Frank - O Caçador #102: "Sangue de Milhões"


Na zona leste, um prédio ainda em plena fase de obras estava sendo visitado por uma gestora e uma cliente que atendia por Irene Montoya, uma moça jovem vinda Londres poucos dias atrás no intuito de fixar-se no continente americano para um recomeço de vida. Irene tinha sedosos cabelos castanhos e usava uma blusa preta sem manga com a estampa de uma aranha vermelha com patas finas. As duas entraram no edifício inacabado para uma conversa negociadora. 


— Por incrível que pareça, os andares de cima já estão tomando forma. — disse a gestora, uma mulher morena de cabelo castanho claro usando um terno feminino púrpura, olhando para cima junto de Irene — No que se refere ao encanamento, já providenciei material pra iniciar amanhã mesmo. Tá decidida? Não querendo te desencorajar, mas o meu prognóstico não vê uma conclusão pra breve. Vai custar mais da sua paciência do que do seu dinheiro.

— Eu sinto que vou gostar daqui. — disse Irene contemplando o interior do edifício resumido a tijolo e concreto, além de vários itens de construção.

— Bem comum dizerem isso, mas geralmente é quando a obra já se encontra finalizada. Mas gostei da positividade, parece confiante de que isso aqui vai ser um apê de arrasar. 

A gestora logo sentiu um incômodo estranho nos braços, não demorando a constatar o que era. Vários fios de teias de aranha caíram sobre ela. 

— Que coisa, as aranhas estão mais ansiosas do que você com a moradia. — disse ela, arrancando as teias. Porém, via ser inútil, pois mais fios caíam, desta vez se avolumando — O que é isso? Quanto mais teias eu tiro... mais aparecem! 

— É porque já estive aqui antes. — disse Irene virando-se para ela num sorriso cínico — Pra deixar meu bichinho de estimação se acostumar com o ambiente. 

As teias imobilizaram os braços da gestora, em seguida amordaçando-a. A fizeram tirar os pés do chão enquanto ela gritava por socorro com o som da voz não soando mais que gemidos abafados.

— Será que é proibido animais exóticos aqui? Como sou a dona, determino que... não. — disse Irene olhando para cima sorridente. A gestora acompanhou o olhar, vendo uma aranha vermelha de cabeça azulada e oito olhos grandes e asquerosos descer pela sua rede de teias com seus dentes movendo como sinal de fome. Ela gritou mais forte, a face de horror.

Logo após a refeição de sua companheira aracnídea, Irene fora a um compartimento do prédio no qual jazia algo que a fazia se ajoelhar quando estava diante. 

— Meu mestre, profetizo teu despertar para o mais breve possível. O sonho que compartilha com seus filhos se realizará em toda a sua glória. 

O objeto de adoração se tratava de um ovo do tamanho de uma motocicleta colocado sobre uma pilha de tábuas largas. O mesmo tinha uma coloração avermelhada escura com veis negras e emitia brilhos internos e fosforescentes da mesma cor como algo pulsando para se libertar da prisão.

***

A manhã começara cheia de energia para dar e render ao longo do dia, do jeito que Frank tanto apreciava. O detetive descia a escada bem rápido para ir tomar café. Resolveu dar uma olhada no celular, verificando o aplicativo de mensagens instantâneas. Mas encontrou algo diferente quando viu o nome de Natasha aparecer no topo da lista de contatos com uma nova mensagem, esta em vídeo.

— A Natasha... me mandando vídeo? Esquisito...

Tocou na tela para conferir a gravação audiovisual, depois no ícone do play para reproduzir. 

— Frank, eu vou tentar ser o mais clara e direta possível, apesar das circunstâncias. — disse a caçadora parecendo estar numa situação de conflito, escondida numa parede — Sei que vai estranhar, nunca fui de gravar áudio nem vídeo, mas dessa vez se faz necessário. Atualmente tô enfrentando uma sociedade secreta composta por vampiros exilados de facções, ela é chamada de Irmandade da Viúva Negra. Não sei já ouviu falar das aranhas vampíricas, as criaturas que eles usam como cães de caça. Capturei uma integrante desse grupo, uma vampira chamada Irene, mas ela me escapou. Saiu há dois dias com o ovo de uma entidade milenar chamada Venogok, o patrono das aranhas vampíricas e fundador da sociedade que acolhia vampiros solitários e rejeitados, o adoravam como uma divindade. Ela viajou para os Estados Unidos, certamente desembarcou aí em Danverous City onde tem maior concentração de vampiros na América. Deve estar fazendo vítimas a esse altura, usando uma aranha para drenar o sangue de vítimas e verte-lo ao ovo no qual Venogok está adormecido por ter perdido uma luta contra caçadores antigos. Você tem que agir rápido, faça o que for...

O vídeo encerrou-se abruptamente, fazendo o coração de Frank palpitar de aflição. 

— Essa não... Natasha, o que foi que houve? — perguntou a si mesmo, não deixando de imaginar como Carrie se sentiria quando lhe mostrasse — Ai, meu Deus, a Carrie vai surtar quando ver isso. 

***

Departamento Policial de Danverous City 

Frank tomou cuidado com as palavras antes de mostrar a Carrie o vídeo com final preocupante. Ela assistiu petrificada e ao final imaginou mil e um cenários apavorantes nos quais a vida da caçadora estivesse no mais alto risco periclitante. 

— Meu Deus... — disse ela, a boca tremendo — Frank, me segura, acho que vou ter uma síncope ou um derrame...

— Calma aí, relaxa, respira devagar e bem fundo. Quer uma aguinha? — perguntou Frank indo até o bebedouro com garrafão azul cheio. 

— Sim. — respondeu ela, deixando o celular do detetive sobre a mesa, as mãos trêmulas e suadas.

— Ela não mandou nenhuma mensagem de texto dizendo onde tava nessa hora. Enviou ontem à noite, lá pelas onze, não vi direito... Toma aqui. — disse Frank entregando o copinho descartável com água. A assistente tomara um gole, nervosa.

— Onze e vinte e quatro. — disse Carrie, o tom da voz denotando seu medo com o que pode ter ocorrido — Não vou ter condições de trabalhar normalmente hoje... Olha como a droga desse vídeo acaba! A minha estrela do rock não pode ter morrido assim tão fácil pra um bando de vampiros, impossível.

— Carrie, vamos ser racionais, não deixar a emoção dominar a razão. E principalmente sermos otimistas. A Natasha pode ter sido só interrompida, na melhor das hipóteses. Não ouvi barulho que sugerisse uma explosão, algo assim. — disse Frank, sentando na cadeira diante dela — Fica de boa, pensa que ela tá bem, não deixa essa angústia interferir no trabalho. Senti medo também do pior, mas lembrei da guerreira incansável que ela é e apostei pelo melhor.

— Eu vou tentar seguir o dia. — disse Carrie, teclando em seu computador — Segurar o choro... Acalmar meus nervos... Vai, pode dizer, eu tô exagerando, né? 

— Você costuma gostar quando sou honesto, então... Sim, você tá. Um pouquinho, mas tá. Olha, considerando a probabilidade alta da Natasha ter saído viva dessa caçada, a pior coisa no momento é esse tal ovo que tá sendo chocado por uma vampira que deve estar pintando e bordando na cidade. Por essa eu não esperava: os vampiros tem um líder divino a seguir. E eu que pensava que a pior coisa vinda dos chupa-sangue fosse um barão com dez anéis superpoderosos nos dedos. E que raio de nome é Venogok? Parece vilão dos Power Rangers.

— Escuta só, Frank, acabei de descobrir o desaparecimento de uma gestora de obras, Valerie Pratt. Na noite de ontem, ela tinha um encontro com uma cliente pra verificar a estrutura do prédio, segundo o chefe da construtora.

— A Natasha falou que a Irene tá por aqui faz dois dias. Não seria coincidência, ela precisava de um local pra comportar o ovo que deve tá crescendo à medida que é alimentado com sangue, sem falar na aranha.

— Argh, não bastavam serem asquerosos ligados aos morcegos, agora tem associação com aranhas. – opinou Carrie, sentindo ojeriza — Conferi aqui no site da construtora. Valerie supervisionava três obras simultâneas. E veja só que belo achado: dentre as pessoas que recentemente fecharam acordo, uma chamada Irene Montoya está cadastrada com a compra de um imóvel registrada. Mas o local não tá especificado, que saco. 

— Então foi isso. A Irene aproveitou a ocasião pra dar o bote na gestora e fazer dela mais uma bolsa de sangue pra nutrir o ovo. — disse Frank, certo de que tudo transcorreu daquela forma — O problema é localizar esse prédio. O que cê tá fazendo no meu celular? Devolve aí, dei um de presente pro Adrael, ele leu o manual de cabo a rabo e já tá aprendendo a usar o Instagram, preciso mandar uma mensagem pra ele não vir atrás de mim.

— Espera... — disse Carrie, os olhos vidrados na tela — Não conferiu a área privada?! Ela mandou uma segunda parte daquele vídeo uma hora depois. O que significa... — falou a assistente, um sorriso de alegria se desenhando no seu rosto. Apertou no play. 

— Frank, o primeiro vídeo não acabou do jeito que eu gostaria, deve ter te deixado bem preocupado. Mas estou ilesa, em boa parte. 

Frank e Carrie davam graças a Deus com suspiros de alívio. 

— Deu tempo de enviar apesar daquele ataque com a minha guarda baixa. Faltou um detalhe imprescindível: o rubi do Sacre é a chave pra destruir Venogok ainda dentro do ovo. Mas mesmo se ele chegar a sair, é possível elimina-lo poucos segundos depois apontando o rubi pra uma fonte de luz, de preferência solar. Então você terá de resolver isso durante o dia. Torcendo pra que consiga vencer a Irene e impedir Venogok de renascer pra controlar os vampiros de todas as facções existentes. Mesmo adormecido ele força uma conexão psíquica com todos os vampiros, mostrando visões de seu retorno. Boa sorte, vai precisar. 

Após o fim do vídeo, ambos ficaram num breve silêncio. Frank refletia sobre o último pormenor.

— O lance psíquico... Acho que já sei como localizar o prédio onde a Irene tá enfurnada. Basta eu ir a um covil de facção perguntar do paradeiro dela. Supondo que essa conexão seja compartilhada não só entre o Venogok e os vampiros, mas entre eles também.

— Acredita que eles tenham ganhado um poder extrassensorial pra enviar imagens telepáticas uns pros outros com a presença desse monstro que quer acordar do seu sono de beleza? 

— É com essa teoria que tô contando. — disse Frank, levantando-se — Hora de esticar as pernas, afiar uns facões e carregar umas armas com balas de prata.

— Mas é uma facção inteira caindo no seu pescoço, Frank. Se pensa que encara essa sozinho, você perdeu o juízo. Não ficou deslumbrado com essa ideia de caçador potencial que tem gravitado sua vida ultimamente, né? 

— Não é isso, só vou chegar na maciota pra pedir a informação. Provavelmente ficam em menor número durante o dia. O resto tá por aí fingindo ser cidadão. Vou indo nessa. Me liga ou eu te ligo. — disse Frank, logo saindo da sala meio apressado. 

***

Na saída ao estacionamento, o detetive tivera uma surpresa que o fez congelar por uns segundos. Frank engoliu a saliva devido a tensão de observar aquilo. 

— Não dá pra acreditar... Mas como foi que chegou até aqui? A pé que não foi. 

Era Adrael que vinha até ele tranquilamente, usando as mesmas roupas que Frank lhe dera inicialmente: casaco azul por baixo de uma camisa branca, calças jeans e botas de segurança. 

— Me desculpe, eu comecei a me sentir sozinho...

— Se sentiu sozinho, foi? Deixa de conversa fiada, só porque deixou de ser um anjo legítimo não quer dizer que tem obrigação de contar mentiras como um humano. Ainda bem que essa parte é um ponto cego pro circuito interno. 

— Frank, eu vim vê-lo no seu trabalho, se isso o incomoda tanto eu posso ir embora e jamais saio de casa sem sua permissão, prometo. 

— Não, agora que você tá aqui eu quero que me diga porque saiu pra me ver. O que te deu pra fazer isso? Ah, já sei. — disse Frank, logo estalando os dedos como se tivesse adivinhado a razão da escapulida do seu hóspede — Você quer ir à igreja, né? Peraí, se veio por transporte, por que não pediu pra ir até lá?

— Isso não faria o menor sentido. Eu obviamente pediria se chamasse um táxi ou pegasse um ônibus. — retrucou Adrael, franzindo a testa.

— Aham, eu sei. Até porque não sou a única pessoa dessa cidade ou do mundo confiável o bastante pra te levar à igreja. Fala logo porque veio, Adrael. Eu tô pra iniciar uma investigação daqui há pouco. 

— Ótimo, é uma hora oportuna pra fazer meu pedido.

— Que pedido? — indagou Frank, intrigado. 

Adrael respirou fundo antes de externar sua vontade.

— Quero me tornar um caçador. 

A fala causou um súbito ataque de riso em Frank que precisou se segurar numa coluna de concreto. 

— O que eu falei de tão engraçado? — perguntou Adrael, sem entender a reação — Eu disse que quero me tornar um caçador, assim como você. 

O riso de Frank se intensificou numa gargalhada alta, gerando uma grande impaciência ao anjo banido.

— Frank, preciso que me leve a sério, é um desejo sincero, quero unir forças com você numa caçada. 

— Não. — disse Frank, indo de cem a zero, bruscamente assumindo severidade e dureza no tom erguendo de leve o indicador direito como sinal de ordem — Nem vá pensando que vou treinar você ou coisa do tipo, a resposta é não e ponto final. 

— Não quero treinamento, mas sim me tornar o seu parceiro numa investigação... agora. Nasci um serafim e serafins nascem para guerrearem, são instruídos a manejar uma espada desde a infância. Ainda que eu esteja como humano, posso lidar com qualquer criatura se eu estiver bem armado. Você me julga pela meu estado de existência, mas esqueceu da classe a que pertenço e o propósito que ela serve.

O detetive necessitou de um instante para ponderar a decisão de faze-lo sair da rotina daquele modo. 

— Tá se sentindo um passarinho engaiolado naquela casa, né? Foi mal, eu devia ter me colocado mais no seu lugar. Te fiz suportar uma vida monótona de isolamento e solidão. De uma maneira geral, você só quer minha companhia. — disse Frank, compreendendo enfim o anseio do anjo, tocando-o no ombro — Tá contratado. Mas por segurança, não sai de perto de mim. OK? 

Adrael dera um sorriso como Frank nunca havia visto. Ambos se encaminharam até o sedã prata no estacionamento sempre lotado do departamento. 

— Obrigado, Frank. Você me parecia difícil de convencer. 

— Não há de quê. Vou contar com sua experiência em espadas nessa primeira caçada, não me decepcione. — disse o detetive, desativando o alarme do seu carro.

***

Após cerca de uma hora no trajeto, Frank encostava o sedã prata logo em frente ao que parecia ser uma entrada de comércio que indicava ser abandonada há tempos pelo excesso de pichações e desgaste da pintura amarela na parede. 

— Muito bem, chegamos. — disse Frank que sacou uma arma de um bolso interno do sobretudo, puxando a trava. Pegou no outro bolso o facão, dando-o a Adrael — Toma aí seu fatiador de vampiros. Não vai julgando pela aparência. Parece de açougueiro, mas é exclusiva pra caçadores. Prata do mais alto calibre assim como as balas. Bem leve, né? 

— Não querendo mostrar ingratidão, mas... Eu ainda prefiro a minha espada. A propósito, onde a guardou? — perguntou o anjo banido analisando a lâmina arredondada com dentinhos na lateral.

— Tá segura no meu museu lá no porão. Deixa ela pra quando formos chutar os traseiros de uns demônios.

Ambos saíam do carro, caminhando diretamente a entrada pela porta que dava a uma escada descendo a escuridão. Adrael parou logo depois de Frank descer três degraus. O detetive virou-se e perguntou:

— Ué, qual foi? Pegou medo do escuro de repente? Vambora. 

O anjo acatou, seguindo-o com contido receio. 

— Foi só um... mau pressentimento. — disse Adrael. 

— Shhh. — chiou Frank pedindo silêncio — Tenta fazer seus passos serem os mais silenciosos possíveis. — falou em voz baixa.

Alcançaram a parte subterrânea que se assemelhava a uma espécie de bar onde ocorriam variados jogos de apostas e havia uma plataforma similar a um ringue de luta livre no qual se disputavam combates entre vampiros. O local estava mais iluminado ppr uma lampada velha numa pequena área com mesas e cadeiras viradas. 

— Não parece haver ninguém aqui. — disse Adrael olhando em volta. 

— É o que eles querem que você pense. — retrucou Frank, ouriçado. Adrael não resistiu a uma coceira no nariz pela poeira excessiva do lugar e acabou por soltar um espirro alto. Frank se virou alarmado.

— Me desculpa. — disse o anjo banido. Frank logo mirou a arma — Não precisa atirar, eu só espirrei.

— Atrás de você, se abaixa! — disse Frank disparando contra um vampiro que veio sorrateiro visando pegar Adrael em guarda baixa. O tiro o acertou na cabeça, derrubando-o. Outros três surgiram, mostrando seus olhos azulados e presas afiadas. 

— Que dia lindo, sangue quente e fresquinho vindo até nós. — disse uma vampira, uma jovem de uns vinte e poucos anos de cabelo roxo e castanho — A primeira rodada é por minha conta.

— O coroa de sobretudo é meu. — falou um vampiro.

— Acho que vou pegar o outro cara. Faz o meu tipo. — disse outro, barbudo de cabelos cacheados. 

O trio vampírico avançou contra a dupla. Frank se esquivava de tentativas de agarra-lo enquanto Adrael recuava com o facão em riste contra o vampiro que o alvejou, afastando cada vez mais do detetive, não seguindo conforme o acordado. Frank levou um golpe forte no tórax, caindo sobre mesas, dando um tiro à esmo. Adrael resolveu tentar golpes com o facão, mas a agilidade do vampiro o superava. O anjo banido tomara uma cabeçada forte na testa, depois sendo chutado no peito e impactando contra uma parede, consequentemente largando o facão. Tateou na semi-escuridão procurando a arma. 

— Perdeu alguma coisa? — indagou o vampiro, logo chutando para longe a lâmina e depois o rosto de Adrael. Pulou sobre ele que defendeu-se tentando barrar a cabeça do oponente para impedi-lo de morder, mas a força do vampiro era incomparavelmente elevada — Não adianta, já era! 

Frank se reergueu abruptamente após se fingir de morto, atirando na perna da vampira e depois no torso de seu companheiro com grande rapidez. Depois os chutou, logo disparando mais vezes. A vampira mostrou suas presas, enfurecida, mas levara o tiro fatal na cabeça antes que caísse em cima.

O detetive correu até Adrael, atirando nas costas do vampiro. Notou o facão largado e o pegou, em seguida decapitando o vampiro antes que se virasse completamente para revidar. A cabeça rodopiou no ar com um jato espesso de sangue até cair ao chão.

— Adrael! Fala comigo! Ah não... — disse Frank tentando levantar o anjo de modo a senta-lo.

O anjo parecia meio grogue. A escuridão parcial não impediu Frank de ver dois orifícios no pescoço do amigo dos quais saíam filetes de sangue.

— Frank... Me sinto estranho... 

O detetive o olhava com máxima preocupação, sentindo que teria um problema adicional com a vindoura transformação de Adrael prevista dentro de pouco menos de 24 horas após a mordida profunda.

*** 

Havia anoitecido tinha pouco mais de uma hora e Frank dirigia com Adrael após uma espera longa com o carro estacionando num ponto onde fizesse uma boa sombra que privasse o anjo recém-transformado contra os raios solares. O detetive o olhava curioso de soslaio em curtos intervalos, o que deixava o anjo desconfortável. 

— Já sei o que quer me perguntar. — disse Adrael olhando pela janela — "Tá se sentindo bem, Adrael?" Olha, eu não quero causar problemas...

— Não, Adrael, nem pensa que eu vou te largar no meio da rua enquanto passa por uma transição pra se tornar um vampiro sanguinário como aqueles lá.

— Me tornei um peso pra você. Fui descuidado, subestimei minha fraqueza humana.

— Que nada, você agiu da melhor forma que podia, ainda não se acostumou com sua humanidade. 

— Humanidade essa que já vou perder em pouco tempo. Não existe uma cura pra essa chaga que corrompeu meu sangue, certo? 

— Existir até existe... Mas ela tá num lugar que teremos de percorrer mais uns quilômetros pra chegar. Ainda temos tempo até o fim da transição. Relaxa aí e não deixa os seus sentidos amplificados te dominarem. Quer mais uma bolsinha de sangue? Pega. — disse Frank, pegando do banco de trás um bolsa de sangue retirada do local onde funcionava uma rede de tráfico sanguíneo — Malditos traficantes. Sorte a nossa que estavam só aqueles quatro. Se fosse o bando inteiro... Seríamos eu e você, dois vampiros ou dois cadáveres esvaziados. 

O anjo bebia da bolsa ininterruptamente como se estivesse se alimentando de água pura. 

— Quando disse que sabia como manejar uma espada... se referia a sua espada, né? 

— Exato. Desculpe faze-lo pensar que eu teria algum êxito nessa missão. Só te causei aborrecimento. 

— Para de pedir desculpas, você foi ingênuo, eu também fui. Tá tudo bem. A gente sai dessa, pode crer. — disse Frank o fitando seriamente. Desviou o olhar severo para o caminho adiante. 

O local ao qual se destinavam para a obtenção da meio que proporcionaria a cura a Adrael era uma mansão cujo endereço Frank havia tido conhecimento graças à seu próprio dono. 

— OK, aqui estamos. O oásis de que precisávamos. — disse Frank, parando o carro frente ao imenso portão em arco com grades pintadas a verniz preto — Vou sozinho. Tem mais uma última bolsa aqui atrás se bater a sede. Você... 

— Frank, vá logo. Eu estou bem, as mudanças pelas quais passo estão sob controle. Ao menos, por ora. Mas não se preocupe, ficarei aqui o esperando.

O detetive fizera que sim com a cabeça, confiante de que a transição correria sem transtornos. Saiu do carro e foi em direção ao portão. Falou no interfone recebendo passe livre. O portão se abriu deslizando devagar para o lado e Frank enfim adentrou no terreno da mansão luxuosa. O proprietário não era ninguém menos que Darius Atkinson, filho de Clancy que herdou não apenas o imóvel sob seu nome na escritura como também a liderança da facção dos Filhos de Merlin. O detetive fora bem recebido, chegando a relembrar o caso do homem-ectoplasma no qual tornaram-se aliados.

Mas no escritório de Darius a conversa rumou ao que de fato interessava a Frank. 

— Eu realmente ainda tô bem surpreso de você aparecer aqui, Frank. Não pensaria em outro motivo pra vir que não fosse um favor. Pode falar — disse o bruxo encostando-se na sua mesa. 

— Então, Darius... Na verdade tá mais pra um empréstimo. Mas antes eu preciso saber se você tem esse precioso elemento, se foi incluso na sua herança. Conhece as pedras espirituais que seu pai coletou uns anos atrás? Tinham um poder de absorver e comportar almas humanas. Eram três ao todo: uma esmeralda, um rubi e uma safira. 

— Já ouvi conversas a respeito disso do meu pai com alguns membros do clã, mas ele nunca me deixava totalmente a par. Merlin as forjou para derrotar um bruxo chamado Zaratro, conhecido como o mais poderoso e perverso bruxo das trevas a existir. Mas no fim das contas, o plano fracassou.  

— Então sabe do Zaratro... É justamente ele que tá pegando no meu pé hoje em dia. 

— O reviveram?! Não pode ser... — disse Darius, reagindo com certa estupefação — Se é verdade, como ele não veio atrás de nós? 

— Não sei, tenho medo de imaginar o que se passa na cabeça daquela múmia viva. Enfim, voltando às pedras... É do rubi que preciso. Você o tem? 

Darius se dirigiu a um cofre no qual girou o botão para executar a combinação e assim o abriu. Retirou de lá a pedra escarlate que estava junto das outras duas e a jogou para Frank. 

— Nossa, legal. Seria estranho voce não herdar o tesouro que pertenceu ao mago do Rei Arthur. 

— Use-o sabiamente. Só não esquece de devolver. — disse Darius que dera uma risada, a qual Frank respondeu igualmente.

— Valeu mesmo, cara. — disse Frank dando um aperto de mãos nele — Até a próxima... se houver.

— Espero que sim. Seríamos muito úteis em vingar nosso mestre numa hora dessas. Acho que a cabeça do Zaratro ficaria ótima nessa parede aqui atrás. 

— Se a coisa ficar feia pra valer, é bem provável que eu chame a sua galera pra dar um bom suporte. Prometo que devolvo em breve. — disse Frank olhando o contemplativo rubi — Boa noite.

— Idem. — disse Darius que abrira a porta para o detetive. Frank saiu pelo portão automático e mostrou de longe a pedra a Adrael. Paralelamente, Darius andava pela sua sala com as mãos para trás e foi até a janela observar o céu. Um mordomo entrara abrindo a porta com batidinhas — O que foi? 

— Eu só vim perguntar se... — disse o mordomo que desviou o olhar para o espelho para o qual Darius estava virado de perfil. Viu claramente a ausência de reflexo e olhou atônito — Quem é você? 

Darius logo ergueu sua mão esquerda movendo-a de um modo que fizera o mordomo cair com os olhos virados e jorrando sangue. Olhou friamente o serviçal morto, mas sentiu a maçã esquerda do rosto se esfarelar um pouco. Tocou sentindo o pó que denunciava a farsa de sua composição física.

***

No caminho em retorno, Frank esperava que Adrael comecasse a ter visões de Venogok ressurgindo tal qual os demais vampiros. 

— Encaremos a sua transformação como uma vantagem pra gente localizar a vampira safada e detonar com o ovo do monstrengo que ela deseja libertar pra reinar sobre todos os vampiros e propagar um banho de sangue generalizado. 

— Vai me curar só depois que terminarmos com essa operação? Eu não sei... Algo me diz que preciso completar a transição pra ter essas visões. 

— Será? Então, se for o caso, vamos ter de ir atrás de outro covil de vampiros. Se transformando num vampiro total, você vai ficar muito louco de sede e se afastar de mim pra fazer vítimas...

Adrael não escutou mais nada do que Frank dizia após reparar num corte ainda aberto na mão direita do detetive causado durante a luta no bar de apostas. As íris dos olhos do anjo tingiram-de um azul frio e intimidador. O anjo abriu sua boca, as presas crescendo e afiando-se. Repentinamente, o instinto foi obedecido a todo rigor quando o anjo avançou seus dentes contra a mão do detetive tentando desgruda-la do volante. 

— Ei, o que é isso? Solta! — disse Frank que se interrompeu assustado com o brusco movimento. Descontrolou-se na direção, o carro indo praticamente a zigue-zague com os pneus barulhentos. Desviou de outro carro vindo em sentido oposto, não batendo por pouco. Adrael se via completamente cego pela sede impulsiva e selvagem enquanto Frank tentava evitar de sua mão tomar uma mordida — Adrael, se acalma! Solta minha mão! Solta! A gente vai bater se você... Ah, merda! Cê não me deixa escolha, cara... 

O detetive acertou o anjo no rosto com uma cotovelada forte, atingindo-o no nariz. Adrael se encolheu no banco pressionando o nariz sangrando com certa dor. Frank retomou a direção segura.

— Desculpa, mas foi o único jeito pra te aquietar. Tá tudo bem? Não bati tão forte assim, né? 

— Não, você só quebrou meu nariz. — disse Adrael sentando direito no banco ainda com a mão no nariz ensanguentado. Frank retirou uma toalhinha branca do porta-luvas e entregou-a ao anjo para estancar a hemorragia.

— As bolsas de sangue acabaram, eu fui descuidado em não prever esse seu surto vampírico. — disse Frank que reparou no seu corte — Ah, foi isso... Deve ter sido lá naquela espelunca deitando aqueles vermes na porrada. Olha, tenta se controlar até chegarmos no próximo covil, OK? Sei que tá difícil, eu não quero te matar de desidratação, mas...

— Não te ocorreu que eu preciso me alimentar direto da fonte? Possivelmente pra ter as visões. 

— Nem ferrando que eu vou te deixar tascar uma mordida em mim ou em alguém inocente. Se segura aí ao máximo. Ou faz como eu quando quase passei por isso: se alimenta do próprio sangue.

— Já viveu essa experiência repugnante? Como sobreviveu? 

— Fui curado com o poder da magia. Você também será, desde que seja antes das 24 horas até o fim da transição. Vai, tenta se nutrir de si mesmo. Parece não fazer sentido nenhum, mas funcionou comigo. É uma fase intermediária, significa que seu sangue ainda tem propriedade humana. 

— Mas Frank... O fato de ter sido bem-sucedido nisso é devido a você ser inerentemente humano. Sou um anjo em estado humano, o resultado pode não ser o mesmo.

— Não custa tentar. Biologias diferentes não é um fator determinante, eu acho. Só tenta, vai fundo

Tomado pela hesitação, Adrael fitou seu antebraço esquerdo, incerto pelo fim que isso reservava, a confirmação ou a total falha. Resolvera arriscar, abrindo sua boca com as presas afiadas aproximando-as do antebraço. Mordeu fortemente, o gosto do próprio sangue ardendo quente na língua. Sem que nada o preparasse, sua mente foi invadida por imagens diversas de um ser monstruoso emergindo de um ovo grande e rugindo como uma fera. Num desses flashs, uma multidão de vampiros curvando-se ante ao que se proclamava rei. 

— Eu vi. — disse Adrael, a boca suja de sangue, parecendo ter acordado de um pesadelo — Uma criatura abominável, repulsiva... Não parecia ser deste mundo, apesar de ter pernas e braços como na anatomia humana. Saía de uma espécie de ovo...

— Conseguiu ver onde tá esse ovo? 

— Tudo bem, eu vou te guiar. Presta atenção antes que eu esqueça. De tudo que vi, gravei poucas coisas. — disse Adrael que diria o caminho exato para seguir rumo a localização atual do ovo. 

Posteriormente à execução da tarefa de GPS humano realizada por Adrael, a dupla enfim chegava ao prédio inacabado no qual Irene se abrigava. 

— Vamos nós dois armados de facões. — disse Frank olhando o seu — É provável que ela tenha feito alguns amigos de raça. Tá pronto? A sua cara tá melhor, antes tava meio pálido.

— Eu estou bem. Com disposição pra lutar. Isso até a sede bater de novo, eu resistir e enfraquecer. 

— É bom que aconteça depois da gente terminar com a vampira chocadeira. Vambora agilizar. 

— Frank, não seria melhor... — disse Adrael antes que Frank abrisse a porta do carro — Eu sou um perigo pra você e pra mim mesmo. Coloca uma algema em mim e me deixa aqui esperando. 

— Você tá a beira de se transformar num vampiro 100%, uma algema não ia te segurar por muito tempo. E não sei quanto resta ainda pra transição se completar. Já pensou? Termino o serviço, volto pro carro e descubro que você fugiu pra sair mordendo gente adoidado por aí. Portanto, é perto de mim que você fica até isso acabar. De acordo? 

Sem contrapontos, o anjo fez concordou, mesmo receoso com sua natureza reativa de vampiro em formação colocar em cheque a segurança de Frank no meio da tarefa. A dupla entrara no prédio, as lâminas dos facões cintilando com a lua. Frank fazia sinal com o dedo indicador esquerdo para Adrael se aproximar mais dele, passando por cantos escuros e quase iluminados. Porém, o detetive virou-se ao não sentir mais a presença do anjo que aparentemente se perdera. 

O detetive seguiu a procura do anjo, acessando a parte central do andar térreo. Avistou o ovo sobre as tábuas largas e o analisou curioso. 

— Quem veio primeiro: o ovo ou o desgraçado que tá dormindo nele?

— Essa eu sei responder. — disse Irene surgindo logo atrás dele. Frank se virou rápido, o facão em riste — Meu mestre não nasceu de um ovo. Ele se enclausurou nessa casca pra restituir suas forças após ser gravemente ferido. Sou boa com enigmas.

— E eu bom em fazer umas cabeças de vampiros rolarem. — disse Frank — Cadê meu parceiro? 

— Não sei de quem está falando.

— Ah, para de graça, eu não vim sozinho. Ele se perdeu de mim de repente. Cara alto, negro, careca, musculoso, tem um cavanhaquezinho... 

Irene dera um sorriso infame. 

— É esse aqui? — indagou ela, mostrando as teias de aranha que controlava telepaticamente. Adrael surgiu descendo preso as teias da cabeça aos pés para estar a uns três metros do chão — Eu não poderia me considerar mais sortuda. 

— Por que? Tira ele daí, vamos resolver isso, só eu e você. 

— Não posso e nem devo. — disse Irene andando devagar — O sangue dele é essencial pro mestre renascer muito mais forte do que antigamente. 

— Peraí, então sabe que ele... — disse Frank, ora olhando para a vampira, ora para Adrael que gemia e gritava por socorro através de seus olhos aflitos. 

— Um sangue tão especial como o dele vai conceder ao mestre um poder inestimável. Pude saber graças a conexão psíquica que eu estabeleci com todo e qualquer vampiro dessa cidade. Sinto cada mordida, cada gota de sangue bebida, cada passo dado... Devia ter mantido seu amigo de sangue tão raro no carro. Ah, e boa ideia em faze-lo se nutrir do próprio sangue pra vislumbrar meu mestre e virem até mim.

— Merda, esqueci da ligação mental... O ovo desse monstro fez você criar uma rede de espionagem telepática. 

— Mais do que isso. Minha devoção leal ajudou a firmar meu papel como âncora de meu mestre. Agora estou a um passo de liberta-lo bastando um pouco do sangue especial dele.— disse Irene esbanjando confiança soberba. Frank olhou novamente para Adrael que via atemorizado a aranha descomunal vir descendo com suas patas nojentas e os dentes mexendo, ressaltando sua vontade de alimentar-se. 

— Lembrei agora... Essa aranha maldita vai sugar o sangue dele pra depositar no ovo. — disse Frank relembrando o que Natasha lhe repassou. O detetive logo sacou uma arma e disparou contra o ovo. Porém, o tiro ricocheteou, provando que a casca era dotada de resistência tal qual uma blindagem.

— Patético. — disse Irene — Não há mais nada a fazer... a não ser me enfrentar. Me matando ou não, meu mestre renascerá, todos os humanos vão padecer em um inferno de sangue por tremerem diante da presença dele! 

Frank guardou a pistola, focando em usar o facão contra Irene. Resolveu ataca-la em tentativas de golpes para cortar sua cabeça enquanto a vampira se esquivava ágil. Irene dera um soco, acertando o rosto de Frank que retribuiu com uma bofetada forte e depois um corte na barriga que a desestabilizou um pouco. Mas Irene logo se mostrou inabalada, seus olhos azuis e as presas afiadas a mostra numa expressão de fúria. Pulou sobre Frank feito um animal e rolou pelo chão com ele visando morde-lo. 

A aranha perigosamente aproximava-se de Adrael que se debatia na ânsia de desvencilhar-se das teias, encarando os vermelhos e ameaçadores olhos da criatura. Mas quando quase rompia as que prendiam seus pulsos, era tarde. As presas da aranha fincaram nos seu braço esquerdo profundamente, o levando a uma dor lancinante. 

— Adrael! — gritou Frank ainda no chão com Irene em cima dele. Deu uma cabeçada na vampira, em seguida um chute no rosto que a afastou consideravelmente — Agora não me escapa!

Quando ia baixar o facão sobre Irene, a vampira o chutou na perna esquerda, o fazendo cair de joelhos, depois levantando-se e o chutando no braço direito que segurava o facão, desarmando-o. Frank barrou o rosto dela com as duas mãos e deu uma olhadela para trás. A aranha descia sobre o ovo, em seguida cravando suas presas na casca, abastecendo-o com o sangue de Adrael, as veias se preenchendo e a luz vermelha fosforescente se elevando na nitidez.

— Não! — disse Frank que voltou a concentrar-se no seu embate com Irene que tentava descontroladamente morde-lo. O detetive mantinha suas mãos no rosto de Irene que também batia suas mãos contra o dele. Como sua única alternativa, Frank afundou seus polegares nos olhos da vampira implacavelmente. Irene soltara um grito de dor ao sentir os olhos serem esmagados, o sangue jorrando em cascata por entre os dedos de Frank que logo depois a chutou na barriga e sacou sua pistola. Disparou dez vezes contra a vampira que foi chacoalhada pelos tiros até cair fragilizada. O tiro de misericórdia era pensado ser na cabeça, mas ao mirar ouviu apenas o som do gatilho apertando. 

O enfraquecimento fisico de Irene descontou de seu controle telecinético nas teias, assim libertando Adrael que caiu sobre o chão um tanto debilitado. 

— Adrael! — chamou Frank indo ao socorro do amigo — Consegue levantar?

Irene dera uma risada histérica como zombaria com os olhos macerados tornando mais sinistro aquele seu surto de júbilo mesmo num leito de morte.

— Tá rindo do quê, palhaça? — perguntou Frank, irritado. 

Adrael quis falar naquele instante. 

— Frank... Ele está vindo. Ah não... Atrás de você!

A aranha vampírica pulara sobre Frank, mas com o aviso fora ágil ao sacar um rifle do bolso interno do sobretudo e virar-se dando um disparo fatal diretamente na cabeça do aracnídeo medonho que caíra com as pernas para cima. 

— Estamos quites agora. — disse Frank ao anjo. Irene continuava em seu acesso de riso. Frank olhou para o ovo que brilhava mais intensamente, já começando a rachar em pedaços que caiam aos poucos. Um leve tremor na terra se seguiu ao longo do despertar de Venogok — Acho que eu tava sentindo a desgraça. Bem que eu não queria ter arrastado você comigo!

— Fuja daqui se quiser viver, seu caçador estúpido! — insultou Irene — Nada vai parar a ressurreição do meu mestre! Uma nova era para os vampiros começará! 

— A sua sorte foi não ter uma bala sobrando pra te finalizar e fechar essa tua boca imunda!

Uma mão inumana, coberta por uma gosma luminosa e alaranjada, similar à lava, emergia do ovo que esquentava e brilhava mais forte. 

— Faça alguma coisa, Frank! — disse Adrael — Essa criatura vai causar danos irreparáveis se voltar a caminhar sobre este mundo! Depressa, aja!

Frank recordou-se do que Natasha lhe dissera no segundo vídeo enviado. "Mas mesmo se ele chegar a sair, é possível elimina-lo poucos segundos depois apontando o rubi pra uma fonte de luz, de preferência solar."

— O rubi... Ok, só preciso de uma luz cujo brilho seja tão forte quanto o do sol ou próximo disso. Acho que sei do que pode dar conta do recado. — disse ele, logo correndo para fora do prédio. Venogok levantava-se, sua forma de aspecto demoníaco se expondo coberto pela gosma de consistência quente como magma derretido. Sua aparência dava a impressão de ser uma besta bípede com uma arcada dentária monstruosa e olhos amarelos ferozes, além das orelhas parecerem de uma criatura marinha. 

Voltando para o carro, Frank abriu o porta-malas onde procurou por uma bolsa de viagem preta. Ao acha-la, abrira e dela retirou um lança-granadas e uma granada ultravioleta, suprimentos oferecidos por Hoeckler de cortesia. Correu de volta ao prédio, munido da arma já carregada.

— Adrael chega pra lá, se protege num canto escuro! A noite vai virar dia agora! 

— O que pretende fazer? É tarde demais... — disse o anjo.

— Não é não! Meu trunfo tá bem aqui! — disse Frank destacando o lança-granadas — Esse aí é o seu poderoso mestre, Irene? Tá na hora dele voltar a descansar e dessa vez pra sempre! 

Frank apontou o lança-granadas para o alto e disparou a bomba ultravioleta que seria acionada 5 segundos depois. Ao atingir certa altura, a granada extravasou sua luz potente e branco-amarelada. Com o efeito destrutivo, Irene gritara sentindo o corpo arder em chamas até ser reduzido a ossos carbonizados inteiramente. Frank sacou o rubi do Sacre, erguendo-o a luz que o enegizou instantaneamente. A pedra escarlate refletiu a luz na forma de um raio retilíneo de mesma cor apontado para Venogok. O monstro foi mortalmente atingido, soltando um urro gutural e estridente enquanto seus braços eram despedaçados pelo raio de luz rubro. O corpo do patrono vampírico explodiu em fogo e faíscas até nada mais de seu organismo sobrar. 

A granada perdeu efeito na mesma hora, levando o rubi a enfraquecer sua energia e desfazer o raio. Frank prontamente foi até Adrael que caminhava trôpego. O sentou encostado numa coluna de concreto.

— Como se não bastasse ter meu sangue drenado... a transição está se concluindo... e meu corpo, minha mente e espírito só quer se nutrir de sangue como único meio de sobrevivência e sustento. — disse Adrael, cansado, derramando uma lágrima — Essa é a primeira vez... que choro na sua frente. Me desculpe... por parecer tão fraco.

— Não precisa ter vergonha disso. Sou teu amigo, mais do que qualquer um daqueles anjos que cresceram contigo em toda a vida e não se rebelaram pros ofanins pra te defender. Não te deixei na mão quando baniram você, não vai ser agora que farei isso. — disse Frank, agachado próximo dele — Tem uma maneira de curar o vampirismo usando o rubi. Só que...

— Não se oponha. Faça o que é certo.

Frank o encarou com certo dó, mas resolveu agir rápido já que a transição se encontrava no limite ao mesmo em que a desidratação o tornava suscetível a uma morte breve. Ou Frank o proveria de seu sangue para hidrata-lo ou o curaria com o método radical. O detetive fora até o carro pegar uma pinça de inox que utilizava para assar carnes na grelha. Novamente retornando ao prédio, prendeu o rubi na pinça, se dirigindo ao fogo que ainda crepitava das cinzas do ovo destruído junto de Venogok e seus pedaços. 

Aqueceu a pedra até uma temperatura alta o bastante para que o método funcionasse. Voltou para Adrael, agachando-se. O anjo ofegava, o corpo parecendo colapsar pela desidratação. 

— Pare de me olhar desse jeito... — disse Adrael — Não perca mais tempo... Seja forte pra que eu também seja!

— Isso vai doer bem mais do que ter tirado a lâmina sacerdotal da sua perna. — avisou Frank— Força, amigo. — levou a rubi direto ao potjo da mordidas pescoço com os dois furos. Apertou forte a pedra quente no local da ferida. O anjo conteve um grito cerrando intensamente os dentes e apertando o olhos fechados, soltando um gemido alto — Chega. São 10 segundos pra essa tortura. Como se sente? 

Adrael silenciou por um tempo. Já não mais sofria com a respiração pesada devido ao corpo desidratado e sedento por sangue humano. 

— Estou com sede. — disse ele, assustando a Frank.

— Ah não, puta merda... — disse o detetive, baixando a cabeça com a mão direita na testa — Passou da transição, eu fiz muita hora relutando marcar o teu pescoço com essa pedra esquentada. Sinto muito...

— Tudo bem. — disse o anjo, tranquilo. 

— Sério? Estranho você não ter partido pra cima de mim cego pela sede de sangue. 

— É porque... a minha sede é por água mesmo. O meu aparelho excretor precisa se manter operante. 

Frank riu pelo engano que o anjo lhe fez cometer. 

— Seu sacana. Meu coração quase parou pensando que era tarde demais pra te curar. — disse Frank levantando junto a ele — Bora lá. Batman e Robin de volta pro batmóvel rumo a batcaverna. — andou ao lado do anjo tocando-o no ombro, saindo daquele prédio cujo estágio de obras não avançaria tão cedo. 

***

Na estrada, Frank e Adrael partilhavam de um silêncio que ambos necessitavam de romper. O anjo banido tomara a iniciativa. 

— E se tivesse sido tarde? O que faria? 

— Eu iria conter você até te imobilizar de alguma forma e levar pra minha sala do pânico que fica lá no fim do porão onde seria mantido preso sem mais nenhum contato com o mundo externo. Isso aí mesmo. Mas eu te alimentaria com bolsas de sangue... do meu sangue. 

— Não seria viável sem que você sofresse sérias consequências. Eu sobreviveria enquanto você morreria aos poucos por mim. Não é razoável.

— E o que acharia ser certo a fazer? Cortar sua cabeça? 

— A última coisa que deveria pensar em fazer era me manter vivo e trancado numa cela. Poderia não ser um perigo a civilização, mas pra você, sendo obrigado a abrir mão do seu sangue pra me nutrir.

— OK, serei honesto sobre o que um autêntico caçador faria: Eu te mataria implacavelmente. Arrancaria sua cabeça e encheria teu corpo de balas de prata até esgotar a munição. 

— Está sendo sincero ou falou apenas pra fazer eu me sentir melhor? 

— Falei a mais pura verdade. Assim ocorreria se você não me desse escolha. Se o plano A falhasse, esse seria o plano B. Obviamente, você, como vampiro completo, não estaria lúcido em pedir pra ser morto pelo seu amigão aqui, muito menos desidratado. 

— A sua clemência só pioraria o meu fardo. – afirmou Adrael, olhando a vegetação ao lado da estrada passar como um borrão escuro intercalada pelas luzes dos postes — Me daria um livramento digno ao me matar. 

— Nada seria pior nesse caso do que um monstro ameaçando a humanidade e comandando os vampiros pra dominarem geral. Você lidou com uma coisa grande demais pra uma primeira caçada. Sinta-se grato por estar vivo.

Repentinamente, as luzes dos faróis piscaram tremidas, forçando Frank a parar o veículo.

— Mau sinal. — disse ele que conhecia bem o significado daquela manifestação estranha.

— Por que paramos? As luzes do carro... estão defeituosas? 

— Antes fosse. — disse Frank vendo a luz do poste a frente tremeluzir até apagar-se subitamente. O detetive saiu do carro para verificar. Para sua desagradável surpresa, a luz do poste retornou brusca, revelando uma figura espectral no meio do centro de iluminação — Não... Cacete... 

Zaratro estava ali parado fitando o detetive por baixo do capuz de seu manto negro e desgastado.

— Me deixa passar, não quero papo com você, nem agora nem depois. Te arranca daqui senão...

— Você irá me matar? — indagou o bruxo em tom debochado — Não seja tão dramático, meu intuito ao surgir assim não foi lhe causar transtorno. 

— Já causou transtorno me fazendo olhar pra essa sua aparência sinistra e atrasando minha volta pra casa. O que diabos você quer de mim? Fala logo!

Adrael saíra do carro encarando Zaratro com curiosidade e desconfiança. 

— Vejo que está na companhia do seu anjo da guarda. — disse o bruxo reparando em Adrael — Será que ainda deveria chama-lo de anjo? Que lástima pra você, rapaz. Ser compelido a esse rebaixamento tão humilhante. 

— Por acaso, você teve algum envolvimento nisso? — questionou Frank.

— Por que desperdiçaria tempo e energia prejudicando um anjo aleatório? Eu não estou aqui pra brincadeiras e travessuras. Mas saiba que foi divertido espalhar a notícia entre os demônios pra mante-los ocupados. 

— Então foi você que espalhou a fofoca, seu canalha. Pois fique sabendo que o Adrael tá sob minha guarda, protegido e blindado contra possessões. Agora diz de uma vez o que veio tratar comigo. 

— Somente um aviso rápido. — disse Zaratro dando passos para trás — Mal posso esperar pra ver se sua performance de caçador se equipara a do meu velho discípulo. Olhar pra você é como revê-lo ajustado aos tempos modernos. Você saberá em breve. 

— Vou saber o quê? O que você tá tramando? — perguntou Frank, dando uns passos adiante, porém al luz do poste sobre Zaratro apagou-se e reacendeu velozmente, o bruxo tendo desaparecido — Maldito.

— Alguma ideia do que ele possa estar planejando? — indagou Adrael olhando para Frank. 

— Tô sentindo que o bicho agora vai pegar. — disse o detetive, a apreensão com o mistério suscitado pelo bruxo. 

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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

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