O andar cambaleante de Frank atravessava o corredor curvo durante o retorno à sala de reuniões após a descoberta acachapante no banheiro masculino. As pálpebras pesavam. A visão enturvava. O mundo ao redor se distorcia em borrões. O que Frank sentia de normal em mente, corpo, alma e espírito parecia ter se tornado passado. Um conceito de bem-estar humano que não lhe servia mais. Logo estaria encarando de perto a sintomática morte do que tornava ele naquilo que o destino moldou. "É o pior fim de carreira que existe", pensou ele, segurando-se na parede na curva com os tivesse sido baleado novamente no mesmo ponto.
De volta a sala de reuniões, o local ainda uma estarrecedora bagunça, Frank caminhou até Adrael que permanecia desacordado após exaurir suas forças na monumental explosão de luz. Sua disposição para andar melhorava gradualmente, mas continuava sofrendo com a sensação de algo muito errado no corpo como se estivesse parasitado.
Agachou-se para acordar o anjo. Pelas janelas destruídas, via-se o amanhecer em seus primeiros raios solares despontando e clareando o céu no horizonte.
— Adrael, acorda... — dizia, cutucando o anjo com a mão direita — Não faz isso, não pode ter ido dessa melhor com aquilo, você é mais forte do que isso... Vai, amigão, acorda, abre os olhos pra mim...
Aos poucos, Adrael esboçava sinais vitais. Moveu-se lentamente enquanto despertava para o total alento de Frank que sorriu fracamente ao vê-lo recobrar a consciência. O anjo levantou-se.
— O que aconteceu... depois que apaguei? Me sinto péssimo, ainda muito desgastado, preciso repor minha energia.
— Desgastado como você é que eu queria estar. — disse Frank tocando-o no ombro — Porque pode ter certeza de que eu tô infinitamente pior.
O nascer do sol alcançava seu apogeu, iluminando ambos.
— Olha só, que coisa linda. — disse Frank, contemplando — E o imbecil do Zaratro crente que a humanidade não veria mais o sol nascer. — fez uma pausa, olhando em volta — Ué, cadê o desgraçado?
Adrael caminhou trôpego em direção a luz solar, se deixando banhar pela mesma por inteiro. Bastou os raios solares naquela intensidade para restabelecer sua energia celestial e volta a senti-la fluindo em cada partícula de seu corpo. Os olhos do anjo brilharam completamente em sinal de poder recarregado. Depois, piscou, voltando-se para Frank.
— Já carregou as baterias? Pois vamos dar o fora daqui. — disse Frank.
— Por enquanto, não posso me teletransportar. O meu gasto de energia foi excessivo demais pra já começar a usar meus poderes. O sol ajudou, mas preciso esperar me estabilizar mais.
— Tá legal, sem problema. Se a galera da ESP tiver puxado o carro, a gente pega um taxi. Mas tenho qie saber onde se meteu o Zaratro, ele tava bem aqui deitado. Será que o levaram? Será que ele fugiu?
— O bruxo sobreviveu a minha explosão?
— Não sentiu nem cócegas. — informou Frank, a expressão de alguém que se queixava de uma dor — Eu sinto muito por você ter desperdiçado sua energia com aquele miserável, ele não valia o esforço.
— Frank, o que há com você? Parece não se sentir bem. Eu vou examina-lo.
— Não, se poupa nisso também. Deixa que eu te conto o que aconteceu. Eu...
Um agente da ESP adentrava a sala, interrompendo a fala do detetive. Os dois olharam para ele ávidos por respostas.
— Montgrow, aonde você tinha se metido? Rodamos quase esse prédio todo atrás de você e nada!
— Eu tava no banheiro... soltando aquele barro. Foi tanta pressão que mexe até com o estômago. — falou Frank, sem perder o senso de humor — E o Zaratro?
— O tiramos daqui assim que a Srta. Leinbow desceu e nos avisou. Ela foi pra casa numa das vans.
— Pois avisa pro seu chefe que ela tá de saída do país. Se ele quiser em detalhes, ou liga pra mim ou pra ela. — informou Frank, a decepção com a bruxa tornando a fazer seu sangue ferver.
— Por que não procuraram por Frank assim que buscaram o bruxo? — questionou Adrael.
— Focamos na custódia dele como prioridade. O resto de nós trabalhou na contenção de danos, apenas três se encarregaram de procurar. Ainda temos duas vans disponíveis. Quer carona?
— Se eu quero? Eu necessito. Pra ele também.
— Não, eu estou bem. — recusou Adrael — Já você não, Frank. Há algo diferente. Sua aura se distorceu.
— Aparece lá em casa quando estiver 100%... e a gente discute o meu novo problemão dos infernos.
O agente se encheu de curiosidade.
— Sei que pode não ser da minha conta, mas...
— E não é. Vambora. — disse Frank, suave como uma chicotada. O detetive seguiu na frente, depois o agente e o anjo foram acompanha-lo.
Uma hora e meia mais tarde, Frank descia da van na qual fora de carona até a rua onde sua casa situava-se. Agradeceu ao agente motorista e seguiu em frente pela calçada em direção ao seu doce lar. Enquanto a van blindada atravessava o cruzamento, o detetive andava um tanto devagar, sentindo a cabeça pesar de tão abarrotada nos pensamentos.
Ao passar por um canteiro de flores no muro de um vizinho, a energia que emanava proveniente do selo fixado em seu corpo acabava por matar as plantas instantaneamente. As flores secaram e morreram logo que ele passara sem se dar conta dos efeitos colaterais devastadores que aquela maldição sombria poderia causar. Chegou em casa e se largou no sofá, passando as mãos no rosto em cansaço.
Vendo o controle remoto da TV por perto, o pegou para ligar e assistir por um tempo a fim de arejar a mente com algun entretenimento até que alguma sonolência viesse para derruba-lo ali mesmo e dar o descanso que ele ansiava mais que tudo. Parou num noticiário sobre o pandemônio no prédio do Conselho de Segurança na noite anterior.
— Ainda não há um pronunciamento oficial do governo ou das forças armadas acerca dos ocorridos intrigantes no prédio da secretaria de segurança pública, mas obtivemos contato com uma suposta testemunha ocular que diz ter presenciado um dos fenômenos estranhos, além de registrado no seu celular, mais especificamente a estranha luz branca que refulgiu do último andar, uma luz tão intensa que parecia brilhar tanto quanto o sol. Estamos aqui com ele que prefere se identificar como... — disse a repórter que interrompeu a fala ao ver que houve uma interferência — Espere, quem são vocês? Não podem leva-lo! — a câmera focalizou dois agentes da ESP que conduziam o homem de fisionomia robusta e usando jaqueta azul e calcas jeans até a van com um saco de velido preto na cabeça — Temos uma entrevista a fazer, o relato dele pode ajudar as investigações... — disse a repórter se aproximando, mas um agente veio até eles para tapar a câmera — Ei, o que tá fazendo? Larga ele! E o nosso direito, como fica? Seu idiota, acha que pode nos censurar? Pode apostar que vão responder judicialmente por obstruir nossa liberdade de imprensa! Seu babaca!
— Fora daqui vocês, seus urubus! Não tem nada que devam saber! Fora! — gritava o agente. A câmera sofreu dano e foi largada no chão, sendo apanhada em seguida. Frank estava compenetrado na reportagem mal-sucedida, pelo menos até notar uma aparente interferência no sinal de TV que foi piorando rapidamente. O travamento na imagem era ligeiramente anormal, pois a TV não era tão antiga.
— Que merda é essa? — indagou Frank, levantando-se para conferir o defeito. Apertou os botões do controle, mas nada funcionava. Até que de repente a TV apagara quando se aproximou bastante. Uma fumacinha saía atrás, indicando o fatídico fim — Cacete... Já era. — disse, dissipando a fumaça com a mão.
Resolveu ir tomar uma água para curar a secura na boca causada pelo nervosismo e ansiedade. Porém, ao sentir o líquido na língua tomando um gole, um gosto ferroso foi detectado imediatamente, um sabor bem característico e alarmante. Cuspiu na hora no chão da cozinha. Olhou para o copo, constatando a água ter virado sangue fresco em contato com ele.
— Meu Deus... — disse, abismado.
Seu corpo todo estava arrepiado, não de frio ou de nervosismo, mas de puro medo. Foi ao banheiro lavar o rosto, passando bastante água nos olhos. Mas ao reerguer a cabeça frente ao espelho para se enxugar, viu subitamente no reflexo um ser preto de face horrivelmente caveirosa e olhos vermelhos encara-lo.
No susto, Frank se afastou do espelho e bateu com as costas na parede. Esfregou bem os olhos e não vira mais a criatura desprezível no reflexo, apenas sua face lívida num nítido estado de pânico.
— É nisso que vou me transformar... — disse ele, travado de medo — Tá começando. Eu tô morrendo.
***
Uma hora depois, Carrie e Adrael estavam na casa do detetive, ambos totalmente a par da terrível sina que ameaçava-o. Frank andava de um lado para o outro na sala falando com Hoeckler ao celular enquanto o anjo e a assistente observavam.
— Olha, não vem começar uma discussãozinha inútil sobre eu ter pedido pros seus soldadinhos avisarem a você pra me ligar. Se fosse do outro jeito, não ia dar bola porque tá completamente cego de paixão por ela e isso não te deixa pensar racionalmente. Vai por mim, a Agnes me colocou numa sinuca de bico. Botou em mim o selo da entidade do supremo mal pra mante-la presa e eu ir me transformando aos poucos na merda de um daeva como se isso fosse um sacrifício digno. — disse Frank, o desespero estampado na cara — Foi o Necromomicon. O poder subiu à cabeça dela, não à toa que ela sugou a magia sombria do Zaratro que nem um aspirador de pó, vi com esses olhos que a terra há de comer.
Da sua casa, Hoeckler estava na linha, ajeitando a gravata frente ao espelho.
— De fato, eu... tô honestamente chocado. Sabe pra onde ela foi com o grimório?
— Peraí, nenhum agente te falou que ela tá pensando em fugir do país? OK, essa é a bomba que vai te desnortear: a sua amada bruxa te largou por um bando de cadáveres que ela vai ressuscitar lá na Irlanda pra trazer de volta a convenção, só que com ela liderando como um Zaratro de saias que ela vai se tornar caso vocês não a detenham. Ela me disse com todas as letras que esse é o plano, mas tentou abafar dizendo que seria apenas uma temporada.
— Que mulherzinha mais sórdida. — disse Carrie sentada no sofá com as pernas cruzadas.
— Hoeckler, preciso que seus homens a tragam enquanto ela ainda tá a caminho de embarcar. Confere aí os voos pra Irlanda que saem nas próximas horas.
— Eu tentei contato com ela hoje cedo, mas... — disse Hoeckler, visivelmente abalado — Provalvemente ela deletou meu número.
— Tô sentindo pelo tom da sua voz que... você quer se debulhar em lágrimas. Não tem problema chorar por ser descartado feito um brinquedo. Eu também queria chorar agora. Mas tô me segurando ao máximo. Pra ser forte e enfrentar essa barra tremenda que tô passando agora.
— Está bem. — disse Hoeckler, limpando uma lágrima— Acredito em você. Podemos nos encontrar, já me recuperei da torção. O local você decide.
Frank pensou bem na escolha do ponto de encontro onde se reuniria com os agentes da ESP para um confronto moral contra Agnes que seria forçada a remover ou transferir o selo a outro corpo.
— A taverna Sol da Meia-noite, é um bar que eu costumava frequentar com meus amigos caçadores antigamente. Foi reinaugurada faz uns meses. O dono é o Todd, muito amigo meu, fala com ele, se disser que eu pedi ele libera. Como é sábado e nos fins de semana ele só abre à noite, tá livre pra gente se ver e lá darmos uma prensa na Agnes.
— E o que tem em mente?
— Adrael se voluntariou a transferência, afinal ele é um ser sagrado e o lacre do Cherno... — disse Frank, pausando a frase ao ver que o anjo, sentado num degrau na escada lhe lançou um olhar reprovador fazendo não com a cabeça — E o lacre do inominável vai se manter fechado nas duas fechaduras. Ainda bem que não precisamos de seres profanos, nunca que um demônio ou um daeva ia topar ser cobaia disso. Na realidade, se transferir pra um demônio o selo se apaga e o chefão do mal se liberta. Mas num daeva ele se torna permanente. O que seria meu caso e a melhor solução no ponto de vista daquela safada.
— Ótimo, tendo um anjo a disposição, estamos com a faca e o queijo na mão. Só precisaremos lidar com a Agnes, mas com ela tão poderosa quanto o Zaratro infelizmente não dá pra dizer que é o menor dos nossos problemas.
— Ela mencionou um lance de que pegou a magia necronomiana do Zaratro, deixando nele a magia natural, mas que tá neutralizada temporariamente. Já mandaram o velhote pra cela?
— Instalado na sala de interrogatório. Verei aqui as câmeras de segurança na casa da Agnes. — disse Hoeckler, sentado na cama e verificando no laptop o monitoramento da casa de sua ex-amada. Pela câmera da sala de estar, numa filmagem de cinco minutos atrás, podia-se ver duas malas de viagem cor creme. A bruxa passou pelo cômodo, as pegando e saindo. Hoeckler assistiu ao momento tendo a sensação de que seu coração foi esfaqueado — Ela saiu... há pouco mais de cinco minutos. — fechou os olhos, tentando suportar a decepção — Vou acionar dois agentes pra pegarem-na no aeroporto. Depois falo com seu amigo e peço a concessão do lugar.
A chamada foi encerrada e Frank logo se voltou a Carrie e Adrael.
— É isso aí, vamos esperar ele me retornar... e torcer pra encurralarem a bruxa.
— Frank, o quão mal você se sente? — indagou Carrie, levantando-se do sofá.
— Sinto como se... Olha, eu na verdade nem sei definir, é muito esquisito e assustador. Uma sensação indescritível. Parece que vou morrer ou matar alguém a qualquer momento. A TV pifou quando me aproximei, a água virou sangue quando fui beber, as plantas do meu jardim morreram quando passei perto... É como se eu tivesse me tornado uma bomba nuclear ambulante prestes a explodir e tô deixando vazar radiação pra todo canto.
— Me deixe ver a progressão do seu estado. — disse Adrael saindo da escada se aproximando do deterive. O anjo passou sua mão direita a poucos centímetros dele, seus olhos brilhando durante a inspeção.
— E então? Está muito avançado? — perguntou Carrie, tensa com as mãos juntas.
— Está gradual, mas receio que...
— Quanto tempo, doutor? — questionou Frank.
Adrael o encarou seriamente.
— Em menos de um dia. Caso não encontrem a bruxa...
— Daí vocês me trancam na cela lá no porão, ou num caixão com sigilos mágicos pra que eu não escape e jogar num rio ou eu me entrego pra ESP...
— Não, nem pensar! — disse Carrie — A Agnes não pode ser tão escorregadia. Ela ainda está na cidade. Não vou perder meu melhor amigo hoje pra um maldito câncer sobrenatural. — a assistente deixou escorrer uma lágrima.
— Valeu pelo otimismo, Carrie. Mas tá difícil acreditar num final feliz. — disse Frank, desconsolado.
***
No aeroporto internacional de Danverous City, Agnes caminhava disfarçada usando uma peruca ruiva, também trajando um vestido azul celeste decotado e com botões, carregando uma mala com rodinhas e outra de alça. A bruxa usava grandes óculos escuros, mas os baixou para visualizar dois homens, também de óculos escuros, virem na sua direção.
— Theozinho, então você quer se despedir?
Ela mudara o curso, se misturando a multidão de futuros passageiros que iam e vinham. A dupla de agentes da ESP fortaleceu o encalço, desviando das pessoas falando "com licença" várias vezes. Agnes passava entre os transeuntes, esbarrando em alguns ombros sem pedir desculpas. Ma seu desespero a cegou quanto aos outros dois que vinham a frente. Esses a agarraram discretamente pelas braços.
— Sabe... Você fica mais bonita de cabelo preto. — disse um deles.
— E esse decote não ajudou a desviar a atenção. — falou o outro.
— Alvo capturado, senhor. — avisou um dos outros dois agentes tocando na escuta.
— Me larguem, seus paspalhos. O que acha de sofrerem um derrame cerebral em público?
— O que acha de ficar quieta e vir conosco pra se despedir apropriadamente do chefe? — perguntou o outro agente, a prendendo com algemas anti-magia.
Enquanto isso, Carrie se reservava a um momento de fé na cozinha sentada à mesa. A assistente estava com as mãos unidas, a cabeça inclinada para frente e os olhos fechados. Frank a olhava da entrada não querendo perturba-la, mas sentia-se mal pela angústia que sua situação alarmante e aparentemente insolúvel provocava na amiga que tinha como uma irmã. Mas Carrie saiu de seu estado particular, olhando-o de soslaio.
— Ops, desculpa, eu... não quis te interromper, só tava... divagando aqui enquanto... via você.
— Frank, não suporto você me encarando com esse olhar triste e melancólico. Em minhas orações pedi pra que fosse salvo de todo esse tormento.
— Você me inspira, sabia? É a primeira vez que eu te vejo se abrindo a fundir sua espiritualidade com sua racionalidade. — disse Frank aproximando-se — Tem mesmo tanta fé assim pra acreditar que haja uma solução pra mim? Ou é uma solução prática ou um milagre, não pra ser os dois numa coisa só.
— Se eu inspiro, então por que não está rezando? — questionou Carrie, levantando-se — Eu sei que é difícil, mas tenta ser forte nisso. Ou esse meu exercício de fé será em vão sem que justo você use a sua. Nessa hora é tudo o que nós resta a fazer.
Frank tentou segurar as lágrimas com toda força.
— Tenho medo do que pode acontecer, Carrie. Um medo que eu jamais senti nessa vida, essa marca maldita tá querendo me ferrar psicologicamente enquanto meu corpo vai apodrecendo por dentro. É só uma questão de tempo pra... sei lá, entrar em depressão ou me matar.
— Não, por favor, para, resiste a isso. — disse Carrie, abraçando-o forte — Você é o cara mais forte que conheço. O mais forte que tive a benção de conhecer. Por mais que isso teste a sua fé, não deixa ela morrer antes da sua humanidade.
— Vai usar daquele papo manjado de que a esperança é a última que morre, né? Eu não sei se isso se aplica ao meu caso...
Frank interrompeu-se ao ver Carrie tossindo e se afastando um pouco. A tosse dela aumentara até viu gotas de sangue na mão com que cobriu a boca. Ela olhou atemorizada para o detetive que se espantou.
— Tá vendo? Nem perto de mim as pessoas podem ficar. A minha aura sombria tá causando um distúrbio, isso só tá piorando. Como se sentiu?
— Me senti fraca de repente. — disse Carrie — Me afastei mais um pouquinho e tô voltando ao normal.
— Sem abraço por enquanto ou vou acabar matando você de alguma doença incurável, um câncer em fase terminal...
Adrael vinha da sala com boas novas.
— Captei a energia espiritual do Hoeckler e de seus subordinados no local marcado. Podemos ir?
— Tá conseguindo se teletransportar de boa? É bom que esteja porque eu não posso sair lá fora correndo o risco de causar estrago por onde quer que eu passe com esse miasma exalando do meu corpo. Eu quase matei a Carrie agora há pouco.
— Efeito natural do miasma. É a progressão seguindo seu curso, tudo o que você toca ou toma proximidade se distorce, adoece ou morre. — disse o anjo — Não há um meio de parar esse processo. Mas sim, eu posso leva-los até lá, já estou recomposto.
— Quer vir? — perguntou Frank a Carrie.
— Pergunta mais óbvia. — disse ela se aproximando do anjo e o tocando no ombro — Eu tô louca pra ver a cara daquela vadia se rachando quando souber.
— Vamos lá, Adrael. — disse Frank, hesitante em tocar no anjo, mas logo o fizera com firmeza.
***
O trio foi parar no corredor dos banheiros masculino e feminino da taverna. Um agente os encontrou ali.
— Fiquem aí, vou avisar quando ela tiver entrado, assim que ela for pega sem ter como escapar, vocês vem.
— Falou. — disse Frank que resolveu tomar certa distância de Carrie.
Os agentes da ESP que vinham com Agnes sob custódia estacionaram o carro em frente a taverna.
— Tá na hora de sermos as velas desse último encontro. — disse o agente motorista, logo abrindo a porta para sair e retirar Agnes.
Hoeckler e outros quatro agentes aguardavam a entrada da bruxa. O local tivera algumas mesas afastadas para abrir espaço na execução do plano.
Enfim, a dupla de agentes que a renderam chegavam trazendo-a algemada. Um contato visual intenso entre o superintendente e a bruxa ocorreu, uma tensão de olhares que parecia querer produzir faíscas.
— Vai. — disse um agente, empurrando-a de leve.
— Olá, Agnes. — disse Hoeckler numa frieza doída.
— Theozinho...
— Não me chame assim! — retrucou ele, externando sua fúria — Não mais. Como teve coragem de fazer o que fez com o Frank? Como teve coragem de traçar planos particulares jogando fora os que tínhamos juntos?
— O destino que dei a Frank foi pelo bem maior! É o sacrifício que ele deve se permitir a fazer pra salvar sua amada cidade após tanto tempo sendo o herói. Ele quer me obrigar a desfazer algo que deve ser terminado por uma boa causa? Quem está sendo mais egoísta? Eu ou ele?
— Ao menos no que diz respeito ao Frank há uma saída de emergência pra salva-lo. Agora, quanto você... aliás, quanto a nós dois... infelizmente não. — disse Hoeckler que resolveu tirar o anel de compromisso que havia posto no lugar da aliança de casado. Agnes entristeceu o olhar ao vê-lo tomar a impactante decisão — Acabou pra gente. — disse pondo o anel sobre uma mesa.
— É dessa forma que quer conduzir nossa despedida? Ameaçando nossa relação pra me coagir a consertar o meu suposto erro?
— Não. Não é ameaça, tampouco chantagem. É o meu ultimato. Acaba quando eu disser que acabou. Esse é o preço que você carregará na consciência quando estiver embarcando para a Irlanda.
— Por favor... Eu te amo. — disse Agnes, comovida.
— Não venha com sentimentalismo barato achando que uma expressão triste e umas lágrimas vão me fazer voltar atrás. Se amasse não colocaria amigos mortos no topo da sua lista de prioridades.
A bruxa endureceu o semblante, fuzilando-o com o olhar.
— E nem vou gastar minha saliva tentando demovê-lo. — disse a bruxa que recitou um curto feitiço para derreter as algemas, fazendo-as caírem como ferro saindo da forja — Nenhum de vocês pode me prender. Minha magia está mais poderosa do que nunca, absorvi o poder de Zaratro e ainda posso me fortalecer muito mais com o Necronomicon. Sou a bruxa mais implacável deste mundo. Não sei o que mais posso querer. Lamento, mas essa é minha nova eu. E não vou me dobrar a nenhuma ameaça.
— Essa sempre foi você. — disse Hoeckler que em seguida levantou parte do tapete, revelando uma insígnia mística que tinha a função de aprisionar bruxas — Não é a única profissional na astúcia aqui.
Agnes reagiu afobada com o elemento-surpresa do ex-amado, pondo-a numa posição desvantajosa. Frank, Carrie e Adrael saíam do corredor dos banheiros. A bruxa não gostara nada de rever o rosto do detetive e o encarou raivosa.
— Vocês me pagam.
— E aí, Agnes? Que cara é essa? Parece até que foi barrada na alfândega. — disse Frank se aproximando.
— Theodor, por favor, eu suplico, o convença de que isso é um erro. Ele deve aceitar esse destino!
— Cala a boca, sua vagabunda! — disse Carrie que veio até Agnes desferir um tapa sonoro no rosto da bruxa — Eu bem que avisei pro Frank tomar cuidado ao confiar em você. E agora, como ele está? À beira da morte graças ao seu planinho diabólico. Você é um monstro obcecado por poder, nada mais e nada menos.
— Eu sou diabólica, então? Se eu sou a vilã aqui, o que Zaratro foi?
— Não põe o Zaratro no meio porque ele não tá aqui pra se defender. Ele é carta fora do baralho. — disse Frank — Eu não vou sair daqui sem você concordar em tirar a droga desse selo de mim e enquanto essa insígnia estiver intacta posso colocar uma bala anti-magia de enfeite no meio da sua cabeça, já consigo até imaginar.
Agnes olhou para todos ao redor, a agonia de ser pressionada a consumindo.
— Está bem. Como quiserem. Mas... eu não vou me responsabilizar pelo que vier a acontecer.
— Fica tranquila. Eu tenho um anjo a meu favor pra receber o selo que você vai transferir. — disse Frank.
— Um anjo? — indagou Agnes olhando para Adrael que a fitava com sua expressão séria — Nesse caso... Pode funcionar. Um ser sagrado carregando o lacre é uma opção. Tem muita sorte de tê-lo como amigo.
Hoeckler se abaixou para arranhar a insígnia com uma faca. Agnes deu passos adiante, saindo do círculo. Os agentes faziam menção de sacar suas armas, inclusive Frank.
— Peguem o grimório. Está na minha bagagem de mão. — disse Agnes, acalmando os nervos quanto a desconfiança em relação à sua palavra.
Após darem o grimório a Agnes, os agentes agruparam as mesas para improvisar uma cama onde Frank e Adrael se deixassem lado a lado para a transferência do selo. O detetive e o anjo estavam descamisados, se preparando para o procedimento.
— Dá pra ir mais depressa ou tá difícil? — indagou Carrie a Agnes.
— Desculpe, mas no que você está sendo útil aqui? — provocou Agnes que estava com o grimório sobre o balcão no lado do barman.
— Apoio moral. O que uma boa amiga se presta a fazer num momento de desespero como esse. Por acaso sabe o que significa isso?
— Aí, eu não quero ficar ouvindo bate-boca de vocês duas, podem ir parando. — advertiu Frank.
— Qual é? Quer que eu seja amiga dela? — perguntou Carrie.
— Até parece que vou querer amizade com uma reles assistente que passa o dia inteiro grudada numa cadeira vivendo de pesquisar mitos na internet.
— Ora, sua... E sobre ontem no subsolo do DPDC? Por que foi tão amigável comigo?
— Não confunda as coisas, querida. — disse a bruxa numa expressão debochada.
— O que houve? Por que a demora? — questionou Hoeckler vindo até eles.
— Já posso começar. — disse Agnes, concentrando-se — É preciso que deem as mãos.
Frank segurou a mão esquerda de Adrael com a sua direita. Ambos se entreolharam, tentando transmitir confiança um para o outro. Frank o olhou fixamente.
— Vai dar tudo certo, amigo. Você dá conta.
Agnes recitava o feitiço lentamente, proferindo cada palavra em sua devida entonação. Os olhos de Carrie, de Hoeckler e dos agentes estavam fixos no selo marcado no corpo de Frank. À medida que o feitiço avançava, o selo apagava-se gradualmente da pele do abdômen do detetive e simultaneamente desenhava-se no corpo de Adrael no mesmo ponto.
As mãos de ambos, unidas, estavam firmes, apertando uma a outra durante a transferência. O selo enfim traçou-se por completo no anjo.
— Acabou? — indagou Frank — E aí, Adrael?
— Um leve incômodo, mas nada que eu não possa aguentar. E você?
— Tô me sentindo... como se tivesse saído de uma cabine de descontaminação. Já pode soltar minha mão, tá? A não ser que queira quebrar meus ossos.
— Ah, desculpe. — disse o anjo, soltando sua mão da de Frank. Se ergueram, ficando sentados.
— Bem, caso encerrado. — disse Frank, aliviado — Chernobog vai ficar na prisão perpétua.
No entanto, Adrael queixou-se de uma dor súbita, gemendo alto. Frank virou o rosto para ele, a aflição retornando. Carrie e os outros se alarmaram, estremecidos com a reação adversa.
Ficaram todos estarrecidos ao verem o selo ir desaparecendo do corpo de Adrael até não sobrar uma cicatriz. Agnes encarava atônita o resultado.
— Mas... Mas que merda foi essa? — perguntou Frank — Não dá pra entender! Era pra ter se fixado...
— Não olhem pra mim, estou tão confusa quanto vocês. Eu recitei o feitiço corretamente! — salientou Agnes contra qualquer acusação que fizessem.
— Não sabe o que deu errado? Aonde foi parar o selo? — questionou Carrie.
— Eu creio que... ele já não exista mais. — disse Agnes, tentando conter seu nervosismo.
— Isso significa que... — disse Hoeckler.
Um intenso e súbito terremoto ocorrera, sacudindo a taverna e fazendo bastante pó cair do teto. O sismo durou alguns segundos, mas o suficiente para acender o alerta vermelho em todos ali presentes.
— Isso é um mau sinal? — indagou um agente.
— Péssimo sinal. — respondeu Hoeckler.
— Meu Deus... Não pode ser. — disse Frank, perplexo — Acho que sei porque o selo foi rompido. Eu confiei que pudesse funcionar por Adrael ser um anjo, um ser sagrado, mas... Eu esqueci de considerar que ele foi banido do mundo celestial.
— Essa é a explicação. — disse Adrael — O meu banimento anulou minha sacralidade. Eu sinto muito, Frank.
— Chefe, dá uma olhada. — disse um agente mostrando alvo no tablet. Hoeckler passou a mão no rosto indicando sua preocupação crescente.
— O Relógio do Juízo Final... A última chama se reduziu a uma brasa. — disse ele olhando para todos — Estamos a um segundo do começo do fim.
Um trovão retumbou continuamente. Frank vestiu sua camisa branca, o sobretudo e atou sua gravata, indo com Carrie para fora da taverna conferir o que estava havendo. Correram olhando para cima e pararam. Em vez de nuvens carregadas, uma revoada numerosa de pássaros cruzavam os céus.
— Nunca vi tanto pássaro voando junto assim...— disse Frank à direita da assistente.
— Estão fugindo. Uma boa hora de migrar pra bem longe daqui.
— Tá sentindo isso?
— Aham. O chão tá vibrando sob nossos pés. — disse Carrie, amedrontada — O que vai acontecer conosco?
No movimentado centro da cidade, um pulso de vibração disparou se espalhando em larga escala por todo o território. Ao chegar na zona norte a uma velocidade perturbadora, a onda passou por Frank e Carrie como um vento forte que resultou num arrepio forte em ambos. Após se estender aos limites, a onda precedeu um inesperado fenômeno de anomalia gravitacional. Todos os habitantes de Danverous City, incluindo objetos, sobretudo carros e outros veículos, flutuaram no ar como se estivessem em gravidade zero.
— Frank, me segura! — berrou Carrie subindo a alguns metros do chão. O detetive tentou esticar sua mão direita para pega-la — Me segura! Eu tenho medo de altura, me segura!
Frank conseguiu alcança-la, a agarrando com ele. A gravidade subitamente se restabeleceu, levando todos ao chão. A dupla caiu, mas foi Frank quem sentiu o impacto da queda, logo nas costas.
— Você tá bem? — indagou Carrie.
— Um gelinho nas costas e passa. — disse Frank, levantando. Hoeckler, Adrael e alguns agentes trazendo Agnes vieram até eles.
— Estão bem? Aquilo foi uma anomalia gravitacional, nossos sensores na sede detectaram o marco zero do pulso eletromagnético no centro da cidade. — disse Hoeckler — Temos que soar o alerta geral.
— Pra quê exatamente? Causar pânico generalizado? — perguntou Carrie.
— Evacuação imediata. A prisão da entidade está emergindo, os tremores não vão cessar... até que Danverous City seja completamente destruída.
— Mas e no resto do mundo? — quis saber Frank.
— O tremor, o pulso e a anomalia gravitacional... ocorreram apenas no território da cidade. — disse Hoeckler, seriamente.
— Peraí, quando ouvi dizer que o Chernobog foi aprisionado a mais de sete palmos abaixo da terra... — disse Frank, compreendendo — ... não imaginava que fosse aqui abaixo da cidade. Agora tudo faz sentido. A falha geológica... foi ele esse tempo todo, o Chernobog tava abrindo um portal pro submundo a medida que causava mais terremotos. Agora que ele se libertou, a falha vai completar seu ciclo e... Ah, meu Deus...
— Frank, calma, nem tudo está perdido. — disse Carrie tentando tranquiliza-lo — Os anjos... os ofanins podem ser o nosso último recurso, eles talvez consigam prende-lo novamente, criar outro selo.
— Não enquanto ele está vindo. — disse Adrael — Há muito tempo, nos tempos da criação, os ofanins selaram o Grande Mal numa prisão esférica feita de uma rocha extremamente resistente que existe apenas no mundo celestial. Tão resistente que nem a maior arma de destruição humana conseguiria obliterar. Ainda assim, Chernobog é capaz de danifica-la, a sua fúria é imparável. Ele foi selado aqui mesmo, no território que hoje vocês conhecem como esta cidade.
— O que faremos agora, chefe? — perguntou um agente.
— Vocês dois levem a Agnes de volta ao aeroporto. O voo deve ter atrasado em decorrência do terremoto. O restante acione todos os batalhões para o protocolo de remanejamento. Por ora, isso é tudo. Hoje vamos nos desdobrar como nunca, rapazes.
— Theodor. — chamou Agnes antes que fosse levada de volta ao carro — Quero que saiba... que eu o amei de verdade. O único que amei.
— Adeus, Agnes. Foi bom enquanto terminou. — disse Hoeckler, convicto de sua decisão. A bruxa o olhou tristemente, logo sendo conduzida até o carro pelos agentes.
Adrael ouviu em sua mente um chamado emergente.
— Adrael, o que foi? — indagou Frank.
— Ouço a voz de Ethrea me chamando. Parece estar pedindo por ajuda. Pelo tom dela, deve ser grave. Tenho que ir.
— Peraí, Adrael, não vai... — disse Frank tentando avisa-lo de que poderia ser um chamariz ardiloso — Lá se foi minha carona pra casa. E agora? Tenho que voltar antes do próximo tremor.
— Vou solicitar uma van agora mesmo. — disse Hoeckler sacando o celular.
***
Já de volta a sua casa, Frank estava do lado de fora com Hoeckler acompanhando um grupo de agentes retirarem os itens do museu sobrenatural do detetive antes armazenados no porão.
— Valeu pela iniciativa aí de migrar meus tesouros pra sede da fundação.
— Disponha. Mas não irão para a sede, ela será desativada. O protocolo de remanejamento consiste em transferir os prisioneiros para a sede-reserva em Los Angeles, inclusive é pra lá que seus artefatos vão.
— Vocês tem uma base de reserva em Los Angeles? Gostei. Sempre quis fazer morada fixa lá, mas os preços de aluguel fazem você se sentir abaixo da linha da pobreza. — disse Frank olhando os agentes levarem seus pertences peculiares — Ei, cuidado com isso aí que é muito frágil hein. — advertiu a eles.
— É um bunker de segurança máxima para situações de extremo perigo... como essa. — disse Hoeckler olhando-o — Como se sente sabendo que sua cidade ficará inabitável com a vinda do monstro mais antigo e terrível que existe?
— Tentando me conformar. O tanto que eu lutei, o tanto que eu sacrifiquei... Não, eu não devia ficar nesse clima de derrota, achando que foi tudo em vão. Valeu a pena. Enquanto durou, valeu a pena.
— Preciso fazer uma gravação. Um pronunciamento a todos os meus funcionários, tanto da ESP quanto do DPDC. — disse Hoeckler.
— E eu... vou ligar pra alguém especial. Nunca se sabe quando será a última vez que você falará com uma pessoa de quem gosta. — determinou Frank — Te vejo depois. Me avisa quando tiverem esvaziado lá o porão. — encaminhou-se a sua casa.
O detetive foi para o seu quarto onde sentou na lateral da cama com o celular na mão. Acessou a lista de contatos, descendo para encontrar o número para o qual pretendia ligar. Parou o dedo na tela ao ver "Mãe" acima do número de telefone.
Enquanto isso, Hoeckler iniciava a gravação de vídeo dentro da van, a câmera acoplada a um tripé médio.
— Vim por livre e espontânea vontade enviar uma mensagem de reflexão a todos os meus empregados. Quero estejam plenamente cientes, desde já, de que o mundo passará por uma transformação radical muito em breve. O mundo que conhecemos deixará de existir. Atenção: o mundo que conhecemos desde que nascemos. Uma calamidade sem precedentes irá afetar o planeta a níveis incontroláveis. O único desejo que faço a vocês é... sobrevivam. Mas antes de exercermos nosso instinto de autopreservação no limite, devemos pensar naqueles que amamos, estejam próximos ou distantes. Pessoas que queremos manter por perto mesmo nas piores tempestades, não importa qual seja.
Frank ainda tentava decidir se ligava ou não para a mãe, a incerteza o torturando. O detetive estava sentado com as costas na cabeceira olhando um álbum de fotografias antigas da sua infância. Hoeckler prosseguia em seu manifesto.
— Agora mais do que nunca todos devem persistir em provar que amam seus parentes e amigos... para evitar lamentações de não ter aproveitado o bastante. Liguem hoje, falem hoje, sintam hoje, vivam hoje... porque o amanhã nos foi roubado. Se é que um dia o tivemos em todo nosso poder. Mas seja o futuro o que for, mantenham-se apaixonados pela vida. Só temos ela como a única chance de fazer valer a pena. Enquanto o sol estiver brilhando... nós seguiremos unidos como uma imensa família.
Frank resolveu logo apertar no ícone verde. Heather prontamente atendeu.
— Alô?
— Mãe? Aqui é o Frank. Desculpa se eu tiver interrompido a senhora com alguma coisa...
— Frank, meu filho, como está por aí? Tinha visto uma noticia sobre um terremoto. Como se não bastasse, outra notícia urgente, mas essa avisando de um fenômeno estranho que fez os carros e as pessoas flutuarem como se estivessem num módulo lunar.
— Tá acontecendo muita coisa sinistra ao meu redor, não tenho tempo de explicar pra senhora. Mas posso resumir numa só frase: vai acontecer uma coisa terrível com a cidade daqui há poucas horas. Sabe aquele super terremoto que os cientistas previram? O Big One? É hoje, mãe.
— Meu Deus... Você falando assim, não consigo imaginar que seja um engano. Mas... pra você estar tão assustado, logo você, um caçador corajoso como o seu pai, deve haver algum tipo de força agindo por trás desses fenômenos. Não é?
— É, mãe. Não posso desperdiçar meu tempo e o da senhora explicando, isso foge a compreensão humana mais do que qualquer outro monstro que já enfrentei. Pra confessar, eu realmente tô com medo, medo do que vai vir disso. Olha... eu tô de mudança pra Los Angeles com uns amigos. Mas se eu não conseguir fugir da cidade a tempo, ao menos terei cumprido minha missão, mesmo tendo falhado com a cidade.
— Não diga isso. Você é um herói, filho. Quantas vidas salvou e transformou... Seu pai está orgulhoso de você, tem honrado o legado com dignidade, não pode viver se culpando se fez uma escolha difícil. Não vou pedir que prometa, eu sei que virá me ver depois que isso acabar.
— Talvez, eu não sei. — disse Frank, o rosto encharcado de lágrimas — Mas fica tranquila, o seu garotão aqui vai dar um jeito de sair vivo. Pra encerrar, eu só queria dizer que eu...
Um novo e súbito terremoto ocorrera, fazendo a ligação cair abruptamente. O tremor chacoalhava a casa, provocando rachaduras consideráveis nas paredes e no teto. Frank se enfiou para debaixo da cama, sentindo-se uma criança medrosa temendo um monstro vindo lhe devorar. Alguns pedaços do forro caíram em peso. O detetive tentou novamente contato com a mãe, mas ao que indicava a cobertura de sua operadora havia sido desligada.
Enquanto isso, o avião no qual Agnes estava a bordo tinha acabado de decolar, a tempo de escapar da fúria do tremor. Da janela, ela observou o alarido abaixo, um alvoroço desesperado de pessoas vítimas do terror que mais um terremoto em escala absurda causava. Pelo sistema de entretenimento de bordo, a bruxa sintonizou o canal de notícias. No momento, um plantão ao vivo exibia um pronunciamento oficial de um general de reserva que estava num bunker de proteção militar em Los Angeles.
O general ditava medidas cautelares, determinando que se a falha atingir uma larga extensão da cidade partindo de Danverous City emitirá uma ordem de evacuação geral em comum acordo com a prefeitura.
Dentro da van, Hoeckler estava antenado a todos os canais de TV que interrompiam suas programações regulares para alertar a população quanto aos sismos e a escala agravante a que chegaram. A porta estava aberta e Frank veio se aproximando. O superintendente ligara para Giuseppe.
— Que idiotice é essa de esperar um novo tremor para decidir se oficializará um alerta de evacuação?
— É uma conjuntura desagradável, eu sei, mas nada podemos fazer, o martelo foi batido pelos prefeitos de Danverous City e Los Angeles. Até segunda ordem, ninguém está autorizado a sair da cidade pra fugir dos tremores. — disse Giuseppe na sua sala particular no DPDC.
— Ligue pro general Stanford agora mesmo, tente convence-lo a alertar o prefeito da catástrofe que vai acontecer em poucas horas! O que esses imbecis querem? Montanhas de cadáveres entre os escombros?
— Não tem como, superintendente! Impossível depois do aval do próprio presidente.
— Com a benção do presidente, eles aceitam prosseguir nessa diretriz que só vai favorecer mais vítimas fatais quando a sequência de tremores chegar no ápice. Eu não admito isso.
— Eu vou tentar. Mas pensa com a cabeça deles, pelo menos por um instante. Não acham que diante dos dois primeiros tremores, mesmo com aquela loucura de gravidade zero que tá deixando a mídia aterrorizada, já anunciando o fim dos tempos, uma ordem de evacuação deve ser emitida, julgam ser uma ação precipitada.
— Esperar é um erro que pode custar centenas de vidas e essa conta vai bater na porta desses miseráveis que se acham donos das vidas das pessoas! — disse Hoeckler, colérico — Eu não vou obedecer ordem de aguardo nenhuma. Se tivermos que sair agora, sairemos, nem que tenhamos que passar por cima das barricadas. — fez uma pausa, respirando fundo — Eu tô organizando uma fuga para Los Angeles, a comunidade de sismologia garante que a falha da cidade e nem a de San Andreas serão afetadas. Os tremores e suas consequências se restringem apenas ao território de Danverous City e cidades fronteiriças. Você devia vir conosco. Frank também virá, estamos em frente a casa dele, é o nosso ponto de encontro para partirmos até a base aérea onde o piloto irá nos esperar pra embarcamos no meu jatinho.
— Tudo bem, me adiciona na lista. Que Deus nos proteja. — disse Giuseppe logo encerrando a chamada.
— Vai com calma. — disse Frank — O estresse mata.
— Temos menos de quarenta minutos até o próximo tremor, isso se o intervalo entre o primeiro e o segundo for o padrão. Ou Chernobog irá brincar com nossos medos, agindo como um psicopata imprevisível. — disse Hoeckler, a beira de um descontrole — Mas que merda! — jogou o celular na parede da van.
Frank reparou em seu carro fora da garagem e assoviou pra um agente que passava de volta pra sua casa para ajudar nas últimas peças a serem retiradas.
— Ei, amigo. Será que pode remover a placa do meu carro? Obviamente não vai dar pra leva-lo... Só pra guardar de lembrança.
O agente aquiesceu.
— Não fez suas malas ainda? — indagou Hoeckler.
— Tá difícil desapegar. Morei por uns nove anos, desde que vim me instalar aqui na cidade, saindo da casa da minha mãe em Vandeville, após ser admitido no DPDC. — disse Frank olhando para a fachada branca da residência suburbana — A saudade que vou sentir disso tudo aqui... não cabe no peito.
***
Departamento Policial de Danverous City
Carrie adentrava apressadamente na sala de Giuseppe após se inteirar das últimas informações.
— Diretor, como tá se sentindo nesse caos apocalíptico? Eu tô a beira de enlouquecer. Medo do próximo tremor.
— E veio aqui buscar refúgio? Não devia estar em casa fazendo as malas?
— Eu queria ver como a situação estava por aqui e... também ver o senhor. Passei em casa pra arrumar as coisas, estão no meu carro, eu tava de rota pra casa do Frank, mas deu o segundo tremor e lembrei daqui...
— Está bem, está bem, sem problema. O superintendente planeja fugir da cidade com Frank e os agentes da organização secreta dele pra Los Angeles num jatinho particular. Fui incluso. Se quiser vir também....
— Se eu quiser vir? Eu preciso ir! Aquele miserável nem mencionou meu nome?!
— Não acha que devia ter mais respeito se referindo a ele? É nosso superior...
— Era! Não existirá mais Danverous City, portanto não haverá mais DPDC e sendo assim ele não será mais nosso chefe. Estamos no mesmo barco. Ele deve estar se achando Noé preparando a arca com os animais pra sobreviver ao dilúvio, mas nesse contexto não existe ninguém sobre ninguém. Nenhuma vida vale mais ou menos que a outra.
Um novo terremoto, de intensidade mais elevada, veio sacudindo o prédio violentamente.
— Se abaixa! — gritou Carrie se arrastando para baixo da mesa de Giuseppe. O diretor se agachou com as mãos na cabeça, sob o risco de alguns pedaço do teto forrado cair sobre ele. Aquele sismo havia sido mais prolongado – Meu Deus, será que não acaba?
A janela da sala quebrara-se. Ambos tiveram a sensação de que o prédio iria demolir integralmente. Com o cessar do tremor, Carrie saía debaixo da mesa, as mãos trêmulas e as pernas bambas.
— Esse foi o maior até agora, sem dúvida. — disse Giuseppe levantando-se.
— E só vai piorar. — disse Carrie se apoiando nele — Eu não era a favor de avisar a população pra fugir, mas... se o exército ou o presidente continuar se negando a evacuar a cidade, eu vou ser a primeira a protestar.
— Tem razão, isso tudo já foi muito além de uma simples ocasião de terremoto pra apenas manter as pessoas reféns em suas casas com falsas esperanças. — disse Giuseppe — Vamos a sala de controle. O primeiro lugar da cidade a ser evacuado... será o DPDC.
A dupla se dirigiu a sala de controle e monitoramento. Giuseppe dispensou o profissional responsável, assumindo o alto-falante. O diretor aproximou sua boca ao microfone.
— Atenção, todos os funcionários, sem exceção, aqui quem fala é Giuseppe Aristone, diretor operacional, e na ausência do superintendente Hoeckler, eu proclamo as ordens de procedimento! Aviso que abandonem o prédio imediatamente! Repito: abandonem o prédio imediatamente! Estamos vivenciando uma calamidade pública fora dos padrões! A cidade sofrerá com um terremoto muito mais devastador do que se pressupõe nas próximas horas, um megassismo cataclísmico! Salvem suas vidas, fujam pra qualquer cidade californiana que esteja fora da zona de perigo crítico!
Apertou um botão no painel para repetir as mensagem incontáveis vezes.
— Não acha que foi alarmista demais? — perguntou Carrie — Só faltou dizer que o fim está próximo.
— E não está? — disse ele olhando-a severamente.
Na zona norte, Frank e Hoeckler haviam se protegido na van. Ao sair, o detetive se deparou com os agentes cansados e sua casa exteriormente destruída, além de graves rachaduras no asfalto da rua. Mas nada se comparou a observar as pessoas da vizinhança desesperadamente abandonando suas casas com o alerta oficial emitido pela prefeitura e forças armadas. A angústia que a cena causava partia o coração de Frank que assistia tudo com tristeza.
— Frank. — chamou Hoeckler saindo do veículo — Giuseppe acabou de ligar. Está vindo com Carrie pra cá.
— Ah, agora se lembrou da Carrie. Eu tava quase pensando que ia excluir ela do nosso bonde da fuga.
— O despacho foi encerrado. — informou Hoeckler — A sede foi completamente desativada. E os seus pertences todos levados no helicóptero direto pra base-reserva. — olhou para os quatro agentes que sobraram ali — Bom trabalho, rapazes. Esperem mais dois passageiros do nosso voo chegarem.
— Mas e a esposa do Giuseppe? — perguntou Frank.
— Está de viagem para visitar a família no Canadá.
— E a sua? Não se despediu dela?
— Já me despedi há duas semanas. Ela fugiu com nossa filha, Madeleine, obcecada em possuir a guarda unilateral após o divórcio.
— A cidade vai pro buraco, mas nossos problemas não. — disse Frank — Ainda tem o Adrael...
— O que tem ele? É um anjo, está com seus plenos poderes, é com ele que você menos devia se preocupar.
— Ele disse ter recebido um chamado da Ethrea, mas... Tô com um mau pressentimento, tá me cheirando a cilada.
— Talvez devesse se preocupar em fazer suas malas. O próximo tremor pode ser o último... e o mais catastrófico.
***
O pedido de ajuda emitido por Ethrea vinha do museu de história natural conforme captado por Adrael que estava lá à procura da irmã pelo amplo saguão de piso em ladrilhos marrons e lisos. O lugar estava fechado e as escuras por conta do blecaute geral na cidade decorrente dos sucessivos terremotos, restando as aparelhadas e tímidas luzes de emergência nas paredes.
— Ethrea! — chamou ele em voz alta — Veio daqui, não posso ter errado. — salientou reduzindo o tom — Tem alguém aqui? Olá!
— Adrael... — disse uma discreta presença vinda da escuridão na dobra para um corredor. A voz não poderia ser mais familiar. O serafim banido se aproximou — Não, não venha. Fique onde está.
— Ethrea... Tudo bem, venha você então.
A primeira-tenente do batalhão de serafins deu passos relutantes adiante e ficou mais exposta a luz.
— Por que demorou tanto a me encontrar? — indagou Adrael, estranhando a expressão dela — Você parece nervosa. Qual o motivo de me chamar? Vamos, fale!
— Ele. — respondeu Ethrea antes de um robusto vulto vir detrás dela que se esclareceu logo. Adrael não pôde esconder seu pasmo ao ver quem era.
— Raguel. — disse ele em tensão crescente — Me traiu outra vez, Ethrea! E o nosso acordo?
— Eu sinto muito. — disse Ethrea, a face lamentosa — Não tive escolha. Seria uma humilhação comparecer a julgamento banida diante dos meus soldados.
— Ela preferiu se manter no pedestal a compartir o mesmo estado que o seu no banco dos réus. — disse Raguel — A obriguei que o chamasse e não poderia ter sido mais fácil com uma relação antes estremecida, depois restaurada... e agora estremecida de novo.
— O que há com você, Raguel? Está a usando como refém. Qual o objetivo disso? Nos punir? Vá em frente, execute a pena de morte aqui mesmo!
— Meu papel é leva-los a corte celestial. — disse Raguel engrossando seu tom — O seu erro enquanto banido foi usar seus poderes temporários indiscriminadamente. O dela foi acobertar esse fato diante de mim!
— Não acho que seja uma hora apropriada pra discutir nossos crimes. Está tudo desmoronando. Não vejo nada além de desespero e agonia. Nem Sodoma e Gomorra sofreram tanto quanto o que esta cidade sofrerá daqui há pouco. Esperava mais clemência e sensatez da sua parte, mas vejo que está disposto a nos tomar como seus prisioneiros.
— É a minha prerrogativa. — afirmou o ofanim.
— Da qual está claramente abusando. — confrontou Adrael — Se quiser levar alguém, que seja eu. Eu sugeri o acordo. Mas Ethrea antes me confessou ter me induzido ao erro usando um subordinado.
— Uma atitude nobre que eu deixaria passar, mas você resolveu ocultar a existência da sua graça recuperada e precisava de alguém a quem dissuadir para manter o sigilo inquebrável. Vai me desmentir? Dizer que não ameaçou entrega-la e entregar a si mesmo caso ela recusasse? Veja só onde estamos. Eu senti uma energia celestial diferente ao lado dela no submundo, ainda com estava com Thaumiel me recompondo após perdermos Laylah. Mas decidi não averiguar, eu descobriria mais cedo ou mais tarde.
— Adrael, fuja. — pediu Ethrea. Porém, Raguel atravessou sua mão pelas costas dela fazendo-a sentir a dor excruciante que um banimento causava. As asas da serafim se abriram, as penas luminosas sendo queimadas das pontas as costas.
— Ethrea! — gritou Adrael, chocado ao vê-la sofrer aquele doloroso processo. Raguel a empurrou após finalizar. A serafim correu aos braços do irmão — Raguel, por que? Você não é assim!
— Então nunca me conheceu verdadeiramente. Nenhum de vocês, serafins medíocres.
— Nem mesmo eu. — disse Haziel aparecendo ali entre o irmão e os dois banidos — Chega, irmão. O seu radicalismo não vai passar da minha espada e se preciso eu a usarei para defender até a morte essas almas que você condenou de forma autocrática.
— Saia da frente, Haziel. Não estamos em um momento adequado pra uma luta. O Grande Mal está se reerguendo, mas ainda preciso cumprir meu dever.
— Não esse. Assumo a causa deles a partir de agora. Vou leva-los a corte pessoalmente.
— Quer mesmo competir comigo em termos de eficiência no trabalho?
— Não, meu caro irmão, quero evitar que atue como júri, juiz e executor. Eu não o deixarei fazer deles o que bem entender. — disse Haziel, logo sacando sua espada. Logo surgiu Thaumiel ao lado de outro ofanim chamado Salatiel. Ambos sacaram suas espadas, brandindo-a contra Haziel.
— Você e mais quem? — perguntou Raguel com um sorriso infame.
Enquanto isso, Frank arrumava as malas numa corrida frenética para salvar-se e voltar para a van rapidamente. Carrie e Giuseppe chegavam, enfim.
— Cadê o Frank? — perguntou ela ao sair do veículo. Giuseppe estava no banco do carona e já saía também.
— Lá dentro arrumando as malas. — informou Hoeckler — Como andam as coisas pela cidade?
— Ainda pergunta? Tá tudo um verdadeiro caos! Todos enlouqueceram com o anúncio de evacuação. — disse Carrie — Mas fomos nós que começamos lá no DPDC, o prédio foi desocupado totalmente.
— Verdade, a cidade virou de ponta a cabeça. Estão saqueando lojas a torto e a direito, uma completa histeria. — disse Giuseppe.
— Vamos, Frank... — disse Hoeckler olhando para a casa do detetive temendo surtar tamanha sua impaciência — Nosso tempo tá se esgotando.
— Senhor, leitura dos sensores na fenda interna. — disse um agente trazendo um tablet com uma visão virtual do ciclo da falha geológica — Nada bom. — entregou o aparelho. Hoeckler visualizou a tela.
— O que foi dessa vez? — indagou Carrie.
— O ciclo de abertura da fenda interna está se completando em sentido horário. — disse Hoeckler, olhando-os — É um outro relógio do juízo final faltando pouco para marcar meia-noite.
— Se isso ocorrer... — disse Giuseppe esperando a resposta mais aterradora.
— Danverous City vai cair. Literalmente. — aviso Hoeckler.
Um novo tremor intensificado começava fazendo todos perderem o equilíbrio. Na sua casa, Frank carregava suas duas malas para fora do quarto com esforço hercúleo na tentativa de de apressar em sair dali no meio daquele terremoto de magnitude acima dos limites da escala Ritcher. O solo abaixo da casa começava a ceder e se inclinar para o lado.
— Frank! — disse Carrie tomada pela aflição e medo ao ver a casa em perigo de ser engolida pela terra junto com Frank — Alguém tira ele de lá, por favor!
Hoeckler a agarrou a fim de impedi-la de arriscar um salvamento, tentando leva-lá para a van.
— Me larga! Temos que esperar ele sair!
— Não dá mais tempo! Ele já era! Vamos, depressa!
Carrie virou-se dando uma forte bofetada no rosto de Hoeckler, surpreendendo os demais. A assistente o agarrou pela gravata vermelha.
— Escuta aqui! Não vamos sair daqui sem ele nem por um decreto! Ouviu bem? — vociferou Carrie numa cólera que deixara Hoeckler perplexo — Que inferno!
Frank descia a escada, sentindo que a casa inclinaria mais a qualquer momento. Para a sua infelicidade, parte do teto cedeu em peso logo próximo da porta, bloqueando sua passagem.
— Ah, não, não, não... Cacete! — xingou furiosamente.
Tentou a fuga pelo quintal, mas se deparou com o chão cedendo assustadoramente.
— Meu Deus! — disse ele, correndo de volta. Mas ao passar pela cozinha, um pedaço grande do teto caiu sobre ele o derrubando. Um incêndio tivera início. Tocando na cabeça ferida e vendo sangue nos dedos, o detetive lutava arduamente para sair de cima daquela parte do teto que lhe pesava mais do que suportava — Desculpa, mãe. — disse, desistindo de tentar, caindo no choro — Desculpa não ter sido forte o bastante. Eu tentei. Falhei com todo mundo!
— Vai ficar aí se lamentando? — indagou um agente descendo do buraco enorme do teto, logo erguendo com as duas mãos o concreto com o forro e o jogando com toda sua força. Deu sua mão para levantar Frank — Se você falhou em alguma coisa hoje, com certeza foi em não ter ido arrumar as malas mais cedo.
Outro agente veio acima da casa, recebendo as malas. O tremor contínuo, embora mais amenizado, fizera a casa se inclinar mais. A geladeira vinha de encontro a Frank deslizando para atingi-lo. O agente que o salvara subiu de volta e deu a mão para tira-lo. Frank se apoiou na mesa e foi deu sua mão direita, sendo puxado antes que o refrigerador batesse nele.
O agente que pegara as malas as jogou dentro da van. Irrompendo da forte poeira, Frank e seu resgatador corriam diretamente ao veículo enquanto o tremor oscilava na intensidade. O detetive foi ao abraço apertado com Carrie.
— Achei que fosse te perder. — disse ela.
— Desculpa demorar. — disse ele.
— Entrem, entrem! — disse Hoeckler segurando uma porta da traseira da van. Carrie entrou antes de Frank que foi parado pelo chefe da ESP — Fico feliz que tenha saído vivo. Por um momento pensei que tivesse sido engolido pra debaixo da terra. Carrie quis ir salvá-lo, mas impedi e... Honestamente, eu nunca vi ela tão irritada antes e não quero ver de novo.
Frank sorriu fracamente como se quisesse rir. Entrou no veículo que teve as portas traseira fechadas por Hoeckler logo em seguida. A extensão destrutiva do terremoto aumentava com várias residências da zona cedendo sucessivamente. A van deu partida e saiu a toda velocidade para escapar de cair do asfalto que desabava.
No museu, que desmoronava pouco a pouco, os irmãos ofanins mantinham-se irredutíveis em suas posições. Haziel olhou para Adrael e Ethrea por cima do ombro.
— Fujam. — disse ele ao que os dois acataram, correndo de mãos dadas. Voltou-se a Raguel — Como quer resolver esse impasse, irmão?
— Não os deixem escapar. — ordenou Raguel. Porém, Haziel os advertiu ao acender a luz dourada de sua espada. Thaumiel e Salatiel fizeram o mesmo. Raguel sacara a sua, também iluminando-a, os irmãos apontando um para o outro — Não me propus a lutar. Mas se me atacar ou ataca-los, não terei opção a não ser combatê-lo.
— O que deve ser combatido entre nós é essa sua hostilidade perseguidora. — acusou Haziel — Você tem uma perspectiva bem deturpada de hierarquia.
— Basta! Deixou aqueles dois escaparem para morrerem no meio da destruição. Terá me poupado.
— Então pretendia mata-los? Você ensandeceu. Não é a toa que sempre o achei mais condescendente aos querubins, os seus favoritos.
— Eram guerreiros honrados e disciplinados até Azrael cair.
— E você manteve essa visão mesmo depois disso. — rebateu Haziel — Nosso Pai ficaria decepcionado em nos ver duelando.
— Certo. Em uma coisa pelo menos concordamos. — disse Raquel que estalou os dedos, desaparecendo num piscar de olhos junto aos outros dois. Haziel olhou para cima enquanto o museu seguia ruindo.
— Pai, nos dê forças para vencermos essa guerra. Tempos sombrios estão se aproximando desse mundo novamente.
***
Los Angeles
Dois agentes se encarregaram de conduzir Zaratro até a cela reservada especialmente a ele na base-reserva. O bruxo estava com os pulsos atados por algemas anti-magia, sendo agarrado pelos braços pela dupla de robustos soldados da ESP.
Passando pelo corredor tal qual um criminoso que acabara de aportar numa penitenciária, Zaratro olhava as portas das celas que possuíam cada uma janelas retangulares bem menores que as da abandonada sede subterrânea. De repente, sentiu algo que eriçou os pelos do seu corpo. Mas um arrepio estranhamente aprazível que lhe dizia a boa notícia que tanto esperou receber.
O bruxo começara a rir de forma contida.
— Qual é a graça, idiota? — perguntou um dos agentes.
— Ele chegou. — disse Zaratro com um sorriso medonho para o agente que ficara tenso com a expressão insana que ele fazia. Zaratro permaneceu rindo ao longo do corredor, comemorando a vitória.
***
Danverous City vivenciava o dia mais horripilante de sua história desde que fora fundada em 1954.
Pelas ruas, a devastação corria solta com prédios ruindo, carros sucumbindo a terra que cedia, além de algumas vivas que ainda estavam correndo para salvarem suas vidas.
— Que horror. — disse Carrie aos prantos, olhando pela janela da van sua amada cidade se extinguir dramaticamente. Frank a tocou na perna, depois na mão, fazendo uma troca de olhares tristonhos e chorosos.
O agente que diria a van viu algo que atraiu sua atenção no meio daquele caos destruidor.
— Senhor, olha ali! Aqueles não são... os anjos?
Hoeckler viu pela janela e constatou serem Adrael e Ethrea correndo de mãos dadas.
— É o Adrael. E a namoradinha dele, a Ethrea. Mas... o que estão fazendo no meio desse desastre?
— Para o carro! — pediu Frank.
— O quê? Não podemos parar, temos menos de trinta minutos!
— Sempre cabem mais dois! Para essa van!
Hoeckler repassou o pedido ao motorista que acatou. Frank abriu a porta lateral deslizante e chamou por eles.
— Adrael! Ethrea! Venham!
— Frank está ali, estão... nos chamando pra fugir com eles.
— Vá. — disse Ethrea — Não há mais razão pra me ter por perto. Já estou condenada a morte certa. Já aceitei meu destino.
— Ethrea... Tem certeza? — indagou Adrael, emocionado com a decisão da irmã.
— Absoluta. Vá e os tire daqui. Mereço ter o direito de decidir como minha história vai acabar.
— Adeus, minha irmã. — disse Adrael hesitando em deixa-la. Correu sem olhar para trás. Um prédio veio desabando sobre a centuriã que se entregou a morte.
O chão cedia mais e mais, ameaçando alcançar a van e leva-la para baixo. Adrael entrou no veículo.
— Toquem em mim, todos vocês. Primeiro você. — disse a Hoeckler — Pra que eu possa saber aonde vão. Mas não posso me deslocar pra muito longe.
— Vamos pra base aérea então. — disse Hoeckler tocando no anjo. Frank o fez em seguida. Depois Carrie, Giuseppe e os agentes. Adrael os tirara dali poucos segundos antes da terra vir abaixo sobre a van, devorando-a no abismo.
Chegando na base aérea, embarcaram todos no jato particular de Hoeckler que acionou seu piloto. A aeronave decolou antes de todo o espaço ser vítima da queda assombrosa de todo o solo. Voando pela cidade em pleno ápice de destruição, chegando a desviar de um viaduto partido em dois que caía, a aeronave seguia rodeada pela hecatombe.
Frank observava pela janela a sua querida cidade dizer adeus em um desfecho traumático de era.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://www.tempo.com/noticias/actualidade/o-relogio-do-juizo-final-esta-a-90-segundos-da-catastrofe-global-apocalipse.html
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