Frank - O Caçador #94:"Idade da Experiência"

Em um casual retorno para casa mais cedo, no auge do fim da tarde, o crepúsculo tingindo o céu de tons alaranjados e azuis, Frank mal esperava para o que havia sido reservado especialmente a ele o aguardando dentro da residência. Ao abrir a porta, a surpresa foi instantânea, o impactando com a calorosa recepção. Carrie e todos os colegas do DPDC gritaram em uníssono saudando o aniversariante do dia. Papel picado foi estourado e um bolo com velas faiscando em estrelinhas e refinadamente decorado se revelava numa mesa com Carrie e os demais abrindo espaço para o detetive apreciar a visão, por mais que sua vergonha o abatasse naquele instante.

Frank distribuía sorrisos tímidos e simpáticos aos presentes enquanto se aproximava do bolo durante a animada cantoria dos parabéns. Notou uma faixa com os dizeres "Feliz 50 anos". Um arrepio lhe perpassou. A garganta e o céu da boca secaram. Baixou os olhos para o bolo, ouvindo pedidos para soprar as velinhas, além de fazer um desejo - este sugerido por Carrie. Ele os fez, porém algo diferente do almejado ocorreu. O bolo de repente explodira.

O detetive se afastou com os pedaços voando pelos ares, levando todos da alegria ao súbito assombro. O que só pioraria graças ao que se descobriu no recheio do bolo. Frank, em meio a cochichos exasperados, olhava estupefato para um coração humano, pulsante e sangrando, no centro do bolo, não compreendendo nada do significado daquilo que não correspondia ao seu pedido. Sem pensar duas vezes, pegara uma faca e a cravou fundo no coração.

De imediato, a atmosfera se modificou terrivelmente. O fim da tarde deu lugar a um anoitecer rápido e sombrio. Com a facada, Frank sentiu uma agulhada no peito que depois tornou-se a dor de um punhal atravessando. Uma mancha de sangue crescia sujando sua camisa branca de trabalho, bem como a gravata azul. O mundo ao redor se enturvou, virou um borrão desfocado com vozes alteradas ao fundo que se distaciavam aos poucos. Caiu vacilante e suando frio, a morte a espera de levá-lo. O detetive se aturdiu mais ao ver que os convidados foram substituídos por figuras semelhantes aos cavaleiros sombrios, rodeando-o enquanto gargalhavam com escárnio. 

A ferida no peito esguichou jatos de sangue ao passo que o buraco era aberto de dentro. Frank grunhia, mas sentia não ouvir a si próprio, muito menos ter forças para exprimir um grito pela dor lancinante, apenas a boca soltando ruídos com sua face de terror como se ali soubesse de seu fim irremediável. 

Focou sua visão baqueada no que saía de dentro do peito. Para coroar o horror, uma mão cinzenta, escura, decrépita e de aspecto monstruoso, quase esquelético e com unhas que mais pareciam garras, emergia do rombo na carne de Frank. A mão voltou-se para seu rosto, avançando para agarra-lo. 

Num sobressalto intenso, Frank despertou na cama, ficando sentado devido ao susto com o término horrendo do pesadelo que virara sua indesejada festa-surpresa de aniversário. Passou a mão no rosto suado e foi verificar no seu celular posto na mesinha do abajur. Olhou com certa tristeza a data do dia que se iniciava com uma manhã de sol forte e céu azul.

— Feliz 7 de maio pra mim. — falou, desanimado. 

Ouviu o som da campainha, estranhando e já temendo ser alguém da vizinhança. Preferiu não atender. Fora tomar banho e se vestir para o trabalho. Após o café, a campainha soou novamente. Bufando de impaciência, o detetive se prestou a atender, quem quer que fosse a perturba-lo àquela hora. 

Abrindo a porta, quase saltou para trás com a visita. 

— Não, eu tô sonhando de novo... Não é possível... 

Ninguém menos que Raguel, o impoluto ofanim, estava ali, em vestes humanas - casaco carmesim por baixo de uma camisa preta e calças pretas, além de sapatos mocassim marrons —, se dispondo a ver um reles humano após sair de seu pedestal. O anjo de face amigável e atraente, olhos azuis e cabelos loiros com fios caídos nas têmporas, sorriu cordial.

— Se eu me lembro bem... Você é o Raguel, um dos ofanins. Fez minha alma sair do corpo pra me avisar do nome real do Malvus lá no mundinho perfeito dos anjos. 

— Certamente. Natural que estranhe a minha vista em um dia como esse. Espero não incomoda-lo. 

— Olha, longe de mim querer faltar com respeito a um anjo da sua escala, não me leve a mal, mas... já incomodou sim, eu tava de saída pro trabalho. O que quer comigo? Deixa eu ver se adivinho: é um assunto que envolve certos seres das trevas e um mago muito sinistro e louco pra espalhar medo e terror. 

— É um assunto que envolve especificamente você, Frank. — disse Raguel — Me permite entrar? Temos muito a falar. 

***

Frank manteve-se de pé, fitando o ofanim andando vagarosamente pela sua sala em exploração ao recinto. Uma série de interrogações pairavam na mente, em uma ansiedade incontida de serem respondidas. Raquel virou-se para o detetive. 

— Eu passei a adotar uma perspectiva mais atenta a sua participação neste princípio de novos tempos de guerra. Por isso tomei a liberdade de lhe propor uma tarefa exclusiva que pode render a você uma condição única para definir o fim dessa história. 

— Olha, sejamos um pouco mais claros e objetivos, nada de entrelinhas ou enigmas. — pediu Frank, educado — Ainda não consigo processar a ideia de um anjo como você vir me visitar e justo no dia do meu aniversário. Coincidência? Acho que não. 

— A propósito, meus parabéns. 

— Obrigado. Já sabia disso, né? Vocês anjos nunca dormem pra deixar de espionar a humanidade nem por um segundo. 

— E não precisamos. Eu sei tanto sobre você quanto sabe de si mesmo. Ser mais próximo do meu estimado Pai me confere tamanho privilégio. — disse Raguel andando para mais perto de Frank que não encarou bem a aproximação, levantando uma sobrancelha. 

— Ei, não vem querer forçar amizade. Me observa, sabe tudo a meu respeito, mas não significa que é meu amigo, não até esclarecer suas intenções. Inclusive, é esquisito demais um anjo de primeira classe chegar na minha casa assim, tocando a campainha, andando entre os mortais e falando de proposta com tom de mistério. Como vou saber se você não é um daeva disfarçado? 

— Daevas são biologicamente incapazes de usurpar anjos copiando a aparência. — afirmou Raguel — Mesmo que pudessem, jamais teriam êxito pois necessitam de matar o corpo original para assumir o lugar. 

— Então o limite letal deles são mesmo os serafins?

— É bem verdade, o que me desagrada ainda mais agora que são a única classe autorizada a agir na tentativa de refrear os daevas e seus mandatários. E estão fracassando. Sem um plano estrategicamente traçado, estarão condenados e na iminência disso ainda seremos obrigados a ficar de mãos atadas. Talvez precisem combinar forças com os humanos, o que naturalmente inclui você também. 

— Não pode questionar o Todo-Poderoso? Eu entendo, Ele sabe o tempo certo pra tudo, mas...

— As determinações do meu Pai são inquestionáveis mesmo que tenhamos liberdade para contesta-las. O livre arbítrio não é uma exclusividade humana. O que me preocupa mais, no momento, é a ineficácia do atual plano de ação dos serafins. Se Azrael não tivesse caído, estaríamos com ampla vantagem. Talvez não teríamos que sujeitar pobres almas humanas a enfrentarem esse horror a própria sorte.

Frank fazia que sim com a cabeça lentamente, pensando nos cenários mais favoráveis que acarretariam no triunfo certo dos anjos sobre os daevas. 

— Mas falemos de você, Frank. — disse o ofanim o olhando com certo interesse — Hoje é seu dia, afinal. 

— Que tipo de surpresa tá preparando pra mim? Espero que seja algo menos embaraçoso que ser recebido por vários amigos e colegas de trabalho fazendo você ser o centro das atenções no dia em que você tá menos disposto a isso. Especialmente esse ano em que... — disse Frank, interrompendo-se ao passar a mão direita na testa em sinal de preocupação — ... completo uma idade que eu não esperava atingir com tanta saúde e vigor de sobra, considerando meu estilo de vida. 

Raguel retirou do bolso do seu paletó carmesim uma esfera de cristal transparente e a pusera na mesinha de centro. Frank expressou não entender. 

— Você só está vivo por uma questão de autopreservação. O quanto você anseia em se manter sobrevivente de todas as tribulações pelas quais passa diariamente? É uma das perguntas que essa prova fará você refletir. 

— Peraí, que prova? O que tá planejando? 

Sem dizer nada, Raguel estalou os dedos da mão direita e a esfera de cristal emitiu uma luz branca que se intensificava rapidamente. Frank tentava proteger os olhos com as mãos dada a claridade insuportável. A luz pareceu envolver tudo ao redor do detetive. Até que reduziu-se, o permitindo reabrir os olhos. Frank olhou em volta, vendo-se do lado de fora, porém sabendo não estar próximo de sua casa. Era um beco aleatório repleto de latas de lixo entre duas paredes de apartamentos baratos. 

— O que tá acontecendo? Você... — disse ele, logo virando-se para Raguel — Pra que me tirou da minha própria casa? Que negócio é esse? Eu quero saber! Chega de suspense, me diz o que tá rolando aqui.

— Não se enerve, as respostas virão conforme a prova estiver em curso. Ela se inicia agora mesmo. Você, Frank, é um potencial candidato a um destino para o qual poucos homens tem a honra de serem contemplados. O Grande Mal ameaça se libertar e devemos nos preparar, haja o que houver. E você é o ponto de partida de que precisamos. Se eu estiver certo, teremos a esperança renovada. 

— O que eu sou pra vocês, afinal? Alguma espécie de Messias? Você não tá me ajudando a entender esse jogo. Fala logo ou senão vou embora. 

— Pra sua casa? Receio que não. 

— Qual é? Tá achando que pode me obrigar a ceder a esse lance de prova? Me descartem dessa, eu não sou o mais indicado pra uma responsabilidade que compete mais a seres como vocês. Decreto que tô fora. — disse Frank dando as costas.

— Frank, esta prova é mais importante do que pensa. Deve me escutar. Seus amigos, familiares... O valor que eles dão a você precisa ser reconhecido. 

— Acha que não valorizo as pessoas com quem me importo só porque tenho vergonha de festinhas de aniversário pra mim? Eu esperava mais de você, sabia? Isso é ridículo. 

— Pare e medite sobre a grande questão desta prova: E se Frank Montgrow nunca tivesse vindo a nascer? 

Raguel desapareceu em nanosegundos diante de Frank que sentiu a impactante pergunta ecoar na mente por vários segundos enquanto mergulhava em pensamentos sobre a importância que parecia sentir estar rejeitando com sua negativa em relação a festas para comemorar um ano a mais. Mas sabia que o desafio proposto significava muito mais. 

***

O único lugar para o qual Frank traçou rumo enquanto seguia pelas movimentadas ruas da zona leste de Danverous City parecia o refúgio mais próximo para se abrigar, já que lá estava a única pessoa com quem o detetive poderia sentir o conforto de um porto seguro diante de situações bizarras. Entrou no DPDC, mas passou pelos corredores enfrentando olhares tortos de confusão. Até mesmo colegas que conhecia somente de vista e de nome lhe lançaram expressões de dúvida, como se um rosto novo ou um estranho impertinente surgisse ali. Ignorando as impressões, Frank resolveu ir até a sala de Carrie, sua maior confidente irrestrita. 

Ao tocar na maçaneta, constatou que a porta estava trancada. Deu umas batidinhas com dois dedos. 

— Entra! — permitiu ela em voz alta. Frank o fizera, demonstrando toda sua pressa para confabular seu atual tormento — Fez bem em ter voltado, não vai... — disse ela, pausando a fala ao desviar o olhar do computador para Frank. Retirou os óculos de leitura e o fitou longamente com estranheza. 

— Voltar? Acabei de chegar. Olha, respira fundo porque uma bomba foi jogada no meu colo e não faço ideia de como desarma-la, deixa eu te contar. — disse Frank, indo sentar-se. Porém, Carrie fez um sinal de "pare" com a mão direita antes que ele encostasse a bunda na cadeira frente a ela. 

— Quem é você, afinal? — indagou ela. 

— Ahn... Carrie, sou eu... O Frank, seu parceirão de trabalho, seu melhor amigo... — disse Frank já desconfiando — Não, não, não... — falou com ar risonho — Isso tá me cheirando a uma pegadinha, não é possível... 

— Eu vou fazer uma pergunta com toda a sinceridade: Você bebeu ou experimentou alguma substância psicotropica nova no mercado de entorpecentes pra errar de departamento? Olha que se for o caso, você tá frito hein. 

— Esse aqui é o meu departamento. — contestou Frank firmemente — Ah, para com isso, Carrie, já desvendei o lance. Hoje é meu aniversário, daí decidiu fingir que não me conhece pra me ensinar uma valorosa lição sobre o quanto festas-surpresas são importantes pra celebrar mais um ano de vida com saúde e amigos por perto. Desfaz do personagem, saquei qual é a tua e não funcionou. 

Carrie balançava a cabeça em negação com o cenho franzido, totalmente perdida com o que ouvia. 

— Meu Deus, o seu caso é gravíssimo. Talvez eu deva dar uma ligadinha pra segurança, eles podem te mostrar a saída e o endereço da clinica psiquiátrica mais próxima . — disse ela que pegou o telefone fixo, mas Frank tratou de segurar o antebraço esquerdo dela. A assistente o fuzilou com o olhar, soltando o braço — Quem você pensa que é? Nem te conheço! 

— Calma, sem histeria. Eu juro que não bebi nem me droguei, apenas vim aqui atrás da minha melhor amiga pra falar de um assunto urgente. 

— Ah, seu aniversário? Tô muito interessada em discutir...

— Não é isso, digo... Tem uma certa ligação, só que...

— Quem é você? — perguntou Carrie novamente, seu tom de braveza soando sério o suficiente para Frank conjecturar que havia algo gravemente errado — Alguém te falou pra me procurar? De qual departamento ou distrito você é? Se não falar, eu...

— Tenta me escutar, por favor, tá acontecendo uma tremenda patifaria aqui. 

— Concordo. Um agente desconhecido vir na minha sala, me tratando com uma intimidade como se fôssemos amigos de longa data...

— E nós somos, caramba! Que merda tá havendo? 

— Essa pergunta é mais minha do que sua. Por favor, sai da minha sala, você é um maluco que tá desperdiçando meu tempo. Não sei quem você é, pouco me importa saber, nunca conheci nenhum Frank antes. Sabe como são primeiras impressões, né? Chispa daqui senão eu grito. 

Frank deixou os ombros caírem, virando as costas em silêncio para a assistente vendo que qualquer tentativa de convencimento seria ineficaz. Mas antes de alcançar a porta, lembrou das últimas palavras que Raguel lhe dirigiu. A pergunta de um milhão. 

"E se Frank Montgrow nunca tivesse vindo a nascer?"

A frase ecoou na sua mente com a lembrança, associando-a diretamente ao desconhecimento assombroso de Carrie a sua pessoa. 

— O que tá esperando? Que eu ligue pra segurança e eles te tirem daqui aos pontapés? Vai embora, é a última vez que eu peço. 

A recordação sobre Raguel fez o sentimento de derrota em Frank diluir-se. Ele voltou-se a Carrie. 

— Pelo menos tenta verificar se meu nome consta no banco de dados, por favor  

— Céus, você não vai desistir. 

— Eu tô pedindo por favor. Vou ter que me ajoelhar e implorar? É só uma pesquisa rápida, não vai carcomir os seus dedos. Frank Montgrow, confere aí. 

A contragosto e o olhando torto, Carrie levou suas mãos ao teclado, invadindo o banco de dados, precisamente o registro de cidadãos de Danverous City, levando alguns minutos para a busca.

— E então? Procurou direitinho? 

— Sim. 

— E... achou alguma coisa? 

— Não. — disse ela, levantando-se — Muitos com o nome Frank, mas nenhum com o sobrenome Montgrow. Você que inventou? É bonito. Tem certeza que não é Montgomery? 

Frank pusera as mãos na cabeça em sinal de aflição. 

— Por favor, pesquisa de novo, só mais uma vez...

— Já gastei tempo da minha carga-horária dando ouvidos a um suposto demente vestido de detetive que veio me procurar sem um motivo específico, portanto serei educada novamente em pedir que vá embora. Não existe nenhum Frank Montgrow registrado como cidadão americano. 

Um outro alguém batia a porta. 

— Entra aí. — concedeu Carrie. 

A pessoa que adentrava pegara Frank completamente desprevenido. O detetive sentiu ter a certeza de que o coração saltaria pela boca tamanho seu susto com aquela presença tão familiar.

— Opa, tô de volta e... Temos visita?! Que surpresa. — disse Fred, deixando Frank boquiaberto. O meio-irmão do detetive usava um sobretudo parecido com o dele, mas num tom de ferrugem bastante nítido — Não vai me apresentar seu amigo, Carrie? 

— Ele não é exatamente um amigo... — disse Carrie que o exporia naquela hora, mas Frank a cortou. 

— Eu sou Frank Montgrow, departamento secundário da zona norte. Agente prioritário. — disse Frank numa repentina cortesia após se desfazer do assombro. Estendeu a mão para apertar a de Fred — E você é...?

— Agente Hackson. — disse ele, retribuindo o traquejo cortês — Fred Hackson. Muito prazer. 

— O prazer é todo meu. Você... me é muito familiar, lembra alguém que eu conhecia, uma pessoa que foi mais que um amigo na minha vida... 

— Mais que um amigo... Então significa que... — disse Fred em tom de insinuação. Carrie visualizou Frank com suspeita. 

— Ahn... Não, você interpretou errado. Não jogava no outro time com ele. Éramos quase irmãos, parentesco mesmo. 

— Foi mal, eu as vezes não levo jeito pra compreender o sentido correto do que as pessoas dizem. — disse Fred aos risos — Não te deixei constrangido, né? 

— Não, tô de boa. Eu já tava de saída... A Carrie me ajudou com um favorzinho básico, minha assistente tá de folga e recebi aval do chefe pra recorrer a central do DPDC. Tenham um bom dia. Falou. 

— Falou. — disse Fred batendo rápido no ombro de Frank quando passou por ele ao sair. Após o detetive ir embora de vez, Carrie resolveu puxar Fred para mais perto pelo braço como quem desejava ansiosamente repassar uma fofoca — O que foi? O que tá rolando? 

— Não fica se amigando com esse cara  É um completo estranho, chegou aqui como se fosse... você interagindo comigo, nos conhecêssemos a um longo tempo. Ele mentiu na cara dura sobre departamento secundário. Porque não trabalha lá e em lugar nenhum. 

— Que história é essa? Então... significa que ele não é quem ser? 

— Eu não faço ideia de quem ele seja. Não há nada a respeito dele no banco de dados. Montgrow não é um sobrenome registrado em cartório. Ele teria de mostrar uma certidão de nascimento pra comprovar. Mas sabemos o quão preciso e confiável é o banco de dados, sendo assim é um indício válido de que... ele é encrenca, muito possivelmente. 

— Quer que eu fique na cola dele? Crê que ele não seja humano por dentro? 

— Monstro ou não... Melhor não se iludir com as aparências. Você é a única pessoa que conheço a entender bem disso, apesar de extrapolar as vezes. Se for o caso, extrapole. Mas só se tiver certeza. 

— Tá legal. Me deseje sorte. Vou ver pra qual direção ele seguiu e me manter no encalço. — afirmou Fred, sério na face, disposto a desmascarar Frank a todo e qualquer custo movido àquela intensa suspeita.

***

Paralelamente, na dimensão original, Raguel se deu a liberdade de explorar o porão de Frank, olhando a coletânea de artefatos sobrenaturais no museu de límpida organização. Mas um item em particular lhe capturou uma atenção fixa, embora não das melhores. Caminhou em linha reta, ignorando o armário com os arquivos e dossiês. 

A tumba de Zaratro não soava apenas familiar como também serviu para que o ofanim considerasse uma ideia drástica e extrema, dada a energia maligna que sentia. Pusera a esfera de cristal no chão, indo embora para aguardar o desenredo do seu plano.

***

Após umas duas e meio cansativas idas de táxi, Frank enfim chegava ao seu bairro na área residencial da zona norte, dobrando para a sua rua. Reconheceu a fachada branca da sua casa a certa diantancia e apertou o passo. O carro preto de Fred veio aparentemente para dobrar, mas parou um instante, o detetive observando-o andar. 

Um sorriso otimista desenhou-se no rosto de Frank. Se Raguel havia apagado a memória de todos que conhecia e distorcido a realidade ao ponto de inserir um falso Fred revivido para tornar a experiência mais impaciente emocionalmente, pelo menos acreditou que seu lar estivesse fora da lista de alterações. 

Descobriu a porta aberta e adentrou. No mesmo momento, Fred encostou o carro, visualizando atentamente a entrada de Frank na residência. 

— Parece que o Jerry entrou na toca. Bem, hora do Tom enfiar a mão e arranca-lo de lá. — disse ele, carregando uma arma com munição específica. 

O contentamento de Frank desapareceu de seu rosto ao esquadrinhar o interior da sala de estar. Pintura das paredes e mobília completamente diferentes, parecia ter cometido uma invasão domiciliar por engano. O ocupante aparecer ali com uma espingarda que limpava provara por A mais B. O homem de barba volumosa e descamsidado - apenas de calças jeans e botas - mirou a arma para Frank ao nota-lo ali parado. 

— Não se mexe ou eu atiro! Como entrou aqui? 

— Ei, espera aí, não quero problema, OK? A porta tava aberta. — disse Frank erguendo de leve as mãos em sinal pacífico — Abaixa a carabina, não sou bandido. Tá vendo minha roupa? Sou agente federal, DPDC. 

— E até onde eu sei eles não tem mandado pra invadir casas como bem entenderem. Ou alguém fez denúncia falsa contra mim? Brinquedos que nem esse são autenticados, zona legalizada. Eu só faço curadoria pra revenda. Te mostro as credenciais se quiser. 

— Não precisa, cometi um engano, me desculpa. Tô indo nessa, foi mal pelo incômodo. E cuidado ao manusear armas carregadas pra esse seu trabalho.

Antes que Frank virasse-se por completo, Fred surgia praticamente arrombando a porta com a arma em punho. 

— Parado! — disse ele agarrando Frank com uma mão e o algemando prontamente — Pensou que se daria bem, falsário? 

— Peraí, Fred?! Que putaria é essa? Tá me prendendo por que? Você me seguiu até aqui?

— Tem o direito de permanecer em silêncio. Tudo o que disser...

— ... será usado contra você no tribunal e blá-blá-blá. — disse Frank quase em uníssono com ele — Dá pra me explicar a razão disso? A gente se conheceu hoje, achei que...

— Fôssemos nos tornar amigos? Não depois do que a Carrie me contou. Agora andando, vai. 

Frank foi conduzido até o carro tal qual um criminoso pego em flagrante. O detetive prioritário do DPDC naquela estranha realidade levava seu cativo para uma floresta densa com inúmeras folhas secas cobrindo o solo. Fred o permitiu sair, retirando as algemas, mas o advertindo a não se atrever em fugir.

— Lugarzinho bem relaxante pra termos nossa conversa de homem pra suposto homem. Eu adoro o cheiro do outono. — disse Fred com a arma na mão direita. 

— Fred, infelizmente não tenho como te convencer. Eu bem que queria, mas não, com você não dá.

— Nossa, já querendo assumir quem realmente é? Espera pela minha parte favorita, ao menos. Mãos na cabeça, de costas, não tô pedindo. 

Frank obedecera, virando de costas com as duas mãos erguidas tocando a cabeça. "Aquele anjo sacana vai ouvir umas e poucas boas se eu sair dessa. Que merda de teste é esse?", pensou Frank, amaldiçoando Raguel por colocá-lo em maus lençóis.

Sentiu duas picadas súbitas nas costas. Fred havia disparado da arma dois dardos tranquilizantes. O efeito sedativo derrubava Frank rapidamente. Caiu no chão para trás, o mundo ao redor escurecendo. 

— A sedação age rápido, mas hoje tô com pressa já que você alterou todos os meus planos. Nesse caso... Vou dar meu beijo de bons sonhos. — disse Fred, logo dando um forte chute no rosto de Frank que o levou a inconsciência instantânea. O mundo aos olhos de Frank apagou-se abruptamente após o pé direito de Fred pisar violentamente sobre ele. 

***

O despertar abrupto de Frank ocorreu por meio de um água fria jogada no seu rosto. Sacudindo a cabeça, o detetive olhou em volta, a visão ainda se recompondo. A dor do chute que levara de Fred lancinou de repente, o atordoando. Logo depois que deu-se conta de não estar sentindo os pés no chão, pendurado com os braços amarrados para cima, a corda presa a uma viga de madeira naquele celeiro pequeno repleto de feno e caixotes. 

— Finalmente acordou, princesa Aurora. — disse Fred diante dele, armado com um facão afiado — Espero não tenha tido pesadelos. Até porque viver dentro de um deve ser mais emocionante... de um jeito traumático, claro. Eu não quero ser o interrogador tagarela, então vamos tentar encerrar nossa sessão de perguntas e respostas o mais breve possível. Tenho um compromisso inadiável e já perdi tempo demais com você me dando todo esse trabalho. 

— Você não tinha que vir atrás de mim... — rebateu Frank, ainda meio grogue — O que tá acontecendo? Eu tô sentindo... um clima diferente... 

— Sim, é clima de festa. É seu aniversário hoje, né? Segundo disse a Carrie. Estamos na sua festinha. Surpresa. Mas aí nos deparamos com o fato que entra em conflito direto com isso: seu nome não está na lista de registro de cidadãos americanos residentes em Danverous City. 

— Que dia é hoje? — indagou Frank. 

— Podemos estar vivendo tempos sombrios, estranhos e assustadores, mas o protocolo de interrogatório é o mesmo ainda. 

— Eu só fiz uma pergunta, responde, caramba!

— Escuta aqui, seria bom você ir abrindo o jogo sobre sua origem ou seja lá de qual fim de mundo veio. — disse Fred apontando o facão para o rosto de Frank, a ponta espetando a bochecha esquerda. Fizera um corte superficial do qual viu sangue escorrer — Sangra vermelho... como todo humano... 

— Se isso não for convincente o bastante, você tem sérios problemas. Eu quem sou e de onde vim, não tenho que provar nada pra você. Agora me desamarra daqui pra eu ir procurar um certo anjo que armou essa cilada e botar contra a parede. 

— Acredita em anjos? Se existissem mesmo não teriam deixado o mundo virar esse inferno. 

— Tá falando do quê? 

— Todos morreram! — vociferou Fred bem no pé do ouvido de Frank — Todos que conheci, todos com quem já cruzei, todos que já salvei! Não viu o caos lá fora? O mundo inteiro agora sabe da verdade. Daí gerou uma onda de consequências sem fim.

Frank prestava mais atenção no que ele proferia acerca da realidade. Seria aquela versão de Fred um completo lunático que faz interpretações equivocadas quanto a sua percepção de mundo? Ou uma versão sua materializada como Fred que se desvairou pelas infindáveis caçadas, vivenciando sucessivas perdas e recorrentes fracassos que o fragilizaram emocional e psicologicamente? Fosse o que fosse, Frank se disporia a obter a verdade ali mesmo naquele instante, mesmo sob tortura. 

— Fred... A Carrie... também está morta? 

— Eu disse que todos se foram. Não pude protege-la. Hoje você é um dos meus troféus, Frank. O primeiro deles, aliás. O segundo está a minha espera. O terceiro será a cabeça da coisa que matou nossa luz e roubou nossas esperanças. — disse Fred rodeando-o. 

— Eu sou fruto de uma linhagem de caçadores, os Montgrow, muito reconhecidos... 

— Que Montgrow o quê! A linhagem mais proemiente de caçadores sobrenaturais que já existiu na face da Terra foram os Hacksons, pra sua informação! Quer saber? Pra mim chega. — disse Fred, logo fazendo um corte nas costas de Frank — O que você é? 

— Um ser humano de carne e osso como você, seu imbecil! Para de passar essa peixeira em mim! 

— Não me diz pra parar! — berrou Fred, exaltado — Sem nome registrado, sem identidade, cartão de crédito, carro, você não existe. 

— Fred, tenta pensar racionalmente. Eu tô tentando ser seu amigo. Me responde que dia é hoje, por favor.

— Sete de maio. — respondeu ele, desdenhoso. 

— É, isso aí, exatamente, a data do meu aniversário. Faço cinquenta anos hoje. 

— Nossa, tudo isso? Espera que eu cancele meu interrogatório pra ir numa confeitaria comprar um bolo e cantarmos parabéns pra você? 

— Eu espero você confiar na minha palavra e me tirar daqui. Pra onde você iria nesse tal compromisso?

— Não te interessa. 

— Vai, me fala, nós podemos combater o que tá lá fora juntos. De caçador pra caçador. Eu caí nessa realidade alterada de paraquedas. O anjo de quem falei antes, ele é o responsável. 

— Então terá sido ele que me mandou esse bilhete? — indagou Fred retirando do bolso um papel-cartão dobrado no qual dizia "me encontre na reserva florestal mais próxima do local onde enviei esta mensagem, lhe proponho um desafio valendo um prêmio inestimável para acabar com todo o mal" — Alguém me enviou isso... Me induzindo a aceitar um desafio que vale o que eu suponho ser... uma arma.

"Raguel, aquele miserável. Tá manipulando tudo isso aqui pra mexer com a minha mente", pensou Frank. 

Repentinamente, Fred cortara a corda que prendia os pulsos de Frank com o facão. O detetive voltara a sentir o chão sob os pés, aliviado com a sensatez adquirida pelo seu captor. Frank virou-se para ele. 

— Você acredita que é um anjo... e eu que seja uma arma. Talvez estejamos certos. Mas só um de nós ficará com o prêmio.

— Valeu por ter criado um pingo de juízo nessa cabeça e me livrar dessa neura de pensar que sou um monstro. — disse Frank tocando os pulsos que tinham marcas de cordas — Você tá comigo? Eu costumava perguntar isso... pro meu quase-irmão. 

Fred o fitou seriamente, numa dureza de face que não depositava tanta confiança. 

— Eu libertei você pela chatice que seria não ter um concorrente nesse desafio. Eu nunca vivi a emoção de uma rivalidade. 

— Meu irmão e eu também éramos meio que rivais...

— Para de me comparar com esse seu irmão! 

Frank estremeceu com a reação exasperada, arrependendo-se da associação com o original Fred. 

— Foi mal. É que você me faz muito lembrar ele. 

— Vamos logo. — disse Fred andando — E ai de você se tentar me apunhalar pelas costas. Acabo com a sua raça antes mesmo que pense em fazer. 

— OK, você quem manda. — falou Frank pegando suas roupas de volta.

***

Enquanto Frank e Fred cruzavam a cidade para chegar ao ponto indicado por Raguel no bilhete, na realidade original uma mão misteriosa pegava a esfera de cristal, a tirando do armário de onde estava sobre. No mundo alternativo regido pelo ofanim, a dupla passava por uma rua larga, repleta de lixo espalhado e deserta. Frank não podia ignorar a atmosfera medonha que tal cenário lhe inspirava. 

— O que houve pra tudo ficar assim... esvaziado de gente? 

— Essa história é mais longa que nosso caminho. Mas se quer um simples e breve resumo, aqui vai: os monstros venceram. Todos eles, sem exceção. — revelou Fred caminhando a frente do parceiro. 

Frank ficara pensativo em relação àquilo, imaginando que Raguel pudesse estar lhe mostrando um possível futuro construído a partir do que estava lidando no seu mundo.

— Antes de você me atirar aqueles dardos tranquilizantes, parecia tudo normal, como a Terra da qual vim. — disse Frank tentando alcança-lo — Dai quando acordo, tudo vira uma distopia onde o mal venceu. Cê vai ter que me ouvir e acreditar: O Raguel tá fazendo dessa realidade o brinquedinho dele de montar e desmontar. Num estalar de dedos, ao bel prazer dele, pode modificar isso tudo aqui e você nem vai perceber pra poder questionar. 

— Não, o mundo está assim há anos. — contestou Fred — A luz desapareceu, o sol morreu. A humanidade ficou a mercê de forças poderosas. Tô carregando uma responsabilidade maior que a sua nas costas, o que me torna merecedor do prêmio. 

— Tá legal, continua com a mente presa na Matrix, problema seu. — rebateu Frank, desistindo de levar adiante aquela conversa.

De repente, ambos se viam na floresta como se tivessem sido transportados num piscar de olhos. Raguel saíra detrás de uma árvore, usando as mesmas vestes humanas refinadas de antes. 

— Saudações, caros potenciais. — disse o ofanim se encaminhando até eles. Frank o encarou raivoso. 

— Belo teste pra mim esse seu. Tô aprendendo que é uma beleza. Melhor aniversário. — ironizou o detetive. 

— Você é... Raguel? — indagou Fred — Não sabia que anjos se vestiam como grã-finos. 

— É para melhor me apresentar. — justificou o anjo. 

— Não tem problema usar sua armadura dourada toda pomposa e brilhante perto de seres insignificantes que nem nós. 

— É sério? Ele usa uma armadura coberta de ouro na verdade? — perguntou Fred, curioso.

— Não sei dizer se é ouro, mas é tão brilhosa que parece não ter um pozinho de poeira sequer. 

— Podemos iniciar o teste de aptidão prática? Eu os trouxe até aqui para nos adiantarmos. 

— Nos adiantar pra quê? — indagou Frank, altamente desconfiado. 

— Não vem ao caso discutir, por ora. A floresta está repleta de obstáculos pelos quais deverão ultrapassar com bravura e tenacidade. 

— Você é cheio dos rodeios. — insultou Frank – Já tentou ser mais direto uma vez?

— Deixa ele falar, para de ser inconveniente. — resmungou Fred — Prossiga, Sr. Raguel. 

— Dispense a formalidade, por favor, mesmo eu sendo um emérito agente de autoridade celestial. — disse Raguel — O que os espera à frente exigirá da capacidade de vocês em se verem como presas quando estão acostumados a serem os predadores. 

— Tem monstros por aqui? Usou dos seus truques pra criar monstros pro seu desafio? — perguntou Frank. 

— Os criei, mas eles já existiram no mundo paralelo a este. O mesmo de onde você veio, Frank. Os chamávamos de Lilim. O nome deriva de Lilith, por serem as proles concebidas por ela após se envolver com Samael, um querubim renegado, numa época em que o Éden ainda era povoado por apenas dois seres humanos.

— Adão e Eva? Vamos enfrentar monstros dos tempos do Gênesis? — questionou Fred. 

— Precisamente. Sejam cautelosos, os Lilim expelem um hálito de fogo mortalmente eficaz. Meus irmãos e eu tivemos longo e árduo trabalho pra extirpa-los quando passaram a se proliferar como baratas, já que Lilith não cessava a geração. Só parou depois do extermínio. O Éden era o único refúgio seguro, pois todo o resto do mundo ardia em chamas. Como retaliação, Lilith se infiltrou no Éden e...

— ... ludibriou a coitada da Eva na forma de serpente. Eu sei, o Adrael me contou essa parte. — disse Frank.

Raguel os olhou com minúcia e elevou o queixo em postura de comando. 

— Podem ir. A espada aguarda um de vocês. 

— Uma espada?! Tá pra mim. — disse Fred, confiante, logo correndo para se embrenhar no matagal. Frank parou proximo de Raguel. 

— Não vou te perdoar pelo que tá me fazendo passar nessa porcaria de realidade alternativa. 

— Frank, ouça com atenção: houve uma movimentação suspeita. A esfera se deslocou. 

— Aquele cristal... É nele que tô preso... Você me paga. — disse Frank preparando-se para correr. 

— No final você entenderá. — garantiu Raguel. 

O detetive disparou para enfiar-se na floresta e conseguir transitar por ela sem esbarrar com tantos dos monstros ocultados como emboscadas. Sacou sua arma, olhando em volta toda a vegetação que o circundava, sobretudo nos cantos das árvores dos quais suspeitava serem os esconderijos dos Lilim. 

Fred corria, desviando de árvores agilmente com sua arma em punho. Porém, estacou ao ouvir ruídos próximos. Virou-se rapidamente chegando a ver um vulto veloz cruzar entre duas árvores. Apontou a arma para várias direções, pensando em como atrair aqueles monstros de tocaia. 

— Apareçam! É de pega-pega que eu quero brincar, não pique-esconde! 

Eis que um Lilim veio dando o bote pulando do alto de uma árvore, caindo por cima de Fred e ficando sobre o mesmo. Na aparência, a cria de Lilith possuía uma pele de ébano enrugada, mãos grandes com unhas crescidas e animalescas, além de chifres semelhantes aos de um bode com pelos no tronco e na face tal qual seus irmãos. A criatura abriu sua boca com presas salientes, deixando uma luz alaranjada e quente despontar com faíscas e brasas saindo. Fred disparou com a arma na cabeça do Lilim que caiu para o lado. O tiro não só instigou os demais a saírem em numeroso grupo contra o caçador como também estimulou Frank a correr até a origem do estampido. 

O detetive correu, encontrando Fred atirando contra diversos dos Lilim que o cercavam visando encurrala-lo com uma progressiva aglomeração em torno dele. Frank juntou-se a luta, socando os que se aproximavam dele e disparando contra os que fechavam o cerco para Fred, fazendo cair um a um. 

— Por que tá me dando cobertura? — indagou Fred — Aproveita essa deixa e vai! Eu dou conta desses!

— Nem pensar! — contestou Frank que foi pego por trás, mas o jogou para frente e aplicou um tiro impiedoso. Tornou a atirar para os lados com toda a agilidade que seus bem cuidados cinquenta anos ainda reservavam, derrubando muitos dos rebentos extintos de Lilith — Parece que se multiplicam!

— Tenho por mim que... — disse Fred, interrompendo-se para chutar mais dois deles e atirar em três que vinham ataca-lo soltando hálito de fogo — ... quanto mais matamos, mais deles surgem por serem atraídos pelo sangue dos seus pares! Como matar uma abelha e chamar toda a colmeia!

Frank seguia dando socos, cotoveladas, chutes e tiros nos que tentavam lhe arrancar um pedaço. Até que de repente um Lilim fora do campo de visão do detetive ameaçava liberar seu hálito infernal contra ele num ataque inevitável. Isso se estivesse sozinho. Fred notara o movimento e tratou de tomar a frente de Frank no exato instante em que o fogo incinerador saiu da boca da criatura. O peito de Fred foi atravessado pela rajada após empurrar Frank. Caindo vacilante, o caçador arfava intensamente. Frank retaliou com um tiro certeiro na cabeça mantendo-se no chão, logo indo ao socorro do parceiro. 

— Idiota, não devia ter agido assim sem pensar! 

— Eu me culparia... pelo resto da minha vida deixando um companheiro perecer, por mais que nessa situação não tivéssemos obrigação alguma de proteger um ao outro. — disse Fred, a fala ansiosa. 

Frank sentia como se aquele momento fosse o mesmo que assistir seu verdadeiro meio-irmão morrer em seus braços. Expressou tristeza pesarosa ao ver o estrago causado pelo fogo cuspido pelo Lilim que carbonizou a pele e a carne formando um buraco profundo. 

— Vai, Frank, depressa, antes que venham mais deles. Já devia estar correndo. Por que se preocupar? Eu nem sou o irmão que tanto amava...

Frank levantou-se olhando-o com lamentação. 

— Tem razão, você não é. Mas vou exterminar qualquer um desses bichos que vier pela frente e pegar aquela espada pra honrar teu sacrifício. O Fred que eu conhecia teria feito a mesma coisa. 

Num último suspiro, Fred esboçou um fraco sorriso que denotava sua gratidão pela hombridade de Frank. Os olhos permaneceram abertos para o nada com a morte. Frank deu continuidade, mas não topando com mais nenhum Lilim no caminho. Chegou a uma área aberta com piso quadriculado de pedra, avistando uma espada dourada cravada numa plataforma de mármore. Se dirigiu até ela, tocando firmemente o cabo ao se aproximar. Tentou puxar para cima, tendo êxito com extrema facilidade. Contemplou a lâmina dourada estonteante. De repente, a mesma incendiou-se, assustando-o. 

— Uau, agora esse negócio tá começando a me empolgar. 

— É bastante animador ouvir isso. — disse Raguel surgindo por trás do detetive. Frank virou-se rápido com a espada ainda em chamas — Saiba que o reconhecimento pelo sacrifício de Fred foi um dos fatores que dignificaram você. Fez um esplêndido trabalho abrindo mão da competitividade. 

— Então já esperava que fosse acontecer tudo aquilo? Ah, nem sei porque tô perguntando isso, afinal você é o dono dessa bagaça de dimensão. Na certa moveu o Fred como sua pecinha de xadrez pra ser atingido no meu lugar. Moveu a todos pra servirem ao seu show de marionetes!

— O livre-árbitrio é um direito inerente a qualquer ser humano, o primário e essencial, não revogaria mesmo que eu pudesse. — disse Raguel, andando pelo espaço vagarosamente — Todos aqui viventes pensam e agem conforme suas liberdades individuais. Eu não interferi em absolutamente nada enquanto você e Fred lidavam com os Lilim. A propósito, acho que devia se atentar mais...

Frank franziu o cenho, logo olhando para a espada. Na verdade deveria voltar-se para trás pois um Lilim remanescente pulara alto de um arbusto grande para pega-lo na guarda baixa. Mas antes que o reflexo do detetive agisse, um elemento interceptou prontamente. O Lilim foi empalado por uma espada luminosa em pleno ar, a lâmina de luz dourada atravessando sua cabeça até cravar-se no chão.

Alguém se aproximava dali lentamente. Frank desviou o olhar impressionado para o autor do golpe preciso e fatal. Um ofanim trajando a vestimenta padrão da classe angelical se juntava a eles. Tinha a aparência jovial de um homem caucasiano de cabelo preto social com barba por fazer e olhos verdes. 

— Isso já passou dos limites, irmão. — disse ele em tom calmo, porém repreensivo. 

— Raziel. — disse Raguel olhando sério para o ofanim — Por que sua intromissão não me surpreende? 

— Talvez pelo fato de eu sempre estar disponível pra quando você cometer atitudes questionáveis como essa e convencê-lo do quão errado está em insistir nelas. — disse Raziel pegando de volta sua espada, arrancando do Lilim morto — Você e seus joguinhos inúteis. Agora envolvendo humanos. Acha que é ele? 

— Esta dimensão de bolso é um reflexo fidedigno do mundo criado por nosso Pai. Em cada infinitesimal detalhe. — justificou Raguel — A Flamígera que ele segura é parte disso. Estamos diante de um potencial guerreiro que combata as hostes malignas.

— Vai se arrepender de ter quebrado ordens expressas quanto ao uso das dimensões de bolso. — ameaçou Raziel fazendo menção de apontar sua espada ao irmão. 

Frank sentia que sua cabeça explodiria. 

— Será que dá pra vocês deixarem a roupa suja pra lavar em casa? Me expliquem que papo é esse. O que é esse grande mal iminente? Eu passei no teste, OK. Mas ainda assim não significa nada? Não tem garantia que seja eu? Sendo abertamente honesto com vocês, não tô interessado em ser o protagonista desta história, dessa guerra toda, é demais pra mim.

— A arma que está segurando é a mais mortal existente no universo. — declarou Raguel — A Flamígera foi forjada com a energia de múltiplas estrelas sob o propósito de obliterar o mal. Sua dignificação aqui é um forte indicativo. 

— Uma projeção não passa de um espelho impreciso. — contestou Raziel — O que me garante que não tenha manipulado o resultado para convir a sua expectativa? O potencial nunca será facilmente encontrado. É cedo ainda. Lembre-se do anterior. 

— Já testaram a espada verdadeira em alguém antes? — perguntou Frank. 

— Sim e foi mal-sucedido. — respondeu Raguel — Os indignos que empunham a Flamígera durante o teste são consumidos pelo fogo sagrado. Eu acredito fortemente no que vi hoje. Frank é o Potencial.

— Espero que nunca tenhamos a certeza. O selo deve se manter intacto. — disse Raziel categórico — Não vou mais permitir que brinque com uma vida inocente, tentando envaidece-la. Por isso vou leva-lo a corte de julgamento. 

Repentinamente, um tremor de terra intenso os desequilibrou. Em meio a fortes ventos, o chão se cobria de rachaduras e a partir delas se abria com fogo emergindo. 

— A dimensão entrou em colapso! — disse Raziel — Toquem em mim, os levarei a um local seguro! 

Frank e Raguel o fizeram sendo rapidamente transportados para fora da esfera de cristal. 

— Peraí, não estamos na minha casa. — disse Frank estranhando o ambiente que mais parecia um galpão velho e largado as traças. Baixou os olhos — A esfera... Como foi parar aqui? 

— Eu. — disse Raziel — A removi de onde estava para evitar que sua residência fosse destruída. O recipiente da dimensão se torna instável quando colapsa, podendo causar um tremendo desastre. 

— Deixou uma bomba na minha casa e não me avisou?! — reclamou Frank a Raguel. 

— Por uma boa causa. A tumba do feiticeiro tinha de ser eliminada. Mas eu iria trazer você de volta pouco antes do colapso se não fosse pela intervenção do meu irmão. 

— Podia ter teletransprotado a tumba pra outro canto ao invés de por meu teto em risco. — sugeriu Frank. 

— Não, nenhum de nós pode. — contrariou Raguel — Aquilo está protegido por uma camada densa de energia maligna. É prejudicial a anjos em geral.

— Quer dizer que essa blindagem da tumba impede qualquer anjo de manda-la pro espaço, é como enfiar o dedo na tomada. — compreendeu Frank — Mas além disso vocês tem muito o que me explicar e é melhor começarem a falar logo. Não que eu esteja ameaçando, até parece que eu seria...

A chegada súbita dos cavaleiros como sombras se arrastando pelo chão em diferentes pontos interrompeu Frank que manteve-se perto dos ofanins.

— Atraímos atenções indesejadas graças a você. — disse Raguel para seu irmão. Os cavaleiros enfim surgiram materializando-se. 

— É um lugar meio apertado pra enfrentar esses desgraçados, não acham? — indagou Frank, tenso.

— Não iremos. — disse Raziel. 

— Frank, espero que reflita sobre o que aprendeu hoje. — disse Raguel — Até um dia. 

O ofanim esticou a mão direita, enviando o detetive de volta a sua rua, bem próximo de sua casa. No galpão, os cavaleiros intencionavam um ataque simultâneo formando esferas de sombras.

— Irmão, diga que não quer dar essa satisfação a eles. — disse Raziel. O outro reparou em como a esfera de cristal rodopiava esquentando bastante. 

— Concordamos em algo. — disse Raguel. Ambos desapareceram sendo entendidos como covardes pelos inimigos. Um dos cavaleiros aproximou-se dá esfera movendo-se tresloucada e quente. 

— Percival, não toque nisso! — avisou o líder. Mas a explosão instantânea ocorreu antes que evitassem. 

***

Frank conteve a ansiedade ao abrir a porta, já aguardando uma recepção tão calorosa quanto tivera no seu sonho dúbio. Ao menos não haveria possibilidade do bolo explodir com um coração humano a mostra no recheio. Entrando, fitou a escuridão, somente a luz dos postes banhando parte do piso. Levara um susto enorme com o estouro de papel picado e o acender da luzes. Carrie, Giuseppe e vários colegas do DPDC gritaram feliz aniversário para o detetive. Frank se comoveu com os parabéns enquanto Carrie vinha trazendo um bolo médio com duas velas em formas dos números cinco e zero. 

— Não tá constrangido, nem sinal de rubor. — disse Carrie — Da última vez que fizemos algo assim parecia que iria enfiar a cabeça num buraco que nem avestruz. O que aconteceu hoje pra evoluir tanto?

— Eu finalmente passei a entender... o quão grato eu devo ser por estar na sua vida... e na deles... de todos que me importam. — disse Frank, emocionado.

Carrie abriu um largo sorriso para o amigo. 

— Feliz aniversário, Frank. 

— Bem-vindos cinquenta. — disse ele — Obrigado. — abraçou a assistente, beijando-a na testa. Uma enxurrada de aplausos e gritos de alegria se fez presente entre todos. 

Após a comemoração, Carrie foi a única a permanecer para ajudar com a louça ao lado de Frank. Carrie veio da cozinha enxugando um prato enquanto Frank varria o chão da sala.

— Eu não vou esperar até amanhã pra você me contar dessa viagem maluca tin-tin por tin-tin. Se bem que já estamos no amanhã, afinal são duas e...

A aparição abrupta de Adrael diante dela a fez soltar um grito e derrubar o prato que se despedaçou ao cair. Carrie sentiu o coração palpitar devido ao susto. Frank virou-se depressa, largando a vassoura, surpreso com a presença do anjo.

— Meu Deus... Acho que tive um mini-infarto. — disse Carrier olhando para Adrael estupefata com a mão no peito. 

— Me desculpe, eu não quis... — disse Adrael. 

— Não, tá tudo bem, tá passando. — disse Carrie encostando-se na parede — Você deve ser o...

— Adrael. Prazer. — disse o anjo que logo voltou-se para Frank — Olá, Frank. Já faz um tempo...

— Quem é vivo sempre aparece. No caso de um anjo então nem se fala. — disse Frank vindo até ele — E aí? O que você manda? Pra aparecer assim de supetão com certeza não é pra me desejar feliz aniversário atrasado. Algum problema?

— Não, na verdade solução. Ethrea forjou uma nova aliança, uma mulher que ela disse ser conhecida sua, uma bruxa mais precisamente. 

— A Agnes. Ótimo, então significa que o Hoeckler talvez junte forças com os anjos. — disse Frank que sentiu o celular vibrar no bolso — Peraí... — retirou o aparelho, verificando a mensagem — Olha só que beleza... Não por mera coincidência a Agnes me envia uma mensagem com a localização do mausoléu. Já não era sem tempo.

— As cartas de que ela falou estão numa cripta. Verifiquei nas memórias dela. — disse Adrael — Posso leva-lo até lá agora mesmo. — o anjo tocara o detetive no ombro para teletransportarse junto a ele. De repente estavam num corredor escuro. Frank acendeu a lanterna do celular. 

— Será que é por aqui? — perguntou Frank. O detetive sentiu que não estava sozinho com o anjo — Carrie? Mas como...

— Fui rápida no gatilho. Não ia perder essa carona. — disse ela — Vamos ou não pegar essas cartas? 

— Tá legal, fica do meu lado. Vai que aparece um bicho escroto de guarda nesse lugar. 

— Estou bem atrás de vocês. — disse Adrael. O trio seguiu direto ao recinto cujo centro abrigava uma plataforma de pedra sobre a qual havia uma caixa. 

— Essa coisa tá lacrada. — disse Frank — Esses buracos na tampa... 

— Tome. — disse Adrael com um frasco pequeno entregando a Frank — Ela me forneceu o próprio sangue pra que você desbloqueasse o invólucro.

Frank pingou as gotas de sangue em cada buraco. A tampa logo se levantou, revelando a tabuleta e as quatro cartas de secamente empilhadas. O detetive as pegou visualizando as figuras nela estampadas, as quais representavam os cavaleiros em aparências diferentes, mais humanos e mais nobres. Frank atentou-se aos nomes escritos. 

— Percival... Palamedes... Mordred... Lancelot. — disse Frank sacando a familiaridade — Esses nomes... sinto que já ouvi eles nun tempo atrás.

— Nossa... — disse Carrie — Távola Redonda.

— O que isso quer dizer? — indagou Adrael. 

— As histórias que eu ouvia quando criança. — disse Frank, meio perplexo — Os miseráveis... são os cavaleiros do Rei Arthur.

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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagem retirada de: [1]












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