Frank - O Caçador #100: "Feriado Prolongado"

 

San Diego


Em plena noite de Ação de Graças, a lua cheia estava a uma altura propícia para tornar seu brilho pálido mais extensivo de modo que encorajasse as criaturas bestiais por ela fortalecidas a vagarem desimpedidas na escuridão visando alvos incautos em locais diversos e facilitadores de ataques. Criaturas estas que possuíam corpos caninos de envergadura anormal e olhos totalmente escarlates tal qual o sangue que adoravam saborear a cada mordida profunda na carne de suas vítimas. 

A pacata noite de feriado havia acabado para uma dessas vítimas. Mas não qualquer vítima aleatória. A alcateia de monstros perseguia vorazmente esse alguém que possuía uma informação de grande valia a compartir. Um homem que corria sem rota de fuga pela floresta envolvida em breu e luz lunar, apenas o desejo de sobreviver em qualquer refúgio que encontrasse. Os lobos infames corriam velozes com suas patas pisando fortemente na terra com rosnados de fome e fúria, a pelagem negra reluzindo com o luar refletido. O homem, sem eira nem beira, saía da floresta, suas pernas já exaustas. 

Desceu uma parte íngreme, quase aos tropeços, com os lobos no encalço um tanto distantes. Acabou rolando até chegar ao fim, daí levantando e tornando a correr, desta vez visualizando um abrigo. Adentrou naquela loja de ferramentas jogando um caixote numa janela quebrando o vidro. O ato foi testemunhado por um xerife local que havia estacionado ali próximo. O jovem homem da lei sentiu-se na obrigação de conferir o que o invasor tinha em mente. Quem roubaria uma loja de ferramentas durante um feriado? Possível, mas improvável. Saíra do carro munido de lanterna na mão esquerda e arma na direita.

No interior do estabelecimento, o homem fugitivo procurava algum canto para se esconder, mas seu suor exalava forte apurado olfato dos perseguidores. Como que por instinto, ele parou, virando-se e olhando para cima. No teto da loja havia uma parte de vidro pela qual a luz da lua atravessava intensamente, o banhando. O rosto do desesperado homem revelou-se com aquele olhar para o alto: Steve, o único tio materno de Frank que residia no Novo México. Travou sua visão na lua cheia e seu suor aumentou, seus sentidos foram alterando-se e seus ossos começaram a contorcer aos poucos. 

A transformação inevitável ocorria. Grunhiu alto com um vermelho tomando conta dos seus olhos. O xerife entrara co ma arma em punho e a lanterna rasgando a escuridão parcial do local. 

— Sei que está aí, apareça logo. Vou tentar ser legal e garantir que não vou dar nenhum tiro de advertência se você simplesmente sair de onde estiver. Mas só se você for legal comigo também. Temos um acordo? Vamos, essa é uma loja barata. Pra quê...

A fala do xerife foi interrompida pela aparição brusca do lobisomem correndo por entre as estantes. 

— Jurava que um cara tinha entrado aqui... Ou ele foi devorado por aquele cachorro gigante. — disse ele, terrificado, indo atrás da criatura. Acertou um tiro na parede, fazendo o lobo voltar-se a ele e se aproximar — Parado! Eu disse: Parado! Meu Deus... Você é grandão pra um lobo selvagem... Recue ou eu atiro.

A imposição do xerife em nada amansou a fera a sua frente salivando por sua carne. O lobisomem rosnou feroz ao pular sobre o xerife que gritou de horror dando um tiro à esmo na hora. O estampido atraiu a alcateia que perseguia incansavelmente Steve. O bando liberado por Clyde Hopper chegava ao local, alguns transformados, outros não. Haviam chegado tarde. Encontraram uma grande poça de sangue com restos mortais do xerife como entranhas, vísceras, alguns dedos. Além disso pedaços rasgados do fardamento também foram vistos. Evidências de uma ataque lupino que denunciavam a presença de Steve. 

— É, pelo visto ele parou pra fazer uma boquinha. O miserável não deixou nem um pedaço carnudo. — disse um dos lacaios destransformados de Clyde segurando uma lanterna para clarear a cena do crime — E olha ali. Saiu por aquela janela... — iluminou a janela quebrada — O idiota tava achando que fugir de nós nessa noite de lua cheia ia ser moleza. 

— Vamos desacelerar um pouco agora. — disse Clyde, um homem de porte meio robusto na casa dos trinta, cabeça meio raspada e rosto cheio com lábios finos. Acendeu um cigarro — Ele vai nos dar um bom rastro a partir daqui. — deu uma tragada, depois uma baforada — Que tal começarem a farejar a sujeira que ele deixará pelo caminho? Mexam-se! 

Os lobos subalternos transformados correram na direção tomada por Steve recomeçando a perseguição. 

***

12 horas antes

O sedã prata de Frank avançava a toda velocidade pela estrada para chegar a tempo de assar o peru de Ação de Graças pelo qual o detetive ficou encarregado de comprar e levar até o destino pretendido, no caso a residência de sua mãe, ponto de encontro para o aguardado almoço em família do feriadão. Mas Frank não resolveu vir sozinho para uma comemoração de somente dois membros. Seu tio Steve o acompanhava entusiasmado para rever a irmã naquela ocasião tão apropriada. 

— Há quanto tempo não vem a San Diego? — perguntou Steve segurando o peru embrulhado com as duas mãos cuidadosamente.

— Eita, perdi a conta desde a última visita a mamãe. — disse Frank, as mãos firmes no volante — O bom é que vou sentir recuperando o tempo perdido com um dia inteirinho, pois nas vezes passadas eram só umas horas durante umas folgas e olhe lá. 

— Trabalhava em dias de folga!? Digo, trabalhava na sua agenda secreta como... investigador de assombrações, certo?

— É, tio, não tem um dia que eu pare de caçar as coisas terríveis que ameaçam a vida das pessoas no escuro. Mas hoje, excepcionalmente hoje, vai ter que ser diferente. Dia normal em família. Uma pena a tia Sally não poder se juntar a nós. 

— Ela continua se sentindo preterida por ser a irmã do meio. — disse Steve — É uma vitimista vocacionada. Você não teria paciência de ouvir as lamentações de histórias duvidosas que ela conta, né? Bom que você me chamou. A propósito, valeu mesmo.

— Não, eu que agradeço pelo senhor ter aceitado de bom grado meu convite. Se bem que de início pensei em trazer minha assistente, mas ela tem uma família da qual não passa um dia de Ação de Graças longe. Sabe... Eu me sentia culpado de não visitar a mamãe nos feriados. O trabalho me acorrentava. Mas aqui tô eu, dirigindo despreocupado até a casa dela sem caso sobrenatural nenhum nas costas. 

— A Heather é de uma compreensão admirável. Nunca se irritava com você quando dizia que não tinha como vê-la. Ela ficará ainda mais feliz de saber que você apareceu sem nada pra atrapalhar. Espera pelo beijinho de boa noite pra matar a saudade.

— Aí não, não tenho mais idade pra isso. — disse Frank com vontade de rir — Vamos dividir o quarto de hóspedes na mesma cama?

— Por mim tudo bem. Desde que não ronque feito um porco.

— Olha aí quem fala. — retrucou Frank dando uma olhada de soslaio para Steve — Podíamos aproveitar essa noite... pra falarmos daquilo a sós.

— Daquilo o quê? — indagou Steve olhando para o sobrinho com o cenho franzido. 

— O segredinho que o senhor não ousa contar nem pra sua própria irmã. Já sabem do meu. Temos que saber do seu também. Na minha convicção, segredos entre familiares só geram desarmonia.

— Frank, já disse e repito: é meu direito manter isso comigo. — rebateu Steve, a tensão no olhar.

— Sério, nem uma dica, pelo menos? 

— Vá por mim, melhor ficar na sua que eu fico na minha. 

— O senhor é casado? 

— Não.

— Tem disfunção erétil? 

— Não. 

— O seu bigode caiu pra nunca mais crescer e esse daí é um implante? 

— Não! — disse Steve, irritando-se com a curiosidade insaciável do sobrinho — Dá um tempo, me deixa morrer com isso. Não precisam saber. Falo sério. 

— Tá, eu parei de insistir. Só tava tentando quebrar o gelo por toda essa relutância que o senhor tem de contar. Deve ser uma coisa muito inconfessável pra querer levar pra cova. — disse Frank, erguendo a bandeira branca, fazendo uma breve pausa — A gente tá chegando, relaxa aí. Tá afim de uma musiquinha?

O carro dobrava para o limiar de uma área residencial a poucos quilômetros da casa de Heather.

***

Estavam os dois, tio e sobrinho, diante da porta da residência de aspecto bem suburbano com fachada azul e uma sacada branca. Se entreolharam. 

— Tá pronto? — perguntou Frank a Steve — Eu liguei pra ela informando só minha presença. 

— Posso me esconder e fazer uma surpresa. — disse Steve ficando próximo da parte ao lado da porta, segurando o peru. Frank cuidava de levar mantimentos numa caixa de plástico, incluindo um pernil suculento — Agora é com você. Ela vai tomar uma baita susto. 

— Só tomara que ela não tenha um infarto ao te ver. — disse Frank que logo batera na porta cinco vezes — Mãe! Sou eu, o Frank! E eu vim sozinho... — olhou de soslaio dando um joinha com um sorriso nervoso. Mas o tio lançou um olhar reprovativo por considerar a última frase arriscada para arruinar a surpresa.

A tranca da porta se abria, logo revelando a figura do outro lado. Uma mulher caucaisana que pouco aparentava ter 70 anos surgia sorridente para o filho. Tinha cabelos brancos com alguns fios pretos e um rosto magro mas de feições simpáticas com olhos castanhos. Frank sorriu de volta abertamente a ela. 

— Eu não acredito no que meus olhos veem... — disse Heather olhando o filho de cima a baixo. 

— Quem tá vivo sempre aparece, né? — disse Frank com ar risonho — E aí, tudo bem por aqui? — indagou, logo abraçando a mãe com beijinhos no rosto um do outro. 

— Melhor agora que você chegou. E entrou pro clube dos cinquenta, não foi? Acendi uma vela... rezando pra que viesse. Minhas preces foram atendidas. — disse Heather tocando no rosto de Frank com as duas mãos — Vai entrando, deixe essa caixa em cima da mesa da cozinha, já vou iniciando os preparativos.

— Às suas ordens, majestade. — falou Frank adentrando na casa bastante a vontade. 

— Você também está convidado a entrar, Steve. — disse Heather, o que fez Frank se virar estupefato com a percepção aguçada da mãe — Ou vai ficar aí tomando um ventinho? Anda logo.

— Ah, que droga, era pra ser uma surpresa daquelas. Você sendo uma estraga-prazeres como sempre, Heather. Continua a mesmíssima. — disse Steve entrando depressa.

— A surpresa era esse peru? — questionou Heather, fechando a porta. Steve fechou a cara, zangado — Sabe como sou, não perco a chance de tirar uma da sua cara sempre que posso. Nunca perde a graça.

— Caramba, mãe, como foi que notou a presença do tio Steve? 

— Você é um péssimo mentiroso, filho. — disparou ela se referindo a ele ter dito que estava sozinho. Frank fez um meneio positivo de cabeça — Acho que não mudamos quase nada de uns tempos pra cá. Me deixe cuidar dessa ave. — pegou o peru das mãos de Steve.

— É todo seu. — disse ele, sentindo as mãos doerem em virtude do peso. Frank a acompanhou levando a caixa com os alimentos até a cozinha. A deixou sobre a mesa, conforme mandado. 

— Ótimo, comecemos pelo peru, vai demorar mais pra ficar pronto do que o pernil. — disse Heather. 

— Quer um auxiliar pra dar conta de todo esse banquete pra um almoço de apenas três pessoas? — perguntou Steve a sua irmã. 

— Ah, claro, achei que nunca fosse pedir. — respondeu ela, dando uma apertadinha na bochecha do irmão — Já fico agradecida desde já. 

— Não há nada que seu irmãozão aqui não faça por você. Hoje eu não tô dando corda pra preguiça. 

— Tá aí uma cosia que não seria de ouvir todo dia. — disse Frank comendo um pãozinho encostado na despensa — Isso aí, mãe, bota ele pra pôr a mão na massa. Se fizer lambança, tá demitido.

— Que nada, serei um excelente ajudante. 

— Ações dizem mais que palavras, então comece cortando os legumes. — disse Heather pegando  uma faca no porta-facas para destrinchar o peru. 

— É pra já. — disse Steve pegando uma faca. 

— Eu bem que queria uma reuniãozinha de família, pra colocar o papo em dia, mas como tô vendo que o serviço aqui não vai ser dos mais rápidos, eu vou deixar vocês dois a sós enquanto tomo um arzinho fresco dando uma volta. — disse Frank.

— Sem problemas, filho. Seu tio e eu cuidamos de tudo aqui. Vá sair, refrescar a mente, explore San Diego. O que não falta é lugar pra conhecer.

— Valeu pelo incentivo. Acho que vou começar molhando a garganta, se é que me entendem. — disse Frank andando para sair dali. 

— Vai lá, são dez da noite em algum lugar. — disse Steve que levou uma cotovelada leve de Heather no braço — Que foi? 

— Moderação hein. — avisou Heather, o tom de ordem caracteriscamente materno. 

— Nem precisa avisar, mãe. Volto daqui a pouquinho, só umas doses pra dar energia. — disse o detetive. 

Ao longo da andança, Frank caminhava por uma calçada imaginado temeroso se alguma ocorrência sobrenatural surgiria repentinamente para desmanchar seus planos de um dia totalmente livre de monstros, sangue e tragédia. Tanto é que passou por uma lixeira perto de um poste na qual viu um jornal dobrado. Deu dois passos para trás e pegara o jornal, desdobrando-o e abrindo-o em seguida. 

Conferiu cada página, cada manchete, nada escapou ao seu olhar de busca por casos que apresentassem evidências intrigantes e sugestivamente bizarras. Para seu júbilo, nada associado a manifestações paranormais encontrou, suspirando de alívio. Colocou o jornal de volta na lixeira e seguiu adiante. 

Escolheu um bar modesto para bebericar algo que o deixasse ligado para encarar o dia, mesmo que tudo corresse plenamente distante da agitação que seu trabalho proporcionava. Ao entrar, esquadrinhou o local de interior aceitável com meias paredes de madeira - a metade superior preenchida por papéis de parede com formas losangulares verde e branco -, mesas redondas e até um alvo para atirar dardos. 

Fora até o balcão e sentou no banco alto, acenando para o barman, um homem de meia idade de porte robusto e de considerável altura. 

— Opa, me vê um uisquezinho, só pra despertar. Tem dias que o café sozinho não faz o trabalho. 

A fala fizera o barman dar uma risada enquanto pegava o copo e a garrafa. Logo, surgiu um homem ao lado de Frank, de cabelo preto meio espetado e bagunçado, barba meio espessa e usando casaco preto com camisa de flanela azul.

— Aí, vem aqui um instante, gostaria de pedir uma informação. — disse ele. Frank o ignorou por uns segundos, mas depois a curiosidade aflorou. O barman veio trazendo a bebida de Frank e se apoiou no cotovelo esquerdo para ouvir o homem que acabara de chegar.

— Vai querer alguma coisa? — perguntou o barman.

— Não vim beber nada, sou um forasteiro, viagem de trabalho. — disse o cara savando o celular e acessando a galeria de fotos — Já viu esse coroa aqui dando as caras por essas bandas? — perguntou, mostrando a foto ao barman que olhou atento aproximando o rosto com os olhos semicerrados. Curioso por natureza em todos os sentidos, Frank olhou de soslaio enquanto tomava uma gole. A foto estava bem nítida no seu campo de visão. Sentiu o engasgo assim que reconheceu a pessoa na imagem e tossiu para a sua esquerda, fazendo o barman e o homem o olharem rapidamente. Na foto claramente viu Steve saindo de uma cafeteria no Novo México.

— Desculpa, desceu tão forte que ia entrando pelo buraco errado. — disse Frank, ainda tossindo, mas dando olhadelas discretas na foto ampliada no celular. Sacou a carteira da qual retirou uma nota de um dólar — Talvez eu vá querer mais uma. 

– Não, não o conheço. Nunca vi mais gordo por aqui. — declarou o barman, fazendo que não com a cabeça. O homem o fitou com desconfiança, mas logo se retirou dali. Frank havia cravado os olhos nele até que ele saiu pela porta. O detetive virou o copo num único gole. 

— Pensando bem, vou ficar só com essa mesmo. Valeu, amigo. — disse ele, logo saindo com o ritmo de andar bem acelerado. Olhou para os dois lados na intenção de seguir o tal perseguidor do seu tio. O viu andando pela calçada a sua esquerda e partiu no encalço. Seu celular tocara naquela hora, o fazendo soltar um palavrão pesado quase que em alto e bom som no meio da rua — E aí, Carrie? Olha, vou logo dizendo que não é o momento mais tranquilo pra gente conversar. Tô caminhando aqui na rua, mas não me divertindo como planejei... Perseguindo um cara suspeito. — disse a última frase baixinho. 

Carrie estava na casa de seus pais com suas irmãs e sobrinhos, mais exatamente num corredor dos quartos. 

— Frank, a ligação tá meio instável. Disse o quê mesmo? 

— Que tô no meio de uma perseguição. Não posso falar a vontade agora. Tá me entendendo? 

A voz do detetive quando fizera a pergunta soou num tom elevado, de maneira que o tal homem se virou para verificar quem havia falado atrás. Frank agilmente se escondeu por detrás de uma cabine telefônica. Deu uma espiada cuidadosa e o rapaz estava seguindo curso, naquele instante dobrando a esquerda. Frank retomou a caminhada. 

— Carrie, na escuta? Entendeu o que eu disse?

A assistente havia ido pra sacada da casa, lá conseguindo um bom sinal. 

— Agora tô ouvindo perfeitamente. O qie diabos você tá fazendo? 

— Perseguindo um cara suspeito, ele tá caçando meu tio, tem até uma foto dele no celular. Lembra que te falei dele ter um segredo cabeludo, né? 

— Ah, o seu tio do Novo México. Sim, claro, não esqueci. A verdade uma hora sempre aparece, não tem jeito. E talvez você esteja próximo de conhecê-la. Não desgruda desse cara, seja sorrateiro. Nossa, seu tio deve estar metido numa maior roubada.

— É isso que me preocupa. Esse cara tem uma expressão mal-encarada, coisa boa não é. Tenho que desligar. Feliz Ação de Graças pra você.

— Pra você também. Toma cuidado com o que for xeretar... pode não gostar nada do vai encontrar se for fundo demais. 

— Eu tô com um pressentimento... de que não vou gostar nem um pouco. Até amanhã, falou.

Frank encerrou a ligação e apertou o passo. Ao dobrar a esquerda, viu o homem seguindo a uma certa distância. Acelerou um pouco, praticamente correndo. Após três quarteirões, o observou entrar numa localização que parecia ser uma espécie de casa de apostas como bingos, poker e etc. Adentrou, passando por um corredor de paredes de azulejos brancos. Viu por entre grades que estavam fixas no meio de uma parede um grupo de oito homens no total, contando com o que tinha acabado de voltar. 

O detetive se escondera, espiando por entre as grades cautelosamente. Ouviu o aparente líder do grupo, um homem de cabeça meio raspada e de envergadura que transmitia um ar de truculência. Aquele era Clyde Hopper que falava com seu capanga a respeito do alvo de caça. Frank tentou escutar atentamente, mas sentia que devia se aproximar mais. No entanto, ouviu algo de Clyde que não tiraria da cabeça. Três palavras que o intrigaram fortemente: coração da besta.

Mas a espionagem durou menos do que o esperado, pois um rato farejava a bota de Frank e ameaçava subir pela sua perna esquerda. Ao perceber, o detetive bateu com o pé no chão para assusta-lo. Talvez ele devesse correr como o rato que afugentou já que os membros daquela gangue de lobisomens ouvira tal barulho, movendo seus ouvidos extremamente apurados. Clyde acenou para dois capangas, sinalizando permissão para atacar. Frank retornou ao corredor, mas não pensou em sair dali tão cedo. Por uma porta ao lado veio o seleto trio de lobisomens, barrando o caminho para Frank. 

— É aqui que fazem apostas valendo boa grana? — indagou Frank, sabendo que seu fingimento não iria convence-los. 

— Não, é aqui onde um federal intrometido vai ser o nosso almoço grátis. — disse o do meio. 

— Bem que eu tava sentindo um cheirinho de carne fresca. Tá dando água na boca. — disse o da esquerda, passando a língua entre os lábios maliciosamente. Frank não viu outra saída senão avançar ousadamente contra os três dando uma espécie de grito de guerra furioso. Chutou um no peito com o pé direito e em seguida acertou os outros de ambos os lados, usando o joelho e o pé, derrubando-os. Passara por eles, mas foi caiu para frente por ter sido agarrado pela perna esquerda. Caído, virou-se para cima, sacando depressa sua arma e disparou contra o do meio na mão. A ferida do tiro exalou uma espécie de fumaça. 

— Bala de prata... — disse o atingido, raivoso — É a merda de um caçador!

— Lobisomens... — disse Frank, um tanto surpreso — Mas que porcaria! 

Disparou contra aos três, mas um deles, mais robusto, veio resistente com uma cabeçada no peito que empurrou o detetive contra a parede e acertou-o com uma cotovelada e um chute na barriga. Frank revidou com três socos de direita e atirara na perna do oponente, em seguida aplicando uma joelhada no queixo e por fim batendo a cabeça dele com bruta força na parede. Un outro se reergueu, mas o detetive virou-se, disparando mais três vezes. 

— Fica no chão! — advertiu ele que também atirou .ais três vezes contra o outro que acabara de derrubar, sem olha-lo — Bando de sarnentos. — falou, travando a arma, ciente de que vencera-os. Saiu tocando na ferida perto do olho esquerdo de onde levou a cotovelada, queixando-se de dor. 

Clyde proibiu outros de serem reforços. 

— Como não podemos ir? Não ouviu os tiros? 

— Claro que ouvi, imbecil! Sem dúvidas é um caçador, ouvi o Marlon dizer que era bala de prata. 

— Então tá dizendo pra gente amarelar pra um caçadorzinho? Ah para com isso! — reclamou outro.

— Nossa prioridade agora é o verme do Steve que deve estar aqui em San Diego. Esse miserável que nos espionou deve ter uma relação com ele. Flint disse que teve a impressão de ser seguido desde que saiu do bar, não há coincidências aqui! Deixem ele ir. É muito mais emocionante um desafio como esse pra ferver nosso sangue. — disse Clyde numa excitação por um caçador lhes servir de obstáculo.

***

Era chegada a hora da refeição para celebrar a data com a mesa pronta ao meio-dia em ponto. Heather juntaram as mãos e fecharam os olhos para agradecerem pela fartura alimentar. Após a oração, começaram a servirem-se. Steve tentava cortar uma coxa do peru enquanto Frank pegava um pedaço do pernil. Heather era de uma percepção aguçada e o filho sabia bem desse seu "dom". 

— Que machucado é esse no seu rosto, Frank? 

— Hã? O quê? — indagou Frank, a boca cheia.

— Ela tá falando desse roxo aí na sua cara, bem aqui. — disse Steve apontando para bem perto do olho.

— Ah sim... Eu, ahn... Me distraí e bati com a fuça num poste. Mas não tá doendo, já pus gelo. 

— É, eu vi você apertando a compressa bem forte. — disse Heather, bebendo do suco de laranja — Mas se distraiu? Com o quê? Você não é descuidado assim.

— Era o cadarço da minha bota que tava desamarrado, quase tropecei, daí fui de cara no poste. O que estão pensando? 

— Que isso não parece pancada acidental, tá mais pra uma bifa. — disse Steve atiçando a suspeita de Heather — Se envolveu numa briga de bar, não foi? 

— Já acabei de falar o que houve... 

— Responde a pergunta, filho. — ordenou Heather. 

Frank deu um suspirou que denotava sua irritação.

— Será que não podemos só comer em silêncio e deixar qualquer assunto chato pra lá? Sabem que não sou de me meter em encrencas... Não é, tio? 

— Por que tá perguntando pra mim? 

— Nada demais. Qual é, não posso mais perguntar nada pro senhor? — indagou Frank com uma risadinha durante a fala — Fica tranquilo. 

Após o término do almoço, Frank resolveu chamar Steve para o quarto de hóspedes enquanto Heather cuidava da louça. O detetive fez um meneio de cabeça chamando-o. Steve demonstrou certa tensão com o repentino convite para um papo em particular.

Frank fechara a porta do quarto ao entrar depois do tio. O olhou com a expressão dura e austera. 

— Por que tá me encarando assim? Só porque eu fiz uma especulação do seu hematoma? Por favor... 

— Não tem nada a ver com isso, tio. É de um lance muito mais sério que eu quero falar. O papo aqui é reto, só eu e você. Mamãe não tem que ficar a par dessa sujeira em que tá metido até o pescoço.

— Do que você tá falando, Frank? Que bicho te mordeu? 

— Que bicho mordeu o senhor, eu pergunto! 

Steve engoliu a saliva naquele instante, olhando nervosamente para o sobrinho. 

— Não quis sair do Novo México pra cair na estrada comigo apenas pra passar o feriado em família, né? Tava mesmo é afim de fugir de uma alcateia de lobisomens da pesada que te farejou até aqui! Não vem com negação pro meu lado, confessa logo. 

O tio fechou os olhos de modo choroso, o peso da culpa insustentável na consciência. 

— Eu sinto muito, Frank, sinto muito mesmo. 

— Ah, sente muito. É só isso que tem a dizer? 

— Estava tão ávido pra saber do meu segredo... que sem querer acabou encontrando. Você venceu, eu me rendo. Sou um patife que ocultou uma vida bandida esse tempo todo. Mas quero que saiba que eu não tenho nenhuma mordida. Se quiser ver...

— Tudo bem, não precisa. — disse Frank erguendo levemente a mão direita — Mas como foi que entrou pra essa corja de mosntrengos? Tinha um cara lá no bar atrás do senhor, mostrou até uma foto sua pro dono. Foto essa claramente tirada sem sua permissão. Eles andaram te espionando, né? 

— Por uma boa razão. Eu não sou totalmente confiável, até mesmo o líder cretino deles, Clyde Hopper, duvida da minha lealdade jurada sob ameaça de morte caso eu não desse o que eles queriam. 

— Seria o quê exatamente? Segui o cara até o covil e ouvi o líder deles mencionar "coração da besta". Um coração literalmente? Ou um artefato mágico? 

Com a cabeça baixa de tanta vergonha, Steve retirou uma grande mala preta de viagem que havia posto embaixo da cama pouco depois de chegar. A colocou sobre a cama, logo abrindo-a. O interior revelou o órgão vascular carnudo e crescido demais para caber num organismo humano. 

— Então é o coração de um monstro... Mas qual? 

— Já ouviu falar alguma vez... da besta da Vanderville? 

As pernas de Frank bambearam. Ouvir aquele nome lhe remontou a lembrança que mais o maltratava, a noite em que cometeu o pior ato de sua trajetória de caçador por pura ignorância. A bala disparada da arma acertando a cabeça da besta bem no centro. Logo se recordou de que saiu deixando o corpo amaldiçoado de seu pai naquele celeiro.

— Se eu já ouvi falar? Eu cacei esse monstro, o que eu mais desejava ter a cabeça empalhada na minha parede. Mas como é que isso veio parar nas suas mãos? Aliás, quem pegou o corpo da besta morta e desmembrou, dissecou e desossou? — questionou Frank aproximando-se para estudar o coração. 

— O proprietário da fazenda onde a besta foi achada morta. — respondeu Steve, temeroso — Ele se mudou pro Novo México recentemente pretendendo vender a besta em partes. Organizou um leilão presencial ao invés de ofertar cada parte do monstro no mercado negro. Eu dei o lance maior pelo coração, 300 mil dólares.

— E como o Clyde e os pulguentos dele ficaram sabendo? 

— No site do mercado negro, o dono da fazenda colocou anúncios do leilão. Eles acessam, compram inúmeras tranqueiras. No dia, eles me abordaram, fui coagido a dar o coração a eles, me forneceram a grana. 

— Mas por que cargas d'água o senhor queria a merda de um órgão morto? 

Steve emudeceu naquele instante, movendo rapidamente as pupilas em sinal de medo.

— Pra dar de presente a você. 

Frank franziu o cenho em total estranheza. 

— De presente? Pra mim? O que eu ia fazer com um pedaço grande de carne podre? 

— Você coleciona peças sobrenaturais, certo? Tem um museu onde guarda todas as bugigangas que arranja nas suas caçadas. 

— Tio, meu negócio são mais objetos místicos, tipo pedras, grimórios, armas especiais, pinturas amaldiçoadas, essas coisas. Não precisava meter o nariz nisso só pra me agradar com presentinho. Olha só no que deu. Os desgraçados chegaram aqui seguindo seu cheiro. Por que não entregou o prêmio?

— Fiquei sabendo do plano do Clyde com esse coração. Ele acredita numa lenda espalhada por bruxas, uma lenda que conta desse coração tornar um lobisomem invencível se for devorado. Por ser um coração amaldiçoado, a magia negra contida transformaria o lobisomem numa criatura ainda mais poderosa, talvez o lobisomem mais sanguinário da história. Seria um caos, fiquei com medo, imaginei um pesadelo com o poder imenso que esse coração pode dar nas mãos daquele miserável. Não me dei outra escolha senão sumir com o coração.

— O que consequentemente atraiu eles até aqui e não vão descansar até te pegarem. Encontrou no convite a brecha perfeita pra levar o coração pra bem longe deles, né? Mas tudo que conseguiu foi colocar sua própria irmã em perigo. — disse Frank, desapontado — Era pra ser um dia feliz e normal, mas graças ao senhor saiu tudo errado.

O detetive virou as costas, logo saindo do quarto deixando um arrasado Steve refletindo dolorosamente sua falha.

***

Na noite da perseguição desenfreada da alcateia de Clyde pelo coração da besta de Vanderville, Heather não saía de perto da janela a espera do irmão que disse ter saído para uma jogatina, sendo que os cassinos ou outras casas de apostas mais sofisticadas se localizavam a uma considerável distância sendo preciso pegar condução, algo que pouco apetecia a Steve. Frank veio até ela sentindo-se vendo-a afligida de preocupação.

— Acho que ele tava mesmo com uma baita vontade de apostar hoje. — disse o detetive, banhado pela Liz da lua cheia junto a mãe. 

— Não, filho, minha intuição tá dizendo que... algo aconteceu ou está acontecendo. Steve odeia pegar ônibus ou táxi pra qualquer lugar que seja. Ele não iria pra tão longe sabendo que é preciso disso pra chegar onde quer. 

Frank fitou a mãe pensando em contar do segredo do tio, mas apenas a existência do segredo. Entretanto, voltara atrás. 

— Melhor a senhora ir dormir. O tio Steve aparece no meio da madrugada, vamos ter fé nisso. 

— Não entendo essa sua tranquilidade. Sabe de algo?

— Não, só quis deixar a senhora mais calma e com esperança dele voltar. O meu desespero é contagioso, não quero transmitir pra senhora. 

— Eu pediria que fosse atrás dele, mas...

— Mãe, não vou deixar a senhora correr o risco de ficar sozinha essa noite pra sair pelo mundo procurando o tio Steve.  

— Mas eu vivo sozinha. Bem, ultimamente não tão sozinha, mas... na maior parte do tempo estou acostumada. 

— Como assim... não tão sozinha? 

Heather olhou fundo nos olhos do filho com um sorriso leve e condescendente.

— Encontrei alguém. 

Aquilo já deixava tudo as claras. 

— A senhora engatou um relacionamento? Quem é o felizardo? 

— Walter. Era pra ele ter estado conosco hoje, mas ele foi pressionado pela família que não sabe do mais novo capítulo da vida amorosa dele. 

— Vou querer saber mais desse meu padrasto hein. — disse Frank fazendo a mãe rir — Agora é melhor irmos dormir. Tio Steve vai aparecer. Do contrário, espalho cartaz de desaparecido amanhã de manhã.

— Não diga isso nem de brincadeira. — disse Heather sendo acompanhada por Frank indo para o quarto. 

***

Na manhã seguinte, com Steve não dando um mísero sinal de retorno, Frank saiu da casa da mãe para bater perna exaustivamente a procura do tio, nem que fosse rodar toda San Diego para acha-lo vivo ou morto. O detetive passou por um beco como mei ode pegar um atalho para acessar uma rua mais movimentada, porém ao dobrar a direita, quase trombou com a pessoa que vinha da direção oposta.

— Nossa! Mas... Tio Steve!? 

O irmão de Heather via-se com roupas hospitalares de paciente, mas o que fisgou mais da atenção de Frank foram as bandagens manchadas de sangue  na cabeça e nos braços, além dos machucados com curativos no rosto meio inchado e vermelho. 

— Frank! Que benção te encontrar! Não, um milagre!

— Milagre é o que a mamãe vai achar quando ver o senhor vivinho da silva depois de passar a noite mal conseguindo pregar o olho de tanto medo do senhor ser encontrado com a boca cheia de formiga pela manhã! Que foi que houve? Ah já posso adivinhar...

— Se está pensando no Clyde e sua gangue, acertou em cheio. Estive fugindo deles, mas acabei pego e tomando uma surra daquelas por estar sem o coração e ainda me recusando a dizer onde o deixei. — disse Steve, a postura afoita — Sorte que uma alma caridosa me achou largado no mato, me deu umas roupas pra ir ao hospital tratar minhas feridas e... aqui estou eu agora, sentindo ter renascido depois de ser esfolado que nem pano. 

— É, da pra ver que eles só não te mataram por você saber onde escondeu o coração. Só assim mesmo pra receber segunda chance de lobisomens. Não estavam transformados, né?

— Alguns sim, alguns não. A maioria dos que me fizeram saco de pancadas não estava. 

— Pois vamos logo voltar pra casa da mamãe, dar um basta no sofrimento dela. — disse Frank tocando no ombro do tio ao lado dele e caminhando em retorno. 

No entanto, ao chegarem, se depararam com uma bagunça estarrecedora. A sala de estar encontrava-se desarrumada, sofás virados, gavetas da estante fora e vários objetos fora do lugar. 

— Meu Deus, essa não... Mãe! — disse Frank, sentido um arrepio interno na barriga. Correu para os demais cômodos atrás de Heather, mas ela não parecia presente — Mãe? — chamou indo até a cozinha após não encontra-la nos quartos.

— Nos banheiros também não. — disse Steve, apreensivo — Frank... 

— Não precisa dizer, tá na cara. — disse o detetive que se agachou abalado, pondo as mãos na cabeça. Rosnou intensamente de raiva. 

— Se acalme, nós vamos acha-la! Podia ter sido pior. 

— O pior vai acontecer se não formos atrás desses filhos da puta! — disse Frank se reerguendo colérico — Vou provar pro Clyde que mexeu com o caçador errado! Na minha mãe monstro nenhum tem o direito de tocar!

— Veja, olhe aqui. — disse Steve apontando para a mesa de madeira na qual foi escrita uma mensagem com uma faca. Frank se inclinou ao lado do tio e leu. 

— "Se quiser ver a velhinha inteira de novo, nos encontre as nove da noite em ponto neste endereço". — disse Frank logo vendo o local onde Heather foi posta como refém — "Traga o coração da besta que a devolveremos ilesa. Caso não venham, ela vai ser cremada sem funeral." Eu vou matar esse desgraçado. 

Steve foi acometido pelo peso da culpa novamente. 

— Eu provoquei tudo isso, Frank. Por minha causa, Heather esta com eles. Fui mordido por Clyde, ele usou um poder estranho que o permite ver as lembranças a partir do sangue. Ma-mas... eu não me tornei um lobisomem, ele só me mordeu pra isso. 

Frank virou-se fuzilando o tio com o olhar. 

— Foi por causa do senhor mesmo, pelo menos reconhece a merda que fez! — disse ele dando um empurrão em Steve — Sabe o que eu devia fazer? — perguntou, empurrando-o novamente. 

— Frank, calma, por favor, você tá fora de si!

— Eu devia... — disse Frank, empurrando o tio contra a parede, logo fechando o punho direito e o erguendo com intenção de socar o rosto de Steve que fechou os olhos temendo levar o golpe. Mas o detetive conteve-se ao vê-lo atemorizado, baixando o punho. Soltou o ar pela boca — Me desculpa.

— Não, o ônus é todo meu. Devo isso a você e a Heather. Coloquei nós três em maus lençóis, e-eu... só tomei decisões ruins esse tempo todo...

— Para, tio. Não é tempo de ficar sentindo autopiedade. Eles... Eles simplesmente podiam ter pego a merda do coração, mas não... Tinham que cutucar a gente com uma pessoa amada de refém! — disse Frank, apoiando-se numa cadeira com as duas mãos.

— Eles a levaram porque... o coração não está aqui. O enterrei ontem a noite numa floresta achando que isso livraria Heather do perigo. Foi de lá que comecei a ser caçado pelo bando do Clyde. 

— Se fosse realmente esperto...devia ter feito isso muito antes, lá no Novo México! 

Steve baixou a cabeça, uma vontade de chorar consumindo-o até a alma e seu silêncio de culpado lhe fazendo sentir uma facada no peito.

— Sabe porque a história desse coração mexe tanto comigo? — perguntou Frank — Tenho uma relação mais íntima do que eu gostaria com o lance da besta.

— O que está tentando dizer? 

— Aquela besta... — disse Frank numa guerra emocional para não cair no choro — ... era meu pai. 

A perplexidade de Steve transpareceu grandemente, ele boquiabrindo-se com a revelação.

— Klaus era a besta... Mas como assim? 

— Uma maldição que atravessou a linhagem desde o meu tataravô que conheceu uma bruxa e depois a traiu, daí começando esse inferno. Meu bisavô matou a primeira besta, mas foi mordido e virou a segunda. E assim por diante. Eu só matei. 

Steve se aproximou de Frank querendo abraça-lo, mas viu que o sobrinho ainda se via num estado de profunda decepção, raiva e pressão psicológica.f

— Eu tô em choque com isso. Somos uma família de muitos segredos sombrios. 

— É, eu sei. — disse Frank olhando-o severo.

— Vai dar tudo certo. Desenterro o coração e ponho de volta na mala pra entregar diretamente ao Clyde. Frank, eu...

— Anda logo com isso, não deixa o dia passar. — disse Frank saindo da cozinha a largos passos enquanto Steve o olhava desolado com a postura que o tratara, acreditando ter quebrado a confiança do sobrinho para jamais os cacos se juntarem. 

***

Um depósito abandonado de mantimentos era o ponto de encontro onde a negociação ocorreria sem transtornos, apesar da moeda de troca estar sob constante ameaça na forma de uma bomba-relógio amarrada ao seu corpo ainda não ativada. Heather transparecia uma calmaria de resiliência com o aparelho explosivo colado a ela que estava sentada numa cadeira de braços com os pulsos atados neles. A lua cheia e sua luz invadiam o amplo local. 

Clube sorriu infame ao ver aqueles dois homens se aproximarem, focando especialmente no mais velho, caucasiano, de bigode meio ruivo e gordinho usando camisa amarelo claro. Frank trazia a mala contendo o coração da besta de Vanderville, os olhos fixados já mãe. O detetive acenou para ela com a cabeça e ela retribuíra num sorriso sereno que parecia lhe transmitir o otimismo de que tudo terminaria bem. 

Um lacaio de Clyde veio até eles para receber a mala.

— Bem-vindo de volta, Steve. — disse Clyde dando uma piscadela — Saudades minhas? 

— Muitas. — ironizou Steve, forçando um sorriso. 

— Toma aí. — disse Frank entregando a mala. O subalterno de Clyde abrira-a, confirmando a presença do órgão conforme o acordado — Agora tirem aquele troço da minha mãe antes que eu saque minha arma pra fazer cada um de vocês saírem daqui com o furico cheio de bala. Você deve ser o Clyde, né? 

— Muito prazer,  caçador, quase nos conhecemos hoje mais cedo. — disse ele, andando devagar.

— É Frank Montgrow. Faz parte do processo o monstro conhecer o nome do caçador que vai matar ele. 

— Você vai me matar? Que pena. — disse Clyde que mostrou o controle da bomba e apertou o botão de ligar. A contagem regressiva se iniciou no visor — Logo que estávamos nos conhecendo bem. Não gosto de ser intimidado por gente da sua categoria.

— Filho da... 

— Frank, espera. Não devia ter provocado ele. — disse Steve, alarmado — Clyde é traiçoeiro. Acho que sei o que ele quer ameaçando assim a vida da Heather. 

— Fico feliz que tenha percebido. — disse Clyde. 

— Desliga a merda dessa bomba, Clyde! Ninguém precisa morrer aqui, nós entregamos o coração, fizemos nossa parte, agora é a sua vez. 

— Travo a contagem se... me emprestar o seu amigo por uns tempos. Me entregando ele, sua mamãezinha tem uma chance de sair crua, a menos que saiba desarmar uma bomba. Pega ou larga? 

Steve olhara Frank tristemente, dando passos até Clyde, decidindo uma rota da encruzilhada. 

— Tio, não... Tá jogando a vida do senhor fora. 

— Se eu recusar, vou estar jogando a vida da Heather fora. — disse Steve se pondo ao lado de Clyde — Sinto muito. Eu quero que saiba que sempre vou amar vocês dois. Frank, sempre te vi como o filho que queria ter tido. Mas o seu tiozão aqui embarcou numa furada. E... não foi totalmente honesto. 

Heather ouvia atentamente, as lágrimas descendo com a ansiedade de saber o que o irmão diria.

— Eu fui mordido. — contou Steve, entristecido — Mas não apenas ontem a noite. Tive o azar de ser escolhido por eles pra dar o lance maior pelo coração. Eu não daria ele somente, mas minha vida, minha própria humanidade. Frank, eu espero que... 

— Tio, se poupa aí nas palavras. Eu... já sabia. 

— O quê? Ma-mas... 

— Quando o senhor contou pra mim da mordida telepática que o Clyde deu em você, saquei na hora. Humanos não sofrem com essa técnica, ela funciona apenas entre os lobisomens. Era esse o segredo que tentava manter trancado a sete chaves.

Perplexo, Steve baixou o olhar, não muito mais seguro de sua escolha quanto antes. 

— Lamento, Clyde. Mas não quero voltar a uma vida que deixei pra trás assim que decidi sair com meu sobrinho pra visitar minha irmã. Nada vem antes da minha família, nem sua ambição doentia! 

— Ah, então é assim? O cachorrinho não quer mais voltar pra casinha? — perguntou Clyde, irritando-se. Dera um empurrão em Steve, derrubando-o — Então pode ir com o rabo entre as pernas... pro inferno. Acabem com a raça desse traíra miserável!

Três dos capangas de Clyde vieram até Steve aplicar a surra que estavam se coçando para repetir. Frank sacou a arma, disparando neles, mas outros dois vieram por trás agarra-lo. O detetive se desvencilhou com cotovelas, virando-se para atirar, mas resistiram aos tiros iniciando um embate corporal. Os três lobos que foram interceptados se transformavam, suas roupas rasgando e seus corpos grotescamente assumindo fisionomia lupina sob a luz da lua. 

Steve socou o que segurava a mala, a tomando. 

— Idiota! Era pra ter caído fora logo! — disse Clyde, levantando o capanga — Vai lá, dá um jeito no caçador, eu cuido dele. 

Frank atirava em dois e chutava outro para repelir. Esses lobos transformavam-se soltando rugidos guturais. 

— Essa não, a coisa tá pra complicar feio... — disse Frank, temendo não dar conta de todo aquele grupo — Puta merda! 

— Frank, fuja depressa! — pediu Heather.

— Não sem a senhora! Tio, cuidado aí! Não larga dessa mala! 

— A reunião de família vai acabar logo logo. — disse Clyde estralando os dedos num aquecimento — Você vai me dar esse coração nem que eu precise arrancar o seu! Ou quer que eu exploda a velha com todos nós juntos? Decide aí, Steve! 

— Nessa vida, nunca fui muito bom em tomar decisões. Mas pra tudo tem uma primeira vez. 

Num ato que soava impulsivo, Steve abria a mala e pegara o coração, logo dando uma mordida voraz. 

— Não! — vociferou Clyde, colérico. Steve recuava comendo mais pedaços, virando de costas — Vou te fazer se arrepender disso, desgraçado! — avançou para cair em cima dele, seus olhos ficando vermelhos inteiramente. Porém, o corpo de Steve sofria uma rápida metamorfose num crescimento descomunal, a pele acinzentando e as garras se alongando. Antes que Clyde caísse sobre ele, baixou sua mão esquerda fechada e o esmagou brutalmente ao chão. Clyde foi espatifado como uma barata, o sangue se esparramando no piso. 

— Caramba... Tio! — chamou Frank, terrificado com a forma que ele adquiriu ao devorar o coração amaldiçoado. Os lobos que cercaram Frank viram a sombra enorme daquela montanha de músculos cujo rosto ocultava-se na escuridão parcial e se disparavam. Mas não por tempo suficiente para sobreviverem. A besta lupina pegara cada lobos e os matava com uma brutalidade visceral. Chegou a pegar um e esmagar a cabeça na parede, outro que chutou forte até faze-lo voar contra uma janela e outro que pegara pela cauda antes que fugisse e arrancou-lhe a espinha dorsal, depois o jogando como uma carcaça invertebrada. 

Frank atirou para o alto a fim de chamar-lhe a atenção, mas sem sucesso. 

— Tio, aqui, olha pra mim! Sou eu, o Frank!

No entanto, o tio que admirava estava adormecido no inconsciente irracional daquela fera carniceira e desenfreada. O monstro mirou em Heather que se debulhava em lágrimas pelo estado do irmão. Frank atirava nele acertando braços, pernas e tórax, mas ele seguia imparável, prestes a matar Heather com o dorso de sua mão direita. O detetive tivera um súbito flashback. A reprise da traumática noite. A bala que disparou contra a besta de Vanderville. Do momento em que se descobriu ser seu pai ali jazendo morto. 

O último tiro. A bala derradeira teve sua trajetória percorrida diretamente ao centro da cabeça e a atravessou deixando um expressivo buraco. Frank olhou consternado o tio cair em falência vital. Heather boquiabria-se, atônita. O detetive pegou o controle da bomba largado no chão e a contagem cessou enquanto o corpo de Steve retornava ao normal. 

— Frank... — disse Heather, sentindo que iria infartar — O Steve... 

O detetive agachou-se diante da mãe, retirando a bomba. A olhou fundo nos olhos em uma expressão de puro pesar. Transbordou em lágrimas e abraçou-a forte. 

— Me perdoa. — dizia Frank repetidas vezes intercaladas por soluços. 

— Não havia outro jeito. — disse Heather que logo fixou a visão no corpo do irmão e compartilhou o choro de luto com o filho naquele pesaroso abraço que durou vários minutos. 

***

A manhã seguinte havia iniciado gélida com uma bruma passageira durante o funeral de Stece no qual apenas Frank e Heather compareceram naquele cemitério associado ao plano funerário em que a mãe de Frank incluiu todos os membros atualmente vivos da família. Um sol ameno se fazia nos minutos finais para o último adeus. O detetive e sua mãe olhavam a lápide acima do túmulo com os dizeres "Amado irmão e tio". 

— Sabe, mãe... Se tem uma coisa que detesto sentir... é pena. — disse Frank, seguindo de coração partido pela perda devastadora que se forçou a ocasionar — O tio Steve não tinha um amigo sequer pra acompanhar o funeral dele. Ele só tinha a nós e a si mesmo pra se motivar a continuar vivendo aquela vida sem muitas responsabilidades. 

— Ele já havia sido um homem de propósito. — disse Heather, o semblante abatido — Mas após a morte da esposa, nunca mais foi o mesmo. Ele seguiu em frente. Destruído por dentro, mas seguiu. 

— E a gente deve seguir da mesma forma. Porque é isso que a morte obriga a fazer pra quem fica. 

Heather pegara na mão esquerda de Frank e inclinou sua cabeça ao ombro do filho. 

— Me diz que ele não foi embora sem o seu perdão. — disse Frank, controlando a emoção. Heather fechou os olhos por um breve instante. 

— Se Klaus, que se envolveu com outra mulher e ainda teve um filho com ela, partiu pro outro lado com todos os seus erros e pecados perdoados... Por que tratar diferente com Steve? 

— Nossa família é amaldiçoada. Nada de próspero vem com essa vida que meu pai e todos que vieram antes foram ensinados a levar. 

— Então por qual razão ainda continua nela? Sabe que eu nunca quis isso pra você. Tenho que confessar: uma parte dos meus sonhos pra você morreu quando saiu por aquela porta pra procurar seu pai... — disse Heather, a voz adquirindo um tom choroso. Enxugou uma lágrima.

— Olha, não fica remoendo isso, tá bom? Quanto ao legado da família... Eu entrei nessa pra morrer honrando esse papel, por mais caro que seja o preço a pagar. E paguei de novo ontem. Não tive escolha. Era a senhora ou ele. O destino reacendeu essa culpa no meu coração. Mas é o fardo que escolhi carregar.

— Não fique assim. — disse Heather tocando carinhosamente no rosto do filho — Steve está orgulhoso pela sua coragem de tomar aquela decisão. Ele está em paz, finalmente. 

— Não, mãe. — disse Frank, os olhos marejando — Ele não tá. Não existe paz após a morte pra um monstro.

Um carro preto parava próximo a entrada do cemitério buzinando. Heather olhou para trás. 

— Está na minha hora, filho. Lembra que te falei sobre ter encontrado alguém? 

— É ele ali? O tal do Walter? 

— Sim. Me convidou a passar o dia com ele pra aliviar a dor. Não quer conhecê-lo? 

— Vou deixar passar. Quem sabe numa próxima. Vai lá, se cuida. Só fico mais uns minutinhos aqui e depois pego a estrada pra ir direto ao trabalho. 

— Tudo bem. Saiba que, apesar dessa vida sombria e tortuosa, sinto muito orgulho de você. Te amo. 

— Também amo a senhora. 

Heather deu um fraco sorriso, logo virando-se para caminhar em direção ao novo amor que encontrou. Frank chegou a pensar em colocar as cartas na mesa sobre o destino final do pai, mas decidiu que a ignorância da mãe seria poupa-la de mais sofrimento. Agachou-se e tocou na lápide de Steve.

— Obrigado por tudo, tio.

Uma presença distinta foi sentida, logo atrás dele. O detetive olhou por cima do ombro. Era Ernest em sua forma espiritual observando seu grande amigo. 

— Ernest... — disse Frank, ficando de pé. O ex-diretor do DPDC se pôs ao lado dele, a direita. 

— Quanto mais você terá que perder pra cair em si? — questionou Ernest — Não vale a pena. 

— A chance que eu tinha de rejeitar isso passou... e não volta mais. Prometi que seria até o fim e vou cumprir. Ser caçador é essa viagem louca de se perder e se encontrar. Só termina quando a vida quer.

Ernest fez um meneio lento e positivo de cabeça. 

— Meus pêsames. — disse ele tocando Frank no ombro. 

Em algum momento, Steve atravessava um beco escuro e sem saída. No fim da linha, uma porta querendo se abrir com uma brecha deixando uma luz vermelha sair. Ele ouviu sons arrepiantes e recuou. A porta se abriu bruscamente, A luz escarlate intensa. Steve tropeçou, caindo para trás, ainda recuando.

— Não... Não... Quem é você? Fique longe de mim! 

Viu algo avançar contra ele, o arrastando para o outro lado. O grito de Steve ecoou no beco até o fechar súbito da porta sem que houvesse mais nenhuma réstia da infame luz. 

                                               XXXX

*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

Comentários