Frank - O Caçador #93: "Literalmente Sanguessuga"



As amigas Jordelle e Kate planejaram uma noite longa de estudos intensivos para a faculdade na ânsia desesperadora de concluir um novo semestre. A anfitriã foi Jordelle que se ofereceu a receber Kate com um material já preparado na sala, propondo até mesmo ajuda-la, porém ela tivera um desejo repentino antes de iniciar a maratona de estudos na qual devorariam uma serie de livros grossos. 

— Espera, Kate, aí caramba... — disse Jordelle, levantando-se do sofá pondo a mão direita na cabeça. A jovem, que possuía cabelos pretos e uma pele meio parda, usava um leasing cinza com uma blusa rosa sem mangas.

— O que é que foi? Esqueceu de convidar mais alguém? Olha, se tá arrependida, devia ter feito uma lista, eu não sou a única zumbi faminta pelo seu cérebro gigante e superdotado. — disse Kate, sentada no sofá com os joelhos dobrados e um tablet sobre suas coxas, dando uma risadinha. Era uma bela universitária de cabelos loiros escuros e rosto de maçãs salientes e finas. 

— Bem, isso também... Eu esqueci de ir tomar banho. Fiquei na expectativa de você vir pra gente aproveitar cada minuto dessa noite juntas até madrugarmos se fosse preciso que não me liguei que não sinto água na minha pele faz horas. Você espera, não é? — perguntou Jordelle, batendo de leve seus dois dedos indicadores numa postura de alguém que pede algo meio sem jeito. 

— É claro, sua bobona. Vai lá. Cuidado que você tá menstruada e de repente... 

— Não vai acontecer hoje. Só um banho rápido e refrescante pra desanuviar a mente porque vamos usa-la pra valer até nós sobrecarregarmos. 

— Você fala porque aguenta o tranco. Sou caloura nesse método exaustivo e intensivo, quase suicida.

— Relaxa, você vai dar conta. Vou indo. — disse Jordelle, saindo da sala rumo ao banheiro. 

Kate ficara sozinha pondo seu fone headset preto e vermelho para ouvir música enquanto dava uma nova olhada no roteiro de estudos e conferia notícias na Internet pelo seu tablet. Jordelle abriu o chuveiro e se deliciou com a água banhando seu corpo nu. Impossível dela notar que um bicho desagradável saía do vaso sanitário. Mais especificamente uma sanguessuga que se movimentava rápido demais, rastejando tal qual uma serpente. Jordelle estava de costas, passando o sabonete, no instante em que a sanguessuga cruzava pelo piso molhado. 

A criatura parou numa curta distância e começara a inchar num ritmo moderadamente acelerado, sem que Jordelle sentisse estar acompanhada devido ao barulho da água corrente. Mas ela finalmente voltou os olhos para uma sombra gracas a janela com a luz dos postes atravessando a janela e batendo numa parede. Estranhou franzindo a testa. A sanguessuga tomara a forma de um homem corpulento que estava bem atrás dela com as mãos em posição de tocar. 

Jordelle virou-se curiosa e apreensiva dando de cara com o ser negro como uma sanguessuga, a pele de mesma aparência e textura. Ela gritara horrorizada, mas sua voz seria rapidamente silenciada já que o monstro abriu sua bocarra de dentes pontudos em três círculos concêntricos e avançou ferozmente. Kate olhou no relógio do celular, sentindo a demora da amiga. Retirou o fone, indo verificar. 

— Jo, tá fazendo o quê? Sai logo, poxa. Será que você se enganou? Posso pegar um absorvente? — perguntou Kate vindo pelo corredor. Ela ouviu o barulho do chuveiro, sua estranheza aumentando — Jo? Tá me ouvindo? — chamou em voz alta. 

Ela apertou o passo, abrindo a porta do banheiro, mas desacelerou logo ao adentrar, andando em passos cautelosos em direção ao box. Sua face adquiria traços de curiosidade mesclados a tensão.

— Jo? — chamou novamente, desta vez sabendo que o barulho do chuveiro não abafaria a sua voz do ponto em que estava — Jo, tá me assustando. Diz alguma coisa. Faz uns cinco minutos nesse banho... 

Ela empurrou vagarosamente para o lado a porta deslizante do box. Uma visão horrenda se desnudava. Kate esbugalhou os olhos, descobrindo a amiga caído de bruços no chão, já morta com olhos abertos e sua pele, da cabeça aos pés, exibia uma palidez assombrosa. Não podia se ignorar as marcas de perfurações em círculos nas costas de Jordelle das quais saiam filetes de sangue que se misturavam a água. Kate, consternada e abalada, soltou um grito de horror que sobrepôs ao som da água do chuveiro. 

***

Departamento Policial de Danverous City

Designado ao mais novo caso insólito de homicídios, Frank se encaminhava ao necrotério onde foi recebido pelo legista, um jovem de estatura mediana cabelo preto social e usando óculos. Ambos foram até o cadáver de Jo posto sobre a mesa de análise para conjecturarem quanto ao autor da barbárie. 

— Obrigado por vir, detetive Montgrow, é um prazer. Não querendo ser bajulador, mas devo dizer que sou um grande admirador do seu ofício...

— OK, valeu, vamos parar com a tietagem e irmos direto ao que nos importa. — disse Frank, procurando não soar grosseiro, sem muito traquejo em lidar com elogios — Esse é o corpo da última vítima, certo? 

— Sim... Exato, o instituto forense da zona oeste estava com superlotação e sobrecarga, daí tiveram de enviar esse pra cá. Me passaram os dados das examinações de casos idênticos a esse, mas nenhum parecer conclusivo. — disse o legista, a direita de Frank, olhando o cadáver coberto por um lençol branco na altura da nuca. 

— Então por que quer o meu? 

— Bem, o senhor é famoso por investigar casos de natureza estranha, com lacunas que sugiram algo... fora do comum. — disse o legista, olhando-o com uma tensa seriedade. 

Frank o encarou de modo estranho, tendo que questiona-lo sobre tal declaração. 

— Como assim famoso? Alguém andou te contando no ouvido uns segredinhos duvidosos? 

— Ahn, não... Isso é de conhecimento praticamente geral por aqui. O senhor normalmente tem carta branca em relação a eventos estranhos. Esse daqui, sem dúvida, compete a sua especialidade. Não que eu acredite em histórias de monstros, essas coisas...

— Que tal a gente focar no que houve, de fato? Olha, só pra te dar um toque: se alguém te disser qualquer coisa a respeito do meu trabalho, os casos surreais que me são passados, os pepinos que eu tenho que resolver, você não dá muito crédito porque tem quem aumente as histórias pra dar a entender que sou mais do que aparento. Eu não passo de um detetive como todos os outros, não me é dada nenhuma exclusividade. Não é como se fosse surgir um caso tão misterioso e bizarro pra alguém dizer: isso é mais um caso para Frank Montgrow, chamem logo ele. — disse Frank de forma sincera ao jovem cientista forense — Seja lá o que tiver acontecido, eu não vou saber dizer com toda exatidão pra contribuir. 

— Eu espero que ao menos tenha uma teoria minimamente plausível, apesar da circunstância. — disse o legista, retirando o lençol do cadáver — O nome dela é Jordelle Felton, estava em pleno banho quando foi atacada pelo que quer que tenha feito essas... marcas. — apontou para os buracos nas costas da jovem pela quais todo sangue fora absorvido — Perfurações em círculos coaxiais. Nunca tinha se visto nada semelhante. Afinal, que tipo de coisa drena o sangue de um ser humano até não sobrar uma gota com tamanha precisão? Algum instrumento específico? Deve ser bem rudimentar.

— Não. — disse Frank passando os dedos nos orifícios — Tá com cara de que isso foi obra de... dentes. 

— Dentes? De quê? De um vampiro, só se for, né? 

— Tinha dito não acreditar nesse lance de monstros. 

— E é verdade, mas é só uma suposição estúpida minha. Todos esses detalhes me deixam intrigado de um jeito perturbador, gera dúvidas em excesso.

— É, eu que o diga. Esvaziou tudo mesmo?

— Artérias, veias, capilares... Nenhum infinitesimal vestígio sanguíneo pra contar história. — analisou o legista, não escondendo seu desconforto — Eu vou tomar uma água, pensar demais nesses casos seca minha garganta. Fica à vontade. De novo, foi um prazer. — estendeu a mão direita para o detetive qie retribuiu com o aperto — Espero não ter desperdiçado seu tempo. 

— Que nada, disponha. Até mais. — disse Frank deixando-o sair da sala para estar a sós com o cadáver e realizar sua perícia particular. Apoiou suas mãos na mesa olhando o corpo, mais precisamente os furos. Apenas uma potencial suspeita martelava em sua mente e a mesma já tinha sido posta em questão — Vampiro inédito na área, pelo visto. 

***

Carrie concedeu entrada ao ouvir Frank bater na porta, não esperando mais que uma última conversa sobre o caso do suposto vampiro que esgota todo o sistema circulatório de suas vítimas. 

— E aí, como foi no necrotério? — indagou ela, voltando-se ao detetive, retirando seus óculos para leitura — Sei que ainda acha estranho ser chamado pra examinar um corpo, mas haja vista que...

— Carrie, tô começando a achar que minha vida dupla tá ameaçada de exposição total. — disse Frank, sentando-se na cadeira frente a assistente, dando sinais óbvios de preocupação — Mas por que justo agora? — se perguntou, pensativo. 

— Como é? Esse é o caso mais urgente no momento pra você? Fora todo o imbróglio dos cavaleiros, da Agnes, os daevas... Frank, se decide: ou um problema ou outro. No momento, você precisa escantear a bomba-relógio que você sabe bem qual. Também essa que aparentemente não soa muito credível.

— Sei lá, acho que de repente os outros agentes estão passaram a notar que investigo uma categoria exclusiva de casos. Talvez por esse motivo o legista teria me chamado, ele disse que minha opinião era válida porque o caso tinha a ver com minha rotina. 

— Ah, você tá meio paranoico. — desconsiderou Carrie com ar risonho — Acha mesmo que uma hora ou outra alguém mais do DPDC vai saber da sua vida paranormal? Se liga, as chances são nulas. 

— Não teria todo esse seu otimismo. Coisas estranhas acontecendo na cidade há anos, agente prioritário encarregado dos casos que forem mais misteriosos e esquisitos... Tudo se encaixa. Como não iam suspeitar que o diretor estivesse me pondo numa linha investigadora que outros agentes não participam. 

— Você não sabe da rotina dos outros agentes. Além do mais, não faria sentido se importarem com a sua. Cada um no seu quadrado e cuidando de suas obrigações. As outras assistentes, até onde eu sei, estão se lixando pros casos que resolvo ao seu lado. 

— Quer comparar a atenção que os agentes dão à mim com a das assistentes deles a você? Isso que é sem sentido. Eu tenho que falar com o Giuseppe ainda hoje, pedir pra me botar em casos normais com mais frequência. Assim a desconfiança da galera acaba e eu não corro risco de fritura. 

— Hum... Agora que você falou, realmente pode ser uma pedrinha no seu sapato. O Giuseppe tem mesmo mandado casos paranormais a você com certa frequência. 

— Ligou o tico e o teco agora? Não tô paranoico. 

— Mas mesmo que descobrissem seu talento pra esses casos, tudo que fariam seria uma petição pra incluírem eles junto a você. É até perigoso. Já pensou se tiverem a ideia de cada investigação ser em dupla? Você com um parceiro totalmente despreparado pra encarar fantasmas e monstros. A combinação do desastre. Já era sua vida de caçador solitário que se bastava contra qualquer coisa. 

— Qualquer coisa não. Tem esse monstro novato no pedaço. — contestou Frank — Enfim, o Giuseppe vai me ouvir hoje. Só que é bem mais provável ele achar que tô pensando fora da realidade. — fez uma pausa, logo tendo um lampejo — Aí, me empresta o computador só um instantinho?

— Ué, pra quê? A pesquisa é comigo. Não devia estar por aí interrogando amigos e parentes das vítimas? Se bem que nenhuma delas possui conexão... 

— Não é pesquisa, é mais um pedido de socorro. — disse Frank, levantando-se — Posso? 

— Vem. — permitiu Carrie, cedendo lugar para o detetive. Frank sentou-se rápido, indo até a plataforma de e-mail realizando seu login — Seja lá o que estiver fazendo, acho que como sua amiga e assistente eu deveria saber. — reclamou ela de braços cruzados. 

— Promete que não vai surtar? 

— Ótimo, aumentou minha curiosidade. 

— Tô passando um e-mail pra Natasha, todas as informações desse caso do vampiro que não deixa comida no prato. 

Carrie arregalou os olhos de felicidade. 

— Sério? Diz pra ela que... que eu mandei um abraço e tô morrendo de saudades. Pergunta também se tem uma nova turnê programada pra América. E se tiver, você vai comigo desfrutar das entradas grátis. 

— Prontinho. — disse Frank apertando em enviar — Ela provavelmente deve ter uma noção sendo uma exímia perita em todo e qualquer chupador de sangue. Deixei aberto aqui. Você fica conferindo enquanto vou a um lugarzinho tirar uma dúvida. — falou, saindo da frente do computador para devolver a cadeira a assistente — Valeu. — deu um toque rápido no ombro dela e uma piscadela, andando para sair da sala. Mas insistia em Carrie uma questão. 

— Frank, você fez o que eu pedi, né? 

— Pediu o quê? — indagou Frank virando o rosto para ela antes de abrir a porta. 

A assistente semicerrou os olhos para ele controlando sua insatisfação. 

— Nada não, esquece. 

— OK, a gente se vê. Me liga assim que a Natasha responder hein. — disse Frank, saindo. 

Carrie voltara ao computador, estralando os dedos como num aquecimento. 

— Hum, a guia tá aberta. Bem, Frank passou a mensagem dele, hora da minha. — disse ela, baixando as mãos ao teclado, empolgada para mandar um bilhete virtual a sua estrela da música favorita — Vamos lá, como será que eu começo?

***

Numa clínica de estética e beleza, havia um cliente, um homem na casa dos 40 anos, à espera no espaço de massagem e procedimentos terapêuticos diversos. Deitado na cama de bruços, ele se deleitava com o relaxamento como prévia. A massagista veio cumprimentando-o, até se desculpando pela demora.

— Olá, perdão por deixa-lo esperando. Paul, não é? 

— Sim, senhora. Ops, desculpa... Acho que não me expressei bem, eu... ahn... 

— Tudo bem, não me incomodo. Já tô as vésperas dos 40 mesmo. — disse ela, uma moça negra de cabelos ondulados longos, com bom humor. 

— Parabéns adiantado. — disse Paul, sorrindo. 

— Obrigada. — disse ela voltando-se para o balcão com espelho e notara algo que a fez franzir a testa — Ah, que droga. Os vidros de gel estão quase secos. E olha que pedi pra substituírem ontem. Vou indo pegar novos, volto num instante. 

— Sem problema. — disse Paul, paciente. 

Cerca de dois minutos após a massagista sair da sala, um pequeno intruso se esgueirava pelo piso coberto por um carpete cinzento. Era a sanguessuga que outrora havia saído do vaso sanitário de Jordelle antes de mata-la. Naquele momento, sua entrada sorrateira se deu por meio do duto de ventilação. Paul assoviava baixinho para espantar o tédio, movendo os dedos devagar. A sanguessuga rastejou em aproximação de Paul. De repente, inchou até adquirir uma forma humanoide, parecendo sombra viva materializada, de um preto vibrante e intenso.

Encurtou mais a distância com Paul, abrindo silenciosamente sua bocarra de dentes em círculos. O homem parou de assoviar ao sentir pontadas nas costas que foram aumentando de profundidade. 

— Nossa... Já voltou tão rápido? Mas... O que é isso? Eu paguei pra uma sessão de massagem. Acupuntura pesa no meu bolso. — dizia Paul, cada  vez mais estranhando as agulhadas nas costas e sentindo sua força enfraquecer — Será que... dá pra me explicar o que tá havendo? Tira isso de mim... — tentou se virar, mas o peso da boca da sanguessuga aliado ao esmorecimento de sua vida bloqueavam. Seus lábios empalideciam — So... Socorro... Não consigo... me mover... — disse sem ter como gritar, o desespero dilatando suas pupilas na face lívida. 

A massagista retornava com os frascos de gel, mas estacou deixando-os cair no chão e quebrarem ao ver as terríveis marcas de perfurações nas costas de Paul que sangravam. Tudo que ela exprimiu foi um grito desajeitado de pavor se afastando horrorizada. 

***

Frank resolveu fazer uma visitinha casual a um velho conhecido, embora não fosse um amigo. Passava longe, bastante longe disso. O local não poderia ser mais precário em ambientação: O interior, parecendo um vasto sótão, de uma torre do relógio numa praça naquele horário pouco movimentada. A luz solar adentrava pelas aberturas e janelas grandes. Os passos de Frank ecoavam lento. 

— Quem é você? — perguntou uma mulher jovem de cabelo loiro curto de visual gótico — Não gostamos de estranhos invadindo nossa república. 

— Quero falar com um amigo importante seu. 

— Veio ver o Jensen?

— Não, o corcunda de Notre Dame. — ironizou Frank, a impaciência crescendo — Conheço seu patrão de muitos carnavais. Aliás, halloweens, no caso dele. 

— Espera um minuto... A quem acha que quer enganar? Tá me achando com cara de otária? 

— Olhando bem pra você, eu diria que sim. Pra ter que lamber o chão que um vampiro metido a besta como ele pisa e que vai te descartar que nem uma vadia no cio, tem que ser mesmo muito trouxa. 

A jovem rapidamente se enervou, mostrando presas e olhos vampirescos, logo partindo ao ataque. Frank foi empurrado até uma coluna de madeira, a vampira o agarrando na intenção de morde-lo. O detetive a chutou na barriga, depois a socou forte, quase que uma bofetada. Sacou sua lâmina de prata apontando-a em tom de ameaça. 

— O Jensen tá ou não? Eu tentei ser educado, mas você agiu impulsivamente pra me tascar um chupão. Como um bom caçador, eu não ia deixar barato. Tô te dando uma oportunidade de seguir viva, fica esperta.

— Guarda a faca e eu te levo até ele. — disse ela, recuando para perto de uma janela — Minha casa, meus termos. 

— Tá me achando com cara de otário? 

Sem titubear, Frank usou a ponta da lâmina para arrancar o colar com a pedra protetora da luz solar num ágil e imprevisível movimento. Chutou ela contra a janela da qual caiu, o vidro estilhaçado alto. Em pleno ar, exposta ao sol, a vampira queimou-se as cinzas, seu grito reduzindo até desaparecer com o dissipar delas. Som de palmas se fez presente, levando Frank a virar-se na direção do ponto mais opaco. Jensen, um vampiro com feições europeias de cabelo loiro escuro e porte relativamente atlético, surgia com alguns de seus comparsas.

— Comemorando a morte da sua princesinha? — indagou Frank em deboche. 

— Não, só apreciando a sua competência. — disse Jensen, aproximando-se — Me desculpa pela recepção nada calorosa da Amy. Você só obedeceu ao instinto tal qual ela. Um tinha que vencer a briga. Fazer o que, né? Você continua durão na queda. Eu nem me atreveria a te desafiar. Até porque com minha turma desfalcada eu não tenho chance de te encurralar pra não sair daqui com menos um litro de sangue ou talvez mais. 

— Vim te perguntar sobre um suposto vampiro aqui na zona. Tem uma biologia diferente. 

— O forasteiro? O cara que tá roubando nossa comida? Lamento te desapontar, mas não reconheço nenhum vampiro que deixe marcas como aquelas. Tudo que sei é da profunda inveja que sentimos por ele ser tão bom no que fez com as presas que tem.

— Se continuar do jeito que tá, ele domina essa zona sozinho e vocês ficam chupando dedo. Aposta quanto? 

— Aposto na sua destreza de caçador, velho amigo. — disse Jensen, erguendo o queixo em sinal de altivez.

— Já te causei muitos problemas, dizimando vários dos seus soldados, nunca consegui passar o facão no teu pescoço... Porque você sempre foi um baita covarde orgulhoso. E vai continuar sendo se não confiar em mim justo agora que teu reinado tá por um fio.

Jensen o olhou com elevada desconfiança.

— O que está tentando propor? Uma trégua? Você e eu? 

Os demais vampiros deram risadinhas infames. 

— Se não sabe o que é a coisa que tá tomando a bebida grátis de vocês, ao menos poderia contar comigo. Não acredita na minha destreza? Aqui tô eu. 

— Sabia que tivesse essa ideia. — disse Jensen num sorrisinho de canto — Camaradas, o que me dizem? 

Os membros da facção deram de ombros. 

— Parece que é unânime. Você tem um dia pra varrer essa desgraça da nossa zona. Ou nada feito.

— Sem morder pescoços de gente por um ano. Façam a dieta do esquilo ou do coelho. 

— Fechado. — assentiu Jensen, sério. 

Frank saiu da torre sentindo o celular tocar dentro do bolso inteiro do sobretudo. 

— Alô, Carrie. E então, resposta da Natasha? 

— Ainda não, mas tô vigilante, atualizando minuto a minuto. Não sabe da nova. Você vai pirar. 

— Pesquisou o padrão das marcas? 

— Não. — disse ela, fazendo uma breve pausa — Mais uma vítima, um homem identificado como Paul Strauss foi morto numa clínica de estética aí da zona leste. Ele esperava por uma massagem, a massagista o encontrou morto quando iria começar.

— Isso foi...

— Há quase uma hora. — interrompeu Carrie. 

A expressão de Frank foi de leve assombro pela ocorrência derrubar completamente a hipótese de uma nova espécie de vampiro como supunha. 

***

O detetive fora realizar uma breve verificação na clínica, tendo olhado o corpo de Paul confirmando serem as mesmas marcas vistas em Jo e nas demais vítimas anteriores. Saía de lá enquanto os homens do instituto forense o levavam até o rabecão cobrindo a cabeça com o pano negro. 

Uma nova ligação de Carrie foi prontamente atendida.

— Fala aí, tô saindo agora da clinica. O cara deve ter sido pego muito desprevenido. Covardia desse monstro atacar assim por trás sem dar chance de defesa. — disse Frank, se afastando ao máximo da multidão resumida a vários curiosos e alguns policiais. Olhou para trás na inspeção de não haver alguém próximo que o ouvisse mencionar os detalhes sobrenaturais do caso — OK, todo vampiro obviamente chupa sangue, mas nem todo chupa-sangue é vampiro. Além disso, os únicos vampiros que conheço de saírem à luz do dia são os Catacanos.

— Não se esquecer também dos Strigois. — relembrou Carrie — Da sua viagem pra Inglaterra onde você e minha deusa do rock uniram forças. 

— Verdade, me desbloqueou uma memória. Por falar nela... Cadê? Alguma resposta do e-mail?

— Sim, ela respondeu. — disse Carrie se inquietando  a cadeira para ver a mensagem contendo seu julgamento quanto às informações fornecidas — Acho que ela apenas ouviu falar muito vagamente do que tá por trás dessa coisa, deve ter pesquisado um fato recente envolvendo um local específico. Pra ser precisa, uma reserva florestal no Kansas. Um explorador chamado Aaron Klein conduzia uma excursão de universitários quando desapareceu. 

— O que esse cara tem tanto a ver com a história? 

— É agora que essa história fica interessante: Aaron havia caído num buraco acidentalmente que dizem ser um templo subterrâneo que é alvo de uma antiga lenda sobre um culto pagão a uma entidade conhecida como Deus Sangue. Se conta que os devotos utilizavam sanguessugas afetadas por um encanto que as tornavam parasitas internos e assim eram enfiadas goela abaixo de pessoas aleatórias que transitavam na floresta e sequestravam. 

— E com relação ao Aaron? Não houve resgate? 

— O buraco que leva a esse templo é difícil de achar. Mas, como estamos carecas de saber, toda lenda possui seu fundamento de veracidade. Aaron foi dado como desaparecido. A floresta é densa e as buscas não foram produtivas. 

— Me passa o endereço da casa dele, vou dar uma olhadinha. 

— Enquanto você quer bisbilhotar casa alheia eu tenho que me sujeitar a xeretar o banco de dados. — resmungou Carrie, culpando-se por invadir a rede privada de registros de cidadãos americanos  — Só um instante. — disse ao mesmo tempo em que Frank desativava o alarme do carro — Pronto, achei. Tem certeza de que quer ir lá? E se ele estiver mesmo ainda preso no templo passando frio, fome e sede?

— Não custa conferir. Disse que os membros dessa seita usavam pessoas como cobaias pra servirem de hospedeiros das sanguessugas enfeitiçadas. O Aaron pode ter sido uma e solto por alguma razão. — disse Frank abrindo a porta do sedã prata e entrando — Me fala o endereço. Tô com um trato valioso demais pra perder hoje sem resolver nada. Mas isso já é outra história... e você não vai gostar de ouvir. 

***

A residência de Aaron localizava-se a algumas quadras de onde se situava a clínica para uma leve surpresa de Frank que estacionou no outro lado da rua para se dirigir a porta e tocar a campainha. As janelas cobertas pelas cortinas poderiam indicar a ausência total de ocupantes, mas o detetive persistiu no seu intento de tirar a prova referente ao estado atual do explorador arqueológico. Tocou mais vezes. 

— Aaron? — chamou em voz alta de frente a uma das janelas. Esperou mais um pouco — Não, não saio daqui sem uma evidência concreta. Se viu ter que apelar, então que seja. — disse, cogitando invadir.

No entanto, os barulhos do outro lado da porta levaram ao descarte imediato da ideia. Aaron abriu olhando estranho para Frank. O explorador possuía 38 anos, um homem caucasiano de porte meio robusto, com barba por fazer e cabelo castanho claro. O detetive sorriu de modo simpático e cordial.

— Olá, me chamo Frank Monrgrow. A serviço do DPDC. — disse ele mostrando o distintivo — Será que podemos ter uma rápida conversa sobre... a sua última aventura de trabalho? 

Dentro da casa, Frank, sentado nun sofá de dois lugares, foi servido com um café morno do qual tomava enquanto ouvia o relato de Aaron atentamente.

— Não é casado, Aaron? 

— Divorciado. Há dois anos. Saí do México, onde deixei minha ex e meus filhos... pra depois, aqui na Califórnia, travar uma longa guerra no tribunal pela guarda das crianças e ao mesmo tempo seguir com meu trabalho como se minha vida não estivesse desmoronando. 

— Você parece exausto. Não tem dormido bem ultimamente? 

— Quer mesmo saber o que eu vi naquele lugar? — indagou Aaron, olhando para Frank tensamente.

— Tô aqui pra ouvi-lo sobre o que estiver disposto a falar, independente do quão estranha ou traumática tenha sido essa experiência. Não sinta receio de compartilhar detalhes, não vou te julgar.

Aaron engoliu a saliva antes de iniciar. 

— Foi o maior achado histórico da minha carreira. Mas que me pagou com uma maldição. Encontrei pinturas nas paredes, elas retratavam visões das pessoas que ali se reuniam, visões de seres monstruosos que pareciam sombras vivas atacando pessoas para se nutrirem de sangue. E... se eu te disser que... me tornei uma dessas criaturas?

— Como assim se tornou? O que aconteceu lá? 

— Haviam sanguessugas por toda parte. Uma delas se alojou em mim, entrou direto pela minha boca. Claro, não era uma sanguessuga normal, eu vi nas pinturas que era um animal aparentemente sagrado para os integrantes daquele culto pagão. Eu saí de lá, mas fui discreto. É melhor ser dado como morto do que me revelar a público não vivendo mais como eu mesmo, não me sentindo mais humano. 

— A sanguessuga dentro de você... te transformou na criatura que vem matando pessoas há poucos dias nesse bairro e nas áreas circunvizinhas. A magia negra desse bicho tá aí: usar de um humano como hospedeiro pra gerar sacrifícios ao tal Deus Sangue.

— Vejo que tá bem informado. Tem interesse especial nesses temas sobrenaturais de paganismo e monstros assassinos?

— Mais do que costumo aparentar. — respondeu Frank deixando a xicara sobre a mesinha — Aaron, não vou descansar até descobrir um meio de remover essa sanguessuga do seu corpo. Não tem que se culpar por um bicho teleguiando suas ações, mexendo com sua vontade própria pra se satisfazer.

— Eu quero fazer um pedido honesto a você, detetive. — disse Aaron, a face de lamento e tristeza — Preciso que... me mate. É o único jeito de parar com todo o sofrimento que ando causando. 

— Não é você, cara, é o domínio da sanguessuga sobre sua mente e corpo. Você tem que resistir ao máximo quando estiver pra se transformar. Já tentou uma vez? 

— Sim, mas... eu senti que iria morrer se não me alimentasse, como se fosse uma desidratação. Não seria tão ruim cometer suicídio se esse verme maldito dentro de mim morrer junto. 

Frank o encarou pesarosamente.

— Pensando bem, eu vou mesmo é atrás de uma cura pra expulsar essa coisa nojenta de ti. É uma promessa. — disse Frank que logo foi surpreendido pelo toque do celular — Alô, Carrie. Mais detalhes? Eu tô na casa do Aaron. Ele voltou, mas não saiu de lá como entrou. 

— A Natasha mandou nova mensagem, cavou mais fundo na lenda do Deus Sangue. Os membros da seita pretendiam espalhar as sanguessugas como uma forma de criar uma raça de monstros cujas vítimas teria o sangue vertido para a entidade, as sanguessugas não seriam nada mais que canais de transmissão. O que mantém a sanguessuga viva é a conexão. Além disso, ela obteve a fraqueza... Não sei se é possível já que você não quer prorrogar o caso.

— Diz logo, Carrie, como se mata esse bicho sem ferir o Aaron. Ele foi infectado por uma sanguessuga lá no templo e tá virando o monstro da boca redonda.

— Ela disse ser... sangue de um enfermo. 

— Sangue de gente doente?! Pega uma gripezinha aí pra depois eu extrair o teu. 

— Isso foi piada, né? Não é tão simples. Uma condição grave como a do Aaron exige um antídoto proporcional. HIV, câncer, diabetes etc. 

— Eu é que não vou ser louco de invadir um hospital pra roubar sangue de doentes. — disse Frank, totalmente contrário àquela medida extrema — Ou talvez... 

— Eu acho que tenho uma hiperglicemia, então...

— Não, Carrie, nada de doença comum. Acabei de pensar numa cura que pode ser ideal pra esse caso. — disse Frank olhando para Aaron com expectativa. 

***

O detetive teve de retornar ao único lugar onde se muniria com a chave para dar um basta ao tormento sangrento de Aaron. O interior do recinto parecia ainda mais sinistro no período noturno, banhado pela luz pálida da lua atravessando as janelas. 

— Jensen! — chamou Frank dentro da torre do relógio à procura de uma improvável prestação de favor — Eu sei que você tá aí, não saiu a caça com sua cambada pelo nosso trato, pode ir logo saindo do escuro! Na verdade, vim te pedir um pequeno... 

Jensen saía das trevas, porém Frank estranhou o séquito do vampiro estar ausente. 

— O que o traz de volta ao meu palácio, Montgrow? 

— Um quebra-galho. — disse Frank, olhando em volta — Cadê sua turma? Não fica grudado com eles 24 horas por dia? — indagou, logo virando-se para ele lançando un olhar mordaz — A não ser que... 

— Você não especificou muito bem os seus termos. — ressaltou Jensen com um sorriso cínico — Então tomei a liberdade de determinar conforme meus interesses. 

— Mandou seu bando caçar, não foi? Desgraçado...

— O nosso acordo vale a partir do momento em que você cumprir sua parte. Não é coerente? Me recriminar agora não faz o menor sentido. Vejo que não teve resultados. Quer minha ajuda pra lutar? 

— Não vim propor parceria de campo. A coisa que ameaça a hegemonia de vocês é vulnerável a sangue doente. Eu imaginei que pra acabar com uma condição sobrenatural o remédio também devesse ser sobrenatural. — disse Frank, aproximando-se — E se há uma doença pior do que qualquer câncer ou peste... 

— Já entendi. Veio aqui pra mais do que só extrair meu sangue. Você vai aproveitar a deixa, né?

— Legal, se não tá confiando, vou procurar um lobisomem, no fim das contas nem fará tanta diferença. — declarou Frank fazendo menção de ir embora. Mas Jensen demonstrara sua abertura em cooperar. 

— Espera. Eu topo. Se for mesmo a única coisa capaz de aniquilar esse maldito. — disse o vampiro arregaçando a manga esquerda do casaco preto — Terei o imenso prazer em ajudar. O que tá esperando? Pela primeira vez tô sendo permissivo o bastante pra uma lâmina sua me tocar, aproveita. 

Frank o fitou fixamente e sério, sacando a lamjma de prata de um bolso inteiro do sobretudo. Durante a volta, no carro, Frank recebera uma ligação de Carrie que não expressou tom de boas notícias. 

— Carrie, mais detalhes do lance da seita ao Deus Sangue ou as sanguessugas? Eu orientei o Aaron a resistir ao máximo à transformação, que ele não morreria desidratado a tempo de eu conseguir a cura.

— Acho melhor correr pra lá imediatamente. 

— Qual foi? Não tô gostando desse seu jeito de falar.

— Frank, a Natasha mandou mais um e-mail faz uma hora. O que ficou fazendo desde que saiu da casa do Aaron?

— Eu tava refletindo sobre voltar ou não pro covil dos vampiros pra pedir o sangue do Jensen. Acabei cedendo e... tá bem aqui, guardado num potinho. Já tô voltando pro Aaron e expulsar o verme. O que a Natasha enviou? Aliás, qual bomba ela soltou? 

— Ela se encorajou a fuçar na deep web alguns elementos mais profundos em relação a seita, descobrindo um arquivo restrito que só podia ser aberto por desencriptação avançada, talvez o irmão dela tenha ajudado. O autor desse arquivo é um dissidente da seita ou ao menos diz ser. Havia lá todo um relato detalhado sobre os cultos sacrificiais. Ela destacou apenas uma parte a respeito das sanguessugas. Chegou a perguntar quantas vezes o Aaron se transformou? 

— Ahn... Dizendo ele que foram umas 8 vezes. Por que? 

— Há um limite pra cada ciclo de metamorfose. Humano, depois sanguessuga rastejante, depois sanguessuga humanoide, de novo sanguessuga rastejante e por fim humano outra vez. Segundo o relato do suposto herege, é um total de 10 até o que ele chama vagamente de despertar caso reste apenas um emissário. 

— Despertar do quê? O Deus Sangue? 

— Não sei, mas se Aaron tiver sucumbido a influência da sanguessuga nesta noite, a cota será atingida. E sabe-se lá o quê vai decorrer disso. Pediu mesmo pra ele resistir, né? Escuta só essa: Quando passadas algumas horas de privação, a sanguessuga tende a provocar uma desidratação acelerada até a morte do hospedeiro. Porém, ela escapa vivinha, podendo já assumir a forma humanoide sem parasitar ninguém. Em outras palavras, mesmo que o Aaron não tenha concluído o número máximo de ciclos, ela pode se tornar independente em caso de jejum forçado. 

— Caramba... Valeu, Carrie. Eu só espero que o Aaron ainda esteja aguentando o tranco. — disse Frank pisando fundo no acelerador e rasgando a estrada. 

***

Estacionando o sedã prata numa freiada brusca, Frank olhou com preocupação para a casa de Aaron que estava mergulhada em escuridão total no interior. Saiu rapidamente do carro munido do pequeno pote com o sangue de Jensen e da lâmina, ambos nos bolsos internos do sobretudo. A porta se encontrava aberta, permitindo a Frank adentrar em passos cautelosos. Sacou uma lanterna, passando o facho de luz pela sala em cada canto. O silêncio do ambiente não lhe inspirava otimismo. 

— Aaron? Cê tá aí? É o Frank... 

Tomou um susto com a luz de repente focando no corpo de Aaron estirado no chão, os olhos abertos assim como a barriga na qual via-se um buraco feito visivelmente de dentro para fora. Consternado, Frank se afastou, lamentando profundamente seu atraso. 

— Desculpa ter vacilado contigo, cara. 

Seguiu pelos demais cômodos, notando rastros de sangue no piso, rastros que ao longo do caminho tomavam forma de pés em tamanho de um humano adulto, embora com dois grossos dedos aparentemente deformados. No quarto de Aaron, encontrou duas mulheres nuas e amarradas nos pulsos, ambas jazendo mortas no chão com as mesmas marcas de perfurações das vítimas da sanguessuga, evidenciando que Aaron chegava ao extremo de sequestrar para se alimentar sem ter de se rastejar por locais enquanto na forma discreta. 

Voltou a sala, porém um vulto pulara sobre seu ombro, logo se revelando como a sanguessuga humanoide cravando fundo os dentes. Frank dera uma cotovelada forte, afastando-a e livrando seu ombro ferido. Sacou sua pistola, efetuando vários disparos contra o corpo mole e segmentado da criatura que parecia a fusão de um homem com o anelídeo. Os tiros, porém, mal surtiam efeito danoso. 

A sanguessuga humanoide o agarrou, jogando-o contra uma mesa e derrubando alguns vasos com o impacto. Frank retirou depressa o pote com o sangue vampírico, banhando a lâmina de prata. Mas fora pego novamente pela criatura, sendo virado para estar de frente a ela e encarar sua bocarra de centenas de dentes afiados. O detetive pegara o pote e o quebrou na cabeça do monstro que sentiu um ardor com o sangue em contato na pele, soltando um som de queixa definido como um ronco alto e grotesco. Frank aproveitou a vulnerabilidade do adversário para golpea-lo com a mesa cujo tamanho médio não impediu de ergue-la. 

A mesa quebrou-se interna sobre a sanguessuga, enquanto Frank muniu-se da lâmina prateada e ensanguentada. Com o monstro caído, o detetive se pôs sobre ele, que tentava insistentemente morde-lo. Frank não perdeu nenhum segundo a mais, fincando brutalmente a lâmina no pescoço da criatura que soltou um urro rouco e irritante. Triunfante, Frank ficou de pé e não demorou a se surpreender com o resultado final. A sanguessuga regredia a sua forma animal aceleradamente. Os olhos espantados de Frank foram baixando conforme o processo. 

Antes que o anelídeo sobrenatural fugisse rastejando, o detetive resolveu dar o golpe decisivo que considerava um desfecho ridiculamente simples em uma caçada. Olhando com desprezo e com um risonho sorrisinhode canto, esmagou a sanguessuga impiedosamente com o pé direito. 

— Teus dias de chupa-sangue acabaram, bicho nojento. Onde está seu Deus Sangue agora? Ah é, dormindo... Tomara que pra nunca mais acordar. 

***

O início da manhã seguinte não foi dos mais agradáveis enquanto Frank acordava para um novo dia raiando em seu quarto. Franziu a testa ao ouvir sons que só poderiam indicar pessoas dentro de seu lar, entrando sem serem convidadas. Desceu apressado as escadas com seu pijama e descalço. 

— Que palhaçada é essa? — indagou ele, vendo agentes da ESP na sua sala carregando uma caixa retangular do tamanho de uma mesa de jantar. 

— O porão está logo ali naquela porta à esquerda, podem seguir. — disse Hoeckler vindo do corredor. Frank sentiu o sangue ferver, o que não era das mais revigorantes sensações para se preparar para o dia. 

— Hoeckler, isso não é o que tá parecendo que é...

— Exatamente o que está pensando que é. Bom dia pra você também, Frank. Por que não volta pra cama e curte a sua folga de consolação? 

— Ah, tá achando que pode invadir minha casa com seus soldadinhos e me deixar de boas com folga? Podia ter avisado que não precisava de permissão. 

— Nao seria mais necessário do que dizer que estava indeciso bastando uma breve mensagem. Esperei sua resposta por tempo demais pra não tomar essa medida. Parece que tratou com indiferença não só a minha volta como também minha proposta. 

— Eu só tava hesitando com essa ideia de jerico da tumba desse bruxo fedido aqui na minha casa. O que rolou na fundação pra tomar essa atitude? 

— Há um daeva infiltrado entre meus homens. Provalvemente há mais deles ainda não identificados. Esses monstros suplantam qualquer meio de detecção anômala, nunca lidamos com um problema dessa gravidade. É uma falha na contenção e toda falha deve ser contornada de imediato ou tudo foge ao controle. 

— OK, se não podia esperar mais... — disse Frank ainda pouco receptivo ao plano — ... acho que dá pra segurar, mas temporariamente. Assim que eu conseguir as cartas que as Agnes me falou e mandar os cavaleiros pro beleléu, essa porcaria volta pro lugar de onde nunca devia ter saído. Inclusive, ela tá fazendo maior hora pra me dizer onde fica o tal mausoléu de bruxos onde estão as benditas cartas. 

— Confie e acredite na paciência dela. Ela sabe o tempo certo de esperar e de agir. 

— Não diria isso se não fosse o amante dela. 

— Não diria isso se não fosse o homem com quem ela quer passar uma vida até que a morte nos separe. 

Frank baixou a cabeça em sinal de preocupação.

— Não se aflija tanto. — disse Hoeckler tocando-o no ombro. Frank olhou para o gesto com estranheza. Diante da resposta, o superintendente retirou a mão, desconcertado — Preciso ir. Aceite a folga, pelo menos. Sei que cuidará bem do nosso amigo.

Hoeckler saíra, enquanto isso Frank ficou a olhar para o corredor esperando os agentes retornarem após posicionarem a tumba em algum canto do museu de objetos paranormais. Não o deixava sossegar a dúvida quanto às implicações daquele plano, plantando na sua mente uma compreensão dúbia do que aquilo poderia representar futuramente.

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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

*Imagem retirada de: [1]
                                 

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