Restava pouco tempo para o fechamento daquela loja de conveniência cujo recepcionista e caixa, um homem já casa dos trinta anos com barba grossa e longos cabelos meio loiros, preparava sua saída organizando algumas coisas nas prateleiras menores. Sem que notasse logo de início, um rapaz trajando casaco grosso verde escuro e calças jeans entrava no estabelecimento, correndo os olhos pelo local praticamente vazio de clientes. O caixa virou-se para ele e decidiu avisa-lo.
— Desculpe, estamos fechando. Que tal voltar amanhã cedo? A menos que não tenha vindo encher a cesta.
— Não, na verdade... — disse o jovem voltando-se ao funcionário — Vim encher meus bolsos. — sacou rapidamente uma arma, apontando-a contra ele — Pode ir passando pra cá toda a grana que tiver aí. Não me faz esperar, senão atiro. Tá com pressa de ir embora? Então somos dois. Anda, se mexe!
Os três clientes que ainda sobravam por lá repararam e se alarmaram com o assalto anunciado. Tremendo, o caixa esvaziou as gavetas, entregando moedas e células ao bandido que punha tudo nos bolsos da calça e do casaco.
— É tudo que tinha. — disse o caixa, as mãos erguidas em rendição — Mais alguma coisa?
Não respondendo nada, o jovem terminava de enfiar o dinheiro nos bolsos, chegando a contar uns dólares, mantendo a arma mirada.
— Vai chamar a polícia depois que eu sair, né?
— Minha obrigação moral como vítima de roubo é essa. Por que tá perguntado isso?
— Deixa pra lá. — disse o assaltante sorrindo infamemente. Ele fora embora sob os atentos e aflitos olhares do caixa e dos clientes. Cinco minutos depois, a polícia foi solicitada ao local para o boletim de ocorrência. Surpreendentemente, o jovem autor do crime retornava como se nada tivesse feito. O caixa interrompeu sua conversa com os dois policiais ao vê-lo e estremeceu.
— É ele! Foi ele! Tem muita coragem de voltar, covarde! Esqueceu alguma coisa? Tarde demais!
O rapaz parou, expressando incompreensão.
— Peraí, o que tá havendo?
Os policiais se aproximaram depressa dele para revista-lo. Demonstrando não entender nada, o jovem foi agarrado pelos braços por um deles, sendo apalpado em diversas partes pelo outro.
— Eu não fiz nada, eu juro! Não roubei nada! Tô entrando agora, não estive aqui antes, acreditem!
— Fecha a matraca, seu otário. — atacou o caixa, revoltado — Agora vai querer pagar de inocente. Tá chapado?
— Ele tá limpo. Nenhum centavo. — disse o policial que revistara — Certeza que é ele?
— Juro pela minha alma! Foi esse desgraçado que me roubou! Chegou aqui fingindo ser cliente como todos que já assaltaram essa loja. O que tu fez com a grana, maldito?
— Acalme-se, vamos fazer uma apuração até resolvermos tudo. — disse um policial — Considere o B.O registrado. E você, rapaz, vem conosco. Detido até segunda ordem.
A dupla da policiais conduzia o jovem algemado à viatura próxima a uma bomba de combustível. Em um carro preto meio antigo estacionando no outro lado da rua, o real autor do delito visualizava seu outro eu, um gêmeo idêntico, ser enfiado na viatura. Pegou o celular ligando para um contato em particular.
— Primeira etapa concluída com grande sucesso. Ele já era. — disse com sorriso malicioso — Posso finalmente te conhecer? O nosso acordo era esse, só pra constar. Eu realizo seu sonho, você realiza o meu. Acho bom fazer essa espera valer a pena assim como fiz meu esforço em ferrar com a cópia pirata.
Um policial batera na janela do carro, forçando-o a encerrar a chamada.
— A gente se fala depois ou amanhã. Tchau. — disse ele, desligando em seguida. Deu atenção ao policial que o olhava curioso — Pois não?
— Documentação, por favor.
— Não tá meio tarde pra uma blitz?
— Eu não vou pedir outra vez.
— Por que cravou os olhos no meu carro? Qual o problema? Não estacionei em local indevido.
— A placa do seu veículo, eu dei uma olhadinha nela e tem a exata numeração que já foi passada durante uma denúncia anônima. Pode baixar o vidro?
O rapaz obedecera, fitando o policial que logo expressou surpresa brusca.
— Ei, peraí, você não é o cara que acabou de ser apreendido por assaltar a loja do posto? Mas como... — falou ele, franzindo a testa, chegando a olhar para a viatura que engatava partida — Que merda é essa?
— Chega mais perto que eu vou tirar todas as suas dúvidas. — disse o rapaz, subitamente exibindo olhos completamente brancos com seu sorriso largo, naquele instante preenchido por dentes grossos e pontiagudos. Pegara o policial pela gola da farda, puxando-o forte e o mordendo selvagemente no rosto enquanto ele se debatia aos gritos abafados.
***
Os cinco dias posteriores à decisão de Agnes em se isolar numa tumba, submetida a um estado de quase morte, consumiu o emocional de Hoeckler que passara tal período na casa da bruxa na esperança de vê-la despertar em breve. Frank resolveu visita-lo sabendo que o superintendente estaria lá para acompanhar de perto na sua espera ansiosa.
A porta estava aberta, portanto Frank foi logo adentrando. Mas o que o detetive encontrara lhe tirou um leve susto.
— Andou dando umas festinhas pra compensar essa ansiedade? — perguntou Frank olhando as várias garrafas de whisky na mesinha de centro enquanto Hoeckler estava largado no sofá, de camisa branca, a mesma que usava por cima do típico paletó azul, sentado e com a aparência de alguém que passou noites a fio em claro se debulhando em lágrimas.
— O que veio fazer aqui? — indagou ele que fitava o nada com seu olhar deprimido — Caçoar do meu sofrimento? Admita que... te dá prazer me ver assim. Impotente, com meu ego em frangalhos.
— Eu respeitei quando não me enviou mais mensagens desde aquele dia da operação, só que hoje tirei um tempo antes de ir trabalhar pra fazer uma visitinha. Eu achava que você tava na fase da barganha ou até da aceitação, mas pelo visto me enganei. — disse Frank se aproximando.
— Veio perder seu tempo, então. — retrucou Hoeckler segurando uma garrafa de bebida, logo se servindo se mais um gole que desceu ardente pela garganta — Ela se foi. A poção leva a um coma irreversível. Então... — ficou girando a garrafa sobre a barriga devagar com as mãos — ... me resta desligar os aparelhos.
— Vai se livrar da tumba com ela dentro? Não, tá de sacanagem...
— Afunda-la num rio ou explodi-la. Um funeral nada cerimonioso já que... não a amei o suficiente para que ela se sentisse salvaguardada comigo ao lado. Eu não vou esperar um dia que não tenho certeza se irá chegar. A minha decisão foi tomada.
— Não, você não bateu o martelo ainda. Sabe por que? Porque tá sofrendo por antecipação, tá agindo de forma precipitada e derrotista. Pensa no quão péssima ela se sentiria vendo você se afogando em bebida sem nem mesmo saber a verdade, sem nem mesmo ter um pingo de otimismo, por mais feia que a situação geral esteja e eu sei que vai ficar pior porque a múmia viva lá deve ter preparado um verdadeiro show de horrores pros próximos dias, então se prepara pra montar artilharia pesada, levanta a cabeça e se recompõe.
Hoeckler desviou o olhar para Frank em um tom crítico. O detetive não esperava a melhor das respostas e endureceu a face.
— Tem razão, uma hora eu vou ter de sair dessa fossa pra retornar ao fronte de batalha. Mas não pense que não sei pesar minhas decisões. Você não conhece Agnes como eu. Ela estava tão incerta de acordar que aprovaria a medida mais radical.
— Mas ela tem que acordar, ela tem a sabedoria mística, todo o conhecimento pra dar o suporte necessário pra vencer o Zaratro. Eu não acho que ela tomaria essa atitude sem considerar uma mínima chance de voltar. Toda bruxa é esperta.
— Frank, não tô com cabeça pra discutir com você, é minha palavra contra a sua. Respeito seu otimismo, mas Agnes é a mulher que amo, sendo assim ela é minha responsabilidade dada a condição dela. Pode ir embora se não quiser mais um atraso no histórico.
Frank suspirou longamente, forçando a ser paciente.
— Tá OK. De qualquer forma, eu vim mesmo foi pegar de volta as cartas de selamento. Cadê?
O superintendente levantou-se com ar desafiador.
— Trouxe a do cavaleiro que foi selado primeiro?
— O Palamedes? Não, deixei guardadinho. Por que?
— Quero ficar com todas. Me traga ainda hoje.
— Peraí, que ideia é essa? Não competia a mim selar aqueles desgraçados? Tá me dispensando, é isso?
— Eu assumo o papel, farei isso em memória dela.
— Ah, agora deu, dessa vez quer bancar o herói, mesmo que pra isso tenha que me chutar.
— É um sacrifício válido. Quer que eu seja honesto? Você nunca foi indispensável! — disse Hoeckler ríspido — Quero a carta que resta ou mando meus homens pegarem por mim.
Frank estava a beira de um ataque de nervos.
— Seu miserável de uma figa... Olha, quer saber? Melhor me declarar fora da força-tarefa do que ser desligado por um ingrato de merda feito você. A gente se vê lá no DPDC quando superar o luto. Passar bem. — disse Frank, virando as costas para sair.
— Pode ir, nunca realmente precisamos de um caçador com utilidade limitada que nem você. — provocou Hoeckler. Em revide, Frank se virou abruptamente desferindo um forte cruzado de direita no rosto do superintendente, derrubando-o.
— Você fica mais cretino quando tá bêbado. — disse Frank olhando-o com desprezo enquanto ele limpava sangue da boca — Mas te cubro de razão se te faz bem, não passo de um caçador que pouco tem a oferecer. A importância que você me dava não vale nada perto da que os anjos têm me dado, eles sim confiam plenamente no meu potencial. — disse Frank, em seguida virando as costas para definitivamente sair.
— Não se esqueça das cartas.
— Agnes me designou pra pega-las, de certa forma elas são minhas, enquanto ela não deixa de ser a bela adormecida. — disse Frank, de costas para Hoeckler, abrindo a porta — Vou indo porque tem muito mais gente que valoriza meu trabalho. — enfim saíra, fechando a porta com um baque. Furioso, Hoeckler jogara a garrafa com um restinho de bebida contra a porta. A garrafa se estilhaçou toda, molhando a porta enquanto Hoeckler entrava em uma crise de choro copioso.
***
Departamento Policial de Danverous City
— Suspendeu você?! — disse Carrie em tom espantado na sala de Frank na costumeira conversa matinal para discutirem o novo caso — OK, não que eu não esperasse essa covardia dele, mas a essa altura... Acho que ele desbloqueou um sexto estágio do luto: o da piração, quando mesmo após a aceitação a mente entra num turbilhão de pensamentos confusos que vão deteriorando a sanidade. Falei besteira, né?
— Olha, é basicamente por isso que ele anda passando. — disse Frank, pensativo em sua mesa. Olhou para a assistente com seriedade nervosa — Não levo fé que ele vai superar essa tão fácil, é uma incerteza grande demais pra cabeça dele aguentar. Pra qualquer cabeça sã aguentar. Na certa ele vai surtar e tocar fogo naquela tumba hoje ou amanhã.
— E você não tem obrigação de impedi-lo, nem mesmo ser um ombro pra ele chorar. Bom, teve uma vez em que quase fui isso, mas o encontrei por acaso na sala dele afogando as mágoas num uísque velho por ter levado um pé na bunda do finado presidente da ESP. Até... evitei que ele tirasse a própria vida com um tiro na cabeça. — revelou Carrie rememorando a noite em que prestou um ato de empatia para o superintendente.
— Você nunca me contou isso. Parabéns, muito humano da sua parte, apesar de ainda ter rancor guardado pela morte do Ernest. Eu também tenho, não vou mentir, mas... É complicado, ele é nosso chefe superior e tem oferecido muito apoio nessa guerrinha escrota contra os cavaleiros e os daevas que agora estão mais fortes com o líder carismático deles de volta a ativa pra arrasar tudo.
— Reconheço o investimento dele nessa aliança com você, mas essa decisão foi uma boa amostra do caráter sujo que ele conserva, não mudou muita coisa de dois anos pra cá, convenhamos. — disse Carrie firmemente — E agora? Como fica com a relação estremecida entre você e a ESP?
— Não, a rusga é só entre nós dois. — retrucou Frank — E vai passar, ele precisa de um tempo pra colocar a mente em ordem, nesse caso é bom a Agnes acordar logo porque precisamos mais dela do que dos anjos ou da ESP pra vencer o Zaratro. E falando nos anjos, vou me ancorar neles a partir de agora. Se tô fora, eles também estão.
— Frank, pensa a fundo. Nem sabe ainda a extensão de poder mágico que esse bruxo possui, talvez, sei lá, nivele com os anjos. A Agnes só tá tirando o dela da reta e acabou deixando vocês na mão. E o imbecil lá sofrendo por amor.
— Eu que não volto pra aquela casa e tentar salvar ele da sofrência com um argumento desses. Capaz dele estar mais bebasso e me dar um tiro. — disse Frank, ressabiado — Hoje eu tô afim de limpar minha mente desse problemão. Vou enchê-la com um casinho, normal ou sobrenatural. Relaxar um pouco enquanto a poeira tá baixa.
— Casinho, é? Vai pensando, vai sonhando... — disse Carrie entregando a pasta com as informações cruciais do caso para o qual Frank fora designado. Após uma leitura rápida e dinâmica, o detetive pareceu pouco surpreso.
— O que tem demais? É só isso aqui? Um cara roubou uma loja de conveniência, rendeu o caixa obrigando ele a dar a grana e picou a mula. A polícia veio, daí o assaltante reapareceu, mas alegando ser inocente e passando na revista. É estranho, mas... Não me cheira a nada anormal. Vai ver ele é pirado. Doente mental? Dupla personalidade?
— Ele tava sem nada que tivesse roubado nos bolsos. Apenas a carteira com o próprio dinheiro.
— Pois é... — disse Frank, refletindo quanto a tal detalhe — Mas vai que seja mesmo um maluco.
— Vai saber. — disse Carrie dando de ombros — Mas pra começar a investigação com o pé direito, o rapaz tá detido bem aqui no DPDC, só esperando bater um papinho, então é uma excelente hora pra verdade aparecer.
— Ótimo, vou dar um pulo lá agora. — disse Frank levantando-se e espreguiçando-se — Tem mais café?
***
Na sala de interrogatório, o jovem autuado pelo roubo na loja aguardava a visita do detetive que lhe ouviria acerca da justificativa da inocência alegada. Frank entrara recebendo um olhar desconfiado e tenso do rapaz que com as mãos algemadas sobre a mesa. O detetive sentou-se diante dele.
— Olá, sou o agente Montgrow. Frank Montgrow. Soube que você andou cometendo umas ilicitudes por aí. Fraudes, furtos, trapaças, golpes variados... Testemunhas, vítimas suas, aliás, explanaram essa sua carreira delituosa. Que prova você tem pra sustentar sua alegação?
— Eu me chamo Ethan. Por favor, me dá um voto de credibilidade, eu não sou nenhum criminoso, golpista, assaltante ou sei lá mais do quê estão me acusando. Na loja foi alguém se passando por mim. Eu não sei como, mas foi. Revistaram meus bolsos e não acharam um centavo sequer que tenha sido roubado de lá. Saí pra fazer compras de acordo com uma lista que minha mãe me deu.
— Vamos manter a calma. Você tá nervoso, Ethan, entendo que é uma situação desesperadora pra caramba. Só que é difícil te atribuir inocência com uma prova tão cabal condenando você, tipo uma filmagem do circuito interno da loja.
— Minha mãe me criou como um homem decente. Jamais cometeria um crime. Nem uso drogas. Já passaram o pente fino mas minhas coisas.
— Ethan, o atendente disse ter visto um carro preto parar no outro lado pouco antes de você entrar na primeira vez. Não parou pra abastecer, só ficou ali.
— Carro?! — disse Ethan que dera uma risada — Eu nem tenho carro, muito menos habilitação. Conferiram minha documentação completa.
Frank já sentia um certo cansaço prévio com a confusão que aquele caso provocaria eventualmente.
— Além do carro, acharam um policial morto com o rosto todo desfigurado. Aliás, comido até os ossos.
— Tá achando que eu devorei a cara de um policial que nem um animal selvagem?
— Não, Ethan, isso não foi bem uma acusação, só um adendo. Deve ser algo isolado, não apurei ainda. — afirmou Frank que suspirou com a boca — Me sobra um último recurso pra ver se tua barra fica limpa.
Minutos depois, o detetive saía com Ethan por um corredor após obter a liberação diretamente com Giuseppe. Porém, o jovem seguia apreensivo.
— Vai ficar na minha cola até uma nova ocorrência? Isso parece meio errado.
— Pensou que eu ia te deixar passar outra noite mal-dormida? Aqui não é hotel.
— A sua casa também não.
— O que te fez pensar que eu iria te hospedar na minha casa? Olha, presumindo que você tenha um clone do mal fazendo traquinagem pra te ferrar, é quase certo que ele agirá novamente em algumas horas. Precisamos ser parceiros por um dia.
— E se não acontecer nada... — disse Ethan deixando a frase no ar por um instante olhando para Frank com nervosismo estampado.
— Aí você terá que voltar pra cá. Pelos relatos das testemunhas, você ou o outro você vem agindo há poucas semanas.
— Não confia em mim, né? É justo, tô sob forte suspeita, falar não adianta. Mas não se deram ao trabalho de rastrear a placa do carro?
— Agora que você falou... — disse Frank sacando seu celular — Vou dar uma ligadinha aqui pro Wendel. — falou, fazendo a chamada que foi prontamente atendida — Oi, Wendel, é o agente Montgrow. Sabe me dizer se já checaram o rastreamento do carro próximo do qual o corpo do policial foi achado? OK... Você acabou de salvar uma vida, cara, valeu.
Frank desligara fitando Ethan com um leve sorriso.
— Ele disse que o carro saiu de um ponto da zona leste, só que você diz morar na zona oeste.
— Viu só? A droga desse carro não me pertence. Eu realmente entrei na loja após o assalto. Peguei uns dois ônibus pra chegar lá. Se quiser, manda verificar nas câmeras urbanas pelos pontos de embarque.
— Boa, vou providenciar. Mas o rastreio da placa por si só reforça sua liberação e fortalece a hipótese de inocência. Mas seu celular vai continuar grampeado, por segurança.
Uma mulher caucasiana de cabelos castanhos e lisos usando um sueter creme surgia vindo até eles comovida.
— Ethan! — chamou ela em tom desesperado.
— Sua mãe? — indagou Frank.
— Eu... não faço ideia. — disse Ethan franzindo a testa ao encarar a mulher exasperada.
— Meu filho, o que houve? Me contaram que você tinha sido preso. Não voltou pra casa ontem a noite, achei que tivesse ido pra algum festa, balada...
— Desculpa, eu... não sei quem é a senhora. E balada? Sério? Tenho cara de quem sai pra uma farra numa noite de sexta?
A mulher esboçou uma aflição ainda mais crescente na face enquanto balançava a cabeça em negação.
— O que fizeram com você? — perguntou ela.
— Não fizeram nada comigo. Eu nem conheço a senhora, sinto muito. Não sou seu filho.
— Espera, você tem um filho de nome Ethan. Sobrenome?
— Gilbert. — respondeu ela.
— Sou Ethan Dawson.
— Ma-mas... Meu Deus, que loucura. — disse a mulher pondo as mãos na cabeça — Você é meu Ethan, o meu filho, não é possível que haja outro exatamente idêntico.
— Olha pras minhas roupas. — disse Ethan — Saí de casa com elas?
— Sim, essas roupas. Esse casaco, essa mesma calça, os tênis também... — disse ela, afligindo-se mais pela confusão que tudo se tornou — Vamos pra casa, Ethan. — tentou puxa-lo pelo braço esquerdo, mas o jovem afastou-se rudemente.
— Não vou a lugar nenhum com você. Detetive, nós dois podemos ter uma palavrinha aqui em particular, por favor?
Frank acatou o pedido, indo conversar com Ethan meio que encostado na parede reservadamente.
— Ela não tá louca, dá pra ver pela expressão. E se eu tiver um irmão gêmeo separado no nascimento? Quero um teste de DNA.
— Ethan, muita calma nessa hora. Um passo de cada vez. Temos que nos concentrar no seu caso antes de tudo.
— Mas é esse teste que vai comprovar se tenho ou não um doppelganger cometendo crimes em meu nome. Minha mãe se chama Vera Dawson. Mas... eu sempre tive a sensação de que... ela não era exatamente a mãe que eu imaginava, é esquisito... Como se eu sentisse que ela não fosse minha mãe biológica. Quando eu vi o rosto dessa mulher... logo de cara bateu um estalo, um tipo de ligação...
— Então vamos atrás de fazer esse teste logo. Um teste rápido, mas eficaz. Sei de uma clínica que tem.
— Eu tenho uma foto. — disse a mulher — Meu nome é Sarah Gilbert. Vejam. — mostrara uma foto antiga no celular na qual havia Ethan na infância, deitado na cama e cercado de presentes de aniversário — Lembra? Aniversário de oito anos, o seu favorito.
Ethan negou veementemente com a cabeça ao visualizar a imagem.
— Não lembro. Não lembro desse dia, de nada disso. Eu passei meu aniversário de oito anos num parque de diversões com minha mãe e o meu padrasto. Seja quem for o seu Ethan, é bom ele aparecer porque não passa de um bandido desgraçado disposto a acabar com a minha vida.
O jovem saiu a passos largos pelo corredor totalmente inconformado.
— Ethan, espera aí... — disse Frank desejando segui-lo, mas resolveu voltar sua atenção a Sarah — Acho que devemos ter uma conversinha bem franca.
***
No estacionamento, Frank entrava no seu sedã prata onde encontrou Ethan sentado no banco do carona.
— Pra quantos policiais perguntou qual era a cor e o modelo do meu carro?
— Não achou que eu fosse quebrar o vidro pra destrancar as portas, né? Sorte que tava aberta.
— Ethan, é uma merda essa situação toda, eu sei como é lidar com a ideia de que há outra pessoa fingindo ser você pra te jogar num lamaçal de problemas, acredite em mim. Passei por isso duas vezes e foi de lascar. Na primeira fui acusado de uma chacina e quase fui preso. Na segunda fui preso e fiquei no corredor da morte, mas tava tão superlotado que a minha vez seria em uns quatro anos. Felizmente pude sair daquele inferno em um.
— Caramba, que doideira isso de... usurpação, uma duplicata tentando te prejudicar a troco de nada. Eu quero sua proteção, detetive. Não vou ficar a mercê de um farsante filho da mãe pelo resto da vida. Eu tenho... — disse Ethan, parecendo que desabaria em choro, desviando o rosto com os olhos marejados — Minha namorada, Janice. Ela tá esperando nosso primeiro filho, nove meses, em duas semanas ela dá à luz. Se esse cara chegar perto dela...
— Mais uma vez, Ethan, mantém a calma. Não vai acontecer nada a sua namorada. O alvo do seu duplo parece ser você e mais ninguém. Se ele tivesse sucesso em ferrar com a tua vida, os próximos alvos seriam as pessoas que você ama. Mas ele deve acreditar que não acabou com você por definitivo, só aprontou esse golpe já pensando no próximo. E eu falei com a Sarah.
— O que ela disse? Ficou insistindo em dizer que é minha mãe?
— Perguntei se ela chegou a ter gêmeos, o que ela negou. Fiz esse questionamento pela teoria do bebê roubado. Você é filho único. Ela me deu o endereço do hospital onde a enfermeira que cuidou dela no pós-parto provavelmente ainda trabalha. É pra lá que nós vamos a fim de ouvir a versão dela. — disse Frank girando a chave ao dar a partida.
— Que coincidência... — disse Ethan, um tanto imerso nos pensamentos — Minha mãe trabalhou como enfermeira antes de eu nascer. Será o mesmo hospital, a mesma pessoa?
— É o que veremos. Põe o cinto. — disse Frank engatando a marcha e saindo do estacionamento.
***
A fachada do hospital soava absurdamente familiar para Ethan que não parava de observar a entrada à espera de Frank voltar com informações relevantes. Para o seu rápido alívio, o detetive retornava passando pela porta giratória.
— E aí, conseguiu algo? Digo, essa enfermeira ainda é funcionária daí?
— Não tem nenhuma Vera Dawson no corpo de funcionários, checaram de cabo a rabo. Pelo visto, a tal enfermeira que cuidou da Sarah é muito possivelmente a sua mãe. — disse Frank entrando no carro — Disse que ela largou esse trampo depois que teve você, né?
— Sim, só que ela nunca foi totalmente aberta comigo sobre o passado. As vezes acho que ela esconde um segredo obscuro e essa minha suspeita piora quando... quando eu falo das minhas visões.
A última palavra fizera Frank virar o rosto para ele com atenção redobrada em um olhar de surpresa.
— Que tipo de visões são essas? Presságios?
— Não é como prever o futuro, mas... enxergar o presente com os olhos de outra pessoa. Eu vejo ruas, lugares e pessoas, mas nunca o rosto de quem está fisicamente vendo aquilo tudo, é bizarro demais.
— O que você viu pela última vez, Ethan?
Ethan o olhou nervosamente antes de contar.
— Vi o assalto a loja de conveniência. Senti como se eu tivesse o feito, mas não fui eu.
— Se você viu o assalto na sua mente em tempo real... então por que entrou na loja?
— Eu não fazia ideia ainda de que poderia ser uma versão criminosa minha e idêntica a mim, por mais que a minha intuição dissesse que eu estava ligado aquela mente como se pertencesse a mim também, por mais que eu sentisse ser eu.
— Você foi imprudente, não confiou na sua intuição.
— Dei mancada, eu sei, mas... Se eu não tivesse errado não estaríamos aqui tão perto de descobrir a verdade, ele ainda continuaria espalhando o caos com minha aparência e nada se resolveria.
— É verdade, pensando bem foi um ato de coragem, mas sua sorte mesmo foi de eu ter sido encarregado desse caso. Voltando a sua mãe: tem certeza de que ela trabalhou mesmo nesse hospital?
— Ela me trouxe aqui quando eu tinha uns seis anos. Por que o senhor acha que tenho essas visões? Fiquei no maior receio de falar pois acharia que eu fosse um...
— ... drogado ou doido de pedra, tá tudo bem, muita gente hesita em revelar os podres surreais temendo serem tachadas assim. Quanto a você, Ethan, claramente tem um dom paranormal. Mais precisamente uma ligação psíquica com seu duplo... que também deve ser paranormal.
— Como é que é? Eu sou uma espécie de... criatura, monstro ou aberração? Tá de brincadeira...
— Ethan, sua mãe biológica é Sarah Gilbert. Ela consentiu que eu pegasse uma amostra do próprio sangue e depois a sua, fui lá e mandei fazerem o teste. Vera pode ter sequestrado você e te trocado por um monstro, talvez cuidar da sua mãe foi o último encargo dela de enfermeira antes de abdicar pra cuidar de você enquanto Sarah alimentava uma coisa que passou todos esses anos vivendo a vida que deveria ser sua.
O jovem parecia em choque com a possível verdade, fitando o nada praticamente boquiabrindo-se.
***
Frank decidiu parar em casa com Ethan a tiracolo a fim de traçar um plano mais tranquilamente, assim como verificar nos arquivos que criatura poderia ter perpetrado a troca do bebês.
— Fica a vontade, vou só aqui na cozinha um instantinho. — disse Frank caminhando até o cômodo — Pode sentar na poltrona, se quiser.
Ethan sentara-se um pouco retraído na poltrona de couro cor de ferrugem, mas logo se acomodou. Frank parou no meio da cozinha, fechando os olhos e concentrando-se ao limpar sua mente.
— Adrael, preciso que você dê um pulo aqui depressa.
O anjo surgira a poucos centímetros do detetive lhe dando um tremendo susto que o fez dar um pulo.
— Caramba! Eu falei depressa, mas não tão depressa! Isso é sinistro! Agora sei como a Carrie se sentiu. Meu coração subiu pelo esôfago e voltou.
— Mas... é nessa velocidade que eu me desloco. Queria que eu batesse na porta sendo educado?
— Sem firulas. Vem aqui comigo.
O detetive retornou a sala acompanhado do anjo, surpreendendo Ethan que encarou Adrael com curiosidade.
— Quem é esse cara? Foi numa convenção nerd na velocidade da luz e ele tá fazendo um cosplay de algum personagem da Xena, a princesa guerreira?
— Essa descrição foi basicamente a primeira impressão que eu tive dele. — disse Frank com ar risonho, logo olhando de lado para Adrael sorrindo — Tá lembrado? Nosso primeiro encontro.
— Nunca esqueci. — respondeu Adrael.
— Ethan, pode parecer que isso tudo tá ficando ainda mais louco do que já é, mas esse cara aqui do meu lado... é um anjo.
O rapaz semicerrou os olhos, balançando a cabeça devagar, duvidando da afirmação.
— Cadê as asas? A auréola? E ele não devia ser branco e com cachinhos dourados? Sem querer ser racista, claro, mas é que...
— Os anjos são como nós, só que mais... avantajados por dentro. Tá, eu sei que falou isso por ser tão difícil de acreditar. Mas vai por mim, eles existem e trouxe um especialmente pra te ajudar.
Adrael se aproximou de Ethan que esboçou tensão.
— Eu não vou ser dissecado vivo, vou?
— O que ele vai fazer é algo próximo de um exame de raio-x, fica tranquilo. — disse Frank tentando acalma-lo.
— Aquiete-se. — pediu Adrael gentilmente. O anjo ergueu sua mão direita que emitiu um brilho branco na palma, brilho esse também reluzindo nos seus olhos completamente. Baixava a mão próxima ao corpo de Ethan conforme realizava a inspeção. Ao terminar, virou-se para Frank — Possui o mesmo interior de um humano, mas com uma diferença que o torna especial de um modo bem preocupante.
— São as minhas visões. — disse Ethan — Não é?
— Eu me referia ao seu corpo. Há partes que estão se modificando, a matéria interna do seu organismo está se distorcendo num processo muito gradual.
— O que isso quer dizer? — indagou Ethan, afoito.
Adrael desviou o olhar para Frank que havia entendido o diagnóstico.
— Parece que você tá se transformando na mesma coisa que a sua mãe adotiva é. O policial morto no outro lado da rua do posto, ele foi vítima do seu duplo que certamente já concluiu a metamorfose, então a sua tá próxima de completar.
— Mãe adotiva o escambau. — disse Ethan, levantando-se com ar revoltado — É uma sequestradora, mentirosa e sádica, a gente tem que acabar com ela e rápido. Quando tivermos terminado, vou até a Sarah contar toda a verdade.
— Me deixa ir até o porão rapidinho pra verificar umas informações, depois traçamos um plano. Adrael, obrigado por vir. — disse Frank dando um toque no ombro do anjo, indo em seguida até o porão conferir nos arquivos a ficha do monstro que se disfarça como Vera Dawson. Ethan e Adrael permaneceram a sós na sala se entreolhando.
— Ahn... Já não tá na hora de você ir?
— Eu vou esperar o Frank voltar pra me despedir melhor, seria deselegante da minha parte sumir sem avisar.
— Ah, OK. — disse Ethan enfiando as mãos nos bolsos também esperando o detetive retornar do porão. Para quebrar o silêncio, resolveu puxar uma conversa — Se você é mesmo um anjo... Como é lá no Céu?
Enquanto isso, Frank puxara uma gaveta do armário, passando o dedo pelas pastas, olhando todas as letras. Escolheu a letra B como última tentativa. O nome Boginka lhe reacendeu uma memória. Já havia escutado ocorrências associadas ao monstro cuja lenda era amplamente difundida dentro no folclore polonês, todos os detalhes batendo com o caso de Ethan. Mas fizera um achado de extrema importância. "O que é isso aqui?", pensou, reparando numa caderneta solta dentro da pasta. A abriu e logo na primeira página constavam anotações sobre um covil de Boginki. "Diário de caçada: genocídio das Boginki."
Frank lera até o fim sobre a caçada grupal capitaneada por seu pai em 1989 em uma floresta na qual residia uma sociedade de Boginki, todas exterminadas pela equipe de caçadores. "A cabeça é o ponto vulnerável, não importa o que seja usado."
Voltando a sala, Frank se dirigiu a Ethan.
— Ethan, você vai me guiar até sua casa, descobri que tipo de monstruosidade sua mãe postiça e seu usurpador são. Vou usar minha arma de tiro a distância pra acertar a cabeça dela enquanto você a distrai como o bom filho que a casa torna.
Ethan empolgou-se com a ideia.
— A cabeça é o ponto fraco dela... Ótimo, vamos nessa. Pode contar comigo.
***
No trajeto à casa de Ethan, ambos confabulavam acerca da problemática, o carro seguindo veloz pela estrada. Ethan sentia a cabeça abarrotada de fatos.
— Deixa eu repassar: o seu pai era um caçador de assombrações famoso no movimento e no final dos anos 80 liderou uma operação de extermínio contra essas... essas...
— Boginki. — disse Frank — Isso no plural. No singular é Boginka. Meu pai e a galera dele passaram o cerol em toda a comunidade dessas monstrengas.
— É provável que a minha mãe... Digo, a Vera seja uma sobrevivente. — especulou Ethan, segurando o celular em uma vontade incontrolável de telefonar.
— Boa teoria. Ela pode até ter elaborado todo esse plano em retaliação pela matança das amiguinhas dela pra chamar a atenção de um caçador.
— Mas qual a razão de me tirar de cena?
— Talvez sua namorada. — apontou Frank, deixando-o trêmulo e nervoso — Como eu disse antes, primeiro eles se livram de você pra em seguida mirar nas pessoas que te importam. Me diz uma coisa, nessas suas visões você já chegou a ver seu duplo falando com a Vera?
— Eu não sei... Elas não duram o bastante pra que eu saiba pra onde ele vai, onde ele está, o que tá fazendo... Não me lembro de ver o rosto dela nesses momentos. — disse Ethan que de repente se encolheu no banco parecendo ser acometido por uma dor, fechando os olhos intensamente com os dentes cerrados. Frank o olhou com preocupação.
— Ethan, tá tudo bem? — indagou ele vendo o jovem gemer enquanto sofria com aquela súbita crise. Ethan reabriu os olhos, visivelmente abalado — O que foi isso aí? São as visões? É assim que você as tem?
— Detetive, acelera. A gente tem que chegar logo.
— Mas por que a pressa? Você teve ou não uma visão?
— Sim, eu... Eu vi ela e...
— E mais quem?
— Ele. O farsante desgraçado tá na minha casa. Acabei de ver ao vivo e a cores. Vou acabar com ele depois que você meter uma bala na cabeça daquela vagabunda.
— Estavam conversando? Chegou a ouvir o que diziam?
— Quando a visões são muito abruptas fica difícil me concentrar em sons da mesma forma que nas imagens. Estão planejando uma estratégia nova. Mas... Eu tive a impressão de ouvir o nome da Janice.
Frank pisara fundo no acelerador para chegar ao destino antes que a duplicata de Ethan saísse, mas a desvantagem do limite de tempo das visões tornava uma chegada a tempo incerta. Quando enfim estacionaram na floresta, Frank prontamente preparou sua arma, ocultando-se num arbusto a uma moderada distancia enquanto Ethan relutantemente andava até sua casa.
Ethan se inflou da coragem que necessitava e assim aproximou-se da residência.
O detetive fechou o olho esquerdo deixando o direito aberto com a mira da arma a frente, focalizando a janela da casa para perto de onde Ethan atrairia Vera. O jovem abriu a porta, adentrando, fazendo parecer uma chegada natural.
— Mãe, tô de volta.
— Olá, filho. Sabia que voltaria ainda hoje. — disse Vera, uma mulher de feições joviais, pele alva e lisos cabelos pretos que caiam aos ombros, usando uma blusa azul celeste de mangas longas e uma calça jeans. Veio até Ethan com um sorriso gentil.
— Então... Não ficou preocupada? Eu fui preso, sabia? Acusado por um crime que não cometi. — disse Ethan tomando proximidade da janela pela qual a bala engatilhada por Frank atravessaria. Vera o acompanhou, estando no ponto de exposição.
— O que foi? Parece tão tenso. Quer comer alguma coisa? Fiz as panquecas que você adora.
— E estavam uma delícia. — disse o outro Ethan, vindo da cozinha, lambendo os dedos.
— Você... — disse Ethan, atônito diante da sua cópia — É inacreditável. Parece que tô diante do espelho.
— Filho, preciso que nos ouça com toda atenção. — disse Vera — Uma hora você tinha de saber.
— Não me chama de filho, sua desgraçada! Eu vou mandar você e essa sua cria maldita direto pro inferno! Sei quem é minha mãe de sangue e nada vai me impedir de estar com ela, inclusive com a Janice e meu futuro filho. Captou a mensagem, meu irmãozinho gêmeo? Nelas você não toca. Se quiser atentar contra a vida delas, só por cima do meu cadáver. Aliás, é a Janice que devo proteger, em primeiro lugar. — disse Ethan cheio de garra.
Vera deu um sorriso infame ao filho adotivo.
— Bom que mencionou sua namoradinha.
Frank sentia o suor na testa escorrer com a espera demorada, os braços quase dormentes segurando a arma cuja mira no alvo ainda não estava suficientemente efetiva para o disparo certeiro.
O Ethan maligno sorria com cinismo revoltante para o seu gêmeo estarrecido.
— Eu não vou deixar vocês tocarem num fio de cabelo da Janice. Pra quê diabos querem ela? Ela tá grávida de nove meses!
— E a hora não podia ser mais apropriada pra ela conhecer sua ilustre sogra. Ou talvez sua futura companheira de espécie. — disse Vera que mantinha-se parada para o desprazer de Frank. O dedo do detetive no gatilho da arma estava vermelho pela pressão e ansiedade de apertar.
— Que papo é esse? Ok, sei que você é um monstro, me sequestrou colocando esse pela saco no meu lugar. 1989 deve ter sido bem memorável, não foi? Perdeu muitas amigas queridas nessa época?
O semblante de Vera modificou-se para seriedade pura rapidamente.
— O que sabe a respeito?
— Sou eu quem devo fazer perguntas aqui! — disse Ethan, exaltado. O jovem deu uma rápida olhadela a sua esquerda sem mover a cabeça, mas perceptível o bastante para Vera e seu rebento suspeitarem.
— Olha, eu acho que tenho uma ideia de como ele sabe que você escapou de ter sua cabeça estourada por um caçador. — disse o Ethan malévolo olhando para a janela — O seu amigo ali é um, né?
— Peraí, do que você tá falando? — indagou Ethan, lutando para não vislumbrar Frank a uma certa distância como um franco-atirador — Eu vim sozinho. Não tem ninguém me ajudando a acabar com vocês.
— Quieto. — ordenou Vera, o tom duro. Andou para fechar as cortinas da janelas. Frank arqueou as sobrancelhas, vendo que o plano falhara.
— Puta merda. Era disso que eu tinha medo. — disse ele, baixando a arma e se recolhendo — Agora é torcer pro Ethan sair vivo de lá com alguma informação útil. Caramba, desgraça! — bateu a arma contra uma pedra ao lado movido pela raiva do fracasso. Vera resolveu ir direto ao ponto-chave.
— Sua namoradinha será trazida aqui em segurança para a grande cerimônia de renascimento.
— O que é isso? Dá pra ser mais clara? O que querem fazer com a Janice?
— Um lance de magia negra que envolve tanto ela quanto o pãozinho no forno. — disse o Ethan maligno — Pena que ele vai sair meio mofado, mas ao menos estará vivinho pra dar continuidade a espécie.
— Exatamente. — disse Vera, aproximando-se de Ethan — Por que acha que peguei você emprestado? Um filho humano que concebesse uma nova vida junto a uma fêmea.
— Mas não sou humano. Você me transformou num monstro igual a você e ele! Ou tô pra me transformar completamente. É por isso, né? O bebê da Janice será um Boginka, certo? A Janice morre, vocês me matam também e desovam meu cadáver por aí.
— A razão pela qual sua metamorfose se deu tão lenta foi para que o rebento tivesse natureza humana até que se desenvolvesse por completo. — explicou Vera — Meu ritual irá transforma-lo.
— E a Janice? — indagou Ethan, atemorizado.
— Será minha mais nova companheira de espécie, como eu disse antes.
— E quanto ao seu amigo ali fora... — disse o Ethan maligno chegando mais perto — ... vou dar uma lição nele mais tarde. Mas antes vou me divertir um pouquinho fingindo ser você por mais um tempo.
— Espere. — disse Vera ao seu real filho — Façamos um acordo, um seguro de vida.
— Não quero fazer acordo nenhum. — negou-se Ethan — Vou sair por aquela porta, fugir com a Janice e a minha mãe pra bem longe e me livrar de vocês. Fui. — virou-se para sair, mas o gêmeo malvado o parara tocando-lhe forte no ombro e o virando para em seguida desferir um soco e uma joelhada na barriga. Ethan caiu, sentindo-se fraco como humano.
— Pensa que tem escolha? Fala pra ele, mamãe. — disse o perverso duplo.
— O seu amigo caçador sairá ileso caso nos traga Janice até as onze, fingindo ser um convencional primeiro encontro entre nora e sogra. Do contrário, seu irmão terá minha expressa autorização para fazer do caçador um saboroso jantar. Aceite, a Janice estará viva com seu filho... o nosso filho. Juntas daremos seguimento ao clã, superando anos de perigo de extinção total. Você tem meu agradecimento, filho. Eu o amei incondicionalmente.
Ethan ergueu o rosto furioso para ambos.
***
Frank via Ethan saindo pela porta da frente e se empertigou, sem a menor ideia de que ali estava o usurpador perverso para lhe tapear conforme o plano de Vera. O detetive correu para alcança-lo.
— Eu sinto muito, Frank. — disse o rapaz, passando pelo detetive com postura frustrada.
— Espera, o que rolou lá dentro?
A dupla caminhou em direção ao carro estacionado numa área aberta da floresta. No trajeto, Ethan contara do plano maquiavélico de Vera, não mencionando o acordo.
— Deixa ver se entendi bem: o seu filho é originalmente humano, mas a vadia quer submetê-lo a esse ritual pra despertar o lado Boginki nele, assim como transformar sua namorada. — disse Frank andando na frente de Ethan. O sedã prata estava a poucos metros.
— Não, minha humanidade teve total influência quando concebi meu filho. — disse Ethan olhando para os lados — A metamorfose que tô passando desde que ela pôs as garras em mim não interferiu nisso. Ele será transformado também depois que a Janice sofrer com o ritual que vai forçar o parto.
— Mas claro que não deixaremos isso acontecer. Nada de ir buscar a Janice, você fica comigo até tarde da noite, antes da hora limite, pra gente entrar com o pé na porta e detonar com a dupla dinâmica.
— Parece um bom plano. — disse o Ethan maligno que pegara um tronco solto e grosso — Tirando a parte de entrar com o pé na porta. — ergueu o tronco visando golpeiar Frank na cabeça. Porém, antes que o detetive se virasse, estranhando aquela fala, uma presença surgiu repentinamente atrás do usurpador, a qual baixou sua mão sobre a cabeça do mesmo para destruí-lo com uma luz branca intensa. Os olhos do Ethan maligno irradiaram tal luz, sendo queimados. O corpo foi carbonizado inteiramente até tombar. Frank boquiabriu-se com o ato.
— Mas... Que merda foi essa? Ficou maluco?
Adrael estava parado diante de Frank esperando um gesto de gratidão em vez de uma crítica e estranhou a reação.
— Frank, este era a cópia maligna que assumiu a identidade do jovem que examinei. — revelou o anjo — Ele iria ataca-lo covardemente com isso aqui. — pegara o tronco meio chamuscado.
— Mas como você sabia? Conseguiu identificar ele de longe?
— Posso muito bem examinar a longa distância. Basta eu simplesmente fazer um movimento com a minha mão pra conferir se o interior de alguém é impuro. Achei que fosse me agradecer, ainda mais por ter me chamado.
— Eu te chamei sim, mas só daquela vez pra olhar o Ethan. — contrapôs Frank — Acho que você confundiu a voz de outra pessoa com a minha e não escutou direito a prece, mas veio a calhar você ter chegado logo na hora, ia ser mais uma pancada pro meu longo histórico de tomar uma por trás e dormir.
— Não, está enganado, nós anjos não cometemos equívocos ao ouvirmos as preces. Isso jamais ocorreu. — justificou Adrael, franzindo a testa com o estranhamento — Você me chamou novamente, Frank, tenho certeza. O que vai fazer a seguir?
— A vida do Ethan tá correndo sério risco. Pior que não posso impedi-lo de cumprir o maldito acordo com a monstra da mãe falsária dele. Só preciso esperar a noite cair, pra na hora certa acabar com a festa antes de chegar no ápice. — disse Frank abrindo a porta do carro — Mas valeu pelo livramento, Adrael. Só fica ciente de que eu realmente não chamei por você, nem mesmo pensei em você nas últimas duas horas e meia, acredita em mim. Checa isso com seus superiores.
O anjo ficou pensativo com a negação veemente de Frank, se questionando mais profundamente sobre um possível engano. Desapareceu em milissegundos, deixando Frank sozinho em meio a selva. O detetive entrara no carro para pacientemente aguardar.
***
O breu da noite sem luar parecia tornar-se mais desafiador naquela floresta a cada hora passada. Pouco antes das onze em ponto, Frank continuava enfurnado no carro, contudo saiu tremendamente derrotado na luta contra a sonolência pesada que o possuiu devido a entediante espera. Não tão distante dali, um carro parava com seus faróis acesos iluminando a fachada modesta da casa. Ethan saía do veículo dando a volta para abrir a porta do carona. Ajudou Janice pegando com delicadeza nas mãos dela, a conduzindo diretamente a casa. Era uma jovem mulher de pele parda e cabelos pretos meio cacheados usando uma vestido vermelho de alças confortável a sua barriga.
Na sala, Vera acendia velas vermelhas organizadas em círculo no chão. Ao sentir as presenças de Ethan e Janice, soprou a chama do fósforo após acender a última vela. Levantou e virou-se para receber a visita forçando uma postura inicialmente cortês.
— Seja muito bem-vinda. Você está... — disse ela, tentando transparecer uma voz emocionada — Eu nem sei o que dizer, é difícil pra mim como avó. Mas tô muito feliz em ver que um herdeiro do meu bebê está as vésperas de nascer.
— Mãe, não me chama assim. — resmungou Ethan — Não na frente da Janice...
— Bobagem. Ele tava mais tenso do que eu no caminho todo. Parecia que ia vomitar de ansiedade. — disse Janice — É um prazer conhece-la, Sra. Dawson.
Vera aproximou-se da nora tocando na barriga dela.
— Que venha com muita saúde. — disse ela, logo erguendo os olhos para Janice — Vamos começar.
— É um jantar? Nossa, tantas velas, mas... — disse Janice, olhando para o círculo de velas mais adiante, porém não conseguindo ver nitidamente pela semi-escuridão do ambiente.
De repente, Janice sentiu as pernas molhadas, como se água corrente jorrasse. Um desespero lhe brotou.
— Ethan... Acho que é agora. Ai! — disse ela sentindo as contrações. — Não era pra ser, mas... tá vindo! Não consigo entender!
— E nem irá. — disse Vera — Sua bolsa rompeu, que benção. Me deixe cuidar disso.
— A senhora? Mas... Ethan, você tem que me levar pro hospital, rápido!
Ethan demonstrava um misto de medo e hesitação.
— Não posso, amor. Me desculpa.
— Pelo quê?
Vera a agarrou fortemente pelo braço.
— Pela coisa monstruosa que ela fará com você. — respondeu ele, fitando Vera com nítido ódio.
Enquanto isso, Frank despertara no carro num sobressalto. Verificou rapidamente as horas no celular. Viu que havia passado das onze e se abismou.
— Cacete, tô atrasado. Droga de sono pesado! — disse ele saindo apressadamente do carro e correndo na direção da casa. Ao encurtar a distância, sacou sua arma e entrara pelos fundos. Ouvia vozes abafadas a frente no corredor em que estava. Acessou um cômodo cuja porta estava aberta. Com a pistola em riste, entrou no recinto escuro, logo tateando a parede a fim de encontrar o interruptor. Tocando nele, acendeu a luz que lhe revelou algo que fizera seu estômago dar piruetas.
— Nossa... — disse ele, recuando o rosto em espanto com o corpo de Ethan iluminado pela fraca lâmpada. O cadáver do jovem jazia ensanguentado e devorado em várias partes, mais profundamente no tronco. Um peso de frustração o atormentou em sua consciência pela soneca irresponsável. Mas não restava tempo para lamentações. O detetive saiu do cômodo diretamente à sala onde Vera recitava o feitiço para a concretização do ritual enquanto Janice gritava com as dores do parto.
— Empurre mais forte, querida! Está quase lá!
— Para! — berrou Janice no centro do círculo de velas, deitada no chão e suando — Cadê o Ethan? O que você tá fazendo comigo? — indagava em prantos.
— O que acha que estou fazendo? Sou sua parteira, nada mais que minha obrigação. — disse Vera, cínica, a boca encharcada de sangue — Ethan, infelizmente, não será mais parte disso. Seremos só eu, você e esta linda criança.
Uma bala foi disparada contra Vera que pegara o projétil com a mão direita em um sobrenatural reflexo. Frank aparecera apontando a arma, olhando de relance para Janice e as velas.
— Devia ter mirado na cabeça. — disse Vera.
— E mirei. Foi só um erro de cálculo. Acontece.
— Era essa pontaria que eu esperava mais cedo.
— Se você tivesse ficado no ponto exato, pode ter certeza que eu não ia errar. — retrucou Frank — É o sangue do Ethan nessa sua boca imunda, né? Sentiu saudade do seu filhote sacana? Fiz da carcaça dele carvão puro antes dele dar uma de esperto. Se quiser olhar pra se despedir, não tá muito longe daqui.
— Os dois Ethans cumpriram seus respectivos papéis. — disse Vera sem remorso — Descartei dois para obter mais dois. As velas estão se apagando uma a uma. Quando a última chama se for, ela terá o bebê, renascida como uma nova criatura. Pode ficar e assistir a vontade. Nos resolvemos quando acabar.
Vera andou para sair da casa tranquilamente, atitude que irritou Frank.
— Acha que pode virar as costas assim? — disse ele, seguindo-a — Não tá lidando com qualquer caçador, sua vadia. Sou filho do líder da operação que fez uma limpa no seu covil em 1989. Tá lembrada?
Quando Frank a tocara no ombro rudemente, Vera, enfurecida, virou o rosto horrivelmente transformado - as presas pontudas na boca que se abria alargando de cima a baixo junto aos olhos inteiramente brancos. Desferiu uma bofetada nele que o jogou contra a parede ao lado, a mão com as garras afiadas e crescidas. Frank tentou alcançar sua arma, mas Vera a chutou longe e aplicou um chute no rosto do detetive. Frank revidou com uma luminária contra o rosto dela e levantou-se, logo dando pelo menos dois socos. Mas Vera bloqueou o terceiro, passando a usar suas garras numa velocidade feroz. Frank não via abertura para defesa ou ataque, levando arranhões no rosto e nas roupas que eram sentidos como facadas profundas. Vera o chutou no peito contra a janela cujo vidro estilhaçou todo.
Outra luta acontecia atrás, a de Janice e seu sofrido parto, os gritos de força aumentando. Frank caiu sobre um barril de ferramentas de campo como enxadas, pás e foices na sacada e sentiu as costas doerem. Vera passou pela janela destruída, as garras prontas para desfigurar completamente o rosto do detetive e as presas para se banquetear do corpo.
— O que não fiz com seu pai há tantos anos, farei com você agora em justiça pelas minhas irmãs.
Frank olhou a sua direita visualizando uma foice de cabo comprido. A pegara e, empregando o máximo de força, a moveu contra Vera num golpe horizontal, soltando um urro furioso. A lâmina curva acertou em cheio a cabeça de Vera que saiu quicando e rolando enquanto o corpo soltando esguichos de sangue no pescoço decepado combalia. Arfando, Frank se reergueu, logo correndo até Janice.
Com Vera morta, supunha-se que o ritual estava cancelado. Mas Frank notara que as velas ainda se apagavam, sobrando apenas quatro. Agachou-se diante dela para realizar o dificil parto.
— Vamos, você consegue. Força. Já tô sentindo a cabeça... — disse Frank no esforço penoso — Vai! Empurra forte! Isso! — Janice impôs mais força, cercando os dentes e os olhos intensamente.
Enfim, o bebê saía num choro que alentou os corações. Frank o retirou emocionado, sorrindo para Janice que se encheu de felicidade na face.
— É um menino. — disse ele — Parabéns. E... sinto muito pelo Ethan.
— Obrigada. — disse Janice que recebeu o bebê nos braços pensando em como Ethan se sentiria vendo o próprio filho nascer, mesmo naquelas circunstâncias.
***
Frank havia novamente chamado Adrael, desta vez na intenção de discutir sobre a prece que jurava não ter feito. A dupla caminhava lado a lado pela floresta.
— Foi pra isso que me chamou? Tentar me convencer de que não ouvi você me solicitar?
— Também pra te atualizar quanto ao caso, acho que tá curioso de saber como que acabou.
— Poupe suas palavras. — disse Adrael tocando na têmpora esquerda de Frank, acessando as memórias do detetive — Fez um ato muito nobre por aquela mulher.
— Deixar ela sofrer tendo o filho sozinha é que eu não ia. Ainda mais porque era arriscado o ritual acabar antes dela dar a luz e a Boginka sair ganhando mesmo morta. Felizmente encontramos um xerife aqui perto pra levar ela no hospital. Ahn... Será que pode dar um trato na minha cara? A maldita parecia ter mãos de tesoura.
— Como quiser. — disse o anjo, passando sua mão direita brilhante sobre a face de Frank, apagando os cortes e arranhões sangrando que levariam semanas para cicatrizar.
— Te devo essa. — disse Frank tocando no rosto limpo — Consegue me fazer um tratamento estético? Uma harmonização, sabe... me deixar mais bonito...
— Anjos não operam tais milagres.
— Hahaha, tá ficando engraçadinho você hein.
De repente, ambos foram surpreendidos com a aparição de Raguel que os barrou no caminho.
— Raguel?! Veio fazer o quê aqui? — indagou Frank — Se for pra conversar em particular com o Adrael, eu posso ir...
— Não é necessário, serei breve. — disse o ofanim que se voltou a Adrael com austeridade — Não imaginou que sua infração passasse em branco, certo? Estou profundamente decepcionado.
— Eu posso explicar, cometi um engano...
— Não cometemos enganos no que diz respeito a preces e orações! Nenhum de nós, não importa a classe. Entendemos que violou o regimento por livre e espontânea vontade. Sabe que monitoramos todo e qualquer pedido de ajuda. A vida de Frank foi atentada, você o salvou, meus parabéns. Mas ele não requeriu sua intervenção, muito menos estava ciente do perigo que corria. Não me deixa outra escolha.
Frank olhava tenso para os dois seres celestiais. Subitamente, Raguel fincara a mão no peito de Adrael que soltou um grito de dor enquanto suas asas brancas e reluzentes surgiam, mas eram queimadas pena por pena. Frank afastou-se, chocado. Depois que as asas foram completamente reduzidas a pó, Adrael caiu de joelhos, rendido a punição que lhe foi imposta.
— O que você fez com ele? — indagou Frank.
— O dispensei formalmente. Lamentável, mas não posso me desobrigar em honra aos preceitos. — disse Raguel — Aproveite sua nova vida, Adrael. Pois conhecerá o fim dela mais cedo do que deveria.
O ofanim desapareceu deixando o serafim ajoelhado e impotente.
— Adrael... Tá tudo bem?
— Não. — respondeu o anjo em tom choroso.
— O que foi aquilo? Suas asas...
— Eu fui banido. — afirmou o anjo, arrasado — Meus poderes se foram.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://portal-dos-mitos.blogspot.com/2018/02/boginiki.html?m=1
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