Frank - O Caçador #95: "De Agnes à Zaratro"

Agnes observava pela janela do seu quarto o grupo de agentes da ESP fazer a guarda como vigilantes incansáveis. Aquela noite lhe trazia um incômodo pela força-tarefa montada ao redor de sua casa numa operação estabelecida por Hoeckler a fim de garantir proteção 24 horas a sua amante já que a mesma havia recusado anteriormente uma estadia temporária na fundação - o que poderia ser um erro visto a já sabida infiltração de daevas dentre os membros de diversos setores da organização. 

A bruxa voltou à sua cama, atordoada por sentir-se prisioneira em seu próprio lar. 

— E as minhas consultas? O meu sustento? Escolta armada não vai pagar as minhas contas. — disse ela, irritada, deitando-se — Theodor não tem esse direito, por mais que eu o ame... 

O celular tocara, assustando-a. Pegou-o e atendeu a chamada ao ver que se tratava de Hoeckler. 

— Ainda não consigo digerir essa ideia de proteger a minha integridade colocando seus cães de guarda dentro e fora da minha casa. Theodor, admita que pensou de forma passional, não racional. 

— Escute, amor, eu sei que é uma experiência nova demais pra você, o quanto se sente invadida em sua privacidade, mas não posso permitir que esses monstros alcancem você na intenção de leva-la até os cavaleiros e te submeter aos desígnios deles. — disse Hoeckler em seu escritório na fundação. 

— Eu hesitei em contar a você, mas... vejo que é uma boa hora de tratarmos da minha liberdade de escolha. O meu destino não tem que estar nas suas mãos apenas porque me ama. 

— Do que está falando? Aonde quer chegar? 

— Eu pensei numa maneira mais eficiente de me tirar do radar dos daevas...

— Não está cogitando suicídio, né?

— Espere, me deixa falar com mais calma, até porque você não vai reagir bem, disso eu sei. 

— Chega, não quero ouvir mais nada. Seguiremos a minha ordem de restrição aos daevas e estamos conversados. Pode parecer que tô impondo um decreto de isolamento, mas é por uma boa causa, é a minha prova do quanto a sua vida significa pra minha. — declarou Hoeckler ferrenhamente defendendo seu ponto — A última coisa que quero é você tentando alguma magia mirabolante sem garantia de sucesso pra escapar do meu plano. Agnes, a sua vida é a mais merecedora de receber um escudo forte o bastante nesse momento.

Derramando uma lágrima, a bruxa lamentava a condição a que foi obrigada aceitar. 

— Até quando minha casa ficará rodeada de homens armados como se fosse um quartel-general? 

— Frank obteve as cartas para aprisionar os cavaleiros, certo? Contemos com ele e o batalhão de anjos por enquanto. Por falar nos anjos, desenvolvemos uma nova arma que representa a verdadeira combinação de forças entre eles e a fundação para exterminar os daevas. Te conto mais em breve. — disse Hoeckler, fazendo uma pausa relativamente longa — Precisa de alguma coisa? 

— De você aqui ao meu lado. Mas infelizmente nossos prazeres não serão satisfeitos graças a essa... interferência. Não se preocupe, caso tudo corra bem eu vou lembrar de agradecê-lo. 

— Se sente péssima, eu entendo. Gostaria de estar aí agora oferecendo todo o meu amparo, mas os compromissos administrativos, assim como toda essa conjuntura caótica, me impedem de aproveitar nossa relação como deveria. Eu sinto muito, mas é necessário. Fique tranquila, tudo isso...

— Não diga que isso vai passar. — falou Agnes, dura no tom — Talvez venhamos a sobreviver a isso. Se juntos... Não sei, não mais. 

A bruxa desligara, baixando a cabeça entristecida. Não tardou para que caísse em sono profundo, entediada com o novo momento de sua vida em que se sujeitava a um esquema de proteção que limitava sua liberdade. Um agente passou por ali e deu uma espiada pela brecha da porta entreaberta. Ele sorriu de modo malicioso, ainda por cima mostrando claro sinal físico de ser um daeva infiltrado pelos olhos caveirosos que apareciam rapida e tremidamente sob a falsa pele humana. Afastou-se dali para repassar uma mensagem telepática aos chefes. 

Minutos depois, uma sombra se separava da parte mais escura do quarto, rastejando em linha reta em direção a cama de Agnes. A sombra emergiu do chão, materializando-se num ser de armadura rústica, preto-acinzentada e com espinhos metálicos nos ombros. A capa preta, esfarrapada e esburacada, do cavaleiro esvoaçava com o vento noturno entrando pela janela. Pegara a bruxa com força, tapando sua boca, consequentemente a despertando de súbito e com um olhar terrificado. 

O agente daeva correu para alardear aos demais quanto ao sumiço repentino de Agnes. Foi para fora proferir o aviso. 

— Venham aqui, depressa! Ela desapareceu! 

Os homens prontamente entraram as pressas na casa, todos igualmente alarmados. Atestaram a fala do agente: Agnes já não se encontrava em seu aposento. Um dos agentes socou a parede, raivoso.

— Merda! Ela deve ter usado um feitiço de deslocamento. Não tava confortável com a operação, daí resolveu fugir. Mulher mais cabeça dura.

— Pois é, o presidente tinha que usar mais um pouco de persuasão pra botar a cabeça dela no lugar. Ou injetar um sedativo que a fizesse parecer morta. — opinou outro agente.

— Não, ela não saiu por vontade própria, amigos. — disse o agente daeva ganhando a atenção desconfiada dos companheiros. Ele andou uns passos até ficar atrás de um dos colegas — Ela recebeu a visitinha de um penetra da nossa festa. — disse ele, abruptamente transpassando o peito do agente pelas costas, queimando a alma do mesmo como Hoeckler quase havia sofrido em seu cativeiro. O agente vitimado convulsionava enquanto gritava ao ser incinerado por dentro, seu rosto e olhos brilhando em laranja avermelhado — Ah, me enganei. O penetra, na verdade, sou eu. 

Os agentes abriram fogo contra o daeva com suas metralhadoras de munição inconvencional. Resistindo a chuva de balas, o daeva se desfazia do disfarce, revelando sua hedionda aparência real que pela silhueta refletida na parede tinha um aspecto de um ser de mãos esqueléticas usando uma mortalha precária ao passo que aumentava de estatura. Avançou contra os agentes, derrubando cada um facilmente. Um deles fora jogado pela janela, batendo a cabeça contra o parabrisa de um dos veículos da tropa. Após concluir a matança, o daeva, de volta ao disfarce, saia da casa, se espreguiçando, o rosto com pingos de sangue. 

— É, nada como um bom exercício pra flexibilizar os músculos. Já tava na hora. — disse ele, logo andando ao se distanciar da residência, estralando o pescoço.

***

Na manhã seguinte ao sequestro de Agnes, Frank recebeu a convocação para participar de uma reunião emergencial encabeçada por Hoeckler numa localização específica que fosse preferencialmente discreta.  O sedã prata do detetive estacionava frente àquela cabana no meio do mato, escolhida a dedo pelo superintendente do DPDC e presidente da ESP. 

Frank saía, conferindo se os pneus não haviam sofrido muito desgaste com o percurso tortuoso pelo qual passou na floresta. Em seguida, encaminhou-se até a porta, batendo com a aldrava umas três vezes. Um agente da ESP abriu a porta deixando uma brecha estreita.

— Senha, por favor. — pediu ele, a voz grave. 

Frank levantou uma sobrancelha, julgando aquilo como uma piadinha para tirar com a sua cara.

— Me deixa entrar antes que eu arrombe. 

— É, essa serve. — disse o agente, abrindo mais a porta ao conceder passagem — Seja bem-vindo novamente ao clube. 

O detetive entrava e viu Hoeckler com alguns agentes rodeando uma mesa de madeira, todos debatendo possíveis medidas de contenção para o resgate de Agnes. O chefe notara a chegada de Frank e o recebera educadamente. 

— Olá, Frank. Fico feliz que tenha se importado em abrir mão da monotonia do trabalho. 

— A sua donzela tá em perigo de novo, é? Tem certeza que ela não usou um truque de mágica pra cair fora da jaula cercada de sentinelas em que você transformou a casa dela? 

— Negativo, ela foi raptada possivelmente por um dos cavaleiros, havia um daeva infiltrado no grupo de vigilância, pode ter repassado a informação telepaticamente. — disse Hoeckler, aproximando-se — Espero que não fique chateado, mas eu honestamente não queria envolver você nisso, pelo menos não nesta operação. 

— O que você te convenceu a mudar de ideia? 

— A insistência deles. — disse Hoeckler, virando-se para a passagem ao outro cômodo — Podem vir. 

Para a mais impactante surpresa de Frank, Adrael e Ethrea vinham do recinto mais a frente, supostamente um quarto. 

— Adrael?! — disse Frank, por um lado contente ao rever o anjo — E... ela? 

— Dificuldade para gravar nomes? — indagou Ethrea. 

— Mais ou menos. É Ethrea, não é? Lembrei agorinha. É meio difícil com quem conheço por um dia e penso que nunca mais verei as fuças de novo. Faziam o quê ali dentro? Espero que não seja o que tô pensando...

— O que insinua? — perguntou Ethrea soando incomodada — Que estávamos conspirando?

— Conspirando não é bem a palavra que eu usaria...

— Chega, voltemos ao foco do que interessa. — disse Hoeckler — Como pode ver, Frank, nossos mais novos amigos estão aqui a disposição para auxiliar. 

— Aliados, você quer dizer. — disse Adrael olhando de modo frio para Hoeckler. 

— Ele tá certo. — endossou Frank — Tem uma diferença enorme. Inclusive, nós dois também estamos nessa faixa de relacionamento. — falou referindo-se a sua interação com o superintendente. 

— Por que não supera o que aconteceu naquela ocasião? Você é um anjo, rancor não é da sua índole. 

— Somos guerreiros antes de tudo. — disse Ethrea — Treinados para sermos combativos e implacáveis, as ações prejudiciais de um inimigo não são apagadas quando ocorre dele unir forças conosco. Não tem nossa anistia pelo que fez a Adrael, o que certamente faria com muitos de nós se extraísse o que queria. Nós estamos apenas oferecendo de bom grado o que uma vez tentou tirar à força pela situação atual. 

— Quando fui capturado pelo seus subordinados, tentaram drenar minha energia celestial. — disse Adrael — E quase tiveram sucesso.

— Disso você já me falou. — disse Frank ao anjo — Quer dizer que os anjos cederam suas luzes explosivas pra criar um arsenal contra os daevas? A arma definitiva pra acabar com eles é essa? 

— Perfeitamente. Se não fosse por Agnes, a aliança jamais seria possível. Ela criou uma ponte entre dois mundos distintos. — disse Hoeckler, lembrando com melancolia da face de Agnes e da última vez que a viu.

— Você me indicou ela que por sua vez me indicou ele. — disse Ethrea à Frank — Os três foram essenciais. 

— Viu só? Não queira atribuir o crédito todo pra sua princesinha. Por falar nela, já descobriram em qual castelo ela tá aprisionada dessa vez? Será que os latas-velhas botaram um dragão de guarda? 

— Detectamos uma emanação concentrada de energia maligna. — informou Adrael. 

— Uma edificação inacabada, é de lá que provém o sinal que especialmente vem acompanhado do que parece ser... um uivo. — disse Ethrea. 

— Uivo? Dragões não uivam. — disse Frank. 

— Dá pra levar isso a sério? É a vida da Agnes que está em jogo, sem dúvida a roubaram de nós pra tentar algo que favoreça reviver Zaratro. — disse Hoeckler em repreensão ao detetive — Eu sou carta fora do baralho pra eles, ainda mais agora que a tumba foi remanejada e o infiltrado detido.

— Exterminado, pra ser mais exato. — disse um dos agentes atrás de Frank. 

— Testamos o novo recurso quando fizemos dele prisioneiro. Ele não cooperou em responder nossas dúvidas, tivemos que destruí-lo. — disse Hoeckler mostrando a Frank por um tablet um vídeo no qual agentes dispararam con um lança-granadas contra o daeva preso a um círculo de pó de tijolo vermelho incendiado. Ao ser atingido, o daeva explodiu com buracos surgindo em seu corpo lançando fachos de luz como se estivesse quebrando de dentro para fora até gerar a explosão fatal. 

— Granadas... Nunca pensei que diria isso, mas... Admito que vocês arrebentaram. — disse Frank, satisfeito com a eficácia do armamento. 

— Agradeça a nossa sempre competente equipe de inventores. São eles que fazem a mágica acontecer. No caso, comportar a energia estabilizada dentro dos recipientes programados para superaquecer em milésimos de segundos logo ao entrar em contato com o alvo. — disse Hoeckler. 

— Vocês tem alguma ideia do que significa esse tal uivo que ouviram? — questionou Frank aos anjos. 

— É difícil identificar o que fisicamente seja. São muitas energias sombrias emanando ao mesmo tempo, abafam outros pequenos sinais. — disse Ethrea. 

— Podemos iniciar a mobilização, senhor? — perguntou um agente. 

— Sim, prepare o comboio e alerte o restante. Saímos em uma hora até o local rastreado. — determinou Hoeckler — E vocês? Já se prontificaram? 

— Como tenentes já deixamos nossos batalhões em posição. — disse Adrael. 

— Só precisam de uma ordem para atacar. Sugiro que sejamos a linha de frente. Vocês são o elemento-surpresa. — disse Ethrea — Combinado assim? 

— De pleno acordo. — disse Hoeckler — Fazê-los pensar que estão vulneráveis em menor número como uma missão praticamente suicida antes dos meus homens entrarem em ação com a arma secreta. 

— Mas o que vou poder fazer lá? — questionou Frank em dúvida quanto a sua utilidade na operação — Ficar só olhando é que não é. Ou estão contando que eu vá resgatar a Agnes me esgueirando como um ratinho pelos dutos de ventilação? Se for que nem Missão Impossível vou precisar de uma corda bem firme e alguém forte pra mante-la.

— Será uma batalha sangrenta. — disse Adrael — A julgar pela concentração de energia maligna, há demônios inclusos entre daevas e cavaleiros. 

— Os peões do tabuleiro. — apontou Hoeckler. 

— Eu trouxe a lâmina sacerdotal, limpinha e afiada pra passar naqueles imundos. É bom que estejam lá, mas dependendo de quanto forem não sei se sozinho vou dar conta. O que me dizem? 

— Que os daevas estão mais predominantes. — respondeu Ethrea — Demônios não passam de animais selvagens para os cavaleiros, facilmente domados e liquidados, se estiver com as armas apropriadas. Os soldados de verdade são os daevas. Como eu disse anteriormente, são nossos inimigos naturais. 

— OK, entendi. Os demônios são basicamente cães pitbulls pra vocês, enquanto os daevas são os donos perigosos e durões com moral elevada. — disse Frank depreendendo a diferença — E aí? Vamos continuar no falatório ou partir pra pancadaria? 

— Quando a luta se prolongar até que pelo menos alguns de nós morra, acione seu exército. — disse Ethrea à Hoeckler que assentiu. 

— Não acha tá sendo meio pessimista? — indagou Frank — Corrobora com ela, Adrael? 

— Desde que nos entendemos por seres celestiais, aprendemos que enfrentar daevas diretamente é um nobre cortejo à morte. Então já vamos a guerra sabendo o destino a que podemos estar sujeitos, sem medo ou hesitação. Treinamos a vida inteira pra um momento como esse. 

— E faremos valer mesmo que reste apenas um de nós. — disse Ethrea, enchendo-se de determinação — Vamos, estão nos esperando. — falou à Adrael. 

— A gente se vê lá? — indagou Frank ao anjo. 

— Espero que sim. — disse Adrael olhando fixamente para o detetive — Faça um bom trabalho, Frank. 

— Vocês também. Tentem não morrer até a cavalaria se juntar ao rolê. 

A dupla de anjos desapareceu da vista de Frank, Hoeckler e dos agentes em nanosegundos. A tropa saiu da cabana rumo aos preparativos de transporte e carregamento de armas. Frank chamara a atenção de Hoeckler em relação a um assunto de interesse. 

— Ei, toma aqui. — disse o detetive entregando as cartas de selamento ao superintendente — As celas reservadas pros cavaleiros traíras do Rei Arthur. 

— Por que está me dando? Na eventualidade dos cavaleiros abordarem você, terá uma chance. 

— O problema é que a Agnes não me disse o feitiço pra prendê-los. Fica com as cartas, você é quem tem mais chances de se aproximar dela enquanto me ocupo com os demônios. Mas precisa de uma estratégia das boas se quiser salvar sua Rapunzel. 

Hoeckler olhou para o vazio, mergulhado em pensamentos por um instante. Voltou logo os olhos a Frank. 

— Acho que já tenho algo em mente. 

***

Em seu recinto privativo, Agnes estava sob tutela rígida de um dos cavaleiros sombrios, desenhando em torno de si um círculo místico com diversos detalhes - dentre os quais dois olhos se destacavam, a bruxa entre eles, na frente e atrás dela. 

— Mais rápido com isso. — pressionou o cavaleiro, rude e grosseiro no tom. 

— Eu vou me arrepender disso pelo resto da minha vida. — reclamou ela, agilizando sua mão direita com o giz de cera branco. 

— Fala como se o arrependimento minasse sua vida. — confrontou o cavaleiro — É uma bruxa, não há expectativa de vida limitante. Portanto, sofrerá arrependida enquanto prolongar sua existência. 

— O que vai fazer se eu demorar mais? Me açoitar até minhas costas ficarem dormentes? 

— Se acha que isso irá apressa-la... Por que não? 

— Esqueça. Estou indo o mais depressa que posso, não me distraia. Mas não garanto que Zaratro ouça meu chamado logo de primeira. Atrair manifestações espirituais é como jogar um dado ao acaso. E requer um foco abstrativo. Preciso estar mentalmente saudável pra isso e você não está colaborando. 

— Sendo assim, me retiro. — disse o cavaleiro, andando até a escuridão. 

— E-espere. — chamou Agnes, interrompendo sua tarefa. O cavaleiro parou de costas — Como se chama? Quem dos antigos nobres cavaleiros você é?

— Palamedes. — respondeu ele friamente. O servo de Zaratro se desfez em sombra até se fundir a escuridão do local pelo chão. 

As tropas da forca-tarefa móvel se deslocavam por uma estrada meio sinuosa e asfaltada. Os veículos blindados similares a carros-fortes seguiam em fila ao ponto de atividade. O sedã prata de Frank vinha logo atrás, o detetive sentindo estar dirigindo uma lata de sardinha perto dos equipados robustos de aço com suas rodas de pneus grossos. Frank decidiu ligar para Carrie visando tranquiliza-la. 

— E aí, Carrie? Tudo em ordem mesmo sem mim por perto pra te encher o saco? 

— Tô segurando as pontas sozinha, por ora. Venho te ligando faz mais de uma hora. O que tá havendo?

— Pois é, eu vi a lista quilométrica de chamadas não atendidas. Tava numa floresta, sinal de celular péssimo, acabei desligando. O Hoeckler me convocou pra uma missão especial: resgatar a namoradinha dele outra vez. Só que agora os daevas estão na jogada definitivamente pra fechar o tempo. 

— A Elvira foi raptada de novo?! Mas afinal por que te envolver nisso? Aquele maluco tem um batalhão de homens altamente preparados pra qualquer ameaça paranormal. Que serventia ele veria em você? 

— A lâmina sacerdotal tá comigo. Tem demônios no local onde ela tá confinada. Os anjos disseram. 

— Os anjos estão nessa também? 

— Ué, tá surpresa? Os daevas são os opostos oficiais deles, representam perigo de morte. Pra que não ficarem largados a própria sorte, Hoeckler fechou parceria com eles pra desenvolver uma arma fodona que vai detonar com os panacas. A luz vence as trevas, né? Baseado nesse fato consumado, eu diria que a gente leva o prêmio pra casa. 

— Nossa, por essa união de forças entre anjos e humanos eu não esperava nadinha. Vai ser um dia e tanto. Queria poder ajudar em alguma coisa. 

— Não se chateia, sabe que vou te manter informada. 

— Mas pra isso você, obviamente, tem de estar vivo. Me prometa que estará. 

Frank preferiu um silêncio, pensando numa resposta mais realista. Não formulou nada que satisfizesse a assistente. 

— Tenho que desligar, Carrie. Não fica bolada nem preocupada comigo, tá bom? Posso tá me metendo numa arapuca, mas... — deu uma rápida risada nervosa — ... não vai ser a primeira... e talvez nem a última. 

Enquanto isso, Agnes já havia concluído o círculo,  com algumas velas vermelhas acesas ao redor, e estava em posição de executar a magia que realizaria o chamado ao fantasma de Zaratro vagueando pelo labirinto de corredores e portas da dimensão espiritual. Sentada ao centro do círculo com as mãos abertas viradas para cima e repousadas sobre as pernas, a bruxa fechava os olhos, conectando sua mente ao mundo em que espíritos perambulavam sem destino. Emitiu sua voz reclamando a presença de Zaratro e usar da forma mental para puxá-lo e mante-lo temporariamente fora do plano metafísico. 

"Ouça minha voz... Preciso que me encontre... Siga o som da minha voz e não olhe para trás...", pensou ela.

Um espírito surgia à sua frente. No entanto, ao abrir os olhos, a bruxa reagira apreensiva e desalentada. O fantasma que surgira em nada se parecia com o que lembrava do seu mentor. Era um homem esguio de olhar ensandecido, preso a grilhões nos braços com correntes, maltrapilho e sujo. 

— Onde eu estou? Em casa? Mamãe? Não... Você não é a mamãe... 

— Vá embora... — disse Agnes em tom baixo, porém intimidador — Volte pra fossa repugnante de onde não devia ter saído. 

— Não é ela... — dizia o homem dando passos adiante, a voz trêmula e a expressão de confusão dando a entender que possuía um distúrbio psíquico — Não é ela... Não é ela... Onde ela está? 

— Eu disse... pra ir embora! — vociferou Agnes, enfurecida. 

O fantasma foi tragado por um portal na escuridão em retorno ao mundo espiritual, seu grito de agonia ecoando até reduzir em meio às trevas. Agnes cerrou os dentes, pronta para investir mais foco numa nova tentativa. Em paralelo, o batalhão de serafins adentrava no complexo industrial ainda em fase de obras, mais precisamente num espaço amplo repleto de barris, latões e caixas. Ethrea assumiu a dianteira.

— Sabemos que estavam no aguardo pela nossa vinda. Chega de se esconder. — disse ela para atrair a atenção dos daevas. 

— Só ataquem ao meu sinal. — disse Adrael ao seu grupo atrás dele — Mantenham-se alertas. Podem deflagrar de qualquer direção.

Logo surgiam daevas usando corpos de pessoas que encontraram pelos cantos e assassinaram cruelmente. Em diversos pontos da área eles vinham mostrando seus traços tenebrosos por baixo das faces humanas. Os centuriões sacaram suas espadas ao mesmo tempo. Adrael e Ethrea logo em seguida, preparados para iniciar o confronto. 

— Não se contenham por eles usarem formas humanas! É uma distração pra nos afetar! — apontou Ethrea. 

— Será que tem como esse dia ficar ainda melhor? — disse um dos daevas disfarçado de um homem meio gordo usando boné vermelho e camisa de flanela xadrez azul e preta. 

— Não frito a carcaça de um anjo há muito tempo. — falou outro, aquecendo-se. 

— Atacar! — bradou Ethrea, erguendo sua espada. Seu esquadrão avançou e os daevas responderam proporcionalmente. 

— Agora! — gritou Adrael com sua equipe em avanço súbito prestes a colidir-se com os daevas que digladiavam-ae violentamente contra os subalternos de Ethrea. O local virou palco de uma batalha visceral na qual os serafins ofereciam tudo o que foram instruídos a fazer em circunstâncias como aquela.

Enquanto isso, um agente da ESP entrava num corredor, o rosto coberto pelo capacete preto com visor que ocultava bem. As tropas da força-tarefa estavam de tocaia no espaço do pandemônio entre anjos e daevas apena esperando o momento oportuno de agir. Um demônio dobrou para esse corredor, mostrando seus olhos pretos ao ver o agente solitário. 

— Péssima ideia vir aqui sozinho, amigo. — disse o demônio. O agente não titubeou em abrir fogo com sua metralhadora munida de balas molhadas em água santa. Recebendo a chuva de balas, o demônio teve seu receptáculo chacoalhado, mas impôs resistência para não cair. O agente se aproximava não cessando os disparos até que o demônio enfim tombou atingindo o limite. Após passar por ele, o agente sacou um isqueiro, acendendo-o. O demônio esforçava para levantar e revidar, mas era tarde para uma virada. O agente jogara o isqueiro por trás, acertando o demônio que urrou de dor ao sentir a explosão de chamas no seus corpo. 

Frank entrava por outro corredor através de uma porta de ferro, a lâmina sacerdotal firme na mão direita. De repente, um grupo demoníaco que Frank não contabilizou direito surgia em teleporte. Eles deram passos a frente visando um ataque. 

— São um bando de cadelas mesmo. — insultou Frank — Não se tocaram que estão sendo postos de escanteio nessa guerra? São os zeros à esquerda, malditos! A moral que vocês pensam ainda ter virou passado! Tudo o que resta pra vocês é essa marra. Mas sei que lá fundo admitem que são uns merdas e eles, os daevas, os queridinhos do chefe. Tô errado? 

Os demônios apertaram o passo, irritados. Frank fechou os olhos e esticou seu braço direito, recitando o exorcismo romeno. Aliás, uma versão aprimorada que permitia expulsar um número indeterminado de demônios simultaneamente. Os demônios se controciam, gritando em dor em suas armaduras de carne até serem focados a abandona-las. Os seres com pele áspera de puro ébano rosnaram para Frank. O detetive não perdeu tempo e saiu desferindo golpes com a lâmina sacerdotal, fazendo-os virarem poeira e fumaça negra ao mínimo contato. A estratégia do exorcismo serviu justamente para os inocentes possuídos. 

Frank seguiu por um corredor a esquerda, depois dobrando a direita, guiado pelo medidor EMF. Mas acabou literalmente esbarrando com o agente misterioso que quase apertou o gatilho contra ele. 

— Epa, sou eu, segura aí! — disse Frank, alarmado — Nossa, ia me transformar em peneira achando que eu fosse um demônio, né? 

— Cadê o rádio que emprestei? — perguntou o agente levantando o visor do capacete, assim revelando ser ninguém menos que Hoeckler disfarçadamente. 

— Tá bem aqui no bolso. Entrei faz pouco tempo, já macetei uns demônios lá atrás. E você? 

— Liquidei com um. Os anjos já partiram para a ofensiva. O agente Palmer dará o sinal de ataque assim que as baixas entre os anjos ocorrerem. Ele está no canal 3. Pra qual direção pretende ir? 

— Por que seguirmos caminhos diferentes quando podemos dar cobertura um pro outro pra achar o cativeiro da Agnes? Ah sim, entendi, você quer ser o herói solo da sua donzela. 

— Está bem. Somos parceiros. Vamos por ali. 

— Tem certeza? — indagou Frank seguindo-o pelo corredor oposto ao que ele percorreria. 

— O seu leitor de assinatura anômala será nosso guia. Vem. — disse Hoeckler a frente do detetive quase roçando as costas na parede ao andar. 

***

Paralelamente, Agnes continuava a penar com os entraves de seu chamado a Zaratro ao alcance do mundo espiritual. Um outro espírito errante ali surgia: um homem de cabelos longos, sujos e desgrenhados, usando vestes que sugeriam ser um detento de um penitenciária. Estava de costas, deixando a mostra a parte superior do seu cérebro exposta. Consternada, a bruxa o esperou reagir. 

— De novo não... Já é o sexto maldito espírito... O que há de errado comigo? 

O fantasma daquele homem repulsivo grunhia como um animal raivoso, socando o ar aleatoriamente. Soltou um grito cavernoso ao ver Agnes, erguendo as mãos na intenção de estrangula-la. Avançou uns passos, mas o círculo o impedira, empurrando ele a escuridão cujo vácuo o transportava de volta ao mundo espiritual. A bruxa soltou o ar pela boca, pondo as mãos no chão, quase ficando de quatro pelo cansaço de tantos fracassos. Palamedes retornara para verificar o andamento. 

— Nenhum progresso até agora? O que se passa?

— Eu não consigo... — disse Agnes — Minha força mental está muito instável. A aflição que sinto perturba a conexão quando estou emitindo minha voz, atraio fantasmas que não deveriam vir. 

— Concentre-se mais. 

— Não dá! – esbravejou ela, levantando-se e virando-se ao cavaleiro — Procure outra bruxa com condições psicológicas melhores. Eu estou inapta. 

— Não está, apenas quer forjar um subterfúgio. 

— Engano seu, meu estado emocional interfere no alcance do chamado, e como se não bastasse esse feitiço desgasta minha energia gradualmente. A cada tentativa e erro, menor é a chance de sucesso. 

— Então do que precisa para se estabilizar? — questionou Palamedes, rodeando o círculo. Materializou com suas trevas emanadas uma espada negra na mão direita — Algum tipo de pressão? 

— Você é idiota? Eu preciso estar em paz comigo mesma, não como refém sua. De preferência, preciso saber como está o meu amado, Theodor. Prometa que não tocarão um fio de cabelo dele.

— A integridade física dele está garantida, se é isso que a acalma. Lhe asseguro que ele está a salvo até que obtenha êxito no chamado. Agora o faça. 

Agnes, amenizando seus nervos ao crer naquelas palavras, retomou sua posição para novamente executar o feitiço. Fechou os olhos e fizera o chamado com toda a extensão que sua magia permitia, ainda mais com a mente tranquilizada. O cavaleiro aguardou pacientemente. 

— Finalmente. — disse Agnes, reabrindo os olhos. Uma figura espectral aparecia ali diante dela. Um homem de pele literalmente tão alva quanto a neve com marcas parecendo tatuagens nos braços que eram linhas juntas a hexágonos e trajando uma túnica negra — É uma honra poder revê-lo, meu mestre.

 Zaratro virou-se, o capuz da túnica cobrindo seu rosto na altura do nariz. Estudou Agnes de cima a baixo. 

— Agnes? É você mesma? 

— A própria. Eu enfim consegui me aprimorar pra que esse momento se tornasse realidade. Posso de fato trazê-lo de volta para terminar o que começou. — declarou a bruxa, expressando felicidade.

— Siga a próxima etapa. Mas antes deve jurar sua servidão eterna ao mestre Zaratro. — obrigou Palamedes que não estava visível ao bruxo. Agnes o olhou de soslaio rapidamente, tensa com a exigência. 

— Eu... peço perdão pela minha insolência no passado. Eu retifico minha servidão aos seus ensinamentos, com toda a minha alma. Em troca de sua afirmativa, o reviverei em plena saúde física.

Zaratro permaneceu silencioso por um instante, avaliando o nível de honestidade da antiga discipula.

— Onde está minha tumba com meu corpo? 

Agnes sorriu, mas internamente seu coração sangrava de ódio pelo juramento feito sem espontânea vontade. Era tempo do último passo. 

***

Uma porta convidava Frank e Hoeckler a entrarem dada a leitura significativa do aparelho de EMF. A dupla dera passos cautelosos, os traços vermelhos no visor do leitor chegando quase ao limite. 

— Não sei não... — disse Frank fitando a porta com desconfiança — Uma bruxa não ia gerar toda essa assinatura, a menos que estivesse fazendo uma mandinga da pesada. 

— Agnes pode estar ali dentro, talvez conjurando o feitiço de localização ao espírito de Zaratro. — supôs Hoeckler, apressado — Devemos tirar a prova. Não importando o que seja, temos um ao outro.

— Ei, espera um minuto. — disse Frank o barrando com a mão esquerda — E se um tiver um cavaleiro lá? Esse lance de "temos um ao outro" vai ser como se tivesse dito que estamos no mesmo barco e iremos afundar juntos. Se liga, a medida que a gente avança, o negócio pode ficar mais sinistro e pesado.

— Nem ao menos quer verificar o que tem lá dentro? Ou está tão inseguro que precisa que eu vá sozinho e você siga em frente parcialmente desprotegido?

— Beleza, vamos nessa. Mas não tô confiante. 

Ao se aproximarem mais, juraram ouvir gritos de uma única pessoa. Hoeckler logo sentiu familiaridade, pressionando Frank a arrombar a porta depressa. O detetive o fizera com um chute e adentrou primeiro. Entretanto, a porta rapidamente fechara com um baque seco antes mesmo de Hoeckler mover seu pé para se juntar ao detetive. Frank puxava a maçaneta com força enquanto Hoeckler dava golpes insuficientes com o ombro para um arrombamento.

Uma luz branca e fraca de uma lâmpada no teto do recinto vazio e espaçoso acendia, fazendo Frank virar-se alarmado. Ouvia a voz de Hoeckler gritar seu nome no outro lado, mas passou a ignorar já que a presença que o acompanhava lhe tomou o foco. 

— Está por sua conta, Frank, eu sinto muito. Tente não sair morto daí. — disse Hoeckler que seguiu para o corredor a esquerda. 

Frank estava cara a cara com um cavaleiro sombrio, ansiando por respostas satisfatórias a sua prisão. 

— Que joguinho é esse? 

— Se chama Carne Fresca. Consegue adivinhar? 

— Não sei e nem tô afim de saber, eu só quero que me diga onde vocês enfiaram a bruxa. 

— Em um local de difícil acesso. — respondeu o cavaleiro vagamente — Mas pra encontra-la em intocado estado terão de sobreviver, todos vocês.

— Quem é você dos quatro mosqueteiros das trevas?

— Percival. Aquele que se encarregou de trazer do submundo um velho amigo de volta a sua terra. 

— De quem você tá falando? — perguntou Frank quando um par de olhos vermelhos e brilhantes surgia atrás dele. Ao escutar um rosnado, virou-se devagar, a tensão numa crescente. O cavaleiro se misturava a escuridão reduzindo de tamanho até tornar-se trevas ao ir embora, deixando Frank sozinho com o animal selvagem tão grande quanto um lobisomem salivando para um ataque definitivo — Cacete... Era disso que vinham os uivos... Acho que eu preferia um dragão, pensando bem. 

A criatura tinha paras de leão, cabeça de lobo com uma pelagem marrom parecendo um casaco que o protegia do frio extremo, além de corpo de lagarto e cauda de escorpião. Frank se posicionava para enfrenta-la. A besta saltou contra ele, ambos rolando no chão, porém o detetive acabara ficando sob a criatura e sua implacável ferocidade da qual usava para morde-lo arrancando seu rosto ou triturando a cabeça com suas presas afiadas. Frank usou de toda a força que seus músculos empreendiam para manter a boca daquele monstro enlouquecido e faminto o mãos afastada de sua face, tendo a sensação de que seus dentes iriam trincar de tão cerrados e seus olhos se esmagariam apertados. 

— Mudei de opinião! — disse ele, tentando sustentar a resistência com uma única mão para tentar com a outra pegar a lâmina sacerdotal do bolso externo do sobretudo — Um cão do inferno não seria dureza!

Sofridamente ergueu a lâmina, emitindo um grito de fúria prolongado e logo fincando-a na mandíbula da criatura cujo sangue gorgolejou sobre o detetive ao ponto de uma pequena porção cair sobre sua boca bem como no rosto. A besta recuou afoita com a lâmina atravessada na boca, desfalecendo por perda de sangue em seguida. Porém, Frank não saboreava a vitória com aquele sangue viscoso nos lábios. Entrou num transe de visões horrendas sobre si mesmo sofrendo terríveis mudanças físicas numa agonia arrasadora. Para prestar o socorro imediato, Adrael e mais dois anjos apareciam ali vendo-o num estado em que parecia convulsionar. 

O serafim tenente olhou para a besta caída e morta, depois para Frank, agachando-se para avalia-lo. 

— Aquela fera expeliu seu sangue nocivo em Frank. O veneno está se espalhando rapidamente, os órgãos vitais prestes a serem comprometidos. 

De inesperado, os dois ajudantes de Adrael foram empalados por duas espadas negras que atravessaram seus peitos e os tiraram do chão.

— Não! — disse Adrael levantando com abalo. O assassino se revelou Percival, os anjos definhando enquanto irradiavam luzes brancas dos olhos e das bocas. O cavaleiro largou os corpos decrépitos como lixo — Eu vou fazer com que pague! 

— Quer mesmo tentar, serafim ordinário? — provocou Percival, brandindo as espadas.

— Fique onde está, Adrael! — disse Raguel surgindo em teleporte entre os dois. O ofanim esticou sua mão direita da qual emanou uma luz dourada que também se via enchendo seus olhos. Rendido, Percival se acuou, as espadas de sombra se.desfazendo com a poderosa luz. Por fim, o cavaleiro recuou depressa a escuridão — Como ele está? 

— A situação dele é crítica. — disse Adrael, voltando-se a Frank — Eu iria usar meu sangue para cura-lo...

— Permita-me. — disse Raguel pedindo que Adrael lhe desse sua espada. O serafim entregou a arma com a qual o ofanim fizera um corte na palma esquerda, em seguida derramando o sangue sobre a boca de Frank cujas pupilas já nem se viam mais. Um instante breve passou-se e o detetive reagia positivamente ao antídoto — Ele está voltando a si. 

— O que é que foi isso? — indagou Frank — Espera... Raguel?! — disse, surpreso, semicerrando os olhos. 

— Vim no intuito de inspecionar a operação. — disse Raguel, ajudando o detetive a levantar — Mas sem ordens diretas pra interferir, claro. 

— Meu grupo é o que mais tem perdido até agora. — relatou Adrael — O batalhão de Ethrea tem se mantido numeroso, mas também sofreu baixas. Precisei me ausentar quando senti a energia de Frank enfraquecendo. Cometi negligência, senhor? 

— Não, agiu corretamente, afinal estamos falando da vida do humano mais potencial de empunhar a Flamígera. 

— Frank portando a lendária espada de fogo sagrado?! Meus parabéns, é uma benção extremamente honrosa, você tem mérito.

— Não, não é certeza absoluta, ele só tá... — disse Frank que interrompeu a fala ao ver um demônio em sua forma real entrando na sala e pronto para atacar — Esse aí tem coragem.

Raguel fez seus olhos brilharem bastando unicamente isso para transformar o demônio intransigente em poeira negra que estourou no ar. 

— Nossa... — disse Frank impressionado com o ofanim — Isso que é mau olhado pra demônio temer. 

— Frank, devo leva-lo pra casa, já fez o bastante. — disse Adrael. 

— Agradeço a gentileza, mas meu carro ia ficar abandonado. A não ser que me leve pra dentro dele. 

— Tudo bem. Obrigado... — disse o serafim que não achou Raguel em parte alguma — ... Raguel. 

***

Hoeckler encontrara uma sala cuja porta se via entreaberta. Havia algo coberto por uma pano sobre uma mesa de ferro. O superintendente aproximava-se receoso quanto ao conteúdo ocultado. Hesitantemente, removeu devagar o pano, descobrindo uma caveira humana enterrada numa caixinha de pó de tijolo vermelho. Na parte superior do crânio estava uma vela fincada no pó contido dentro. A chama da vela tinha um tom violeta. Em anos de relacionamento com Agnes, sabia o que representava aquilo, por isso correu em disparada.

— Não, não, não... Mas que merda! — disse ele voltando pelo corredor. Sacou seu rádio — George, alerte aos demais! Evacuar o local! Abortar a missão! É uma armadilha, há uma bomba programada para explodir em poucos minutos! Retirem-se logo!

***

A batalha entre anjos e daevas prosseguia em um ápice dramático restando um ínfimo tempo até o complexo explodir. Na tentativa de avançar para os demais compartimentos, dois anjos toparam com uma escuridão distinta ao passo que o confronto generalizado ocorria atrás deles. Do escuro saiu um ser de face caveirosa com olhos vermelhos, vindo até eles velozmente flutuando no ar para atacá-los. Os gritos combinados de ambos chamaram a atenção dos remanescentes que logo foram surpreendidos por um escurecer acelerado que tomava o ambiente, como se tudo fosse ser consumido por um breu noturno antes da hora. Ethrea olhava para os lados junto aos subordinados, captando múltiplas presenças. A tenente segurou firme sua espada. 

— Então resolveram apelar. — disse ela, atenta — Covardes. 

Não tardou para que os daevas surgissem em suas formas cruas e tenebrosas, voando pelo ar como sombras que ganharam vida própria. Moviam-se como abutres sobrevoando suas presas. Ehtrea não bradou outra ordem senão recuar imediatamente. Porém, a rapidez dos daevas impediu a muitos de salvarem suas peles. Muitos anjos foram atravessados pelos seres mais vis do submundo que passavam intangíveis pelos corpos angelicais e os matavam. Ethrea desapareceu com sobreviventes enquanto outros permaneceram juntando as mãos para uma emanação conjunta de luz com suficiência para repelir os daevas. As asas brancas e reluzentes do grupo se desnudavam com o pulsar intenso da luz que bania dali os inimigos. 

Paralelamente, Hoeckler chamava Frank, já em seu carro, via rádio-transmissor. 

— Frank, na escuta? 

— Pode falar, saí inteiro daquela sala. Se eu te contar o que me esperava lá...

— Agora não é tempo de entrar em detalhes sobre isso, você tem que ir e rápido! Já mobilizei meus homens, a missão foi abortada!

O detetive reparou em alguns agentes saindo. 

— O que houve? Tô vendo uns dos seus correndo pra fora como se tivessem se cagado de medo. 

— Foi um ardil! Tudo pra nos fazer pensar que Agnes estava aqui. Minha teoria é de que ela esteja em casa, há um porão, provavelmente os cavaleiros isolaram a área de modo que fosse indetectável. Plantaram uma bomba forjada a base de magia. Uma vela enterrada numa caveira com pó de tijolo dentro. Quando vi, a cera da vela estava quase no fim. 

— Caramba... Eu bem que sentia cheiro de cilada no ar. E os anjos? Notícias da Ethrea? 

— Eles estão por conta própria. Nosso suporte foi encerrado. Não tenho ideia se sobreviveram ou foram todos massacrados. Saia daí, Frank, fuja! Eu já estou quase saindo, falta reunir mais alguns.

— Tá legal, tô indo nessa. Vou passar em casa e verificar a tumba. — disse Frank ligando o carro. 

O sedã prata saiu cantando pneus em alta velocidade pela estrada. Após tomar certa distância, sentiu um abrupto estrondo impactante como um leve tremor na terra. Olhou para o espelho retrovisor, vendo a explosão com a nuvem de fogo e fumaça emergir. 

— Essa não... Hoecķler, é bom você ter saído a tempo. Não quero dar má notícia pra ninguém hoje. 

Algumas horas depois, Agnes despertava em seu porão e se deu conta de ainda estar no mesmo local em que tentava chamar por Zaratro. Uma batida bruta na porta a alertou totalmente. A segunda batida denunciava uma tentativa de invasão. A bruxa pegara depressa uma faca em uma prateleira e voltou ao círculo de proteção acreditando que outros espíritos coléricos vinham retaliar contra ela. 

Ficara de joelhos apontando a faca na direção da porta, pronta para o que viesse atentar contra sua vida. Mais batidas, a força aumentando. Até que enfim a porta fora derrubada. Tensa, Agnes fixou o olhar para o escuro do outro lado. 

Expirou com a boca, aliviada ao ver que Hoeckler, ainda trajado de agente da ESP, descia a escada. 

— Theozinho... — disse ela, largando a faca.

— Agnes. — falou Hoeckler, vindo abraça-la — Nos pregaram uma baita peça. Fomos ao local errado seguindo um sinal captado pelo anjos. Pude salvar a mim e aos meus homens nos últimos segundos. 

— Então foi por isso que me forçaram a montar o explosivo místico, mas não disseram pra quê. Como soube que eu estava aqui? 

— Considerando a armadilha, foi fácil supor que você estava em casa o tempo todo. Os cavaleiros dariam um jeito de isolar o porão pra evitar nosso rastreio. 

Agnes demonstrava fraqueza, estando zonza. Hoeckler a amparou. 

— Ei, ei, o que foi? Você não parece bem... Está exausta. 

— Desmaiei por um tempo. O feitiço exauriu quase toda minha força.

— Que feitiço? 

A bruxa o encarou com misto de seriedade e tristeza.

— Sinto muito. Era traze-lo de volta ou deixar você morrer. 

Enquanto isso, Frank seguia no carro, dobrando por uma rua no seu bairro, já no auge do final da tarde. Seu celular tocara. Ao atender, seu coração acalmou.

— Frank, que bom você ter atendido.

— Cara, nunca pensei que diria isso, mas... Tô feliz de ouvir a sua voz. E aí, deu pra retirar todo mundo? 

— Felizmente sim, escapamos por pouco. Mas... estamos com um seríssimo problema, todos nós. Já está em casa? 

— Ainda não, peguei até um atalho, mas acabou engarrafando. Mas já tô no meu bairro, umas poucas quadras da minha casa. Não vai dizer que...

— Calma, Zaratro não reviveu, pelo menos não completamente. Agnes fixou a alma dele no corpo, mas ele não desperta de imediato, precisa esperar até logo após o pôr do sol. — disse Hoeckler que conferiu no relógio de pulso que marcava 17h51 — Escuta, você tem apenas nove minutos. 

Movido pelo mais puro desespero, Frank acelerou. 

— Se eu chegar tarde, esse bruxo maldito manda minha casa pros ares que nem no prédio lá.

— Diga a ele que há um meio de bloquear a tumba, o mantendo preso, podendo até mesmo enterra-lo vivo. — revelou Agnes que pegou o giz e desenhou um sigilo místico específico para tal tarefa — O símbolo. Ele precisa ser rápido.

— Frank, Agnes me disse que é possível lacrar a tumba antes que ele a destrua. Vou te enviar a foto do sigilo. 

Hoeckler fotografou a insígnia e a enviou direto ao celular de Frank. Retomaram a chamada. 

— Tá aqui, peguei a visão. Sem palavra mágica? 

— Há um feitiço a ser recitado para o lacre. — disse Hoeckler. 

— Vou colocar no viva-voz. Já tô dobrando pra minha rua. 

— Cinco minutos, apresse-se. 

Frank estacionou com uma freiada brusca, saindo do carro em frenesi imparável. Praticamente arrombou a própria porta, entrando em disparada e procurando uma folha de papel e caneta numa gaveta da estante da sala. Ao encontra-las, desenhou o sigilo o mais rápido que pôde, em seguida correndo até o porão. 

— Dois minutos. — avisou Hoeckler. 

— Da pra parar com essa contagem regressiva? — reclamou Frank descendo a escada, logo adentrando no seu museu de artefatos paranormais. Passou pelo armário dos arquivos de seu pai até que chegara diante da tumba de obsidiana com entalhes em relevo. Grudou o papel com um durex — Pronto, manda ver. 

Hoeckler aproximou o celular a boca de Agnes que recitou as palavras em latim do feitiço de bloqueio restando pouco menos de um minuto. 

— Não vai dar tempo... — temia Hoeckler. 

Fissuras na tumba surgiram, depois virando rachaduras expressivas e emergentes. Frank balançou a cabeça em negação. Agnes proferia as palavras do longo feitiço. Subitamente, a tumba se quebrantou ao ponto de explodir com os pedaços voando pelo ar junto à poeira. Dada a imensa força do estouro, Frank foi arremessado para longe, caindo sobre artefatos protegidos por tampo de vidro que se estilhaçou inteiro. Zaratro se satisfazia ao voltar a sentir o chão os pés como um ser vivente. 

— Ah não... — disse Agnes, aflita — Eu devia... 

— Não foi culpa sua. — minimizou Hoeckler — E nem do Frank. 

O detetive se reeeguia com dores nas costas. Viu os cavaleiros se agruparem em torno do mestre renascido. 

— Meus caros discípulos. Como estou contente em revê-los depois de séculos em exílio forçado no além.— disse Zaratro olhando cada um deles — Palamedes, continua em boa forma. — voltou-se a outro — Mordred, sei que continua um homem de poucas palavras. Percival, sua mente permanece caótica como sempre. E o meu pupilo mais requisitado: Lancelote. O mesmo líder forte de outrora, meu orgulho por você nunca morrerá. 

— Desculpa interromper a reunião de família... Mas acho que estão na casa errada pra um reencontro. — disse Frank que tateou o bolso do sobretudo atrás das cartas de selamento — Ué... — pegou uma só — Hoeckler, tá com as cartas ainda? 

— Achei que nunca fosse falar. — disse ele retirando-as do bolso do colete — Sim, estão comigo. 

— Está faltando uma. — apontou Agnes. 

— Eu esqueci de te entregar uma. Mas agora cai bem uma ajudinha. Há males que vem pro bem. — disse Frank se aproximando. Zaratro se colocou a frente. 

— E quem é você? — indagou o bruxo. 

— O caçador que vai te enxotar de volta pro além. 

— Um caçador... Então nesta época também existem. — disse Zaratro sorrindo — Interessante. Você me faz lembrar meu primeiro aprendiz. Tão similares... 

— Não sei e nem quero saber quem foi. — rebateu Frank — Pode ter ressuscitado, mas não pensa que vai dar cabo dos seus planos, sejam lá quais forem, porque nesse tempo estranho pra você eu sou o mais indicado que existe pra ferrar com todos eles.

Zaratro se manteve sorrindo e silencioso por uns segundos. 

— Me fará sentir saudades do meu antigo discípulo e inimigo, o lendário Merlin? Ótimo. Me surpreenda. Como se chama?

— Frank Montgrow. Grava bem na sua mente. 

— Irei me lembrar. 

Os cavaleiros se puseram na frente do bruxo. 

— Tente algo e sentirá nossa fúria. — disse Lancelot — Faríamos qualquer coisa pra proteger o mestre. 

Frank mostrou a carta de selamento com a imagem representando Palamedes. Falou ao celular:

— Agnes, agora. 

A bruxa recitou o feitiço correspondente à carta palavra por palavra. O corpo de Palamedes se reduzia em uma fumaça cinzenta que era sugada para dentro da carta qie flutuou no ar durante o processo. Um brilho violeta piscou quando o cavaleiro foi inteiramente absorvido e a carta caíra.

— Palamedes... — disse Zaratro — Você disse Agnes, minha discípula que reconsiderou sua servidão.

— Pois é, cortesia dela. Isso aqui é só o começo. Tem mais três dessas reservadas pros seus pupilos. — disse Frank apanhando a carta — Da próxima vez que a gente se ver é bom eles virem.

Zaratro recuava para a escuridão junto aos cavaleiros, desaparecendo nelas. 

— Por hoje é só, eu acho. — disse Frank na linha com Hoeckler — Palamedes foi pra cucuia. Claro, era pra todas as cartas estarem aqui, daí com Zaratro sozinho seria um pouco mais fácil. Mas sabe o que é estranho? Ele... pareceu ter gostado de mim. Pra ele lembro o primeiro aprendiz. A Agnes sabe quem? Hoeckler? Estão aí?

— Frank, desculpe não responder, mas... a Agnes não está passando bem. O feitiço pra reviver Zaratro a consumiu mais do que ela suporta.

— Ela vai se recuperar... Não vai?

— Não é apenas o feitiço. — disse Agnes, arfando — Eu tomei uma atitude drástica após a conjuração. — pausou para tomar fôlego — Zaratro saberia que o enganei, de uma forma ou de outra. E mandaria os cavaleiros me levarem ou me matarem. O único jeito de preservar minha vida... completamente fora do radar... é me colocando numa tumba. Está ali atrás. 

— Você numa tumba?! Agnes... O que você fez? — questionou Hoeckler, apreensivo. 

— Assim que terminei o feitiço, bebi um elixir que reduz meus sinais vitais ao ponto de parecer que morri. Theozinho... — disse Agnes acariciando o rosto de Hoeckler que chorava — ... chegou a hora. 

— Até quando? — indagou Hoeckler, em prantos.

— Eu não sei. Mas irei acordar. Um dia.

— Prometa que vai.

— Sim, eu vou. Não aja como se estivesse num funeral. É apenas um sono. Sonharei com você.

Ouvindo tudo alto e claro, Frank se embasbacou. Com o coração estrangulado, Hoeckler retirava o pano empoeirado que cobria a tumba. A abriu e depois pegara Agnes nos braços, já desacordada, pondo-a dentro. Fechava a tampa devagar, sentindo contemplar o rosto da bruxa pela última vez.

                                      XXXX      

*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagem retirada de: [1]

Comentários