sua família deve estar muito desamparada. 

— Opa... — disse Benson tendo uma visão de Gulomor — Eu consigo ver... Aliás, eu vi ele indo atrás de você e fé engolindo... Agora o vejo... procurando as meninas na floresta... Está armado com um cutelo, vai mata-las! 

Na floresta, Gulomor se divertia ao caçar as meninas que não sabiam pra onde seguir. O monstro caminhou perto de uma pedra grande, passando o cutelo que produziu faíscas. 

— Que tal nos separarmos? — sugeriu a mais velha.

— Tarde demais, lindinhas. — disse o monstro, as encontrando. As três se alarmaram, recuando — Se quiserem correr separadas, podem ir. Mas lembrem-se que a floresta é bem extensa. Eu tenho o dia todo pra brincar de esconde-esconde com três petiscos suculentos e perdidos por aí. — deu uma risada infame. As meninas gritaram alto por socorro.

No estômago de Gulomor, Frank e Benson discutiam um modo de escaparem. 

— Vem aqui. — disse Benson indo até a cabine de comando do barco. Frank seguiu atrás dele — Naqueles baldes tampados... eu guardei tudo que eu não pude despejar num banheiro nos últimos dias. — falou ele, constrangido. 

— Ahn... Estocou suas fezes nesses baldes?! Podia ter despejado na água. 

— De início, fiz isso. Mas parece que causou alguma reação agressiva... O suco gástrico ficou agitado, como um mar revolto numa tempestade. Senti que se elevava parecendo um gêiser prestes a entrar em erupção. Pensei que causaria um desastre se eu continuasse, provocando minha morte. 

— Nossa, a fraqueza do rolha de poço é... bosta humana. Por essa não esperava. — disse Frank julgando bizarro — Mas tá aí que vi vantagem. Ainda dá tempo de salvar as meninas, não dá?

— Ele já as achou. Por enquanto, só está intimidando elas. 

— Benson, vamos ter que derramar todo seu cocô direto nessa água imunda pra criarmos um temporal de estremecer esse lugar. É o único meio de sairmos. Você tem a bomba... — disse Frank, retirando a miniatura que havia guardado consigo, mostrando- a ao chef — ... e eu o detonador. 

Benson esvaziava os baldes junto a Frank, jogando o excremento no suco gástrico que não tardou em entrar no ponto de ebulição, gerando um tremor que fizera o barco chacoalhar para os lados. A dupla se segurava para evitarem cair. Frank sofria dificuldade para jogar o boneco na água. 

— Frank, só joga! — gritou Benson. O detetive procurou se apoiar na borda do convés e enfim tivera êxito na tarefa. O boneco mergulhou fundo na água corrosiva que repentinamente explodiu numa elevação perigosa na dimensão. 

No mundo externo, as meninas estavam juntas, chorando na iminência de serem estripadas por Gulomor e seu cutelo reluzindo ao sol da tarde. 

— Qual de vocês devo fatiar primeiro? Você? — indagou, apontando para Claire — Que teve a ousadia de me desobedecer! É, faz sentido. 

Porém, o monstro parou, travando completamente. O cutelo largou-se no solo. Gulomor sofria uma tremedeira e em seguida um inchaço súbito do seu corpo que inflama feito um balão de ar até adquirir um tamanho descomunal, similar ao de um prédio de oito andares. As meninas gritavam abraçadas em recuo.  Ao chegar no limite, Gulomor explodiu catastroficamente, um altíssimo volume de sangue voando pelos ares, passando da altura das árvores. 

As meninas foram cobertas de sangue e vísceras. Os arredores foram devastados. Mas felizmente Frank e Benson saíam sãos e salvos, ainda que muito mais encharcados de sangue grosso e quente. O detetive estava ilhado numa poça de sangue misturado a entranhas liquefeitas com Benson ao seu lado se limpando. O barco caiu destroçado perto das árvores. Frank limpou os olhos, vendo as meninas os encararem atemorizadas.

— O Sr. Redondo já era. — disse era. 

Elas gritaram em uníssono e correram dali traumatizadas com o ocorrido. 

— Acho que a Millie vai revê-las em breve. — disse Frank. 

***

À noite, a festa da reinauguração da taverna Sol da Meia-Noite aliviou as tensões que o dia trouxe, especialmente para Frank e Carrie que brindavam com Todd Dugley o início de uma nova era para o estabelecimento. O anfitrião foi ao centro do espaço subir numa cadeira para discursar. 

— Temos muitos velhos rostos aqui, mas um em especial se destaca pra mim. Ele tá bem ali. — disse Todd apontando para Frank. Todas as atenções se voltaram imediatamente ao detetive — Frank é um dos clientes mais antigos deste bar, se reunia com uma galera que faz muita falta hoje neste momento. Tenho orgulho de chamá-lo de amigo por acreditar que a Sol da Meia-Noite irá trilhar um novo caminho de sucesso e ainda mais próspero. À você, Frank. — falou ele erguendo seu copo cheio. O detetive fizera o mesmo com um sorriso simpático.

O público prestou uma salva de palmas a Frank que distribuiu sorrisos fechados e tímidos para as pessoas enquanto seguia ao balcão onde estava Carrie e Giuseppe. Sentiu o celular vibrar se aproximou e verificou a mensagem. 

— Como ainda consigo lembrar de estar acima do peso? Não estava num transe? Se perdi a gordura, o mesmo devia ter ocorrido com as lembranças sobre a farra com o biscoito. — disse Carrie, um tanto inconformada. 

— Se anime, ao menos todos que foram afetados pelo vício voltaram ao normal com o fim desse monstro. E tudo graças ao Frank. — disse Giuseppe. 

— Ih, conheço essa cara, esse olhar... — disse Carrie ao analisar Frank olhando para o celular — O que diz aí? Quem mandou? 

— O Hoeckler. — disse Frank tirando os olhos do celular — Ele escapou do cativeiro, não disse como, mas disse que tá bem...

— E isso não é bom? Por que parece estar preocupado? — questionou Giuseppe. 

— Ele... tá me propondo um favor dificil de julgar. 

— Qual? — indagou Carrie. 

— Quer usar o porão da minha casa como novo cofre de segurança... pra tumba do Zaratro. — revelou o detetive que não fazia ideia da resposta que daria por imaginar milhares de possibilidades desastrosas no caso de concordar. 

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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagem retirada de: [1]





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