Frank - O Caçador #103: "Ao Limite do Instinto"


Ylon

O breu noturno havia acabado de assumir os céus da cidade quando Audrey, uma garota em seus vinte e poucos anos - morena, cabelo castanho claro e lábios carnudos - saía de um táxi com uma mala meio pesada e agradecendo ao motorista. Mal continha-se na sua ânsia de rever os pais na casa deles de onde saiu para realizar um intercâmbio na Europa. Foi carregando a mala com a mão esquerda, o corpo inclinado para o lado devido ao peso que ela dizia suportar sem problemas. 

Ao bater na porta, olhou a rua e julgou pacata demais naquela noite. 

— Não é assim tão tranquilo nem de madrugada. O que será que... — disse ela, interrompendo-se ao sentir a demora de sua mãe ou seu pai em abrir — Mãe, pai, sou eu, voltei! — falou, batendo mais vezes.

Audrey tocara na maçaneta movendo-a de modo que abriu a porta. Entrara, sentindo um forte odor de carniça invadir suas narinas que a fez tapa-las com a mão imediatamente. Retirou seu celular na bolsa e ligou a lanterna, seguindo mais adiante pela casa.

O cheiro de carne putrefata se intensificava à medida que ela aproximava-se da cozinha. A luz do celular banhou alguém agachado se alimentando de um corpo horrivelmente mastigado no rosto e no tronco.

— Oh, meu Deus... — disse Audrey, perplexa. A pessoa que se fartava dos pedaços do cadáver tinha cabelos pretos desgrenhados e estava de costas, logo virando a cabeça para visualizar a jovem congelada de pavor observando a cena dantesca. Com a iluminação, Audrey percebeu ser sua mãe, a face extremamente pálida, com um rasgo diagonal na pele entre a maçã direita e a têmpora esquerda que deixava exposta a carne viva — Não, mãe... 

A mulher a fitou raivosa, logo mostrando dentes sujos de sangue cerrados em uma expressão de cólera. Disparou para ataca-la, mas Audrey correu sem olhar para trás ouvindo os rosnados daquele ser monstruosamente carnívoro que costumava ser sua querida mãe a lhe esperar retornar de viagem. Saiu da casa com os olhos transbordando em lágrimas. Encontrou seu carro fora da garagem e se enfiou nele sem pensar duas vezes. As chaves estavam no porta-luvas. Porém, após tira-las, as derrubou com o susto que levara quando mais pessoas apresentando o mesmo estado deplorável de sua mãe vieram batendo as cabeças furiosamente contra as janelas feito animais selvagens e enlouquecidos de fome, sujando os vidros de sangue.

— Ah não... Merda! — disse ela procurando pegar rápido a chave no chão do veículo — Não era essa festa de recepção que eu esperava! 

Audrey pegara a chave e a inseriu trêmula. Um dos raivosos quebrara o vidro da janela esquerda, sua mão tentando puxa-la para fora violentamente. Audrey girou chave a tempo enquanto gritava por socorro. O carro saiu numa arrancada barulhenta, sendo seguido por aquele grupo de canibais fervorosos. O braço do que agarrou a jovem foi arrancado com a partida veloz. 

Estacionou numa rua do centro da cidade aparentemente sem indícios de morte, com algumas pessoas agindo normalmente ao transitarem. Saiu do veículo, passando as mãos na cabeça e andando para atravessar a pista a fim de ir a um bar. No entanto, uma cacofonia de sons que se avizinhavam chamou a atenção de todos. 

— O que é aquilo? — indagou um homem próximo a Audrey — São... morcegos? 

Muitos imaginavam serem pássaros, mas de fato tratava-se de um enxame de morcegos voando na direção daquela rua. Audrey recuava, mas não conseguia tirar os olhos da horda massiva. Viu os morcegos atacarem a população como abelhas após sua colmeia ser destruída. Em meio ao caos e a gritaria generalizada, Audrey estava travada de medo.

A jovem apenas emitiu um grito de horror ao ver um morcego vir voando até ela prestes a cravar as presas no seu pescoço desprotegido. 

***

Dois dias depois.

Fazia tempo que Frank não gastava combustível para dirigir até a localização similar a uma fábrica desativada com várias chaminés onde abaixo da mesma situava-se a sede da Fundação ESP com seu labirinto perigosamente extenso de corredores contendo celas abrigando uma miríade de entes paranormais, senscientes ou não, laboratórios de pesquisa e experimentos diversos. O detetive estacionou em frente ao prédio estando sob uma chuva torrencial que caía naquela manhã. 

Dois agentes da organização vieram correndo, um deles levando um guarda-chuva e o entregando a Frank no instante em que ele saiu do sedã prata. 

Frank ficou a pensar no que seria o tal assunto de extrema urgência. Já com Hoeckler andando por corredor, o detetive se inteirava das ocorrências calamitosas em Ylon. 

— Só tava faltando essa mesmo. — disse Frank olhando para as janelas a sua direita com os laboratórios científicos — Uma praga que transforma você num canibal insano. Como que isso não explodiu na mídia, nos jornais e redes sociais ainda? 

— E provocar um surto generalizado de pânico? Nem os teóricos mais aficionados por cenários apocalípticos teriam essa audácia. — disse Hoeckler — Seria uma epidemia derivada de outra. A contenção de danos iniciou há quase dois dias, a tropa da força-tarefa móvel continua operando por lá fazendo das tripas coração pra bloquear cada polegada de toda a extensão da fronteira pra impedir que essa maldita peste se alastre pra cidades vizinhas, todo o estado da Califórnia e, a médio prazo, no mundo. O problema em relação à contenção é que... 

— Vocês não sabem quanto tempo essa muralha que ergueram vai suportar, né? 

— Existem barreiras de emergência pra casos de criminosos de alta periculosidade. O prefeito nos comunicou, você sabe... Os altos cargos sabem da nossa existência e zelam pelo voto de sigilo. — disse Hoeckler olhando sério para Frank — Assim que fomos alertados sobre um enxame de morcegos invadindo uma casa de repouso, não hesitei em mandar uma tropa de contenção imediatamente. Esse grupo não deu mais retorno, então enviei um reforço após os incidentes com infectados serem registrados. Felizmente, esse batalhão segue intacto.

Hoeckler o guiou até um laboratório virando a direita, a primeira janela. Foi justo Audrey que havia sido capturada para ser submetida a uma bateria de exames na análise de como a patologia se comporta a nível molecular. A jovem que tivera sua vida de sonhos e realizações interrompidas estava nua e presa numa maca na vertical sendo avaliada pelo Dr. Ewan Allen.

— E essa aí? Quem é? — perguntou Frank. 

— Audrey Foster, estudante de intercâmbio na Europa que segundo vídeos no seu celular havia marcado a data para voltar a sua cidade-natal no dia em que a calamidade estava em processo inicial. Pelas marcas no corpo, foi infectada pelos morcegos. A tropa de reforço conseguiu contê-la e seda-la. Está hibernando como um urso. 

— No resumo da ópera, Ylon tá contaminada por uma praga viral de mortos-vivos carnívoros. — disse Frank observando o cientista em seu trabalho — Olha, vocês tem que ir até as últimas consequências pra evitar que uma merda dessas escape pra fora dos muros ou fora daqui.

— É, eu sei. — disse Hoeckler, parecendo desesperançoso — Mesmo demarcando o território, nossas defesas podem fraquejar. Uma única ranhura e já era.

— Agora tô totalmente convencido dos que os caras que me receberam falaram, achei que tavam exagerando só pra encher minha curiosidade. — disse Frank — A propósito, muita gentileza da sua parte mandar eles trazerem um guarda-chuva. 

— Eles que tomaram iniciativa, não dei ordem. 

— Ah, tá. — disse Frank olhando-o com um sorrisinho brincalhão. 

De inesperado, Audrey abriu subitamente os olhos avermelhados para o Dr. Allen que reagiu com extremo terror. A jovem infectada se desprendeu da maca com uma força extraordinária e agarrou o pescoço do cientista que gritava por socorro. 

— Parece que o urso acordou! — disse Frank, alarmado — E de muito mau-humor!

— Venham depressa! O ESP-5667-1 está fora de controle! — disse Hoeckler por um rádio-transmissor — Dr. Allen, aguente firme!

— Aguentar firme? Ele tá pra ser mordido! E se essa coisa também passa de um infectado pra outro? 

— Bom palpite, mas improvável. Quem quer que tenha gerado esse vírus o inoculou nos morcegos pensando neles como agentes transmissores! Seria... redundante duas vias de transmissão!

— Eu não vou ficar discutindo. Os seus homens vão vir talvez em cinco minutos pra chegarem tarde. Eu só preciso de uns 10 segundos pra resolver!

— Negativo! Você fica aí, já estão a caminho!

— Não dá pra esperar! — disse Frank sacando sua arma e disparando três vezes contra o leitor digital da porta, o que conferiu-lhe entrada. O detetive invadiu o laboratório, mas Audrey logo cravou seus dentes no ombro do Dr. Allen ferozmente — Não! — bradou Frank, logo disparando na cabeça dela. A jovem caiu dura para trás enquanto o cientista tombava tendo espasmos com a mordida.

— Frank, afaste-se dele! — avisou Hoeckler, entrando na sala rapidamente — Não há mais nada a ser feito aqui senão... mata-lo o quanto antes. — falou, barrando o detetive com o dorso da mão direita enquanto assistia ao Dr. Allen se debater emitindo grunhidos raivosos. A pele do cientista se embranquecia absurdamente, o mesmo rasgando pedaços da pele do rosto e comendo-os, deixando exposta a carne viva — É assim que começa. 

— Que loucura, ele já não raciocina mais direito, tanto é que arranca a própria pele pra depois comer. — disse Frank.

— E não satisfeitos, saem a caça de carne não-infectada quando sentem que não podem mais se alimentar de si mesmos. — completou Hoeckler.

Dois agentes vieram correndo ao laboratório, ambos armados com fuzis de grosso calibre. Hoeckler deu o aval bastando um aceno de cabeça. Um dos homens fardados de pretos e revestidos com coletes de alta resistência sacou do coldre uma pistola beretta 9mm e disparou contra a cabeça do Dr. Allen, dando um fim ao sofrimento angustiante do cientista. 

— Foi um prazer contar com sua experiência, doutor. — disse Hoeckler, pesaroso. Frank encarava a situação com o coração apertado pelo sacrifício. 

— Senhor, recebermos um alerta de risco potencial de falha na contenção. — disse um agente — A equipe está sofrendo baixas, os infectados estão cada vez mais se proliferando. 

— Tá tudo saindo aos poucos do controle, ninguém entra, ninguém sai. Estão fazendo o possível pra delimitar a zona de perigo crítico. — disse o outro — Pelo que nos disseram, só existe uma passagem ainda sob forte guarda que pode ser aberta tranquilamente, pelo menos por enquanto. 

— Repassem aos demais, oficializo uma nova força-tarefa de reforço pra agora. — decretou Hoeckler — Não temos escolha, vamos arriscar tudo nessa última tentativa. Se ainda assim falharmos... 

— Peraí, é em Ylon que essa zorra tá acontecendo, né? — perguntou Frank. 

— Sim, por que? – indagou Hoeckler.

— Puta merda... — disse o detetive pondo as mãos já cabeça em sinal de aflição máxima — Acabei de lembrar que o Giuseppe deu férias pra Carrie. Ela ia começar aproveitando pra visitar o pai doente dela que mora em Ylon. Saiu de casa hoje cedinho, já deve estar lá cuidando dele junto com a mãe. 

— Ou não mais cuidando... — disse Hoeckler, especulando o pior. Frank bufou em contrariedade. 

— Nem vem com esse pessimismo pro meu lado! Vai ter que me deixar participar dessa operação, eu não arredo o pé daqui ouvindo um "não" seu. — disse Frank, a postura desafiadora — Salvar a Carrie, na esperança de que ela tá ilesa, e o máximo de sobreviventes possível. Pensou o quê? Que eu fosse me contentar em ficar só olhando? Me chamou aqui só pra isso?

— Eu ia propor que se unisse a nós no fronte de batalha na possibilidade do vírus ir além do marco zero. — disse Hoeckler — Tem minha permissão. 

— Valeu. — disse Frank, a face dura em seriedade e preocupação — Vamos nessa e... Seja o que Deus quiser.

***

Durante a passagem pela barreira temporariamente aberta para eles adentrarem na cidade, Frank dirigia seu carro seguindo a van blindada da ESP pela trilha de cascalho. O tempo chuvoso havia dado uma breve trégua, mas já recomeçava a garoar. O detetive resolveu telefonar para Carrie na espera aflitiva que ela atendesse. 

— Alô? — disse a voz da assistente, logo proporcionando um alívio para Frank.

— Carrie! Ah, não sabe o quanto me tirou um peso ouvir sua voz agora. Tá ciente da algazarra rolando por aí, né?

— Infelizmente sim. Melhor jeito de começar as merecidas férias. — disse ela em uma sala de estar. 

— Onde você tá agora? Por favor, me diz que não é num hospital.

— Não, tô na casa dos meus pais, sozinha e segura. Uma ambulância acabou de vir buscar meu pai, teve outra crise aguda. Só fiquei sabendo dessa infestação viral assim que eu entrei na cidade. 

— Não deu de cara com nenhum infectado? 

— Consegui driblar um grupinho deles. Antes disso, fui barrada por uns homens de preto da ESP que andam controlando as entradas e saídas. Não deixam mais ninguém passar. Mas, esperta como você bem sabe que sou, não desisti fácil e encontrei um fresta por onde me esgueirar. Nada impediria Carrie Barton Wood de visitar o próprio pai, nem um cenário de apocalipse biológico. 

— Você devia ter esperado que os caras da ESP resolvessem e avisado os seus pais de procurarem abrigo. Na verdade, nem a ESP tá dando conta dessa merda. O Hoeckler mandou mais uma cavalaria e eu tô incluso. Fica aí, não bota a cabeça pra fora por nada. Se alguém bater na porta e não disser nada, se arma com qualquer coisa pra ir abrir. 

— Depende de como irão bater. Esses infectados não são de pedir licença pra entrar. Mas tudo bem, vou me manter aqui dentro. Sabe onde fica, né?

— Aham, sei sim. Vou só ajudar aqui os caras a localizar os agentes que perderam contato, depois dou uma passada aí pra gente se planejar. OK?

— Tá legal. Vê se não demora, sinto que minha solidão pacata vai durar pouco. Frank, estou com medo. Pelo meu pai e... e esse horror todo se espalhando.

— Vai ficar tudo bem. Comigo, com seu pai, com o povo da cidade... Reza aí por eles e por nós. Tenho que desligar, a gente se fala. 

A van de blindagem preta estacionou frente a uma fábrica para a qual a leitura de atividade paranormal se direcionava com maior intensidade. Frank parou o carro bem próximo ao veículo robusto e saiu apenas depois que os agentes colocaram os pes no chão com suas metralhadoras altamente carregadas em punho. Entraram no complexo industrial vazio de trabalhadores e com várias poças d'água deixadas pela chuva que destruiu partes do teto. Na área central dos operários, a equipe travou os passos. 

Todos olharam para cima, numa parte um pouco mais baixa do teto. Entre as vigas de aço, haviam inúmeros morcegos agrupados de ponta a cabeça como se estivessem dormindo. Alguns se moviam levemente, outros permaneciam inertes. 

— Ei, vocês dois, vão com Montgrow verificar as adjacências. A gente cuida desses morcegos. — disse em voz baixa o agente considerado o capitão da equipe, apontando para a dupla de agentes e Frank. O detetive acatou a ordem, indo com eles para uma averiguação separada do resto. 

Frank tomou a direção num corredor, a pistola em riste com a lanterna na mão esquerda, após ouvir um som abafado, na ligeira impressão de ser uma voz humana. Adentrou no compartimento que servia de sala de lazer para os trabalhadores descansarem nos intervalos. Se ouriçou, a voz sabida ser vinda de um banheiro. Frank deu batidas suaves com os dedos e viu que estava aberta, logo empurrando levemente com a mão direita. O que encontrou o fez arquear as sobrancelhas. 

Se encontrava ali de cócoras um homem de porte vigoroso para alguém próximo dos seus 60 anos, de cabelo grisalho meio espetado e óculos quadrados de armação preta. Orava de olhos fechados com um terço na mão. Frank bateu na porta com a arma. 

O homem assustou-se de repente, quase caindo. 

— Ei, ei, cuidado, fica calmo. Não vim te machucar. — disse Frank ajudando-o a levantar segurando pelo braço — Sou o detetive Frank Montgrow. Eu... não vim sozinho. 

— Quem seria insano de sair sozinho no meio desta cidade povoada por monstros carniceiros? — questionou o homem — Sou o Dr. Holligan, prazer. Estive aqui a trabalho e tudo se transformou neste pesadelo tão depressa. Minha equipe foi dizimada por esse maldito vírus. Mas saiba que eu não tive nada a ver com a origem dele, tudo que fiz foi estudar um certo cadáver desenterrado...

— Olha, olha, olha, vamos deixar as explicações pra quando tivermos saído daqui. Beleza? Vem comigo. 

— Estou mais seguro aqui, não sei no que eu poderia ser útil. 

— Pelo que vi, você tava quase no final das suas ave-marias. Tem momento pra ficar parado no mesmo lugar e rezar. Mas também momento pra agir e salvar sua pele e esse momento é exatamente agora. Por favor, vem.

Paralelamente, os agentes tentavam silenciosamente cruzar a área central, mas tinham de passar pelos morcegos grudados no teto como estalactites numa caverna. Todos olhavam para o teto em passos vagarosos. No entanto, uma gota d'água caiu direto no olho de um agente que soltou um rosnado alto de incômodo. 

O ressoar da voz estremeceu os morcegos que chacoalharam-se agitados até dispararem voando contra os agentes que abriram fogo sem hesitar. Frank ouviu os tiros segurando o Dr. Holligan. 

— Putz... Alguém irritou os morcegos. — disse o detetive — Demorou até.

Um agente que estava acompanhado de Montgrow para verificar as adjacências veio a sala correndo. 

— Aí está você! O enxame de morcegos tá atacando os outros! A gente tem que... Quem é esse aí? 

— Um sobrevivente. – respondeu Frank, vagamente, olhando para o cientista — Vambora. Ele disse que tem uma saída pelos fundos sem necessidade de passar por onde estão os morcegos.

Os agentes sofriam na luta contra os morcegos furiosos, seja atirando desenfreadamente ou sendo derrubados com mordidas profundas e tentando se desvencilhar - alguns até levando tiros de outros para espantar os morcegos e se livrarem. Enquanto isso, Frank escoltava o cientista para fora da fábrica deixando para trás o agente que o alertou do ataque. Porém, cinco infectados vinham de todos os lados de modo a cerca-los. 

— Faça alguma coisa ou vão cair nos nossos pescoços feito leões famintos! — clamou Holligan, afoito. 

— Então se abaixa e corre.

Frank logo sacou duas pistolas, atirando em infectados que avançavam ferozes, acertando-os na cabeça. O detetive corria bem atrás de Holligan que mantinha-se envergado ao correr em direção ao sedã prata.

— Vai, vai, entra! — mandou Frank, cuspindo mais balas em outros infectados que saíam dos arbustos da floresta correndo ensandecidos de fome. O detetive entrou no veículo e o ligou depressa, cantando pneus e fugindo do pequeno exército a toda velocidade.

O cientista olhou pelo retrovisor, vendo mais deles se aglomerando em perseguição. 

— Sem querer parecer desconfiado, mas... Pra onde exatamente está me levando? 

— Pra um lugar seguro.

— Defina lugar seguro. 

— A casa de uma amiga minha. Relaxa aí... por mais difícil que seja. — disse Frank com as mãos suadas no volante, olhando em volta com apreensão na espera de mais infectados surgirem para dificultar o percurso rumo a casa dos pais de Carrie. 

***

Danverous City

Adrael tomou a liberdade de sair para uma cafeteria da zona norte muito frequentada por Frank nos intervalos de trabalho. O anjo banido usava o casaco azul por baixo da camisa preta, um visual que tornou rotineiro e padrão em sua moradia na residência do detetive. Olhava o tempo incessantemente chuvoso molhar a janela grande perto da mesa onde se acomodou. Iria dar um gole no café meio morno quando de repente viu uma moça caucasiana de bochechas coradas e cabelos castanhos claros e ondulados que caiam aos ombros. 

Ela estava de costas, indo até o balcão, mas olhou para trás, reparando imediatamente na presença dele. Seus olhos azuis encontraram-se com os dele. Um interesse mútuo surgiu. Uma ligação estabeleceu-se. A jovem tomou proximidade com ele, um tanto tímida, sem desfazer a troca de olhares. 

— Ahn... Você quer sentar aqui? — perguntou Adrael, tirando o guarda-chuva do assento vago à sua direita — Ou aqui no meu lugar, perto da janela...

— Não, eu prefiro... aqui mesmo. — disse ela, sentando-se no assento diante dele — Os humanos geralmente se sentam na frente uns dos outros quando estão a dois nesses lugares de alimentação.

— Disse... os humanos? Então você é... 

— Assim como você. — disse ela o olhando fixamente — Deve ser o Adrael, certo? 

— Sim... Eu mesmo. É verídico o que diziam, anjos banidos estão mental e espiritualmente conectados. Eu não lembro de ver você no nosso mundo. 

— Eu sou a Sorah. Pois é, tivemos alguns desencontros, mas eu sempre via você nos treinamentos de batalhão. Era o primeiro-tenente, né?

— Era. — disse Adrael, tomando um gole do café, retraído.

— Sinta-se privilegiado por encontrar alguém que sente a mesma dor que você. Eu quero te propor um convite. 

— O que seria? — indagou Adrael. 

— O que acha de ir pra um lugar onde se sinta acolhido e compreendido, ainda mais tendo liberdade pra falar do que ocasionou seu banimento, dos êxitos e percalços da vida humana. — disse Sorah, amigável em seu modo de falar. 

— E onde fica um lugar assim? Outros anjos banidos estão lá? 

— Sim. Somos um grupo de apoio para nos ajudarmos partilhando nossas experiências e perspectivas. Gostaria de participar? 

Adrael pensara por uns segundos na proposta de inclusão em um grupo onde se sentiria como se tivesse retornado ao mundo celestial. Mas também imaginou como Frank reagiria ao saber que ele não voltou para casa antes dele chegar. 

— Eu moro com um amigo meu... Ele não é ninguém menos que o caçador potencial a brandir a Flamígera contra o Grande Mal. Só que... ele saiu antes de mim, deixei a casa desprotegida... Eu não tenho celular pra avisa-lo...

— Tudo bem, deixo você usar o meu à vontade pra ligar, enviar mensagem... — disse Sorah, sorridente.

— Sério? Obrigado. Quero conhecer seu grupo.

— Ótimo. Siga a líder. — disse Sorah, estendendo a mão direita ao anjo que retribuiu com a sua. 

***

Na casa dos pais de Carrie, a assistente se aquecia ante a lareira, sentada numa poltrona e esfregando as mãos gélidas uma na outra. Aguardava mais uma ligação de Frank para tranquiliza-la, mas a demora alimentava a imaginação do pior cenário.

Uma batida forte na porta a fez quase saltar de susto da poltrona. Olhou para a porta com receio, mas pegou um espeto de ferro da lareira como improviso de armamento. Andou vagarosamente para conferir quem era a visita duvidosa. Mais uma batida que a fez tremer. Deixou a ponta do espeto em riste, o olhar desconfiado e apreensivo. Tocou na maçaneta e a girou abrindo a porta. Numa abertura súbita, ergueu o espeto como se fosse atacar, mas se deteve. 

— Até que enfim, pensei que ninguém estivesse aqui. — disse o agente Collins, da tropa de reforço, entrando invasivo. 

— Espera, você... você é da ESP. Que jeito estranho foi esse de bater na porta, afinal? Ninguém nunca te ensinou a fazer isso civilizadamente? Ah, e pelo visto também não ensinaram a pedir licença.

— Olha, não tô interessado em discutir os meus modos. Temos que ir imediatamente. — disse Collins parecendo cansado pelo suor no rosto. 

— Ir pra onde? Aqui é a casa dos meus pais, espero uma ligação do hospital geral de Danverous City pra saber o estado do meu pai. E nem pensar que vou deixar a casa desprotegida.

— As torres de telefonia sofreram danos, os infectados vêm causando múltiplos estragos. Eu posso leva-la de volta pra lá numa van agora que uma nova equipe de reforço chegou. Vão ceder a barreira por nós. Tenho ordem direta pra isso.

— Não quero sair da cidade agora, Frank está aqui, eu preciso vê-lo, está junto dessa nova equipe. Não vou embora sem nos encontrarmos. — determinou Carrie.

— Bom, você escolhe: ficar, reencontrar Montgrow e correr o risco de ser infectada. Ou sair escoltada por mim de volta a Danverous City pra que possa ir ao hospital e acompanhar de perto o quadro do seu pai. O que vai ser? Melhor decidir rápido. 

O dilema proposto pelo agente caiu como um peso de toneladas para Carrie suportar. A assistente esboçou tristeza ao pensar nas possibilidades. Mas novas batidas na porta a tiraram do transe de ponderação. 

— Reconheço esse carro. — disse Collins, olhando pela janela. Virou o rosto para Carrie — É ele, o Montgrow. Filho da mãe, tinha que aparecer logo agora...

Carrie foi prontamente abrir a porta. Ao ver o detetive, o abraçou fortemente. 

— Ei, ei, o que é isso? Parece até que fiquei à beira da morte e sobrevivi por um milagre. — disse Frank, brincando com a maneira dramática que amiga o recebeu.

— Quando disse que iria desligar, imaginei que fosse um ataque de infectados ou estava chegando a um lugar onde possivelmente eles estivessem. — disse ela, se recompondo — E quem é esse aí? — perguntou, inclinando-se para a esquerda ao olhar o Dr.Holligan atrás de Frank.

— Achei um sobrevivente. — respondeu Frank, fechando a porta.

— Dr. Holligan. — disse o cientista, apertando a mão de Carrie e depois a de Collins — Parece um lugar aconchegante pra se refugiar de animais selvagens e doentes que caminham sobre duas pernas.

— Collins!? Não esperava te ver. — disse Frank — Tá liderando uma equipe de reforço?

— Liderava, agora tô sozinho. Fui o único do meu pessoal a escapar sem nenhum arranhão. Por que o chefe te integrou a força-tarefa? 

— Porque não quis ser a criança que fica de fora da brincadeira só olhando os coleguinhas se divertirem. E também... a presença da Carrie no meio dessa farra de infectados como um alvo fácil me fez insistir em vir. Não é um problema pra você, né? 

— Bem, eu iria cumprir ordem direta pra levar sua amiga em segurança à Danverous City pois o pai dela foi internado no hospital geral. Mas ela insistiu em esperar por você. — disse Collins lançando um olhar provocativo em Carrie. 

— Por que não foi com ele? — questionou Frank para a assistente, franzindo o cenho — Vai ver o seu pai, eu cuido de segurar as pontas no máximo que der. Os caras me deixaram levar o Dr. Holligan enquanto lidavam com os morcegos na fábrica. 

— Não, Frank. Eu decido ficar, posso visitar meu pai mais tarde, eu sei que vai ficar tudo bem, ele já teve crises de isquemia antes, vai sair dessa. — disse Carrie — Pode parecer que tô sendo insensível, mas não posso negar o meu instinto aventureiro quando tenho a oportunidade de exercita-lo.

— Tem um rádio? — perguntou Collins a Frank. 

— Aqui. — disse ele, entregando-o — Estão no canal 2.

O agente testara contato com os integrantes da última equipe decretada a conter a infecção. 

— Alguém na escuta? Câmbio. Está na escuta? — perguntava, sem obter resposta — Só estática. — devolveu o rádio a Frank — Eles já eram. Esses morcegos dão um trabalho dobrado. Ter esbarrado só com os infectados foi até uma sorte.

— Ficar parado se escondendo não vai trazer nenhum benefício, só vai deixar essa merda toda ganhar força. Temos que encontrar a conexão entre esse vírus e os morcegos e depressa, antes que a coisa fique ainda mais incontrolável. — sugeriu Frank, impaciente. 

— Eu posso dizer com inteira propriedade que tenho a resposta. — disse o Dr. Holligan, receoso — Mas temo como isso pode me afetar... 

— Espera, você é doutor de quê mesmo? — perguntou Collins.

— Microbiologia. Atuo na área científica há mais de vinte anos, me formei na universidade de Princeton...

— Doutor, por favor, se não for pedir demais, queremos saber detalhes por trás da loucura que tá destruindo essa cidade e não da sua formação acadêmica. — disse Carrie, o interrompendo com certa grosseria.

Frank e Collins olharam para o cientista ávidos pelas imprescindíveis respostas. 

— Se eu lembro bem, na hora que eu descobri o senhor lá naquele banheiro... — disse Frank —... disse que desenterrou um cadáver. Foi aí que começou? 

— Mais precisamente enquanto o estudávamos. — disse Holligan encostando-se no sofá — Passamos horas examinando aquele corpo no trailer até que... um morcego quebrou a janela, invadiu nosso espaço e nos atacou. Mas inicialmente ele aterrissou direto no cadáver, o mordendo... como se já tivesse premeditado a invasão e o ataque ao seu alvo. A mordida reanimou o cadáver... 

— Daí ele partiu pro ataque, mordendo e infectando sua equipe, e o senhor foi o único a conseguir escapar. — disse Frank que compartilhava uma suspeita com Collins e Carrie — Eu tô surpreso, é um milagre o senhor estar vivo.

— Impressão minha ou... sinto um tom de ironia na sua voz? — indagou Holligan, incomodado — Acha que minha sobrevivência foi pré-definida? Que eu programei o cadáver para me excluir e espalhar um vírus de canibalismo numa cidade pequena?

— Ele não. — disse Collins — Nós três achamos. 

— É absurdo...  Eu nunca teria a frieza e o calculismo pra um crime imperdoável desses. Estão equivocados, minha intenção com o projeto foi unicamente em prol da ciência. Não vou tolerar uma acusação tão grave! 

— Acalme-se, doutor, acalme-se... — disse Collins, vindo pacificamente até o cientista. Mas o agente fora ágil ao prende-lo no pulso esquerdo com uma algema. O cientista foi preso ao pé de uma mesa média sobre a qual estava um vaso.

— Peraí, Collins, não é pra tanto. — disse Frank — Todos são inocentes até que se prove o contrário. A ESP não respeita esse princípio? 

— Um suposto crime biológico, o único sobrevivente do primeiro ataque de infectados é o próprio cientista que capitaneou a missão de estudar um cadáver com as mesmas características das atuais vítimas. Obviamente houveram antecedentes. Ele pode ter isolado o vírus durante o exame e o reativado e o morcego, previamente infectado com um outro tipo de vírus, causou a mordida que acionou a nova infecção que parece a mesma, só que com um fator de contágio muito maior. — disse Collins, exaltado — O que você espera que eu faça? 

— Meu jovem, teorizar algo assim chega às raias da paranoia. Me deixem ao menos explicar como posso minimizar o estrago antes que ele se expanda!

— Talvez... ele seja uma vítima também. — disse Carrie, olhando-o — Não sou perita em linguagem corporal, mas ele tá tremendo, quase se borrando nas calças com medo de ser sentenciado à morte. 

Collins sentiu uma vibração no bolso do seu colete. Era o Tablet avisando que uma nova mensagem foi enviada. O agente pegou-o e verificou o conteúdo. 

— É, isso parece alterar tudo... Só parece. — disse ele que logo mostrou à Frank e Carrie — Vejam aqui. Acabaram de me enviar. É um esquema feito após análise de quais rotas o enxame de morcegos toma sempre que vão atacar. Eles parecem ser inteligentes para definir quais áreas serão atacadas a cada vez. E sempre depois de um ataque, vão descansar em algum lugar. O próximo ataque provavelmente será no bairro mais nobre da cidade, zona sul. 

— Morcegos não se comportam assim em bando. — disse Carrie.

— Até parece que estão... sendo teleguiados. — apontou Frank. 

— Como um enxame de nanorrobôs. — falou Collins.

— Isso existe? — Carrie indagou, curiosa. 

— Acredite, existe. — respondeu Collins, guardando o tablet.

— Isso não depõe a meu favor? — perguntou Holligan — Por qual meio eu estaria comandando um exército de morcegos dando a eles a única finalidade de injetar um vírus mortal? 

— É o que vamos descobrir depois que pegarmos seu cúmplice. — disparou Collins. Holligan estremeceu, quase querendo cair em choro.

— Solta ele, você não tá usando o bom senso. — disse Frank aproximando-se do agente — Sei que soa estranho ele ter sido o primeiro sobrevivente, mas... ele diz ter algum recurso pra minimizar o estrago. Não tá curioso? Não devíamos dar um voto? 

— Mesmo que ele seja culpado? Não contem comigo pra isso.

Um silêncio desconfortável reinou por uns segundos na casa. Collins saiu da frente de Frank, mantendo sua posição. O detetive olhava o cientista com a sensibilidade de alguém que passa a mudar sua teoria de acusação para inocência. Alguns minutos se passaram. Holligan sentado no chão e algemado a mesa, Frank e Collins jogando baralho sentados no sofá de dois lugares, Carrie no sofá de três lugares pesquisando algo no laptop...

— Achei. — disse Carrie, o som da sua voz saindo mais alto do que ela pretendia — Digo, eu acho que achei. Mas se correlaciona muito bem com a estética dos infectados, tirando um detalhe ou outro. 

— E o que é? — indagou Frank. 

— Folclore turco. Já ouviu falar em Orek? Um cadáver reanimado por magia negra. Uma vez que renascem, manifestam um insaciável apetite por carne humana viva. A lenda diz que uma menininha vestida de branco é a responsável por transformar os mortos nessas criaturas. Melhor que morcegos. 

— É provável que a lenda seja a infecção original. — disse Collins — Já ouvi histórias, bem vagas, de um ESP de numeração desconhecida que foi capturado nos anos 50, era uma menina com um estranho poder místico de necromancia pra criar esses monstros.

— Eu ficaria impressionado se você dissesse que a fundação falhou na captura dessa menina. — disse Frank.

— O E da sigla também é de eficiência. 

— Por favor, poderiam me dar atenção? — perguntou Holligan, levantando — Preciso que confiem em mim.

— Se dependesse do Collins, o senhor falaria com as paredes. — disse Frank — Desembucha, seja lá qual for o plano pra acabar com essa zorra. 

— No momento em que o cadáver atacou... disparei um alarme, não bem um alarme propriamente dito, mas um som agudo que o deixou atordoado. Criamos a frequência sonora pra desestabilizar cobaias de vírus como esse. Já fizemos testes, muito bem-sucedidos. Só preciso ir até uma estação de rádio, atrair um grande número de infectados e reproduzir o som pra que se confundam ao ponto de cometerem canibalismo entre eles.

— O que garante que isso vai funcionar? — indagou Collins.

— Os testes em vírus análogos. Eu imploro. Me levem a uma estação. 

Ruídos abafados foram ouvidos de algum dos quartos. Collins se prestou a verificar munindo-se de sua metralhadora, pedindo paciência e calma. 

— Logo quando eu ia bater. — disse Frank largando suas cartas. Carrie fechou o laptop e se levantou, tendo um mau pressentimento. 

Collins atravessou o corredor com a arma segurada firmemente, seguindo até a origem dos ruídos. Adentrou num quarto, a luz da lanterna acoplada na arma acesa invadindo a escuridão. A luz foi passada de um lado para o outro, até que iluminou uma garota de assanhados cabelos loiros que protegeu os olhos com os braços. Logo a mesma se revelou infectada ao exibir o rosto pálido com feridas profundas, rosnando feito um cão enfurecido. Soltou um grito raivoso, avançando contra Collins selvagemente. 

O agente disparou com a metralhadora ao sair do quarto e correndo de volta a sala. Alarmados com os tiros, Frank, Carrie e Holligan viram Collins correr até a porta.

— Saiam daqui! Depressa! — berrou ele ao abrir a porta — A casa foi invadida!

— Mas e o doutor? — indagou Frank. 

— Droga... — disse Collins retirando a chave para liberta-lo. Ao faze-lo, o mandou sair — Anda, vai, vai!

Dois infectados surgiram do corredor atrás de Frank prestes a abate-lo. 

— Frank, atrás de você! — avisou Carrie.

O detetive virou-se sacando a pistola rapidamente, atirando nas cabeças dos infectados e em mais três que vinham famintos e raivosos, recuando com Carrie. Ouviram sons de passos em cima do teto. 

— Os miseráveis também subiram. — disse Frank, logo saindo com Carrie as pressas — Vamos no meu carro, no meu carro! Entra, Dr. Holligan, Collins... 

Quando ia chamar por Carrie, viu a assistente ser derrubada por um infectado que pulou do teto caindo sobre ela. 

— Não! — disse Frank, correndo de volta — Carrie!

Ela se arrastou, chegando a chuta-lo no rosto, mas a fome voraz o fez insistir puxando a perna esquerda e tascando uma mordida. Frank atirou contra a cabeça dele certeiramente. Mas viu que agiu tardiamente. 

— Carrie! Não, não, não, não faz isso comigo... Fica comigo, Carrie! — dizia desesperado, segurando-a.

— Montgrow, traz ela, rápido! — gritou Collins. Frank a carregou nos braços com a horda de infectados se amontoando para persegui-los — Fica com ela aí atrás, eu dirijo. — disse ele ao fechar a porta. O agente deu a partida, saindo em alta velocidade pela estrada, os incansáveis monstros humanos atrás. 

Nos assentos traseiros, Frank e Holligan analisavam o quão severo foi o dano da mordida na perna de Carrie. O detetive levantou a calça cor creme da assistente para expor a ferida sangrenta com as marcas dos dentes do infectado. 

— Eu achava que era padrão todo infectado ter espasmo pouco depois de ser mordido, eu vi isso hoje. — disse Frank, estranhando — Mas com a Carrie foi diferente, ela só perdeu a consciência. E tá esfriando que nem um cadáver. 

— Felizmente ainda respira, embora o pulso esteja fraco. — disse Holligan — Vejamos aqui... — voltou-se para o ferimento — A calça a protegeu de uma mordida mais profunda. Ainda assim... 

— O quê, doutor? Não faz suspense, fala logo.

— O vírus foi inoculado, dada a queda de temperatura e inconsciência. Mas a superficialidade da ferida indica que a incubação será gradual. 

— Até quando? — indagou Frank, a tensão estampada. 

— Estimo que... dentro de duas horas, aproximadamente. — fez uma pausa — Eu sinto muito.

— Não me vem com essa de "sinto muito", não vou enterrar mais ninguém com quem me importo pouco tempo depois de uma perda! — disse Frank, agarrando a gola da camisa de Holligan, enervado. 

— Onde achamos uma cura em apenas duas horas? — questionou Collins — Tudo que nosso cientista sabe é como refrear a infecção massiva. 

— Tem razão. Não tenho condições de fabricar uma cura e nem materiais adequados. — disse Holligan, retirando seus óculos ao olhar para Frank — Sugiro se preparar para o pior. 

— Não... — disse Frank em tom choroso, abraçando-se ao corpo de Carrie — Vou te curar, Carrie. Nem que seja a última coisa que eu faça.

***

Em Danverous City, Sorah conduzia o mais novo anjo a ingressar no grupo de apoio entre aqueles que foram marcados como hereges. A dupla entrou no local de fachada discreta por uma porta azul.

— Aqui era onde funcionava uma clínica de psicologia, eu tomei as rédeas de fundar o grupo sendo aceita como proprietária legítima. — disse Sorah, passando por um estreito corredor — Não ligou pro seu amigo? 

— Sim, mas... não atende. Acho que ele está com sérios problemas. A voz dentro do celular considera fora de área. — respondeu Adrael, devolvendo o aparelho.

— Não se preocupe, ele voltará a salvo, esteja onde estiver. Mas você não depende dele pra tudo, certo? Levando em conta que foi banido há seis meses. 

— Venho aprendendo a me virar sozinho. Ter saído de casa mais livremente foi um grande passo.

Os demais anjos do grupo estavam sentados nas cadeiras sem braços em círculo. Todos levantaram com o retorno de Sorah.  

— Pessoal, deem as calorosas boas-vindas ao nosso mais novo membro. — disse ela entusiasmada — Adrael. 

— Olá. — disse o serafim a esquerda de Sorah, acenando timidamente. Os outros três anjos lhe sorriram gentis. 

— Estes são Ariel, Theliel e Zamiel. — apresentou Sorah apontando primeiro para uma centuriã jovem e caucasiana de cabelos pretos e lisos, depois para um rapaz alto e de pele morena com cabelos crespos e depois para um rapaz forte parecendo um afrodescendente com cabelo em corte militar. O trio saudou Adrael, amigáveis.

— Seja bem-vindo, Adrael. — disse Theliel.

— Você achou mais do que um ponto de encontro entre amigos e irmãos condenados. — disse Ariel — Achou o seu verdadeiro lugar no mundo. 

— A gente tá ansioso pra ouvir suas vivências. Mas só cuidado pra não pegar no sono quando a Ariel estiver falando. — disse Zamiel, brincalhão. 

— Não liga, ele apenas não resiste à minha voz angelical. Você se acostuma. 

— É, se acostuma a dormir e acordar enquanto ela ainda tá falando. — retrucou Zamiel — É capaz de você sonhar com algo mais interessante.

Sorah desatou a rir com eles. Adrael tentou entrar no clima esboçando riso contido.

— Bem, vamos iniciar a reunião de hoje. — disse Sorah — Mas não com Adrael, ele ainda precisa se sentir mais à vontade conosco e o espaço. 

— Podemos deixa-lo pro final. — sugeriu Theliel. 

— Por mim tudo bem. — disse Adrael. 

— Sente-se, puxa uma cadeira. — disse Ariel. 

Adrael o fizera, procurando expressar desenvoltura para agir naturalmente entre seus pares. Os quatro sentaram-se em seus lugares. 

— Quem deseja começar? — perguntou Sorah. 

Zamiel ergueu levemente a mão direita.

***

Em Ylon, o sedã prata se aproximava da estação de rádio mais próxima, localizada por Collins no GPS do seu celular. Frank e o agente saíram do veículo com o Dr. Holligan, deixando Carrie desacordada, a fim de deixa-lo na entrada do local cercado de torres de transmissão. Collins atirou no cadeado, destrancando o portão, com o cientista entrando no território.

— Ei, espera. — chamou Collins com uma espécie de granada preta. Holligan virou-se, voltando — Pega. — o agente lhe jogara o artefato explosivo — Gás mostarda. Quantidade suficiente pra se estender a um raio de 5 quilômetros. Melhor chamariz pros desgarrados. 

— O objetivo é atrair os infectados e você oferece gás mostarda? Qual é o segredo? — indagou Frank. 

— Digamos que também testei as fraquezas deles. Garanto que foi bem eficaz. — respondeu o agente, confiante — Eles vão sentir o cheiro de muito longe. Toma cuidado hein.

— Isso aí, toca a música mais pedida pra eles curtirem. Mas vê se faz isso pra que de alguma forma tente se salvar. — aconselhou Frank. Holligan apenas sorriu fraca e nervosamente, logo seguindo rumo ao interior da rádio.

— Tomara que ele viva pra me agradecer depois. — disse Collins. 

Frank tivera um súbito temor que eriçou seus pelos. 

— Ah não... A Carrie! — disse ele, logo disparando até o carro. O que constatou foi de leva-lo a um nível crítico de aflição — Merda! 

Collins veio atrás e ficou atemorizado. Frank pusera as mãos na cabeça em desespero por não ver Carrie dentro do carro. 

A dupla resolveu sair em angustiante procura pela assistente faltando poucas horas para o anoitecer. Frank cruzava uma floresta dificil de trafegar. 

— Por que a pressa? Já não importa mais, se a encontrarmos, sabe o que deve ser feito. — disse Collins — E acredite, eu o farei.

— Cala a boca, é da minha melhor amiga que tá falando. Não sou fraco pra desistir tão fácil. — rebateu Frank, olhando em volta da floresta. 

— Eu já desconfiava que a estimativa do Holligan era imprecisa. Ou ele nos enganou. 

— Não acha esquisito ela ter acordado com o vírus ativado e saído do carro fechando a porta? É um ato racional demais pra um infectado dessa praga. 

— Agora que você falou... Bem, presumindo que ela tenha recobrado a consciência, mas saiu do carro com o vírus já prestes a fechar seu ciclo, é plausível. 

Uma estranha neblina começava a formar-se a frente. Frank foi parando o carro, estranhando o repentino fenômeno. 

— Nevoeiro suspeito... 

— Pela condição climática, parece normal. — disse Collins. 

— Não, é diferente. — afirmou Frank, temeroso — Eu venho sentindo esse arrepio desde que cheguei na cidade. Só uma coisa muito sinistra me provoca isso.

Ambos saíram do carro. Collins manteve a metralhadora carregada e pronta para qualquer ação brusca que os alvejasse. Frank divisou algo em meio a névoa. Viu o formato de um corpo humano deitado. 

— Será possível? — se perguntou, olhando mais atentamente e se aproximando — É... É ela... Carrie!

— Espera, Montgrow, pensa antes de... — alertou Collins que repentinamente sofreu uma queda de pressão e desmaiara. Frank voltou-se a ele. 

— Collins! 

— Ele está bem. — disse uma voz que soou ligeiramente familiar, porém intensificando o arrepio. Frank congelou, mas logo encorajou-se a ver — Sua amiga, por outro lado... 

Zaratro estava ali, sua figura espectral descaradamente diante dele. Uma confissão não verbalizada. A verdade que para ser revelada bastaria uma simples aparição. 

— Zaratro. — disse Frank, sério — Eu devia ter sacado que tinha seu dedo imundo nessa. 

— Esqueceu do meu aviso? Prometi que iria testar seu dom para ver se tem a dignidade contemplada pelos anjos. E devo dizer que estou profundamente desapontado. 

— Ah, te desapontei!? É pra eu ficar chateado ou me sentindo culpado por não ter ido além das suas expectativas? Vai me dar um sermão, papai? 

— Aplicar um merecido castigo, se quer saber. O que um bom mestre que se preze deve fazer quando um aprendiz se recusa a justificar o próprio fracasso. 

— No que foi que eu fracassei? Salvando vidas? 

— Em ignora-las. Não há vidas a serem salvas neste cenário. Eu não o coloquei nisto para impedir mortes, mas para causa-las. Um caçador valente é guiado moralmente pelo desejo de matar. Foi o princípio que ensinei ao meu primeiro discípulo e a todos os sucessores que falharam miseravelmente. Logo você se juntará a eles. — disse Zaratro, aproximando-se de Carrie — Então é ela que quer salvar? 

— Sai de perto dela. Foi você quem a tirou do carro, né? Ótimo, conseguiu brincar com minhas emoções. — disse Frank, sacando sua pistola e a destravando — Toca nela e eu te encho de bala anti-magia. 

— Vá em frente. — disse Zaratro, deixando seu peito e abdômen mais a mostra segurando as laterais do manto que os cobriam parcialmente. Mas Frank hesitou, virando as costas, sua paciência quase no limite — Ele também se enfurecia comigo. Tinha ânsia de me matar. 

— Cala a boca. — disse Frank, os olhos fechados, a mão que segurava a arma tremendo— Cala a boca.

— Mas no âmago do seu ser, eu bem sabia... ele tinha medo de mim... assim como você. 

— Cala a boca! — vociferou Frank, virando-se bruscamente e disparando contra o bruxo diversas vezes, explodindo de fúria. As balas atingiam a barriga de Zaratro, mas ele permanecia firme de pé. O que Frank mal sabia, era que Zaratro não se encontrava fisicamente ali. O bruxo estava em seu recinto cavernoso no submundo em posição meditativa. Mas o impacto da balas em sua projeção o fizeram, numa fração de segundo, mover um dedo como se sentisse os disparos. No plano terreno, após o cessar-fogo, o bruxo removia um projétil enquanto os outros caiam ao chão durante o regenerar da sua pele.

— Você não tá realmente aqui, né? Atirei numa maldita projeção astral. Não que eu ache ter sido isso que te blindou, tô convencido de que voce é o bruxo mais durão que existe. Orquestrou essa desgraça toda lá do submundo, teleguiando os morcegos que você enfeitiçou pra transmitir o vírus. 

— Impressionante. Ele também tinha um excelente talento pra investigação. 

— Para de me comparar à ele! Achou que eu fosse igual? Por isso armou essa celeuma pra me atrair e testar meus dotes de caçador, só pra no fim encarar a verdade que você não aceita! Sinto dizer, mas você foi um otário. Caço pra salvar vidas, sim, e não há nada que me desvie desse propósito. Eu não vivo na pré-história, meus métodos são diferentes. Mas eu quero saber: o que me liga a esse seu aprendiz?

Zaratro afastou-se de Carrie num silêncio provocador. 

— Seja diferente como preferir, mas isso não quebra seu elo familiar. 

— Do que você tá falando? Me diz ao menos o nome dele.

— Órion. — respondeu o bruxo, friamente — Seu bravo ancestral. 

— O quê? É brincadeira... — disse Frank, embasbacado.

— Pegue sua amiga, aceite minha generosidade. Se quiser cura-la, somente ela, use seu sangue. Sangue compartilhado entre mil gerações desde Órion. Mas não pense que revogo minha punição. Adeus, Frank. 

A projeção astral de Zaratro se desfez rapidamemte dos pés a cabeça em centenas de morcegos alvoroçados que voaram em torno de Frank. O detetive atirava para dispersa-los, logo indo pegar Carrie em seus braços e a levando para o carro. Collins despertava. 

– A névoa sumiu... — disse o agente, levantando-se — O que eu perdi? 

— Não muito. — disse Frank pondo Carrie nos bancos de trás — Mas o jogo virou agora. Vamos pro hospital. — falou, determinado, fechando a porta. 

Na emissora de rádio, Holligan, num corredor, espalhava o gás mostarda que se manifestou como uma fumaça amarela que se propagou em poucos segundos até o exterior. O cientista se trancou num estúdio e logo retirou do bolso um pendrive, indo direto a mesa do locutor inserir no computador o arquivo de áudio. Já podia ouvir o alarido dos infectados atraídos pelo odor do gás e invadindo.

Um exército se aglomerava em correria desenfreada até a estação. O cientista movia agilmente os dedos no teclado para ativar a reprodução do som. Mas perdera o foco após a janela do estúdio ter seu vidro estilhaçado. Ora olhava para a perigosa aproximação deles, ora para o monitor. 

Apertou corajosamente o Enter segundos antes de uma infectada pular sobre ele como uma fera. Logo o som torturante e agudo atravessou os ouvidos de todos. Gritando atordoados, os infectados ensandeciam com o som de longa extensão. A reação esperada ocorria. Um canibalismo generalizado. Ali Holligan encontrara seu fim sendo devorado.

Enquanto isso, Frank e Collins já haviam chegado ao hospital, invadindo corredor por corredor.

— Qual é? Vai fazer voto de sigilo? — perguntou Collins — Ficou em silêncio o caminho todo. Até na hora que vimos aquela manada de infectados indo na direção da rádio. 

— Não é hora de papo agora! Cadê esse bendito depósito? 

O agente desacelerou correndo os olhos pelos dois lados. Cravou a visão na porta à direita um pouco mais adiante.

— Ali! Depósito de insumos! — disse ele correndo, logo arrombando a porta com um forte chute. Frank entrou rápido pondo Carrie no chão, indo depois procurar uma seringa dentre as caixas nas estantes.

— Fica de olho nela, deixa que eu dou conta!

Collins foi para perto de Carrie, porém o agente tomara um susto ao ver Carrie subitamente abrir os olhos e levantar-se, soltando grunhidos raivosos e avançando feito um cão. Collins a segurou com força, agarrando-a por trás. 

— Ela acordou! Não sei quanto tempo vou aguentar!

— Mantém ela presa! — disse Frank agilizando sua busca. Enfim achara um kit de seringa com agulhas numa caixa na parte de baixo. Collins sofria para sustentar sua força contra a voracidade de Carrie. Frank coletava seu sangue que enchia a seringa — Pronto! — voltou-se para a amiga, mas havia uma séria dificuldade — Ela tá muito agitada... Não dá pra enfiar a agulha desse jeito! Segura a cabeça dela, vou aplicar no pescoço!

Collins o fizera, mas sua resistência ficou limitada, exigindo rapidez de Frank na injeção. O detetive enfiou a agulha na artéria carótida até esvaziar. O surto viral de Carrie foi amenizando, bem como a pele retomava sua coloração normal. Collins foi largando-a à medida que a infecção se eliminava. 

— Deu bom. — disse Frank, aliviado. Ajudou a assistente a levantar junto a Collins — E aí, como se sente? 

— Eu... sinto que apaguei, mas depois acordei, só que... a razão tinha sido totalmente inibida pelo instinto, um instinto mortífero... Então essa é a sensação. Nunca mais... quero sentir isso.

Collins e Frank entreolharam-se sorrindo. 

— Tá tudo bem agora. Acabou o mini-apocalipse. — disse Frank.

— Como e onde acharam uma cura? — questionou Carrie. 

— Olha, parece insano o que vou dizer agora, mas... Agradeça ao Zaratro. — disse Frank. 

— O quê? — reagiu Carrie, franzindo o cenho. 

— Vem que lá fora eu te conto.

***

No grupo de anjos banidos, Adrael se inquietava com o passar das horas, prestando mais atenção no relógio de parede do que no relato de Ariel. Quando a centuriã encerrou sua história, Sorah aplaudiu com Zamiel e Theliel, olhando para Adrael que logo se deu conta de que havia terminado um discurso e resolveu aplaudir também. 

— Obrigada Ariel. Agora finalmente chegou a vez do nosso neófito. — disse Sorah — Adrael, pode começar a narrar pra gente uma situação que tenha sido difícil no começo da sua jornada como banido.

— Sorah, eu tenho que ir, me desculpem. — disse Adrael, levantando — Frank deve ter chegado, talvez esteja me procurando.

— Sério que já quer sair? — indagou Zamiel — Fica mais um pouco, ainda tá cedo. O melhor da reunião tá por vir. 

— É, estávamos tão ansiosos pra te ouvir e justo na sua hora de falar você pede pra ir embora. — disse Theliel num tom de crítica. 

— Me perdoem se é alguma desfeita, mas... eu realmente preciso ir. Hoje fui só um ouvinte, na próxima eu falo.

Adrael se dirigia ao corredor para sair, mas Sorah e os demais levantaram-se. 

— Adrael, espere. — pediu Sorah. O anjo parou — As regras não funcionam assim. Não podemos deixar que saia. 

— Ela tem razão. — disse Zamiel, colocando-se no caminho do serafim — Os iniciantes ficam pra iniciação. 

— Do que está falando? Por que... estão me cercando? Não podem me prender aqui...

— Podemos sim, Adrael. — disse Sorah vindo atrás dele segurando um espeto cuja ponta ardia em brasa. Ela havia aquecido numa vela posta no chão — Aceitou entrar no grupo, tem que aceitar os termos também.  

— Não me falou nada sobre cárcere privado. — disse Adrael. 

— Não estamos sequestrando você. — disse Theliel — É uma etapa importante pra se oficializar um membro. Uma vez que se inclui, não se escolhe sair.

Adrael virou-se para Sorah e reagiu com espanto. 

— O que significa isso? 

— Segurem ele. — mandou Sorah. Zamiel e Theliel agarraram-no pelos braços. Ariel parecia incerta quanto aquela abordagem. 

— Sorah, tem certeza de que...

— Quieta. — interrompeu Sorah lançando um olhar severo — Se recusou a colaborar com o lado fofinho do grupo, mas não vai fugir do lado sombrio.

— Sorah, você me enganou! 

— Não, eu só quis fazer uma surpresa. Olhe. — disse ela puxando a manga esquerda da blusa e mostrando a marca na forma de um símbolo que Adrael reconheceu enojado — Te traz recordações?

— O que vocês são? Demônios? — perguntou Adrael — Pra se devotarem ao Grande Mal, acredito que sim.

— Engana-se. Somos anjos que se tornaram párias, tratados como escórias por aqueles que honramos. Tal como você, fomos injustiçados. Ainda crê na justiça celestial? Nenhum anjo banido deve continuar submisso aos preceitos sagrados e deturpados!

— Não são vocês que decidem isso! — disse Adrael, revoltado — Cada anjo deve ter sua liberdade respeitada, até para se manter fiel ao Altíssimo! 

— Chega. — disse Sorah, erguendo o espeto — Querendo ou não, será um de nós. Louvando a um verdadeiro mestre que não nos julga pelo que somos. Ele ouve a tudo e a todos... lá de baixo. 

Theliel levantou o braço esquerdo de Adrael para o qual Sorah aproximava o espeto fervendo em brasa. 

— Ah, e antes que esqueça: você trará seu amigo potencial até nós. Pra que tenhamos o privilégio de mata-lo lenta e dolorosamente. 

Ao ouvir aquilo, Adrael retirou forças para se desvencilhar tamanha sua raiva. Deu fortes cotoveladas em Zamiel e Theliel, em seguida chutando Sorah na barriga. Pegou o espeto caído e foi até ela para finca-lo, mas Ariel barrara sendo acertada no peito.

— Maldito! — berrou Sorah que desencravou o espeto de Ariel para ataca-lo em vingança. Zamiel e Theliel foram ao ataque, mas Adrael os dominava. Porém, Sorah o acertou nas costas ao que ele revidou com um soco. Os outros dois o derrubaram, agarrando fortemente. 

Contudo, Zamiel e Theliel se amedrontaram ao ver um brilho ínfimo crescer das pupilas de Adrael. De repente, uma explosão de luz os repeliu. O serafim reerguia-se triunfante, as asas brancas e luminosas ressurgindo e abrindo-se gloriosamente. A intensa luz emanada praticamente cegava os hereges. Em um urro poderoso ao alto, Adrael explodiu uma imensa quantidade de luz, queimando-os até virarem ossadas. A luz manifestou-se tão grandiosa que atravessou o teto até dilacerar o céu.

Com o reduzir e apagar de sua luz, Adrael, em meio a sala destruída, fitava os corpos carbonizados de seus desviados irmãos com decepção e tristeza. 

***

Ainda em Ylon, Frank passava por uma rua com Collins de carona após deixarem Carrie seguir com a tropa de reforço ao hospital geral de Danverous City.

Seguiram em frente até uma linha ferroviária perto da reserva florestal. 

— Aqui tá bom. O helicóptero vai pousar a uns dez metros. — disse Collins que estendeu a mão direita a Frank. O detetive retribuiu com o aperto — Um dia, quem sabe, repetimos a dose. Valeu.

— Valeu você também... parceiro. 

O agente saiu do carro acompanhado de Frank. Mas quando estava prestes a atravessar os trilhos, sentiu, junto ao detetive, algo parecido com uma manada de búfalos vir correndo. Da poeira alta, irrompiam homens de aspectos sinistros montados em cavalos, alguns levando também cães de caça que possuíam olhos vermelhos. 

— Essa não... — disse Frank, atônito — Tá de sacanagem com a minha cara... 

O bando numeroso de homens, cavalos e cães se aproximava mais. 

— O que é, Montgrow? De onde foi que saiu essa manada? 

— Do inferno. — respondeu Frank — É a Caçada Selvagem.

— O quê? 

— Caçada Selvagem! A gente tem que dar o fora daqui agora! — disse Frank andando de volta. 

— Nada disso! Dá tempo de eu atravessar e fugir. 

— Collins, vem comigo! Essa galera é barra pesada!

— Me deixa ir, vai dar certo! Não estão... 

Porém, uma corrente em círculo desceu sobre a cabeça de Collins que se fechou no seu pescoço o estrangulando. O agente foi arrastado pelo trilho pelo caçador de face caveirosa e chapéu preto grande que segurava a corrente e soltava uma risada aterradora. 

— Collins! — gritou Frank que não pôde correr sob o risco de ser pego também — Não! Merda...

O agente sumiu na poeira junto ao bando infernal. Frank caiu de joelhos, sentindo enorme pesar. 

— Collins... — disse ele, extremamente triste pelo destino fatal sofrido pelo agente.

***

Ao chegar em casa, Frank foi tirando a gravata, exalando cansaço. Adrael se aproximou. 

— Frank, fico feliz que voltou. Eu quero te mostrar... 

— Agora não, Adrael. Tive um dia pesado, tô com uma baita dor de cabeça... Me mostra amanhã, tá?

— Por favor, é importante que você veja. Lá no quintal.

O detetive o olhou desconfiado. 

— No quintal? 

A dupla fora até o quintal gramado, um espaço quadrado bem delimitado e de muros altos. 

— Só agora que reparei... Você tá com o seu uniforme de serafim. — disse Frank atrás dele — Então... o tal grupinho de apoio era fachada pra uma seita maligna. Que roubada. Devia ter ficado em casa.

— Errado, Frank. Ter saído, conhecido a Sorah, os outros banidos e me desiludido com eles... de certa maneira, foi uma benção. Eu não teria conseguido sem eles. 

— Conseguido o quê? 

Adrael dera um sorriso leve e misterioso, logo emitindo o brilho angelical nos olhos, bem como expondo suas reluzentes asas. Frank não poupou na perplexidade. 

— Caramba... Mas... Mas como foi isso? 

— Eles me atacaram após eu resistir. Não tive outra escolha senão mata-los. Foi naquela pressão que eles exerceram sobre mim que descobri, um turbilhão de emoções transbordou e... aqui estou, de volta à minha boa forma. 

— Não tô acreditando... Mas você não vai embora, né?

— Continuo banido. Mas... isso não me impede de voar entre as estrelas.

— Vê se volta hein. 

O anjo alçou voo batendo suas asas. O detetive, contente, observou-o disparar até o céu enfiando-se nas nuvens na velocidade de um cometa. Voltando para ir dormir, seu celular tocou antes que subisse a escada. 

— Alô? — disse ao atender sem olhar direito quem era, a voz cansada.

— Frank, sou eu... Não tenho tempo pra explicar nada em detalhes agora. Preciso da sua ajuda. Acho que deve conhecer Darius Atkinson. Ele desapareceu.

Frank boquiabriu-se ao ouvir a familiar voz. 

— Lisbell?!

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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

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