Frank - O Caçador #105: "Antes Que a Chama se Apague"

Catalina Island 


Numa noite gélida no arquipélago americano, cinco helicópteros sobrevoavam uma área na qual uma escavação arqueológica prosseguia em largo avanço. Toda a movimentação era integralmente comandada pela Fundação ESP a fim de desvendar um antigo mistério que rondava aquela localização em particular. Nao se ouvia outro som além dos rotores das aeronaves que zumbiam sobre os agentes trabalhando acima da formação aparentemente óssea que tentavam desenterrar. 

Hoeckler estava a bordo de um dos helicópteros com uma escuta no ouvido para ser inteirado minuto a minuto do progresso. O presidente da organização usava seu costumeiro terno índigo com gravata vermelha. 

— Sommers, me dê status! — disse ele tocando na escuta. 

— Estamos tentando ir a todo vapor pra que a visão seja mais clara. Só mais uns minutinhos. 

— Tirem logo essa pilha de ossos desse buraco! Já ficamos tempo demais nisso! Não temos a noite inteira! Já devemos ter atraído muita atenção!

— Em se tratando de ossos, vai ser difícil, senhor. Acho melhor dar uma olhadinha aqui pra baixo. 

— O que quer dizer? — indagou Hoeckler, abrindo a porta a sua esquerda e inclinando-se para visualizar o que havia abaixo que estava quase simples de definir — Mas... isso me parece um... 

A escavação não havia terminado definitivamente, mas a forma do achado se mostrava clara o bastante para ser divisada. O superintendente do DPDC boquiabria-se ao não ter dúvidas do que fora desenterrado. 

— Então a lenda se confirmou. Eles existiram. 

As luzes dos helicópteros iluminavam a descoberta perturbadora que se resumia em um gigantesco crânio de aspecto completamente humano. 

***

Departamento Policial de Danverous City

Na intenção de provocar o maior impacto possível com a surpresa reservada, Frank levava Hoeckler com os olhos vendados até a sala particular do superintendente, uma típica preparação para revelar algo espantosamente positivo e inesperado.

— Vem aqui, não vou te soltar, relaxa. — disse Frank pegando-o pelo braço direito ao conduzi-lo. 

— Mas eu tô relaxado. Eu só não levo fé que seja algo tão surpreendente assim pra você me fazer esse tipo de suspense. É tão... infantil. — resmungou Hoeckler.

— Deixa de frescura. E não tá relaxado coisa nenhuma, tô sentindo seu braço tremendo. — redarguiu Frank com um sorrisinho — Nunca brincou de cabra-cega? 

— Na minha infância tinha mais preferência por jogos de tabuleiro. 

— Infância meio chata essa hein. — provocou Frank. 

— Nunca deve ter chegado perto de um tabuleiro de xadrez. 

—Alto lá, posso não ter aprendido xadrez, mas você tá falando com um ex-jogador profissional de damas. — disse Frank olhando-o sério. A porta da sala estava logo a frente — Tá esquentando... Falta pouco. 

A porta do amplo gabinete foi aberta por Frank que trazia um impaciente Hoecker para lhe desvendar o mistério. 

— Eu sinceramente odeio isso. Você não dá nenhuma dica. — reclamou o presidente da fundação ESP. 

— Calma que já vai saber. Vem mais pra cá... — disse Frank olhando sorridente para Agnes que estava de frente a eles trajando seu vestido preto tão habitual.

— Prontinho, é agora. — disse Frank retirando a venda dos olhos de Hoeckler — Tcharam. Gomez Addams, sua Mortícia voltou. — O superintendente sentiu o que na linguagem moderna chamariam de mini infarto — Não vai desmaiar. 

— Meu Deus... — disse Hoeckler olhando-a de cima a baixo, perplexo — Não... Não posso acreditar... 

— Acredite, Theozinho. Sou eu. Voltei. — disse a bruxa, fitando-o emocionada. Comprimiu os lábios, segurando a comoção.

— Se isso for um sonho... nunca mais quero acordar. — disse Hoeckler, hipnotizado com a beleza dela, sua emoção transparecendo. Disparou para ir abraça-la fortemente. O abraço foi demorado, Frank observando satisfeito pelo reencontro — Senti tanto, tanto a sua falta. Acabaria com minha própria vida se esse sofrimento fosse duradouro. 

— Segundo o Frank, você estava em superação. — disse Agnes olhando para o detetive — Ele não quis dizer que fui substituída, né? 

— Ahn... Mas é claro que não, eu... Quantas vezes já disse a você que nunca colocaria ninguém no seu lugar? Desculpe, eu ainda... não consigo processar, por mais que eu saiba que bruxas possuem mais vidas que um gato. 

— Tudo bem, foram muitos meses assumindo que morri. Inclusive, já contei a Frank como voltei. 

— Contou a ele primeiro?! — disse Hoeckler, franzindo a testa. 

— O que foi? Tá com ciúme? — indagou Frank. 

— Obviamente eu deveria ser o primeiro a saber. Mas enfim, o importante é saber. E tô louco pra saber. — disse ele entrelaçando seus dedos das mãos aos dela. 

— No dia em que Zaratro reviveu, antes de você vir me encontrar no porão, havia tomado uma pílula regeneradora, um fármaco místico muito poderoso usado especialmente em casos de bruxas que tomam o elixir de sono profundo. Logo que digerida, ela libera seu potencial mágico que se espalha no organismo fazendo com que ele se reconstitua a nível subatômico quando o corpo sofre danos fatais.

— Então... Esse remédio milagroso agiu pouco depois da tumba explodir? — indagou Hoeckler. 

— Pode ter levado alguns dias ou algumas horas. 

— E por que não me procurou? 

— Zaratro. — disse ela, lacônica — Afinal, foi por causa dele que decidi me submeter àquilo, só pra constar. 

— Ela tem razão, sem falar que os daevas continuavam a solta se misturando as pessoas e podiam muito bem detecta-la. — disse Frank. 

— Os daevas. Tinha me esquecido desses malditos. — disse Hoeckler — O pior de tudo é saber que usurparam o Conselho de Segurança. Continuam lá, fingidos, ludibriando a população. Graças a eles, os índices de criminalidade em Danverous City triplicaram desde que surgiram. Estamos num alto patamar de impunidade a crimes bárbaros, o nome do DPDC foi jogado na lama, perdemos a designação de melhor departamento policial da Califórnia. 

— E se for lá onde o Zaratro pretende romper o tal selo do Chernobog? — especulou Frank — No prédio do CDS. 

— Bom palpite. — disse Hoeckler.

— A propósito, eu trouxe o grimório. — disse Agnes.

— Então era com você que estava com o Necronomicon? — indagou Hoeckler — Frank me disse que tinha ficado no museu dele nos dias que ele se recuperou do tiro. 

— Pra não estragar a surpresa, né? — falou o detetive, dando de ombros. 

— Eu vim mostra-lo a você. — disse Agnes pegando o livro que havia deixado no sofá — Quer ver um item raro de colecionador no maior sentido do termo?

— Vamos pra minha saleta secreta. — disse Hoeckler, os olhos cravados  o grimório.

— Tem um compartimento secreto aqui? — perguntou Frank. 

— Sim, geralmente abro pra reuniões rápidas com alguns conselheiros da fundação. — informou o superintendente, sacando a chave da salinha. 

No recinto oculto, a luzes apagadas, o trio estava debruçado sobre a mesa analisando as páginas proibidas do grimório com as quais Hoeckler testou o uso de uma lâmpada de luz negra para ler os escritos, o que funcionou. O chefe passou a lâmpada retangular e estreita sobre uma página com figuras sinistras desenhadas. 

— O que essa coisa, esse olho gigante cheio de asas? — perguntou Frank.

— Parece muito com a aparência que alguns pesquisadores imaginavam dos anjos. — disse Hoeckler — Alguma entidade tão poderosa quanto Chernobog. 

— Essa com múltiplos tentáculos é Khaleido. — apontou Agnes — Frank está ciente dela. 

— O grande mandachuva do Limbo. — disse Frank — Espero que o Nathan não tenha topado com ele. 

— São diversos feitiços de invocação, um guia mais que completo sobre a magia das trevas mais primitiva que existe. — disse Agnes.

— Não tenho dúvidas só de olhar essa escrita codificada, essas figuras bizarras, embora incrivelmente bem desenhadas, e o estado dessas páginas. — disse Hoeckler — Tenho que lembrar de higienizar bem as mãos depois. 

— Pois é, dá arrepios sem precisar de demonstração dos feitiços. — reforçou Frank — Será que não existe aí um feitiço que invoque um exército de caçadores fantasmagóricos montados em cavalos? 

— Ele esta se referindo a Caçada Selvagem. — disse Hoeckler para Agnes a sua direita — Tem sangue europeu, impossível você não saber do que se trata. 

— Na época que deu origem a essa manada de caçadores, Zaratro já havia finalizado o grimório.— declarou a bruxa. 

— Eu sabia que esse desgraçado tinha alguma coisa a ver. — disse Frank, revoltado — Quando ele falou de castigo sobre não ter passado no teste que ele armou pra mim em Ylon, era a isso que ele se referia. Zaratro invocou aquele bando de imundos pra me pegar. Acabou que o Collins foi levado no meu lugar.

— Faremos aquele maldito pagar caro. — disse Hoeckler, partilhando sua revolta com Frank.

Agnes afagou o ombro do superintendente para tranquiliza-lo.

— A Caçada Selvagem é uma das mais antigas maldições, uma sina coletiva que envolve vários caçadores que cavalgam eternamente em busca de vítimas. Se os invocou, Zaratro não só tinha intenção de capturar você pra que se juntasse a eles, como também causar matanças, eles sempre deixam um rastro de sangue por onde quer que passem. — disse Agnes a Frank — Tudo começou quando um caçador que foi aprendiz dele fracassou em atender a sua demanda. Zaratro, após mata-lo, o amaldiçoou a galopar num cavalo por toda eternidade e capturar outros caçadores para formar um numeroso grupo. 

— Eu quase somei a essa cambada. — disse Frank, relembrando — Esse caçador amaldiçoado que deu início a essa merda toda... Ele se chamava Órion? 

— Não sei dizer. Quem é Órion? — perguntou Agnes.

— O primeiro aprendiz do Zaratro. Além disso, vocês não vão acreditar, ele... — disse Frank dando uma rápida risadinha nervosa — ... é parente distante meu. O próprio Zaratro me contou.

Hoeckler e Agnes arquearam as sobrancelhas expressando pasmo com a informação privilegiada.

— Disso não sabíamos um "a" sequer. — falou Hoeckler — Inacreditável. Você... descendente de um aprendiz do Zaratro, então... foi a partir dele que a sua linhagem começou. Precisamos de um volume maior de informações desse caçador lendário. 

— Se conseguirmos botar um freio Zaratro... — disse Frank.

— Eu sou a única que pode enfrenta-lo em pé de igualdade. — afirmou Agnes — O grimório deve permanecer comigo pra que isso seja plenamente possível. 

— E esta é a última página. — disse Hoeckler, baixando a luz negra, focando num ícone específico — O selo de Chernobog, presumo. 

— Esse mesmo. Zaratro pode fixa-lo em qualquer superfície para rompe-lo, mas requer um anjo que tenha presenciado o aprisionamento. — disse Agnes — Apenas um ser profano pode liberta-lo da prisão, seja marcando o selo em algum ponto aleatório, ou em demônios ou qualquer outro ser cuja natureza é inteiramente má. Mas o rompimento deve ocorrer pontualmente a meia-noite. Imagino que Zaratro dará cabo disso quando souber da farsa do grimório. Embora o feitiço de disfarce continue, eu pus uma remoção temporária pra que pudéssemos visualizar, não afetando a cópia que está com Zaratro. 

— Quer dizer que mesmo você deixando o livro visível como ele realmente é por tempo limitado, o Zaratro continua vendo a cópia como sendo o original? — questionou Frank. 

— Sim. A ilusão do feitiço só é quebrada se ele destruir a cópia, a cópia de verdade. — adicionou Agnes. 

— Apagou de repente. — disse Hoeckler não vendo mais nada escrito na página e nem nem as outras proibidas. 

— A remoção expirou seu tempo. — disse Agnes no mesmo instante em que Hoeckler desligou a lâmpada e foi prontamente acender a luz da saleta. 

— Eu estive pensando agora... numa estratégia para limitarmos Zaratro caso ele exija o grimório de volta. — disse Hoeckler voltando a mesa — Creio que a única solução seja destruí-lo. 

— Mas o Ozyas, o Warlock que tinha o Necronomicon original, falou bem claramente que só uma força sagrada muito poderosa é capaz de incinerar o livro. — disse Frank — Não podemos se livrar dele por meios mundanos. Você pensou no quê? Em detona-lo com uma bomba? Já que vocês da fundação são muito criativos em resolver tudo explodindo as coisas.

— Se não podemos transforma-lo em poeira por meios viáveis a nós, de que outra forma seria? A qual força sagrada iremos recorrer? — questionou Hoeckler que logo imergiu em pensamentos. 

— Peraí, o Zaratro é um bruxo das trevas, o pior que existe. Seria lógico que essa mesma força também o destruísse. — reforçou Frank. 

— O Relógio do Juízo Final. — mencionou Hoeckler, tendo uma ideia que considerou a artimanha perfeita — A chama dele tem caráter sagrado, afinal os anjos o criaram para determinar o quão longe ou próximo a humanidade estaria de seu fim. Ele se localiza na ilha de Catalina, estive lá com minha equipe ontem a noite desenterrando uma descoberta fascinante. — disse ele, olhando para Frank e Agnes com certo entusiasmo — A ossada de um gigante mítico. Por incrível que pareça não fossilizou, deu a impressão que havia morrido recentemente. 

— Gigantes nessa ilha?! Devem ter ficado mais felizes que cachorros desenterrando um osso.

— É um marco pra história da fundação. Esses gigantes protegeram o relógio nos tempos do Gênesis, eram chamados de Enanquins. Foram extintos possivelmente pelos anjos caídos.

— Se vocês pegarem a chama, como vão utiliza-la pra atacar o Zaratro? — quis saber Frank. 

— Se nós dois pegarmos a chama. — disse Hoeckler enfaticamente — O que acha de me acompanhar numa viagem de helicóptero até a ilha?

— Valeu pelo convite... — disse Frank deixando a frase no ar para que Hoeckler pensasse numa recusa e se desanimasse. Frank deu um sorrisinho de canto — Eu topo. 

Hoeckler soltou o ar pela boca. 

— Não arrannjaria parceiro melhor nessa missão.

— Não vem puxar saco pro meu lado que eu não gosto.

— O quê? Não estou te bajulando. Que conclusão mais estúpida, acha mesmo... 

— Rapazes, escutem. — disse Agnes interrompendo a discussão — Não podemos considerar a possibilidade de Zaratro priorizar o selo em vez do grimório? 

— Aonde quer chegar, amor? — indagou Hoeckler.

— Destruir o grimório é idiotice, falei que preciso dele pra me fortalecer por ser a única capaz de derrotar Zaratro. Sou a última remanescente viva da convenção, a mais qualificada pra combatê-lo. Por que não o deixa seguro na sede da fundação? Essa ideia não vai contra sua política? 

— Entenda que nem o mais alto padrão de segurança da fundação esta imune aos recursos de um bruxo tão poderoso. — argumentou Hoeckler.

— Ou deixamos o livro com a Agnes pra que ela manipule a chama de modo que possamos fixa-la em alguma arma. — idealizou Frank — Aí depois decidimos o que fazer com ele.

— Isso! Excelente plano, Frank. Se esse for o método, podem contar comigo. — disse Agnes, alegrando-se — Ser uma necronomiana não me impede de manejar a chama. Com o feitiço certo, posso fazer. 

Inesperadamente, Carrie aparecia na sala.

— Com licença, desculpa aparecer assim de supetão, quase invadindo, mas... Os militares estão esperando você, Hoeckler. Assunto de extrema relevância.

— Mande avisa-los que tenho compromisso. 

— Ah sim, a viagem pra ilha e tudo mais...

— Ouviu nossa conversa, né? Não esperava menos. — disse Frank — Tá afim de ir junto? 

— Não, hoje meu espírito aventureiro quer se concentrar no trabalho rotineiro. Trauma da nossa operação em Ylon. 

— Essa aqui é a Agnes. — disse Frank — Carrie, Agnes. Agnes, Carrie. 

— Hum, não chegamos a ser formalmente aprsentadas. — disse Carrie se aproximando — É um prazer. — apertara a mão direita da bruxa.

— O prazer é todo meu. — disse Agnes, simpática — Frank me contou que esteve comprometida com a tradução do grimório, mas que um Indexiano pôs esse trabalho a perder. Eu sinto muito.

— Tudo bem, eu arranjo um laptop novinho em breve... e um software de tradução também. — disse Carrie olhando de soslaio para Hoeckler que logo entendeu as intenções da assistente levantando uma sobrancelha.

— Tudo OK pra nossa viagem? — perguntou Frank. 

— Vou solicitar um piloto. Sabe onde fica o heliporto, né?

— Sei sim, só me deixa passar em casa e trocar de roupa. 

— Boa sorte a vocês. — disse Carrie tocando Frank no ombro — E voltem vivos, tá?

***

Havia um túnel pelo qual rumar em direção a Chernobog aprisionado, uma rota que apenas Zaratro e seus cavaleiros, guiados pela energia maléfica saindo pelas fissuras como um vazamento de radiação, sabiam percorrer sem transtornos. O bruxo se aproximava da enorme esfera cuja matéria-prima é uma rocha impenetrável exclusivamente disponível no mundo celestial.

Acompanhados de Lancelot e Percival, cada um carregando tochas, Zaratro sorria ao encurtar a distância com a esfera colossal. 

— Vejam, meus nobres filhos. Contemplem essa magnífica presença que sentimos em cada partícula deste lugar e em nós, ainda que contida nesta prisão ordinária. Apenas algumas palavras nos separam do grande momento que tanto esperávamos. Mas vou poupa-los de cerimônias. — disse o bruxo com o Necronomicon aberto — Façamos um pequeno teste com o feitiço que fragiliza a defesa alegadamente inquebrável da rocha celestial. 

— Será um excelente aquecimento para a hora decisiva. — disse Lancelot. 

O bruxo recitara o feitiço palavra por palavra e em pronúncia irretocável. No entanto, nada se manifestou, nenhuma única fissura adicional foi sentida ou vista. Zaratro olhava incrédulo para o grimório e para a esfera. 

— Nada se modificou. A rocha continua... intacta! — disse o bruxo, sua voz furiosa reverberando poderosamente no túnel, chegando a causar pequenos desmoronamentos. Agarrou o grimório com força — Eu não acredito que tiveram essa ousadia...

— Mas o senhor constatou as inscrições nas páginas proibidas. — salientou Percival — Uma magia de falsificação como essa só poderia ter vindo... 

— Dela. — completou o bruxo — Agnes criou uma ilusão que fez a cópia e o original se parecerem um com o outro, há uma mágica existente pra isso e ela se mostrou plenamente capaz disso, não vou negar que a subestimei. 

— Não se aflija, mestre, vamos forçá-los a devolver o original, mas desta vez mais agressivamente. — disse Lancelot.

Zaratro jogara o grimório falso para cima, logo comprando um feitiço não-verbal de combustão. O livro explodiu e se desintegrou.

— Meu propósito final é servir de recipiente para nosso soberano após sua libertação. — disse Zaratro tocando na esfera — Posso ouvir seus gritos de agonia ecoando desta prisão direto à minha mente. — voltou-se para os cavaleiros de súbito — Se houver um único anjo que saiba o feitiço de rompimento do selo e que possa ser facilmente capturado, tragam-no até mim! 

***

Catalina Island 

O helicóptero da ESP que levava a bordo Frank e Hoeckler a bordo sobrevoava a região na qual as escavações ocorreram. O superintendente fez questão de mostrar ao detetive o crânio gigante do Enanquim.

— Isso aí não cabe na casinha de vocês! — disse Frank em voz alta pelo barulho dos rotores.

— Estamos cogitando transferir somente o crânio para a filial japonesa! Mas há muita burocracia para fretamento de navios cargueiros! Em uma semana resolvemos esse pequeno entrave!

A aeronave voou mais depressa sob o forte sol que banhava a ilha, rumando diretamente a caverna onde encontrava-se o singular relógio. 

Enquanto isso, no DPDC, os militares do quartel-general de Danverous City atravessavam um corredor, passando reto por qualquer funcionário ou visitante após a negativa de Hoeckler reportada a eles. O general Pfaifer foi parado por Carrie que tinha uma dúvida a esclarecer. 

— General, general... Só um instante, por favor. — disse ela fazendo o chefe militar cessar a caminhada e encara-la com seus olhos mordazes — Estão circulando boatos de que seus homens estariam recolhendo um material secreto abaixo do prédio... 

— Sim, o explosivo que seu superintendente negligente escondia do conhecimento público. — disse Pfaifer — Estamos pegando de volta o que é nosso para um medida preventiva contra os sismos na cidade para refrear a magnitude, contratamos engenheiros para aprimorar o dispositivo. 

— Sem o aval do superintendente? 

— Não é mais necessário visto que ele se negou a discutir uma tratativa. 

— Sabe que isso é abuso de poder, não sabe? Podem ser judicialmente penalizados por isso. — alertou Carrie, a postura firme ante ao arisco general.

— Talvez esteja na profissão errada, Srta. Wood. Daria uma ótima repórter. — disse Pfaifer em ironia, os demais soldados o endossando com risadinhas debochadas. O general virou as costas, seguindo com seu pelotão. Carrie dera língua fazendo uma cara feia vendo-os dobrar o corredor a direita.

Agnes permanecia no edifício, tendo ido ao banheiro, e seguia na direção oposta aos homens de farda verde. Passou por eles, ignorando-os, porém estacou ao sentir um súbito arrepio. Olhou para trás, focando no general Pfaifer que lhe lançou um sorriso amarelo numa expressão maliciosa, em seguida o brilho dos olhos dando lugar a órbitas vazias numa caveira revestida por pele que tremiam como se fosse uma projeção. A bruxa não tinha dúvidas quanto àquilo.

Carrie caminhava pelo corredor no qual abordou o general e notou estar sendo seguida as pressas. A assistente virou para conferir, se surpreendendo um pouco com a presença de Agnes cujo rosto estampava preocupação. 

— Você ainda tá por aqui? Pensei que já tivesse ido pra casa treinar sua magia com o grimório. — disse Carrie — Nossa, você tá bem pálida... Mais do que o natural... sem querer ofender, claro.

— Não sei o que está havendo, mas aqueles homens certamente não vieram se reunir com Theodor pra discutir assuntos privados. 

— Não mesmo, estão cometendo grave infração ao tirarem daqui uma bomba que Hoeckler armazenava no subsolo para casos de emergência extrema. Fizeram sem o consentimento dele, irão se ver com a justiça. 

— Você não achou nem um pouco suspeito? 

— Bem, sim... De início, eu estranhei, mas o general Pfaifer justificou, disse que era pra controlar os danos causados por terremotos, irão fazer da bomba uma espécie de apaziguador de magnitude. Por que tá me perguntando isso? O que você viu neles? 

— Antes de contar... — disse Agnes, aproximando-se mais de Carrie — Diga-me o quanto está a par da situação geral envolvendo Zaratro. 

— Sou mais que assistente do Frank. Digo, não vivemos uma relação amorosa. Somos amigos, amigos confidentes. 

— Então esteja ciente de que aqueles homens não são do exército americano. — disse Agnes — São daevas. Sei disso porque tenho alta sensitividade pra energias sombrias. Aquele general me olhou e descaradamente se revelou pra mim. 

— Alguma ideia de pra quê os daevas estão interessados na bomba? 

— Se ainda estiverem lá embaixo retirando essa bomba... podemos descobrir a tempo. 

— Tá sugerindo irmos juntas pra verificar? Ahn, eu... eu não sei se devo concordar, as chaves pros subníveis estão com o diretor. Apesar dele também ter alguma noção do que se passa no outro lado da vida do Frank, não tem o mesmo grau de conhecimento, muito menos quanto ao Zaratro. 

— Nesse caso, terá de obter as chaves à revelia dele. Pode nos poupar tempo não explicar todo o cenário. — idealizou Agnes fazendo Carrie sentir-se tentada. 

— Torça pra ele não estar lá agora.

A assistente foi direto a sala de Giuseppe, primeiramente olhando pelo buraco da fechadura. A ausência do diretor foi confirmada, levando-a a abrir a porta que felizmente estava destrancada. Se encaminhou as gavetas da mesa, remexendo em tudo a procura das benditas chaves de acesso. Olhou no armário similar ao de colégios, abrindo as portas com as combinações que ela sabia de cor. 

— Caramba, isso aqui vai ficar uma bagunça... Mas pior do que isso, vou ficar bem encrencada. 

— Provalvemente sim, Srta. Wood. — disse Giuseppe, entrando na sala e olhando-a com altíssima suspeita. Carrie virou-se como se tivesse sido pega em flagrante num delito — A menos que me fale o que veio buscar aqui pra não pedir permissão. 

A assistente deu um sorriso nervoso com uma risadinha forçada. 

***

No prédio do Conselho de Segurança, o conselheiro-chefe, Christopher Barnes, observava de pé a cidade de sua janela panorâmica fumando um charuto. A tranquilidade do momento durou até a chegada de Zaratro pela porta da extensa sala de reuniões. 

— Mestre, perdoe meu atrevimento em não recebê-lo devidamente. — disse o daeva disfarçado de Barnes virando-se para o bruxo e largando o charuto no cinzeiro — Acho que minha encarnação nesta forma humana degradante foi muito além do necessário. 

— Não há nada errado com seu trabalho, continue o exercendo da maneira que julgar mais adequada. — disse o bruxo — É um espaço maior do que eu imaginava, perfeito para celebrar a vinda do mestre. A partir da próxima meia-noite, os humanos conhecerão um poder que os fará se sentirem como formigas diante da ameaça de fogo em suas tocas. 

Logo, Lancelot e Percival entraram na sala segurando pelos braços a última fonte disponível para Zaratro beber de seu conteúdo sem restrições. 

— Aí está, finalmente. — disse o bruxo, levantando e indo até seus asseclas — Uma centuriã caída... e viva. Jurava que haviam sido todos extintos, restando apenas o primeiro em seu pedestal inatingível. 

A centuriã não era ninguém menos que Kezabel rendida pelo cavaleiros e ferida na barriga por um golpe de espada, sem dúvidas de Lancelot. Zaratro notara a mancha negra do ferimento. 

— Resistiu a prisão? Isso é ruim, pois me reserva pouco tempo para que a ouça dizer as palavras de que preciso. O miasma negro vai corroe-la até os ossos. Eu posso prover a cura se for pacífica. Mas não entendo porque se opôs. – disse Zaratro tocando suavemente no rosto de Kezabel que o rejeitava afastando a cabeça.

— Ter caído da graça angelical não significa jurar servidão não deliberada. — disse ela — O único com o direito de reinar sobre tudo e todos... é o meu filho.

— Procriou com um humano... gerando assim um nefilim. Uma audácia esperada de alguém da sua espécie. 

— E ter me capturado foi uma estupidez esperada da sua. — rebateu Kezabel. 

— Por que eu seria estúpido em descartar o último dos querubins? O único que poderia se dispor a me ajudar, mas que se posiciona contra por sentimentalismo materno a uma aberração superestimada! — disse o bruxo, desferido uma bofetada em Kezabel, depois agarrando-a pelo queixo — Mas sua cooperação livre não é necessária. É uma mera opção. 

Zaratro afundou seus dedos nas têmporas de Kezabel, extraído o máximo de informações da mente da centuriã, mas em busca de uma em particular.

Cessou a tortura mental ao absorver o que queria. 

— Já tem o que desejava... Agora me cure e me mande de volta ao submundo pra que eu possa retomar minha jornada em busca do meu filho. 

— Por que? Ele desapareceu? Lamento. A reunião de família terá que ser adiada. 

O bruxo infligiu uma magia que acelerava o avanço do miasma no organismo de Kezabel cujo corpo se enegrecia de dentro para fora como uma ferrugem devorando metal enquanto ela gritava em dor. O corpo da centuriã caiu despedaçando como carvão seco embalado pelas roupas longas. 

***

Carrie vinha voltando da sala de Giuseppe ao mesmo corredor onde Agnes a esperava, mais precisamente num ponto cego do circuito interno de filmagem. A assistente mostrou as chaves balançando-as.  

A dupla se direcionou a porta que levava as escadas descendo ao subnível no qual encontrava-se a bomba. Carrie a abriu, logo indo na frente. 

— Não tem vigilância monitorada, eis a grande vantagem. — disse a assistente fechando a porta — A desvantagem: muitas escadas.

— Não importa, enquanto eu sentir a presença deles não teremos desperdiçado tempo. — disse Agnes descendo os primeiros degraus — Eu quase te coloquei em maus lençóis, né? 

— Nem tanto. O Giuseppe é um chefe compreensivo, além do mais ele também não viu com bons olhos essa visita invasiva dos militares, em parte chateado porque foi ignorado, mas isso passou quando falei do que realmente se trata. Ele me deu a chave pra verificar ao lado de um segurança de sistemas.

— Deve fazer silêncio se quiser subir de volta. 

— Oh, foi mal, eu não quis parecer tagarela. Mas... uma perguntinha: onde você deixou o grimório? 

— O mandei de volta pra minha casa. 

— Ah sim, a magia e suas utilidades infinitas. 

Após descerem todos os lances de escadas metálicas, as duas tornavam a seguir em linha reta por um túnel com paredes a prova de som. 

— Sabia que se gritarmos por socorro aqui, ninguém vai nos ouvir? Essas paredes possuem uma forte camada de isolamento acústico. — disse Carrie, munida de uma lanterna — Eu posso ter me metido numa encrenca muito maior. 

— E continue temendo isso pois os daevas ainda estão presentes. — disse Agnes que logo viu Carrie tirar os sapatos — O que está fazendo? 

— Esses saltos são barulhentos. Devia tirar os seus também. — disse Carrie levando os sapatos na mão esquerda enquanto na direita segurava a lanterna. 

— Não, eu estou bem. Vamos. Silêncio. — disse Agnes, baixando a voz até calar-se.

A bruxa e a assistente prosseguiam ao longo do caminho silenciosas como gatos na calada da noite. Viram a dobra para a esquerda onde perceberam uma luz distinta. Carrie desligou sua lanterna e seguiu atrás de Agnes até o limite da parede. Bisbilhotaram com as cabeças quase expostas. 

Cinco daevas estavam diante da bomba de formato esférico cuja casca era de metal cor de cobre. O compartimento interno estava aberto com o daeva responsável por abri-lo mexendo nos mecanismos para encaixar uma outra esfera, esta sendo menor e parecendo de vidro. O globo tinha um conteúdo negro como ébano, uma fumaça sombria contida que o preenchia. Agnes ficou boquiaberta e correu.

— Ei, espera! — disse Carrie em tom baixo, correndo atrás da bruxa. Ao alcança-la, perguntou: — O que foi? O que estavam fazendo? 

— Não o que faziam, mas o que será feito. Fica perto de mim. — disse Agnes que recitou um feitiço — Pronto, estamos fora de vista. 

Um daeva disfarçado de soldado ouvira os passos apressados de Agnes e fora conferir o túnel. Não viu nada nem ninguém percorrendo. 

— O que eles pretendem? Vai, fala. — pedia Carrie ansiosamente. 

— Aquela esfera que estavam pondo dentro da bomba... é um Coração de Erebo, um artefato de destruição em massa que se detonado com essa bomba vai espalhar uma escuridão absoluta em todo o mundo. — informou Agnes, a face de apreensão.

— Escuridão absoluta... Tipo, pra sempre? 

— Sim. Se detonarem aquela bomba antes da meia-noite, ninguém nunca mais verá o sol ao amanhecer. Zaratro está começando os preparativos pra libertar Chernobog, isso significa que ele conseguiu o feitiço.

Carrie sentiu as pernas fraquejarem tamanho seu medo imaginando o cenário de horror com o céu encoberto por trevas bloqueando eternamente a luz solar e as consequências advindas. 


***

Na ilha, Frank e Hoeckler caminhavam por uma parte íngreme do solo repleta de rochas pequenas nos lados que descia a uma entrada da caverna. 

O superintendente que usava um gorro preto e dois casacos por cima de um sueter, olhava algo em seu celular. 

— Ah não, isso não me cheira nada bem. 

— O que é que foi? — indagou Frank, logo atrás dele.

— Um comboio do exército acabou de sair do DPDC transportando... — olhou seriamente para Frank com ar de urgência — ... a bomba do protocolo de emergência. 

— Peraí, aquela bomba que quase foi detonada no dia em que a Lilith causou o maior fuzuê no prédio com os demônios? Nem lembrava mais. Por que os fardados querem ela? Era sobre isso a reunião? 

— A Carrie que me enviou a mensagem. Não são os militares... são os daevas. O que significa que o general Pfaifer e todo o seu batalhão estão mortos. Falou que esteve com Agnes no subnível e lá descobriram tudo. — olhou o resto da mensagem — Ela finalizou dizendo que tudo isso será divulgado como um projeto pra amenizar os terremotos e os danos. Agnes dará mais detalhes quando voltarmos. 

— Desgraçados. Onde será que vão plantar essa bomba? 

— Talvez no centro da cidade. Zaratro planeja uma catástrofe pra hoje a noite. Seja o que for, vai provocar efeitos devastadores. Temos que nos apressar. — disse Hoeckler, desviando mais rápido das pedras — Sabe... agora eu sinto que deveria ter me imposto mais diante da alta cúpula da fundação.

— Do que tá falando exatamente? — indagou Frank, curioso sobre o subtexto da frase.

Ele parou, virando-se ao detetive.

— Que eu deveria ter deixado Ernest viver. 

Frank o encarou com uma seriedade dura. 

— Não vamos discutir mais isso, temos mais o que fazer. Esse assunto tá mais do que encerrado entre nós. Eu já superei o luto, você tem que superar sua culpa.

— Não, fica aí, escuta. Quer saber porque eu decidi pela morte do Ernest da forma como ela ocorreu? O presidente da fundação me extorquiu. Eu estava aberto a não usar força letal. Mas ele que batia o martelo, eu que acatava as delegações. Fui covarde ao não contrapor a ordem. Eu tinha uma reputação lá. Escolhi não mancha-la por insubordinação.

Frank ouviu atentamente, passando a compreender.

— Então... a licença pra matar partiu do presidente. 

— Olha, isso não muda nada, eu sei...

— Não, Hoeckler. Pra mim muda tudo. Mas não nego que você foi covarde sendo submisso a um código injusto. É uma questão pra você refletir até parar de se torturar. — disse Frank, indo na frente — Vai ficar aí parado? Eu disse pra você refletir, mas não agora. 

— Sim, vamos. — disse Hoeckler retomando o curso. 

Adentrando na caverna, a dupla se muniu de lanternas, passando os fachos de luz porr todos os lados. Frank iluminou um conjunto de estalactites acima de uma grande poça d'água. Enfim chegavam ao Relógio do Juízo Final, sua única chama esmeralda crepitando no último círculo. 

— Esse ponto da caverna tem uma atmosfera bem diferente. — aferiu Frank contemplando o relógio — Olhar pra uma coisa dessa de perto... é surreal. 

— Haviam duas labaredas. — disse Hoeckler — Só há uma agora, ou seja, estamos a um minuto do apocalipse. Provável que Zaratro tenha avançado.

— Será que ele conseguiu o feitiço? 

— Quase certo. — disse Hoeckler usando uma vela para acende-la com a chama. Ao faze-lo, retirou da mochila uma cápsula de vidro que tinha um encaixe para a base da vela, logo a colocando — Pronto. Agnes cuidará do resto. Vamos embora. 

Enquanto isso, Agnes, em seu porão, estava sentada em posição meditativa, flutuando a alguns centímetros do chão. O Necronomicon estava a sua frente também levitando. A bruxa testava seu contato espiritual com o livro, fortificando sua conexão mística com o poder bruto da magia. 

Como resultado, a lâmpada do porão explodiu, fazendo o recinto mergulhar nas trevas. Agnes logo reabriu os olhos, arregalando-os. Suas íris brilhavam num tom púrpura vibrante e intenso. 

***

Frank e Hoeckler entravam as pressas na casa de Agnes em retorno da ilha, de maneira quase invasiva. A bruxa vinha do porão após escutar a barulhenta chegada. 

— Oh, que bom terem voltado! Já estava preocupada. — disse ela.

Frank fitou com curiosidade uma caixa retangular grande encostada numa parede. 

— O que é isso aqui? — indagou o detetive tocando na caixa — É um negócio meio pesado, eu acho. 

— Assim que eu voltei já estava aí. — disse Agnes.

— É a encomenda que eu solicitei um agente a trazer. — disse o superintendente se largando no sofá — Pode desembrulhar. 

Frank sentou-se no chão e foi retirando as fitas adesivas da caixa, posteriormente a rasgando. O detetive se entusiasmou com o objeto que pusera sobre a mesa maior. 

— É dessa belezinha aqui que precisamos pra fritar o Zaratro. — disse ele dando batidinhas na arma. 

— Mas... o que é isso, afinal? — indagou Agnes, aproximando-se. 

— Um lança-chamas. — respondeu Hoeckler. 

— Achei que fosse um tubo de oxigênio. Então é aqui onde devo depositar a chama sagrada. 

— Vou pegar a vela. — disse Frank indo até a mochila. Retirou a cláusula na qual a vela se encaixava e logo a removeu, trazendo-a para Agnes — Não seria melhor queimar o Necronomicon primeiro? 

— Nem pense nisso, ele está seguro comigo. — afirmou Agnes — Vamos começar antes que sopre uma brisa e apague a chama. 

— Ao que parece, Zaratro perdeu qualquer interesse no grimório. — disse Hoeckler visualizando uma notícia num site pelo celular — A mídia está cobrindo a instalação da bomba na rede de esgoto no centro da cidade. 

— Ah, sobre isso, a Carrie nos repassou a mensagem dizendo que você nos daria mais detalhes. — disse Frank à Agnes — E aí, que presepada o Zaratro tá querendo aprontar exatamente? 

— A sua assistente e eu flagramos os daevas pondo um artefato místico dentro do mecanismo da bomba. Zaratro o nomeou de Coração de Érebo. Uma esfera que contém uma inestimável quantidade de energia sombria. O recipiente é frágil e se detonado juntamente a bomba... uma escuridão perpétua vai encobrir o céu do mundo todo. 

— Zaratro parece que quer transformar o planeta numa versão atualizada do submundo. — disse Frank, preocupando-se — A gente tem que impedir uma desgraça dessas, custe o que custar. 

— O máximo possível é impedir o rompimento do selo. — destacou Agnes — Mas Zaratro fará isso pouco antes da meia-noite, não chamará tanta atenção. Posso muito bem revogar o efeito do Coração de Érebo, caso eu ascenda a um novo nível de magia como fiz no porão há pouco tempo. Faço questão de acompanha-los. 

— Bora lá, sem perder mais um segundo. — disse Frank, abrindo o tubo do lança-chamas — Manda ver.

Agnes recitou o feitiço específico para manipulação de fogo sagrado de forma extremamente concentrada. A chama verde cresceu extensivamente numa bola flutuando no ar, logo sendo direcionada ao interior do tubo. 

— Depressa, feche! — pediu Agnes. Frank tampou imediatamente, firmando bem ao fechar. 

— Primeira etapa concluída. — disse Frank, respirando mais calmamente — Hoje o Zaratro vai saber o que é bom pra tosse. 

— Como expandi a chama, ela ficará abundante, mas não cometa excessos desnecessários ou vai esgota-la rápido. — orientou a bruxa. 

— OK,  vou pegar um táxi e voltar pra casa. — disse Frank logo voltando-se para Hoeckler — Não vai vir conosco, né?

— Provalvemente não. Vou chamar daqui a pouco uma van pra me levar pra casa, de lá vou coordenar a operação. Mando pegarem você as nove. 

— Tranquilo. Os pombinhos agora vão poder ficar a sós porque eu vou indo nessa. Até mais tarde. — disse Frank, logo se dirigindo a porta. Após o detetive sair, Agnes se sentou no colo de Hoeckler num semblante sedutor.

Hoeckler levando sua boca à dela num beijo quente e longo. Durante o ato, Agnes abriu os olhos que tornaram a brilhar em púrpura nas íris. 

***

A noite que decidiria qual lado da guerra prevaleceria triunfante finalmente alcançava seu estágio de limiar para o confronto no prédio do Conselho de Segurança. Uma vasta frota de vans blindadas da ESP estacionava nos arredores do sofisticado edifício de cinco andares. Dos veículos saíam os agentes com suas fardas pretas, coletes e capacetes com visores escuros, além de ostentarem um reforçado arsenal de granadas ultravioleta. 

De uma das várias janelas do quinto andar, na sala de reuniões, Zaratro observava com as mãos para trás o batalhão de agentes correrem em invasão ao térreo. 

— As formigas saíram de suas tocas. — disse ele numa frieza prepotente. 

Uma van entrou invadindo, causando severo estrago na porta de vidro automática que se estilhaçou em múltiplos fragmentos que se espalharam pelo chão. Após o violento impacto naquela entrada dramática, agentes saíam da van enquanto outros vinham do lado de fora numa correria frenética. Dessa mesma van também saíra Frank, usando suas costumeiras vestes — sobretudo creme, camisa branca, gravata azul e calcas jeans –, equipado com o lança-chamas.

— Quero quatro escoltando o Montgrow até as escadas, rápido! Os elevadores não funcionam! — berrou o capitão da operação, Daryl Black. Os agentes que se prestaram correram com o detetive em direção às escadas para acessar o quinto andar. 

Um exército de daevas nas formas de funcionários do prédio surgiram se agrupando para a batalha. A ESP dera o primeiro golpe com as granadas ultravioleta que acertavam seus alvos os fazendo explodirem em luz. O choque de tropas foi como um embate épico em tempos antigos. Os daevas atacavam ferozes, pulando sobre os agentes que alvejavam para transpassarem-os com seus toques mortais. 

Os agentes incumbidos da escolta à Frank disparavam as granadas em qualquer daeva que se aproximava. 

— E a Agnes? Ela já entrou? — perguntou Frank em voz alta no meio da barulheira. 

— Foi pelos fundos. Ela quis seguir sozinha pra fazer uma coisa dela. — disse um dos agentes — Vai, vai! — disse abrindo a porta com um chute — Entra!

Frank entrou para subir as escadas. Já suado e cansado, alcançou o terceiro andar, arrombando a porta num chute pesado direto na maçaneta. Porém, assim que dera os primeiros passos no corredor, a luz passou a sofrer uma repentina instabilidade. No meio do pisca-pisca interminável, o detetive entrevia um vulto esguio aparecendo e sumindo numa rapidez sobrenatural, se aproximando mais a cada piscar da luz.

Frank ainda assim andava, destemido. No entanto, o apagão total viera, mergulhando, por uns segundos, o corredor inteiro a uma escuridão agoniante. Com o acender brusco das luzes, Frank dera de cara com Percival quase encostando seu rosto cadavérico ao do detetive que recuou na hora admitindo o susto. 

— Acho que posso dizer que meu coração quase fugiu pela boca dessa vez. Mas cê não me mete medo, seu fedorento! Muito menos agora que tenho uma surpresinha bem desagradável aqui pra você, seu amigo e seu querido mestre!

— Quer me convencer de que essa arma insignificante pode me ferir? — indagou Percival, materializando um machado de dupla lâmina com sua energia sombria — Me mostre, caçador. 

— Não é a arma em si, mas o que tem dentro dela. Se prepara pra sair daqui correndo e se proteger no manto esfarrapado do seu mestre, daí eu mato dois coelhos numa paulada só. E ainda tem seu amiguinho, o Lancelot, tô doido pra encarar ele também. 

— Será um prazer fazê-lo engolir essa empáfia. — disse Percival, brandindo o machado para golpear Frank, mas logo de inesperado Adrael aparecera entre os dois oponentes, liberando um pulso de energia que afastou Percival a uns dois metros. 

— Adrael?! Muita coragem sua vir ajudar seus irmãos anjos sendo praticamente um fugitivo da justiça porque com certeza eles vão aparecer. — disse Frank, surpreso com a aparição do serafim banido. 

— Não, Frank. — disse Adrael vendo Percival se aproximar — Vim ajudar você. — sacou sua espada e avançou para enfrentar o cavaleiro. 

— Ei, não precisa dois contra um! — disse Frank.

— Corra! — disse Adrael defendendo dos golpes de Percival com grande esforço. Mas o cavaleiro o acertara com o machado, o batendo contra a parede que rachou com o impacto das costas do anjo. 

— Correr? Tá brincando, né? Deixa ele comigo, ele é demais pra você, vai tomar uma surra! 

Adrael desviava de mais ataques, se abaixando ou esquivando para os lados. 

— Eu disse... correr em frente! — disse Adrael que conseguira acertar um corte de espada na parte abdominal da armadura que estampava o brasão meio arranhado do cavaleiro cujo animal parecia ser um lobo. Depois estendeu sua mão esquerda emitindo sua luz branca cegante — Vá logo enquanto o mantenho ocupado!

Frank fechou os olhos se preparando atravessar o corredor enquanto a luz angelical pulsava da mão de Adrael. Mas bastou para Percival usar uma única mão a fim de apagar a luz até agarrar a mão de Adrael e esmaga-la com bruta força. O serafim caiu de joelhos, gemendo alto com a dor, as veias do seu antebraço enegrecendo. Mas antes que Frank disparasse a chama no cavaleiro para salvar o amigo, uma serpente de trevas envolvida por uma aura púrpura se enroscava no corpo de Percival, o prendendo e neutralizando. A "serpente" se materializou numa corrente. Adrael sentiu o braço parar de doer e recuou para perto de Frank. 

— Frank! — disse Agnes vinda de uma sala a esquerda — Está com as cartas? 

— Agnes!? — disse Frank, um tanto surpreso ao encontra-la logo ali — Sim, eu tô... — retirou as duas cartas restantes do bolso do sobretudo, mas não sabia qual delas utilizar — Qual? 

— A que tem a figura de um lobo no verso, é o brasão dele! 

— OK, pode mandar! — disse Frank chegando perto com a frente da carta apontada para Percival. Agnes recitou o feitiço de selamento, enviando o cavaleiro acorrentado para dentro da carta na forma de fumava negra. A luz púrpura piscou na carta indicando que ele foi inteiramente aprisionado. Frank olhara-a — Tem o direito de ficar em silêncio... pra sempre. — foi até Agnes — Bom que só falta mais um, sentir esses malas entrando nas cartas não dá uma boa sensação. Como chegou aqui tão rápido? 

— Coisa de bruxa. — disse ela vagamente. 

— Aquele lance de prender o Percival veio bem a calhar. Valeu.

— Se não tivesse agido rápido, eu perderia o controle e ele romperia a corrente. Preciso de mais tempo para me aperfeiçoar estudando o selo de Chernobog. Me esperem para o clímax da batalha. 

— Adrael, melhor você ficar de fora. O Lancelot é o cavaleiro mais barra-pesada e contra o Zaratro você não dá nem pro cheiro. — aconselhou Frank. 

— E quanto a você? Enlouqueceu? Vai enfrenta-los de que forma? 

— Com fogo sagrado. Se insiste em participar disso, vai ter que ver pra crer. — disse Frank, apanhando a mangueira do lança-chamas. 

No térreo, o confronto entre luz e trevas prosseguia equilibrado e visceral, com baixas de ambos as partes. Quebrando parte do teto de vidro, três serafins aterrissaram com suas asas reluzentes a mostra. Um agente deu um passo para trás, esbarrando de leve com Ethrea. 

— Alguém chamou a cavalaria? — perguntou ela, fazendo brilhar seus olhos. Os agentes gritaram em comemoração pelo reforço. Alguns serafins cumprimentavam agentes, com toques no ombro e apertos de mão. Os daevas avançaram em nova ofensiva, a maioria mirando nos anjos. A batalha ganhou ares mais brutais com aquela chegada.

Frank e Adrael adentraram ao quinto andar, mais precisamente a sala de reuniões. 

— Entramos no nível do chefão. — disse Frank andando devagar segurando firme a mangueira do lança-chamas. 

Zaratro veio recebê-los cordialmente. 

— Sejam muito bem-vindos. Aceitam uma bebida? 

— Não, a gente só veio estragar a festa mesmo. — retrucou Frank. 

Os quatro daevas que assumiram as aparências dos membros do CDS vinham até eles, cercando-os. 

— Se depender de nós, ela se estende até o amanhecer. — disse o que se disfarçava de Christopher Barnes. 

— Ah, é verdade, não vai haver amanhecer. — disse o que se disfarçava de Margaret Brown, a única integrante feminina do grupo. 

— Tá aí que se enganaram feio. Ela acaba pra vocês aqui e agora. — disse Frank — Adrael, se afasta.

O anjo desapareceu dando à Frank a deixa. O detetive disparou a rajada de fogo sagrado nos quatro num movimento circular. O quarteto se desfez em fragmentos incinerados que pairaram no ar. 

Zaratro não conteve sua perplexidade. 

— Fogo sagrado!? Maldito seja... 

— O que foi? Tremeu na base? Subestima os caçadores pra ver o que acontece! 

— Nunca subestimaria um descendente de Órion. Mas devo admitir que não me preparei a isso. — disse Zaratro que retirou uma faca de ponta curva atrás do cinto — Você me obriga a lutar sem restrições. Que desperdício ter que mata-lo assim.

— Mestre, não gaste sua energia com esse verme. Me conceda a permissão de tortura-lo. Garanto que o senhor poderá dar o golpe de misericórdia. — disse Lancelot que surgiu num piscar de olhos, materializado uma espada — Deixe-me vingar Palamedes, Percival e Mordred. 

Frank largou a mangueira para sacar do bolso interno do sobretudo a última carta de selamento. 

— Permissão negada. Você vai direto pra sua cela. Eu sei o feitiço de cor agora. — disse ele apontando a carta. Porém, Zaratro a arrancou do detetive com telecinesia e a incinerou com seu fogo púrpura — Não! Desgraçado...

— Jamais permitiria que me tirasse meu melhor soldado. — disse Zaratro limpando a sujeira do pó da carta nos dedos — Vejamos o que é mais rápido. O fogo ou a espada de Lancelot dilacerando seu peito.

— Eu aposto no fogo. — disse Adrael surgindo atrás de Lancelot, praticamente sussurrando no ouvido.

O cavaleiro se virou velozmente para atacar o anjo com a espada, mas o mesmo se abaixou depressa ao sacar a sua própria. Adrael deslizou no piso desferindo um corte na xanela esquerda de Lancelot, depois virando-se a ele com o joelho direito dobrado e segurando o punho da espada com a lâmina na horizontal para a sua direita. Nesse instante, os olhos do serafim brilharam, simbolizando um convite a luta.

Lancelot não ignorou o desafio, movendo sua espada ardorosamente para derrotar Adrael num golpe preciso. O anjo se defendia e esquivava dos ataques, mas até determinado ponto, pois o cavaleiro materializou uma segunda espada que cruzou com a outra em um "X" baixando sobre ele. Adrael resistiu com sua lâmina até ficar de joelhos. Mas Lancelot o chutara, fazendo das espadas meras distrações. 

— Ei, isso foi golpe sujo. Era pra ser uma luta justa entre armas. — contestou Frank. 

— Numa luta até a morte não há regras ou honra. — afirmou Zaratro — Seu amigo anjo não é páreo para Lancelot e sua insaciável sede de vitória. Logo o sangue do oponente irá banhar as espadas dele. 

Adrael reergueu-se, pulsando sua luz contra Lancelot que nada se abalou com o ataque e revidou com uma esfera de sombra ao largar as espadas. Lançou a esfera de energia sombria contra o anjo que foi arremessado contra as muitas janelas de vidro juntas da sala. Mas o anjo abrira suas asas, voando de volta. Lancelot, crendo que o vencera, focou sua atenção em Frank, mas logo foi surpreendido com o retorno do anjo que colidiu com ele para derruba-lo contra uma parede com várias peças decorativas em prateleiras de vidro e que foi completamente destruída, levantando bastante poeira.

— Lancelot! — chamou Zaratro — Acabe logo com isso! Ou vai querer que eu acabe? 

Adrael saía da poeira cinzenta. 

— Frank, está tudo bem.  Eu o contive... 

Mas foi interrompido pelas espadas sombrias que atravessaram seu peito simultaneamente. Frank encarou estupefato o anjo ser empalado com sangue expelindo da boca. Adrael se deixou cair de frente nos quatro degraus daquela área mais alta.

— Essa não... Adrael!

— Eu avisei. — disse Zaratro, satisfeito — Deviam agradecer por Lancelot conservar a clemência de quando estava vivo ao deixar que o anjo viva mais alguns segundos antes de morrer envenenado pelo miasma ao invés de exectuar uma sentença rápida.

— Miasma? Aquela mancha preta nas costas dele? — indagou Frank, assumindo que Adrael tivera seu destino selado — Não... Não vou perder mais ninguém esse ano. — mirou o lança-chamas no bruxo e disparou a rajada de fogo. Lancelot veio correndo, pulando na frente do fogo na intenção de proteger seu mestre. O cavaleiro foi tomado inteiramente pela chamas, rolando no chão. 

— Lancelot, não! — disse Zaratro, aturdido com o ato. 

— Pronto, dei o troco, vinguei o Adrael! Agora é sua vez! 

— Inacreditável. Sua lealdade era tanta que se jogou diante do fogo pra evitar de eu ser atingido. — disse Zaratro — Morreria por mim da mesma forma que pelo seu rei. 

As labaredas se apagavam no corpo, mas revelando algo fora da expectativa. O cavaleiro se movia. 

— Mas... É o que eu tô pensando que é? — se perguntou Frank vendo Lancelot se reerguer, porém não mais como antes — Caramba... — olhou bem — Ele não só tá vivo... como também mudou. 

Lancelot, o cavaleiro que outrora serviu bravamente ao Rei Arthur na guerra da Grã-Bretanha, se mostrava regenerado, de rosto limpo e livre do jugo de Zaratro. 

— Que inferno! O fogo sagrado... — disse o bruxo. 

— Quebrou a maldição. — disse Frank com um sorriso de canto — Salve, Lancelot. O mais durão dos cavaleiros do Rei Arthur. Se eu soubesse tinha feito isso antes com o Percival. 

— Você... — disse Lancelot, olhando para Zaratro, meio confuso. Sua mente foi bombardeada por flashbacks da última batalha que travou para defender o reino — Agora lembro... Merlin o tinha como inimigo. Sem dúvidas que... Camelot foi a ruína por sua causa, você ajudou os malditos saxões!

O cavaleiro brandiu sua espada contra o bruxo. 

— Por cada vida que tirou, o farei pagar! 

Mas Zaratro esticou sua mão direita, criando um buraco de sombra abaixo de Lancelot que foi afundando como se estivesse em areia movediça. 

— E não se passa um dia sem que eu me orgulhe disso. — declarou Zaratro. O cavaleiro submergiu nas sombras, gritando de horror, até o buraco se fechar.

— Pra onde o mandou? — questionou Frank. 

— A lugar nenhum. — disse ele, pegando novamente sua faca — E pra onde você também irá. Agora sim. — fizera um corte vertical no peito nu, o qual abriu com as duas mãos. Daquele rombo no peito, saíram em disparada inúmeros daevas como abelhas da colmeia. Frank se jogou no chão para se proteger do enxame. 

Os seres mais horrendos do submundo quebraram as janelas ao descerem voando direto ao térreo. Os agentes da ESP, bem como os serafins, se amedrontaram com o escurecer súbito. Mas uma luz dourada veio ao socorro se todos eles. Raguel e mais três ofanins, dentre eles Thaumiel, surgiram com suas espadas luminosas em meio aos outros. Abriram suas magníficas asas douradas, emanando uma potência de luz que extinguia cada daeva que se aproximava. Encorajados, os serafins fizeram o mesmo, encantando aos agentes. 

— Eles foram lá pra baixo... — disse Frank, levantando-se — Mas os anjos estão lá, eu sei que estão. 

— Sim, estão, sobretudo os ofanins. Eu liberei aqueles daevas para anular minhas restrições. — disse Zaratro, o corte no seu peito fechando-se — Eram eles que faziam o árduo trabalho de impedir que meu poder excedesse ao limite. Isso desde a época de Órion. Nem sua chama poderá me deter. 

— Quer pagar pra ver? — perguntou Frank que disparou o lança-chamas mais uma rajada de fogo sagrado. Zaratro barrou o fogo num escudo invisível e a dispersou tão intensamente que provocou uma onda avassaladora, fragmentando os vidros de todas as janelas e causando uma queda geral de energia.

A luz de emergência dos geradores foi ativada. Frank disparou outra rajada, mas esta Zaratro a conduziu criando uma espécie de túnel de sombra pel odiá-lo o fogo adentrou. Frank reagiu pasmo. Um outro túnel surgiu atrás do detetive mandando a rajada de volta para ele, mas sua cor alterada de verde para púrpura.

Frank desviou se jogando para o lado. Não satisfeito, Zaratro criara mais túneis no térreo, ramificando e canalizando a chama sagrada que graças a liberação total de seu poder mágico colossal manipulava. Agentes e serafins tentaram sobreviver ao ataque massivo, mas alguns eram fatalmente engolidos pelo fogo que saia dos buracos negros. Ofanins usava suas capas na proteção a agentes. 

— Onde foi parar a autoconfiança? — perguntou Zaratro. 

— Vou enfiar ela no seu rabo. — rebateu Frank que apertou o gatilho do lança-chamas, mas nada saiu — Ah não... Tinha que acabar justo agora, merda. — se desfez do tubo, largando-o junto a mangueira.

— Seu poder de fogo esgotou? Que pena. Eu esperava usar mais dos meus túneis de trevas pra manipular a chama sagrada e matar mais inimigos lá embaixo. De qualquer forma, acho que já posso começar meu espetáculo preliminar. 

Zaratro estalou os dedos, o que detonou a bomba com o Coração de Érebo. A nuvem de sombras se proliferou pelos esgotos até sair pelas tampas de bueiros e subir aos céus para encobri-lo. 

— A bomba... Puta merda, tinha esquecido. — disse Frank, sua esperança murchando — Agnes, cadê você? 

Uma onda de energia atingiu Zaratro, mas sem grande dano. Frank sorriu ao ver Adrael de pé, certamente recuperado do veneno graças a quebra da maldição em Lancelot.

— O fogo sagrado me salvou. — disse ele — E irei salvar a todos. — abrira suas asas resplandecentes — Frank, feche os olhos! — pediu, logo refulgindo a sua luz o mais poderosamente que conseguia. Tamanho foi seu empenho que a luz foi sentia do térreo. Ethrea sabia bem enquanto Raguel e os demais se intrigavam. Zaratro recebia a explosão de luz, mas resistia. Frank protegia os olhos ao máximo. Mas logo o anjo perdera força, reduzindo seu brilho até cair inconsciente. 

— No que esse anjo patético pensava? Me despedaçar com isso? — questionava Zaratro que riu em zombaria. 

— Ele foi até o limite... só pra dar um fim nisso tudo. 

— Frank, falta pouco pro relógio bater meia-noite... logo meu mestre irá caminhar sobre a terra após milênios de reclusão... Eu lhe darei o privilégio de lutar comigo como um igual. Vou baixar minha energia mística a zero... Pode vir. 

Frank avançou furiosamente contra o bruxo, tentando desferir socos, mas que ele desviava com habilidade.

— Isso! Continue assim! Órion se movimentava desse mesmo jeito em nossos treinamentos!

— Cala essa boca! — disse Frank conseguindo acertar um soco no rosto do bruxo. O detetive o socou mais uma vez na face, depois no peito. Pegara o tubo do lança-chamas com o qual golpeou-o incontáveis vezes —Tá gostando? Toma mais!

O detetive agredia com mais cólera. O chutou na barriga fazendo-o cair perto de labaredas de fogo sagrado que incendiaram seu manto. Zaratro se desvencilhou do capuz que ocultava parte de seu rosto, levantando-se e logo expondo sua face ao se virar. Sua cabeça tinha cabelo branco curto como o de um homem de meia idade, mas no rosto extremamente pálido havia cortes profundos. 

— Até que enfim resolveu mostrar as fuças. — disse Frank — Esses cortes, essas tatuagens nos braços... Tudo efeito colateral do Necronomicon, né? 

— Sacrificar minha humanidade em aparência física não foi uma renúncia difícil. Aquele grimório me fez renascer em todos os sentidos. — disse Zaratro vindo até Frank — Lhe darei mais um privilégio. 

— Ah, mais um? E qual é?

— Ser a última criatura que olhou nos meus olhos antes de morrer. — disse ele empurrando Frank contra a parede, o imobilizando. Elevando sua magia novamente, levitou os fragmentos de vidro, logo os moldando como estacas pontiagudas miradas em Frank — Que diferente de Órion... você parta em paz.

Subitamente as estacas de vidro foram vaporizadas. Uma figura saia da escuridão em passos vagarosos. Frank olhou a esquerda, percebendo ser Agnes. 

— Sua... traidora miserável. — disse Zaratro.

A bruxa sorria infame para ele, vindo com o grimório. Mas o largou no chão. 

— O que está fazendo? — indagou Zaratro — Você... está diferente. 

— Diferente não. — corrigiu ela — Somos iguais agora. Mas logo não seremos mais. 

Agnes recitou um feitiço de enorme poder, tanto que Zaratro flutuou em submissão àquela magia. Uma fumaça negra saia pelos poros do bruxo, sendo absorvida por Agnes que inclinava a cabeça para trás olhando para cima. Os olhos da bruxa preenchiam-se de luz púrpura, ela boquiabrindo-se. 

Frank assistia àquilo num misto de assombro com incerteza. Toda a energia sombria em Zaratro foi tragada ao peito de Agnes. O bruxo caíra, frágil. 

— O que foi isso? O que você fez com ele? 

— Falei que eu era a única capaz.de derrota-lo, não falei? Também falei que me aprimoraria para sugar sua magia necronomiana até não sobrar nada. Ele detém apenas a sua magia natural. Mas não é o bastante. — disse ela que o torturou desenhando um símbolo místico no abdômen dele — Esta insígnia vai suprimir a magia pra que se sinta humanamente fraco. — apanhou o grimório.

— Agnes... Acho que você tá indo um pouco longe demais. Deixa ele aí que o pessoal da ESP o leva sob custódia e vamos dar o fora daqui, acabou. 

— Sente pena dele? Se eu quisesse, o mataria agora! Não... Eu quero mata-lo. 

Um tiro acertou o grimório, o derrubando novamente ao chão. Frank apontava a pistola para Agnes. 

— Ou você para ou eu te faço parar. É bala anti-magia aqui. Você levou esse tempo todo pra se fortalecer e olha no que deu. A droga desse poder subiu a sua cabeça. Você não é melhor que o Zaratro só porque roubou a magia sombria dele. 

— Mas posso me tornar. E irei. Considerando o tempo que passei viva praticando incessantemente, eu levaria meses o que ele levaria anos, talvez décadas, já que perdeu tempo apodrecendo numa tumba. Mas não tinha solução, estava gravemente ferido por Merlin, precisou recorrer uma magia que o deixasse dormindo para se recuperar, tal como o soro que tomei. 

— Aquele soro... surtiu algum efeito a mais em você? 

— Não só ele, como também minha morte e ressurreição. — disse ela olhando para Frank com sorriso presunçoso — Tudo planejado para quando chegasse esse momento. 

— Não tô gostando nada disso. Agnes, vambora, acabou. A gente já venceu.

— Errado, querido. Eu venci. — disse ela empurrando Frank de volta a parede com telecinesia e o prendendo — Viu ali naquela parede? 

Frank olhou para a parede perto de onde ficaram as prateleiras de vidro.

— O selo do Chernobog... Tava ali marcado. Agnes, para com isso, não precisa ser assim! Cadê a merda do selo? O que você fez? 

— O transferi pra um lugar onde jamais será rompido. O mundo está a salvo.

— Onde você botou? 

Agnes o encarou em suspense provocador. 

— Onde você marcou a merda do selo, Agnes? — questionou Frank, exasperado. 

— Em você. — respondeu ela — No seu corpo. 

Frank baixou os olhos, vendo a marca brilhar por baixo da camisa na sua barriga.

— E sabe porque mesmo se rompido ele não acarreta na liberdade de Chernobog? Porque é o marcando num ser profano como um daeva que isso ocorre. 

— Mas, obviamente, eu não sou um daeva. 

— Daevas são criações diretas de Chernobog, usados como provocação ao seu oposto para se opor aos anjos. Ele utilizou o selo para origina-los marcando-o em cadáveres humanos. Mas também é possível que se crie um a partir de corpos vivos. 

Naquele instante, a compreensão se elucidou.

— Não... Agnes, você... Sua vagabunda! 

— Eu sinto muito. Daevas são os únicos que podem carregar o selo, mas claro que jamais pensaria em usar um já existente. 

— Não sente nada! Você me traiu, você... lutou por si mesma esse tempo todo. Onde é que eu tava com a cabeça em confiar numa bruxa? Foi um erro ter deixado você com o livro, eu devia ter entregado pro Hoeckler.

— Que depois o entregaria a mim me confiando total responsabilidade. Porque ele me ama.

— Mas você não o ama. Só o usou ele e a mim pra chegar onde chegou. Você me dá nojo. 

— Diga a ele que... passarei uma temporada na Irlanda. Vou reviver minha convenção. Adeus. — disse Agnes, indo embora de cabeça erguida e consciência limpa, mas ainda assim derramando uma lágrima de suposto remorso. 

— Mentirosa! Você vai abandonar ele! Agnes, volta aqui! Volta aqui, sua bruxa desgra...

Frank caiu ao chão após passar o efeito da telecinesia. Levantou-se e caminhou até o banheiro masculino por um corredor curvo, sentindo uma dor aguda. Olhou no espelho, levantando a camisa. No lado direito da barriga, o selo de Chernobog brilhava em luz roxa, o detetive encarando com medo genuíno estampado na cara. 

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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.



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