Na mesma noite em que Frank recebera inesperada ligação de Lisbell, fazendo cair por terra a antes tão forte hipótese de que a bruxa teria morrido brutalmente por um Cão do Inferno, uma transação de grande importância para ambas as partes acordadas ocorria no contemplativo interior de uma mansão de arquitetura gótica na zona oeste.
Os dois negociantes possuíam similaridades, mas se distinguiam nas classes a que pertenciam. Um Warlock e um bruxo ex-filiado ao Filhos de Merlin, dois cães sem matilha em um contrato visual de interesse e empolgação naquela sala de estar iluminada por alguns abajures de luzes alaranjadas. Acompanhado de seu mordomo, como uma escolta, o Warlock, de nome Ozyas, homem de porte robusto e usando um capuz de seda prata com detalhes en dourado, baixou os olhos para o pequeno baú que o outro trazia.
— Você é um sujeito de palavra. — disse Ozyas, cortês, dando uns passos adiante até seu parceiro de trato — Dia, hora e lugar pontuais. Muito me apetece. Sinto que será um prazer fechar negócio com você.
— Não vá criando expectativas tão cedo, meu caro Warlock. — disse o outro bruxo, ninguém menos que Lafayette, um velho conhecido de Frank — A garantia primeiro, a entrega depois. Faço as regras já que eu ofertei. — afirmou ele que mantinha a mesma aparência: branco, de cabelos pretos, lisos e compridos amarrados em um rabo de cabelo baixo e suas vestes cujas peças mais destacadas eram o colete preto por cima da camisa vermelha — Mostre-me.
Ozyas retirou sua moeda de troca de um saco de pano cor de barro. Era um livro grande, de espessura grossa, a capa negra com entalhes metálicos que formavam um rosto macabro de caveira no centro.
— O que foi? Quer que eu abra e lhe conte uma história? — perguntou Ozyas.
— Quero que abra e me mostre. — exigiu Lafayette. O mordomo era um velho calvo de bigode que o olhava com suspeita antipática. O Warlock abrira o livro de feitiços em páginas aleatórias que possuíam inscrições específicas com diagramas de sigilos místicos para as mais diversas mágicas.
— Consegue ler "Era uma vez" aqui?
— Chega de gracinhas. — disse Lafayette, abrindo seu baú que se mostrou repleto de joias e pedras preciosas das mais variadas espécies — Vejo o brilho ganancioso nos seus olhos. Lindas, não? Fiz questão de encomendar a lapidação. Irrecusáveis?
— Mas é claro. — disse Ozyas, entregando o livro e recebendo o baú com as joias — Lafayette, eu tive um pressentimento de que não me decepcionaria. Faça bom proveito. Mas cuidado. Forças maiores estão procurando incessantemente por ele e dispostas a matar. Posso sentir. Já sabem que o retirei de uma caverna do submundo. Se o mantiver seguro, conhecerá um poder que irá transforma-lo para sempre. Será que aguenta?
— Me tornei mais forte do que quando estive preso naquele clube de idólatras alienados a Merlin. Aquilo era jardim de infância. Mas isto aqui... — disse Lafayette, destacando o grimório — Isto aqui é minha graduação. Obrigado. Mas só digo que foi um prazer ter negociado quando eu testar algumas receitas.
— Estarei esperando seu contato. Obrigado você também. — disse Ozyas — Armando, pode acompanha-lo até a porta, por favor?
O mordomo o conduziu à porta, olhando-o torto. Ao chegar em sua grande residência, Lafayette entrou no seu escritório praticamente às escuras, dependendo da luz do luar atravessando a janela quadriculada. Mas logo acendeu algumas velas simplesmente passando sua mão direita sobre elas. Abriu o livro sobre a mesa, ansiosamente querendo executar qualquer mágica ali constada. Porém, um estranho vento soprou, apagando as velas.
Lafayette ergueu o olhar sério, olhando em todas as direções. Ciente de que o vento não podia ter vindo de fora, ele andou um pouco pela sala, correndo os olhos pelo ambiente.
— Apareça de onde estiver, não sou de brincar de esconde-esconde. Quer do jeito dificil? Vamos lá. Estou com uma arma, a melhor de todas, e não tenho medo de usa-la.
— Pois devia. — disse uma voz grave, arrastada e soturna.
O bruxo virou o rosto para onde sabia ter ecoado o som arrepiante e logo viu uma massa sombria de rosto caveiroso e olhos vermelhos saltar do escuro contra ele. Lafayette gritara ao sentir aquele ser atravessando seu corpo, o trucidando, fazendo bastante sangue pintar uma parede em múltiplos respingos.
***
No meio da tarde do dia seguinte, Frank estacionou seu sedã prata em frente a residência de Lisbell, mal se contendo de curiosidade em saber do que se tratava a tal emergência alarmada pela bruxa. Mas o detetive não viera desacompanhado como de hábito. Carrie resolveu se juntar a missão como sua fiel escudeira no objetivo de fazer daquelas suas merecidas férias algo fora da monotonia de seu cotidiano longe do trabalho, então nada melhor do que aproveita-las se aproximando dos perigos sobrenaturais.
— Tem certeza de que quer seguir a partir daqui? — perguntou Frank ao sair do veículo ao mesmo tempo que ela — Ser infectada por um vírus à base de magia das trevas te deixou mais corajosa do que nunca?
— É apenas uma fuga necessária da rotina. Calma que não vou ficar grudada em você por qualquer caçada. — disse Carrie — Eu disse que meu espírito de aventura tava tinindo, não foi? Bem antes de eu ser mordida.
— Ou deve ser pelo ciúmes da estagiária. — disse Frank, cutucando uma especulação que a irritava.
— De novo com essa suspeita estúpida de ciúme? Eu não tô nem aí pra sua assistente provisória. — disse ela ao lado dele em direção a porta de Lisbell — Claro, não que eu torça contra, só não me agrada ficar distante de você curtindo tudo que eu gostaria de fazer pelo tempo que não tenho disponível.
— Você falando provisória com tanta ênfase indica o contrário, sabia?
— É o que ela é, certo? Para de me zoar, não disputo meu melhor amigo com ninguém. Nossa amizade é poligâmica. Todas as minhas amizades são.
— Vai, admite que ficou mais carinhosa comigo depois que salvei sua vida ontem.
— Você subiu mais no meu conceito com seu sangue miraculoso. — disse Carrie olhando-o sacana.
— Poxa, eu achava que não precisasse subir mais, que eu já tinha mostrado a que vim desde que nos conhecemos. — retrucou Frank, meio chateado.
— Agora sou eu quem tô zoando. — disse Carrie com uma risadinha e depois o tocando no ombro.
Frank tocou a campainha duas vezes. Lisbell prontamente atendera-os.
— Já não era sem tempo. — disse a bruxa olhando com um sorriso de satisfação à Frank. Depois olhou para Carrie — Parceira de caçada?
— Tô mais pra caça-lendas. — respondeu Carrie, simpática.
— Minha assistente, Carrie Wood. — disse Frank, apresentando-a.
— Prazer. — disse Lisbell estendendo sua mão direita. Mas Carrie pareceu receosa — Entendi. Bruxas não merecem confiança logo de primeira.
— Ahn... Desculpa, eu não quis parecer... — disse Carrie tentando remendar sua desfeita.
— Não, tudo bem. Entrem logo. O que tenho a dizer é de fato urgente e não pode mais esperar. — disse Lisbell. Frank e Carrie adentraram na casa, ambos esquadrinhando o interior bem típico de uma residência suburbana — Vamos pra minha biblioteca.
— Você tem uma biblioteca na sua casa?! — disse Carrie, espantada, seguindo-a ao lado de Frank — É, tô sentindo que vou ganhar uma amiga nova. — falou em voz baixa ao detetive.
A bruxa abriu a porta do cômodo com três estantes repletas de livros sobre magia e uma miríade de temas sobrenaturais. Frank e Carrie sentaram-se a mesa de madeira vermelha enquanto a anfitriã permaneceu de pé.
— O que pode ser tão urgente assim por trás do desaparecimento do Darius? — perguntou Frank.
— O motivo pelo qual ele foi raptado. — disse Lisbell — Ele foi coagido pelos sequestradores a fazer uma duplicata de barro pra usurpa-lo. Ninguém da facção faz ideia de quanto tempo o farsante esteve no lugar dele. Só nos demos conta depois que o serviçal da mansão foi encontrado morto com sinais de hemorragia causada por um derrame induzido por feitiço de morte súbita. — fez uma breve pausa — E por falar em duplicatas, foi por esse meio que escapei de morrer. Jocelyn era esperta e traiçoeira demais pra apostar tudo naquele cão do inferno que dei de presente.
— Ah sim... Eu devia ter imaginado. — disse Frank, se sentindo tolo — Mas voltando ao Darius... Alguma teoria de onde ele tá confinado? — questionou Frank.
— Submundo. — disse Lisbell, lacônica — A aura mística dele não se encontra mais nesse plano, pudemos rastrea-la depois que a duplicata atingiu sua validade e se desfez.
— Mas a troco de quê o raptariam? — indagou Carrie.
A bruxa resolveu sentar-se diante deles a mesa.
— Já ouviram falar do... Necronomicon?
— Mas é claro. — disse Carrie — Sou uma leitora aficionada por Lovecraft desde que me entendo por gente.
— É, eu também me amarro nas histórias dele. — disse Frank olhando para as duas. Voltou-se unicamente a Lisbell — Peraí... Esse livro é real? O Necronomicon existe mesmo?
— Lovecraft não passava de um cara que sabia demais sobre forças muito além da compreensão. — declarou Lisbell, olhando para ambos — Esse grimório, inclusive, lista um feitiço que leva pra uma dimensão com monstros tão repugnantes e abomináveis que o fariam se borrar todo nas calças.
— Já até sei qual é. — disse Frank — O Limbo. Ainda bem que não teremos de ir pra lá resgatar o Darius.
— Esteve no submundo uma vez? — indagou Lisbell.
— Passei uma certa temporada por lá graças ao seu falecido chefe, Clancy. Mas isso aí é passado. Vamos tentar impedir que o pai e o filho se reencontrem na mesma situação. Mas me esclarece uma coisa: o Darius tinha o Necronomicon?
— Uma cópia de várias que foram criadas por feitiço de duplicação. Mas ela foi roubada, talvez os sequestradores tenham julgado que Darius escondeu noutro lugar e mentiu sobre o roubo, daí sendo levado para interrogatório, provavelmente diante do criador do grimório original.
— E quem é? — quis saber Carrie.
— O maior e mais infame bruxo das trevas que já existiu. — definiu Lisbell — Zaratro. Inimigo número um da nossa facção já que... como o nome do grupo diz... somos devotos ao mago que foi aprendiz dele, o último aprendiz antes de se trancar numa tumba por séculos após a guerra das cruzadas.
— Espera um minuto ai. Merlin foi aprendiz do Zaratro? — questionou Frank, expressando surpresa.
— Sim. De acordo com uma lenda, Zaratro usou os corpos de quatro cavaleiros leais ao Rei Arthur para revive-los através de um feitiço necromântico de um nível inalcançável, pelo menos para bruxos não necronomianos. — contou Lisbell.
Frank e Carrie entreolharam-se sérios como se fizessem contato telepático.
— E se eu te disser que... a lenda é a mais pura verdade? — revelou o detetive, fazendo-a reagir com certo temor — São eles que devem estar agora tentando extrair informações do Darius não sendo nem um pouquinho legais.
Lisbell baixou a cabeça fechando os olhos como se contivesse o choro.
— O quão importante ele é pra você se preocupar tanto? — indagou Carrie — Claro, além dele ser o líder da convenção.
— Darius e eu tivemos um relacionamento que não começou tão bem, mas nos últimos meses vínhamos tentando recomeçar. Logo quando todas as chances sorriram pra nós dois, esses malditos cavaleiros aparecem, levam o homem que eu amo e ainda estão atrás do item mais cobiçado da magia. O que sabem sobre eles?
— Usam armaduras pretas e rústicas, manipulam as sombras para criar armas, são feiosos por baixo daqueles elmos, falam rouco e fedem a carniça. — enumerou Frank, resumidamente — Além disso, são tão poderosos quanto anjos, páreo duro mesmo.
— E não vamos esquecer dos daevas. — adicionou Carrie.
— Deles eu já conheço a fundo. – disse Lisbell — Os seres mais primitivos do submundo. Governam as prisões do Malebolge, a zona central pra onde se encaminham as almas a se corromperem.
— Será lá que trancafiaram o Darius? Não seria improvável Zaratro formar um quartel-general nessa área. — apontou Frank.
— Eu já acho difícil, só se ele quisesse montar um joguinho diabólico de caça ao bruxo no meio de centenas de milhares de almas aprisionadas. É do Necronomicon que ele está atrás e se garantirmos que ele o terá caso liberte o Darius, não vai perder tempo brincando com nossas vidas. E por falar em daevas...
A bruxa sacou seu celular, acessando a galeria de fotos. Mostrou uma em particular que intrigou Frank. Nela via-se um homem de colete preto e camisa vermelha morto com um profundo buraco no peito e olhos abertos numa expressão travada no horror. O corpo estava envolto de uma poça ampla de sangue.
— Pode-se reconhecer uma vítima de daeva vendo ao redor dos olhos, se ampliar... dá pra ver as veias negras nas órbitas. — disse Lisbell, dando zoom na imagem.
— Mas esse não é o... Lafayette? — perguntou Frank.
— Conhecia? É ele sim. Não por mera coincidência, um daeva o pegou desprevenido pouco tempo depois dele voltar de uma negociação pelo Necronomicon.
— Como sabia que ele vinha com o grimório? — perguntou Carrie.
— Lafayette e eu éramos amigos desde quando ele se filiou a nossa facção. Mantivemos contato após ele se desligar. Na última conversa que tivemos por mensagens, ele mencionou que fecharia negócio pelo Necromomicon na casa de um Warlock chamado Ozyas.
— Um Warlock?! Um daqueles bruxos que são banidos das convenções por conduta inadequada e depois passam a usar magia própria? — questionou Frank — Jurava que fossem pura lenda.
— Exato. Por serem tão raros, Ozyas é o único a residir em solo americano. Muito requisitado pra negociações. Mas ao mesmo tempo evitado por aqueles que trataram com ele e se arrependeram. Lafayette poderia ter sido mais um tapeado.
— Então o livro que o daeva roubou do Lafayette deve ser uma cópia fajuta, né? — teorizou Frank.
— É com isso que tô contando. Ozyas é um trapaceiro dos mais enganosos, sei disso porque já fui uma vítima. O grimório original está lá guardado a sete chaves e vamos arranca-lo das mãos imundas dele, nem que pra isso devamos mata-lo. Warlocks são imprevisíveis, mas estão uns degraus abaixo dos necronomianos, consigo segura-lo numa luta equilibrada. — declarou a bruxa transparecendo toda sua autoconfiança — E então, Frank? Quer mergulhar de cabeça ou... vai virar as costas e fugir?
— Um caçador da linhagem Montgrow jamais abre mão de uma aventura com altas chances de perigo mortal. Chega a ser um insulto perguntar isso. — disse Frank, autovalorizando-se.
— Foi mal, passou longe da minha intenção cutucar o seu ego de caçador com esse convite tão atraente. — disse Lisbell com um sorriso de ironia. Carrie não recebeu muito bem aquela expressão.
— OK, pode contar comigo pra irmos até a mansão do Warlock, mas não vejo necessidade de te acompanhar até o submundo.
— Tá com medo de bater de frente com o Você-Sabe-Quem e os comensais dele? — perguntou Carrie.
— Não é isso, só não acho que eu venha a ter utilidade nessa viagem. — disse Frank, sentindo-se pressionado — Não tô me acorvadando por causa do Zaratro.
— Essa é a razão? Achei que fosse algum trauma. — disse Lisbell.
— Olha, como eu disse, já estive lá, e não é nenhum destino turístico que faça você querer voltar mais vezes. Os monstros que encontramos por lá são os mais selvagens e escrotos, é uma selva onde impera a lei do mais forte sobre o mais fraco.
— Mas preciso que seja minha escolta. — destacou Lisbell — Isso porque... — olhou nervosa para ambos — ...bruxos e bruxas sofrem um bloqueio de magia no submundo. Os únicos livres são os necronomianos.
— Tá bem, se é assim, tô dentro. A gente aproveita o resto da tarde pra se planejar melhor e a noite entramos com o pé na porta do Ozyas. — determinou Frank.
— Mas... e quanto a ela? — indagou Lisbell apontando para Carrie — Não, espera. Disse que é sua assistente, certo? — voltou-se unicamente para ela — Já chegou a traduzir manuscritos antigos e codificados?
— Sou amiga de um criptógrafo que vive me dando uns macetes. — respondeu Carrie, referenciando Owen — Eu aprendi rápido, mas não sem a praticidade da tecnologia. Mais precisamente, um software avançado de decodificação que tenho instalado no meu laptop, tá na minha bolsa.
Frank tinha uma dúvida contestadora.
— Mas se o Zaratro escreveu o Necronomicon a base de códigos, um livro mágico desses tão antigo não pode ser simplesmente traduzido com um programa de computador, por mais eficiente que seja. Pra isso tínhamos que pedir auxílio da ESP, eles tem um supercomputador que desvenda qualquer mensagem cifrada em segundos.
— Não esquenta, a versão que tenho atualmente é mais rápida e precisa que a anterior e devo agradecer isso ao Hoeckler que me deu de presente no meu último aniversário. — revelou Carrie, despreocupada.
— Ótimo, você fica pra traduzir enquanto Frank e eu cuidamos de negociar o grimório com Zaratro em troca da liberdade de Darius.
— Mas é claro que você vai criar uma cópia pra tapear o Zaratro enquanto a Carrie traduz o original, né? — perguntou Frank.
— Eu adoraria que fosse fácil assim, mas não, ele não pode ser enganado com uma cópia. O original contém páginas proibidas com escritos ocultos que somente ele é capaz de revelar bastando um toque.
— Essa não, vamos resgatar o Darius ao custo de entregar o livro original de bandeja pro Zaratro?!
— É o único jeito se quisermos que funcione.
— Não, não acho que vale a pena salvar uma vida entregando uma arma de destruição pra um terrorista. — opinou Frank.
— Pra mim vale, porque é a vida do homem que escolhi amar mais do que tudo.
— Uma vida em detrimento de milhares. Nada egoista, nem um pouquinho.
— Eu não vou implorar pra que se junte a mim. Se quiser desistir, a porta tá aberta.
— Você falando assim quase faz me arrepender de ter gastado combustível até aqui. — disse Frank, levantando-se, o sangue em efervescência.
— Darius não ficou amigo seu depois de um caso paranormal? Ele me falou sobre você. Deixaria um amigo morrer? — questionou Lisbell, também levantando.
— Claro que não, mas nesse caso infelizmente seria necessário. O Zaratro representa um perigo muito maior do que a gente pode imaginar. Sem o livro ele já causa uma baderna das brabas. Sabe do que rolou em Ylon ontem, né? Pois é, cortesia dele. De posse do livro, se ele falar um abracadabra, já era o mundo.
— Podemos lidar com as consequências depois.
— Eu prefiro evita-las. – rebateu Frank.
— Quanto mais de sangue bruxo vai ter que ser derramado até isso acabar?
— Não tô nem aí pra quantos bruxos tiverem que morrer por esse livro, escolho o bem maior.
— Chega! — explodiu Carrie, levantando bruscamente numa reação que assustou ao detetive e a bruxa — Essa discussão não chega a lugar algum. Frank, melhor seguirmos o plano.
— O quê? Vai apoiar a missão egoísta dela?
— Quantas vezes você precisou fazer por si mesmo pra salvar a vida de alguém que ama? Além do mais, o Darius é líder do grupo e é de um líder que eles precisam nesse momento. — disse Carrie não gostando nada de ser mediadora — Imagina só um exército de bruxos contra o Zaratro dando suporte pra você, a ESP e os anjos.
— Como devotos de Merlin, somos dependentes da figura de um líder. — afirmou Lisbell — Sem um, ficamos desamparados e impotentes. E Darius é filho único, não há mais linha sucessória.
Frank respirou fundo refletindo muito bem a questão.
— Tudo bem, nesse sentido a vida do Darius é valiosa. Agora posso dizer que vi vantagem. Quando fui buscar o rubi do Sacre emprestado pra resolver um caso de vampiros há cinco dias, sugeri a ele que a facção desse uma força. — disse Frank — Mas aquele não era o Darius verdadeiro, né?
— Há cinco dias... O mordomo foi achado morto há cinco dias, então você interagiu com a duplicata.
— Bem, acho que vou aproveitar pra devolver o que ele não me emprestou. — disse Frank, novamente aberto a participar — Bora fazer isso.
— Obrigada. — disse Lisbell, o olhar meio triste numa expressão de gratidão pela consideração de Frank.
***
A noite, o detetive e a bruxa adentraram na mansão de Ozyas sendo recebidos cordialmente por Armando, o dedicado serviçal do Warlock que não tolerava visitas indesejáveis como a de Lafayette. O motivo para a recepção positiva se dava por Lisbell inventar que eram uma dupla de jornalistas querendo uma entrevista com Ozyas quanto ao comércio de joias exóticas que ele possui como seu próprio empreendedorismo.
Mas a hora não poderia ser mais inconveniente para o Warlock que se divertia nas preliminares de uma sessão de sadomasoquismo com uma dominatrix voluptuosa vestida num collant preto balançando um chicote. Ozyas se via nu deitado na cama, algemado, olhando provocantemente para sua dama noturna, mordendo os lábios de excitação. Uma música num ritmo de rock tocava para embalar e apimentar.
Armando bateu forte na porta com Frank e Lisbell atrás dele. Ozyas se desesperou ao escutar as batidas, pedindo para ser libertado. A dominatrix bufou, sua malícia sexual se esvaindo com a interrupção, logo indo solta-lo.
— Eita, ele curte um rockzinho, né? — disse Frank. Mas logo a música parou após a moça desligar o som — Opa, acho que ele agora vem nos ver.
— O Sr. Ozyas estava no meio de sua sessão de terapia. — informou o mordomo.
A dominatrix escapava pela janela do quarto.
— Pagamento atrasado de novo? — indagou ela.
— Quem sabe na próxima. — disse Ozyas — Some.
A garota pulou da janela, ressabiada. O Warlock trajou-se com seu roupão de seda azul marinho e foi atender aos visitantes.
— Armando... Quem são?
— Disseram ser da Gazeta Danverous, querem que conceda uma entrevista exclusiva sobre sua loja.
— Sabe que costumo receber a imprensa com horário marcado. — disse ele lançando olhar desconfiado à dupla — Mas já que estão aqui... Abro uma exceção.
Frank e Lisbell entraram olhando o interior escuro do quarto, apenas velas acesas. Após fechar a porta, o Warlock foi surpreendido com Frank lhe apontando uma arma, logo erguendo os braços.
— Geralmente se usa um gravador quando se quer registrar uma entrevista. — disse o bruxo.
— O meu é personalizado. — retrucou Frank, destravando a arma — Já está ligado. Posso fazer a primeira pergunta?
— Tá bom, quem de fato são vocês? Jornalistas obviamente não são.
— Amigos do seu último ofertante. — disse Lisbell.
— Então, Lafayette resolveu mandar seus lacaios pra se vingar do meu golpe. — disse Ozyas, sorrindo infame — Corajoso da parte dele.
— Do que conheço do Lafayette, ele teria feito muito mais do que só uma visitinha pacífica pra dar o troco... se estivesse vivo. — afirmou Lisbell.
— Ele morreu?! — disse Ozyas, pasmo.
— Não lê jornais? O cara era dono da maior vinícola da Califórnia. — disse Frank mantendo a arma na mira — E que mansão mais escura hein. Parece até que não pagou a conta de luz.
— Sou um homem clássico que preserva seus costumes. Agora me digam de uma vez que o vieram fazer aqui! Que outro tipo de bruxo usa uma arma além dos Indexianos?
— Você tá lidando aqui com um caçador que vai te encher de bala anti-magia se não nos disser onde tá o Necronomicon, o original.
— Vocês terão que brincar de pega-pega comigo.
— Frank, rápido! — avisou Lisbell. O detetive sacou depressa algemas que inibiam a magia quando presas a bruxos, logo empurrando Ozyas e o prendendo numa coluna dianteira do dossel de sua cama.
— Algemas anti-bruxo, vai comer na palma das nossas mãos. — disse Frank
— Agora nos diga onde está o grimório. — disse Lisbell, severa — Ou o Frank estoura seus miolos caso se negue.
— No cofre. — disse Ozyas — Atrás daquele quadro. — apontou para a pintura na parede próxima a cama. Lisbell caminhou até o quadro, o removendo, assim revelando o cofre de botão giratório.
— Combinação, por obséquio. — pediu Frank.
— 4, 5, 9, 2, 4. — respondeu Ozyas, olhando raivosamemte para a bruxa. Lisbell girou o botão nos números exatos. Abrira, retirando o grimório e voltando para perto de Frank.
— Não é perigoso pra você pegar nesse livro com as mãos nuas? — perguntou Frank.
— Sem problema. Zaratro não colocaria um sistema de segurança que impedisse o grimório de ser tocado por qualquer bruxo.
— Por que não? É um ótimo plano pra evitar cópias. Ele não seria idiota de desconsiderar essa ideia.
— Acho que ele gosta da sensação de ter sua obra violada como se fosse um teste para a ganância e sede de poder para outros bruxos.
– Olha, melhor eu nem tentar entender o que se passa na mente daquele maluco.
— Pretendem enfrentar Zaratro saindo por aí com essa ogiva nuclear emanando radiação? Boa sorte. Espero que fiquem vivos tempo o bastante pra se arrependerem dessa loucura. — disse Ozyas.
— O que faremos a partir daqui não é da sua conta. Mas antes de irmos, uma pequena inspeção. — disse Lisbell que fechou os olhos e baixou sua mão direita ao livro a alguns centímetros da capa e passou-a de cima a baixo. Porém, a bruxa foi jogada contra a parede após o livro emitir uma vibração súbita. Frank foi ao socorro dela.
— Lisbell! Cê ta bem? — perguntou, ajudando-a.
— Não foi nada, eu... só fui repelida. A magia necronomiana rejeitou minha inspeção por razões óbvias.
Frank virou-se para Ozyas e o viu apanhando o livro.
— Ei, larga isso aí. — advertiu ele, tornando a apontar a arma — Se não devolver, te juro que atiro.
— Eu só ia fazer uma demonstração se passou pela cabeça de um de vocês destruir o livro eventualmente. — disse Ozyas que logo fizera o livro levitar e com sua mão esquerda livre acendeu labaredas de fogo num misto de azul e violeta. Baixou as chamas ao livro, mas nenhum dano causaram. Aparentemente, a capa queimou, mas logo o fogo apagara — Viram? É indestrutível. Apenas uma força sagrada extremamente poderosa é capaz de reduzi-lo a pó.
Ozyas telecineticamente mandou o grimório de volta para as mãos de Lisbell.
— Vamos indo. — disse a bruxa, andando para sair. Frank guardou a arma, seguindo-a e fechando a porta. Contudo, se depararam com algo num corredor que os alertou seriamente.
— Aquele não é o mordomo? — indagou Frank vendo Armando caído de bruços no chão. Se aproximaram e viram sangue escorrendo do pescoço. O detetive virou-o — Foi degolado. — olhou para Lisbell — A gente tem que dar o fora daqui e ligeiro.
Correram para a sala, mas logo foram barrados pelas aparições súbitas de bruxos da facção chamada Index, com seus ternos de luxo e máscaras pretas similares às usadas em bailes.
— Puta merda... — disse Frank olhando-os — Esses caras não.
No quarto de Ozyas, o bruxo se forçava para remover as algemas. Porém, foi abordado por algo que pareceu ter saído diretamente das sombras. Um homem mascarado e tão robusto quanto ele que lhe pressionou uma navalha no garganta.
— Então você acabou dando o livro pra eles ao invés de nos esperar. — disse o bruxo da Index.
— Eu estava esperando... Mas não contava que viria um caçador com aquela maldita filha de Merlin.
— Conforme nosso acordo, falhas não são toleradas. Só precisava te-los distraído por alguns minutos, verme.
O bruxo rasgara a garganta de Ozyas cruelmente pelo deslize com o acordo previamente feito para oferecer o grimório original a facção. O líder interino dela, Silas, um rapaz de cabelo preto em corte social bem penteado e partido, vinha até Frank.
— Você não me é estranho. — disse Silas — É o caçador que presenciou a morte do nosso mestre, não é? Frank Montgrow. Que prazer conhece-lo. Uma noite de sorte encontra-lo bem acompanhado de uma dama, ainda mais com um valioso item de nosso interesse. A propósito, ela que nos trouxe aqui.
— Mentira! Não intencionalmente. — disse Lisbell — Eu havia sido seguida por um deles. Me fixaram uma marca pra me rastrear onde quer que eu estivesse. Por isso quis terminar isso logo. Pra evitar esse encontro.
— O Warlock nos garantiu o livro primeiramente. — declarou Silas, sacando uma arma — E não sairemos daqui sem ele.
Lisbell usou um feitiço de invisibilidade para correr protegendo o grimório. Frank se desesperou, mas logo precisou enfrentar alguns bruxos da Index os socando e desviando dos golpes de faca.
— Vocês, atrás dela! — ordenou Silas para outros três.
Frank se escondeu numa pilastra, sacando sua arma e dando o primeiro disparo, o que estimulou aqueles que permaneceram na sala a fazerem o mesmo. A cada vez que o detetive cuspia balas, chegando a estilhaçar vasos caríssimos, o trio de bruxos abaixavam-se esperando o momento de revidarem. Enquanto mandavam chumbo contra a pilastra, Frank já estava engatinhando usando um sofá como trincheira. O detetive expôs seu busto atrás do móvel, atirando mais quatro vezes, chegando a acertar um deles em cheio. Os outros dois contra-atacaram na hora, levando Frank a abaixar-se.
No lado de fora, trovões intensos retumbavam. Quando um relâmpago piscara, três ofanins surgiram em milissegundos olhando para a residência e escutando o bang-bang que lá o ocorria. Raquel encontrava-se entre os outros dois que nunca haviam antes pisado na Terra - uma ofanim de cabelos pretos, longos e lisos com uma franja diagonal e o outro tina aparência de um rapaz negro, cabelo meio raspado e porte robusto.
A munição de Frank havia esgotado, mas ainda sobrava um outro pente, embora não fosse de balas anti-magia. Num determinado momento ouviu sons de passos rápidos, dando a impressão de haver mais alguém ali. Levantou a cabeça para conferir e viu uma pessoa trajando vestes negras - um manto similar ao de um ninja com uma calça apertada e botas — terminando de matar os bruxos com uma lâmina que saía do seu braço direito.
O detetive levantou-se, recarregando a arma e bradou:
— Ei, você! Não se mova. Eu agradeço que tenha acabado com esses miseráveis por mim, mas não é por isso que vou botar minha mão no fogo. Quem é você?
A pessoa simplesmente ignorou o aviso, correndo pela sala e fugindo pelo corredor. Frank atirou três vezes, mas a agilidade do intruso superou a sua.
— Lisbell, cadê você?
A bruxa reapareceu tornando-se visível bem na frente de Frank que levara um susto quase apertando o gatilho.
— Opa, sou eu! Essa foi por pouco, eu acho.
— Sorte sua que minhas balas anti-magia acabaram. Se tivesse aparecido um pouquinho mais perto... — disse ele fazendo sinal de pequeno com os dedos indicador e polegar.
— Você que os matou? Mas... não parecem estar com marcas de tiros. Foram cortados.
— Não fui eu, mas um alguém misterioso, não vi direito se era homem ou mulher. Usava uma roupa preta, um capuz parecendo uma burca ou balaclava. Estripou os caras sem dó.
— Uma pessoa misteriosa vestida de preto também passou por mim. Deve ter matado os que me perseguiam. — disse Lisbell, intrigada — Fui no quarto do Ozyas. Ele está morto. Tinha negócio fechado com os Indexianos antes da oferta de Lafayette. Sabiam que uma possível morte dele atrairia alguém próximo, ou seja, sabiam da minha relação com ele e me rastrearam. Desculpa não ter contado, queria que focássemos na missão.
— Relaxa, o importante é que o livro tá em nossas mãos. Vambora. — disse Frank, logo caminhando para ir embora. Todavia, a tríade ofanin surgiu, os barrando — Opa... Raguel, fala aí. Qual é a boa? Tá num rolê com os amigos?
— Olá, Frank. Viemos nos apoderar deste livro que sua companheira segura. É um artefato perigoso. Se tiver que cair em mãos certas, que sejam as nossas.
— Queria que a Carrie estivesse aqui pra nos ajudar a vencer a discussão. — disse Frank baixinho para Lisbell, entortando a boca. Voltou-se aos anjos — Olha, Raguel, estamos num caso de vida ou morte. Infelizmente, o livro é uma moeda de troca. O amigo da minha amiga... que também é meu amigo... ele foi sequestrado pelos cavaleiros sombrios. Vamos negociar a liberdade dele ao custo do livro, ou seja, teremos que devolve-lo ao dono... o Zaratro.
— Isso é uma sandice. — reclamou Raguel — Uma vida salva não vale a perda de milhares caso esse objeto maldito volte pras mãos daquele ímpio.
— Eu pensava o mesmo, mas lembrei que ele tem grande importância e influência entre os bruxos e seria de grande ajuda pra combater o Zaratro futuramente. Sacrificar a vida dele seria uma perda significativa, precisaremos de todo apoio possível pra derrotar aquele bruxo, não só do de vocês.
— Não lhe ocorreu que se ele aprimorar seu poder profano, seu corpo e espírito estarão fortes o suficiente para conter o Grande Mal sendo um receptáculo definitivo caso venha a liberta-lo?
— Diz pra ele que temos um trunfo. — disse Lisbell no ouvido de Frank.
— Temos uma estratégia pra engana-lo. É sério. Confiem em nós. A vida desse cara é preciosa pra que mais um fronte de batalha esteja conosco.
— Estamos perdendo tempo aqui. Devíamos tomar a força. — disse Thaumiel.
— Thaumiel, não. — indeferiu Raguel, erguendo sua mão direita — Laylah, você também, fique onde está. — voltou-se a Frank — Permissão concedida. Qual o paradeiro do bruxo?
— Submundo. Vamos fazer um passeio por lá.
— Transitem com cautela. Vejo você em breve, Frank. Espero que esteja certo.
O trio angelical desapareceu. Lisbell soltou o ar pela boca em alívio, se apoiando no ombro de Frank que também suspirou tranquilizado.
***
Ao retornar para a casa de Lisbell junto a mesma, Frank recebeu um olhar de contentamento de Carrie por chegarem com o grimório. A assistente os esperou na biblioteca ansiosamente.
— Ah, que beleza, vocês mandaram ver. — disse ela passando os dedos na capa do livro — Nossa, é... até emocionante e um pouco assustador tocar numa relíquia como essa.
— Passamos por dois duros obstáculos. — disse Frank — Lembra da facção de ocultistas cujo antigo líder era avô da Bloody Mary?
— A Index?! Não brinca. Estavam lá disputando o livro com vocês? Ainda bem que venceram a briga. E o segundo obstáculo?
— Raguel e os parceiros. Pra ele ter vindo com dois ofanins, certamente ele cogitou nos ameaçar a entregar o livro. Quando ele apareceu, senti que era o fim da linha, mas convenci do nosso plano.
— Eu não tive como dizer nada diretamente porque... — disse Lisbell recordando — ... ele tinha uma presença tão intimidadora, mal consegui olhar nos olhos. Frank tá de parabéns pela postura.
— Pode crer, foi difícil pra mim também lidar com ele, mas os ofanins são mais sensatos, eles não iam sacar os sabres de luz logo de cara, coisa que eu esperaria dos serafins.
Carrie devolvera o Necronomicon a Lisbell.
— Vamos começar. Vou forjar a cópia.
Após realizar o feitiço de cópia, a bruxa pegara uma esfera de cristal transparente e a deixou no chão num espacinho aberto do cômodo. Acendeu algumas velas e foi até as mesas juntas horizontalmente para recitar o feitiço através do grimório original.
— Que troço é aquele? — indagou Frank, comendo batatinhas.
— É um orb interdimensonal. Usado para criar portais que levem a vários mundos alternativos. — disse Lisbell. O feitiço para o portal do submundo já havia sido traduzido por Carrie — Foi um bom aquecimento, né, Carrie?
— E olha que eu nem tinha testado essa versão ainda. — disse ela, referindo-se ao software de decodificação — Rápido como uma bala. Mal posso esperar pra fazer com todo o resto desse livrão.
— Muito bem. — disse Lisbell, preparando-se. Baixou os olhos para a folha em que Carrie transcreveu a tradução em latim arcaico e recitou o feitiço. A esfera começava a flutuar lentamente até ficar numa altura de 1,70m. O objeto incendiou-se, mas logo a chama alaranjada que o cobria se tingiu de um azul como fogo fátuo. No submundo, um orb flamejante surgia numa faisca para depois se moldar por inteiro — Frank, você primeiro.
O detetive entregou o pacote de batatinhas para Carrie, mas ela viu que estava vazio e se indignou.
— Ei! Essa pegadinha é muito quinta série!
Frank deu uma piscadela risonha para ela antes de encostar a mão no fogo e ser sugado para a esfera.
A bruxa correu com o grimório em mãos, tocando na esfera e sendo tragada. No mundo infernal, ela acabou aportando de uma forma embaraçosa.
— Ai! — disse Frank sentindo algo cair em cima de suas costas, por consequência o derrubando — Será que não dava pra ter entrado pelo outro lado?
— Talvez você podia se afastar um pouco me esperando vir. — disse Lisbell levantando-se e apanhando o grimório. O detetive também se colocou de pé e ambos iniciaram a andança naquele mundo onde a noite se fazia perene e mais escura — O portal deste lado tem limite de tempo tanto quanto o orb que vai se desintegrando. Aproximadamente uma hora.
— Uma hora só!? Espera que achemos o Zaratro nesse mundão de trevas num tempo curto desse?
— Ele nos achará. — respondeu Lisbell, os passos firmes e apressados — Tem um conexão espiritual com o grimório, vai se guiar pela energia. Não vai demorar, ele pode aparecer num piscar de olhos e nos levar até o Darius.
— Ou pra uma armadilha.
Em seu recinto cavernoso, Zaratro meditava em levitação a alguns centímetros do chão. Mas um acorrentado Darius, pendurado sobre uma jaula precária naquele meio opaco lugar, tentava quebrantar a concentração do bruxo com assobios.
Lancelot veio entrando e o repreendeu.
— Basta! O mestre está no seu estado meditativo. Não o perturbe.
— Ainda não terminamos nossa conversa. — disse Darius — Eu odeio ficar girando nessa droga de corrente. Por que ele não me solta pra falarmos de bruxo pra bruxo? Ele sabe que é o único capaz de usar magia nesse plano horrível de existência. Que ameaça eu sou? Vocês são ridículos.
Repentinamente, Zaratro despertou do estado absorto no mais profundo nível de sua alma sombria. O bruxo voltara a sentir os pés no chão. Lancelot materializou uma espada com umbracinese e a mirou no rosto de Darius, espetando a bochecha do líder bruxo.
— Viu o que fez? O arrancou do treinamento mental que ele faz para compensar a ausência do grimório! Eu devia mata-lo por isso.
— Vai ver foi você... e seu fedor de carne podre que trouxe ele de volta pra realidade.
— Insolente. — disse o cavaleiro, um hálito pútrido saindo de sua boca cadavérica e invadindo agressivamente as narinas de Darius. Zaratro voltou-se a eles.
— Lancelot, já chega, não encoste mais um dedo nele.
— Mas milorde... Ele o afronta ousadamente, além de provar cada vez mais que não detinha a posse do grimório autêntico. Provavelmente mais uma cópia descarada, assim como o último que veio entregue por um daeva e que tomei a liberdade de destruir.
Zaratro foi até seu caldeirão e moveu suas mãos para visualizar quem eram as presenças detectadas.
— Senti energias ultrapassando a membrana entre este e o plano terreno. Mas uma energia em especial... ah, essa sim me despertou.
Viu Frank e Lisbell caminhando pelo submundo.
— O descendente de Órion... Frank. Ele está aqui. E junto de uma mulher, uma bruxa, mas sua energia mística está neutralizada. Ainda assim, posso dizer que é uma Filha de Merlin. Ela me parece familiar...
— Como ela é? — indagou Darius — Eu quero saber!
— Calado. — disse Lancelot, ameaçando com sua espada — Mestre, e quanto a energia mais intensa?
— Vem do que ela segura nas mãos. Será possível? Reconheço essa energia... Lancelot, avise aos outros. Creio que estamos a um passo da vitória.
Frank e Lisbell andavam pacientemente.
— Frank. — disse a voz de Zaratro até eles como se fosse um trovão. A dupla estacou, amedrontada.
— Essa voz... É o Zaratro. Caramba, eu achando que ele não podia ficar mais sinistro. Consegue até falar como se fosse o deus desse mundo nos céus. — disse Frank.
— Estou vendo vocês. — continuou Zaratro — E ouvindo também. Sei que sua amiga bruxa possui o meu grimório. Eu exijo que me tragam agora!
— Isso depende. Tá afim de fechar uma troca? — sugeriu Frank. Lisbell resolveu assumir.
— Liberte o Darius e terá o grimório! É o original, roubei de um Warlock que o retirou de onde você havia guardado anteriormente!
— Suspeitava que fosse um Warlock. Somente um bruxo que vive de suas próprias leis conseguiria remover o lacre. O acordo está selado. Me encontrem no Cemitério das Almas Vingadas e faremos a troca. Basta seguirem reto, se sentirem um odor forte de sangue é porque estão próximos. Se o livro for uma farsa, eu mesmo matarei o Filho de Merlin!
A voz trovejante calou-se.
— Cemitério das Almas Vingadas? — indagou Frank — Esse lugar existe?
— Já ouvi falar. Não acho que seja blefe. Vamos continuar.
***
Na biblioteca de Lisbell, Carrie, enquanto o programa do laptop dava curso a tradução das páginas fotografadas do grimório, lia uma enciclopédia que compilava diversos mitos antigos. De repente, ouviu ruídos do corredor e olhou para a porta, temerosa.
Mas engoliu o temor, levantando-se para ver quem seria o suposto intruso. Enquanto isso, Frank e Lisbell seguiam com passos apertados a localização indicada por Zaratro.
Logo se depararam com um numeroso grupo de Fatiadores, monstros que enfrentou outrora na sua última visita. As criaturas vinham com suas garras finas e longas, fitando as presas com os grandes olhos azulados que brilhavam no breu.
— Putz, tava demorando esses desgraçados virem. — disse Frank, sacando a arma.
— O que são? — indagou Lisbell, apreensiva.
— Fatiadores... Digo, Modrongos. Esse outro nome foi um amigo que deu.
Os monstros avançaram famintos para retalha-los. A dupla correu em desvio da rota. Frank atirava freneticamente contra eles, derrubando alguns pelo caminho, mas a quantidade parecia crescente à medida que eliminava.
— Parece que se multiplicam! — reclamou Frank correndo e atirando — Vai na frente!
Mas rapidamente uma ajuda salvou suas peles. Mais precisamente um fogo que veio avassalador contra os Fatiadores, dizimando-os impiedosamente. Frank logo percebeu de quem proveu o ataque. Notou também que tratava-se da pessoa de rosto ocultado que assasinara os Indexianos.
— Agora você não escapa! — bradou ele, correndo até ela que disparou em fuga. Lisbell foi atrás em igual ritmo.
A perseguição findou-se num beco sem saída. A bruxa oculta parou, rendida. Frank e Lisbell desaceleraram ao se aproximarem.
— Não tem mais pra onde correr. — disse Frank — Ter nos salvado duas vezes não basta. Melhor se identificar.
A bruxa enfim retirou seu manto preto que deixava apenas os olhos a mostra.
— Você!? — disse Frank, estupefato.
Paralelamente, Carrie investigava o corredor munida de uma lanterna na mão esquerda e uma arma na direita. Ouviu passos atrás de si, mas não reagiu a tempo para evitar a abordagem.
— Quietinha. — disse Silas, tapando a boca dela com sua mãe esquerda, enquanto com a direita lhe apontava uma arma — Larga a arma e mantenha a lanterna. Me leve até o grimório.
Obedecendo, Carrie o conduziu, trêmula, até a biblioteca. Naquele instante, no submundo, Frank e Lisbell se boquiabriam ao verem a identidade da salvadora.
— Não pode ser... — disse Frank.
Ninguém menos que Agnes Leinbow, viva como se não tivesse sido vista explodindo na sua tumba levada pela água do lago. Frank balançava a cabeça em negação.
— Mas como? Eu sei, não devia estar tão surpreso, até porque em matéria de bruxas nunca faltam truques na manga pra enganar a morte. Só que mesmo assim... — a olhou de cima a baixo — Eu e o Hoeckler tínhamos você como absolutamente morta. Aquela tumba foi pelos ares junto com seu corpo.
— Frank, antes de mais nada, peço... desculpas. — disse Agnes — Pelo período em que estive nas sombras, sem dar um sinal de vida. Seria melhor que continuasse achando que estou morta... assim como Theozinho. Ele está bem?
— Superando. – respondeu Frank secamente – E você? Por que tá agindo que nem um ninja? Esteve na mansão do Ozyas atrás do Necronomicon... Como sabia?
— Segui o rastro dos Indexianos. Quis acabar com todo e qualquer concorrente à posse do grimório.
— E eles seguiram a mim. — disse Lisbell não querendo sobrar na conversa.
— Espere, você... — disse Agnes, olhando-a com minúcia.
— Tá me reconhecendo agora? Olá pra você também, velha amiga.
— Já se conhecem de outros carnavais? — perguntou Frank olhando para as duas que se encaravam.
Agnes deu um passo como uma intenção de abraça-la, mas Lisbell recuara.
— Não, não depois do que fez, do que escolheu. — acusou a Filha de Merlin — Jurei pra mim mesma que se um dia visse seu rosto outra vez, eu iria mata-la.
— O que rolou entre vocês duas pra essa picuinha durar séculos? — questionou Frank.
— Eu a traí. — respondeu Agnes, a fitando com tristeza — Escolhi minha ambição por poder incitada por Zaratro.
— Éramos muito próximas na convenção necronomiana. — revelou Lisbell — Quando me dei conta de que Merlin e Zaratro estavam ligados, decidi mudar. Zaratro me desprezava, Merlin me acolheu. Amaldiçoei ela desde o dia que prometeu fugir comigo. Me tornei Filha de Merlin para vinga-lo. Iria começar essa vingança acabando com ela. E olha como o destino é fabuloso.
— Vocês duas não vão se matar porque precisam uma da outra pra enfrentar o Zaratro. — disse Frank, mediando — A Agnes debandou, ela agora combate as forças das trevas, tá nessa com a gente e vai nos ajudar, você gostando ou não. — falou para Lisbell.
— Pra onde estavam indo? — indagou Agnes — Isso aí é...
— O grimório. — disse Lisbell — Original. — fez uma pausa — Essa é a parte em que você cresce os olhos e toma de nós pra usar ao seu bel prazer.
— Agnes, temos que entregar o livro ao Zaratro em troca do líder dos Filhos de Merlin, nos resta pouco tempo. O que tem aí nas suas costas?
A bruxa retirou o que escondia atrás, um objeto amarrado a sua roupa.
— Uma cópia... que tirei justo do cofre de Darius Atkison.
— Sua desgraçada! — vociferou Lisbell querendo esbofetea-la, mas Frank a segurou — Por sua causa ele foi capturado!
— Lisbell, se acalma! — pedia Frank — Não é hora pra lavação de roupa suja, temos que ir ao tal cemitério!
— Tudo bem, ela tem todo o direito de me recriminar. Mas asseguro que não precisam ceder o grimório original a Zaratro tão facilmente.
— Não tem outro jeito, engana-lo com uma cópia é subestimar a inteligência dele, até demais. — disse Frank.
— Não a cópia sendo vista como a cópia. Há um feitiço ilusionista que permite disfarçar um objeto legítimo de sua cópia e vice-versa.
— Disfarçar? Como isso vai tapear o Zaratro? — perguntou Frank.
— Vocês entregarão a cópia que Zaratro verá como o original, já que certamente ele irá se certificar de que os escritos nas páginas proibidas são visíveis pra ele. Mas quando ele conjurar qualquer feitiço dessas páginas, não funcionará.
— Verdade. — admitiu Lisbell — As páginas proibidas nas cópias ficam apenas em branco. O original fica conosco, disfarçado da cópia. É... um ótimo plano.
— Vi vantagem. Vamos nessa então. — disse Frank, pronto — Estamos no controle.
***
Perambulando meio perdida, Kezabel, a querubim caída que deu a luz ao temido nefilim, olhava para os lados, parecendo aflita. Sua caminhada foi interrompida pela repentina chegada de Raguel, Thaumiel e Laylah.
— Mas que glória encontra-la tão solitária nesse mundo tão vasto. — disse Raguel.
— Raguel... Há quanto tempo. Seu cabelo continua impecavelmente bem tratado. Sua armadura tão polida. E no interior? Será que ainda conserva alguma beleza?
— Não mudei absolutamente nada desde a última vez que nos vimos. E você, pelo visto, muito menos. A malícia, a infâmia e o escárnio com as leis celestiais permanecem estampados no seu rosto.
— Chega de enrolação. — disse Thaumiel — Viemos mata-la. Aliás, a encontramos por acaso.
— Só estamos aqui pra uma observância. — disse Laylah.
Kezabel dera uma risada zombeteira.
— Eu realmente devia estar lisonjeada por três ofanins virem dar conta de mim, significa que meu nome não se tornou uma piada. Mas não quero lutar. Estou ocupada numa jornada.
— Onde está o nefilim? — perguntou Raguel.
— Também gostaria de saber. — retrucou ela.
Uma presença sombria foi sentida pelos três ofanins. Thaumiel e Laylah sacaram suas espadas.
— Me enoja ver uma dama indefesa ser afrontada desta forma. — disse Mordred se aproximando — Não consigo ficar apenas assistindo.
— Agradeço a elegância, mas sei me virar.
— Eu faço questão. — disse Mordred materializando duas foices de cabos pequenos com sua energia sombria — Tem minha permissão para se retirar.
Kezabel correra, dando a entender ter fugido, mas escondeu-se numa rocha para ver o confronto.
Thaumiel e Laylah avançaram contra Mordred, iluminando suas espadas. Raguel repreendeu a ação.
— Esperem, é um erro! Não ordenei pra atacar!
Mas o aviso não foi atendido, pois a dupla já colidia suas espadas contra as foices que habilmente defendia cada golpe. Quando iria desferir um ataque certeiro a Thaumiel, Laylah entrara na frente do companheiro, sofrendo o golpe. A ofanim tiveram o corpo inteiramente causticado.
— Laylah! — gritou Thaumiel, alarmado com a morte da irmã — Miserável, vai pagar!
Mas Raguel segurou o braço do irmão.
— Ele matou Laylah! Me deixe vinga-la!
— Mesmo nessas circunstâncias, não nos rebaixamos ao inimigo! Laylah deu sua vida por nós. Mas não pra que sujássemos nossas mãos.
Thaumiel encarava furiosamente Mordred, baixando a espada. O cavaleiro partira, se unindo as sombras.
Na casa de Lisbell, Carrie adentrava a biblioteca sob a mira da arma de Silas. O bruxo logo se fascinou ao ver o grimório na mesa ao lado do laptop traduzindo as páginas.
— Onde aqueles dois estão? — perguntou Silas, baixando a arma para ver o grimório. O abriu e foi folheando-o.
— No submundo. — respondeu Carrie recuando até sua bolsa sorrateiramente.
— Ah, claro. Não reparei no orb interdimensional de tão maravilhado que fiquei com o grimório. Mas... isso é uma cópia. Levaram o original?
— Sim. Como sabe?
— Qualquer bruxo ocultista sentiria a energia sombria do grimório a um metro. Uma cópia não emana nada. Traduzindo para aquela Filha de Merlin usar sozinha? Quanta inocência.
— E vocês? Como traduziriam? É só item de colecionador pra fazer inveja?
— Contratamos especialistas em criptografia antiga. O códice de Zaratro não me parece tão difícil.
— E... por que usam armas em vez de magia? — indagou ela, pegando seu spray de pimenta.
— Mas usamos. As balas contém uma magia que piora a ferida e se espalha causando falência múltipla. A menos que remova a tempo, mas ainda assim não é garantida a sobrevivência da vítima.
— Por que não dá uma olhadinha pra cá?
Silas o fizera, mas acabou levando uma borrifada do spray diretamente nos olhos. O bruxo gritou com a ardência, atirando a esmo. Carrie se abaixava na esperança de pegar a cópia. Silas atirava feito um louco, colérico com o golpe sujo.
— Aparece, vadia! Desgraçada, vou acabar com você!
Um dos tiros acabou acertando a tela do laptop, descontinuando a tradução irreversivelmente.
— Tá bom... Não faz sentido perder tempo com você... Ai, como arde... Já tenho o que preciso.
O bruxo desapareceu, levando a cópia. Carrie ficou de pé e percebeu o laptop danificado.
— Ah não... — disse ela correndo para olhar o estrago numa expressão chorosa.
No submundo, Frank, Lisbell e Agnes percorriam a trilha até o cemitério. Porém, um pentagrama se desenhou a fogo no solo e dele emergiu uma fogueira alta da qual saíram quatro bruxos Indexianos.
— É sacanagem! — disse Frank parando com as bruxas.
— Surpresa. — disse um dos Indexianos que apontou uma arma para Frank e atirou. Porém, uma defesa inesperada evitou uma tragédia: Adrael. O anjo conteve a bala, protegendo o trio — Um anjo!?
— Adrael!? — disse Frank, surpreso. O anjo enfrentava os bruxos, matando-o com seu toque calcinador.
— Como esses desgraçados vieram pra cá? — questionou Frank.
— É a nossa deixa! Frank, vamos, seu amigo nos dá cobertura! — disse Agnes.
— Vão vocês na frente, eu vou já.
As bruxas correram a fim de pegar um atalho. Surpreendentemente, Ethrea surgia, enfiando a espada no peito do último Indexiano que Adrael mataria.
— Ethrea... Empalando um humano com sua espada?! É seu atestado de hipocrisia.
— Humanos que se valem de um poder profano. Está liberado. — disse ela que desencravou a espada para aponta-la a ele — Agora somos só eu e você.
— Vai me ignorar? — indagou Frank.
— O que você pode fazer? Fique e assista seu amigo morrer pela minha espada. Normalmente, anjos banidos que recuperam temporariamente sua energia e a usam em combate são levados a julgamento. Nesse caso, eu só quero adiantar a sentença de morte.
Agindo rápido, Adrael a dominou, derrubando-o num golpe bem executado. Tomou dela a espada e ameaçou apunhala-la. Porém, hesitou no ato.
— Você venceu. Eu fui arrogante em subestima-lo.
— Não vou mata-la. — determinou o anjo, largando a espada — Jurei nunca mais tirar a vida de um irmão.
— Quer saber como seu banimento foi aprovado? Fui eu. Competir pelo cargo que tanto almejei com você era derrota certa. Incumbi um membro do meu batalhão para fazer uma prece a você, reproduzindo a voz do caçador. Fácil demais.
Frank semicerrou os olhos, encarando-a indignado.
— Fez muito bem em me contar. — disse o anjo indo com Frank.
— Adrael! — chamou Ethrea ainda caída — É só isso? Não mereço ser morta pelo que fiz? Não seja covarde! Venha e me mate!
***
O Cemitério das Almas Vingadas estava a poucos metros. Adrael parara a fim de deixar o trio seguir em frente sem ele.
— É aqui que me despeço. Os ofanins ainda devem estar por aí, não posso correr o risco de ser encontrado.
— Valeu mesmo, Adrael. — disse Frank tocando-o no ombro — Te devo essa.
— Eles chegaram. — disse Adrael vendo Zaratro e os cavaleiros se avizinharem em meio ao nevoeiro baixo. O anjo desapareceu. Logo, o trio se dirigiu até o bruxo para dar início a troca.
— Darius. — disse Lisbell vendo-o preso por grilhões.
— Lis. — disse ele, cansado — Sabia que era você.
— Zaratro, passa pra cá o Darius primeiro que o Necromomicon é todo seu. E pode crer que é o legítimo, pode fazer o teste de autenticação.
Porém, Mordred veio aproximando-se. O cavaleiro materializou suas foices. Frank e as bruxas estranharam.
— Esse daí com o brasão de serpente... é o Mordred, né? — perguntou Frank a Agnes que confirmou.
— Lamento, mas o acordo está desfeito. — disse Zaratro — Se beneficiaram de um anjo para chegarem primeiro.
— Que injustiça! — disse Agnes ganhando a atenção do bruxo — Não importa se chegamos cedo ou tarde, a troca será feita, está decidido!
— Como ousa se expor assim após me trair e ainda me ultrajar?
— Deixemos nossas desavenças pra outro momento, meu ex-mestre. Liberte o Filho se Merlin.
— Claro. O enterrem num local apropriado. Mordred.
O cavaleiro fez menção de golpear Darius com uma das foices. Mas Frank logo saiu a carta de selamento correspondente ao cavaleiro e a apontou. Agnes recitou o feitiço e Mordred se desfez em uma fumaça negra sendo tragado direto à carta.
— Mordred, não! — disse Zaratro, lamentando — Lancelot, mate-o!
— Não! — bradou Lisbell com o grimório em mãos — Se continuar ameaçando Darius, vai perder mais um dos seus. Reconsidere. Aqui está o grimório. Faço questão de entrega-lo. — disse, indo até o bruxo.
— Lisbell, cuidado. — avisou Frank.
A bruxa dera o livro nas mãos de Zaratro que tratou de conferir a veracidade, passando sua mão sobre uma página proibida. As inscrições surgiram visíveis a ele. Acenou para Lancelot e Percival destrancarem os grilhões.
— Podem ter cumprido a obrigação, mas asseguro que a morte de Mordred não ficará incólume.
Zaratro e os cavaleiros sumiram num piscar de olhos. Darius correu para o abraço com Lisbell, porém uma sequência de vários tiros acertou-o nas costas.
— Não! — gritou Lisbell vendo Darius cair mortalmente ferido. Correu para abraça-lo — Darius, fica comigo...
Outro tiro viera, desta vez na cabeça. O autor se revelou como Silas vindo na direção deles.
— Miserável! — disse Lisbell, descontrolada, sendo segurada por Frank — Me larga, eu vou matar esse desgraçado! Me larga!
— Você não pode com ele! Fica calma!
— Sabiam que quando alguém está prestes a ficar a beira da morte... começa a chover sangue aqui? — disse Silas.
— Como foi que vieram? — perguntou Frank enquanto Lisbell era amparada por Agnes
— Com isto. — o bruxo mostrara a cópia do grimório — Peguei emprestado da sua amiguinha tradutora. Agora me deem o original.
— Vem pegar. — disse Frank, sacando sua arma. Mais Indexianos apareciam cercando-os.
— Corre! — disse Agnes entregando o grimório original a Lisbell. A chuva de sangue iniciava no cemitério — Sorte que não são como eu. — falou ela, costa a costa com Frank, exibindo sua lâmina.
Os Indexianos avançaram primeiro armados. Frank atirava e socava-os ferrenhamente. Agnes, por sua vez, dilacerava-os com sua lâmina saída de um bracelete, desferindo golpes brutais entre chutes e socos. A chuva sangrenta fazia-se problemática devido a inundação. Frank deixou Silas por último, lutando soco a soco contra o bruxo. O detetive o chutou na barriga com o joelho, depois o esbofeteou pesadamente com as duas mãos juntas. Iria dar o tiro final, mas Silas o desarmou com um chute. A arma caíra no alagamento de sangue, levando Frank a distrair-se e levar uns socos.
Mas Agnes tomou liberdade de encerrar o confronto, disparando sua lâmina que acertou na cabeça de Silas fatalmente.
A chuva cessara, mas Frank se ocupou em procurar sua arma no sangue acumulado.
— Isso não é hora! Falta pouco pro portal fechar! — disse Agnes
Ao longe, uma horda de daevas em suas formas reais vinha como um enxame de vespas.
— Daevas! Você tem que ir! — avisou Agnes.
— Achei! — disse Frank reavendo a pistola — Vamos.
— Não, vá você. Eu cuido de atrasa-los.
— Mas são um bocado! Talvez milhares!
— Não se preocupe comigo, vá alcançar Lisbell! Diga pra ela levar o grimório a minha casa. Se eu sair viva, irei recebe-la! Agora vá, depressa!
Frank cedeu a vontade da bruxa e correu até Lisbell.
A chama azul do portal estava prestes a se extinguir. Os dois correram e atravessaram. Carrie estremeceu ao vê-los de volta.
— Graças a Deus! Mas... não negociaram o livro?
— Deu tudo com os burros n'agua. Os arrombados da Index ferraram com tudo, mataram o coitado. — disse Frank, frustrado.
— Cadê a Agnes? — perguntou Lisbell.
— Ficou pra enfrentar um exército de daevas sozinha.
— Peraí, a Agnes voltou? — indagou Carrie.
Pegando-os de surpresa, um Indexiano remanescente invadia atravessando o portal no último segundo antes de fechar. Frank lutara com ele brevemente, o jogando contra uma estante com toda a sua força.
— Vem, vem, vamos sair daqui!
Os três saíram da casa se enfiando no sedã prata que partiu cantando pneus. O Indexiano saiu quase ileso, parando um caminhão azul de grande porte. Abriu a porta e expulsou o motorista, largando-o na rua e assumindo o volante. O carro de Frank rasgava o asfalto em direção à casa de Agnes, mas logo sofreu uma batida violenta na traseira. Frank olhou no retrovisor.
— Caramba... Esses caras são persistentes!
O caminhão batera novamente. E depois mais uma vez. A terceira batida desacelerou o sedã prata que parou sofrendo uma pane no motor. Frank tentou repetidas vezes fazê-lo pegar.
— Merda! — disse, socando o volante.
Descendo do caminhão, o Indexiano destravou sua arma. Frank saíra do carro no mesmo instante, mas ao dar a volta não fora rápido no gatilho, sendo baleado perto do ombro esquerdo. Lisbell saiu vendo-o cair e logo fora confrontar o algoz. Infligiu uma magia que causou um inchaço na cabeça do Indexiano até literalmente explodir.
— Isso foi pelo Darius. — disse ela, logo ouvindo Carrie gritar o nome de Frank abalada.
— Pressiona forte. — disse Carrie em prantos dando os primeiros-socorros — Ai meu Deus...
— Ele precisa ir pro hospital urgente. O tiro pode não ter sido tão grave, mas como é uma bala mágica...
— Sim, eu sei. Deixo você na casa da Agnes e de lá vou pro hospital.
— Não, leve-o logo. Pelo ponto do tiro e o sangramento, diria que ele só tem uma hora, talvez menos.
— O hospital público... fica perto dessa estrada. — disse Frank sofrendo com a dor.
— Vou até a casa da Agnes. Me passa o endereço. — pediu Lisbell.
Após saber da localização da residência de Agnes, Lisbell ficou a beira da estrada olhando o sedã prata partir ao hospital, torcendo pela recuperação de Frank enquanto aguardava um motorista de aplicativo. No submundo, uma alma vagueava pelo Cemitério das Almas Vingadas já seco. Encontrou a cópia roubada por Silas e a apanhou.
***
Era chegada a hora da verdade. Lisbell tocou a campainha da casa de Agnes na espera ansiosa de que ela fosse atender. A porta se abria, revelando Agnes sã e salva.
— Exatamente como esperei. — disse ela, sorrindo.
— Como sobreviveu? Frank disse que eram talvez milhares de daevas. — disse Lisbell.
— Uma bruxa perguntando a outra como sobreviveu, que inusitado. Não deveria estar surpresa.
— Não me importa, pegue. — disse Lisbell entregando o Necronomicon a Agnes — Ainda bem que está viva. Assim não desperdicei a grana pra condução. — fez uma pausa — Ah, e o Frank... foi parar no hospital.
— O que houve?
— Um Indexiano atirou nele. Carrie o levou. Ela enviou mensagem me atualizando, ele já está no pós-operatório, fora de perigo. Bem, vou indo.
— Lisbell. — chamou Agnes no instante em que ela virou as costas — Passe a noite aqui, está tarde...
— Olha, sei qual sua intenção comigo. Reconquistar minha amizade, mesmo depois de hoje... Esqueça. Fiz isso porque Frank confia em você.
— Os Filhos de Merlin carecem de uma liderança nova. Você é a melhor candidata disponível.
— Aquele grupo sem o Darius vira um bando de maricas. Vou anunciar meu desligamento antes de partir.
— Partir? Mas pra onde?
— Londres. Nada como voltar a respirar o ar da minha terra. Meu trabalho aqui terminou. Eles que lutem, com ou sem mim. Acabou. E quando digo isso... me refiro também a nós duas. Adeus. — disse Lisbell indo embora deixando Agnes observando-a com um triste olhar.
No hospital público, Frank acordava lentamente, reclinado na cama. Adrael estava ali com ele naquele quarto iluminado meio precariamente por um abajur.
— Há quanto tempo tá aqui? — perguntou Frank, a fala arrastada.
— Não faz muito tempo. A propósito, Ethrea esteve aqui. Verificou seu estado de saúde. Você quase morreu, mas felizmente a bala não atingiu o pulmão.
— Fez as pazes com aquela trambiqueira? Se liga, ela armou pra ti, puxou teu tapete...
— Pra provar seu arrependimento, ela selou um acordo de confidencialidade.
— Só porque você deu um golpe de judô nela?
— Eu acredito que nossa ligação fraterna permanece.
— Ela bem que podia ter me curado, né? Ou mesmo você.
— Minha condição de banido impede. Os médicos iriam ficar perturbados com um paciente recuperado milagrosamente. Ouvi dizer que ficará por sete dias.
— Cacete. Sete dias comendo lavagem hospitalar. E... cadê a Carrie?
— Está aí. — disse Adrael apontando para a esquerda do detetive — Dormindo profundamente. Você está bem?
— Mais ou menos. A anestesia tá dando tchau. — disse Frank — Eu tive uma epifania com isso. Não presto pra empunhar aquela espada dourada.
— Não se envergonhe. É o seu destino irrevogável. Você pode ser o escolhido certo, tenha fé.
— Não sou. — disse Frank, derramando uma lágrima — Que eles achem outra pessoa. Eu não dou conta — declarou Frank, virando o rosto e caindo em um choro contido ao se ver numa posição que o fazia desacreditar no seu papel.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://verbalusmater.com/pt/existe-realmente-el-necronomicon/
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