Frank - O Caçador #99: "Questão de Perspectiva"

 

A noite de gala reservada para o aniversário do prestigiado magnata Devon Landy reunia figurões da mais alta estirpe dos ricaços de Danverous City em um número de convidados exorbitante dentro daquela mansão na qual o centro das atenções residia com sua esposa, Pamela, que ainda se aprontava na maquiagem. Mulher na casa dos quarenta - mais precisamente 45 - e com uma autoestima inspiradora, Pamela ansiava mais do que nunca ser vista como a mais elegante na festança para que seu marido sentisse orgulho da rainha que escolheu ter ao lado para dividir o império. 


A maquiagem que passava era oriunda de uma linha de cosméticos naturais que seus desafetos jamais deveriam ter conhecimento. Desafetos esses que a viram sair do banheiro com seus belos cabelos com mechas em luzes que balançavam ao andar e riam escarniantes no corredor. Pamela bufou virando o rosto ao ver aquela dupla de serpentes humanas. Tentou ignorar ao passar reto por elas de cabeça erguida, mas uma delas, que trajava vestido vermelho cintilante e tinha um penteado elegante para seus cabelos castanhos, a chamou após notar algo que a deixou curiosa.

— Pamela, de maquiagem nova? 

A mulher do magnata parou sem querer voltar-se as duas implicantes. Mas logo mudara seu pensamento ao acreditar que permanecer naquela postura sinalizava insegurança. Pamela virou-se a elas. 

— Sim, algum problema? Não que eu queira compartilhar minha receita secreta para estar com oestou hoje, só quero prestar cortesia as minhas ilustres convidadas, dentro dos limites, claro.

Ambas recuaram ao verem o rosto de Pamela, não reagindo com uma surpresa que denotava fascínio. 

— Melhor você não dizer mesmo de onde vem, do que é feita ou de quem você comprou essa... essa... — dizia a outra, loira de batom vermelho vibrante, que usava vestido preto, com horror estampado na face — ... pintura facial pra Halloween.

— Íamos pro banheiro retocar a nossa, mas talvez seja melhor vomitar. — insultou a de vestido vermelho com horror expressado. 

— Cresçam vocês duas. Falar que estou horrível em plena festa de aniversário do meu marido é fácil pra duas jararacas feito vocês. Desculpem, façam um bom curso de artes cênicas pra melhorarem.

— Não estamos fingindo! — retrucou a loira querendo aparentemente abarcar com a amiga ao lado em afastamento — Você tá mesmo horrível! 

— Verdade. Não se olhou no espelho direito? Acha que vai ser aplaudida se juntando aos demais com um rosto horrendo desses? E o seu marido? O que ele vai pensar? "Nossa, meu Deus, estive casado com um monstro esse tempo inteiro!". — disse a outra. 

Pamela instintivamente tocava no rosto, sentida com os comentários, mas logo tratou de recompor-se. 

— Vocês... não podem estar falando sério. Eu estou... Eu estou linda. 

— Se eu fosse você... voltaria pro banheiro e tirava esse lixo do rosto. Dessa vez falo como... uma amiga. — disse a de vestido vermelho com seriedade e tensão — Jenna, vamos. — pegara na mão da cúmplice e saíram as duas do corredor quase que as pressas. Intrigada e desesperada, Pamela correu em retorno ao banheiro. Se pôs frente ao espelho. 

— O que há de errado? Nada! Estou deslumbrante! Linda de morrer... 

De repente sentiu a pele dos braços esquentar e arder numa intensidade progressiva até fumaçar. Ficou de costas ao espelho, sua face exatamente como vista pelas rivais: a pele deteriorada como a de um zumbi em tons marrons, verdes e vermelhos. 

— Me sinto ótima com meu rosto. — disse ela que logo sentiu o ardor aumentar — Nossa, mas que calor... queimando minha pele... — olhou para os braços cuja pele começou a descascar rapidamente em tiras que caíam ao chão — Minha pele! 

Ela ders gritos de horror que foram ouvidos por Devon que vinha pelo corredor e apertou o passo. 

— Pamela! — chamou em voz alta — O que houve? Jenna e Mabel disseram que estava com problemas. 
 
O magnata passou a correr com o aumento dos gritos que tornavam-se de dor, não somente mais de horror e espanto. Mas Pamela havia trancado a porta. Devon forçou a maçaneta insistentemente. 

— Abra, por favor! Pamela! — gritava, dando batidas com a mão aberta. Ao perceber que Pamela parara de emitir gritos histéricos de terror, decidiu arrombar. Deu um chute forte na porta que a abriu ligeiro.

Encontrou a esposa caída, mas em um estado que o fez levar a mão direita a boca tamanho sei abalo com o que via. Na sua expressão o mais puro pânico. Recuou desajeitado batendo o quadril na pia. 

— Meu Deus... Pamela! 

A esposa jazia morta com uma aparência literalmente cadavérica similar à de uma múmia, os ossos queimados e amarelados e o rosto em caveira com mandíbula aberta após a morte em agonia.

***

Frank dera uma última espreguiçada antes de entrar no seu sedã prata na garagem onde atrás dele haviam equipamentos e halteres para exercícios físicos que realizava quando tinha tempo disponível. Abriu a porta do veículo quando o celular tocara. Vendo se tratar de Carrie, atendeu prontamente. 

— Calma que já tô de saída, não precisa elaborar desculpa pro Giuseppe não ficar uma arara comigo. — falou o detetive entrando no carro, logo fechando a porta — Impressão minha ou você tá acompanhada Reunião de emergência sem me esperar?

— Bom dia pra você também, Frank. Calma que não liguei pra te apressar. E sim, tô acompanhada. Aliás, muito bem acompanhada.

— Então não é reunião. Tá fazendo o quê? Não tá na sua sala? 

— Antes de mais nada, desculpa não te avisar de antemão logo cedo. Mas a notícia é boa: ganhamos folga em dose tripla. Giuseppe teve que fazer uns exames de rotina, dar uma olhadinha no colesterol, na glicemia, na visão, talvez na próstata... 

— Peraí, hoje é sexta, né? Não parece sério um negócio desses. O Giuseppe nos dar folga por um fim de semana inteirinho?! Por causa da própria saúde? 

— Segundo ele, excedemos a carga-horária nos últimos meses que, convenhamos, foram bem intensos no nosso lombo, apesar dos supervilões das trevas não terem dado mais um mísero sinal de vida... ou de morte. Falando nisso, não tem achado esse silêncio todo no mínimo esquisito? 

— O Hoeckler me disse que os daevas ainda seguem transitando na cidade, inclusive os que assumiram as formas dos membros do CDS. Pena ele não poder mandar uma equipe lá pra bombardear os desgraçados com as granadas de luz sem que depois as manchetes noticiem um atentado terrorista contra os ilibados conselheiros. O Zaratro é que tomou chá de sumiço com os três mosqueteiros do mal. Tem angu nesse caroço, algum plano cabuloso sendo armado na surdina, mas sabe-se lá em qual surdina.

— Vamos só esperar, por mais que isso me traga um mau pressentimento. E nada do Adrael? 

Frank baixou um pouco a cabeça em desalento. 

— O Adrael já era. Melhor deixar ele em paz naquele rancho, nessa nova identidade, nessa nova vida... Já tenho problemas com demônios, daevas e cavaleiros mortos-vivos, não tô nem um pouco afim de afrontar com anjos que vão pegar no meu pé se eu mover uma palha pra arrancar o desmemoriado de lá.

— Deixa como tá mesmo. Essa tal de Ethrea parece uma leoa pra não se cutucar com vara curta. Enfim, boa folga pra você. Nem pensa em sair por aí atrás de sarna pra se coçar, sabe do que tô falando.

— Tarde demais. Meu alvo tá travado na mira. Onde é que você tá mesmo? Em casa não é, você mal recebe visitas.

— Na casa de uma amiga dondoca que é a anfitriã pra mim e outra amiga tão abastada quanto. Portanto, não conte comigo hoje pra garimpar lendas na internet. Se vira com o que quer que você tenha encontrado. Ah, desculpa, tenho que desligar, já estão me chamando pra voltarmos a experimentar os produtos cosméticos incríveis que elas compraram, tem virado uma febre no bairro. Perfumes, hidratantes, maquiagens, cremes... E o que é melhor: tudo de origem natural. Não é demais? 

Ao ouvir tal informação, Frank fazia que sim com a cabeça, mas pouco interessado no assunto.

— Então você acordou com todo o gás pra curtir a folga com suas amigas de sangue azul falando sobre coisas de mulheres, que bom, aproveita ao máximo do seu jeito que eu vou aproveitar do meu.

— Esqueci de perguntar se a vendedora tem itens masculinos. Uma loção de barbear, tintura pra grisar os cabelos ou... 

— Não, Carrie, tô de boa. Mas você não tá nem um tiquinho curiosa pra saber que caso pesquei pra hoje? 

— Conhece meu ponto fraco. Desembucha. 

— Não sei se ficou sabendo, mas... Pamela Landy, figura pública muito respeitada, esposa de um dos maiores bilionários da Califórnia... foi encontrada morta ontem a noite no banheiro da própria mansão, em plena festa de aniversário do marido. De uma linda mulher foi reduzida a uma múmia que parece ter caído da tumba depois de milhares de anos. Haviam pedaços de pele no local. Ela se descascou até os ossos do nada. O marido tá abalado demais pra conceder entrevista pra mídia e depoimento pra polícia. Mas pra mim eu sei que ele vai abrir o bico. 

— Meu Deus... Não vi no noticiário a tempo antes de sair. Que tragédia. Tem certeza de que não quer uma folga menos trabalhosa? É fim de semana, não se desgasta a toa. Procura se divertir.

— Meu trabalho também é minha diversão, de certa forma. Olha, vou indo nessa, torcendo pro viúvo ainda estar em casa pra interrogatório. A gente se fala. 

— Tá legal, vejo você mais tarde. Ou passa por aqui. A mansão Landy fica a algumas quadras de onde tô. Vou ficar até o finalzinho da tarde. Te mando o endereço via SMS. Tchau, tchau. 

A assistente desligou apressada, levando Frank a estranhar o comportamento ao afastar o celular do ouvido esquerdo. Com a ligação encerrada, dera a partida no carro após apertar o botão do controle da porta da garagem que subia em lenta abertura.

***

Na mansão Landy, Frank fora atendido pelo magnata para uma conversa direta e objetiva, atendendo a expectativa do detetive quanto à receptividade. Ambos se sentaram nos estofados pretos na sala de aspecto minimalista.

— Antes de mais nada, quero dizer que... sinto muito pela sua perda. — disse Frank diante do viúvo que trajava um roupão preto-azulado — Acha que ela foi uma vítima de assassinato? O que supõe ter causado aquela reação tão brutal no corpo dela?

— Detetive, eu espero, do fundo do meu coração, que eu não passe por insano, não culpe o luto por isso. — disse Devon jogado no sofá com expressão abatida — Por mais absurdo que pareça, tenho que dizer.

— Pois então diga, não existe nada tão absurdo que eu não possa tratar como normal. Sabe como é, né? Vivemos em Danverous City, muitos fatos estranhos acontecem. A morte da sua esposa é só mais um nessa lista negra que nunca para de crescer. 

Devon baixara a cabeça para reunir forças, as mãos juntas com dedos entrelaçados sobre a barriga. 

— Pamela ultimamente vinha se deslumbrando com produtos de beleza, cosméticos vendidos por uma senhora que bateu palmas no nosso portão. Sensível como ela é, não iria ignorar uma velhinha de aparência dócil e meio frágil. Passaram dias, essa senhora voltou. Pamela comprou mais produtos. Eu só vi a velhinha depois que Pamela começou a agir de forma obcecada, numa compulsão por adquirir mais daqueles perfumes e cremes antirrugas... Não simpatizei nada com ela. Parecia... uma bruxa. Encarei rude e ela me encarou de volta, bem séria. — contou Devon, lutando para não cair em prantos — O tanto que eu alertei... Se eu tivesse ido mais além... mais rígido, mais atencioso, mais cuidador, mais... 

— Olha, não se sinta responsável pela morte da sua esposa, nada disso foi culpa sua. Mulheres são assim mesmo, ficam atraídas por esses produtos e sempre querem comprar mais e mais, é normal. Pelo menos até esse ponto é. Mas você disse que ela tava obcecada. Não parecia agir como de costume? 

— Aquela senhora virou a cabeça da Pamela, ela não foi mais a mesma desde o maldito dia em que aquela bruxa escolheu nossa casa pra vender suas porcarias. Pamela caiu no conto da vigarista sobre aquele monte de lixo ter vindo de fontes naturais. 

— Você não jogou tudo fora, né? — perguntou Frank expressando interesse em analisar um produto.

— Estive pensando em fazer isso hoje de manhã, depois do funeral, mas aí o senhor chegou... 

— Ótimo, me dê, sei lá, um perfume, creme, qualquer coisa pra colher uma amostra e depois examinar a composição de ponta a ponta. 

— Aqui um. — disse Devon retirando do bolso do roupão um frasco de perfume que era um líquido verde claro — A polícia passou por aqui, cogitei ceder tudo a eles, começando por esse daí, mas mudei de ideia. O senhor me passa confiança, detetive. Sinto que a resolução do mistério está em boas mãos. É um detetive prioritário, se está no ramo há muitos anos é porque tem competência atestada.

— Não tenha dúvidas disso. Muito obrigado, Devon. — disse Frank, destacando o frasco, logo dando um aperto de mãos no magnata que atribuía-lhe a exclusividade investigativa. 

Na saída, Frank caminhava pela rua até seu sedã prata estacionado a poucos metros dali. Quando ia atravessar a faixa de pedestres, olhou para sua direita avistando uma senhora usando um manto preto que cobria sua cabeça. Ela saía de uma casa de fachada requintada, agradecendo a quem a atendera. Trazia consigo uma cesta com várias coisas dentro. O detetive resolveu seguir pela direção oposta a dela, tomado por uma suspeita afiada. 

Fingiu olhar as horas no relógio de pulso rolex para esbarrar "acidentalmente" na velhinha. A intenção se concretizou: a cesta foi derrubada com o choque, deixando cair tudo que havia dentro. E o que havia dentro não fez sobrar nenhum fiapo de dúvida. 

— Nossa, me desculpa, fui um desastrado. — disse Frank, agachando-se para recolher todos aqueles perfumes, hidratantes, cremes, batons etc — Tava com a cabeça em outro mundo olhando as horas.

— Não se afobe, acidentes acontecem. — disse a velhinha, também apanhando suas mercadorias e pondo na cesta ao mesmo tempo que Frank — Eu o agradeço imensamente. Homens gentis como você estão raros neste mundo. 

— Todo mundo fala que sou especial. — disse Frank com uma risadinha — Prontinho. — pusera o último item na cesta. Mas por um instante fitou a velhinha, olhos nos olhos, um contato visual analítico e profundo. O detetive encarou brevemente os olhos azuis daquele rosto amarelado e bastante enrugado com algumas mechas de cabelos brancos aparecendo por sobre o manto. A velhinha sorrira com seus dentes meio tortos.

— Estão certos a seu respeito. — disse ela, logo virando-se para retomar seu rumo. Frank permaneceu sério a observa-la ir, sentindo que teve todas as camadas de sua alma lidas por aqueles olhos penetrantes e, sem dúvida, místicos. 

***

Retornando a sua casa, Frank tivera a ideia de pegar seu velho microscópio que guardava como uma singela lembrança dos tempos do colégio de quando ganhou como prêmio da feira de ciências na qual conquistou o terceiro lugar. O tirou de uma caixa de papelão meio amassada no guarda-roupa e levou para a cozinha, pondo-o sobre a mesa, ainda lembrando de como se manuseia. Soprou a poeira dos oculares e se preparou para analisar a composição do perfume com uma única gota. Mas não sem antes cortar um pedacinho superficial de sua pele, mais precisamente do antebraço direito, com uma faca menor. 

Colocou o pedaço de pele sobre a platina, em seguida pingando a gota da fragrância. Girou o botão macrométrico para ajustar o foco, usando bem as lentes objetivas. Constatou algo esterrecedor: bactérias carnívoras presentes no perfume devorando as células epidérmicas lentamente. Resolveu pegar o laptop para uma rápida pesquisa sobre esse tipo bacteriano preocupante. Encontrou um resultado em particular que lhe chamou a atenção, um artigo acerca de um acidente biológico muito bem acobertado pela mídia e que ocorreu numa floresta cuja área afetada foi rigorosamente isolada. Curiosamente, nessa mesma área encontravam-se uma imensa diversidade de ervas especiais. 

Ligou para Carrie, ficando impaciente pela demora da mesma em atender. Na sala de estar de Sylvie, a amiga dondoca da assistente, as três amigas, reunidas em torno de uma mesinha redonda branca, experimentavam os produtos variados enquanto riam e conversando trivialidades. Fantine, uma mulher de pele morena e cabelos castanhos, elegantemente vestida, ouviu o toque insistente do celular de Carrie.

— Só eu que estou ouvindo seu celular tocando, Carrie? Talvez seja melhor atender. — disse ela com uma tava de champanhe na mão direita. 

— Mais uma interrupção e logo quando íamos testar o creme facial de erva mate. — disse Sylvie, desapontada — Tudo bem, atenda. Pode ser uma emergência. 

— Na certa, é meu amigo e colega de trabalho. Ele tá por essas bandas. Dei o endereço daqui pra nos vermos, mas ele insiste em ficar ligando, que saco. — disse Carrie, logo atendendo — Alô? 

— A madame finalmente deu sinal de vida! — ironizou Frank — Olha, preciso que vá pra um lugar onde você possa conversar discretamente. É urgente.

— Se me derem licença, tenho que ir ao banheiro. — disse Carrie levantando-se — Assunto particular entre eu e meu amigo. 

— O que deve ser tão particular pra você ter que discutir no banheiro? — questionou Fantine. 

— Deixe ela, respeitamos a privacidade umas da outras, afinal de contas. — disse Sylvie. 

— Vê se volta logo, o teste não será completo sem você. — disse Fantine, dando mais um gole do champanhe. Carrie sorriu acenando e foi direito ao banheiro, fechando rápido a porta.

— Acho bom que seja tão urgente pra justificar interromper nossa maratona de testagens. 

— Escuta só, você tem que largar de mão desses produtos o quanto antes. Essas porcarias são venenos mortais, causaram a morte da Pamela Landy. 

— Como assim? O que uma coisa tem a ver com a outra? — indagou Carrie, a testa franzida. 

— Eu conversei com o marido dela faz umas horinhas, ele contou de uma senhora que vende cosméticos da qual a Pamela comprou os produtos. Carrie, o negócio é sério, sua vida e as das suas amigas correm perigo. Informa elas disso, por favor.

— Eu não vou compartilhar essa sandice com elas, vão me achar uma neurótica. Na verdade, eu tô achando que você ficou neurótico. 

— Carrie, você não é assim. Esses cremes antirrugas parecem ter rebaixado sua intuição a quase zero. Eu obtive uma amostra e descobri a presença de bactérias devoradoras de células, pele e carne.

— Oh, você agora é um homem da ciência?! Como fez essa descoberta revolucionária?

— O microcospio antigo que ganhei numa feira de ciências. E ainda funciona muito bem. Agora volta lá e avisa suas amigas do risco fatal que vocês três correm. Eu tenho que dar um freio nessa velha antes que ela vire a cabeça de mais clientes.

— Frank, dá um freio em si mesmo. Não posso e nem quero virar a chave com elas. Tenho direito de não acreditar nessa associação criminosa que você fez. Vou desligar meu celular. Mas se quiser vir aqui, tô te esperando, tchauzinho. 

Frank bufou em raiva após Carrie desligar dando sinais de que não estava se portando como ela, sempre tão intuitiva e desconfiada de tudo. O detetive de uma última pesquisa sobre uma senhora gentil que vende cosméticos que destroem a beleza da mulher sem que elas percebam ao longo do uso. A busca conduziu a lenda japonesa de uma bruxa conhecida como Oshiribaba, as correlações com o caso saltando aos olhos.

— Você já tá no olho do meu furacão, velhota. 

***

Existia somente uma única pessoa confiável a quem Frank poderia recorrer para servir de reforço em um caso paranormal envolvendo uma figura folclórica da Terra do Sol Nascente. O detetive se encaminhou a biblioteca de história procurando com os olhos essa alma solícita que certamente saberia o que fazer.

Para a sua alegria, não tardou em avistar os lisos e estonteantes cabelos pretos que uma nipo-americana poderia ostentar. Sorriu consigo mesmo e aproximou-se da garota que estava de costas organizando uma pilha de exemplares de mitologia. Tentou chama-la de forma que não a assustasse. 

— Ahn... Miyako. 

Ela ergueu os olhos puxados meio boquiaberta, a expressão de surpresa ao escutar a familiar voz por trás. Virou-se depressa, certificando-se de não ter ouvido um som do além. Frank deu um sorriso educado. 

— E aí, japinha? Tá lembrada de mim? 

— Sr. Montgrow?! E-eu... tô realmente chocada em revê-lo. Eu não esperava que fôssemos nos reencontrar em menos de um ano do meu término com o Nathan. A propósito... Tá tudo bem com ele?

A seriedade preencheu a face de Frank com a pergunta. Mas preferiu ocultar a verdade acachapante. Pensou rápido numa lorota fácil para não tornar o silêncio suspeito.

— Tá, tá sim, tudo ótimo. Ele anda se ocupando com caçadas país afora, a gente tem se visto pouco nos últimos meses. Enquanto eu continuo aqui, restrito na minha amada terra castigada por bizarrices e monstros cujas bundas eu adoro chutar. 

Miyako fizera que sim com a cabeça, satisfazendo-se com a resposta. 

— Bom saber que ele tem passado se divertindo com o que faz de melhor. Mas eu sei que o senhor não veio aqui pra me atualizar sobre a vida dele, então... Sou todo ouvidos. Qual é o problema? 

— Uma bruxa do folclore japonês anda ludibriando mulheres da área nobre com uns produtos de beleza de qualidade duvidosa. Resumi bem pra você? 

— Uma Oshiribaba. — disse Miyako, o tom soturno na voz ao saber do elemento sobrenatural problemático — Quantas mulheres já são clientes dela? Tem ideia?

— Não fiz exatamente um levantamento estatístico, mas creio que mais da metade da zona ela já infectou com essa praga de falsa beleza, incluindo minha assistente que nesse momento tá toda deslumbrada com as amigas usando as porcarias. 

— Você tem que correr pra eliminar essa bruxa horrorosa antes que sua amiga e todas as mulheres afetadas virem ossadas e carcaças putrefatas. 

— Eu sei, os produtos causam um efeito colateral terrível. Sei também que ela colheu ervas infectadas com bactérias carnívoras pra fabrica-los. Será que é possível impedir a reação acabando com ela? 

— Possível é, mas deve ser rápido, até onde eu sei ela espera a proximidade do período da lua cheia pra realizar um ritual se valendo de toda a energia vital que os produtos absorveram das vítimas que quando passam a usa-los ficam com uma aparência horrenda, mas na perspectiva delas continuam as mesmas ou se sentindo mais lindas do que antes.

— A beleza tá nos olhos de quem vê, né? 

— Nesse caso, a frase nunca fez tanto sentido. 

— Que ritual é esse que ela vai aprontar?

— A Oshiribaba, segundo uma versão mais difundida da lenda, conserva um poço cheio no qual derrama um elixir de vitalidade e juventude eterna quando chega o ápice lunar. Os anos de expectativa de um determinado número de vítimas é vertido pra ela. — explicou Miyako pondo a pilha de livros numa caixa — A lua cheia ficará visível por mais dois dias, mas pode ser que ela faça hoje a noite. E depois que o ritual tem início, as vítimas ainda vivas passam a sofrer a reação antecipadamente ao período original.

— Mas isso de roubar a expectativa de vida se aplica apenas às vítimas atuais ou inclui as já mortas? 

— O ritual se restringe às vítimas que consumiram os produtos a partir do período da lua cheia, ou seja, há três dias. Sua assistente começou a usá-los quando? 

— Não tenho certeza, mas acho que deve ter sido nesse tempo mesmo. Vou ter que perguntar pra ela.

Um sinal apitou no celular de Frank por meio do aplicativo de rastreamento. 

— Olha só, temos um progresso. 

— O que significa isso? 

— Esbarrei com a bruxa hoje de manhã, mas esbarrei de propósito pra distrai-la recolhendo as coisas dela enquanto eu adicionava um rastreador como presente secreto. — disse Frank que logo mostrou a tela com a marcação geográfica do ponto onde residia a bruxa — Ela agora não me escapa. 

***

A noite, Frank dirigia por uma estrada de terra ladeada por vegetação densa, rumando para a casa da Oshiribaba com a lua cheia despontando no céu entre as árvores. O detetive usou o celular para uma chamada de vídeo pelo Facetime com Carrie. O rosto da assistente surgiu na tela, mas causando um susto em Frank que recuou a cabeça ao reagir com enojo. 

— Olá Frank! Você usando o Facetime?! Sinal do fins dos tempos? Ainda tô por aqui na casa da Sylvie.

— Foi a melhor forma de compensar não ter vindo aí. A gasolina tá pouca e a grana também. 

— Que cara azeda é essa? Tem algo no meu rosto? 

— Sim... O seu rosto. 

— Que insulto mais infantil, Frank. 

— Mas é verdade, Carrie. Seu rosto tá uma... desgraça. Foi mal, mas tá pior do que os zumbis daquele clipe do Michael Jackson, sem brincadeira. São esses produtos malditos! Fizeram isso com você, deixando sua aparência como um personagem de filme de terror B. Se fosse outra pessoa pensaria que é um filtro. 

— Frank... Eu estou com minhas amigas do lado, você falando assim comigo me envergonha! — reclamou Carrie, seu rosto, na visão de Frank, cadavérico como num estado avançado de putrefação — Deixa eu te apresentar a Fantine. 

— Oi, Frank. — disse ela que comentou em tom baixo com Carrie chamando o detetive de gato. A amiga da assistente também apresentava o mesmo aspecto tenebroso. Frank não escondia seu desagrado.

— Muito prazer... Ahn... Tenho que desligar, tô dirigindo, é o maior perigo. Olha, sigam minha recomendação: não saiam de casa até eu fazer uma nova chamada ainda hoje. Combinado? Tchau.

Encerrou a chamada de vídeo, voltando a focar na direção e tentando tirar da cabeça a face horrível de Carrie submetida aos produtos. Após uns quinze minutos, chegava a casa da bruxa em meio a floresta. Observou alguns homens em vestes parecidas - casaco preto e calças jeans -, três vigorosos guardas como sentinelas intransponíveis. 

— Hum, ela tem seguranças... Melhor não bobear, esses caras devem estar sob algum feitiço pesado. 

O detetive saiu do veículo, se esgueirando pelo fundos com a arma em punho carregada de balas anti-magia. Porém, antes que alcançasse a porta, um dos guardas veio dobrando e fizera-lhe cara feia, logo revelando olhos pretos numa piscada. 

— Demônios. A velhota é boa na persuasão. 

Frank atirou contra o demônio que resistiu ao tiro avançando contra ele. O detetive sacara a lâmina sacerdotal, deixando o revólver para quando a Oshiribaba estivesse a sua vista. Tentou golpear o demônio, mas o mesmo barrou seu braço e aplicou um chute nas costelas, depois uma cabeçada forte que derrubou o caçador. Uma presença inesperada surgiu atrás do demônio, o atacando brutalmente com um bloco de concreto na cabeça. Frank enfiou a lâmina sacerdotal no peito do receptáculo que infelizmente precisou morrer junto ao possessor.

— Miyako?! Me seguiu até aqui como? — questionou Frank desencravando a lâmina. 

— Enquanto você tava no banheiro, aproveitei que deixou o celular dando bobeira e transferi as informações do rastreamento pro meu. 

— Você também tem o aplicativo... Espertinha você. 

Mais dois demônios surgiram logo atrás de Frank. 

— Cuidado! — avisou Miyako.

Frank se virou a tempo de atacar um com a lâmina e iniciar uma luta com socos, chutes e tentativas de esfaquear. O outro demônio, possuindo um homem caucasiano de porte atlético e envergado, alvejou Miyako com um sorriso infame. A caçadora recuou de início, mas logo avançou desferindo chutes, depois dando uns socos no rosto do oponente com uma excelente habilidade. O demônio revidara com uma bofetadas em seguida com um chute que a derrubou fazendo-a rolar no chão. 

— Miyako, foge! — pediu Frank ainda se engalfinhando com o demônio, logo levando um soco, mas depois contra-atacando com um golpe da lâmina que fizera um corte feio no rosto. Deu o golpe final com uma estocada na barriga que matou instantaneamente o demônio junto a sua casca.

Miyako reergueu-se, tinha algo nas mãos que Frank não divisou muito bem. 

— Fugir pra quê? Se eu nem tô desarmada. 

A caçadora possuía socos-ingleses contendo pontas metálica nas quais haviam entalhes místicos na firma de caracteres japoneses. Ela se posicionou a lutar, fazendo um gesto com a mão direita pedindo para que o demônio viesse enfrenta-la, os cabelos esvoaçando com o vento e limpando sangue da boca. Sentindo-se desafiado, o demônio partiu ao ataque, mas acabou levando uns bons golpes no rosto com os socos-ingleses habilmente utilizados. 

Os murros deixavan marcas na corpo possuído, intercalados com chutes nas pernas. A caçadora deu um pulo em um giro aplicando um chute no peito e em seguida um soco decisivo no meio da testa, removendo o demônio daquele receptáculo que tombou inconsciente. O demônio desprotegido saiu correndo, rosnando com suas fileiras de dentes pontudos. 

— Me dá a espada. — pediu ela ao que Frank acatou jogando a lâmina. Miyako girou a lâmina rapidamente na mão direita para em seguida arremessa-la contra o demônio que foi vaporizado assim que a ponta atravessou sua cabeça. 

— Caramba... Menina, você deu um baita show. É uma caçadora digna de nota. — elogiou Frank, impressionado, com um sorriso simpático a ela — Tem mais desses aí? 

— Nathan me deu de presente com um mês de namoro. — disse ela olhando os socos-ingleses eficazes para exorcismos — Vamos, temos que deter a Oshiribaba antes que ela comece o ritual. — seguiu até a porta da fundos. Frank sentia-se indignado. 

— Deu de presente pra você, mas não pra mim?! Que malcriado. — reclamou ele, logo seguindo-a. 

A dupla adentrou na casa escura sorrateiramente. Frank pegou novamente a arma munida de balas anti-magia, destravando-a e pondo-a em riste. Chegaram num cômodo vazio da casa de paredes mofadas e piso de concreto empoeirado. De repente, Frnak sentiu algo empurra-lo contra uma parede. Miyako sofreu o mesmo ataque, batendo noutra parede. A velhinha bruxa surgia com um cajado cuja ponta era num formato arredondado com um rosto demoníaco pintado, remetendo à um oni. Frank levantou-se para encara-la, mas a mesma o surpreendeu com golpes do cajado tão fortes nas pernas e no tórax que pareciam quebrar os ossos. 

Frank continuou recebendo as investidas e Miyako assistia ainda caída com dor nas costas. O detetive foi derrubado com uma cajadada no rosto, ficando de bruços.

— Cacete.. O que voce pôs nesse pedaço de madeira pra bater tão forte? — indagou, a face dolorida. 

— Nada mais que a pura magia de uma bruxa experiente. Receitinha secreta. — disse a Oshiribaba — Vejo que trouxe uma amiguinha. Que pena virem juntos derrotando alguns dos meus escravos só para morrerem separados aqui dentro. 

Dois demônios pegaram Miyako pelas pernas e a arrastaram cruelmente para o escuro. 

— Sr. Montgrow! Não! — gritou, as unhas arranhando o chão enquanto era levada.

— Miyako... Deixa ela, sou muito mais perigoso pro seu planinho macabro dar errado, acredita.

— Acredito. — disse a bruxa que tacou com força a ponta do cajado em cinco partes do corpo de Frank que gemeu de dor.

— O que é que foi isso? 

— Minha técnica dos cinco pontos mortais. — disse a bruxa, rodeando-o, seu odor de mofo torturando as narinas dele — Caso tente atentar contra a minha vida, desencadeará o efeito da minha mágica que o fará sangrar por este pontos. Seu corpo vazará agonizante em sangue até que morra. 

— Volta... aqui... sua velha feia... — disse Frank tentando levantar-se enquanto a Oshiribaba retirava-se. A bruxa caminhou ao seu poço cheio d'água ao sentir que a lua cheia alcançou o ápice. Largou o cajado e pegou um frasco no chão contendo uma substância esverdeada que derramou na água. O líquido místico iluminou-se fosforescente ao se misturar, formando uma espécie de redemoinho. A Oshiribaba se despia para mergulhar. 

Em paralelo, Carrie, Sylvie e Fantine começaram a serem afetadas pela reação, suas peles ardendo em crescente queimação. 

— O que tá havendo? Sinto meu corpo inteiro arder! — disse Fantine, desesperada — Socorro!

— Talvez o Frank estivesse certo! — disse Carrie — Ele me alertou desses produtos! Agora estamos ferradas! Meu Deus, olha minha pele! Que horror! 

A pele dos braços da assistente se descascava prestes a criar. 

— Essa quentura... esse ardor... Dá vontade de tirar a roupa toda! — disse Sylvie a beira de um colapso nervoso. Ela e Fantine se entreolharam e gritaram de medo, depois olhando para Carrie, logo as três gritando em uníssono. 

No casebre, a Oshiribaba emergia da água verde luminosa como uma nova mulher, mais jovem e vitalizada. Saiu do poço como quem sai de uma piscina, exibindo um corpo voluptuoso com cabelos castanhos molhados que tapavam os seios nus. 

Frank chegava ali quase mancando, a arma na mão direita. 

— Lamento desaponta-lo, tarde demais. — disse a bruxa rejuvenescida. 

— Não, você só ficou mais bonita pro teu enterro. — disse Frank, apontando a arma. 

— Será que esqueceu o que eu disse? Vai sangrar até a morte se insistir em me matar. Uma vez me atingindo, os cinco pontos serão abertos. — afirmou ela num semblante de confiança e soberba — Estou lhe dando uma chance de sair daqui com vida.

— Só saio daqui com a garota sem um fio de cabelo tocado. 

— Não seja por isso. — disse ela olhando para sua esquerda quando dois demônios vinham com Miyako de refém, um deles encostando a lâmina sacerdotal no pescoço dela.

— Miyako. — disse Frank, preocupado. 

— Larga a arma ou senão a japinha aqui vai virar sushi. — disse o demônio com a lâmina. 

Miyako fez que sim com cabeça, tensa. Frank largou a pistola ao chão, fitando a bruxa raivoso. 

— Muito bem. — disse a Oshiribaba que fez uma pausa misteriosa enquanto pegara outro frasco, este com uma substância avermelhada , e derramou o conteúdo a misturar na água que adquiriu um tom vermelho e laranja fosforescente — Jogue-a no poço.

— Não! — gritou Frank sacando outra arma com balas banhadas a água santa e atirando contra um demônio. Miyako aproveitou a oportunidade para dar uma cotovelada no outro, podendo arrancar a lâmina das mãos dele e finca-la no peito impiedosamente. O demônio caiu morto diante dela. A Oshiribaba enfureceu-se. 

— Eu mesma vou derruba-la! Esse elixir fará sua força vital se esvair até a morte! 

Antes que ela investisse, Frank apanhou de volta a pistola com balas anti-magia e disparou contra a bruxa. Porém, sentiu os cinco buracos no corpo se abrirem dolorosamente, fazendo-o perder o equilíbrio. A bruxa riu de escárnio mesmo baleada.

— Idiota! Só está desperdiçando sua munição e sua vida! Não pode resistir por tanto tempo. 

— Ah não? — indagou Frank, corajosamente atirando mais duas vezes, suportando a dor de cada ferida — Vamos ver quem aguenta mais!

Atirava mãos vezes conforme a bruxa recuava perigando cair no poço, mas forçando uma resistência que tentava manter ao máximo. Frank tinha mais um projétil restante. O tiro de misericórdia fora direto na cabeça, abrindo um buraco na testa da bruxa. A Oshiribaba caiu no poço, submergindo na água que drenada sua vitalidade recém-adquirida, gritando em agonia pelo seu corpo degenerar-se totalmente até assumir aspecto cadavérico e afundar. Frank caiu de joelhos pelas feridas. 

— Sr. Montgrow! — disse Miyako vindo ajudá-lo — Tudo bem, acabou. Como se sente? 

— Como se tivesse tomado uns cinco tiros. — disse ele levantando-se — Ai... Valeu. É a nora dos meus sonhos. 

— Só dos seus sonhos, infelizmente. Vem, vamos pro meu carro, tem um kit de primeiros-socorros. 

— Como foi que se deixou ser rendida por dois demônios? Foi de Buffy à Penélope Charmosa em tempo 

— Não fui eu que apanhei pra uma velhinha de trocentos anos. — rebateu ela ajudando-o a andar melhor. Ambos riram rápido ao saírem dali. 

***

Na manhã seguinte de sábado, Frank tocou a campainha de Carrie para uma visitinha amistosa a fim de ver como ela estava após escapar da morte pelos cosméticos da Oshiribaba. 

— Vai entrando. — permitiu ela, mas num tom de voz preocupante para o detetive. 

— Carrie, o que foi? — indagou ele, entrando. Se arrepiou ao ver a assistente sentada no sofá, encolhida e com as mãos no rosto. 

— Não, não chega perto! Meu rosto continua o mesmo de como você viu ontem! 

— Ah, essa não. Parece que mesmo com a bruxa morta a feiura se tornou permanente, embora o risco de morte tenha sumido. 

— Isso é pra fazer me sentir melhor? Que reconfortante, Frank! — disse Carrie, a voz chorosa — Minha vida acabou! Jamais vou aparecer em público!

— Me deixa te ajudar, não deve estar tão ruim. — disse Frank se aproximando — Tira essas mãos do rosto, Carrie. Vamos superar essa barra juntos. Por favor, mostra pra mim, não vou te olhar torto.

— Ahá! — disse Carrie subitamente descobrindo o rosto... que estava inteiramente normal. A assistente desatou a rir da cara de Frank que sentiu-se bobo com a pegadinha — Queria ter visto sua cara! 

— Olha aqui... Isso vai ter troco hein. Brincou com meu coração, poxa. — disse Frank com um sorrisinho. 

— Ai... Deixa... eu recuperar o fôlego. Bem, passado o sufoco com os cosméticos da morte, hora de nos divertirmos. 

— Você e eu? Aonde? 

— Inscrevi você numa lista de clientes reservados pra massagista e quiroprático num spa onde vou com a Sylvie e a Fantine. Lá tem uma fonte termal deliciosa. Tá dentro ou fora?

Frank moveu a boca de um lado para o outro, pensando se aceitaria. 

— Depois de ter sangrado por cinco buracos, acho que eu devia me abrir pra um dia de folga... diferente.

— Ótimo, vou indo me arrumar. Não vai com essa roupa de detetive, claro. Inacreditável, você não tira esse sobretudo nem quando vai dormir? — perguntou Carrie indo pro seu quarto. Frank a seguiu. 

— É meu fardamento e meu visual a paisana ao mesmo tempo, sou um cara diferenciado. 

Naquele instante de descontração, nao passava pela cabeça de Frank a menor suposição acerca de uma espionagem a sua vida cotidiana que ultrapassava qualquer fronteira, inclusive extradimensional. Mais precisamente, uma observância advinda do submundo. Zaratro se apegou a ideia do detetive ter semelhanças físicas com seu antigo aprendiz, o que passou a incomodar os cavaleiros sombrios. O bruxo via Frank e Carrie juntos planejando os afazeres do dia através da água enfeitiçada de um caldeirão numa casa precária com paredes queimadas.

Ao sentir a presença de Lancelot atrás, passou a mão sobre o caldeirão, desfazendo a imagem rapidamente. 

— Não compreendo, mestre. — disse o cavaleiro — Por que gasta boa parte do seu tempo vigiando a existência miserável desse caçador? 

— Se engana, Lancelot. Miserável é sua condição humana. Mas num propósito de existência, ele é precioso. Está sendo tratado como o mais potencial de eliminar aquele que me proveu todo o conhecimento místico. Os anjos provalvemente não erraram, não desta vez. 

— Devíamos ter liquidado com ele pouco depois do senhor ressuscitar. Se tivesse nos dado sua permissão, claro. Em justiça por Palamedes.

— Não, eu reconheço a visão que os anjos possuem, prefiro deixar tudo seguir seu curso. Não pense que o poupei pela memória que ele me remete ao...

De repente, Percival e Mordred surgiam carregando pelos braços um homem cuja cabeça estava coberta por um saco de veludo. Zaratro aproximou-se. 

— E este infeliz, quem é? 

— Aquele que supostamente tem a resposta que tanto queremos ouvir. — disse Mordred. 

— Desculpe se ele não estiver tão apresentável, senhor. Ele tentou resistir à prisão. — disse Percival que logo removeu o saco, revelando a face do prisioneiro. Ninguém menos que Darius Atkinson, herdeiro do venerado e falecido líder dos Filhos de Merlin, Clancy. O rosto de Darius continua alguns hematomas roxos e sangrando. 

— Quem são vocês, desgraçados? — perguntou Darius — Eu não sei de grimório nenhum! Me larguem! 

— Quieto. — disse Mordred, apertando o braço do bruxo que tentava desvencilhar-se — Não queira dizer suas últimas palavras tão cedo.

— Ponham-no na mesa. Veremos o que ele tem a nos contar. — disse Zaratro, ansioso para iniciar um torturante interrogatório. 

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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 


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