— Segurem-se firme todos! — avisou o piloto em tom emergencial. Forçou o controle do jatinho para cima quando um viaduto se partindo estava prestes a colidir naquela altitude. O grupo inteiro se prendeu aos cintos de segurança na subida brusca e arriscada. Por um triz, a aeronave não sofreu um arranhão. Carrie podia ouvir gritos alvoroçados distantes abaixo e se angustiava com cada voz clamando por socorro.
— Todo mundo bem? — indagou Hoeckler olhando para trás por cima do ombro estando uns assentos a frente do resto. Carrie o olhou mordaz.
— Nossa cidade, nosso lar... literalmente indo pro inferno e você ainda pergunta se estamos bem? Faça-me o favor...
— Desculpa, eu não quis... — disse Hoeckler que se interrompeu ao pensar melhor no que diria — Estamos num avião em movimento, droga! Viu como quase fomos atingidos! Nós estamos seguros aqui e...
— Por Deus, será que você não entende? — questionou Carrie, exasperada — Podemos estar aqui, nossos corpos intactos e ilesos, mas... nossos corações estão quebrando com toda essa devastação. Não te deixa nem um pouco abalado assistir o lugar onde vivíamos ser varrido da face da Terra?
Os agentes pareciam refletir entristecidos. Frank permanecia inerte e silencioso, absorto com o choque causado pelo armagedon de terra que se seguia desenfreadamente.
— Não tenho cabeça pra sentimentalismos agora. — disse Hoeckler — É melhor aceitarmos que isso foi uma derrota. Todos os anos lutando para manter esta cidade firme, limpa e segura... não, o mundo inteiro... todo o nosso esforço foi jogado no lixo em poucas horas. Meu coração sangra nesse momento. Apenas... — baixou a cabeça — ... não sou de externalizar isso.
— Com aceitar a derrota, você quer dizer... nos rendermos? — indagou Giuseppe, tenso.
— Talvez. — respondeu friamente Hoeckler.
— Senhor, por via das dúvidas, vou elevar para 30 mil pés! — disse o piloto.
— Está bem, George, faça como achar melhor! Mas sugiro irmos pra uma área livre de obstáculos!
— Combinado! — atendeu George, regulando a altitude exata. O sol estava poente em meio ao céu alaranjado. Uma paisagem tristemente contraditória ao caos cataclísmico abaixo.
— Frank... — chamou Carrie no assento a direita — Fala comigo, para de olhar essa tragédia. — enxugou o rosto encharcado — Me abraça.
O detetive desviou o rosto taciturno da janela e deu seu ombro amigo para a assistente repousar sua cabeça, encostando na sua. Inesperadamente, uma mensagem cifrada surgiu na tela do laptop de um agente da ESP.
— Chefe, nosso sistema de decodificação... abriu sozinho. — disse ele, atônito — O que...
— É ele. — disse Hoeckler sem dúvidas — Traduza para a nossa língua.
Enquanto o agente acatava, Frank tinha um questionamento.
— O que é isso aí? Que sistema é esse? Como foi que...
— Esqueceu que estamos lidando com uma entidade suprema com poderes apoteóticos? Nada que tenhamos inventado para barrar anomalias funciona contra essa coisa. — disse Hoeckler — Ele faz o que bem entender.
— Pronto, senhor. Vou colocar em áudio. — disse o agente, apertando os botões certos.
— Saudações, mortais. — disse Chernobog. A fala emitida com aquela voz eletrônica e grave provocou arrepios em Carrie e Giuseppe. Frank tomou um semblante de seriedade misturada a uma raiva brotando do nível mais profundo do seu âmago. Os agentes se entreolhavam sérios.
— Está falando conosco... — disse Giuseppe, atemorizado.
— Ninguém aqui saúda você, seu desgraçado. — disse Frank sem temor — Pode nos ouvir, né?
— Eu sempre estive ouvindo. — disse a entidade, a escrita e o áudio simultâneos.
— Pensa que essa bagunça que você causou vai ficar por isso mesmo? Se depender de mim, isso é o máximo de estrago que você terá feito.
Carrie o olhou assombrada.
— Frank, você tá ouvindo o que tá dizendo?
— Suas promessas de nada valem até que você as cumpra. Vejo que já descumpriu com uma. Aquela pela qual devotou sua vida inteira. Eu sinto tanto pela sua perda. E ainda mal comecei.
A entidade soltou uma risada contida, mas terrificante o bastante para fazer Giuseppe começar a rezar.
— Pai nosso que estás no céu, santificado seja vosso nome...
Frank sentiu um impulso de se levantar movido pela cólera.
— Calma... — disse Carrie, o segurando.
Chernobog prosseguia:
— Você falhou em sua missão. O peso desse fracasso ficará ainda maior... até que seja esmagado pela sua própria insignificância. Eu nem preciso mover uma partícula para isso.
— Quer pagar pra ver? Agora é só entre você e eu. Matou minha cidade e os que não tiveram chance de escapar. A minha promessa agora... é de vingança, pura e plena.
— E quando deixou de ser entre nós dois? — indagou Chernobog — Estarei esperando. Nos encontraremos em breve.
— Encerrou. — disse o agente.
— Mas que... miserável. — disse Carrie — Frank...
— Eu sei o que ele quis dizer. Em todos esses anos... o alvo sempre fui eu. Agora é briga de cachorro grande.
— Eu ia fazer uma analogia, mas não quero acabar com o que resta da sua autoestima. — declarou ela, o olhar tristonho e assustado.
O céu se tingia de preto-azulado com o partir do sol, a escuridão noturna recaindo sobre a cidade. George vira algo medonho adiante.
— ... mas livrai-nos do mal. Amém. — disse Giuseppe terminando a oração e fazendo o sinal da cruz.
— O que é aquilo? — indagou o piloto.
Uma esfera negra gigantesca de pedra flutuava subindo muito lentamente. Adrael percebera.
— Ele está vindo. — disse o anjo que desde o momento de embarcar não havia dito uma palavra.
Na esfera viam-se múltiplas rachaduras pelas quais saíam fachos de luz branca-azulada. A rocha colossal tornava-de mais quebradiça conforme subia até subitamente explodir. Uma onda de luz e vibração se alastrou velozmente por toda a cidade - ou as sobras dela.
— Meu Deus! — gritou George. A força da explosão sacudiu a aeronave num instante, logo a fazendo cair rapidamente. As luzes de alerta piscaram junto ao som angustiante e acelerado do alarme. Máscaras de oxigênio caíram para os tripulantes devido a despressurização.
— É uma anomalia gravitacional inversa! Segurem-se! — berrou Hoeckler.
Pondo a sua máscara, Frank observava o caótico cenário embaixo, a onda de poder de Chernobog deixando um rastro que o fez arregalar os olhos.
***
A explosão de energia deflagrada da esfera foi de uma amplitude tamanha que ultrapassou barreiras interdimensionais. O mundo celestial sofreu com um efeito retumbante, a onda de poder sentida como uma vibração poderosa e invisível. Raziel testemunhou a beleza do paraíso natural esmorecer quando a vibração fizera a luz do sol apagar-se, o astro minguando até desaparecer por completo sem deixar uma réstia sequer. O ofanin reagiu com temor contido olhando o céu recém-escurecido, ciente do fato perturbador desencadeado no plano terreno.
Vários dos serafins acompanhados de seus aprendizes infantes, usando túnicas brancas e límpidas, corriam até Raziel, alarmados com o fenômeno de escuridão total e súbita.
— Mas o que houve? Todos sentimos uma vibração tremendamente forte nos atravessar! — perguntou um serafim de elite com aparência de um homem corpulento de cabelo preto e barba.
— Ele. — disse Raziel, preocupado em pensamentos — O Grande Mal ressurgiu.
— Mas... Não pode ser... Então por isso...
— Ele está furioso. Tão furioso que sua ira se estendeu até aqui e extinguiu a luz do nosso mundo. — falou Raziel que olhou para o serafim por cima do ombro — Avise aos batalhões que uma nova guerra santa se iniciou. Todos, sem exceção, devem se prontificar para cortejar a morte pois o mundo dos humanos... irá muito em breve contemplar o princípio das dores.
— Sim, senhor. Mas onde está Raguel?
— Não tenho ideia. Mas quero acreditar que esteja se movendo para tomar uma atitude diante desta que é a pior catástrofe desde a rebelião dos querubins. Não perca mais tempo, Jofiel, alerte a todos imediatamente.
— Já estou indo. Vamos, crianças. — disse o anjo conduzindo os pupilos.
— Jofiel, o que vai acontecer conosco? — perguntou um dos pequenos serafins — O sol não vai mais voltar?
— Ficará tudo bem. A luz... voltará a brilhar.
Enquanto isso, a Terra seguia padecendo com a vinda avassaladora de Chernobog, mais precisamente do ponto de partida. O jatinho caía mais metros em direção ao abismo profundo. Frank logo notara a ausência de Adrael ao ver que o assento onde o anjo estava vazio.
— Adrael! — gritou ele, aflito. Imaginou que o anjo havia os abandonado no desespero. Porém, o avião parecia milagrosamente ser reajustado a sua rota, levantado para voar novamente.
— Alguma coisa tá fazendo o avião subir! — disse George — Mas os controles continuam inoperantes, senhor! A pane nos motores persiste!
Frank deu um sorriso de alívio ao ver pela janela uma asa de penas brancas e reluzentes abaixo. Adrael havia se teleportado para usar de suas forças restantes na tentativa de reerguer a aeronave. Segurava o avião com máximo esforço, as asas batendo lentamente. Brilhou seus olhos em luz branca, levando o jatinho aos céus novamente e no caminho traçado.
— Estamos salvos! É o Adrael! — avisou Frank.
— E eu pensando que ele tinha nos largado a própria sorte. — disse Giuseppe, respirando mais tranquilo — Ele é um legítimo anjo de Deus.
O serafim aos poucos sentia a força angelical se esgotar, a luz de suas asas apagando pena por pena. Usou do ínfimo resto para retornar depressa ao avião. Reaparecendo no assento, Adrael expressava cansaço.
— Voltamos a operar! Controles e motor reativados! Potência restabelecida!
— Obrigado, George! — disse Hoeckler que logo olhou para trás — E a você também, Adrael. Muito obrigado pela sua atitude, é um herói.
— Quem diria hein. Hoeckler mostrando gratidão a um anjo. — disse Frank baixinho para Carrie.
— Quem diria ele sendo tão grato. — disse ela.
— Tá tudo bem aí? — indagou Frank em preocupação com o estado de Adrael — Parece que tá...
— Esgotado. — completou o anjo — Meus poderes se foram outra vez.
O detetive comprimiu os lábios numa expressão de tristeza por novamente ver o amigo exaurido de suas forças ainda na condição de banido. O jatinho prosseguiu no rápido voo até pousar em segurança no aeroporto de Los Angeles que estava às escuras. Frank, Carrie, Giuseppe e Adrael saíram após Hoeckler e os agentes.
— Sem permissão de pouso, né? — indagou Frank ao ex-superindente.
— O mundo está acabando. Certas regras são anuladas. — respondeu ele — O anjo pode leva-los a algum refúgio.
— Não vai dar, infelizmente. — disse Frank olhando entristecido para Adrael — Ele usou tudo o que tinha pra nos salvar da queda.
— Mas não havia se recuperado totalmente há alguns dias? — perguntou Hoeckler, confuso.
— Foi uma circunstância específica onde fui exposto a uma pressão física e psicológica que ativou um gatilho. Nenhum anjo banido restitui suas forças por definitivo. — explicou Adrael.
— Uma reserva de energia temporária. Que pena, ele seria uma ótima escolta pra que passem pelo centro da cidade. — disse Hoeckler olhando algo pelo celular.
— O que está havendo? — indagou Giuseppe.
— Os saques, depredações e confrontos com a polícia estão aumentando. A cidade está um caos que só tende a piorar. Se quiserem chegar a um hotel terão de atravessar o fogo cruzado. Por enquanto, o bunker não está pronto pra acomoda-los, ainda estamos organizando tudo, está uma correria sem freio. Precisam de um lugar pra ficarem por pelo menos dois dias.
— Dois dias?! Com essa zorra que o mundo virou, não sei nem se a gente dura uma hora em paz. — disse Frank.
— Pior que não temos grana nem pra máquina de refrigerante. — disse Carrie — Mas espera... Eu sei de um lugar seguro.
— Qual? Não fala que é o esgoto de Los Angeles, não quero virar comida de jacaré. — disse Frank.
— A casa do Owen. — disse Carrie, voltando a sorrir com alguma esperança.
— Seu amigo, o criptógrafo? Ele mora aqui em Los Angeles? — perguntou Frank.
— Desde que se demitiu do DPDC ano passado, migrou pra cá na intenção de se reaproximar da família. Vamos pra lá agora mesmo. Só não posso avisa-lo porque meu celular descarregou.
— O meu também. — disse Frank.
— Esqueci o meu em casa. — falou Giuseppe, pondo a mão no rosto se sentindo um estúpido.
— Sem problema, a gente faz uma visitinha surpresa. — disse Frank.
— Nada disso, mais problemas. — disse Hoeckler, mostrando um vídeo no celular. A filmagem apresentava uma criatura bestial do tamanho de um carro escalando um prédio sendo iluminada por um helicóptero — Isso é só uma fração do que foi registrado até agora. As mídias sociais estão explodindo com as aparições públicas desses monstros. Todos saídos do abismo.
— O portal pro submundo... Agora todos os monstros de lá, inclusive os demônios, vão ser imigrantes ilegais aqui. — disse Frank, inquieto — Isso é um pesadelo. Eu quero acordar.
— Nosso pior pesadelo se tornou realidade, Frank. — disse Hoeckler o encarando sério — Monstros à solta massivamente, logo... Exposição completa. A verdade veio à tona pra sociedade civil. É um caminho sem volta. Nem o mais vasto acervo de amnésticos de todas as filiais juntas reverteria esse estrago.
— O mundo vai virar do avesso depois disso. — disse Frank — Os governos, as organizações federais, a população... Ninguém tá pronto pra processar tudo isso de uma só vez.
— O que estamos esperando? Se tivermos que passar pelo mar de fogo, vamos passar. — disse Giuseppe — E sairemos ilesos.
— Admiro a fé dele. — disse Adrael para Frank.
— Já vou chamar um táxi. — disse Hoeckler — Por favor, tomem o mais extremo cuidado.
***
O táxi amarelo percorria uma avenida tomada pela arruaça de saqueadores e manifestantes que lutavam pelos direitos de quem praticava os delitos devido aos indícios mais do que evidentes de que o mundo estaria prestes a vivenciar um período de tribulação antes de seu temido fim e que as leis mundanas já não se aplicavam mais aos moldes de uma sociedade civilizada refém de uma ameaça daquele nível.
Frank encarava a balbúrdia com desalento pela janela do taxi com vários pontos de chuva. Uma Los Angeles entregue aos caos e ao medo.
— A cidade dos sonhos... virou uma completa anarquia. — disse Carrie, comovida ao ver um corre-corre de pessoas praticando saques em lojas, ateando fogo em carros, outras sendo agredidas por policiais da tropa de choque com seus escudos e cacetetes. Um policial veio adiante ao carro soprando um apito num gesto para que dessem a meia-volta. O taxista buzinava em contrariedade, desacelerando.
— Mas que patifaria, a gente não pode recuar! — disse Frank — Aí, seu motorista, avisa pra ele que temos um compromisso urgente.
— Estamos no meio de um pleno apocalipse, nem ferrando que ele vai cair nessa. Quem vai ser louco de cumprir compromissos com o mundo se acabando em toda parte? Eu tô dirigindo à força, amigo. Tudo que eu mais queria agora era abraçar a minha esposa e minha filha, dizer a elas que tudo vai ficar bem... mesmo sendo uma baita mentira.
Os quatro sentiram certa compaixão pelo taxista em seu desabafo emocionado. Giuseppe se mostrou compassivo.
— Por favor, não desista de nos levar até o subúrbio, é de suma importância. Depois disso, esqueça o trabalho e vá se juntar à sua família.
Um instante depois, o motorista, um homem caucasiano de cabelo preto meio calvo e cavanhaque, reergueu a cabeça, enxugando uma lágrima e fungando o nariz.
— OK, apertem os cintos. — disse ele, logo pisando fundo no acelerador, fazendo os pneus cantarem com muita fumaça saindo. O táxi avançou naquele ímpeto ousado contra o policial que teve de se esquivar pulando. Mais à frente, o confronto entre policiais e baderneiros estava mais acentuado — Se protejam, a gente vai entrar na zona de guerra.
Numa rua que fazia intersecção, ocorria um culto no qual um pastor enunciava acerca do fim dos dias que para ele e suas ovelhas finalmente se aproximava. A pregação se desenrolava numa área mais reservada, alheia à algazarra.
— Em Atos 3:19 é dito: Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos de refrigério pela presença do Senhor. Portanto, meus irmãos e minhas irmãs, é chegado o tempo de nós entregarmos ao Altíssimo de corpo, alma e espírito antes do juízo final. O que vimos hoje naquela tragédia horrenda e de incalculável perda... foi apenas o princípio dos tempos de dor que virão. Arrependam-se agora... para que no julgamento o inferno não os condene a danação eterna. A hora é agora!
Uma estrondosa explosão irrompeu de um estabelecimento, aparentemente uma loja de roupas. O fogo afastou alguns carros próximos que capotaram, bem como derrubou um poste sobre uma van se partindo.
— Nossa, mas o que foi isso? — perguntou Carrie, assustada — Ataques à bomba agora?
— Aquele pastor e suas ovelhas correm sério perigo. — disse Adrael entre Frank e Carrie nos bancos de trás — Pena eu não... — se frustrou com a sensação de inutilidade perante àquilo.
As pessoas que ouviam atentamente ao testemunho religioso se dispersavam aos gritos, correndo em várias direções, inclusive o próprio pastor. Da loja destruída saia um indivíduo trajando casaco preto longo com capuz e calcas chamuscadas. A polícia veio enfrenta-los com suas metralhadoras, porém os braços do terrorista se incandesciam, parecendo prestes a incendiarem. Ele voltou-se aos militares, esticando os braços dos quais saíram serpentes de fogo voadoras. Seu rosto, em parte ocultado pelo capuz, era quase inumano, com uma boca de dentes tortos e afiados.
Os policiais foram repelidos pela enxurrada de cobras flamejantes, muitos deles atravessados por elas e consequentemente morrendo.
— Frank, aquilo é... — disse Carrie o olhando.
— Puta merda. — disse Frank — Acho que agora é uma boa hora pra darmos de ré!
— Nem pensar! Fiz uma promessa e não vai ser um maluco com poderes de fogo ou seja lá o que for aquilo que vai me impedir! — disse o motorista, disposto a avançar.
— Espera aí, não fez promessa nenhuma! — avisou Frank — Se acalma...
Mas o alerta foi inútil. O carro saiu rasgando o asfalto na direção do ataque da criatura. Contudo, o ser paranormal desconhecido lançou suas serpentes em chamas diretamente contra o carro.
— Para, para esse carro! Nós vamos... — disse Frank, exasperado, junto aos gritos desesperados de Carrie e Giuseppe pedindo que ele desviasse. As cobras viraram o táxi ao chão num capotamento vertical barulhento. Os vidros do parabrisa e das janelas foram estilhaçados — Tá todo mundo inteiro? — perguntou o detetive com o rosto ferido por cacos.
— Não me sinto muito bem, mas... estou inteiro. — disse Adrael.
— Acho que só quebrei uma unha. — disse Carrie.
— Estamos todos bem... Menos ele. — disse Giuseppe, ofegante, verificando o pulso do motorista ao tocar no pescoço dele — Está morto. Aquelas cobras... atravessaram o corpo dele. — fechara os olhos daquele esperançoso homem.
— Mas por que não fomos atingidos? — perguntou Frank — Enfim... A gente tem que prosseguir.
— Roubando um carro. — disse Carrie.
— Que ironia você sugerir isso, Carrie. Quando já teve três carros roubados. — disse Frank — Chega pra lá, vai você primeiro.
Enquanto saiam do veículo tombado, o homem das serpentes de fogo se aproximava perigosamente, pronto para uma nova rodada.
— Vão, vão, vão, depressa! Eu atraso ele! – disse Frank com sua pistola bem municiada disparando contra ele inúmeras vezes. Mas nenhum tiro surtia dano significativo — O que é que você é, miserável?
Carrie, Giuseppe e Adrael encontraram um beco escuro por onde se esgueirar. O anjo encontrara uma Bíblia largada e a apanhou, limpando a sujeira na capa.
— Frank, vem logo! — chamou Carrie, apreensiva. O detetive corria, mantendo uma sequência de tiros, mas logo focou em se juntar aos demais. O indivíduo paranormal lançou mais uma horda de serpentes.
— Vem, vem! — disse Frank entrando no beco primeiro e seguido dos outros. O grupo escapou por pouco das serpentes que passaram arrasadoras. Todos andaram um pouco mais devagar — Ufa, foi por pouco. Parece que aquele maldito não sabe teleguiar as serpentes.
— Uma coisa boa, pelo menos, nesse inferno na Terra. — disse Giuseppe.
— Temos que achar um carro. — disse Carrie — Esses sapatos vão triturar meus pés.
— O tempo tá apertado pra caçar um carro em boas condições por aí. — disse Frank, convicto — A pé talvez estejamos mais seguros.
— Tá zoando comigo, né? Um exército de monstros que talvez nunca ouvimos falar tá espalhado por todos os cantos que nem ratos! — contestava Carrie — Você enlouqueceu?
— O mundo enlouqueceu, Carrie! — disse Frank, virando-se bravo para ela — Na situação que a gente tá agora não tem como elaborar um plano de fuga mirabolante, é tentar sobreviver de qualquer forma.
— Ele tem razão. — disse Giuseppe — Estamos todos estressados, acuados e temerosos, mas devemos cruzar a linha de fogo, protegidos ou não. É aceitar que não há muitas chances a nosso favor.
— Tudo bem, eu não quis começar uma briga desnecessária... — disse Carrie, passando a mão no rosto em cansaço — Tô sendo muito egoísta, desculpa.
— Relaxa, eu sei como se sente. — disse Frank a tocando no ombro.
— Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos. — disse Adrael lendo um versiculo na Bíblia. Os três o olharam mais calmos — Eu achei que... precisassem de um consolo.
— Obrigado, Adrael. — disse Frank — Vamos, a Carrie vai nos guiar até a casa do Owen. — determinou, tornando a andar junto a Carrie e Giuseppe. O serafim vinha logo atrás deles — Eu pensava que você sabia de cor e salteado, Adrael.
— Peguei para reler algumas partes quando minha esperança estiver definhando. Voltei a ser humano, então... para agir como um preciso ler o livro sagrado... como se nunca o tivesse lido.
— Mas a diferença... é que você assimila melhor o conteúdo. — disse Frank.
O grupo seguiu pelo beco em breu quase total, expostos a todos os perigos oferecidos pelo novo e assustador mundo que nascia.
***
O apartamento onde Owen vivia não transmitia nenhuma sofisticação arquitetônica, sendo um empreendimento imobiliário dos mais baratos de se encontrar facilmente na área suburbana de Los Angeles, mas ainda assim trazia conforto para uma moradia decente. A campainha foi tocada e o criptógrafo foi se aproximando da porta vagarosa e cautelosamente.
A abriu depressa, estando armado com um bastão elétrico ligado. Frank e os outros levaram um pequeno susto com a arma na mão direita dele.
— Ei, o que é isso? Vai com calma aí! — disse, surpreso, Frank se afastando num passo.
— Meu Deus, eu quase fiz uma besteira! — disse Owen, se recompondo. O amigo de Carrie era um rapaz afro-descendente de aparência jovial e um tanto nerd, mas que não se orgulhava muito do couro cabeludo quase raspado.
— Pois é, quase tomei choque na barriga. — disse Frank — Mas quando o mundo estiver acabando de vez, usa uma arma, pra variar.
— Vo-você é o Frank Montgrow, o agente prioritário...
— Ex-agente prioritário. Tudo que eu deixei pra trás em Danverous City foi engolido naquele buraco. — disse Frank — E aí, Owen?
— Você não veio sozinho... Ouvi mais passos...
— Oiii. — disse Carrie sorrindo de um jeito forçado e nervoso, aparecendo para ele com um aceno.
— Carrie?! Você também? O que é que tá havendo? Fora o genuíno fim do mundo, é claro. — disse Owen, impaciente.
Giuseppe e Adrael surgiram logo depois. O ex-diretor do DPDC acenou positivo com a cabeça num sorriso educado. Já Adrael não esboçou expressão de cumprimento, como de hábito.
— Diretor Atistone?! Olha, não tô gostando muito disso... Com todo o respeito, mas eu... OK, sei porque vieram, só que...
— Owen, é uma questão de vida ou morte pra todos nós. — salientou Carrie — Perdemos nossa cidade e... poucos lugares são seguros o bastante pra ficarmos por pelo menos uma noite. Nos restou contar com você.
— Bem que podíamos ir pra um hotel, mas estamos mais duros que no final do mês. — disse Frank.
— Não, não precisam pedir permissão. Mi casa és su casa. — disse Owen — Fiquem o tempo que precisarem. Entrem, entrem...
— Quanta hospitalidade pra alguém que não gosta de compartilhar espaço. — disse Carrie, entrando junto de Frank, com ar brincalhão.
— Valeu, Owen. — disse Frank.
— Diretor. — falou Owen cumprimentando Giuseppe. O modo tímido com que Adrael adentrava no recinto chamou a atenção do criptógrafo — Peraí, você eu não conheço. — disse, apontando para o anjo com desconfiança.
— Ele é amigo nosso, pode confiar totalmente. — asseverou Frank.
— Ah é? Bom... — disse Owen, virando-se para Adrael, ajeitando seus óculos — Eu sou o Owen, prazer, irmão. — estendeu sua mão direita a qual o serafim apertou forte — Você é...
— Adrael. Sou um anjo do Senhor.
— Ahn... É sério? Alguém, por favor, me situa aqui, porque... eu não sei se ouvi direito, mas... Ele acabou de dizer que é um anjo? — se questionava Owen, franzindo o cenho.
Carrie olhou séria para Frank.
— Acho que devemos contar.
— É mesmo, quase toda a humanidade a essa altura já ficou a par da verdade. — disse Frank — Owen, vamos sentar, tomar um cafezinho e trocar uma ideia... Porque a história é bem longa e você não vai dormir escutando sobre.
— Tá legal, fiquem à vontade. Você também... — disse Owen, meio tenso ao se dirigir a Adrael que foi andando esquadrinhando o lugar — Sabe que podíamos ser amigos? Somos bem parecidos, quase gêmeos... só que você é mais clarinho e mais musculoso também.
Após o que pareceu uma hora de explicações detalhadas sobre o contexto vigente, bem como referentes a própria vida oculta de Frank, Owen levantou-se da poltrona com as mãos juntas frente a boca, tentando arduamente digerir.
— Eu... Eu nem sei por onde começar a reagir verbalmente direito a isso... Sabem, tá passando milhares de coisas na cabeça, um turbilhão que parece infinito dando a sensação de que eu vou... explodir. — disse Owen, logo virando-se para os hóspedes, visivelmente chocado.
— Se quiser uma água com açúcar, é só pedir que vou já pegar. — disse Carrie sentada no sofá ao lado de Frank. Giuseppe estava numa cadeira enquanto Adrael encostava-se na parede ficando de braços cruzados atrás deles.
— Melhor buscar meu rivotril. — respondeu o criptógrafo. Carrie fez menção de se levantar, mas ele a interrompeu — Não, não agora, eu... Num primeiro momento, pensei que estavam de sacanagem comigo. Mas pelas expressões de vocês, tô vendo que o negócio é mais sério do que qualquer um de nós, mesmo você Frank, é capaz de suportar. Você... carrega o peso do mundo mais do que... Atlas, talvez.
— Vou até me desculpar por estar te contando esse monte de segredos que... nesse momento já não é mais segredo pra quase ninguém. Quer dizer, sobre a existência dos monstros, fantasmas, demônios e o que mais tiver de sobrenatural nesse mundo ou em outros. O mundo tá do avesso e não tem mais como voltar atrás, é daqui pro juízo final. — disse Frank.
— Nem precisa se desculpar, uma hora eu tinha que saber de um jeito ou de outro. — amenizou Owen — Então foi por isso que naquela vez a Carrie tava te investigando, rastreando seu carro...
— Daquela vez não era eu... mas um clone de outra dimensão. Eu tava preso por violação da lei de segurança nacional por descobrir um casulo alienígena. — disse Frank deixando o amigo da assistente boquiaberto.
— Em todo esse tempo... era por isso que a Carrie só trabalhava em casos bizarros e estranhos com você.
— Não, eu chegava a resolver casos normais... um a cada dois ou três paranormais. — revelou Frank, soltando um risinho.
— E olha que eu tentei convencê-lo a largar dessa rotina de caçar monstros e fantasmas. — disse Giuseppe — Mas falhei miseravelmente.
— Olha, talvez se tivesse largado nos não estaríamos presenciando essa desordem que tá se alastrando mais rápido que incêndio florestal. — declarou Owen — Mas não pensa que eu...
— Eu sei, essa culpa que tá me corroendo até a alma eu carrego com toda responsabilidade. — afirmou Frank, o tom firme — Ele tá aqui por minha causa, foi pra minha causa... que Danverous City sucumbiu. Se eu me acuso, todos tem o direito de me acusar. Eu que trouxe esse mal de volta ao mundo... só cabe a mim o dever de manda-lo pra uma vala no espaço sideral ou em qualquer outra realidade que existir. Não importa. É minha missão... talvez a que vai coroar o fim da minha carreira.
A fala fizera Carrie fita-lo com preocupação disfarçada por um instante, um temor de que o amigo profetizava o próprio fim junto àquilo.
— Essa coisa... Esse tal de... Chernobog... — disse Owen que fez uma pausa para engolir a saliva devido ao nervosismo — Onde ele tá?
— Em toda parte. — disse Adrael. Frank, Carrie e Giuseppe olharam rapidamente para trás — É uma força incontrolável, implacável e predatória, nada pode para-lo. Na ocasião em que os ofanins o aprisionaram, custou a vida de muitos pra que ele fosse devidamente selado.
— E não há como fazerem isso outra vez? — perguntou Giuseppe.
— No momento, não. O Grande Mal não se encontra em uma forma palpável, ele se dispersou de maneira que possa realizar seus feitos sem causar estardalhaço. Ele não começaria varrendo todo este planeta após se libertar. Ele é colérico, mas paciente. E essa é uma das razões pelas quais é um inimigo tão formidável. — disse o anjo — Frank, saiba que nunca estará sozinho. Você tem...
Um tremor súbito ocorreu balançando o apartamento. Logo depois, um apagão mergulhou o ambiente inteiro em trevas, assim como a rua. Owen acendeu a lanterna do seu celular.
— Tudo bem, pessoal. Tem umas lanternas na despensa. Vou deixar meu celular aqui. — disse ele pondo o celular virado com a lanterna para cima sobre a mesinha
— Blecaute?! Claro, tudo o que precisávamos agora! — disse Carrie.
— Foi geral, tenho certeza. — disse Frank olhando pela janela.
— Agora além de não podermos carregar os celulares, teremos de esperar até amanhã pra ligar pros nossos familiares. — disse Giuseppe, levantando.
— Putz! — disse Frank pondo uma mão na cabeça com os olhos fechados — A mamãe... Prometi ligar pra ela assim que desembarcasse.
— Esqueçam os telefonemas. As linhas e redes caíram, as torres estão inativas, nem um megawatt de internet se desloca. — disse Owen trazendo as lanternas e as distribuindo — Tem como essa noite melhorar ainda mais?
— Pelo andar da carruagem, arriscado até o natal ser cancelado por alguma merda gigantesca que certamente vai acontecer. — disse Frank — Epa, peraí, cadê o Adrael?
— Na hora do tremor ele sumiu. — disse Giuseppe.
Frank passou o facho de luz da lanterna por todo o espaço e nenhum sinal do anjo.
— Não, foi na hora do blecaute mesmo. — disse Frank — Ele não se teletransportou, até porque tá sem poderes. E mesmo que pudesse, não nos abandonaria. Só tem uma explicação plausível...
— Você acha que... — disse Carrie, a luz da lanterna sob o rosto.
— Os ofanins levaram ele. — aferiu Frank — Pra ser julgado na suprema corte celestial.
— Mais anjos apareceram aqui e eu perdi?! Oxe...— disse Owen.
— Não tem como, eles se movem mais rápidos que a velocidade da luz. Legal, uma preocupação a mais pra minha mente que tá só
o bagaço.
— Ele ficará bem, será absolvido. — disse Carrie.
— Sério? Anjo criminoso? Logo agora que eu tava começando a gostar mais dele depois de quase me fazer borrar as calças falando da tal entidade. — disse Owen.
— Injustamente acusado. Olha, se tem alguém que merece ir pra um tribunal e ser condenado a morte ou prisão perpétua, esse sou eu. — disse Frank — Mas vou poupar vocês da minha auto-punição.
— Bem, eu... Aproveitei pra dar uma arrumadinha nos quartos. Carrie, se quiser o meu quarto é seu, eu faço questão.
— Ah, Owen você é um amor de amigo. Até pensei em recusar, mas já que insiste...
— Tem uma king-size no quarto de hóspedes, vocês dois podem dividir.
— Tranquilo. — disse Frank.
— Por mim tudo bem. — assentiu Giuseppe.
— E quanto a você? — indagou Carrie.
— Durmo no meu humilde sofazinho de dois lugares. Mereço o prêmio de anfitrião do ano.
— OK, eu tô precisando de um longo banho porque tô fedendo da cabeça aos pés. — disse Frank andando para procurar o banheiro.
— O banheiro é por aqui. — disse Owen apontando a direção com o polegar direito.
— Valeu. Tomara que o Hoeckler esteja cuidando bem das nossas bagagens. — disse Frank indo ao toalete com sua bolsa de viagem na qual trazia o essencial pra uma hospedagem curta, também levando sua lanterna.
— Ele está arrasado. — disse Giuseppe acerca do estado mental de Frank — Psicologicamente quebrado. O fardo que ele carrega ganhou mais força, se continuar nisso... vai se arrebentar fatalmente.
— Vamos dar tempo e espaço pra ele. — disse Carrie, preocupada, sendo abraçada por Giuseppe no ombro — Do que conheço do Frank... Nem nos piores cenários possíveis ele perde a garra.
***
No segundo dia da estadia, os sinais de radiodifusão eram normalizados após a reestruturação de torres e antenas transmissoras, bem como canais de fibra óptica de internet. Frank asssitia ao noticiário num canal selecionado aleatoriamente visto que todos decidiram interromper suas programações intercalando-a com plantões ao vivo sobre as consequências devastadoras do terremoto e as posteriores a ele - especialmente aquelas envolvendo os monstros advindos do submundo. Só naquele dia ficou a par do número de vítimas fatais.
O detetive estava sentado numa cadeira inclinado a TV ouvindo e vendo atentamente. Carrier vinha enxugando seu cabelo com uma toalha seca já vestida com seu sueter favorito, o de lã violeta. A assistente o fitava, compadecida.
— Frank, tenta sair dessa. Ficar revivendo isso pode... aprofundar a dor cada vez mais. Eu mal consigo olhar pra tela do meu celular pois nas redes só que dão são vídeos da tragédia de todos os ângulos. Eu vivo um processo de reparação de danos. Já você, por outro lado...
— Carrie, me faz um favor... — disse ele desviando o olhar da TV, mas sem vê-la.
— Quer que eu me retire? Tudo bem, não tá mais aqui quem tá afim de te resgatar da fossa. — disse ela virando as costas.
— Não, eu... Eu só quero que traga um café, só isso. — pediu Frank, enfim a olhando. Carrie virou-se a ela com um semblante ameno.
— Olha, eu não tô exigindo que você se cure em dois dias. Mas pra que essa cura aconteça, você precisa... exercer o desapego. Não tá fácil pra mim também, ainda dói na mesma medida. Mas se quiser fazer um favor a si mesmo, desliga essa TV e vai ouvir o rádio. É menos doloroso. — a assistente se virou a direção oposta novamente, mas logo tratou de perguntar — Quantos mortos?
— Cinco mil e quinhentos e quatro.
Carrie fechou brevemente os olhos pondo as mãos juntas no peito, seu luto pelas vítimas ardendo como uma incêndio que se não apaga.
Numa praça qualquer, um homem de terno preto e gravata vermelha passava entre as pessoas esbarrando quase ombro a ombro. Sua visão enturvava, um suor gélido descia, o mundo girava acelerado... Até virar para sua direita e espirrar forte cobrindo a boca e o nariz com a mão direita. Sua visão melhorou, mas algo parecia ainda mais grave. A coriza veio numa colocação de preto vivo. O homem olhava assustado para a mão suja daquela secreção negra e anormal, logo olhando tenso ao redor.
Na área nobre, uma mulher de meia idade que atuava como socialite nas confraternizações mais badaladas olhava o mundo externo de uma das janelas bem acortinadas da sua mansão. Também uma atriz hollywoodiana de moderada fama, ela foi chamada pelo seu mordomo, virada de costas a ele.
— Madame, está há horas aí parada. O que houve? Se sente bem?
— Charles, por favor... Avise a todos... Mídia, assessores, a minha equipe inteira e... especialmente minha família... — disse ela com seus cabelos loiros platinados virando-se aos poucos — Desculpe por assusta-lo...
— Não, tudo bem... Mas o que está havendo? A senhora deseja que eu os avise do quê, afinal?
— Avise... que meu testamento está pronto para a partilha. — disse ela exibindo um rosto anormalmente pálido. Logo seu rosto se deteriorou rapidamente junto à uma gosma negra saindo de seus olhos, da boca e das fissuras na face. O mordomo reagiu atônito de terror, recuando trêmulo vendo-a cair.
No apartamento de Owen, o criptógrafo estava mais do que inteirado das últimas informações acerca dos efeitos da vinda de Chernobog. Sentado na poltrona com o notebook no colo, ele vira uma série de notícias alertando sobre uma contaminação não identificada na rede de esgoto.
— Vocês todos já tomaram banho e escovaram os dentes, né?
— Sim, por que? — perguntou Giuseppe.
— Pessoal, nessa vocês talvez não acreditem logo de cara...
— A pior entidade do mal que existe tá à solta por aí pintando e bordando. Não tem nada ruim aparecendo que eu não possa acreditar. — disse Frank, levantando-se da cadeira — O que rolou?
— Tem vários avisos sobre uma contaminação na rede de abastecimento, tratamento de esgoto, reservatórios, tudo. Nos fóruns de discussão já estão adiantando que é um novo vírus pandêmico circulando. Já até listaram os sintomas, todos gripais, mas...
— Owen, nada de mas. — disse Carrie, aflita, entre Frank e Giuseppe — Desembucha. Que diabos de vírus é esse?
— Essa praga, ela... causa uma deterioração no organismo de dentro pra fora. Dizem que o infectado expele uma secreção gosmenta e preta, isso só pra resumir. — disse Owen que ergueu a cabeça para os hóspedes — Vocês querem uma prova audiovisual? Já viralizou até o fundo do iceberg
Frank se entreolhou com Carrie e Giuseppe em intensa seriedade.
— Mostra aí. — disse o detetive. Owen virou o laptop para os três dando play no vídeo de 30 segundos. A gravação mostrava uma mulher tendo convulsões no metrô e vomitando a gosma enquanto seu corpo pálido apodrecia. A mulher estacou, dando a certeza de estar morta.
Passando dos vinte segundos, o cinegrafista amador foi aproximando-se da mulher e pós os dedos no pescoço dela na verificação de pulso. Mas logo que tocou, a mulher despertou subitamente soltando um grito selvagem e puxando o braço do rapaz que filmava e gritava de horror. Os três levaram um susto com o despertar abrupto da infectada.
— Eu nem vi porque sou sensível a esse tipo de coisa. — disse Owen — E aí, o que me dizem? Não vomitem o café da manhã na minha sala, por favor.
— Misericórdia, meu Deus... — disse Giuseppe com as mãos juntas e olhos fechados em súplica
— Uma amostra de que com esse desgraçado caminhando de novo sobre a Terra não vamos ter um dia sequer de sossego. — disse Frank.
— Agora entendi o que Adrael disse sobre o Chernobog estar disperso. — disse Carrie — Não está palpável pra não causar estardalhaço... Eis a resposta. Ele é o vírus.
— Jogada esperta pra se blindar dos anjos. — disse Frank — Vai ficar onipresente nessa forma pra tocar o terror a torto e a direito, poder pra isso ele tem pra dar e vender.
Uma notícia urgente surgia no noticiário:
— Estas são imagens ao vivo de Atwater Village, captadas pelo nosso drone, onde um homem lidera uma manifestação civil que fechou um perímetro em todo o bairro. Ele se autoproclama proprietário deste território, desafiando as autoridades federais e governamentais. Os populares estão fortemente armados, transitando livremente como guardas dispostos a impedir que qualquer um ultrapasse os bloqueios feitos com barricadas nos limites definidos, a menos que pague um pedágio exigindo teste de saúde para verificar se quem pretende entrar esra ou não infectado com a nova cepa desconhecida e que já vem causando fechamentos e interdições em 60% da cidade. A seguir, você confere uma tentativa de entrevistar o senhor Dwayne Boyle, líder do movimento rebelde."
— Por favor, nós somos imprensa, temos direito a informação pra repassa-lá, é nosso trabalho aqui desse lado tanto quanto é o de vocês aí. Queremos mais detalhes dessa mobilização!
Dwayne, um homem robusto na faixa dos 40 anos, com roupa de operário metalúrgico, virou-se para a repórter com antipatia e rudeza estampadas.
— Fora daqui, abutres! Sumam com essas malditas câmeras porque não vou dizer um "a" sequer da nossa luta pelo bem da nossa comunidade! Nem pensem em ultrapassar! Fora ou eu atiro! — disse Dwayne erguendo um rifle e atirando para cima, afugentando a equipe de reportagem
— Vamos embora, esse homem perdeu a cabeça! — dizia a repórter correndo — E tá atraindo um monte pra essa loucura! Vai pro inferno você, seu escroto! A polícia vai ser acionada e desmanchar esse cerco! Vai se...
— Volta aí uns 10 segundos. — pediu Owen, levantando-se da poltrona. Frank pegou o controle e o fizera — OK, OK, pausa! Isso, bem aí. — o detetive pausara no exato momento em que a câmera focalizou melhor o rosto de Dwayne.
— O que é que tem? Notou alguma coisa esquisita nele? — indagou Frank.
— Reparem bem. — disse Owen aproximando-se da TV e apontando — O nariz dele.
Pela via nasal esquerda, Dwayne sangrava um líquido preto... a secreção oriunda do vírus.
— Tá escorrendo o catarro preto nele... — disse Frank, estreitando os olhos — Mas será possível que estejam todos infectados?
— Não acho que no cenário que estamos vivendo ninguém teria a audácia estúpida de causar um motim civil para se apossar de uma área urbana sob inteira tutela municipal. — disse Giuseppe.
— Eles querem usurpar a autonomia do estado, refazer as leis conforme seus interesses... É uma anarquia que estão tentando instaurar. — concluiu Carrie — Claro, influenciados pelo Chernobog.
A campanha de Owen foi tocada e ele se dirigiu a porta.
— A pior parte é que esses filhos da mãe ocuparam a nossa melhor rota pra chegarmos ao bunker. — disse Frank, indignado. Seu celular tocou naquele instante e logo atendeu a chamada — Alô? Hoeckler, e aí, qual é o status? — fez uma pausa — Tudo pronto, né? Ótimo, a gente tá saindo daqui as nove. A gente tá ciente do surto generalizado. Beleza, tchau. — desligou — Hoeckler avisou que a faxina tá completa, tudo em ordem por lá pra gente se abrigar com total segurança. Ele também mencionou o cerco dos infectados, é pra passarmos dos bloqueios de qualquer jeito se quisermos chegar ainda hoje.
— Mas as nove? Tão cedo? — discordou Carrie.
— Na verdade, é bem tarde. Que tal uma hora mais cedo? — sugeriu Owen voltando — Acabei de saber pelo zelador reportando o síndico que decidiu interditar todo o prédio por conta da ameaça do vírus. 60%, galera. Uns dois quilômetros e já assume esse pedaço. Todos devem abandonar o prédio até as nove.
— O contágio desse vírus vai tomar Los Angeles em menos de 48 horas. — disse Giuseppe.
— Mas e você, Owen? — perguntou Carrie — Podemos te deixar na casa da sua irmã.
— Ou eu ir com vocês pra esse tal bunker.
— Sabe usar pelo menos uma Beretta M92? — indagou Frank — Não, uma pergunta melhor: já tocou numa pistola uma vez sem ser num controle de videogame?
— Frank, não acha que tá sendo... — disse Carrie, incomodada com a postura severa do amigo.
— Já fiz tiro desportivo. Qual é, Frank? Eu vou levar meu Call of Duty pra você experimentar e ver como a realidade virtual é bem próxima da realidade tangível.
Frank deu um sorrisinho.
— Fechado, você vem conosco. Te deixo escolher o carro que vamos roubar. — fez uma pausa, pensando no que disse — Caramba, já me sinto culpado antes de fazer.
***
Adrael se encontrava deitado numa cela de pedra cinzenta iluminada por lâmpadas de luz azul celestial em cada parede. As grades se reduziam como se estivessem desaparecendo magicamente, mas aquilo tratava-se da indicação de que alguém adentrava na prisão. O serafim levantava-se, o olhar fixo no visitante.
— Nunca imaginei que precisasse trancafia-lo numa dessas. — disse Raguel vindo até ele — O que tem a declarar? É confortável sob medida para criminosos da sua estirpe.
— Você... Foi você quem ordenou que me tirassem de lá, não foi?
— Quem mais? Raziel não moveria um dedo para deflagrar uma busca precisa e dentro dos parâmetros celestiais.
— Não... Não vai me persuadir se julgando aquele que mais zela pelas leis celestiais. — disse Adrael o encarando sério — Quem é você realmente, Raguel? Por que o interessa tanto me ver sair condenado?
— Estou cumprindo as leis.
— Quer subverte-las. Se planeja algum golpe...
— Eu não preciso lembra-lo de que imputar acusações a um superior sem provas concretas incorre em imediata condenação ao Limbo. — disse o ofanim, altivo — Seu julgamento ocorrerá muito em breve, questão de horas. Até mais. — virou-se para sair, mas logo parou — Onde está a sua irmã? Como ela se chamava mesmo...?
— Ethrea. — respondeu Adrael — O nome dela era Ethrea. Ela se sacrificou durante a vinda do Grande Mal.
— Nobre da parte dela. É assim que gosto de ouvi-lo falar: como um obediente soldado. — disse Raguel, logo saindo da cela e as grades reaparecendo se ligando e fechando.
***
Na calada da noite, o carro de tração cinza roubado no qual Frank, Carrie, Giuseppe e Owen estavam dentro transitava devagar por uma rua aparentemente deserta onde se via apenas lixo sendo arrastado pelo vento. Nos dois lados podiam ver latões incendiados em meio a postes caídos com fios soltos salpicando faíscas, além de algumas casas destruídas, denotando a ação do terremoto que se estendeu dentro das medições possíveis em grande parte da capital.
— Se sobrevivermos essa noite, vou amanhã bem cedo numa concessionária ver se tem disponível um sedã parecido com o que eu tinha, só pra me redimir de ter pego esse aqui. — disse Frank que logo reduziu mais a velocidade — Opa, bem ali à frente... São eles, talvez vários deles de tocaia.
— Nosso arsenal dá conta? — perguntou Carrie no banco do carona — Até porque estamos em clara e grave desvantagem numérica...
— Vai dar se a gente atropelar e passar direto das barricadas. — respondeu Frank.
— Atravessar o perímetro requer um carro maior, provavelmente um caminhão. — disse Giuseppe.
— OK, não tô sendo realista, um momento a gente vai ter que sair desse carro pra procurar, sei lá, uma retroescavadeira e enquanto não achamos teremos que enfrentar esses zé manés no tiro e na porrada.
— Não seria menos radical usar balas não-letais? — sugestionou Owen no banco de trás a esquerda de Giuseppe — São pessoas comuns.
— Pessoas infectadas com um vírus mortal e sobrenatural que não tem cura. Antes fosse só um vírus, mas muito além disso é uma ferrada entidade maligna que pode ser e fazer o que quiser. — rebateu Frank — Se tiver que matar, eu mato. É selva sem lei.
Os membros do movimento rebelde gritaram furiosos, avançando com suas armas. Frank pisou fundo, acelerando contra eles. O carro recebeu uma chuva de tiros, alguns esburacando o parabrisa, logo desviando para uma rua a esquerda. Porém, tiros de metralhadora foram disparados em advertência no chão, levando Frank a frear bruscamente.
— Onde foi que arranjaram armamento pesado? — questionou Frank.
— A polícia pode ter invadido, gerando um conflito armado, mas perdeu força. — disse Giuseppe — O vírus os deixou mais fortes. Achei que debilitava o organismo.
— Mas faz isso até chegar naquele ponto onde a pessoa se desmancha naquela gosma sinistra! Como vimos no vídeo, a mulher reviveu depois disso e atacou feito um animal! Não, acho que nem o animal mais faminto faria aquilo! — disse Owen, apreensivo.
— Frank, não tem jeito, avança! — pediu Carrie.
Mas antes que Frank pisasse novamente no acelerador, Dwayne veio entre seus lacaios lançando uma garrafa de coquetel molotov.
— Cacete... Todo mundo pra fora! — disse Frank diante do ataque. Os quatro saíram depressa. O detetive carregava a bolsa contendo as armas. Um dos rebeldes disparou um tiro de lança-foguetes contra o veículo que explodiu tremendamente ao ser atingido. A onda de choque fez Owen e Giuseppe, logo um ajudando o outro a levantar. Carrie se deparou com um infectado urrando selvagem e saindo da escuridão para ataca-la, dando-lhe um intenso susto. A assistente atirou nele inúmeras com a pistola .40 enquanto gritava de horror. O corpo dele chacoalhava com os disparos, logo tombando. Poucos segundos, ela se certificou de que era um policial.
Frank e Giuseppe atiravam praticamente costa a costa em todos que vinham cerca-los. O detetive usava uma submetralhadora de uso militar enquanto o ex-diretor dias pistolas .40. Owen se abaixava dos tiros vindos dos rebeldes ao mesmo tempo que atirava com sua pistola. O criptógrafo corria usando escombros amontoados de casas como proteção e trincheira. Frank os chamou para um recuo.
— Venham! — gritou enquanto atirava em mais dos que se aproximavam com suas bocas salivando a gosma negra como seus olhos espectrais que pareciam vazios. Carrie, Owen e Giuseppe o acompanharam, mandando mais bala enquanto se afastavam da área e enveredando para um beco largo. Subiram uma cerca de arame liso cruzado após Frank corajosamente verificar se não era elétrica. Após passarem para o outro lado, correram recebendo os protestos irracionais dos infectados que balançavam a cerca coléricos.
Não muito distante, o funcionário de um canil destrancava as celas de vários cães. Na verdade, um demônio possuindo o trabalhador. Os animais foram soltos na rua, centenas deles de diversas raças correndo afoitos. O demônio parou na porta de entrada do canil sorrindo malévolo com seus olhos pretos.
Um cão da raça Shitzu passava próximo a um muro pichado de um hospital. Se metamorfoseou na escuridão, a sombra na parede se transformando de um adorável pet para um canzarrão de quase 2 metros e fisionomia esquelética e horrenda com espigões nas costas. A matilha nada mais era que era um exército de cães do inferno soltos a mando de Chernobog para dificultar a travessia de Frank.
O grupo desviava para uma rua mais aberta após saírem do campo gramado depois da cerca. Frank alertou para não tocarem em nenhum cadáver que estivesse largado quando vários estavam visíveis, todos de policiais. O detetive avistou uma oficina mecânica olhando o letreiro de uma placa.
— Peças automotivas e reparos... Logo ali, vamos, rápido! — disse ele apertando o passo.
— Mesmo armados não estamos imunes. — disse Giuseppe.
— Verdade, podemos ser infectados só pelo toque, principalmente se entrar em contato com a gosma. — disse Owen — Tem que olhar em 360 graus, eles podem sair de qualquer lugar.
— Fiquem aí que eu vou conferir. — disse Frank pretendendo verificar sozinho o outro lado do muro da oficina. Owen acabara pisando em algo nojento.
— Argh, que... porcaria é essa?
— O que foi? — perguntou Carrie — Pisou em chiclete ou cocô de cachorro?
— Não, mas... também não é sangue de infectado. — dizia o criptógrafo, olhando a sola do sapato direito suja de um sangue vermelho, escuro e fétido — Mas fede pra um cacete!
Frank subia o muro através de pneus empilhados, deixando a arma no chão. Olhou o interior da oficina segurando no alto do muro. Estava tudo mergulhado em breu quase total. Mas sua impressão de que a barra estivesse limpa foi terrivelmente efêmera. Naquela escuridão ouvia-se rodeados, logo vários pares de olhos brilhando vermelhos em sequência como luzes sendo ligadas.
— Puta que pariu... — disse Frank lentamente fitando os olhos brilhantes dos cães infernais.
O detetive veio correndo de volta aos demais.
— Fujam! Vambora!
A matilha pulava o muro vindo em peso. O quarteto corria o mais rápido possível, mas ainda assim foram encurralados por mais alguns deles. Frank e Giuseppe atiravam ininterruptamente, dizimando um bom número. Porém, a munição esgotou. A arma de Carrie travou de repente, a tornando alvo fácil. Um cão infernal pulou sobre ela, mas Owen se jogou sobre a criatura para salva-la do ataque fatal que sofreria. Frank pegou uma pistola reserva no sobretudo e atirou no cão que tascava mordidas profundas na barriga de Owen. O criptógrafo berrava com as brutais dentadas.
Tendo abatido o cão, Frank foi direto ao socorro de Owen junto de Giuseppe. A dupla o carregou visando um armazém como refúgio enquanto Carrie recebia uma granada destampada de Frank. A assistente jogou o explosivo nos cães que se aproximavam, logo correndo. O estouro forte da bomba os despedaçou imediatamente.
Giuseppe empurrava uma prateleira para manter a entrada selada. Frank deixou Owen gravemente ferido sentado e encostado no balcão.
— Como ele tá? — perguntou Carrie aos prantos desesperada.
— Muito mal. — disse Frank visualizando temeroso o estrago na ferida abdominal — Ai meu Deus... — passou a mão no rosto, agoniado.
— O que eram aqueles bichos? — indagou Giuseppe.
— Cães do inferno. — respondeu Frank — O elemento surpresa. Foi obra do Chernobog, tá controlando eles talvez. Ou saíram do abismo ou já estavam aqui esperando serem soltos.
Owen balbuciava com dificuldade.
— Shh, fica quieto, não se esforça. — disse Carrie agachando-se — Seu grande imbecil! — reclamou, chorando.
— Isso... não é jeito... de agradecer o cara que salvou sua vida. — disse Owen que perdeu os óculos no embate. Vomitou um pouco de sangue, sendo amparado por Carrie.
— Aquela coisa em que ele pisou... — disse Giuseppe — ... vinha desses cães monstruosos.
— Os cães do inferno deixam rastros de sangue dos próprios órgãos. Se tiver olhado bem, viu que as entranhas deles são expostas, carne podre do pior tipo. — disse Frank — São espíritos de cães que foram mortos por seus donos ou outras pessoas, daí renascem do inferno pra se vingarem.
— Sério? Nunca tinha me contado. — disse Carrie, atordoada com o estado de Owen.
— O que faremos agora? — indagou Giuseppe que também estava sem óculos — Nosso arsenal esgotou. E não podemos deixa-lo aqui... não nessas condições...
— Quem falou em deixa-lo? É loucura! — declarou Carrie.
— Não é não. — redarguiu Owen, fraco.
— O quê? O que quer dizer? — disse Carrie, exasperada.
— Owen, daremos um jeito de levar você a um hospital. — disse Giuseppe — Ainda há chance.
— Não pra mim! — respondeu ele, bravo — Mas pra vocês, sim. É bem simples: vocês... me abandonam aqui e correm... e eu fico de isca... pros cachorros demoníacos.
— Não! — disse Carrie sendo segurada por Frank.
— Odeio admitir... Mas é um plano viável pra gente se salvar. Acho que o único. — disse Frank, abalado — Eles são atraídos por cheiro de sangue humano a quilômetros. Não detonamos nem com metade deles, com certeza. Eu sinto muito, Carrie.
A assistente desabava no ombro de Frank.
— Mas tem que ser... uma cilada. — disse Owen.
— Como? — perguntou Giuseppe, tenso.
— Uma bomba. De preferência, C4. Nessa loja... deve ter materiais químicos, plastificantes... tudo que é necessário. Depressa, antes que eu apague de vez...
— Fica comigo, Owen. — disse Carrie segurando a mão do amigo — Não deixa a gente agora, seja forte.
Frank e Giuseppe procuravam os itens essenciais para fabricar o C4. Montaram a bomba em cerca de meia hora. A colocaram no colo de Owen.
— Assim que eles entrarem... eu giro as chaves... e mando tudo pros ares.
Carrie beijou a cabeça do criptógrafo em despedida.
— Owen, você será lembrado como nosso herói. — disse Frank — Se não ficasse só nos videogames e nos códigos, daria um bom caçador. A coragem de um você demonstrou.
Owen ainda possuía forças para rir nem que isso elevasse a dor extrema que sentia.
— Vamos, Carrie, temos que ir. — disse Giuseppe — Já destranquei a porta. Owen... Obrigado, filho. Deus conserve a sua alma.
Os três saíram da loja apressadamente. A porta aberta junto ao odor de sangue exalando era um convite aos cães do inferno. A matilha corria massivamente, pulando carros e desviando obstáculos. Logo que invadiram a loja, foram pegos na explosão estremecedora após Owen detonar a bomba. O trio parou para olhar atrás a nuvem de fogo e fumaça que subia poderosa.
Carrie deu um último olhar triste e logo tornou a correr junto aos dois amigos que ainda tinha. Arranjaram um caminhão robusto com o qual atravessaram as barricadas agressivamente, seguindo rumo ao abrigo.
***
Na área de entrada da instalação reserva da ESP, Hoeckler recebia os novos ocupantes adicionais.
— Bem-vindos a nossa base alternativa. Agora, o mais novo doce lar de vocês. Ainda bem que saíram ilesos do cerco. — percebeu os semblantes tristonhos — Que caras são essas?
— O Owen... ele viria conosco. — disse Frank.
Hoeckler entendeu rapidamente.
— Eu sinto muito. Não o conhecia pessoalmente, mas... sei que era um excelente profissional.
Carrie foi andando adiante, cobrindo a boca aos prantos e soluços.
— Ela era muito apegada a ele? — indagou Hoeckler.
— Mais do que você imagina. — disse Frank, logo indo na frente de Giuseppe.
O detetive se largou na sua cama olhando para o sem graça teto forrado branco do quarto. O olhar taciturno estava estático com a imersão de pensamentos que não pararam de ir e vir. Subitamente se viu deitado no chão sujo do que parecia ser uma penitenciária.
— Ei, que negócio é esse? Onde é que eu tô? — se perguntou, levantando — Num sonho é que não é. Olá! Alguém?
Caminhou pelos corredores entre celas vazias, reconhecendo.
— É a prisão Roosevelt... Os prisioneiros foram transferidos como deu no jornal hoje cedo. Pensei que era balela.
Entrou no refeitório, mas estava em companhia lá. Frank sacou uma arma mirando no momentos de costas com roupa de carcereiro.
— Lugar familiar, não é mesmo, Frank?
— Pois é, passei umas férias aqui, mas não me diverti nadinha. Vira pra mim.
— Ou o quê? Vai atirar? — debochou o homem dando uma risadinha. Ele virou-se, mostrando uma aparência extremamente pálida e olhos negros como duas órbitas vazias. Frank baixou a arma, surpreso — Pelo visto, o seu abalo emocional não interferiu na sua percepção afiada.
— Você... Você é ele. Fala através dos infectados como se fosse um demônio possuindo. — inferiu o detetive, o tom sério — Chegou quebrando tudo pra depois se apequenar. Parece um ato de covardia pra mim.
— Se engana caso pense que é uma estratégia de fuga. Não é porque aqueles vermes alados são incapazes de me prender nesta forma que me manterei assim para sempre.
Mais pessoas surgiam no espaço.
— O que significa isso? — indagou uma voz familiar para Frank que virou-se. Tivera outra grande surpresa.
— Miyako?! — disse Frank vendo a caçadora de mitos japoneses ali — Mas...
— Sr. Montgrow! — disse ela correndo até Frank, abraçando-o — Faz alguma ideia de onde estamos e porque fomos parar aqui?
— Tô tão perdido quanto você. Aquele cara ali pode nos responder, mas não interage com ele, vai por mim.
E mais uma reação de espanto.
— Não... É brincadeira. — disse Frank olhando a pessoa que entrava também confusa da circunstância — Natasha?! Até você?
A caça-vampiros notou rápido a presença de Frank e esboçou um leve sorriso de alívio.
— Frank! Nossa... Eu nem sei... Enfim, é ótimo rever você, claro, mas esse não é bem um contexto que eu imaginava pra um reencontro. — disse Natasha esquadrinhando o local.
— Amiga sua? — indagou Miyako.
— Das boas. Caçadora como você.
Rostos desconhecidos adentravam. Um homem negro e careca, uma mulher negra de cabelos em dreads, além de mais dois sendo rapazes de vinte e poucos anos. Todos caçadores.
— Só gosto de vir pra reuniões quando sou avisado. — disse o homem afro-americano — Vocês aí — olhou para Frank, Miyako e Natasha – Quem é o engraçadinho que fez truque de mágica pra me tirar do conforto da minha casa?
— O carcereiro endiabrado aqui atrás. — disse Frank apontando com o polegar.
— O esquisito aí? Vou cuidar disso, sou ótimo interrogador.
— Opa, segura o facho aí. Quer tratar com ele de caçador pra monstro? Entra na fila. — aconselhou Frank o barrando com um toque no peito — Como se chama?
— Omar. E não me toque desse jeito outra vez. — disse ele baixando calmamente a mão de Frank.
— Sou o Frank. Prazer. — disse ele olhando-o estranho — E vocês? Podem se identificar?
— Dylan. — disse um deles, um rapaz meio loiro.
— Ivan. — disse o outro de origem russa.
— Sarah. — disse a mulher afro-americana — Será que alguém poderia fazer a gentileza de me situar sobre que merda tá acontecendo aqui?
— Eu me permito. — disse Chernobog — Afinal, eu quem os trouxe. Vocês são os caçadores mais ativos neste mundo, me sinto honrado em recebe-los.
— Quis dizer nos sequestrar, né? — disse Natasha.
— Se não disser qual é a sua vou mandar chumbo. — disse Omar apontando sua arma.
— Vamos todos nos acalmar, ele não é o que vocês pensam. — alertou Frank — Sabe a queda de Danverous City? Ele é o culpado!
Um outro membro da reunião surgia. Era um homem com vestes nada convencionais, similar a um traje de cavaleiro medieval com malha azul marinho e armadura cinza escuro. Mas o detalhe mais chamativo era a máscara de ferro que ocultava inteiramente seu rosto.
— E você quem é? — perguntou Frank ao misterioso sujeito de porte atlético que permaneceu em silêncio parecendo indiferente — Tá legal, Mister M.
— Todos aqui se identificaram! Se for uma regra, ele não devia ser exceção só porque usa essa máscara! — manifestou-se Sarah.
— Eu concordo. — disse Natasha.
— A favor. — disse Dylan levantando de leve a mão direita.
— Ele está no seu direito. Todos aqui são livres enquanto estiverem jogando. — disse Chernobog.
— Jogando o quê? Que jogo é esse? Vai nos inserir num sistema super complexo de armadilhas? — questionou Frank.
— Não, algo mais econômico. Vocês farão o que sabem fazer de melhor. Matar, estripar, esfaquear, desmembrar... Mas com um propósito maior à vista. Todos querem a cura para esse vírus, certo? Eu sou a doença e também a cura. O vencedor que matar 100 monstros dentro de 10 dias a obterá, contanto que complete uma marca fixada em seus braços esquerdos que vai progredir conforme mais sangue de monstros derramarem.
Todos refletiam com suas respectivas visões sobre o tal jogo de caça.
— Dez dias?! Vamos nos sobrecarregar assim. — disse Natasha.
— Eu não me dou ao luxo de atender objeções. Comecem logo se quiserem viver. Mas asseguro que se estiverem a beira da morte durante um confronto, a marca se converterá na minha essência e os infectará com o vírus. Enquanto estiverem intactos, ela os imuniza. Até breve.
Frank retornou em nanosegundos ao quarto antes que abrisse a boca para perguntar algo. Carrie e Giuseppe entraram.
— Frank, onde você se meteu? — perguntou ela.
— Estávamos procurando você em todo o bunker. Carrie entrou e viu que não estava, então acreditou que tivesse sido... abduzido.
— E eu fui. — disse Frank, pensativo e nervoso — Por ele. — olhou para os dois — Chernobog.
— O que eles quis com você? — perguntou Carrie.
— Se preparem pra ouvir a mais nova sinuca de bico em que fui metido. — disse Frank, a face de seriedade que também transmitia uma atípica insegurança vinda dele.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

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