Aquela noite de boemia entre amigos terminava como todas as outras para Leonard Brockman - Lenny para os mais íntimos, incluindo a esposa -, um caminhoneiro transportador de material para uma madeireira de renome na cidade. Saía meio cambaleante do bar, rindo a toa, o álcool de níveis elevados no sangue ao ponto de torna-lo inapto a manejar um volante. Mas mesmo a percepção comprometida pela embriaguez não o impediu de avistar alguém que capturou a sua atenção.
Leonard semicerrou os olhos verdes mantendo a boca aberta em curiosidade, tomando proximidade do seu objetivo de interesse. Uma mulher de onduladas madeixas pretas trajando um vestido branco que ia até os joelhos parada de costas na beira da estrada, um pouco distante das motos e carros estacionados dos frequentadores do bar. O homem pensou em toca-la, mas deteve-se. Resolveu apenas falar.
— Ahn... Gostaria de saber o que uma moça tão bela faz parada assim tão vulnerável a beira da estrada. É perigoso, sabia? O ponto de ônibus mais próximo é lá na frente... Mas é lá que mora o perigo de verdade. Nunca se sabe o que pode sair daquele matagal.
A mulher lentamente virava-se para ele, revelando um rosto jovial caucasiano com olhos castanhos e lábios meio carnudos.
— Eu não sei pra onde ir. — disse ela.
— Mas eu sei pra onde te levar. — falou Leonard olhando-a de cima a baixo com uma malícia estampada na face — Tá afim de uma carona?
Ela sorriu em agradecimento. Leonard a acompanhou até o caminhão, ajudou-a subir e enfim deu partida para seguir até o destino que achasse melhor, uma decisão que cabia unicamente a ela, embora nao tivesse certeza de seu rumo.
— Como assim não sabe pra onde ir? — indagou Leonard, confuso enquanto dirigia — Ficou tão perdida que esqueceu o caminho de casa ou pra qualquer outro lugar que conheça?
— Eu quero que pare. — pediu ela, olhando pela janela a vegetação baixa. Leonard estranhou na hora.
— Mas a gente mal chegou na metade da estrada...
— Para agora. — insistiu ela num tom meio rude. A contragosto, Leonard encostou o caminhão, a permitindo sair sozinha. Mas desceu para questiona-la da mudança repentina, não gostando da ideia de deixar para trás o que considerava um meio de diversão descompromissada para coroar a noite.
— Qual foi? De repente ficou dura na queda. — disse Leonard, seguindo-a — Sabia que eu te achei um pitelzinho que só um maluco desperdiçaria?
A mulher prosseguiu em silêncio.
— Vamos, vem comigo, eu sei pra um lugar onde a gente pode ficar juntinho, só eu e você. Perdida daquele jeito foi um convite e tanto. Ou... podemos nos divertir aqui mesmo. — disse Leonard que logo a puxou pelo braço — Fica fria, não sou um estuprador que não liga pra nada, eu sei que você tá muito...
Ao vira-la para frente de si, tomara um susto que lhe assaltou o ar por uns segundos. O rosto antes tão contemplativo da mulher deu lugar a um que se assemelhava ao de um equino, porém morto em pleno estado avançado de decomposição com larvas tocando conta da boca e caindo ao chão. A carne putrefata tinha tons cinzas e vermelhos que realçavam sinistramente os olhos vermelhos brilhantes daquele aparente monstro travestido de mulher. Leonard fez menção de vomitar ao encarar fixamente os olhos dela de um vermelho pulsante.
Passou a vislumbrar vultos e sombras, sangue nas mãos, depois labaredas brotando nos braços até incendiarem completamente e o fogo espalhar-se ao seu fogo o fazendo sentir-se numa fornalha infernal. A mulher não cessava sua influência perturbadora naquelas visões dantescas. Isso até Leonard ter um surto de pânico e sair gritando enlouquecido, correndo em fuga do seu pesadelo palpável. A mulher dera as costas, sorrindo satisfeita com mais uma vítima que atendia ao seu propósito nefasto.
***
Tomando café em pé na sua sala de estar, Frank estava ao celular confabulando com Carrie a respeito de seu mais novo hóspede que acolheu após uma situação que poderia ser definida como um abandono de incapaz em vista de sua natureza.
— Exatamente o que você ouviu. Esse ano não tem como ficar mais doido. — disse Frank, logo bebendo mais um gole do café — Fiquei de cara na hora, totalmente travado, sem ação. Mas... depois que compreendi melhor a gravidade daquilo, veio um sentimento de pena. Não, eu não tinha o direito de fazer diferente do que fiz com o Axel. É meu amigo e amigos não merecem ficar largados a própria a sorte. Mantendo na rédea curta, ele vai se ajeitar.
— Acha sensato chama-lo de amigo? Não se viram tantas vezes pra desenvolver uma ligação. — disse Carrie em sua sala particular — Claro, com isso não tô discordando da sua boa ação.
— Ele me ajudou numas ocasiões, então faz sentido que tenhamos um laço e agora é o momento mais apropriado pra gente transformar isso numa parceria inseparável, ele vai ser a companhia de que preciso pra preencher o vazio que o Axel e o Nathan deixaram. — declarou Frank, em seguida bebendo o restinho de café na xícara até inclinar a cabeça para trás. Expirou pela boca — Em suma, tá tudo bem por aqui.
— Tem certeza disso? O tal Raguel não observa você lá da terra dos anjos? Já pensou se ele tenta coibir esse ato de caridade apenas porque fazia parte do plano dele ver um anjo banido se encaixar entre os meros mortais sozinho?
— Não, Carrie, acho que se fosse o caso ele já o teria feito, arrancado o pobre coitado daqui pra jogar na sarjeta. Fora que não dá pra esperar isso de um ofanim, uma classe teoricamente incorruptível.
— Incorruptível... Sei. O mesmo ofanim que te prendeu numa realidade falsa e desfavorável pra ensinar uma lição valorosa e ainda sofreu reprimenda do irmão. — disse Carrie, sentando-se à sua mesa e preparando seu computador.
— Isso é treta pra resolverem entre eles. Eu que não meto a colher em briga de irmãos, ainda mais sendo anjos da elite celestial. Ali fiz minha parte e acabou. O meu novo hóspede já me assegurou aqui sobre o Raguel, não tem nada na constituição angelical que impeça um anjo banido de ser adotado por um humano. Com isso, fico tranquilão. Vou desligar, senão me atraso... de novo. A gente se vê.
— Tá bom, tô te esperando e com um caso bem quentinho. — disse Carrie — Vem sem tirar o pé no acelerador.
— Se o trânsito calmo da zona leste deixar. — disse Frank com bom humor — Tchau, já tô quase saindo. — desligou, voltando-se a escada para falar em voz alta — E então? Pode ser hoje ou tá difícil? Não vai dizer que o zíper emperrou...
Eis que Adrael descia a escada devagar olhando com sua habitual seriedade para Frank que o estudou de cima a baixo. O anjo destituído trajava roupas emprestadas que pertenciam ao detetive quando mais novo: camisa de flanela azul, calças jeans meio rasgadas e botas marrons. Adrael levantou uma sobrancelha aguardando uma avaliação.
— Olha, não tá nada mal. Caiu como uma luva. Enfim, não vou bancar o esquadrão da moda com você. Anda, desce aí que eu te ensinar uma coisinhas básicas pra evitar certos acidentes.
— Frank, me permitiu a compartir de seu teto pra que eu me adapte ao mundo humano, mas está parecendo que sou uma criança inocente pra você. Não preciso ser ensinado sobre leis, direitos e deveres da sociedade humana.
— Ah, tá achando que pode se virar sozinho, bonitão? Mas não é sobre leis, direitos e deveres. É sobre as invenções tecnológicas. Só não posso te dar um curso intensivo agora porque tenho que ir pro trabalho, mas presta bem atenção. — disse Frank pegando o controle remoto que estava em cima do sofá — Tá vendo esse botãozinho vermelho? — indagou, logo apertando o botão — Viu? Ele liga essa coisa que chamamos de televisão. Pode assistir a qualquer programa que desejar mudando de canal com esses outros botões aqui. – apontou para os referidos botões com setas para esquerda e direita, apertando-os para exemplificar o funcionamento.
Um som meio grotesco rugiu da barriga de Adrael que tocou no abdômen com certo desconforto.
— Eita, é um leão que tem aí dentro? — perguntou Frank.
— Estranho, senti uma movimentação...
— São suas tripas. E isso só quer dizer uma coisa.
— Além disso, tô com uma sensação de que... preciso me prover de nutrientes, uma necessidade a ser atendida com urgência pro meu próprio sustento.
Frank semicerrou os olhos para ele.
— O nome disso é fome. É sério isso? Anjos nunca precisam comer nem mesmo beber?
— Até a idade de bebermos da água sagrada nosso único alimento são os frutos da árvore suprema que também serve pra frutificar novas vidas.
— Se entendi bem... Anjos nascem nessa árvore?
— Exato. Cada vida angelical que floresce nela é colhida por ofanins encarregados. O nascituro celestial é mais complexo do que pensa, levaria maoa tempo do que você tem agora pra que entenda. Pelo menos, o banimento não me tirou esse saber.
— Bem, o lado bom é que você poderá voltar a comer e beber, ampliando a lista de opções. Comida tem na despensa. Sabe onde fica, né? E nem pensa em se aproximar do micro-ondas ainda, quando eu chegar te mostro como se usa. Da última vez ocorreu uma tragédia com meu hóspede anterior, o Axel. Lembra dele? O cara que você salvou do veneno da cobra...
Pensando em retrospecto, Adrael lembrou-se do dia em que curou Axel do veneno inoculado pela serpente de górgona por meio da qual se permitiu levar uma mordida para adquirir poderes similares a Nero.
— Sim, eu me recordo. Onde ele está? Saiu daqui indo viver de forma independente?
O silêncio aliado a expressão séria de Frank indicaram a resposta mais direta que o anjo decifrou.
— Ahn... Entendi. Ele se foi pra sempre. Sinto muito.
— Tudo bem, eu já superei. Tenho você agora. Sou seu amigo, não vou deixar nada de mal te acontecer. — disse Frank o tocando no ombro. Adrael comprimiu os lábios, emotivo quanto aquele gesto, sentindo-se grato — Agora preciso ir. Sabe o que fazer, né? Te ensinei uma parte do bê-a-bá da vida humana, é só aplicar. Volto em torno das onze.
Adrael resolveu chama-logo após o detetive virar as costas.
— Frank. — disse ele. O detetive voltou-se ao anjo — Sou eternamente grato pelo que está fazendo. Homens bons e virtuosos.como você estão escassos neste mundo. Jamais corrompa essa essência.
— Pode deixar. Essa carne aqui é forte. — disse Frank dando uma piscadela, logo andando até porta, abrindo-a e saindo. Adrael ficou a olhar para a TV exibindo desenho animado e resolveu sentar-se no sofá com o controle em mãos.
***
Departamento Policial de Danverous City
Carrie adentrava repentinamente na sala de Frank sem bater, mas ao perceber o ato indevido, deu passos recuando e fechando a porta para em seguida pedir licença. O detetive deu uma longa expiração sentado em sua mesa.
— Quem é? — indagou ele, propositadamente a irritando.
— Vai ficar de gozação com a minha cara? Me deixa agir com educação pra anular minha entrada invasiva. — retrucou Carrie, o tom arisco. Frank dera uma risadinha sacana.
— Entra aí. — disse ele voltando-se para o monitor do computador acompanhando as últimas notícias. A assistente entrava trazendo a pasta com o caso designado ao detetive — Que foi que te deu hoje pra se esquecer de bater? Não é bronca, só perguntando.
— É aniversário do meu sobrinho hoje e tô me sentindo a pior tia da face da Terra por não descolar uma grana fácil pra presente. Você sabe como fico quando tô sob pressão, ainda mais referente a uma obrigação familiar. Eu nunca deixei de presentear ele, vai ficar super magoado se chegar lá de mãos abanando. Desculpa ter entrado daquele jeito por estar tão desesperada.
— Estourou de novo seu cartão?
— Você sempre certeiro. Dessa vez não sobrou nem pra um bolinho de padaria. — disse Carrie, deixando a pasta sobre a mesa. Deu um suspiro de desânimo — Gastei tudo que tinha priorizando minhas necessidades às vésperas do aniversário do garoto que praticamente preenche o meu vazio maternal.
— Fica fria, posso te emprestar uma graninha, o quanto precisar pra não fazer desfeita com o menino. — disse Frank prestativamente — Tava envergonhada de pedir, né?
— Sendo honesta... Eu pensei sim em te perturbar, também insegura de você não ter como ajudar.
Frank sacou sua carteira da qual tirara uma nota de 20 dólares, entregando-a para Carrie.
—Pega aí. Não tinha que ficar receosa, afinal amigos servem pra ceder um ao outro, independente do que for. Brincava de agiota com meus parceiros de caçada quase que toda bendita ocasião.
— Valeu mesmo. É o ideal pro que pretendo dar. Um colecionável daqueles que se vende nas lojas de quadrinhos. — disse ele botando a cédula dentro do vestido entre os seios — Tá tudo bem lá com seu novo filho adotivo?
— Ensinei uma aulinha básica pra aparelhos eletrônicos. Começando pela TV. Acho que ele se adapta tranquilo, talvez mais fácil que o Axel, até porque ele não veio do século passado.
— Ele não vai ficar o dia inteiro vendo televisão, vai? A menos que queira um acréscimo na conta de luz.
— Se ele ficar entediado ou resolve ir pro quarto ler uns livros que separei ou comer alguma coisa. Vai saber se virar, eu tô confiando, ele é esperto e aprende rápido. Pra resumir: tá tudo sob controle... pelo menos por enquanto. Vamos ver logo qual a bomba de hoje. — disse Frank, pegando a pasta contendo as informações anexadas do caso. Passou os olhos por cada página — O cara chegou em casa surtado porque viu uma suposta aparição fantasmagórica. Não fez justiça a ele mencionar a palavra fantasma pra conseguir ajuda. Leonard Brockman. Lenny pros íntimos, incluindo a esposa que contou ter sido surpreendida com ele voltando do bar descontrolado e tocando a maior zona dentro de casa. Na confusão ele feriu os próprios filhos, totalmente insano.
— Depois de ter sido detido e levado a interrogatório, foi submetido a exame toxicológico. Confirmaram apenas a presença de álcool. — disse Carrie — A esposa negou qualquer histórico violento contra ela ou os filhos. Mas também não é um marido exemplar. Ele disse ter dado carona pra tal mulher fantasma com intenção de sexo barato em troca.
— Até os vizinhos meteram a colher pra segurar a fera. Não é o primeiro surto psicótico após se expor a uma manifestação paranormal do qual ouço falar. Ele pode tá falando a verdade, mas acabou indo parar numa clínica psiquiátrica da zona leste com a esposa desembolsando uma grana alta pro tratamento, não só pelo surto mas também pelas alucinações que ele vem tendo e que os médicos temem eventualmente desencadear algum impulso suicida. Vou dar um pulo lá pra um papinho franco e lúcido. De doido esse cara... só tem mesmo a cara.
***
Na instituição psiquiátrica voltada para pessoas que sofrem de esquizofrenia e outras psicopatologias correlatas, Frank andava pelo corredor em busca do quarto no qual Lenny estaria confinado. Parou um enfermeiro no caminho, perguntado a respeito. O homem de camisa, calça e sapato brancos apontou para mais adiante de onde ele seguiria. O detetive o agradeceu e se dirigiu a porta indicada, marcada com o número 52. Abrira devagar, vendo a figura de Lenny se esclarecer aos seus olhos.
O homem estava sentado em sua mesa de ferro numa expressão apática visualizando o nada.
— Olá... Eu sou o detetive Montgrow, Frank Montgrow, do DPDC, fiquei no encargo de resolver o seu caso. Leonard Brockman, né? Podemos conversar?
— À vontade. Pode me chamar de Lenny. — disse ele sem desviar o olhar inexpressivo e cansado.
Frank sentou-se na cadeira diante do internado, entrelaçando seus dedos sobre a mesa.
— Lenny, quero que saiba que sua condição de saúde mental se resume a algum estresse pós-traumático.
— Veio aqui pra colher meu depoimento por quase ter matado minha familia ou ser meu psiquiatra? — questionou Lenny, enfim direcionando o olhar para Frank — É claro que não acredito que estou louco. Eu sei o que vi. Até cheguei a imaginar que alguém tivesse colocado algo na minha bebida, mas...g
Frequento aquela espelunca há anos, sou praticamente um sócio do dono.
— Por um momento achei que tivesse considerado a hipótese de ter tido uma visão irreal dessa tal mulher pra qual você deu carona.
— Não, foi tudo o mais real possível.
— E eu creio nisso. Aliás, tenho certeza. Você tá em choque, ainda muito abalado, dá pra ver no seu rosto. Não pregou o olho um minuto sequer depois que saiu da delegacia e veio parar nesse chiqueiro pra malucos.
— Olha, se eu falar demais dessa mulher-demônio...
— Disse que era um fantasma.
– Faz diferença pra você?
— Acredite, tem uma enorme diferença, não faz nem ideia do que existe de sinistro e aterrorizante lá fora só esperando incautos como você pra abocanhar.
— O que você é? Inspetor de assombrações?
— Basicamente isso. Com credencial de detetive policial fica mais fácil olhar de perto as coisas estranhas que pessoas comuns não entendem.
Lenny se inquietou um pouco.
— Não posso ajuda-lo, vou me colocar em risco.
— Você já se colocou em risco assim que sobreviveu ao ataque dessa mulher. Poderia ter te matado ali mesmo. A propósito, você alucinou logo quando olhou diretamente nos olhos dela após descerem do caminhão?
— Foi quando ela mostrou... aquele rosto medonho. — disse Lenny caindo num choro ao recordar-se da face repulsiva que vira — Eu não resisti, aquilo me entorpeceu, tomou conta de todo o meu ser.
— Que rosto exatamente era? Me descreva em detalhes. — disse Frank tirando do bolso externo do sobretudo um bloco de notas e uma caneta — Comece pela aparência de quando a conheceu.
— Ela era branca... Não, pálida, até demais. Tinha um rosto magro com maçãs salientes. Lábios finos, nariz meio arrebitado, olhos fundos castanhos e sobrancelhas finas... E os cabelos dela... — dizia Lenny, atormentado com as memórias recorrentes e persistentes da moça que arrependia-se de ter conhecido — ... eram lindos, pretos e ondulados, dava vontade de tocar... Mas de repente ela pediu pra descer. Segui ela só pra... cair na maldita armadilha.
— Ela havia mostrado a face que gerou suas alucinações, certo? Agora me descreva como era.
— Aquele belo rosto tinha desaparecido. Deu lugar a uma coisa morta. A cabeça de um cavalo em plena decomposição. E os olhos... Oh, Deus, aqueles horríveis olhos vermelhos que piscaram pra mim...
Frank notava a crescente enervação de Lenny.
— Procure se acalmar, já vamos terminar, só preciso de mais algumas informações. Que tipo de visões você teve inicialmente?
— Fogo... Por todo o meu corpo... Me sentia no próprio inferno, ardendo em chamas como um pecador que acabou de ser condenado.
— Quais outras? Ou essa se manteve até você chegar em casa e provocar a algazarra na sua casa a ponto de ameaçar a integridade da sua esposa, dos seus filhos e dos vizinhos. Lenny, olha pra mim, tenta se concentrar no agora, afastando as lembranças ruins das visões. Já passou, você sobreviveu. Logo mais esse pesadelo acaba e você retorna pra sua família.
Lenny pusera as mãos na cabeça, os cotovelos apoiados na mesa em um claro sinal de descontrole emocional. O detetive suspirou com paciência.
— Conversa comigo olho no olho, esvazia a mente de tudo que você lembra de ontem a noite. Faz um esforço. Abre os olhos. Eu sei que é difícil esquecer enquanto se fala no assunto, mas é possível controlar esse tormento psicológico, você é forte.
— Não posso, não posso fazer isso... Se eu abrir os olhos, vai começar de novo. Vai embora daqui.
— Lenny, não saio daqui até você provar que acredita na sua força interior pra combater esse mal.
— Tô te avisando, sai logo daqui, me deixa em paz.
— Tudo bem, tô vendo que é inútil insistir, você venceu. — disse Frank, levantando-se e guardando o bloco de notas e a caneta no bolso — A descrição será enviada pro reconhecimento facial, isso depois de passar pelo escrivão que fará o retrato falado. Garanto que detendo esse fantasma alucinógeno, essa sua piração vai sumir rapidinho. Falou.
No instante em que Frank viraras as costas, Lenny reabriu os olhos e os voltou ao detetive. Subitamente, do bolso da calça sacou um canivete do qual retirou uma lâmina e partira para cima de Frank por trás. O detetive tentava se desvencilhar das mãos fortes do caminhoneiro, principalmente da que estava munida da lâmina ameaçando rasgar sua garganta.
Frank o empurrou com passos para trás, ainda preso a ele, contra a parede fortemente. Segurou o braço direito que levava a lâmina e o bateu na parede, logo soltando-se. Virou para Lenny dando um soco no rosto, mas o mesmo dera-lhe uma cabeçada e tornou a ameaça-lo com a lâmina, tentando golpes rápidos que Frank desviava em recuo. O detetive o pegara pelo tronco, logo o jogando por cima da mesa que foi derrubada junto as cadeiras, ajudando a desarma-lo. Dois enfermeiros entraram correndo. Frank afastou-se para os deixarem trabalhar.
— Ele surtou comigo, com certeza alucinando outra vez. — disse Frank que sabia da resistência de Lenny em abrir os olhos estar ligada a uma nova crise, tendo ele inevitavelmente cedido. Um enfermeiro imobilizava Lenny que gritava furiosamente, os braços sendo prendidos para trás com cordas, além de uma mordaça. O outro retirava a tampa de uma seringa para aplicar o sedativo, injetando-o na artéria carótida. Frank ainda suava e ofegava vendo Lenny ter seu surto contido, estando curioso quanto ao que ele via ilusoriamente para ataca-lo daquela forma.
***
Frank decidira passar em casa para conferir nos arquivos as informações pertencentes ao tipo de fantasma que provocou as alucinações em Leonard. O rosto de cavalo decomposto havia sido o elemento-chave para constatar que o espírito possuía natureza bastante específica de modo que estivesse conectado à uma lenda urbana.
Adrael surpreendeu-se com a repentina chegada de Frank que entrou rápido, mal fechando a porta.
— Não disse que voltaria mais tarde?
— Só fazer uma checagem rápida, não vem me seguir, fica aí. — avisou o detetive, cruzando a sala a passos largos. Desceu a escada que o levava ao porão, adentrando no compartimento para ir direto ao armário de pastas organizadas alfabeticamente. Sabia que precisava puxar a que estava indicada com a letra F designada a qualquer tipo de fantasma, seja ele oriundo de um mito local ou de tipos mais convencionais. Com a luz branca-amarelada acesa sobre si, Frank folheava cada página guiando-se pelo índice. O nome Siguanaba lhe soou rapidamente familiar. E encontrou o que totalmente correspondia ao caso. Uma memória desbloqueada de imediato — Sabia que o lance da cara de cavalo era conhecido...
Frank leu tudo que seu pai escrevera acerca do fantasma da mulher vítima de homicídio pelo marido antes de orquestrar uma vingança por traição e que após a morte, desencarnada e ainda mais possessa, marcaria homens infiéis como seus alvos prediletos enganando-os com uma postura de moça perdida e desamparada, quase sempre de costas, para em seguida, quando conquistada a confiança, realizasse seu ataque com o efeito de ilusão provindo de seu rosto alterado para o de um animal morto - podendo ser de qualquer um da preferência dela - provocando a morte ou a insanidade que pudesse levar a um apogeu terminando em suicídio.
Frank retornava do porão, mais desacelerado. Reparou no que Adrael assistia na TV e deu um sorriso de canto. O anjo banido se encontrava hipnotizado com a sequência do filme que via, esta mais precisamente com várias freiras animadamente cantando "Oh Happy Day" numa igreja.
— Esse é um clássico das tardes, não perdia uma vez sequer quando passava. — disse Frank assustando Adrael que libertou-se de seu transe — Opa, tirei você do seu foco?! Foi mal, não quis ser inconveniente. Caramba, acho que te transformei num viciado.
— Frank, ainda bem que você parou pra me ver. — disse Adrael dando uma olhadela no filme e depois voltando-se ao detetive — Eu preciso te pedir um pequeno favor.
— O que você quiser, contanto que seja do meu alcance.
— Quero que me leve a uma casa sagrada.
— Tá se referindo a... uma igreja?
— Sim, esses locais em que os humanos geralmente vão para realizar preces aos anjos e ao Altíssimo. Pode fazer isso por mim?
— É claro. Vem comigo, te levo pra uma catedral bem conhecida na cidade, é basicamente a mesma coisa. Desliga a TV. — disse Frank sem soar autoritário. O anjo pegara o controle, apertando o botão certo — Isso aí. TV em excesso faz mal pra visão e estraga o cérebro, vamos nessa.
A dupla seguiu até a praça Olympus na qual situava-se a catedral de arquitetura neoclássica. Adrael olhava minuciosamente, ansioso para entrar.
— Tenho que voltar pro DPDC nesse exato momento. Posso vir te buscar daqui a uma hora e meia.
— Não tem pressa, afinal eu pretendo passar um bom tempo lá dentro... Não se pressione por mim. Venha quando estiver perto do anoitecer.
— Tudo bem. Vai lá. Pode parecer estranho, mas não seja honesto demais no confessionário, pelo menos no seu caso. Discrição e sutileza. Vai na fé.
— Obrigado, Frank. Fico lhe devendo. — disse Adrael, abrindo a porta do veículo e seguindo adiante rumo a catedral. Frank o observou satisfeito por um instante até que girou a chave dando a partida no carro, dali saindo em direção ao DPDC.
Chegando no prédio, o detetive encaminhou-se ao escrivão fornecendo as anotações com a descrição de Leonard sobre a mulher condenada a ser uma Siguanaba. Feito o retrato falado, foi até Wendel, o profissional que cuidava da tecnologia de reconhecimento facial. O resultado caiu numa mulher de origem mexicana chamada Thalía Navarro, constada como falecida no banco de dados. Era hora de Carrie cumprir seu papel.
— Aqui diz que Thalia Navarro foi uma influente advogada que frequentemente cuidava de casos conjugais, sempre na defesa das esposas ameaçadas por seus maridos violentos. — disse a assistente, os olhos fixos no monitor — E veja só: Ironicamente ela viva o mesmo drama de suas clientes ou algo parecido. A traição do marido a levou a loucura, mas ele a matou asfixiada depois de espanca-la até quebrar os ossos, se antecipando a uma vingança que provalvemente seria tão cruel quanto. Que lindo final romântico.
— E que fim levou o marido? — perguntou Frank.
— Parece óbvio, não? Foi ouvido pela polícia como suspeito número um, mas liberaram o safado por falta de provas circunstanciais que o ligassem ao crime. O desgraçado apagou cada rastro, ele "nunca" esteve na hora H. Mas... houve uma reviravolta. Adivinha só.
— Hum... Ele virou defensor da causa feminista?
— Ah, para. — disse Carrie, achando-o bobo — Foi encontrado mortinho em seu apartamento um dia depois. Agora na pesquisa da Siguanaba...
— Pois é, quanto a isso, meu pai nunca soube exatamente como acabar com ela. Talvez nenhum caçador soubesse. Como se purifica uma bomba de ectoplasma dessas que exala puro ódio e rancor?
— Matando a amante. — disse Carrie desviando o olhar da tela para ele — Não me olha assim incrédulo, é o que diz na seção de mitos latinos desse site. Fazendo isso servirá como prova para ela de que o cara se arrependeu da traição e foi redimido.
— Agora ferrou de vez. Como vou salvar a vida do Leonard ou de qualquer outro marmanjo que chifra a esposa das mãos dessa cara de cavalo? Aliás, onde é que vou arranjar uma possível vítima que concorde em matar uma amante?
***
Na catedral, Adrael estava sentado num banco em meio a vários assuntos vazios. As mãos do anjos estavam com os dedos entrelaçados sobre o encostou do banco a frente e seus olhos fechados.
— É tão difícil. — disse ele no momento em que um padre passava. O clérigo, um homem meio gordo, calvo e de barba espessa grisalha, se voltou a ele com um sorriso gentil e simpático.
— O que é tão difícil, filho?
— Pedir ajuda celestial quando se sente que a fé não é mais a mesma. — disse o anjo olhando-o meio triste — Desculpe, essa é minha primeira vez em um lugar como esse.
— Então sua fé algum dia já foi edificante e inabalável... — disse o padre sentando ao lado dele — ... e ainda assim nunca havia pisado numa igreja?
— Exato. — respondeu Adrael, retraído — Eu pareço diferente dos outros, não é?
— Talvez nem tanto. Algumas pessoas creem piamente, mas preferem a oração em seu recinto pessoal. Quando não se sentem devidamente atendidas, vêm para cá quando o desespero as deixam sem uma visão clara da luz no fim do túnel.
— Acho que entendo. Eu estou desesperado. Me sinto abandonado, largado a minha própria sorte. Como um filho rejeitado por ter sido desobediente.
— O perdão divino é concedido sem restrições para aqueles que se arrependem de seus pecados. Se fez algo que desagradou ao Senhor, terá de prestar contas, mas tão consciente quanto atormentado por sua falha, seja ela qual for. Espero tê-lo ajudado.
O padre tocara-o no ombro e levantou-se para deixa-lo a sós com sua reza. Adrael novamente fechou os olhos, pronto para enunciar uma prece.
— Aqui é Adrael, o último serafim banido. Esta mensagem deve ser atendida por todo e qualquer anjo que acredite na minha inocência, que acredite na absolvição em vista do meu sacrilégio. Estou esperando uma resposta. Por favor, quem estiver disposto a me defender, apareça e lute ao meu lado.
O anjo reabriu os olhos dos quais saíam lágrimas de culpa pelo erro cometido tão imprudentemente.
***
O cair da noite representou para Leonard a hora ideal de sua libertação contra a maldição que lhe foi imposta na forma daquelas alucinações constantes e atormentadoras. Sem que ninguém fosse perturba-lo naquele horário, o plano seguiria a risca. Amarrou um longo pedaço rasgado da coberta de sua cama numa das pás do ventilador de teto e a outra ponta envolveu no pescoço apertando em um nó firme. Conferiu a firmeza do nó no pescoço, estando a dois centímetros do chão. Sua preocupação com o próprio peso não seria problema quando já esperava que a ideia suicida fosse simplesmente favorecida.c
— Aparece, sua vadia. — dizia ele, a voz grave e arrastada — Acaba logo com isso. Sou todo seu. Vem me pegar.
Não tardou para que o ventilador ligasse e começasse a girar sem que o interruptor fosse acionado. No giro que progredia gradualmente, Leonard soltava pequenos gritos de horror ao ver a Siguamaba ali presente, ora em sua aparência bela e atraente, ora com seu rosto putrefato de cavalo com olhos vermelhos, redondos e brilhantes. O ventilador passou a girar mais depressa e as visões se confundiam num borrão. Ao passo que a velocidade chegava ao máximo, o aperto do nó se elevava no pescoço de Leonard até que ele soltava balbúcios entrecortados indicando sua asfixia irremediável.
Um enfermeiro chegara para verificar o quarto e estranhou naquela semi-escuridão a figura diante dele parecendo flutuar. Acendeu sua lanterna e tomara um susto, recuando passos horrorizado.
— Minha nossa!
Leonard encontrava-se morto, os olhos abertos fixando o nada após prolongada exposição ao terror.
A alguns quilômetros dali, Hoeckler retornava da sede da fundação ESP para a casa de Agnes em seu Fiat Palio 2018 preto. Ao dobrar para estacionar proximo ao jardim, tivera a súbita visão da Siguanaba de costas iluminada pelos faróis.
— Ei, quem é você? O que está fazendo? — perguntou Hoeckler, saindo do veículo rapidamente — Fora daqui ou irei chamar a polícia por tentativa de invasão. — ameaçou, tomando proximidade. A agarrou pelo braço, virando-a — Será que é surda? Eu disse... — mas cortara a fala ao ver a horrenda face equina lhe piscando o brilho vermelho dos olhos. A reação de espanto do superintendente do DPDC transformou-se em genuíno horror com a visão terrificante de Agnes caindo aos gritos em um poço de fogo — Agnes! — fez menção de ir salva-la, a expressão de desespero, mas em seu âmago brotou uma força de resistência contra aquela ilusão sádica.
Hoeckler fechou fechou os olhos, cerrando os dentes, e sacara um frasco de sal grosso do bolso do paletó azul marinho, logo abrindo-o e jogando o conteúdo sobre a Sigumaba que soltará um urro arrepiante ao ser repelida, desaparecendo. Reabrindo os olhos, ele se certificou de estar livre da influência, suando frio e o rosto ainda tomado pelo assombro. Entrou depressa na casa, sem acender as luzes da sala, telefonando para Frank. Foi até o quarto.
O detetive estava em seu carro estacionado perto do parque ecológico, num caminho por onde normalmente as pessoas caminhavam em exercício de corrida ou passeando com seus cães. Atendeu a chamada prontamente.
— Fala aí, que bicho pegou pra você ligar tão de inesperado?
— Frank, não importa onde você esteja agora, preciso que venha até aqui imediatamente. — disse Hoeckler andando de um lado para o outro – Situação de vida ou morte. No caso, a minha vida por um fio e a minha morte iminente. Eu vi um fantasma que apareceu de repente aqu ism frente enquanto voltava da fundação.
— Se eu puder adivinhar... Uma mulher de roupa branca que aparece de costas pra homens infiéis e depois mostra um rosto de cavalo morto provocando alucinações na sua vítima.
— Sim, exatamente! Mas espere... Homens infiéis?!
— É verdade, Hoeckler, você sem dúvidas foi alvejado pela Siguanaba, o fantasma vingativo do caso que tô cuidando agora. Se tiver pulado a cerca, ela vem pra te ensinar uma lição cujo aprendizado é a morte. Como você saiu dessa? Se bem que eu já temia que uma hora você pudesse ser atingido...
— Ah, temia? Obrigado pela preocupação. Aquela maldita me fez ver a Agnes... Ela estava caindo em uma espécie de poço repleto de fogo, parecendo uma porta do próprio inferno. Não sei se tem algo relacionado, mas no caminho recebi uma notificação informando um suicídio... — disse Hoeckler que foi até o espelho do qual viu sangue escorrer além de sangue também na sua boca e no peito encharcando sua roupa numa mancha crescente. Virou-se amedrontado.
— Suicídio de quem? Onde é que foi isso? — questionou Frank, ansioso e tenso.
— Numa clínica psiquiátrica pra pacientes psicóticos, fica na zona leste. Um homem chamado Leonard se enforcou com o lençol no ventilador de teto.
— Oh meu Deus... Ele era uma das vítimas da Siguanaba. Tava na esperança de encerrar o caso salvando a vida dele. Mas agora é sua que tá nas minhas mãos. E eu tenho uma ideia de como você pode se livrar definitivamente desse tormento. Tem visto mais ilusões depois que escapou dela?
— Joguei um pouco de sal grosso com o qual jamais saio de casa sem. — disse Hoeckler, sentado na beirada da cama — Extraí forças não sei de onde pra resistir àquele controle. Mas apesar da minha mente fortalecida, as visões não cessaram. Como se pra onde quer que eu olhasse, eu visse a morte em múltiplas formas. O que tem em mente?
— O único modo de sair dessa vivo é purificando o fantasma. — disse Frank, relutando em ser direto — Só que...
— Só que o quê? Não faça rodeios comigo, Frank, seja qual for a solução, diga logo de uma vez!
— Você tem que se desfazer da sua amante pra que o fantasma veja que você preferiu salvar seu casamento e assim encontrar a paz. E com desfazer eu quero dizer matar sem dó. Eu sinto muito.
— Não sinta. — disse Hoeckler um tanto frio — Lembre-se que era justamente o que eu pensava em fazer. Agora vem a calhar. Espero você, não demore.
Frank ligou o carro, saindo de onde estava com certa velocidade. Hoeckler pacientemente o aguardou em casa. Quando o detetive chegara, não hesitou em expor seu plano de livramento.
— Não me pergunte se quero realmente levar isso a cabo em sã consciência. — disse o superintendente — O destino parece ter atendido meu anseio.
— Tem mesmo certeza absoluta que jamais ela vai acordar?
— Frank, estou com uma maldição alucinógena que pode me levar a morte e a Agnes está praticamente morta, num coma espiritual do qual ela não garantiu que sairia. Como acha que eu me sinto numa situação dessas tendo que escolher salvar a mim e não a ela?
Um silêncio se fez entre eles por uns segundos.
— OK, não vou contestar. Não tem outro jeito. — disse Frank, determinado a colocar em prática o plano.
— Vou telefonar pra dois dos meus homens, levarem a tumba numa van até o lago do parque ecológico e providenciar uma bomba de TNT. Vem conosco pra dar cobertura?
— Mas é claro. Não vou perder a chance de encarar esse fantasma olho no olho.
Mais tarde, a van com os agentes da ESP chegava ao lago no parque deserto. Logo atrás vinha Frank no sedã prata, estacionando a poucos metros. A dupla de agentes retirou a turma com a bomba implantada internamente do comprimento da carga e levaram-na segurando um em cada lado. Frank carregou sua arma com balas de sal, ficando ao lado de Hoeckler para escuda-lo caso a Siguanaba aparecesse.
Os agentes baixaram a tumba sobre a água para deixa-la seguir seu curso devagar. Hoeckler observava a turma se afastar com aperto no peito, segurando o pequeno detonador
— Se eu não tiver vindo pra cá dar uns tiros num fantasma — disse Frank a esquerda dele —, que pelo menos eu sirva de apoio moral.
— Quer ser meu ombro amigo? Eu não dispenso.
— Não dispensa agora. Mas quando se trata de trabalho em equipe, não passo de um caçador medíocre que não tem muito a oferecer.
— Olha, Frank, sobre aquela nossa conversa...
Sendo pegos desprevenidos, os agentes foram jogados por uma força invisível, um batendo forte numa árvore e outro com a cabeça no parabrisa da van que trincou com uma mancha de sangue. Frank se preparou quando a Siguanaba enfim surgia, o ódio pulsando de seu pálido rosto. Frank avançou para enfrenta-la atirando, mas ela desaparecia se esquivando de cada bala até se aproximar e o pegar pelo pescoço, jogando-o para o lado como se fosse um boneco. O detetive rolou pelo solo, a arma tendo escapado dele. A Siguanaba mirou em Hoeckler, o agarrando pelo pescoço ao empurra-lo rápida e violentamente contra uma árvore, infligindo novas alucinações agoniantes para ali mesmo liquida-lo, mostrando sua face de cavalo decomposto.
Frank se arrastou para pegar o detonador que havia soltado da mão de Hoeckler com o ataque. O pegou, logo apertando o botão com a tumba já numa distância segura levada pela água. A explosão desencadeou intensa gerando um clarão alaranjado com a nuvem de fogo elevando-se. A face putrefata da Siguanaba se desfez, dando lugar ao rosto de Thalia, porém mais sereno e iluminado.
— Eu não esperava que fosse sacrificar sua amante em prol do seu casamento. Fiquei tão cheia de fúria que achei que nunca mais pararia de atormentar quem eu julgava impuro... quando na verdade eu estava agindo muito pior. Só tenho a agradecer por ter feito cada fragmento de vingança desaparecer em mim.
Uma centelha de luz brotou em Thalia que alçou voo para a Eternidade. Frank se levantou enquanto Hoeckler se recompunha. Os agentes já estavam reerguidos, não muito feridos.
— Belo discurso de arrependimento, né? — perguntou Frank. Hoeckler não respondeu, indo ver a tumba se distanciar em chamas no lago.
— Ela não iria acordar. — disse Hoeckler — Enquanto a carregava até a tumba, ela me falou que esse método para escapar de inimigos que jurassem de morte era eficaz por muitas bruxas não acordarem jamais. Mas ela quis encher meu coração de esperança. — fez uma pausa — Me livrei de dois fardos. Um que me mataria em breve e outro que me mataria aos poucos.
Frank o fitou com empatia, desviando o olhar para a tumba incendiada.
— De certa forma, a gente deu um funeral digno a ela.
— Mas ela nunca encontrará paz nem mesmo no pós-morte.
— É o preço que se paga pela bruxaria. — disse Frank, tocando-o no ombro — Até amanhã. — virou-se para ir embora.
— Chefe, algum problema? — indagou um dos agentes com uma ferida sangrando na cabeça.
— Não, estou bem. Já vou entrar, só mais um instante. — disse Hoeckler que não tirava os olhos da tumba em afastamento lento... e não tiraria até que ela sumisse no horizonte com o fogo consumindo-a.
***
Frank chegou assobiando em casa, satisfeito por mais um caso solucionado, embora com um sacrifício penoso. Porém, a luz do abajur foi atendida e o detetive estremeceu por dentro num susto levado com a cena surpreendente diante dele.
— Adrael... O que fizeram com ele?
Dois anjos seguravam Adrael pelos braços. O serafim banido apresentava várias feridas e hematomas sangrando no rosto.
— Frank, não se aproxime... — disse Adrael, fragilizado pelos golpes brutos que levou.
— O que fizemos? É o que acontece quando alguém tenta resistir a prisão. — disse Ethrea saindo da escuridão com um andar soberbo.
— Você!? Mas... Que putaria é essa aqui? Você chamou esses dois brutamontes pra darem uma surra no Adrael por ele ter recusado ir a julgamento?
— Ele nos chamou. — corrigiu Ethrea olhando desdenhosa para seu irmão angelical — Mas a sentença será aplicada por mim, como a nova primeira-tenente.
— Primeira-tenente? Como subiu de patente assim?
— O banimento de Adrael me elegeu a alcunha. Ele foi despachado, eu assumi o poder. E com esse poder posso interceptar qualquer prece aos meus subordinados. Ele nos trouxe até aqui.
— Me desculpe, Frank... — disse Adrael, a fala cansada — Hoje cedo na igreja... eu rezei pelos meus defensores.
— Não tem que se desculpar, você não fazia ideia que essa safada tinha tomado o comando que era pra ser seu.
— Ele só se esqueceu que podia ter feito preces a anjos banidos espalhados por aí. Ingênuo e tolo desde sempre. — Ethrea fazendo pouco caso.
— O que vão fazer com ele? — indagou Frank.
— Coloca-lo numa prisão menos confortável. — respondeu Ethrea. Frank deu dois passos adiante, revoltado.
— Vocês não vão levar ele daqui nem ferrando.
Ethrea ergueu de leve suas duas mãos pada repelir o detetive com telecinesia contra a parede e o imobilizou.
— Adrael é um problema somente meu e de toda a classe, tenho carta branca para fazer o que eu bem entender com ele. Não vou tolerar interferência de impertinentes como você. Considere-se avisado — disse ela, logo voltando-se aos anjos — Vamos.
Os anjos desapareceram com Adrael sob custódia junto a primeira-tenente, deixando Frank sozinho em desolação por perder seu hóspede daquele modo. O detetive caiu no chão após o efeito da telecinesia sumir, se encostando na parede sentado e aflito pela incerteza angustiante do destino de Adrael nas mãos de Ethrea gozando de sua nova posição.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://www.desdenicaragua.online/en/la-cegua/
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