Uma das áreas suburbanas da cidade se agitava para um evento local ansiosamente aguardado, mas organizado e financiado à margem da lei. Tratava-se do campeonato de corridas anual da zona norte cujos idealizadores nunca foram de ser intimidados por advertências policiais quanto a ilegalidade da competição e por um motivo que só tornava mais reprovável a existência dela. Uma facção criminosa em particular cuidava dos negócios escusos que mantinham as corridas intocáveis ante a repressão das autoridades, as vezes uma ameaça aqui e um suborno ali visando tornar o evento a prova de balas.
Naquela noite, ocorriam as oitavas de final na qual Chase Harrington, invicto corredor do ano, era saudado ardorosamente pela plateia quando seu carro tunado de cor preta com pintura de labaredas chamativas chegava devagar para a linha de partida ao juntar-se lado a lado com seus adversários na disputa ferrenho pelo prêmio de 50 m dólares - que por sinal era pago ao vencedor sob voto de sigilo em relação aos envolvidos que capitaneavam a empreitada com mãos de ferro sujas de sangue.
O mais pérfido rival de Chase, o marombado Russel Brand, estava a direita do rapaz com seu veículo escarlate movido a peças originais que conferiam alta performance quando o velocímetro passava dos limites aceitáveis naquela estrada tomada de assalto todas as noites marcadas para mais uma rodada. Russel virou para Chase em tom zombeteiro:
— E aí, campeão? Tá afim de sentir o gosto da poeira hoje? Abaixa a bola, idiota. Essa sua fama de imbatível tem prazo curto e eu marquei pra hoje a data de vencimento. As suas pecinhas mágicas vão ficar obsoletas num instante, fica esperto!
— Tá achando que acaba pra mim nessa altura? Fez mais um bolão daqueles? — perguntou o jovem de cabelo meio loiro e esperado — Se eu fosse você eu corria de volta pra garagem e passar um lubrificante nessa careca porque suas fãs babam mais por ela do que por seu carro.
Russel rosnou com um olhar mordaz. A voluptuosa grid girl, em curtas roupas , aproximava-se para dar início a corrida com sua bandeira em xadrez preto e branco. Enfim a largada fora dada quando ela baixara a bandeira no simbólico ato. Os veículos dispararam velozes para fazer a pista arder com os calor dos pneus em meio a vibração do público nas arquibancadas. Chase e Russel travavam sua batalha habitual, quase encostando um no outro para remover da pista com um empurrão violento. Russel acelerou mordendo os lábios no afã mais intenso do que nunca de vencer e acabar com a marra daquele deslumbrado corredor que se proclamava o melhor.
No apogeu competitivo, Chase seguia colado em Russell, porém ficando para trás numa estranha desaceleração gradual. Pisava no pedal fortemente, mas ocorria o inverso. Começava a chuta-lo.
— Tá de sacanagem comigo! Que merda tá acontecendo? Anda, droga! Não reduz, não reduz! — vociferava Chase aturdido por estar excepcionalmente atrás de tantos carros, mas nada mais humilhante do que Russell estar na frente — Não! Não! Não faz isso comigo! Você tá de tanque cheio, isso não faz nenhum sentido! Merda!
Gritava de fúria por se posicionar dentre os últimos lugares e assim permaneceu até a linha de chegada pela qual Russell cruzou triunfante, ovacionado e com uma nova reputação a zelar. Mais tarde, já madrugada, Russell estava fechando a porta da sua garagem quando de repente teve a súbita impressão de ouvir algo atrás de si. Virou-se e tomara um susto, talvez o maior que já tivera. Um par de faróis iluminou-o bruscamente fazendo ele recuar protegendo os olhos.
— Desliga essa merda, imbecil! Ou vou aí e te deito na porrada, seu...
O carro roncou alto com seu motor, aproximando-se. Russell sorriu debochado.
— Ah, deixa eu adivinhar: É a tartaruguinha que perdeu pra lebre há poucas horas.
O carro encurtou um pouco mais a distância com seu ronco agressivo.
— Foi mal, cara. Ergue a cabeça, aja como bom perdedor. Tenta a sorte ano que vem. Eu te avisei que essa sua fama ia acabar. Dito e feito, meu irmão! O que é que foi? Vai me atropelar? Te aconselho a ir chorar no colo da mamãezinha porque nunca vai chegar em casa com 50 mil pratas no bolso.
— E nem você. — disse uma voz soturna que Russell reconheceu não ser de Chase. O vitorioso daquela rodada eliminatória franziu o cenho, estranhando.
Numa arrancada abrupta e veloz, o carro de Chase avançou contra Russell que foi atropelado, logo sendo imprensado e esmagado contra a parede ao ponto de causar um jorro forte de sangue no chão.
***
Frank reservou um tempinho antes de engatar a marcha do carro em mais um dia de trabalho para contatar Hoeckler sobre o paradeiro de Adrael após duas semanas no escuro sem sinais nem notícias. Já dentro do sedã prata, telefonou para o superintendente, porém houve uma certa demora.
— Anda logo, atende a droga dessa celular, cara. — disse Frank mo limiar da impaciência. A chamada foi atendida segundos depois — Até que enfim. Fui seu despertador? Ou será que tava muito ocupado pra não me atender logo?
— Sou um homem ocupado em tempo integral. Não sou como você que deseja ficar a maior parte do dia coçando as bolas na cama dormindo que nem urso.
— Aí, pega leve hein. A gente fez as pazes, só pra constar. A não ser que você esteja arrependido de ter aceitado minha sugestão de explodir a Agnes.
— Não, minha consideração a sua ideia segue inalterada. Eu obviamente não estaria vivo caso não me alertasse daquele fantasma ou se estivesse talvez seria jogado num manicômio preso a uma camisa de força. Mantenho minha gratidão por sua ajuda, ainda que... me torture a dor de perdê-la.
— De um modo geral, a pior parte disso tudo será encarar o Zaratro, os cavaleiros e os daevas sem ela pra nos dar aquela força. Eu sinceramente não faço ideia de como a gente vai vencer essa.
— Temos os anjos, não temos? Você continua vinculado a operação, eles não vão debandar. A fé que esse Raguel tem em você será fundamental para nos manter no páreo. Se eles estão certos a seu respeito, não vejo porque nós da ESP não estarmos.
— Por falar em anjos... Eu gostaria que você fizesse uma rastreamento pra achar o Adrael. Te falei dia desses que ele foi banido, adotei ele, mas daí veio a irmãzinha safada dele com uns capachos arrancaram ele daqui pra sabe lá onde o enfiarem.
— Seu pedido já foi atendido antes mesmo de você fazer. Nosso satélite identificou alguém com a exata aparência dele há três dias em uma localização próxima da área rural. Rancho Higgins. Já ouviu falar?
— Vagamente, bem vagamente mesmo. Mas não há certeza se é de fato o Adrael. O que ele tá fazendo?
— Carregando uma pilha de lenha. A imagem não está tão nítida ou aproximada, mas a fisionomia leva a crer que seja ele, por mais que identificar um determinado homem afrodescendente e careca em solo americano via satélite seja como praticamente procurar uma agulha no palheiro. Não sei quanto a você. Posso enviar uma cópia da captura, se quiser.
— Tá legal. Vou indo nesse rancho tirar a prova.
— Mas a essa hora? Não tem que estar no DPDC?
— Ainda são sete e quinze, o Giuseppe tolera um atraso de até as nove. Privilégio de agente especial.
— Boa sorte então. — disse Hoeckler.
— Falou. — disse Frank que logo encerrou a ligação. O detetive passou a mão no rosto em preocupação excessiva com o anjo.
Frank seguiu rota diretamente ao rancho Higgins gastando aproximadamente uma hora e meia de longo percurso até a fazenda nas adjacências do território da região rural da cidade que era fronteiriça a Vanderville e Ylon. Enquanto parava o carro próximo ao cercado pintado de branco, gravava um áudio a Carrie pelo aplicativo de mensagens instantâneas.
— Avisa pro Giuseppe que vou dar as caras por aí um pouco mais tarde. Um pouco fora do limite que ele estabeleceu. Diz que passei o maior perrrengue com o carro, chamei meu mecânico de confiança, enfim você sabe bem como falar, é a mestra das desculpas esfarrapadas.
Saiu do veículo, sentindo o sol forte da manhã de céu azul queimar o seu cocuruto. Não tardou em avistar um homem negro e careca com macacão jeans por cima de uma camisa branca meio suja cortando lenha com um afiado machado. Quando ele tornou seu rosto mais visível, Frank constatou em certeza.
— Adrael. Então te transformaram num empregado de fazendeiro. Que vida boa.
Antes que o detetive desse o último passo para abrir a porta do cercado, uma presença indesejada o barrou, fazendo-o saltar para trás com susto.
— Ah não... Você de novo, não!
— O que foi? Me tornei tão feia por fora? — indagou Ethrea com as mesmas vestes humanas de quando conheceu Frank.
— Não, você até que tem uma beleza exterior a contemplar, mas por dentro, lá no fundo, você é podre.
— Acha que vou me obrigar a revelar as razões que tive pra fazer o que fiz a um simples humano tolo?
— Então você não é da turma que me acha o precioso caçador potencial.
— Todos os anjos estão de acordo com o fato de você ser o mais apto a erguer a espada sagrada. Não sou diferente de nenhum deles.
— Então por que tirou o coitado da minha casa pra viver no campo? A cidade grande é perigosa demais? Quis protege-lo é isso? Continua com esse papo furado a vontade, porque eu vou até lá e trazer ele de volta, nem que ele não queira, nem que você não queira...
— Nem que eu não queira? — indagou Ethrea, tomando proximidade de centímetros. A centuriã emitiu o brilho branco em seus olhos como um sinal de ameaça — Sabe com quem está lidando?
— Sei sim. Com uma desgraçada traiçoeira que merece ser banida e julgada pelo tribunal celestial ao invés do cara que foi seu irmão e melhor amigo. O Adrael tá nessa por engano. O lugar dele não é aqui.
— Dê mais um passo e o farei sentir uma dor excruciante. Insista depois em tira-lo daqui e eu te faço virar poeira. Não é uma força de expressão.
— Me ameaça o quanto quiser. Ele pode muito bem fugir e procurar por mim.
— Não, não pode. Não há nenhum meio pelo qual ele possa se reintroduzir na sociedade humana. Esta preso aqui, trabalhando pra um velho fazendeiro como um serviçal dedicado.
— Manipulou a mente do homem pra faze-lo aceitar o novo empregado, foi isso?
— Só precisei mexer com a mente de apenas um.
Frank logo notou o que aquilo significava.
— O que você fez com o Adrael?
— Adrael já não existe mais. Se passaram duas semanas desde que o levei. Não acha que nesse ínterim ele teria achado uma forma de escapar... se estivesse com a memória intacta? — questionou Ethrea observando o ex-parceiro angelical.
— Desgraçada... Você tá blefando. Fala pra mim... — disse Frank que agarrou a gola do sobretudo cinza dela. Em resposta, Ethrea pegara a mão do detetive e a apertou forte retirando-a. Frank grunhiu em dor.
— Essa não é o meu jeito favorito de conversar. Aposto que não tentará isso de novo.
— Não mesmo... Ai... — disse Frank sacudindo a mão direita se recompondo da dor que o fez sentir os ossos trincando — Ainda não acredito no que fez...
— Pois então dou minha permissão pra você se aproximar dele e comprovar. Meu ato foi reprovável pelos motivos que me levaram a cometê-lo, mas ainda sou pura o bastante pra não faltar com a verdade. Ou pode ir embora... e seguir em frente no seu propósito, é muito mais importante do que arriscar sua valiosa vida por um anjo infrator.
O detetive deu passos adiante, massageando a mão ainda dolorida e passando por Ethrea dando um leve empurrão nela com o ombro direito. Abriu a porta do cercado e se dirigiu ao ex-anjo que já não atendia mais pelo nome de origem. Frank se aproximou amigavelmente com um sorriso educado.
— Olá, amigo.
Adrael o mediu de cima a baixo, visivelmente não o reconhecendo. Frank se tensionou na postura.
— Você é algum tipo de detetive? Veio tratar de algum assunto em particular com o Sr. Gibbon? Se quiser eu posso ir chama-lo...
— Não, não precisa, eu só... vim ver você.
— Me ver? Mas eu nem conheço você.
Sr. Gibbon, ao longe, chamou pelo seu subalterno.
— Adrian! Venha, traga logo essa pilha, não acumule demais pra não exceder o peso!
— Preciso ir, Sr. Gibbon não gosta de esperar. — disse Adrael, ou Adrian, juntando algumas lenhas cortadas e colocando-as sobre o ombro — Não sei porque quis me ver, mas... eu não tenho nada a ver com o que quer que esteja investigando. Sou acusado de algum crime?
— Não faço ideia. — disse Frank, desalentado.
O anjo banido fez que sim lentamente com a cabeça, mantendo a seriedade habitual da sua face. Virou as costas carregando a pilha de lenhas.
— Tenha um bom dia. — disse ele indo ao encontro do fazendeiro. Frank tristemente o olhava se afastar para seguir vivendo aquela vida totalmente humana indeterminadamente. Ouviu as vozes distantes do anjo banido e do Sr. Gibbons conversando.
— Quem é aquele homem? — indagou o fazendeiro, um senhor na casa dos sessenta, gorducho, branco e cabelo grisalho comprido e amarrado em rabo de cavalo — Amigo seu?
— Não sei dizer. — respondeu Adrael.
Frank os viu desaparecem quando desceram uma parte íngreme do solo gramado, sendo logo surpreendido por Ethrea a sua esquerda.
— O que achou do Adrian? Ele te lembra alguém?
Frank, zangado, virou-se a ela pronto para ir embora.
— Vai pro inferno. — disse ele, logo andando de volta ao seu carro. Ethrea esboçou um sorriso fechado de satisfação pelo sucesso inquestionável do seu plano, completando o processo de banimento do irmão.
***
Departamento Policial de Danverous City
— Mas que... Eu nem tenho um xingamento ideal pra anjos. Que se dane: Ela é uma completa vadia traidora. — disse Carrie, expressando sua revolta frente a Frank na sala particular do amigo ao ouvir o ocorrido lamentável com Adrael — Nunca pensei que... anjos pudessem ser tão moralmente questionáveis assim, achei que estivessem isentos dessas imperfeições ao contrário de nós.
— Eu entendo, não tá entrando na sua cabeça que um anjo faria isso com seu próprio irmão. Pois é, as criaturas emplumadas e idôneas que imaginávamos antigamente podem ser tão falhas e imperfeitas quanto os humanos. — disse Frank, relaxando as costas na sua cadeira giratória, extasiado após a viagem — Não tem mais volta pro Adrael, não tem saída de emergência, ela tirou ele da jogada pra nunca mais merecer uma segunda chance.
— Isso foi... ardiloso demais vindo de um ser que deveria, em tese, ser o espelho das virtudes divinas. — disse Carrie, não contendo sua revolta — Vou até sentar porque sinceramente... — sentou-se na cadeira diante do detetive — ... tá difícil de engolir. Coitado. Mas vejamos pelo lado bom...
— Carrie, não vem com esse papo de lado bom...
— Me deixa falar. Ao menos ele ganhou uma vida renovada, se estabeleceu num lugar onde irá se adaptar com o tempo e o fato de estar sem memória talvez facilite isso.
— Tá mudando o discurso, é? Defende ela agora.
— Não, o que ela fez é injustificável, ele estava em segurança sob o seu teto, problema dela se não quis compreender isso. Foi uma atitude precipitada. Mas ele está bem, não está? Não foi levado a julgamento pra ser preso no mundo celestial. Podia ter sido pior.
— Bem, nesse ponto de vista... É, concordo. Ele tomou uma baita surra antes de ser levado, mas ao menos não sofreu represália de mais anjos lá no planeta angelical. Mas aí tem coisa, Carrie. A Ethrea não fez isso pensando somente na segurança do Adrael, coisa que provavelmente foi o segundo plano pra ela. A prioridade dizia respeito à ela e só a ela.
— Tá supondo que... ela arquitetou um estratagema de sabotagem? Uma puxada de tapete, algo assim? Mas por que?
— Não sei... — disse Frank imerso nos pensamentos, o dedo indicador esquerdo no queixo — Esse papo de segurança dela não compro nem a pau. A verdade tarda, mas sempre vem a tona, ela vai cair do cavalo.
— Nada como um caso mais simples pra deixar a mente de um caçador de alto nível mais leve. — disse a assistente, pondo a pasta com a informacoes do caso sobre a mesa — Confere aí, sei que é fã de automobilismo.
O detetive pegou a pasta, abrindo-a para ler dinamicamente folha por folha.
— Corredor de rachas ilegais encontrado morto na frente da própria casa. Causa da morte: atropelamento. Atropelado pelo quê? Um carro-monstro? Uma retroescavadeira? Olha o bagaço que ficou esse cara. Foi partido ao meio na cintura com o impacto. Pelas marcas de derrapagem analisadas pelos peritos, se nota que foi um carro tunado com pneus apropriados para suportar o atrito, sabe... pra dar aqueles drifts nas corridas e tudo mais. — disse Frank que logo passou para a próxima página – O nome dele é Russell Brand, tinha passagens pela polícia por furto, briga de bar e extorsão. Tava com a licença pra dirigir vencida desde muito tempo.
— Mas soa estranho um atropelamento nessa intensidade, mesmo pra um carro de corrida. A menos que ele pese toneladas, porque se não...
— Não sabemos a que velocidade ele tava quando engatou direto pra esmagar o infeliz na parede. Mas que inspira um mistério, ah... isso inspira sim. — disse Frank, tomando disposição com o caso e fechando a pasta.
— Adivinha aonde o suspeito principal, o dono do carro assassino, logicamente, está nesse exato momento, esperando pra soltar umas revelações. — disse Carrie levantando uma sobrancelha.
Na sala de interrogatório, Chase estava sentado com a cabeça abaixada e os braços esticados sem os pulsos algemados. Frank passou pela janela o olhando e estudando, até que entrou no recinto.
— Acorda amigo, hora de você me contar uma história. — disse Frank puxando a cadeira para sentar-se. Chase ergueu a cabeça, os olhos com bolsas devido a noite terrivelmente mal dormida — Chase Harrington, muito prazer. Frank Montgrow, agente especial, tô encarregado de resolver a tua parada. Não sei se pra te fazer ver o sol nascer redondo ou quadrado, mas... farei o que estiver ao meu alcance pra desvendar o segredo desse carro.
— Ótimo, mais um pra me crucificar, me taxar de assassino... Vai, manda bala, nada do que você disser vai me surpreender. A minha vida virou da noite pro dia de ponta a cabeça, como se não bastasse ter perdido aquela corrida, claro, porque desgraça pouca é bobagem. Alguém armou pra mim, não tenho dúvida. Eu não vou gastar minha saliva se não for pra considerar o meu álibi.
— E que álibi é esse, afinal? — indagou Frank semicerrando os olhos — Cê tá mais do que encrencado, tudo conspira pra te jogar numa cela. O carro é seu, foi visto na sua garagem com manchas de sangue do parabrisa até o parachoque dianteiro, usado como arma pra matar um adversário que ganhou de você numa corrida ilegal organizada e financiada por uma facção de narcotraficantes da pesada. Tá bom ou quer mais?
— Agora diz uma coisa que eu não sei. — retrucou Chase, petulante.
— Me diz você uma coisa que eu não sei.
— Eu não matei o Russell por vingança.
— Então por qual motivo matou?
— Eu não matei ninguém! Que inferno, eu acabei de dizer que armaram pra cima de mim!
— Tem provas de que seja armação?
— Não, mas... Como eu disse, tenho um álibi. Tá no meu celular. — disse Chase, logo retirando o celular do bolso e acessando o aplicativo de mensagens — Aqui, pega. — entregou a Frank — Pode ver pra crer. É a prova por A mais B que eu não saí com meu carro depois de voltar da pista. Vê aí o horário.
— Então você tava mesmo em casa na hora do assassinato, conversando com um amigo seu pelas mensagens. Mandou bem. — disse Frank devolvendo o celular — Mas como acha que é armação?
— É a única explicação que passa pela minha cabeça agora. — disse Chase em tom choroso, baixando a cabeça em aflição — Perdi a corrida, minha primeira derrota. Mas jamais me vingaria por isso. Nem mesmo contra um babaca feito o Russell.
Frank passou a olha-lo com menos severidade.
— Por que resolveu se meter nesse mato sem cachorro? Se filiando a uns vagabundos travados no pó pra disputar umas corridas? Dinheiro fácil pra ti?
— Dinheiro pra ajudar meus pais nas despesas. Só isso. Os fins justificam os meios. É a vida.
— Não, Chase, a vida concede múltiplas escolhas. Mesmo no desespero você tem que pensar com consciência sobre qual o melhor caminho pra resolver os problemas. Explicar isso pros seus pais com esse argumento só vai enche-los de desgosto.
O breve silêncio de Chase pareceu ter indicado que o jovem captou a mensagem como um sermão paternal para alerta-lo quanto a decisão que tomou.
— O que vai ser a partir de agora? Fico aqui me sentindo um cão aprisionado?
— O melhor nesse momento pra você é permanecer aqui, pelo menos até mais algum participante da corrida morrer. Somente assim pra você sair daqui com a ficha limpa. OK?
— O único jeito, né? Não posso fazer mais nada por mim senão esperar um outro rival meu morrer. — disse o corredor com expressão triste ao sentir-se culpado em torcer pela morte de alguém para se ver livre das acusações.
***
Durante a noite, um dos competidores, James Grass, um homem negro e careca usando jaqueta azul marinho por cima de uma camisa preta, abastecia seu carro turbinado num posto a beira de uma das principais rodovias da cidade. O veículo era um camaro verde-folha com lataria impecavelmente polida. Após retirar o bico de abastecer, James o colocou de volta no lugar e fechara a tampa no veículo.
Porém, antes que entrasse, entreviu a forma de um carro a alguns metros. A escuridão do outro lado da estrada o deixou intrigado em relação ao carro parado ali, o levando a questionar.
— Ei, se quiser encher o tanque, tá liberado aqui, parceiro. — disse James que obteve como resposta um acender súbito de faróis brancos junto a um ronco alto de motor que o estremeceu de tensão. As luzes da faróis rasgaram a escuridão e o carro começava a cabanas devagar, o barulho do motor mais agressivo aos ouvidos e intimidante — Opa... Não vem chegando assim não, amigo... Espera aí...
James entrou depressa no seu carro, logo girando a chave. Porém, o veículo misterioso acelerou numa arrancada bruta e veloz diretamente a James que sentiu o impacto violento esmagar seus ossos enquanto seu carro era perigosamente imprensado contra a bomba de combustível. O carro agressor deu a ré para uma nova colisão, mas a bomba acabou por explodir nesse instante. Por sorte, James escapou com vida do carro que foi tomado pelas chamas, mas com labaredas torturando suas costas.
Tropeçou e caiu, tentando apagar o fogo. O carro de Chase acelerou novamente, desta vez passando por cima de James como se fosse uma lombada, esmagando-o. Depois mais uma vez do outro lado. Em seguida, mais uma. Mais outra e mais outra de ambos os lados, apenas parando após James não se encontrar mais movendo um único músculo largado naquela estrada deserta. O carro partiu deixando sua vítima sem vida e com os ossos em frangalhos.
***
Departamento Policial de Danverous City
A manhã do dia seguinte tivera um início agridoce para Chase com a chegada de Frank na sua cela de detenção na qual acomodava-se numa cama de colchão branco e meio duro.
— Bom dia, flor do dia. — disse o detetive, acendendo a luz. Chase acordou incomodado com a claridade.
— Ei, não faz isso, eu tava dormindo. Que merda... Tinha que me acordar justo agora? Que horas são?
— Oito e vinte e dois. — disse Frank olhando no relógio de pulso — Trago novidades. Mas aí depende: você quer a boa ou a má notícia primeiro?
— Diz logo a má. — disse Chase, sentado na cama coçando os olhos.
— Conhecia um tal de James Grass?
— O quê? Sim, eu... O conheço, mas só de vista. Ele não dá muita bola pra mim, é mais outro que inveja meu titulo de mais rápido da competição.
— Ele morreu. — informou Frank deixando Chase atônito — Foi encontrado morto no meio duma pista perto do posto de gasolina que tava incendiando e tinha um carro detonado lá, sem dúvida era dele. Parece que ele teve os ossos esmagados por uma coisa que passou por cima dele várias vezes. Tem marcas de derrapagem idênticas
— Foi o meu carro... ou a coisa que tá hackeando ele. E a boa notícia?
— Você foi inocentado. Tá liberado pra gente ir investigar o que tá causando esse impulso assassino no teu carro. Esqueci de perguntar ontem: onde e com quem você comprou ele?
— É de segunda mão, comprei numa revendedora que também trabalha com peças pra desmontar, remontar e restaurar, transformar carros velhos em novos. Foi o caso do meu que antes pertencia ao campeão dos rachas mais lembrado aqui da cidade, Vince Donovan. Todo remontado na parte externa, mas na interna continua o mesmo. Desembolsei caro por ele, mas tinha valido a pena... até ontem a noite.
— E quem é o revendedor?
— Bart Grimmes. Te guio até a loja dele pra gente trocar uma ideia. Acho que ele sabe o que é mito e o que é verdade na vida do Vince, inclusive na morte dele.
***
Na revendedora que se assemelhava a uma concessionária, Frank e Chase seguiam pelo amplo salão de exposição dos veículos o bem-humorado Bart Grimmes, um rapaz afrodescendente de porte esbelto usando boné azul e amarelo dos Lakers e camisa listrada verde.
— E então? Gostaram das belezinhas? Se o coroa aí tiver interessado...
— Ah, eu não, tô muito satisfeito com meu sedã prateado de uns oito anos atrás. — disse Frank com simpatia — Apesar de ir pra oficina mais do que devia. — falou em voz baixa.
— Bart, não viemos fazer nenhuma compra. A gente veio tratar de um assunto pesado e urgente. — disse Chase — Ficou sabendo que o Russell e o James morreram, né?
Bart escancarou sua seriedade ao ouvir os nomes.
— Venham comigo. Lá no meu escritório.
Frank e Chase o seguiram rumo a sala organizada de Bart que fechou bem a porta antes de ir sentar a sua mesa para a delicada conversa.
— O Vince e eu éramos confidentes um do outro, meu irmão de outra mãe. Depois que ele bateu as botas, fiz um memorial em homenagem a ele aqui mesmo. Ele tinha uma lista longa de desafetos nas corridas, não tinha uma que ele participava que não rolasse uma inimizade logo de cara com adversários. Russell e James foram um desses, ambos meus clientes.
— A história da morte do Vince é tão oculta assim? — perguntou Frank sentado a direita de Chase.
— O velório foi de caixão fechado, só pra família. — contou Bart — Mas as suspeitas rolavam a solta. Overdose, mal súbito, suicídio... A que mais se ouvia era de que ele virou peneira dentro do próprio carro graças ao Maxwell e a gangue dele por uma dívida pendente. E é verdade a causa da morte. Recebi o carro dele caindo aos pedaços, crivado de tanta bala. Mantive isso em segredo entre mim e um pequeno grupo que me ajudou a restaurar.
— Alguma coisa não parece ser verdade nisso... — disse Frank, semicerrando os olhos.
— Pois é, o lance da dívida com a gangue. Poucos sabiam, mas o Maxwell e o Vince eram muito amigos, não haviam tempestades entre eles, nunca houveram. A real é que... o Vince trapaceou na sua última corrida. O cara que ele fez comer poeira alegou sabotagem. E o sujeito tinha alianças bem rápidas no gatilho. O resto vocês já sabem.
Frank deu uma olhadela para Chase cuja expressão era de choque contido.
— Bem, acho que esse seu relato foi bem esclarecedor. — disse o detetive, levantando-se. Estendeu a mão direita a Bart — Obrigado por cooperar, Bart. — o revendedor e mecânico retribuiu num aperto forte.
— Só isso mesmo? OK. Espero que pegue o assassino desses caras e limpe o nome do Vince pra ele finalmente descansar em paz. Bom te rever, Chase. Se cuida.
— Você também, Bart. — falou o corredor, apertando a mão direita do amigo.
Na saída do local, enquanto se aproximavam do sedã prata, Frank resolveu abrir o jogo de sua constatação.
— Me responde uma coisa, Chase, só pra reforçar: o motor do carro ainda é o mesmo de quando Vince disputava as corridas?
— Ahn... É sim, o Bart não viu necessidade de trocar, o estrago foi mais na lataria e nas vidraças. Por que? Afinal, por que ficou satisfeito em saber de como o Vince morreu? No que isso ajuda a entender o problema com meu carro?
Frank deu uma paradinha na caminhada.
— O Vince se tornou um espírito vingativo e como tal se prendeu ao local de sua morte.
— Espírito? Que pinoia é essa? Tá considerando a ideia de que o fantasma do Vince tá controlando o carro que era dele pra sair matando os inimigos?
— Exatamente. Chase, desculpa revelar isso apenas agora, mas minha função como detetive também envolve casos paranormais e esse é um nem típico de possessos fantasmagórica, a novidade pra mim é que se trata de um fantasma usando um meio de transporte pra cometer assassinatos. Digamos que a alma do Vince tá presa naquele carro, ou melhor, no motor que deveria ter sido substituído. Mas agora não podemos pedir isso pro Bart, ele não ia acreditar.
— Tá bom, é uma explicação bem lógica pra toda essa loucura, sem ironia. Mas como a gente vai dar um freio no meu carro... digo, no Vince? Ou, sei lá, exorcizar ele?
— Hoje a noite te mostro como se faz, prometo. Vou até sua casa e a gente conduz um bom plano que já elaborei. Agora tenho que ir até esse Maxwell.
— Quê? Tá maluco? Vai interrogar o Maxwell sobre a morte do Vince? Ele é um corredor aposentado, hoje um dos chefes da gangue, o cara que cuida das finanças e de organizar as fases da competição.
— Onde é que ele mora? — perguntou Frank sem cogitar voltar mão.
— Não, vai colocar sua vida em perigo por nada...
— Coloco minha vida em perigo todo santo dia. Ser ameaçado por vagabundos drogados é brincadeira de criança pra mim. Me fala, onde é que ele mora?
Chase mordeu os lábios numa relutância tremenda em contar, mas sabia da importância de chegar até Maxwell para favorecer a apuração investigativa.
— Não fala que fui eu, tá legal?
— Seu anonimato tá garantido. Pode falar, sem medo.
***
A localidade do temido chege do tráfico Maxwell situava-se num ferro-velho, uma casa aparentemente grande para servir como uma boca de fumo e quartel-general das operações criminosas. Frank bateu a porta, sendo atendido prontamente.
— Olá, aqui é o detetive Frank Montgrow. DPDC. — disse ele apresentando o distintivo ao homem cujos olhos vermelhos e rudes apareciam na abertura corrediça, retangular e estreita da porta — Fica relaxado que não vim dar voz de prisão a ninguém, não sou da divisão de narcóticos. Quero só tirar uma dúvida com o cara no comando sobre Vince Donovan.
— O Maxwell? Peraí, já vou avisar ele. — disse ele, logo fechando a abertura. Ouviu-se as trancas da porta sendo abertas pouco tempo depois. O homem que atendera o detetive, um homem alto de porte parrudo usando camisa regata branca, o permitia entrar — A casa é sua. Ele confia no teu papo.
— Quanta gentileza. — disse Frank, entrando.
Maxwell era um homem já na casa dos quarenta, gordo e barbudo, usando óculos escuros e boné preto de marca além da jaqueta de couro da mesma cor. Estava sendo a sua mesa com os pés em cima, fumando um cigarro suspeito.
— E então, o que um federal quer de mim pra solucionar o mistério dos caras da minha corrida que foram eliminados pra sempre?
— Vince morreu há três meses, o impacto disso ainda reverbera entre vocês que eu sei. Era grande amigo dele. Tudo que vim saber é a ordem de classificação do campeonato anterior pra confirmar uma teoria.
Maxwell dera uma baforada longa, a fumaça branca cobrindo sua face. Puxou um papel debaixo de uma pilha de vários outros e a deslizou na mesa. Frank pegara, conferindo de cima a baixo cada corredor que havia ganhado de Vince anteriormente. O primeiro deles era Russell, seguido de James... e o próximo, a terceira vítima, tinha nome de Wade.
— Quem é esse Wade?
— Outro da lista longa de rivais do Vince. Quase morreu quando o Vince deu uma bicuda na barriga dele num barzinho depois do racha. Ele tá participando da corrida atual.
— OK, era só isso mesmo. Passar bem. — disse Frank, deixando a folha na mesa. Virou-se para ir, mas logo se voltou novamente a Maxwell — Ah, avisa pros teus sócios que o Chase Harrington, o cara que comprou o carro que era do Vince, tá fora da competição. Ele desistiu mesmo depois de inocentado da acusação de matar os dois caras lá.
— Tranquilo. Menos um apelão de merda.
O detetive enfim ia embora, sendo encarado rudemente pelos comparsas tatuados de Maxwell.
***
Estavam ali dentro do sedã prata Frank e Chase em vigília ao carro possuído naquela noite. O detetive cercou o veículo tomado pelo espírito de seu antigo dono com um círculo de sal grosso do qual não sairia para praticar sua agenda assassina. Além disso, implantou uma bomba que seria detonada bastando ultrapassar um determinado limite de velocidade, caso fugisse do círculo.
— Quanto tempo isso vai levar? Já tô ficando... — disse Chase, se interrompendo ao bocejar — É, acho que tá bem óbvio. Tem um cigarrinho aí?
— Não, não fumo. E você não devia fumar também. — alertou Frank — Essa nossa vigilância vai durar o quanto for preciso. Se nada acontecer até a meia-noite, explodimos o carro. Se ele der um jeito de desfazer o círculo... explodimos o carro.
— Chega a bater uma tristeza medonha...
— Vai praticando aí o desapego. Concordou com esse plano prometendo nunca mais dirigir um carro tunado pra competir em rachas ilegais. Que tal ser motorista de táxi num carro assim? Deu certo lá na França.
— Pensando bem, nem é mais tanto assim pelo carro. — disse Chase, a cabeça baixa — Conquistei amigos nesse meio, pessoas que torciam de verdade por mim. Éramos mais que só uma turma de rachadores desimpedidos... Éramos família.
— E quantos desses amigos te ligaram quando souberam que você perdeu?
O silêncio do jovem era a resposta direta e objetiva.
— Foi o que eu pensei. — disse Frank voltando o olhar atento para o carro aprisionado. Repentinamente, uma corrente de vento forte viera arrastando inúmeras folhas — Puta merda! Era disso que eu tava falando!
— O que tá havendo? Que ventania toda é essa? — perguntou Chase, aflito — Parece que tá vindo um tornado!
— É o Vince! Ele tá louquinho pra cair fora. Olha como as luzes dos postes estão piscando! É disso que um fantasma é capaz!
— Se sabia que isso ia rolar, por que não prendeu ele na garagem?
— Ele daria um jeito. Fantasmas sempre dão um jeito de escapar. Na certa, ele faria um drift pra romper o círculo, tanto fora quanto dentro. Agora ele só tá querendo ser dramático. Usar as folhas e a poeira pra reduzir nosso campo de visão.
Após um instante, o vendaval cessou. Frank e Chase saíram do carro para verificar. Como esperado, Vince havia usado a poeira e as folhas ao seu favor para bloquear a visibilidade. O círculo de sal estava desfeito.
— Ótimo, o desgraçado deu no pé! — reclamou Frank — Mas não faz mal, a bomba resolverá tudo.
Chave notou algo na escuridão.
— Detetive, olha!
O carro de Vince ressurgia atrás deles, acendendo seus faróis como olhos de um monstro focalizando suas presas. Numa arrancada, avançou quase atropelando a dupla. Frank e Chase pularam em direções diferentes para serem impactados.
— Ele tá fugindo! — disse Chase.
— Deixa! Se ele atingir o limite, já era. O espírito do Vince tá muito cheio de vingança pra desprende-lo e purificar.
— É naquela direção... — disse Chase, nervoso — ... que fica a pista de corrida! Ele vai invadir a corrida pra sujar meu nome!
— Então vamos nessa! — disse Frank voltando depressa para seu carro junto de Chase.
Mais uma rodada competitiva se iniciava na pista do racha. Os carros velozes esquentando o asfalto loucos para cruzarem a linha de chegada. O carro de Vince se juntou aos participantes entrando na pista invasivo, quebrando as barricadas que separavam. Em seguida, veio o sedã prata de Frank, ultrapassando vários carros competidores.
— Ei, quem é você, otário? — perguntou um corredor a esquerda de Frank e Chase — Sai da pista, aqui não é lugar de caranga seminova! — insultou, dando uma risada insana e acelerando.
— Vou mostrar o quanto essa caranga aqui sabe correr! — disse Frank.
— É sério? Achei que a gente tivesse vindo pra ver o Vince explodir, não participar como dois penetras! — disse Chase, pondo o cinto de segurança.
— Relaxa, a gente alcança ele. O Vince tá doido pra vencer uma última corrida. Uma pena que ele não vai poder acelerar o bastante pra realizar esse desejo.
O carro de Vince seguia furiosamente veloz, chegando a bater em carros dos lados e conseguindo tira-los da corrida causando acidentes. Frank desviou de um que capotava na vertical, por pouco não os acertando.
— Caramba! Essa passou raspando! — disse Frank continuando nas ultrapassagens perigosas.
— Acelera, detetive! Ele tá logo ali! Se ele ver a gente passando dele, vai atingir o limite!
A linha de chegada se avistava a alguns metros. O fantasma de Vince - que era um homem na casa dos trinta, caucasiano, careca e de aspecto físico musculoso, usando uma camisa regata preta e uma corrente de prata - surgia com as mãos no volante, excitado para ganhar.
— O grande Vince Donovan venceu mais uma! Engulam essa, seus fracassados!
Porém, o velocímetro marcava a quilometragem que significava o limite estabelecido para a detonação da bomba acoplada ao motor. Vince sentiu o veículo ficar mais quente e desesperou-se.
— Não! Nããããããooo!
O carro explodiu tremendamente na pista, capotando diversas vezes, os pedaços voando pelos lados. O fogo consumiu o espírito perturbado de Vince.da cabeça aos pés. Os corredores passaram dele, ignorando o aparente acidente. Frank encostou o carro e saiu com Chase, correndo em aproximação ao veículo destruído.
— Nem precisamos correr o risco de sair na frente. — disse Frank — Cê tá legal?
— É... tô sim. — disse Chase, desanimado — Onde arranjou essa bomba?
— Cortesia do meu superintendente. Ele entende de explosivos. — disse Frank que foi para perto dele — Se anima. Encara isso como o fim de uma era. Você vai se preparar pra novos dias de glória. Acredita. Não é só por você, mas por seus pais também.
Chase olhava o carro ser devorado pelas chamas ao mesmo tempo que uma perspectiva de futuro próspero se desenhava em sua mente para uma renovação total de vida.
***
Em paralelo, numa localização específica do submundo, Zaratro, que matava as saudades de pisar naquelas terras profanas e inférteis de boas sementes, caminhada acompanhado de Lancelot, Percival e Mordred em direção à uma porta alta de pedra negra com entalhes ornamentais. O clima tempestuoso do lugar tornava o momento mais decisivo e empolgante para o bruxo. A colossal porta pertencia a uma estrutura cavernosa.
— Desculpem faze-los esperar tanto nessa travessia até aqui. — disse Zaratro aproximando-se da porta — Na verdade, vocês nem precisavam ter vindo.
— Aonde quer que o senhor vá, meu mestre, estaremos a disposição de acompanha-lo. — disse Lancelot entre seus dois irmãos.
– É sempre uma honra seguir seus passos não importa para qual lugar. — reforçou Mordred.
— Presumo que o senhor esteja ávido para retirar algo de muito valor desse recinto. — disse Percival — Será mesmo o que estou imaginando?
— O meio pelo qual vocês nasceram, meus filhos. — disse o bruxo, destrancando a porta dupla telecineticamente. As portas abriram-se rápido num som bruto, dando passagem ao interior sombrio e frígido. Zaratro entrou primeiro seguido de seus asseclas. No entanto, parou bruscamente ao perceber um erro.
— Algum problema, senhor? — indagou Lancelot.
— Não... — disse Zaratro olhando por baixo do seu manto negro o púlpito de pedra cuja parte superior estava vazia para o seu total desgosto — Não!
Enfurecido, o bruxo espalhou um pulso de energia das trevas que causou um tremor rápido, porém intenso. Aproximou-se do púlpito a passos largos.
— O deixei bem aqui! Não é possível, a fechadura está sujeita ao meu comando, sempre esteve. — disse ele, logo virando-se ao cavaleiros — Vocês tem trabalho a fazer a partir de agora. Tragam-me qualquer mínimo suspeito de ter roubado o artefato milenar com o poder mais incalculável da história da magia. Na descoberta do culpado... o farei se arrepender amargamente por tamanha audácia.
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*A imagem é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: http://romatreinamentos.com.br/farol-alto-farol-baixo-nosso-presente-e-nosso-futuro/

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