Um passeio noturno e relaxante pela estrada para ir a casa de uma amiga na sua camionete prateada era tudo que Rebecca, uma mulher de rosto atraente e cabelos loiros nem muito curtos e nem muito compridos, sentia precisar para se manter mentalmente saudável ante a qualquer ameaça de ansiedade. Mesmo o foco na direção não lhe deixou escapar algo que despertou sua atenção máxima.
A sua direita jurou ter visto uma criança cabisbaixa vagando à beira da pista. Freiou um tanto bruscamente, meio chocada. Pisou fundo na ré, olhando para trás na expectativa de não ter tido uma impressão errônea. Para seu alívio, estava certa. A criança era uma menina de cabelos pretos lisos e longos e usando um vestido amarelo com uma florzinha bordada. Aproximou o veículo chamando a menina com assobio.
— Ei, você! Posso te dar uma carona? — perguntou Rebecca numa expressão gentil estando feliz por exercer a empatia, mas lá no fundo entristecida com a aparência da menina cuja roupa suja e olhar desalentado indicavam uma vida seriamente problemática. A menina a olhou, parando. Rebecca abriu a porta do carona — O que uma criança como você faz aqui perdida nessa estrada deserta? Aconteceu alguma coisa?
A menina permaneceu a olhando silenciosa.
— Não é de falar, né? Bem, pelo menos responda se quer uma carona. Posso te levar pra qualquer lugar que queira ir. Não sei o que houve, mas não pode continuar andando assim sozinha, é perigoso. Anda, venha, não tenha medo. Se eu fosse uma sequestradora acha que teria perguntado?
A menina dera sua mão direita a Rebecca que a ajudou subir no carro. O veículo logo retomou viagem.
— E então? Qual o seu nome? — perguntou Rebecca — Ora, vamos. Não é possível que seja tão tímida pra nem sequer dizer o próprio nome.
— Lilian. — respondeu a menina.
— Lindo nome. Me chamo Rebecca. É um prazer. — disse ela com um sorriso simpático — Sabe, meu coração aperta só de ver crianças como você em situações de abandono ou miséria. Desculpe ser tão curiosa, mas... Poderia me dizer o que houve pra você sair sozinha por uma estrada dessas?
— Eu fui abandonada. — disse Lilian não tirando os olhos de sua acolhedora amiga — Mas essa não foi a pior coisa.
— O que mais fizeram com você? — indagou Rebecca, meio temerosa com a resposta.
— Me mataram. — respondeu Lilian secamente.
As mãos de Rebecca ao volante tremeram ao ouvir aquilo, quase perdendo o controle.
— O que disse? Ma-mataram você... Como assim? Você está aqui comigo...
— Eu pareço viva pra você?
— É claro que sim, você apenas está em condições ruins de vida. Eu bem que queria te adotar, meu marido e eu... temos tentado ser pais, mas nunca conseguimos, nunca foi fácil.
— Não quero ser adotada. — disse Lilian em um tom um tanto rude — De novo não. Quero ser enterrada.
— O quê? Enterrada?! Olha, melhor parar com isso, não tem graça...
— Você disse que me levaria pra qualquer lugar que eu quisesse ir, então me leva pra um cemitério. Você tem que me enterrar pra que eu pare de sofrer!
Rebecca adquiria uma face de aflição, sua ansiedade atacando fortemente de modo que suas mãos suavam e tornavam sua direção instável.
— Não posso fazer isso! Por... Por que me perguntou isso, afinal? O que tá havendo?
— Porque eu tô morta! Você tem que me enterrar! Por favor, por favor, por favor, por favor...
O carro parou abruptamente após Rebecca frear de tão perturbada.
— Chega! — gritou para Lilian — Não sei que conversa é essa de estar morta, mas não farei o que tá me pedindo, isso é loucura.
— Que pena... — disse Lilian que logo ao virar o rosto para Rebecca exibiu um sinistro brilho amarelo nas íris com uma expressão raivosa — ... pra você!
Rebecca reagiu horrorizada, soltando pequenos gritos cortados. Lilian pulou sobre ela como um animal selvagem rosnando com os dentes cerrados e as mãos ameaçadoras. Rebecca gritara mais alto, de medo e de dor, ao ser atacada pelas mãos furiosas da menina, o carro balançando e os faróis tremeluzindo para logo se apagarem.
***
A ferida que Frank sentia no seu âmago ainda persistia em doer após três dias de quando disparou aquele tiro fatal contra a cabeça de seu tio. Reprises do momento voltavam e se apagavam na mente, as idas e vindas de um tormento que parecia incurável. Um exercício de espiritualidade parecia uma boa saída na tentativa de apaziguar o luto que despedaçava o coração.
O detetive saiu de seu carro, tendo parado em frente a uma igreja na zona leste. Enquanto subia os poucos degraus da escada na entrada, um cachorro pastor alemão o farejava nas pernas.
— Opa, fica tranquilo que eu tô limpo espiritualmente.... apesar de passar por uma barra tremenda. — disse Frank, adentrando no templo. Acenou para um padre que veio ao seu encontro imediamente. O detetive se direcionou a cuia cheia de água benta, logo molhando dois dedos nela e depois andando até o padre fazendo o sinal da cruz — Olá, bom dia. O senhor tá disponível pro confessionário?
— Boa parte do tempo estou. Queira me acompanhar, por favor. — disse o clérigo, um homem caucasiano na casa dos trinta anos de cabelo castanho curto bem penteado para o lado, fazendo um gesto com a mão esquerda para que o detetive o seguisse.
A cabine confessional foi aberta e o padre entrara nela. Depois Frank o fizera. Um breve silêncio se fez.
— Não sabe por onde começar? — indagou o padre.
— Meu problema é saber como começar. — respondeu Frank, sentado com as mãos entrelaçadas e a cabeça baixa — O assunto é delicado, então... Já viu, né? As palavras se embaralham e tudo fica cinza.
— Por favor, procure não se omitir aos detalhes, independente do quão doloroso seja lembrar ou contar a respeito do que estiver o torturando. — aconselhou o padre, inclinando a cabeça ao lado para ouvi-lo.
— Tudo bem, aqui vai: Eu cometi um assassinato. — desabafou Frank — Mas movido a um dilema. Sabe quando você tem duas vidas a serem salvas, uma em cada mão, mas no fim das contas falha com uma enquanto salva a outra? Fiquei entre a cruz e a espada, mas tive que escolher rápido antes que uma tragédia acontecesse. Só que, claro, levou à outra.
— Pessoas de quem você é muito próximo?
— Sim. Entes queridos. Foi uma situação que me obrigou a fazer o que fiz. Desculpe não estar sendo tão expositivo sobre isso, é que... Não fico a vontade confessando um ato tão pecaminoso pra um padre, além da culpa me maltratar ainda.
— Sem problemas. Já ouvi histórias muito mais grotescas e assustadoras aqui, coisas que nem os piores malfeitores diriam às autoridades. Continue.
— Não foi só esse caso de matar um parente meu... Na verdade, tem sido um ano que vem sugando minhas forças, muito difícil de lidar, sinto que vou ser engolido por um abismo sem fundo. Se eu sobreviver até o Natal ou a virada, vou considerar um milagre. — disse Frank que fizera uma pausa — Bem, fora esse meu crime...
— Por que chama isso de crime? Não havia uma terceira via de escape. Era matar ou deixar morrer.
— É... É verdade. — disse Frank, estranhando um pouco — Acha que tô carregando um peso desnecessário?
— Você não foi claro o bastante pra que eu pudesse dar uma opinião melhor formada. Mas afirmo que não tem porque se culpar pelo destino infeliz de escolher entre duas vidas. Há mais uma coisa?
— Sim, é um amigo meu, eu... fui forçado a abandona-lo. Ele perdeu o emprego e foi despejado, daí o abriguei na minha casa até que ele botasse a vida nos eixos de novo. Mas... vieram umas pessoas, invadiram minha casa e... o tiraram de lá.
— Perdão, mas será que poderia realmente não ocultar detalhes. É importante que a confissão deva ser o mais minuciada possível, senão não terei como lhe orientar. Consegue ir além da superfície?
— Tudo bem, vou ser inteiramente honesto com o senhor. — disse Frank, respirando fundo — Esse amigo meu, ele... é, de fato, um anjo. Sim, padre, um legítimo anjo. Agora não mais legítimo, já que ele foi banido do céu por um erro que cometeu. Não que ele tivesse caído e ido pro inferno, ele apenas perdeu sua alcunha e sua graça angelical. Não tá me achando um doido varrido, né?
— De forma alguma, claro que não. Por que um homem de Deus como eu julgaria alguém que esteve na presença de uma criatura celestial e ainda ofereceu ajuda quando ela mais precisava. Você é um bom homem, Frank.
— Ele disse a mesma coisa pra mim.
— Conte-me mais sobre ele, se não for pedir muito. Sabe pra onde o levaram?
— Então... As pessoas que o tiraram da minha casa eram anjos ressentidos pela atitude que condenou ele. O obrigaram a assumir uma identidade nova pra trabalhar numa fazenda, o rancho Higgins. Conhece?
— Hum... Acho que já ouvi falar. — disse o padre que sorriu com imensa satisfação, porém revelando, ao mesmo tempo, olhos que se enegreceram por completo, não passando de um demônio ocupando aquele corpo teoricamente inviolável pelas forças malignas — Você foi até lá?
— Ia faze-lo voltar pra mim, mas fui ameaçado, então... tive que deixa-lo pra trás, infelizmente.
— Deseja encerrar por hoje?
— Pois é, tá na minha hora de pegar no batente. Foi bom abrir meu coração pro senhor, padre. Até mais. — disse Frank, levantando-se.
— Volte mais vezes quando sentir necessidade. — disse o padre... ou melhor, o demônio que o possuía.
O detetive retornava ao sedã prata, contudo, logo que entrou, levara um tremendo susto de fazer o coração querer disparar pela boca.
— Ah! Você de novo, sua... — disse ele vendo Ethrea sentada no banco ao lado com os braços cruzados — Veio fazer o quê entrando assim no meu carro? Com certeza não foi pra pedir carona.
— É assim que cumprimenta as mulheres que surgem inesperadamente pra você?
— Não, só aquelas que possuem um caráter duvidoso pra fazer chantagem por seus caprichos.
— Não vim continuar aquela conversa que tivemos na fazenda.
— Que bom, porque eu não tava nem um pouco afim de ter começado ela. Se quer falar de um assunto urgente, melhor ser rápida, tenho um emprego pra manter meu sustento.
— O que estava fazendo naquele santuário?
— Não é da sua conta o que faço ou deixo de fazer. Vai direto pro assunto que veio tratar. Você pode ficar enrolando o dia todo, eu não.
— Estou me dando a oportunidade de ser pacífica com você depois daquele nosso pequeno atrito. Faça isso valer a pena. O que tenho a dizer é emergencial.
Frank desviou o olhar, suspirando com a boca em sinal de indisposição com a centuriã.
— Fui me confessar a um padre.
— E contou sobre Adrael?
— Por que eu não contaria? Tirou um grande amigo da minha vida, óbvio que isso ia me machucar.
— Devia ter ficado quieto, sofrendo em silêncio. Mas tudo bem, não estava a par da situação crítica que meu pelotão está lidando nesse momento.
— Que situação crítica? — questionou Frank, tomando interesse por ouvi-la.
— Demônios estão muito prolíficos nessa cidade, mais do que o habitual.
— Essa é a novidade que tem pra me contar? Vai lá, segunda tentativa.
— A notícia do banimento de Adrael circulou pelo submundo. Um suposto informante da minha legião está sendo procurado, vivo ou morto. Agora os demônios resolveram criar uma espécie de competição na disputa pelo corpo de um anjo banido. Se espalharam massivamente, possuindo corpos aleatórios na busca por informações.
— Fez o que fez com o Adrael e quer que eu acredite que se importa com ele?
— A implicação de um movimento de demônios desse tipo é mais grave do que pensa. Um anjo banido sofrendo de possessão demoníaca não é o mesmo que um humano nessa situação.
— Eu sei, ele me explicou o lance da condição humana. Biologicamente ele continua sendo um anjo.
— É nisso que reside a implicação mais perigosa. Uma vez que um demônio se apodera de um anjo banido, nada é capaz de exorciza-lo.
O detetive expressou sua incredulidade franzindo o cenho.
— Não, pra mim soa como pura balela, historinha pra fazer crianca anjo dormir de luz acesa. Eu entendo que ser humano é diferente de como um anjo está como humano após perder os poderes, mas me parece absurdo demais. O corpo do Adrael se tornou humano, dentro e fora.
— Mas é real e você deve se preparar caso o reencontre possuído.
— Acho difícil, ele tá isolado naquela fazenda.
— Apesar de eu ter criado uma barreira para que nenhum outro humano pise naquelas terras, e isso inclue você, eu não a formatei contra seres sobrenaturais, e isso inclue, especialmente, demônios. Na pior das hipóteses, é só uma questão de tempo. De pouco tempo. — disse Ethrea transparecendo toda a seriedade com que via aquilo.
— Tá, e o que eu faço caso esbarre num demônio desgraçado usando o corpo do Adrael como uma fantasia de Halloween pra fazer inveja aos amiguinhos?
— Há uma maneira de exorcizar. Mas muito arriscada. A lâmina sacerdotal será bem útil. Ao invés do exorcismo em si, é ela que facilitará tudo.
— Se eu esfaquear o demônio no corpo do Adrael, os dois já eram.
— Acha que eu não sei? Mas pra que o exorcize com o risco minimizado, deve cravar a lâmina num ponto que não seja vital. Enquanto ele se desestabiliza, você recita o exorcismo. No entanto...
— Ah não, sempre assim...
— Um anjo banido que experimentou uma possessão se fragiliza fisicamente, mesmo depois de exorcizado. Nessa altura, há um perigo mortal caso o ferimento o faça perder muito sangue. Se ocorrer, mire numa parte que cause uma hemorragia controlável. Não se esqueça.
Em milissegundos, Ethrea desaparecera do carro, deixando Frank a fitar o nada com uma expressão tensa. Mas graças ao toque do celular, pôde voltar os pensamentos ao mundo real. A ligação era de Carrie.
— Alô, diz aí, já tô a caminho. — disse, pausando para ouvir a assistente — Morte na estrada... Peraí, o capitão de polícia do Distrito 21 me quer lá?!
***
Frank chegava a estrada, exatamente onde o veículo de Rebecca ainda se encontrava. O detetive saiu do seu carro, recebendo um sorriso educado do capitão Gideon que requeriu sua ajuda para averiguação.
— Muito bom dia, capitão. Minha assistente repassou o recado. Por que o senhor solicitou justo eu?
— Na verdade, quero transferir esse caso ao DPDC, de preferência ao melhor dos agentes com a competência de investigar cenas de crime tão misteriosas quanto essa. — disse Gideon, um homem negro meio calvo e de destacado cavanhaque que usava óculos.
— Agradeço o elogio, mas dependendo da ocorrência não dou garantia total de responder todas as questões, ainda mais se o negócio for puro mistério que leve à teorias malucas — disse Frank acompanhando-o — Mas e aí, que bicho pegou por aqui?
— Algum bicho que tenha feito isto. — disse Gideon com seu tablet preparando imagens fortes do corpo de Rebecca para exibir ao detetive — Melhor segurar o café da manhã. Olha só.
O capitão mostrara a foto do cadáver repleto de marcas de arranhões e mordidas profundos que desfiguraram completamente a aparência da mulher, sobretudo no rosto no qual os olhos foram afundados pois havia vestígios de sangue jorrando.
— Não convence ser ataque de animal, a típica alegação. — disse Frank — Isso foi de agora há pouco, né? A que horas levaram o corpo pro IML?
— Bem cedo da manhã, algum tempo depois de transeuntes descobrirem o carro parado. Quer dar uma conferida por dentro? Fique a vontade.
— Obrigado. — disse Frank indo verificar o interior do carro. Olhou bem os bancos sujos de sangue. Deu uma olhadela para trás vendo Gideon conversando com um policial que o acompanhava na viatura, depois sacando discretamente do bolso interno do sobretudo o medidor EMF. A leitura se registrou baixa, mas a mesma por si só já evidenciava consideravelmente a presença de algo paranormal que estava naquele carro. Olhou o parabrisa com várias fissuras graves. Gideon viera até o detetive especular a causa da avaria.
— Não são de perfurações a bala.
— Claramente não, foram provocadas de dentro. — disse Frank — Talvez a vítima, durante o ataque, bateu com o pé várias vezes, tanto no parabrisa quanto nos vidros laterais.
— No retrovisor também há rachaduras. — disse Gideon, a expressão séria num misto de tensão — As câmeras de segurança dessa via pegaram o momento em que a mulher dona do carro, chamada Rebecca Ferguson, presta carona à uma criança que andava aparentemente perdida. Veja.
Gidoen reproduziu a filmagem no tablet e mostrou-a para Frank. A menina, Lilian, estava de costas entrando no carro de Rebecca que logo depois partiu percorrendo quatro quilômetros até parar naquele ponto.
— Me enviaram agorinha. — disse o capitão — Não sei o que pensar. Tenho medo de pensar, aliás. — fez uma pausa dramática — Uma criança. Uma simples criança suspeita de um assassinato brutal.
— Impressões digitais no corpo? — indagou Frank.
— Sim, infelizmente são de uma criança, mas incompletas, não permitindo identificar precisamente. O caso é todo seu, detetive Montgrow. Já vi muita coisa em mais de trinta anos nessa carreira, mas os sinais que essa tragédia dá me causam arrepios como nunca antes senti. Bem, esteja à disposição pra chamar o reboque. Boa sorte. — disse Gideon, prestes a ir embora, dando uma batidinha no braço esquerdo de Frank que ficou a pensar nos indícios assombrosos que apontavam à menina.
***
Departamento Policial de Danverous City
Na sala de Carrie, Frank estava bem ao lado da assistente que digitava ágil buscando no banco de dados a filmagem da câmera de segurança da rodovia a fim de capturar a imagem do rosto da menina e levar à pesquisa para identifica-la.
— Aqui está, essa é da segunda câmera, do outro lado da estrada, um registro que Gideon, por alguma razão, não obteve acesso. — disse Carrie, apertando Enter para reproduzir.
O vídeo possuía um melhor ângulo de visualização que simplificava focalizar a face de Lilian. Poucos segundos antes de entrar no carro, a menina pareceu ter olhado diretamente para a câmera, exibindo um brilho amarelado fugaz nos olhos.
— Espera... Rebobina aí uns dois segundos e diminui a velocidade. — pediu Frank ao que Carrie acatou. O brilho nos olhos de Lilian surgiu lentamente — Pausa.
Carrie parou o vídeo no instante exato em que o brilho tivera um pico de nitidez. Frank observou com minúcia, não tendo dúvidas do que representava.
— Sabe quando os cachorros estão no escuro e olhos deles ficam brilhantes? É basicamente isso, só que aqui a coisa tem um tom a mais, claro. Agora tá explicado a polícia rodoviária vetar essa gravação pra polícia distrital. Só imagino a cara do capitão Gideon vendo esse olhar 43 e assustador de uma criança.
— Uma criança amaldiçoada e assassina, seu tipo predileto de sobrenaturalidade. — disse Carrie — Vejamos a ficha dela, se tiver uma.
A assistente verificou no banco de dados as informações básicas disponíveis. A foto e o nome surgiram ao lado da ficha.
— Lilian Granger, 9 anos, veio de uma família pobre e foi acolhida num orfanato do qual fugiu poucos dias depois. — disse Carrie que de repente notou Frank estar pensativo ao andar para sentar na cadeira a sua frente — O que foi? Ah, essa expressão eu conheço: você tá num transe de imersão detetivesca. Vem teoria aí, acho que tá esquentando...
— É uma teoria com cara de ser quase uma constatação. — disse Frank olhando para o nada, ainda em seu estado especulativo — Na hora que fui dar uma olhada no carro, peguei o EMF, óbvio que escondido do Gideon, e saiu uma leitura baixa. Mas não foi só isso. Tinha um leve cheiro de carniça nos bancos. Certamente não era da vítima, o corpo só começa a feder em até 24 horas. O fedor vinha principalmente do banco do carona. O que me levou a pensar... Aliás, lembrar de uma lenda contando de crianças zumbis vagando sem rumo que abordam adultos para pedirem que as enterrem.
— Hum, pesquisa antecipada, gosto assim. — disse Carrie digitando rapidamente para buscar a tal lenda com base no que Frank havia dito — Talvez seja isso: um mito escandinavo que nomeia essas crianças como Mylings.
— Memória desbloqueada com sucesso. Nas reuniões entre caçadores na Sol da Meia-noite, se falava muito dessas crianças mortas-vivas que saíam pelo mundo com aparência de estarem saudáveis espiritualmente pra atormentarem pessoas obrigando elas a darem um funeral digno.
— Pois é, aqui diz que podem ser crianças que foram negadas ao batismo ou enterradas em solo não santificado. Geralmente crianças nascidas em famílias pobres ou que morreram pelas mãos de tutores abusivos, passando a assombrar os lares daqueles que as mataram como forma de obriga-los a enterranem-nas de forma adequada. Olha só, mesmo agindo feito espíritos malignos, as crianças conservam uma pureza que as faz darem uma segunda chance. Pena pra quem for estúpido de negar, já que vai acabar sofrendo uma morte dolorosa que nem a moça prestativa e incauta.
— Acredito que a principal causa pra essas crianças estarem como estão seja por conta do abandono, pais irresponsáveis e despreparados que entregam os filhos pra qualquer um sem ponderar nada. — disse Frank sentindo um pouco de revolta com a atitude dos pais biológicos das crianças que vêm a eventualmente se tornarem Mylings — Essa garotinha, Lilian, deve ser uma dessas. Sabe, tô considerando uma ideia aqui que você, sem dúvida, não vai aprovar.
Carrie o olhou com misto de suspeita e preocupação balanceadas. Não demorou a adivinhar certeira a intenção do amigo para com aquele caso.
— Não... Você não tá lucidamente pensando em...
— Sim, isso mesmo. Vou dar um jeito de atrair essa menina até mim e acabar com o sofrimento dela. Simples assim.
— Simples assim? Frank, vai mesmo confiar numa criança morta-viva em estado de fúria e vingança caso consiga de fato um chamariz bom? Não me parece que haja um meio de atração. É algo fortuito, não dá pra forçar que aconteça.
— Posso tentar. Tô confiante de que seja o caso mais rápido que vou ter resolvido esse ano.
— Pelo que tem dizendo aqui nas notícias referentes ao orfanato, cerca de cinco crianças fugiram dele, contando a Lilian. Cinco fugitivos. Cinco Mylings. Como espera encontrar essas crianças até que nenhuma outra vítima surja?
— Não sei, alguém que tenha tido contato com elas, qualquer pessoa. — disse Frank, impaciente.
— Ah, parece haver alguém. — disse Carrie vidrada no monitor — Uma assistente social chamada Kendra Tunner. Ela tem vínculo com o orfanato há quase seis anos. Ajudou no acolhimento dessas crianças. Quer o endereço do escritório dela? Ela pode te detalhar o processo passo a passo.
— Manda aí, tô afim de ouvir a versão dos fatos de quem quer que tenha se envolvido com esse quinteto parada dura. — disse Frank, levantando-se.
***
Chegando a tempo ao Departamento de Serviço Social antes do fim do turno matutino para o intervalo, Frank procurou na ampla sala de atendimento telefônico o escritório de Kendra Tunner, passando entre os cubículos nos quais os profissionais realizavam suas tarefas com ligações feitas e atendidas a todo instante. Ao encontrar o local de serviço da assistente, Frank se apresentara.
— Oi, eu sou o detetive Frank Montgrow e... — disse Frank que cortou sua fala ao receber um sinal de Kendra com a mão direita aberta pedindo para esperar. Ela estava ao telefone numa conversa com uma mãe.
— Olha, hoje eu não tô com a menor paciência pra aturar desaforos, especialmente de uma mulherzinha negligente e desqualificada pra essa função como você! Se continuar tratando seu filho como um saco de pancadas, vou eu mesma até aí e transformo você em um! Ouviu bem, sua ordinária? Vai à merda! Os seus dias de abuso vão acabar, sua hora vai chegar!
Encerrou a chamada tacando o fone no gancho com força, bufando em raiva ao se recostar na cadeira.
— Ahn... Olá, desculpa ter aparecido assim de repente enquanto você tava ocupada... — disse Frank pouco a vontade.
— Não, sem problema. — disse Kendra, uma mulher caucasiana de expressivos olhos azuis e face jovial em seus trinta e cinco anos, ajeitando seus lisos cabelos castanhos claros com algumas mechas loiras — Ouvi você dizer que é detetive, né? Espero não ter causado uma péssima impressão.
— Tudo bem, eu tenho uma boa noção de como deve ser atribulada essa rotina, lidando com pais carrascos que não educam direito os filhos.
— Pois é, ossos do ofício. É como negociar com sequestradores às vezes. Por que veio me procurar mesmo? Pode entrar e se sentar, fique à vontade.
— Obrigado. — disse o detetive sentando-se diante da assistente social — Vou tentar ser breve, não quero tomar do seu tempo. É em relação a cinco crianças recentemente vistas em cartazes de desaparecidas por aí após fugirem de um orfanato do qual você é afiliada. Tem ideia do que ocasionou essa fuga?
Kendra expressou uma nítida tristeza ao ouvir do tema da conversa.
— Na verdade, não foi do orfanato que elas fugiram. Elas foram acolhidas em períodos diferentes, mas muitos próximos, justo numa altura em que o orfanato começou a ver um excesso de contingente. Selecionei cinco crianças pra que passassem algum tempo na minha casa até que eu encontrasse lares com pessoas bem intencionadas a cuidar delas. Mas depois... — disse Kendra, desconsolada, logo apioando os cotovelos sobre a mesa e passando as mãos no rosto.
— Fugiram da sua casa. Todas ao mesmo tempo ou uma por vez? — questionou Frank.
— Foi um plano de fuga em conjunto. Não deixaram bilhete nem nada. Fiquei desesperada, comuniquei a direção do orfanato, mas só pra receber uma advertência. Se eu não as encontrasse no prazo, iriam me desvincular. Meu instinto materno não me deixou de braços cruzados. Por favor, não pense que me desdobrei a acha-las pra zelar a minha reputação.
— Longe de mim pensar algo assim, acredito que estava dando o tratamento ideal pra essas crianças... Pelo menos, o básico, comida, roupa lavada... Vai ver estavam com dificuldades pra se adaptarem, talvez a sua carga-horária tenha interferido nisso, podem ter se sentido sozinhas, daí decidiram sair pelo mundo pra cada uma por si encontrar um lar adequado.
— Mas eu estava provendo um lar adequado. Não sei o que houve pra fugirem assim, sem aviso. — ressaltou Kendra, a vontade de cair em prantos.
— Tem uma criança em especial que tô afim de localizar. Um menina chamada Lilian.
— A Lilian. Bem, acho que terá mais sorte do que eu, detetive.
— Por que? — indagou Frank semicerrando os olhos.
— Lilian foi a única das cinco que encontrei por saber de um local específico que eu costumava levar ela pra passear, era a mais introspectiva do grupo. Um bosque bem tranquilo aqui nessa zona. Uma vez... Uma não, por duas vezes a vi lá e.. tentei convencê-la a voltar, mas... ela se recusava, disse que tinha medo de mim, traumatizada pelos maus-tratos que sofreu dos pais adotivos.
— A noite é possível de vê-la nesse bosque?
— Se estiver aberto a encontrar ela por mim, ficaria agradecida. Acho que aquele bosque se tornou o refúgio fixo dela. Mas não diga que fui eu quem pediu.
— Pode deixar, mas prometo que vou leva-la de volta até você, nós dois juntos a faremos reconhecer que a sua casa é o melhor teto que ela pode ter até se instalar definitivamente com uma adoção oficial. — afirmou Frank, mostrando determinação no intento.
— Desde já sou imensamente grata. O senhor é um anjo. — disse Kendra estendendo sua mão direita a qual Frank apertou — Obrigada de coração.
— Disponha. – disse Frank, dando um sorriso educado com lábios comprimidos.
***
A noite, o rancho Higgins virava palco de uma numerosa orquestra de grilos cricrilando ininterruptamente por quase todo o terreno. Na casa do fazendeiro Gibbon, Adrael - ou Adrian - retirava entusiasticamente do forno uma torta de pêssego que havia aprendido a preparar com os ensinamentos culinários do seu amigo. A pusera com a forma de alumínio sobre a mesa da cozinha, depois retirando a luva térmica verde. Inclinou-se para sentir o aroma delicioso que exalava com a fumaça quente, fechando os olhos de tão inebriado.
Esperou esfriar enquanto lavava alguns pratos, indo leva-la ao Sr. Gibbon que estava na sala vendo TV. Passou pelo corredor curto, ansioso para partilhar sua alegria com o sucesso.
— Sr. Gibbon, eu tenho certeza que dessa vez me saí bem. Acertei a receita conforme o seu livro.
No entanto, o anjo banido, que trajava sua roupa de trabalho rural — macacão jeans por cima de uma camisa xadrez azul e branca, desfez-se do sorriso ao se deparar com algo lhe assaltou todo o brilho.
— Não! – disse em voz alta, largando a forma com a torta que se partiu no chão e correndo até o Sr. Gibbon que jazia morto sobre a mesma com tampo de vidro quebrada. O fazendeiro havia sido brutalmente morto, os olhos abertos e dilatados, a roupa encharcada de sangue e estando com um buraco enorme na barriga por onde saía o intestino delgado desenrolado pelo assassino até a porta aberta e além — Sr. Gibbon... Não pode ser...
Olhou o intestino como uma trilha a ser seguida e assim foi munido de uma lanterna para fora dominado pela curiosidade e crente de que ela o levaria diretamente ao autor do crime. O caminho feito com o intestino parou, sobrando apenas uma trilha de sangue. O rastro terminava na entrada do celeiro.
Adrael adentrava no recinto dos mantimentos para os animais, rasgando a escuridão com o facho da lanterna. Porém, a mesma apresentou defeito, o facho tremeluzindo até se apagar completamente.
— Quem está aí? Apareça, vou acabar com você, fazer justiça pelo meu amigo!
— Ah, vai? — indagou o demônio que usava o corpo de um padre, o mesmo que ouvira a Frank no confessionário. Não usava a batina, mas uma camisa preta de mangas longas com a clérmiga. Adrael se virou dando de cara com ele, alarmado — Quanta nobreza de espírito vinda de você. Homens assim tem um lugar garantido no reino dos céus. Ops, acho que no seu caso não tem mais reino dos céus. — falou ele, dando uma risada infame com olhos pretos.
— O que você quer? Foi você quem o matou?
— Não tá óbvio ou vou ter que desenhar pro seu cérebro desmemoriado entender?
— Desgraçado! Matou aquele pobre homem tão... covardemente. Que tipo de monstro é você?
— Do tipo que adora o som de uma boa música em volume máximo enquanto brinca com sua vítima.
— A TV... de repente aumentou o som, Gibbon nunca fez isso. Eu juro... que você pagará caro por isso.
— Não vim aqui gastar, mas pra receber. — disse o demônio, logo erguendo a mão esquerda como se espantasse uma mosca, jogando Adrael com telecinesia contra a parede de madeira. O anjo banido caiu sobre uma pilha de feno — Sabe, até pensei em dar as tripas do velhote pro meu cãozinho, mas ele ficou atraído demais por umas galinhas.
— Fique longe... — disse Adrael tentando levantar-se, mas suas costas doíam.
— Pra quê? A gente vai passar um longo tempo juntos. — disse o demônio que logo despossuiu o corpo do padre e avançou selvagem contra Adrael abrindo sua boca repleta de dentes afiados e salientes.
***
A espera de Frank no bosque por uma aparição de Lilian já passava de uma hora e alguns minutos. O detetive andava devagar de um lado para o outro, cogitando abortar a missão por aquela noite.
— É, ao que parece não tem criança nenhuma por essas bandas. Eu podia estar em casa agora, enchendo a minha pança e vendo uma seriezinha na TV. — disse ele, sentindo ter desperdiçado um tempo precioso que usaria no conforto do seu sofá fazendo o que quisesse encerrando o dia mais cedo — Vou indo nessa, não tem nada pelo que se importar aqui.
— Ei, espera. — disse uma voz infantil feminina por trás de algum arbusto antes que Frank desse um passo para sair dali. O detetive virou-se, curioso. Lilian surgia timidamente, o olhar carente fixado em Frank — Não vai embora, por favor.
— Ahn... Você é a Lilian, certo?
A menina acenou positivamente com a cabeça.
— OK, eu... Sou o Frank. Eu fiquei sabendo que você tem vivido fugindo, não quer ser adotada, não quer estar com uma família que te ame... Eu sei muito bem o que você quer e eu posso te ajudar.
— Verdade? Pode me levar até um cemitério... e me enterrar? Eu não quero continuar viva... não desse jeito. Por favor, eu não vou te machucar.
"Mas só se eu fizer a sua vontade, né, princesa? Aí você não arranca meu couro", pensou Frank, um pouco tenso.
— Tudo bem, Lilian. Eu te acompanho, vem. Sei de um cemitério bem aqui pertinho, não vou te enterrar em qualquer buraco. — disse Frank dando sua mão esquerda para a minha que segurou em confiança.
No caminho pelo bosque, ambos conversavam para a andança não ficar tediosa com o silêncio noturno.
— Então você ficou me observando escondida aquele tempo todo, é? — perguntou Frank.
— Sim. Eu quis saber se era alguém confiável. Aprendi a não pedir pra qualquer pessoa. — disse Lilian — Ninguém ficaria ali parado por tanto tempo esperando alguém que não fosse eu.
— Esperta você. — disse Frank que logo foi surpreendido por uma ligação de Carrie, a qual atendeu imediatamente — Diz, Carrie. Mais alguma coisa sobre... aquele mito escandinavo lá?
— Frank, escuta só: Fui mais a fundo e encontrei algo relacionado a lenda dos Mylings que nos coloca diante de uma grave suspeita. As crianças costumam ser atraídas por mulheres chamadas de fazedoras de anjos. Nem me pergunte porque desse nome.
— Vai ver siginifica que elas purificam as crianças ao adota-las. Seria essa a solução?
— Muitíssimo pelo contrário. O nome é uma fachada acolhedora e amorosa. Elas adotam os Mylings pra em seguida mata-los a sangue frio, afogados ou queimados. E uma vez que o Myling é morto ele não pode retornar a vida como antes, nem se for enterrado indevidamente.
Frank ouvira um barulho de algo mexendo entre as folhagens das árvores e se virou por uns segundos olhando com atenção.
— Frank, na escuta? — chamou Carrie.
— Ah, sim, tô na linha. Então essas fazedoras de anjos são maníacas assassinas... E eu que pensava ter achado uma saída menos desconfortável.
— Me diz que você não tá tentando contato com a menina desaparecida pra satisfazer o desejo mórbido dela.
Frank procurou se distanciar um pouco de Lilian que o esperava parada.
— Olha, já tô com ela aqui conduzindo pro cemitério. Mas relaxa, tá tudo sob controle. Pelo menos um Myling fora do rastro de uma psicopata e com chance de descansar em paz.
— Ai, meu Deus... Eu te disse que eles são atraídos pelas fazedoras de anjos, não foi? Quem adotou as cinco crianças que fugiram do orfanato?
— Elas não tinham fugido do orfanato... Foram adotadas pela Kendra, a assistente so...
A fala do detetive foi bruscamente interrompida após ele receber um forte golpe na cabeça por uma pá e cair inconsciente. A agressora pegara o celular para encerrar a chamada, mas não sem antes dar uma palavrinha.
— Sou eu mesma, esse é meu trabalho. — disse Kendra com o aparelho colado ao ouvido.
— Você!? Cadê o Frank? O que fez com ele, desgraçada? — perguntou Carrie, apreensiva.
— Tirando um cochilo. Estive pensando em adota-lo, caras de meia-idade fazem o meu tipo. Ele é um pedaço de mau caminho. É com a namorada dele que estou falando?
— Sua... Não vai sair impune disso, e tenho dito.
— Sinto muito. Com o trabalho que levo, acho que me verá enquadrada por um crime no dia de São nunca. Tchauzinho. — disse Kendra, logo desligando.
Lilian se aproximava, apática à maneira como sua ex-adotante temporária tratou de aplacar Frank.
— E você, meu anjo... Não sabe a felicidade que sinto te reencontrando. — disse Kendra, tomando proximidade.
— Por que bateu nele?
— Oh, não se assuste, eu já o havia conhecido. É um picareta de marca maior, iria joga-la numa vala qualquer. Não reparou nas roupas dele? É um detetive federal. Tinha intenção de acabar com você por ter matado aquela mulher que te deu carona.
— Então... posso voltar a morar com você? Parece que salvou minha vida.
— Mas é claro que pode, querida. — disse Kendra, inclinada para frente, dando um largo sorriso de afeição para Lilian que mal imaginava que por trás daquela face existia o total oposto do que sonhava.
***
Frank despertava vagarosamente, sentindo os pulsos atados por cordas firmadas em uma cadeira sem braços. A visão se normalizava aos poucos. Após muitas piscadas, viu cada vez menos embaçada.a figura de Kendra afiando um cutelo na mesa daquela cozinha. A fazedora de anjos, usando um avental amarelo por cima de um vestido rosado, lançou-lhe um olhar mordaz ao ver que seu cativo acordara.
— Bela casa a sua. Bem decorada, organizada... — disse Frank olhando o cômodo em volta — Nem parece que aqui mora uma vadia psicopata e infanticida.
— Pois vai ser essa vadia aqui que o colocará de joelhos depois que eu fizer picadinho dos fedelhos que colecionei. — disse Kendra aproximando-se com o cutelo.
— Tá pensando que é quem? A bruxa do João e Maria?
— Não, sou melhor. Como os pirralhos, mas aperfeiçoada.
— Então... Você é uma Myling. Como assim? Achei que não passassem mais por fase de crescimento.
— Toda a agonia desse estado de não saber se está vivo ou morto acaba depois que se atinge a puberdade. Ficar vagando por aí na expectativa de que uma alma caridosa lhe dê um funeral apropriado? Coisa do passado, página virada. É um senso de maturidade diferente dos que estão definitivamente vivos. Eu apenas recomecei minha vida, abandonando essa ideia estúpida pra me reinserir na sociedade. O que sobra é apenas o desejo de matar, seja alguém como eu ou não. — disse Kendra, passando a lâmina do cutelo suavemente pelo rosto de Frank como provocação.
— Se eu entendi bem... Seu trabalho sujo é impedir que essas crianças descansem em paz porque é uma coisa que você jamais teve e terá.
— O que posso fazer? Desobedecer ao instinto é impossível quando se alcança a maturação.
— Mentiu sobre as crianças terem fugido por conta própria... Na real, só a Lilian que escapuliu. A propósito, onde ela tá? Junto com as outras?
— Revendo os amigos. Uma última reunião antes do jantar. Você fica de sobremesa.
A campainha soou, fazendo Kendra bufar de impaciência.
— Visitas a essa hora? Quem será? — questionou ela, cravando com força o cutelo na mesa da cozinha . — Espero que sua amiga não tenha chamado a polícia.
Fora abrir a porta e ao fazê-lo estranhou com a visita daquele homem parecendo um afrodescendente americano careca e de porte bem atlético.
— Me diga que você não é um policial. — disse Kendra.
— Tenho cara de ser um tira? — indagou ele, exibindo olhos inteiramente pretos ao pisca-los. Kendra sorriu ao ver que aquilo sugeria o início de uma aliança.
— Um enviado do inferno. Não pra me buscar, certo?
— Busco alguém chamado Frank Montgrow. Conhece? Meu cão especial farejou o cheiro da carne suculenta dele até aqui.
— Se eu conheço? Está ali na minha cozinha, amarrado que nem um porco pro abate. Mas ele pode ser todinho seu... se me ajudar a fritar umas crianças malcriadas num ambiente fechado. Você prefere mal-passada, eu prefiro bem-passada. O que me diz? Sócios?
O demônio que possuíra o corpo de Adrael dera um malicioso sorriso de canto, simpático a ideia. Frank aguardou o retorno de Kendra pelo que pareceu uma hora. Com a demora prolongada, tentava afrouxar o nó da corda com grande esforço. Conseguindo desatar, o detetive levantou-se apressado. Olhou pela janela da cozinha, vendo um cachorro pastor alemão vir até a casa, mas um detalhe não passou despercebido.
— Puta merda... Cão do Inferno. — constatou ele ao notar dois pontos vermelhos e brilhantes onde estavam os olhos do animal — Tá vindo pra cá...
Crendo não haver como escapar a tempo pela porta da frente, considerando o campo livre com o sumiço misterioso de Kendra, Frank tomou uma atitude corajosa, mas que o livraria de virar ração do monstro infernal. Deitou-se no chão, pegando do bolso interno do sobretudo uma garrafa com água santa e a derramou sobre si mesmo da cabeça aos pés, tomando um banho com o líquido sacro. O cão entrara. Ao chegar na cozinha, sua sombra na parede graças a lua aumentava de tamanho dada sua transformação bestial que acontecia sempre quando se aproximava de uma presa.
O método executado por Frank consistia em tornar-se invisível e inodoro ao cão do inferno revestido pela água santa. No entanto, a secagem da água enfraqueceria a defesa, o expondo gradualmente, por isso mesmo o detetive torcia para que ele viesse rápido. O cão se avizinhava com seus passos pesados das patas com garras grandes e afiadas. Com os olhos fechados, como se fingisse de morto, Frank sentiu o hálito repugnante da fera em lufadas no rosto enquanto a mesma o cheirava, quase encostando o gélido focinho. O detetive fazia cara feia com o horrível odor, controlando uma súbita ânsia de vômito.
O cão infernal passou a farejar a despensa, a mesa, as cadeiras, até enfim desistir de procurar por seu alimento. Abrindo um só olho, Frank o viu sair. Mas esperou mais alguns segundos para levantar e soltar uma expiração de alívio. Porém, após fazê-lo, Kendra retornava, já arrancando o cutelo da mesa para vir ataca-lo. Frank desviava agilmente, logo segurando o braço dela, lhe dando uma cotovelada e em seguida uma bofetada forte com o corso da mão. Kendra revidou com um chute na barriga, potente para empurra-lo contra a despensa.
Com ela vindo para desferir um golpe brutal, o detetive, caído e sentado, reparou em algumas garrafas de uísque acima e pegara uma, logo abrindo-a e tomando um gole rapidamente, mas segurando na boca. Sem que Kendra percebesse, sacou um isqueiro do bolso e o acendeu
— Que liberdade é essa pra tomar da minha bebida? — perguntou Kendra, aproximando-se com o cutelo erguido. Frank esperou ela andar mais uns centímetros. Logo, cuspira o uísque ao mesmo tempo em que encostou a chama do isqueiro no jato, o que acabou por faze-lo "cuspir fogo" diretamente no rosto de Kendra. A Myling recuou urrou em dor e fúria, largando o cutelo enquanto sua face ardia em chamas. Tentava apagar desesperadamente o fogo com tapas.
— Tomara que seja de terceiro grau pra você nem mais sair de casa fingindo ser gente! — disse Frank levantando-se. Avançou contra ela dando sucessivos socos — Quer um tratamento estético? Não posso garantir nada. — falou, dando mais um soco extremo, o que a derrubou. Kendra ficara no chão, encolhida e gemendo. O detetive tivera uma ideia de como obriga-la a dizer onde situava-se o cativeiro das crianças. Havia um grande aquário quadrado sobre o balcão para o qual ele se dirigiu. Sacou novamente a garrafa de água santa, derramando o restinho no aquário. Em seguida, fora até Kendra pega-la pelo cabelos e a trazendo para perto do aquário.
— Não vai conseguir nada tentando me afogar, seu miserável! — disse Kendra, seu verdadeiro e horrendo rosto por baixo de sobras da pele humana queimada.
— É o que veremos. — disse Frank segurando-a agressivamente pelos cabelos — Porque vai ser pior.
Frank baixou a cabeça de Kendra na água do aquário misturada a água santa, gerando uma efervescência. A Myling se contorcia de dor com a ardência. O detetive retirou-a com força.
— Onde trancafiou as crianças?
— Tarde demais. — disse Kendra, o rosto horrivelmente corroído, quase esquelético, mas seus olhos amarelos de Myling brilhavam. Nada satisfeito, Frank submergiu a cabeça dela no aquário novamente, a torturando inclemente. O grito dela produzia inúmeras borbulhas. Depois, retirou-a da água — Não tá sentindo esse cheiro de queimado?
— Tô sim, tá vindo direto da sua cara carcomida.
— Não, seu idiota. Lá fora.
Frank ameaçou submergi-la outra vez na água, mas logo ela sinalizou medo.
— Não! Tudo bem, você venceu. Tem uma casinha pelo fundos que serve pra levar a um abrigo subterrâneo. Mas elas estão fora dele. Botei fogo em tudo. O que espera salvar lá, hein?
— Nem que haja uma vida sobrando, vou tirar desse inferno que você criou. Adeus, vadia. — disse Frank, logo sacando uma arma e apontando-a por baixo do queixo de Kendra. Disparou, a bala atravessando o topo da cabeça. Deixou o corpo da assistente social ali, correndo direto para fora da casa rumo ao cárcere. Viu fumaça, passando pelo lado esquerdo da casa, assim encontrando a casinha mencionada que se via totalmente em chamas. Correu para verificar se ainda tinha uma criança segura. O que viu deixara-o alentado — Ah, graças a Deus... — falou, olhando para as crianças todas juntas em um canto ajnda não consumido pelo fogo. Contou-as, confirmando serem ali as cinco, incluindo Lilian.
Frank as mandava sair depressa. Lilian parou frente a ele, olhando-o.
— O que foi, Lilian?
— Ela disse que você queria me matar.
— Ela tentou matar todos vocês aí dentro. Olha o que eu tô fazendo. — contestou Frank — Viu quem é bom e mau nessa história? Agora corre lá com os outros, se ver um carro cinza parado se esconde atrás dele.
Lilian obedeceu, correndo para alcançar os demais Mylings até o sedã prata estacionado. A casa de Kendra localizava-se em meio ao bosque, uma área aberta. Frank de repente ouviu um grito, parecendo ser uma criança, aparentemente vindo da casa.
— Caramba, será que tinha mais uma que ela trancou lá?
O detetive correu de volta, entrando com um furacão. Mas ao andar pela casa, passando para um quarto, levara um soco vindo da sua direita. O agressor tratava-se do demônio possuindo Adrael. Frank caiu para o lado, limpando sangue da boca, logo vendo quem estava ali na sua frente.
— Adrael?, Não, peraí... — disse, notando os olhos pretos — Cacete... Não pode ser...
— Adrael e eu somos colegas de quarto agora. Pra sempre. — disse o demônio, logo erguendo sua mão direita para usar sua telecinesia ao jogar Frank contra uma mesa de madeira que virou com o impacto — Adivinha quem foi o vencedor do jogo "Pegue o melhor receptáculo"?
Frank tentava se reerguer, mas suas costas doíam.
— Tá bom, vou dar uma dica: confessionário. E aí?
— Um cão do inferno usando a pele de um pastor alemão vindo pra me devorar... E o sarnento ainda me cheirou na entrada da igreja... Fui burro de não ter deduzido. — disse Frank, usando a mesa virada como trincheira para o demônio não vê-lo retirando a lâmina sacerdotal — Bem que a Ethrea avisou. — falou baixinho — Me diz aí? O que levaria um demônio a fingir ser um padre?
— O sublime prazer de ouvir a desgraça humana e a excitação de controlar a risada. — disse o demônio, chegando perto — E você? O que achou da minha imitação de criança?
— É, você grita como uma menininha... E bate como uma também.
— Ah, é? Então por que você tá aí escondido que nem um coelhinho assustado? Anda, sai daí, me encara.
O demônio já estava prestes a arranca-lo detrás da mesa quando Frank aproveitou a deixa para cravar a lâmina na coxa esquerda do anjo. O demônio grunhiu alto e o detetive reergueu-se pondo sua mão direita sobre a testa dele, logo recitando o exorcismo romeno. Os olhos do demônio brilhavam uma luz amarela enquanto ele sofria durante sua expulsão. Com o término do exorcismo, o corpo de Adrael caiu para trás e o detetive tratou de remover a lâmina. O anjo voltava a si, sentindo a dor excruciante na coxa.
— Adrael... Digo, Adrian... Calma aí, logo vai passar, ele se foi. — disse Frank, desatando sua gravata para amarra-la sobre a ferida — Aguenta firme, Adrian. — apertou o nó fortemente.
— Quem... Quem é Adrian?
A indagação fizera o detetive olha-lo estupefato. Adrael levantou um pouco a cabeça.
— Frank... O que está havendo? — perguntou, os olhos semicerrados — Sinto muita dor...
— É, você... você foi exorcizado, um demônio te possuiu, eu tive que enterrar a lâmina sacerdotal na sua perna pra testar um método arriscado de exorcismo que a sua amiguinha, a Ethrea, me ensinou. Vai ficar bem, o sangramento tá estancado. — disse Frank, fazendo uma pausa — O que foi isso?
— Isso o quê?
— Sua memória foi apagada pela Ethrea, te forçando a ser adotado por um fazendeiro que te deu o nome de Adrian.
— O Sr. Gibbon... Ele foi morto pelo demônio.
— Ele morreu, foi? Mas como ainda conserva as memórias de quando você era o Adrian? Não, a pergunta de um milhão é: por que sua memória foi restaurada depois do exorcismo?
— Eu... Eu não sei. — disse o anjo, confuso.
— Vem aqui. — disse Frank, pegando-o pelo braço para carrega-lo — Consegue andar numa perna só?
Ambos seguiram o trajeto até o sedã prata. Frank resolveu parar após Adrael garantir que podia andar, ainda que mancando.
— OK, mas antes de irmos pra casa... — disse Frank fitando algo na escuridão entre as árvores — Me faz um favorzinho?
Adrael o olhou curioso, logo percebendo os Mylings os observando perto do carro com seus olhos amarelos brilhando como vaga-lumes no escuro.
***
A dupla havia ido ao cemitério para o qual Frank inicialmente pretendia levar Lilian. Naquele momento, o detetive terminava de enterrar a quinta e última criança. Enquanto isso, Adrael, diante das sepulturas, fora incumbido da função de orador fúnebre proferindo um discurso redigido por Frank numa folha de papel amassada.
— É enfim chegada a hora destas pobres almas desencarnarem deste mero plano terreno em busca da mais absoluta plenitude de espírito que pode ser apenas encontrada na Eternidade, quando todas as mágoas e rancores do sofrimento que vivenciaram tiverem cessado em seus corações. Mesmo que tenham sido vítimas da maldade humana que ceifou suas inocentes vidas, mesmo que a finitude da existência tenha chegado tão prematuramente, eu acredito que as almas destes anjos ascenderão ao reino de Deus purificadas e livres de quaisquer memórias relacionadas às barbáries sofridas. Acredito também que hajam lágrimas sendo choradas por suas ausências. Mas acima de toda a dor, o consolo virá a todos que estiverem em prantos, além do perdão divino pelos pecados pretéritos. Sigam em paz, anjos de luz e pureza. Descansem pequenas almas em seus berços de sono eterno.
— Prontinho, acabei. — disse Frank, concluindo o enterro do último Myling. Foi até Adrael segurando a pá suja de terra — O que achou? Não tá muito piegas, né?
— Pra um discurso escrito às pressas... ficou bastante honroso às memórias dessas crianças. Foram palavras muito belas e sinceras. Sem dúvidas, elas estão satisfeitas.
— Bem, vamos indo pra casa. Você vem, né?
— Não sei. — disse Adrael, incerto quanto ao seu futuro — Ethrea ficará sabendo que saí daquela fazenda e recuperei minhas lembranças. Não estou a salvo em lugar nenhum, Frank. Minha paz acabou.
— Eu falei com ela hoje de manhã. Não mencionou nada sobre o que faria caso o exorcismo fosse bem-sucedido. Talvez isso queira dizer que ela não vai mais insistir em te manter longe de mim.
— Então... — disse Adrael, balançando lentamente a cabeça em negação — De que serviu me submeter a esse destino tendo que aceitar viver outra vida esquecendo de quem sempre fui? As vezes, eu não consigo entendê-la.
— Se você não entende, que dirá eu. — disse Frank, pronto para sair dali — Vem, vamos. Esquentar a sua cama de hóspede. — porém, parou ao relembrar algo — Ah, ia esquecendo. – falou, retirando uma rosa vermelha do bolso do sobretudo. Caminhou até o túmulo de Lilian e depositou a flor sobre a terra batida, em seguida voltando para se dirigir até o carro e ir embora com o seu restituído hóspede.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://ghostsandmonsters.com/mylings-life-force-draining-child-ghosts/

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