Frank - O Caçador #92: "Turbulência de Alto Risco"

O voo 472, que até certo período após a decolagem segura se mantinha estável, corria um alarmante risco de ser malfadado ao se defrontar com uma gigantesca nuvem de tempestade piscando relâmpagos e raios e emitindo retumbantes trovões. O piloto encarou com nítido temor a nuvem preto-azualada engolir a aeronave para seu interior tormentoso do qual rezava para sair com todos os passageiros ilesos, bem como o próprio avião. 

Uma turbulência súbita chacoalhou o boeing, levando a uma consequente despressurização, instaurando um clima de pânico geral. Em meio aos gritos apavorados, um homem barbudo de cabelo preto e meio gordinho, usando óculos de grau e casaco longo preto parecia alheio a cacofonia de medo e angústia que assolava a cabine e às luzes dos relâmpagos piscando através das janelas aliadas ao balançar apavorante do avião. Lia uma revista em quadrinhos ignorando quando sua máscara de oxigênio. Todos puseram as suas logo que caíram, exceto ele que seguia imperturbável na leitura. Uma mulher ao seu lado retirou a máscara apenas para lhe questionar:

— O que há com você? É uma situação de emergência! Como pode estar tão tranquilo assim? — perguntou aos berros — Ponha sua máscara! Ou vai esperar seus pulmões sentirem necessidade? 

O homem virou o rosto para ela num sereno e um pouco entediado. 

— Eu vou esperar sobreviver. — disse ele, calmo. 

A mulher franziu o cenho, balançando a cabeça.

— A droga desse avião corre perigo de cair e você não toma a iniciativa de colocar a máscara de oxigênio pela sua vida?! Não faz sentido! Qual o seu problema, afinal? Como se imagina sobrevivendo?

— Com a minha fé em ação. — respondeu ele. 

— Eu bem que ouvi você sussurrando antes disso acontecer! Estava orando, não estava? Sua fé é tão grande a ponto de não temer pela sua vida numa situação dessas? 

O homem dera um sorrisinho de canto. 

— Não há o que temer quando se tem o amparo do sobrenatural. 

— Está falando de Deus? 

Ele assumiu uma expressão de dura seriedade. 

— Não. – disse, secamente. 

A aeronave sacolejou mais agressivamente, a tempestade de raios piorando o estado crítico do voo. Danos na fuselagem surgiram, pedaços soltando e voando, partes explodindo, fatores que ocasionaram na virada rápida e inevitável do avião para baixo, mais precisamente direto ao oceano.

***

Departamento Policial de Danverous City

Frank e Carrie adentraram lado a lado à sala de Giuseppe sendo nem recebidos pelo diretor operacional da corporação - com o qual ainda haviam estabelecido pouca relação de afinidade, não alcançando o mesmo nível que desfrutavam na companhia de Ernest, tendo o luto pelo ex-chefe como um dos fatores contribuintes para a interação mais profissional. 

— Obrigado por virem prontamente. — disse Giuseppe de pé frente a sua mesa. 

— Quer que a gente se sente? — indagou Frank já fazendo menção de pegar uma das cadeiras. 

— Não, tudo bem, fiquem aí mesmo, serei muito breve. — disse Giuseppe que pigarreou antes de iniciar a notícia que tinha a repassar — Pois bem, nosso departamento foi aprovado e contemplado por uma importante corporação britânica. 

— Se refere a promoção que elegeria qual departamento americano teria a chance de fazer uma parceria com um de outro país, enviando agentes como numa espécie de troca de famílias? — questionou Carrie — O DPDC saiu vencedor mesmo? 

— Eu não sabia que tínhamos tanta credibilidade reconhecida assim no exterior. — disse Frank tão surpreso quanto a assistente. 

— Exatamente, o DPDC se tornou uma referência a nível internacional e nada melhor que levar meus dois mais célebres funcionários numa viagem de primeira classe até Londres para combinarmos esforços investigativos num caso em especial por lá. Enquanto isso, um agente e sua equipe da corporação britânica virão até aqui fazer o mesmo. 

— Pra quando tá marcada essa viagem? – indagou Frank. 

— Amanhã, o voo sai às onze da noite. 

— Nossa, já vou começando a arrumar as malas. Os hotéis londrinos são um verdadeiro arraso. — disse Carrie, empolgando-se contidamente — Bem, não que eu esteja desdenhando do real objetivo da viagem. 

— Eu não tô tão confortável quanto você em relação aos luxos da viagem ou ao trabalho em si. — disse Frank. 

— Ué, por que? — indagou Carrie. Giuseppe partilhava da dúvida com olhos semicerrados ao detetive. 

— Vou ter que reverter metade do salário dessa missão pro vigia noturno do meu bairro. 

— Ah, entendi. A segurança do lar sempre em questão. Mas não se preocupe, Frank, o que será pago cobrirá muito mais que a recompensa do seu guarda. — disse Giuseppe, tranquilizando-o — Estamos conversados, por fim. Espero vocês amanhã no aeroporto de Los Angeles uma hora antes do embarque. Não se esqueçam, voo 704. 

— Sem problema, já memorizei. — disse Frank, pronto para sair. 

— Até amanhã, diretor. Mal posso esperar. — disse Carrie sorridente. Ambos saíram da sala, seguindo pelo corredor até a sala particular de Frank para discutirem o novo caso — Se eu fosse ele, daria uma folga como preparação. Aliás, uma folga pra você já que... bem, ele sabe da sua outra vida, devia abrir uma exceção, você gasta mais estamina. 

— Não tá afim de voltar lá e fazer esse singelo pedido, né? — perguntou Frank, olhando de soslaio para ela — Hoje não tá um dia bom pra levar bronca. 

— OK, vou me conter, embora só quisesse ajudar.

— Carrie, o Giuseppe não é o Ernest. Sabe, eu fico pasmo como as vezes você tenta forçar amizade com ele. Fomos na reinauguração da Sol da Meia-Noite, tudo bem. Mas ali ele foi como nosso convidado, não exatamente um amigo íntimo. Por mais que ele saiba do que faço por trás da fachada de detetive na maioria dos casos, não significa ele querer proximidade comigo da mesma forma que o Ernest, não é a mesma sintonia. 

— Tá, já entendi. O Ernest no quesito chefe amigo era de fato insubstituível. Acredita que só precisamos de um tempo a mais com o Giuseppe? Ele só assumiu o cargo há pouco mais de um ano. 

Frank preferiu se silenciar por um instante, querendo encerrar aquele assunto de uma vez por todas em aceitação de que era impossível refletir o mesmo grau de relacionamento com o ex-chefe no atual. A dupla entrou na sala de Frank que acendeu as luzes e abriu as persianas. Carrie, que já vinha com a pasta do caso do dia, se preparava para debater as informações da investigação anterior a viagem. 

— Excepcionalmente, não abri a pasta antes de te entregar, pois na mesma hora fomos chamados. — disse Carrie entregando o dossiê para Frank. O detetive se encostou na mesa, quase sentando nela, folheando as páginas enquanto corria os olhos pelos textos em sua leitura dinâmica — Que não seja um tão exaustivo. Não queremos deixar a resolução de un caso paranormal pra em cima da hora da viagem.

— Não, esse aqui até parece... normalzinho pro meu gosto. Só que... é incrivelmente sugestivo. 

— O que diz aí? Vai, não enrola, tô nervosa. — falou Carrie, as mãos gesticulando agitadas. 

— Três acidentes aéreos em intervalos relativamente curtos dos quais houveram apenas um sobrevivente. Alejandro Garcia, escapou do voo 456 que bateu numa rocha e se espatifou todinho. Derek Shelby, sobreviveu no voo 732 com ferimentos, mas fugiu do hospital dois dias antes de receber alta e é dado como desaparecido. E enfim o terceiro e mais recente, Phineas Rice, embarcou no voo 472, esse acabou caindo no fundo do mar. Ele saiu com alguns ferimentos e recebe alta hoje do hospital geral de Los Angeles, agorinha de manhã. Talvez já deva ter saído. Diz aqui que ele fez reserva antecipada num hotel de Danverous City com um novo voo já com passaporte garantido. Captou a estranheza desses desastres? 

— Por favor, até parece que precisa desenhar pra mim. Acidentes aéreos com vítimas fatais, ocorridos em espaços de tempo meio próximos e com um único sobrevivente... Isso desafia as probabilidades. 

— E a coisa fica mais cabeluda e suspeita. — disse Frank lendo uma nova página — Encontraram, nos três voos, restos mortais de homens com antecedentes criminais pesados, tipo terrorismo biológico e atentados a bombas. Mas nunca haviam achado provas substanciais que os ligassem aos incidentes. Pelo menos as arcadas dentárias dos meliantes saíram inteiras pra reconhecimento. 

— Isso só denuncia que... — disse Carrie, pensativa, deixando a frase no ar. 

— Os três caras sobreviventes... podem ser, na realidade, um só. Ou um grupo que definiu bombas nos aviões pra eliminar alvos específicos, no caso os terroristas. — disse Frank, completando o raciocínio. 

— Un mesmo cara usando identidades falsas ou um grupo terrorista rival agindo em retaliação. — teorizar Carrie.

— Mas o que tá fazendo a pulga atrás da orelha coçar é a razão de sobrevivência. Os três voos, segundo as análises das peças que foram recolhidas, atravessaram tempestades de raios, muitas delas com marcas de chamuscado. — disse Frank, logo imaginando o que poderia explicar a surreal escapatória do homem misterioso — Ninguém, em hipótese alguma, sairia apenas ferido de desastres como esses, em circunstâncias como essas. 

Carrie olhou para o detetive como se quisesse cruzar pensamentos numa telepatia desejada. 

— A menos que se beneficiasse de um recurso... bem vantajoso e prático como nenhum outro. 

Frank entendeu o que a assistente especulava e assentiu. 

— Vou atrás desse tal de Phineas, se é que esse é o nome real dele. Se hospedou no hotel Carmine, quatro estrelas, zona sul... — disse Frank que pausou a fala de repente, olhando um detalhe que não havia sido percebido. Carrie preocupou-se com a expressão tensa do detetive e ansiava por respostas.

— Frank, o que foi? Viu o quê aí? 

— Não queria estragar sua empolgação com a viagem, mas... O próximo voo do Phineas... é o 704. — revelou Frank tirando tirando os olhos da página para encarar seriamente a amiga — O nosso voo. 

A face de Carrie se empalideceu tamanha sua reação de perplexidade, boquiabrindo-se involuntariamente. 

— Meu Deus... — disse ela, sentindo o júbilo com a viagem se esvair. 

— Tenho que fazer esse cara sair algemado daquele hotel ou senão a gente tá ferrado. — determinou Frank, atordoado com a coincidência mal sortida. 

***

O hotel Carmine possuía uma modesta sala de recepção em termos decorativos, local que naquele instante tinha certo movimento de hóspedes. Frank adentrava correndo os olhos pelos lados, indo até o balcão para falar com a recepcionist, uma mulher negra de cabelo em corte chanel que no momento se via no meio de uma ligação. O detetive aguardou ela desligar. Logo após colocar o fone de volta no gancho, a mulher voltou-se para Frank.

— Olá, bom dia. Reservas? As vagas estão mais limitadas hoje, mas acho que veio numa boa hora. 

— Não, eu só vim... deixar uma encomenda pra Phineas Rice. É aqui onde ele resolveu ficar, né? 

A moça conferiu a lista no computador, encontrando o nome em alguns segundos.

— Sim, há alguém com esse nome, está no quarto 35. Não quer deixar um dos mensageiros levar até ele? 

— Não, faco questão de entregar pessoalmente. Sou um grande amigo dele. A propósito, ele se encontra no quarto agora? 

— Tive a impressão de tê-lo visto sair, estava muito ocupada, não reparei bem. Fique à vontade pra ir até o quarto e ver se ele está lá, de repente ele pode ter voltado e eu nem notei. — disse a mulher que logo se atentou a um pormenor, fazendo Frank parar após o primeiro passo — Ahn... Desculpa perguntar, mas... Onde está a encomenda? 

— Ah, tá aqui guardada no meu sobretudo embrulhada, é um presentinho singelo. Espero que ele goste. — disse Frank que recebeu um sorriso simpático e compreensivo da moça, finamente podendo se dirigir ao quarto em questão. O detetive passou por alguns corredores até achar o número. Precisou lidar com a incerteza de Phineas estar ou não no seu aposento para bater na porta. E o fizera sem medo. Porém, o tempo de espera evidenciou a verdade. Sem voz e nem barulho de passos. Frank tocou na maçaneta redonda, girando-a. A porta revelou-se destrancada — Muito bem, garoto esperto. É assim que se faz. Não se preocupe com ninguém que possa... cometer uma invasão. 

Entrou no quarto, fechando a porta em seguida. Cravou os olhos na bolsa de viagem cor preto-esverdeado aberta em cima da cama. Levou suas mãos diretamente à ela, remexendo nos pertences de Phineas torcendo para não ouvi-lo se aproximar antes que descobrisse quaisquer itens comprometedores. Pegou uma carteira e a esvaziou, deixando cair várias identidades sobre a cama, todas falsas. Viu as que possuía os nomes que usou durante as viagens anteriores. Além disso, olhou mais fundo na bolsa, pegando uma máscara de disfarce que imitava um rosto humano de forma crível. 

— Caramba, parece até que esse cara trabalha pra uma agência de espionagem ao estilo Missão Impossível. — disse Frank que ouviu alguém assoviando em aproximação ao quarto, logo deduzindo ser Phineas. Guardou as identidades falsas na carteira e enfiou a máscara de volta na bolsa. Como estava no terceiro andar e os passos poucos distantes, recorreu a esconder-se embaixo da cama depressa. Segundos depois de fazê-lo, a porta abrira. Era realmente Phineas retornando, mas não permaneceu sozinho. Frank o escutou dizer algumas palavras num dialeto arcaico, aparentando ser um recitamento de invocação. O companheiro de Phineas surgiu como se materializando a partir de uma fumaça amarelada escura. Frank viu dois pés com garras pontudas e cinzentas frente a Phineas. Ouviu ambos conversando sobre o procedimento na viagem. No caso, a artimanha de causar um novo desastre para eliminar alvos que Phineas mencionou vagamente, parecendo dar instruções ao monstro. 

Phineas saiu novamente do quarto deixando seu parceiro sobrenatural sozinho. O tal monstro sentira a presença do detetive que viu os dois pés animalescos virem em sua direção. Frank prendeu a respiração ao máximo de tempo que era capaz julgando que por ser uma entidade que viera do ar poderia ser uma saída de emergência escapar daquela forma de um ataque. O rosto de Frank se avermelhava conforme prolongava sua privação de oxigênio. Os grunhidos baixos da criatura elevaram o nervosismo. O monstro parou centímetros perto da cama, depois recuando em dois passos até, por fim, desaparecer em dissipação. 

Frank pôde soltar o ar pela boca e puxar mais pelas vias aéreas para oxigenar os pulmões, sentindo ter se salvado de ser pego de duas maneiras distintas. 

***

Agnes estava em casa desembaralharando, em forma de curva, suas cartas de tarô sobre a mesa da cozinha. Mas uma nova divinação foi interrompida pelo som da campainha. Revirando os olhos, ela se prestou a atender a visita inesperada, mesmo que a contragosto. Ao abrir a porta, tomou um susto leve, mas a surpresa lhe foi agradável. 

— Vejo que decidiu por reconsiderar nosso pacto. — falou ela num sorriso de canto.

— Não chamaria de pacto. — contestou Frank que veio vê-la por outra razão mais emergente — É um simples acordo de uma mão lava a outra. 

Agnes desfez do sorriso, assumindo face séria. 

— Pelo que veio exatamente? 

— Me convida pra entrar que eu te atualizo. As pessoas normais fazem isso, sabia? 

A bruxa lhe permitiu passagem, educadamente. Frank entrou apressado e sua aflição foi notada por Agnes cada vez mais curiosa pelo motivo da visita. 

— Imagino que você seria a primeira pessoa a quem o Hoeckler entraria em contato assim que se libertasse do cativeiro onde tava. Tô errado? 

— De fato, não está. Uma das primeiras, sim. Ele me ligou depois de mandar um dos seus agentes a mudar a preparar a tumba de Zaratro para um deslocamento temporário. 

— Pois é, só que o deslocamento definitivo que ele planeja envolve a minha casa. — disse Frank em um tom que denotava indignação — Guardar a tumba da múmia no meu porão. Ele me propôs isso faz três dias e até agora não sei que resposta dou. Usar minha casa como cofre de segurança pra um cadáver de bruxo das trevas é um risco que eu não tô afim de correr. Ele deu a localização, né?

— Não, ele sempre foi muito transparente comigo, disse que não deu um detalhe sequer de onde a tumba está mantida na fundação. — declarou Agnes aproximando-se dele — O modo como escapou dos daevas foi bem diferente, eu fui de imensa ajuda. Deixei um frasco de pó de tijolo vermelho enfeitiçado dentro da camisa dele pois o havia antecipado sobre a ameaça dos daevas, eu pressupus que estivessem aliados aos cavaleiros sendo eles perigosos demais.

— Sim, sei do quão perigosos eles são, podem detonar com anjos. Um deles veio até mim me contar, me pedindo ajuda pra dar um freio na matança que andam fazendo com os emplumados, mas não tô em condições de ser útil nessa luta.  

— Por que não indica a equipe da fundação ESP pra esse seu anjo confidente e abraça a proposta irrecusável de Theodor quanto a tumba? Dispensar ambos pode causar efeitos catastróficos. — avisou Agnes tentando estimular Frank a reconhecer os possíveis danos advindos de sua recusa — Há daevas infiltrados na fundação podendo obter a posição atual da tumba a qualquer instante. A sua casa seria o refúgio ideal e fora de rastreio. 

Frank pusera as mãos na cabeça, expirando longamente pela boca em sinal de cansaço e preocupação pesando em sua mente. 

— Tá, avisa pro Hoeckler que... a casa tá liberada. Afinal, sou um colecionador de tralhas sobrenaturais, essa tumba tá numa das categorias. Ah, e foi muito esperto da sua parte colocar o tal pó de tijolo. Por isso Hoeckler não saiu comigo até o açougue com o seu terninho azul bem passado, já esperava que fosse ser capturado pelos desgraçados.

— Atribua os créditos a ele. A genialidade dele combinada a minha magia é uma força infalível. O pó de tijolo uma vez em combustão irá prende-los por uma semana, pelo menos os que roubaram as vidas e rostos dos membros do Conselho de Segurança. Theodor confirmou a eficácia inteligentemente.

— Tá legal, chega de ovação pro seu amorzinho. Vou falar com ele primeiro a respeito dos anjos, depois trato de discutir a propostas com a Ethrea, a mulher-anjo, ou centuriã, que me procurou, dependendo da resposta do Hoeckler. É melhor eu ir nessa, esse cheiro de incenso tá me deixando enjoado e tenho que me preparar pra uma viagem a trabalho. 

— Hum, viagem? De avião? Creio que soube da última queda com vítimas fatais. — disse Agnes, parecendo interessada em saber do compromisso de Frank. 

— Sim, eu até sei o que causou esses desastres... Já ouviu falar de alguma entidade que se manifesta no ar e não pode sentir nenhuma presença humana se estiver prendendo a respiração? Eu já, mas nunca cheguei a me aprofundar, meu pai também nunca caçou coisa do tipo, talvez nenhum caçador daqui. 

Agnes o fitou com minúcia, os olhos semicerrados. 

— Então nunca chegou a enfrentar um Aerico? 

— Esse é o nome do monstrengo... O que exatamente ele é? Antes de vir pra cá, fiquei quase de cara com ele, investigando o cara envolvido nos acidentes e que sobreviveu pra contar. O desgraçado quer eliminar inimigos dentro dos voos aparentemente por vingança e tá usando esse bicho como artifício.

— O Aerico pode ser visto como uma entidade demoníaca propagadora de doenças mortais. — informou Agnes, andando devagar pela sala — Eu sugiro que não o desafie pra um duelo físico. Ele se manifesta no ar de modo que esteja indetectável. Dizem que ele foi o causador da peste negra que quase dizimou a Europa. Só quem viveu, sabe o pesadelo que foi. Eu já sabia desde o princípio. 

— Na hora que o vi, eu tava escondido embaixo da cama no quarto de hotel do cara, acreditei que prendendo a respiração apagaria minha presença sendo ele uma entidade que age através do ar. — disse Frank virando-se para ela — Se eu não tivesse presumido isso, eu sairia de lá arrebentado ou morto.

— Deve tomar cuidado com o Aerico em sua forma incorpórea. — avisou Agnes considerando ajuda-lo a sair-se com vantagem no embate contra o monstro pestilento — Ele invade o corpo de sua vítima entrando pelas narinas até chegar aos pulmões e causar um estrago que levará a uma falência múltipla. Sem a proteção adequada, é morte certa.

— E não existe nada que possa expulsa-lo? 

A bruxa foi até uma caixinha de madeira sobre a estante na qual guardava selos místicos de proteção. Pegara um e o entregou a Frank que olhou estranho ao adesivo com símbolo particular. 

— Tá parecendo uma figurinha autocolante... ou uma daquelas tatuagens que saem com água. — disse Frank estudando o adesivo. 

— De certo modo, é as duas coisas. Grude no seu braço esquerdo, mas não esqueça de fazer um corte em diagonal partindo o símbolo ao meio enquanto o Aerico estiver intoxicando seus pulmões. 

— Eu não vou deixar isso acontecer. Olha, essa viagem será pra salvar vidas. O meliante vai no mesmo voo que o meu, com certeza vai invocar esse demônio do ar pra acabar com a raça de algum inimigo que ele sabe que estará lá. Como o vagabundo vai disfarçado, não tem como identificá-lo antes dele invocar a coisa. A última coisa que eu quero é virar churrasco num avião lotado e explodindo.

— Vejo que se deparou com uma situação onde dificilmente há uma saída de emergência. — disse Agnes, pensando em algum meio de evitar a tragédia — Sei de algo que possa servir, mas terá de usar com sabedoria. — ela fechara os olhos de repente, recitando um feitiço em latim. Frank a encarou com suspeita, mas também com expectativa quanto ao trunfo que o auxiliaria. Uma chama explodiu entre eles, fazendo um objeto dourado surgir em pleno ar.

— Opa! — disse Frank pegando o objeto antes que caísse — Segurei. É isso aqui? Parece um relógio de bolso antigo. Digo, é um relógio, mas... pra quê? 

— O chamo de reversor cronal. Retrocede o tempo em, no máximo, três minutos. Mas não exceda o uso. — disse Agnes transmitindo seriedade elevada — Apenas três vezes. Acima do limite, vai acarretar num descontrole total do tempo, os retrocessos vão passar a ocorrer independentemente. 

— Tá querendo dizer... um loop temporal? 

— Sucessivos e incessantes retornos. Estará preso num período de tempo do qual jamais sairá, mesmo se destruir o reversor. Por isso, aproveite as chances.

Frank visualizou o artefato, estando ciente e temeroso do risco potencial de falhar nas três oportunidades. O ambiente, claro, dificultaria mais. 

— Muito bem, vou tentar virar esse jogo de primeira, por mais difícil que seja. Valeu, Agnes. Só me falta dizer onde fica o tal mausoléu dos bruxos pra pegar logo as tais cartas. 

— Reitero o que disse na nossa conversa anterior: tudo a seu tempo. Certo? 

O detetive a fitou sério por um instante, tentando conter a desconfiança estimulada por Carrie. Voltou-se para a porta andando para ir embora. 

— Não se esqueça da tatuagem. — relembrou Agnes pouco antes de Frank sair. 

***

A noite da viagem chegara e Frank se frustrava com a tentativa em vão de esconder seu nervosismo diante da possibilidade de usar um artefato de forma limitada no intuito de evitar o desastre explosivo. "Só três vezes... Caramba, três chances é pouco pra um caso difícil de proceder como esse", pensou ele subindo a rampa do avião na frente de Carrie e Giuseppe. O detetive e a assistente se acomodaram nos assentos, ambos lado a lado. Giuseppe estava alguns assentos adiante, dando um joinha para eles indicando que ficará bem. A dupla retribuiu com sinais de "OK". Carrie navegava pela tela da TV no assento da frente vasculhando algo para assistir. 

— Quer ver qualquer coisa pra passar o tempo? Vai ser um voo longo, eu não quero me entediar ficando de vigia com você pra pegar o nosso... terrorista assassino de terroristas. — disse Carrie, sentada próxima a janela, diminuindo o tom em um sussurro ao se referir a Phineas e sua agenda doentia para não escapulir aos ouvidos de quem estivesse perto. 

— Não, assiste você, isso aqui não será uma viagem comum, nem de longe. Por que o Giuseppe não se junta a nós aqui? Pelo visto, não vem mais ninguém. 

— Acho que ele não quer ser inconveniente fazendo milhões de perguntas sobre sua missão. — disse Carrie, olhando meio tensa para o amigo. 

— Peraí, você falou pra ele do perigo desse voo? Carrie... Controla essa sua língua uma vez na vida. 

— Foi mal, desculpa. Ele acabou ficando a par do fato de que Phineas Rice embarca nesse exato avião por meio de uma lista de passageiros, daí não pude me conter. Examinou o caso, detalhe por detalhe: os intervalos entre as quedas, as tempestades, um sobrevivente em cada voo, tudinho. A conclusão pra ele não podia ser outra. 

— Ele vai passar a fingir que tá numa viagem tranquila e segura só pra não ter que falar comigo a respeito do caso com a desculpa de não querer incomodar. Se fosse o Ernest... — disse Frank, cessando no meio da frase — Ah, deixa pra lá. 

— Pois é, prometemos evitar comparações. — disse Carrie, tentando relaxar — Como vai deter essa entidade vinculada ao Phineas? 

— Primeiro devo cuidar desse maluco, depois o Aerico, a assombração que se move pelo ar manipulando o clima e até espalhando doenças. — disse Frank olhando para a amiga — Saca só. — arregaçou a manga esquerda do sobretudo, exibindo a tatuagem com o símbolo antiposessão. 

— Fez uma tatuagem?! É uma figura bem exótica, parece até sobrenatural. 

— E é. A Agnes deu de presente pra expulsar o bicho feio de mim caso ele me possua pra me matar.

— Presente da bruxa sombria... Por que não tô surpresa? Você tinha que recorrer a ela...

— Fica fria, ela não quer me tirar de cena. Agora sim, devo dizer que você tá paranoica. Nem a conhece. E essa não foi a única cortesia dela. — disse Frank, retirando do bolso externo do sobretudo o reversor cronal — A saída de emergência.

— Um relógio? Interessante. 

— Não, o que ele faz. Se eu detectar algum movimento estranho ou alguma turbulência e queda de pressão começar, eu ativo esse troço pra voltar uns três minutos no tempo. 

— Mas mexer com o tempo não fere a lei universal?

— Isso aqui é outra maneira de interferir no tempo. É um retrocesso. Mas só eu vou lembrar quando voltar, é um lance de magia que só a Agnes saberia explicar, afinal ela quem enfeitiçou esse relógio. Apenas três minutos separam todos nós da desgraça. E apenas três vezes eu devo usar.

— E depois? Se esgotar o número de chances, para de funcionar? 

— Não, é pior. Segundo a Agnes, esse avião e todo mundo nele fica preso nesse período de três minutos. Já viu aquele filme, Feitiço do Tempo? 

— Ahn, sim... Nossa, eu confesso que agora eu tô... seriamente apavorada. — disse Carrie qienvklfu usa atenção a tela — E olha que sugestivo: tem o filme na lista. Vou assistir um pouquinho pra ir entrando no clima. 

— Cadê seu otimismo? — indagou Frank. O avião fizera seu barulho de decolagem. Todos puseram seus cintos de segurança. A aeronave alçou voo no céu noturno e repleto de nuvens cheias, ainda sem sinais tempestuosos. Frank se aliviou com o avião ter saído do solo seguramente — Enfim, nos ares. — olhou para as passageiros a frente e depois para os trás — Já pensou se o Phineas se sentasse nesse lugar vago aí, bem pertinho da gente? Obviamente não íamos saber que era ele. 

— Pode ser qualquer um. Talvez ele esteja disfarçado de velhinha gentil e indefesa. — disse Carrie correndo os olhos pela cabine — Vejo a cabeça do Giuseppe logo ali. Essa cabeleira grisalha é bem reconhecível. Tô pensando em ir até lá e convencê-lo a sentar conosco. Mas que frescura essa a dele. 

— Deixa ele. Não vamos perturbar o sossego que ele tanto desejou pra esse voo. — disse Frank em tom baixo. 

— Acredita que vai acertar da primeira vez? Frank, o cara pode estar com um disfarce nada identificável. E se ele estiver invocando a entidade neste exato momento? Vai querer resolver tudo dentro dos 3 minutos cruciais? — questionou Carrie, falando apreensivamente baixo — Se é que isso é possível...

A confiança de Frank se desvanecia pouco a pouco, a expressão do detetive se desenhando como medo estampado. A boca de Carrie ficara trêmula conforme seus olhos se enchiam de desespero ao marejarem. 

— Frank... Vamos todos morrer aqui. 

O detetive fechou os olhos atordoado, tentando obliterar da mente a visão daquela aeronave sendo destruída progressivamente até a fatídica queda. 

— Tá legal... — disse ele, respirando fundo ao reabrir os olhos — Medida drástica, eu preciso testar. — levantou-se do assento repentinamente e ficou entre as duas fileiras, sacando seu distintivo e o erguendo — Agente federal, DPDC! Estou no meio de uma operação caça-terrorista! Minha intenção não é causar pânico, mas infelizmente me obrigo a avisa-los de que esse voo está severamente ameaçado! 

Os passageiros soltaram arquejos de espanto e uma cacofonia de vozes alteradas se instaurou. O clima de pânico que Frank não gostaria de ver nem um pouco foi gerado de imediato. 

— Frank, o que deu em você? — indagou Giuseppe consigo mesmo. 

— Desculpem fazê-los se sentirem inseguros, mas preciso identificar uma certa pessoa que embarcou nesse avião, um lobo entre as ovelhas! — bradava Frank sem baixar o distintivo. 

— Ai, meu Deus, só falta ele dizer que previu o avião explodindo... — disse Carrie, baixinho, pondo a mão direita na testa e numa postura parecendo que queria ajudar na poltrona pelo desconcerto que sentia. 

A atmosfera que inicialmente se inflamou em pavor, passou a assumir aspecto de desconfiança entre todos os passageiros. 

— Que se apresente agora essa pessoa ou vou ter de revistar a todos, sem exceção! 

— Senhor, por favor, volte ao seu assento, está causando pânico generalizado. — disse a comissária de bordo — Tem evidências de que há um terrorista aqui? 

— Olha, se eu fosse você, iria pra cabine onde os funcionários ficam descansando. É lá em cima, né? Vai por mim, esse voo tá fadado a sofrer um terrível destino. — voltou sua atenção aos passageiros — Ordeno que essa pessoa se entregue agora! 

A comissária tentou conter a agitação do detetive. 

— Epa, tira a mão de mim, não me empurra de volta pra cadeira, tô numa missão oficial aqui! 

— Senhor, é melhor parar de incitar um tumulto, precisa se acalmar. 

— Então vou fazer a revista em todo mundo. Não vai contrariar uma ordem federal, vai? 

— Há mesmo um terrorista aqui? — perguntou uma mulher com seu filho bebê no colo, expressando perturbação. 

— Melhor deixar o federal fazer o trabalho dele! Houveram acidentes quase sem sobreviventes nos últimos meses! — disse um homem parrudo que levantou-se em postura rebelde — Não descartaram ainda a hipótese de ter sido um atentado!

A fala do homem fez elevar o falatório agitado. 

— Todos, por favor, se aquietem, está tudo bem! — disse a comissária para ambos os lados. 

— Sou eu! — disse um homem levantando-se. Ele trajava jaqueta preta por cima de uma camisa azul e usava óculos escuros — Tenho ficha corrida por atos terroristas, preciso sair daqui algemado. 

A revelação deixou os passageiros alvoroçados. 

— Ora, ora, ora, e acabou sendo fácil demais, no fim das contas. — disse Frank, retirando as algemas de um bolso interno do sobretudo. 

— Mas se for assim... — disse a comissária, aflita — ... teremos de voltar. Já estamos cruzando o oceano.

— E daí? Solicita o retorno pro aeroporto, já. — mandou Frank. 

O comissário que atuava juntamente a mulher passava por ela e Frank com um olhar baixo. 

— Barry, onde vai? 

— Pra nossa cabine. — respondeu ele, sem olha-la.

— Mas ainda é cedo, não faz nem duas horas. 

Sem responder nada, Barry seguiu em direção ao compartimento exclusivo para funcionários. 

— Barry! — chamou a comissária, logo resolvendo segui-lo, bufando pela boca. 

Carrie o seguiu com olhar desconfiado, em seguida concentrando-se em Frank e sua abordagem. O homem a se entregar como terrorista potencialmente perigoso ao voo estava entre as duas fileiras com os pulsos sendo algemados. Frank se inclinou a ele para sussurrar algo no ouvido. 

— Eu sei que tu se entregou fácil porque sabe que agora tá com um alvo travado na mira bem no teu couro. Esperto hein.

A comissária subiu a escadinha até o compartimento "secreto" para confrontar Barry e sua atitude impulsiva que desrespeitava uma norma. 

— Barry, o que tá fazendo... — interrompeu-se ao ver o colega parado de costas falando em tom baixo — Barry? Tá fazendo o quê aí? Rezando? — perguntava ela, franzido a testa — Anda logo, não é hora pro nosso happy hour ainda. Barry, tá me ouvindo? — insistiu, se aproximando. Ele virou-se a ela, porém a surpreendeu ao arrancar seu próprio rosto... que na verdade tratava-se de uma máscara que emulava a fielmente a face do autêntico comissário, revelando um homem barbudo, de rosto meio gordo e cabelo preto social. 

— Quem é Barry? — indagou ele num sorriso cínico de canto. A comissária, atônita, fez menção de fugir, mas fora pega pelo braço, tendo sua boca tapada pelo homem que a agarrava fortemente — Shhh, fica bem relaxada. Não é pra isso que serve uma salinha dessas? Agora só espera o show começar. 

Uma nuvem colossal de tempestade preto-azulada com raios e relâmpagos piscando se avizinhava por trás do avião, imediatamente assumindo a forma de um rosto monstruoso, similar à uma caveira com boca aberta prestes a engolir a aeronave. Os ventos revoltosos da tormenta começaram a balançar o avião, provocando uma súbita despressurização. Grande parte dos passageiros reagiu aos gritos de pavor com o sacudir violento da aeronave que parecia, a partir daquele instante, completamente manipulada pela implacável força da natureza. 

Frank se desequilibrou junto ao confesso terrorista em meio a comoção geral. 

— Frank, volta pra cá, depressa! — berrou Carrie em total exasperação, os relâmpagos iluminando seu rosto.

— O avião despressurizou, Frank! Volte pro seu lugar, deixe ele aí! — advertiu Giuseppe. 

As máscaras de oxigênio caíam para o alívio ameno de todos. Carrie pegou a sua, inspirando o ar profundamente. Já Frank tentava retornar ao assento, se segurando nos dois lados, mas assumiu que não o tempo, mediante ao fenômeno climático e sobrenatural, não estaria a seu favor para tal. Acabou tirando do bolso interno do sobretudo o reversor cronal. O pisca-pisca incessante e pavoroso dos relâmpagos no interior escuro pela pane elétrica reforçava a atmosfera de morte iminente. 

O detetive, contudo, se descuidou e o artefato caíra no chão. O chacoalhar cada vez mais agressivo dificultava ir em frente para reaver o objeto. Frank pensou ter ouvido um estrondo, crendo ser de um pedaço da fuselagem arrancado pela ventania. Um forte raio atingiu a parte superior da aeronave, a descarga se ramificando por todas as outras. O motor danificado apresentou combustão, desencadeando na inevitável explosão mortífera, dilacerando piloto e co-piloto de uma única vez. 

Frank, deitado no chão, conseguira pegar o reversor cronal a tempo, chegando a ver o fogo avassalador cruzar a cabine em progressiva destruição. Segundos antes de agir, viu o terrorista algemado ser envolvido pelas chamas em rápida deterioração de seu corpo. Apertou o botão do artefato, fechando os olhos intensamente com os dentes cerrados. O calor da explosão desapareceu bem como os sons de trovoadas e raios. Estava sentado em sua poltrona, regressado três minutos anteriores a tragédia. 

— Frank? Frank, que treco deu em você? Acorda! — disse Carrie que estalou os dedos na frente dele. 

O detetive reabriu os olhos, esquadrinhando a cabine. A comissária estava ali falando com alguns passageiros. Reconheceu ter sido naquele exato momento em que teve seu rompante de alarde. No entanto, preferiu não repetir a ação, lembrando do comissário se dirigindo a cabine exclusiva, ignorando as regras. 

— Eu voltei. — disse ele, tenso pelo que viu ocorrer — Carrie, eu voltei. Mas tenho que pensar ligeiro, em pouco menos de três minutos o Aerico vai atacar. 

— Tá dizendo que... a traquitana mágica da Agnes funcionou mesmo? Vo-você viu o avião explodir e ativou o retrocesso no último segundo? 

— Se eu não tivesse apertado o botão, eu teria virado carne assada e abatida na hora. Eu tinha pego o terrorista alvo do Phineas, ele se entregou por livre e espontânea vontade, mas, é claro, só pra tirar o dele da reta porque sugeri um desvio de volta pro aeroporto. — disse Frank que logo reparou no comissário vindo a cabine e passando indiferente, acompanhando-o com o olhar — Esse cara... Ele havia entrado na cabine dos funcionários antes do tempo, descumprindo uma obrigação sem mais nem menos. 

A comissária olhou com estranheza para Barry e ambos tiveram o mesmíssimo diálogo anterior. Ela o seguiu no intento de repreende-lo. 

— Foi assim que eles falaram quando eu tava pra enquadrar o terrorista. Então... — disse Frank que olhou para trás vendo Barry subir a escadinha — Safado, tu não me escapa. — decretou ele, levantando-se. Carrie se inquietou com a atitude. 

— Frank, você pirou?! Não tá pensando em...

— Sim, eu tô e vou fazer. — respondeu ele indo até a cabine reservada para abordar Barry — Se eu acabar com isso a tempo, te passo os detalhes. 

O detetive parou a comissária que franziu o cenho ao ver que ele também estava no encalço de Barry. 

— Mas o que... Aonde pensa que vai? 

— Sou detetive federal, tô em operação importante e não posso dar maiores explicações no momento, sinto muito. Se me dá licença, vou ter uma palavrinha com o Barry. — disse Frank, logo virando-se ao retomar o caminho até a cabine acima. A comissária enfureceu-se. 

— Não pode entrar aí mesmo que seja agente da lei, é um local reservado! Senhor, poderia retornar ao seu lugar, por favor? A entrada é proibida a passageiros...

Mas o detetive já havia subido a escada de degraus metálicos. Bufando, a comissária andou a largos passos até a cabine dos pilotos reportar a situação. Enquanto isso, Frank esquadrinhava o interior da saleta de descanso dos funcionários, logo cravando o olhar firme em Barry... Aliás, naquele que usava a máscara emuladora de rosto. Ele estava de costas, sussurrando algo quase inaudível. 

— Não adianta mais se esconder por baixo dessa pele falsa. Vira pra mim, teu jogo foi desmantelado. Se entrega e a gente sai daqui numa boa.

O falso Barry o fizera, removendo a máscara, enfim exibindo sua face real. 

— Era você que esteve no meu quarto ontem pela manhã? 

— Você é o cara que usava o nome de Phineas Rice no último voo derrubado. É, eu dei umas xeretadas na sua bolsa. Gostei do seu quarto, menos do seu acompanhante. 

— Me admira ter escapado fácil de uma entidade tão letal por ser intocável. 

— Ele tava deixando o ar meio poluído, daí prendi minha respiração e fiquei invisível pro faro dele. Você vem comigo, tá preso por perpetrar ataque terrorista em voos internacionais. 

— Ah, e com qual prova definitiva você espera me ver atrás das grades? — indagou ele com ares de riso. 

— Tem razão, não tem como te levar daqui algemado sem uma alegação que comprove sua autoria em todos as quedas de aviões. Que tal fazermos um trato? Eu enquadro o seu alvo. Daqui ele vai pro xadrez. Sei que ele vai confessar quando eu anunciar que tô a caça de um terrorista. Em compensação, você desfaz o pacto com o Aerico, poupando todas as vidas inocentes. E aí, fechado? 

Frank estendeu a mão direita em pacificidade. Porém, o homem rira de sua proposta. 

— Qual é a graça? 

— Tarde demais, senhor caça-fantasmas! 

— Já invocou o monstrão, não foi? 

O avião começou a ser sacudido pelos ventos tempestuosos, derrubando ambos no exíguo recinto. 

— Filho da mãe! — disse Frank se atracando com ele. Rolaram pelo chão aos socos enquanto a aeronave balançava de um lado pada o outro aceleradamente — Qual é seu nome real, desgraçado!

— Uma última coisa a ouvir antes de morrer? Pois bem... Muito prazer, sou Jacob Harris. 

O barulho estridente da explosão soou na cabine, levando Frank a retirar depressa o reversor cronal. Jacob estendeu a mão para toma-lo a força, mas o detetive apertara o botão agilmente. E novamente de volta há três minutos antes. Frank via-se retornado ao assento, o olhar perdido em pensamentos. Carrie virou o rosto para ele, estranhando seu estado.

— Frank? Terra chamando Frank Montgrow. Qual é? Parece que acordou de um pesadelo. 

— Usei o reversor... duas vezes. Carrie, o nosso cara tá muito bem disfarçado. Mas não por muito tempo, até porque já identifiquei a fuça de plástico dele. 

— O quê? Peraí... Já retrocedeu duas vezes?! Disse que o limite era de três... Se falhar de novo agora...

— Já era. — completou Frank, olhando-a com seriedade. O falso Barry vinha entrando na cabine, prestes a passar pela comissária sem dar satisfações do ato imprudente que cometeria — Não se alarma, OK? Me deseja sorte porque agora o bicho vai pegar. — determinou ele, levantando-se. 

Frank caminhou adiante e deu um leve empurrão de lado na comissária, logo agarrando o falso Barry pelo colete vermelho. Desferiu um forte cruzado de direita, fazendo-o ir ao chão. Os passageiros, estupefatos, olhavam a cena boquiabrindo-se. 

— Mas o que deu no senhor? Está tendo um surto?! — disse a comissária, perplexa.

— Nunca me senti tão são e lúcido nessa vida! — disse Frank se colocando sobre o falso Barry, virando-o para ficar de bruços — Hora de te desmascarar, salafrário!

— Frank, o que significa isso? — questionou Giuseppe, levantando-se irritado. 

— Saia de cima dele agora! — pediu a comissária — Esse é o Barry! Você é algum detetive? Por que de repente partiu pra cima dele sem aviso? 

— Porque esse não é o Barry! — respondeu Frank, olhando para ela rapidamente — É um farsante!

O detetive arrancou a máscara emuladora, estimulando reações ainda mais impactadas. Todos fitavam atônitos o rosto de Jacob a mostra. Frank se regozijava por dentro por ao menos impedir a invocação. A comissária não sabia verbalizar o que sentia ao ver aquele homem sendo exposto como um falsário que usurpou o posto de seu colega. 

— Já cumpriu seu dever, você venceu. — disse Jacob, imobilizado — Será que dá pra me liberar? 

Frank se reergueu, saindo de cima de Jacob que levantou-se. Mas logo ele sacara uma arma, apontando-a aleatoriamente como meio alternativo de gerar pânico nos passageiros.

— Epa, epa, vai com calma aí! — bradou Frank — Tem mais chances de sair dessa vivo se confessar sua motivação pra derrubar aqueles aviões! Eu sei que tá com uma sede de vingança te dominando, mas não é por aí, tenta racionalizar o que você tá fazendo! 

— Cala a boca! — mandou Jacob, mirando em Frank — Não sei como descobriu, mas parabéns, você é um gênio, estragou meu melhor disfarce! Se esse avião não tiver que cair, que pelo menos alguém saia morto por merecer! Apresente-se agora! Eu sei que está aí, apareça! Ou eu vou pedir pro nosso caro detetive revistar a todos. Assim é melhor? Pra mim não, mas é uma opção, então escolha! 

O terrorista que fora alvo de Jacob levantou-se. 

— Sou eu. — disse ele, ganhando a atenção máxima — É a mim que você quer. Pode me matar aqui mesmo. Seria horrível morrer com tanta gente num avião em plena queda. 

— Oh, ele tem compaixão pelas vidas inocentes aqui presentes! E pelos meus pais? Meus irmãos? Meus amigos? Uma simples dívida de jogo é o bastante pra perder os escrúpulos, não é? 

— Você ameaçou expor nossos negócios pra Interpol se recusando a liquidar seu débito e esperava que o chefe não tomasse uma atitude? Era seguir as regras estritas dele ou nós pagaríamos por insubordinação. 

— Jacob, por mais que se meter com esses caras tenha te trazido perdas, não é assim que você vai honrar as memórias dos seus familiares. — disse Frank, tentando uma abordagem suave — Me dá essa arma. Vou prender esse cara. E damos um ponto final nisso. 

— É ai que se engana. — disse Jacob voltando-se a Frank — Ele não vai parar mesmo que eu morra. 

Jacob mirou novamente a arma no terrorista, com nítida intenção de disparo, mas Frank agiu rápido ao sacar sua arma e atirar no braço direito do vinculado ao Aerico. Com o tiro, gritos de moças foram ouvidos. Caindo no chão, Jacob acertou a ferida no braço, tombado pelo dor. Porém, quando Frank acreditava ter finalmente controlado a situação, o avião cruzava nuvens tormentosas, com relâmpagos tremeluzindo através das janelas da aeronave que se inclinava levemente de um lado para o outro. A luz sofreu pane e os passageiros eram novamente tomados pelo medo. Frank agarrou Jacob pela roupa.

— O que tá havendo? Você não tinha invocado ele antes que eu sei! Pois é, tô ciente do teu negócio escuso! Não sou desses detetives comuns! 

— E não invoquei mesmo. Mas... caso não saiba, o contratante não pode ser ferido gravemente. — disse Jacob, debilitado pela ferida do tiro — Me tornei uma propriedade dele, resguardado... como uma peça valiosa. Ele valoriza muito os termos do acordo... a ponto de retaliar contra quem interferir. 

— Então me diz como te livrar desse pacto!

— Não há como. A menos que eu conclua o propósito pro qual fechamos negócio. 

— Frank! — chamou Carrie em tom de apreensão. Frank virou-se, percebendo que os passageiros desmaiavam um a um. Carrie arfava, mal podendo exprimir uma palavra. Aquilo mostrava-se um indicativo claro da presença do Aerico dentro da aeronave. 

— Essa não... Por que tá todo mundo apagando? 

— Ele chegou. — disse Jacob — Não só tá mexendo com o clima como também... se transformou num gás tóxico que pode matar em poucos minutos. 

— Mas e você? — indagou Frank que notou Jacob caindo em inconsciência — Jacob? — verificou o pulso — Ainda tá vivo... Acho que só desmaiou pela hemorragia, não por esse gás... Ah não, Carrie... Giuseppe... E agora? Todo mundo dormiu... 

Saindo dos dutos de ventilação, o Aerico surgia por trás de Frank como um vapor sépia materializando-se para um embate físico. Pulou contra o detetive como uma fera faminta, grunhindo selvagem. Frank se virou para estar cara a cara com a criatura cujo rosto tinha um aspecto horrendamente enrugado, com olhos totalmente vermelhos contornados por grandes manchas negras nas órbitas e uma língua alongada e pontuda como se quisesse lambe-lo. 

— Sai com essa língua sinistra pra lá... — disse Frank o empurrando. Pensou em sacar sua arma novamente, mas viu que lidar com o Aerico a tiros seria arriscado dado o ambiente. Com piloto e copiloto adormecidos, o avião se inclinou para o oceano, ameaçando uma queda fatal — Cacete! Não posso disparar uma bala nessa coisa sem arriscar a vida de alguém aqui. Se bem que agora... ou morrem de um jeito ou morrem de outro. 

O Aerico se preparava para um novo ataque, sua figura pavorosa realçada pela semi-escuridão da cabine com o show de luzes dos relâmpagos, mas preferiu um outro método. Frank levantou-se, segurando nas poltronas nos lados, olhando rapidamente a tatuagem e constatando ter sido ela a salva-lo de sofrer o efeito do gás tóxico. 

— Quer vir me pegar, bicho feio? Cai dentro logo! Tá esperando o quê? Sou todo seu! 

Assumindo a forma gasosa, o Aerico se deslocou para as narinas de Frank pela quais adentrou no sistema respiratório do detetive, naturalmente preenchendo o pulmão em uma fração de segundos. Frank caiu para trás com uma asfixia imediata. Lembrou da orientação de Agnes que salvaria sua vida. Levou sua mão direita a um bolso externo do sobretudo no qual sabia estar um canivete. Destravou uma lâmina e tremulamente a direcionou ao antebraço esquerdo após subir a manga enquanto o último sopro de vida se aproximava mais. 

Frank lutava para manter-se consciente, não ser derrotado pela chaga que o Aerico causava em seus pulmões e se espalhava aos demais órgãos como numa metástase em tempo recorde. O rosto do detetive estava vermelho, seus dentes cerrados, denotando toda a resistência no mais alto grau de esforço numa batalha extremamente acirrada de vida e morte. A mão que segurava a lâmina tremia como se não fosse capaz de realizar o corte a tempo. Mas Frank avançou em seu desejo tenaz de vencer. 

Cortou em diagonal o símbolo da tatuagem, conforme Agnes aconselhou. Instantaneamente, o Aerico era expulso de seu corpo em fumaça que logo ganhou contornos de corpo físicos en algumas partes que queimavam devido a reação ao símbolo antiposessão. O monstro soltava um grito medonho e gutural ao sair de Frank pelas narinas e boca para o teto do avião e atravessa-lo para fora, evaporando e dissipando até sobrarem brasas ao vento. 

O piloto despertava, logo reavendo o controle do avião que estava a poucos pés de chocar-se ao oceano. A aeronave endireitou seu curso direto ao passo que a nuvem de tempestade se dispersava. Frank recobrava seus sentidos, logo se levantando. Via os passageiros despertando aos poucos. Foi apressado ver se Giuseppe estava bem. Conferindo, o viu acordando lentamente tal qual os outros. Era a vez de Carrie. Voltou ao seu assento a esquerda dela, tocando no rosto da assistente enquanto ela se restabelecia. Carrie enfim se despertou, semicerrando os olhos. Um leve sorriso de alívio se desenhou em Frank ao vê-la bem. 

— Carrie... A gente vai pra Londres sem transtorno. 

— Acabou? A gente se safou de cair? 

— Sim. Não foi nada moleza, quase senti minha alma saindo do corpo. Mas o monstrengo se foi. A Agnes tava certa. Claro, não vou te forçar a confiar nela por isso, mas eu tenho que tirar o chapéu pra ela. 

— OK, OK, sua amiga bruxa foi certeira no alvo, ela é incrível. Mas e o cara ligado a entidade? 

— Do Jacob cuido depois. E do terrorista que ele queria dar cabo. O pessoal ainda tá retomando os sentidos. O feioso se manifestou como um gás tóxico só porque eu atirei no Jacob por ele ter sua integridade protegida. Mas graças a tatuagem, eu saí livre. Pelo menos até ele invadir meus pulmões, eu morreria ainda mais rápido que todo mundo. Olha só... 

Frank apontou à janela, fazendo Carrie voltar-se a paisagem contemplativa que se formava com o alvorecer. O nascer do sol dando um tom alaranjado às nuvens os encheu de conforto após a tensão desgastante. A luz iluminou os rostos de Frank e Carrie, o voo seguindo em viagem tranquila nem parecendo ter corrido o perigo de ser tragicamente malfadado há poucos minutos. 

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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagem retirada de: [1]




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