Ylon - 2013
Em uma das pousadas mais requisitadas da pacata cidade fronteiriça a Danverous City, uma família composta de 7 pessoas ao todo se hospedava aproveitando o fim de semana imperdível naqueles últimos dias de inverno. Na tarde de sexta, logo no dia inicial daquela folga, Maggie e Ben resolveram dar uma festinha com churrasco entre amigos ao ar livre. As crianças eram três, filhos do casal, e brincavam com uma bola no gramado alguns metros próximo da floresta que conduzia a um pântano.
— Cuidado com essa bola vocês aí. Lembrem-se do que falei caso joguem ela fora do campo. — disse Maggie, mulher na casa dos 40 anos, cabelos castanhos claros e ondulados emoldurando um rosto atraente e jovial, levando uma bandeja com copos enchido de refrescos de uva — Quero que repitam o que eu disse.
— Chamar o papai pra pegar se a bola cair! — disseram os três irmãos, Clark, Valerie e Mia.
Ben olhou para trás enquanto cuidava da churrasqueira fumaçando, lançando um sorriso fechado e brincalhão para a esposa.
— Logo o mais corajoso da família. — disse ele.
— Até parece. — retrucou Maggie, risonha — No primeiro som de animal nessa floresta você já viria correndo, com ou sem a bola.
— Espero que eles joguem longe pra você pagar pra ver. — disse Ben — Mas aí não haveria ninguém bom o suficiente para olhar a carne. Não é, Floyd?
O tio Floyd baixou sua revista de atualidades para encarar o irmão por cima dos óculos escuros. Estava sentado relaxadamente numa cadeira de praia.
— Eu a deixaria mais bem-passada.
— É, sei. No ponto de carvão. — disse Ben levando a esposa e suas cunhadas aos risos.
Alguns minutos depois, eis que a bola acabou sendo arremessada para dentro da floresta. Mia, a mais nova dos irmãos, de apenas 8 anos, se prestou a ir pegar.
— Eu pego, eu pego, eu pego! — disse ela, correndo direto para a mata densa. Clark e Valerie olharam um para o outro e depois para os pais que mal haviam notado, distraídos numa conversa embalada por risadas altas.
Mia se embrenhou na floresta a passos rápidos sujando seus pequenos tênis brancos de terra úmida ao desviar das árvores e folhagens. Procurou a bola vermelha por ali largada. A achou em pouco tempo e sorriu ao encontra-la, seus cabelos de maria-chiquinha balançando ao correr. Pegou-a e logo correu de volta, não tendo se perdido. Porém, sons a fizeram parar para escuta-los. Eram vozes familiares... literalmente familiares. Esquadrinhou a floresta em todas as direções querendo detectar a origem de tais vozes que pareciam aumentar à medida que se atentava em ouvi-las.
Seus olhos marejaram enquanto ouvia falarem mal dela, do quanto era uma garotinha irritante e chorona. Escutou a voz de seu pai falando que a odiava e que esperava ter mais um menino, não outra pirralha que só sabia mendigar atenção. Mia andava fora do trajeto em retorno aonde estavam seus irmãos agarrando a bola, as lágrimas transbordando. Ouviu Valerie a chamar de feia e Clark a dizer que ela nunca devia ter nascido. Quando o choro tomou conta do deu emocional completamente, correu sem rumo.
Mas logo parou escutando uma outra voz, esta rouca e sombria, nada reconhecível.
— Quem está aí?
A chamava pelo nome, guiando-a até o pântano no qual era desaconselhável pescar ou nadar. Mia parou na beira do lago de águas verdes e pouco convidativas, se inclinando para seu reflexo. Logo viu através dele uma figura distinta atrás dela empoleirada no galho de uma árvore robusta. Parecia algum tipo de lobo em forma humanoide, sendo raquítico e de aparência repulsiva. Mia arregalou os olhos ao ver a criatura espectral brilhar seus olhos em um vermelho penetrante. Quando menos esperou, sentiu seu corpo ser chutado para o lago.
Seus gritos de socorro eram inaudíveis na distância que tomou desde a pousada, se afogando. A visão enturvada de Mia encarava a criatura macabra que ria maleficamente de seu vão esforço em nadar para sobreviver.
***
Vanderville
Em mais um de seus corriqueiros casos de investigação paranormal, o detetive Frank Montgrow, na manhã seguinte ao desaparecimento da garotinha no pântano, lidava com uma presença demoníaca numa casa modesta localizada numa área residencial de classe média baixa.
O monstro infernal adentrou no corpo de uma adolescente chamada Kristen, se recusando a deixa-lo não importando o número de vezes que o detetive utilizasse de seus métodos específicos de atordoamento. Kristen havia amanhecido diferente, segundo o pai, indisposta e apática, tendo expressado os sinais mais reconhecíveis da possessão poucas horas depois. Frank foi chamado por telefone pois já havia ajudado o homem contra aparições fantasmagóricas certa feita. A garota precisou ser amarrada nas mãos e nos pés por ambos — com exaustivo esforço.
Naquele quarto de atmosfera pesada e sufocante, Frank já estava quase anunciando sua desistência após as tentativas mal-sucedidas. Enquanto isso, o demônio ria com seu escárnio revoltante, mostrando traços de seus rosto autêntico por baixo da pele de Kristen como dentes pontiagudos e salientes, além dos olhos inteiramente negros.
— Qual é o próximo truque que tem a me mostrar, caçador? Canta mais uma daquelas canções de ninar. — disse a criatura, rindo zombeteira.
— E agora? Não há mais nada ao que recorrer? — indagou o pai, Calvin, desesperado ao lado esquerdo de Frank.
— Eu só sei os exorcismos clericais, mas como já te falei... Funcionam quando são recitados por pessoas que estejam em total comunhão sagrada. — disse Frank que usava um casaco azul por baixo de uma camisa branca — Acho que devia mesmo ter chamado um padre.
— Finalmente concordamos em alguma coisa. — disse Calvin, aborrecido com a ineficiência. Mas logo tratou de sugerir uma ideia drasticamente decisiva — Vamos... Vamos ter que mata-lo dentro dela.
— Não, fora de questão, Calvin! Deixa comigo, eu dou um jeito nesse troço nojento aqui! Não se mete, fica aí, a sua filha não tem que ser sacrificada!
— Mas já tentou de tudo e nada adiantou! Como acha que eu não vou decidir por um meio mais radical? É a minha filha, detetive! Eu decido se ela vive ou morre numa situação como essa!
Frank reagiu desferindo um soco em Calvin, derrubando-o. O golpe levou-o a inconsciência imediata.
— Oh, você o pôs pra dormir!? Será que virou a casaca pra me desamarrar e restituir minha licença pra matar? — perguntou o demônio.
— Cala a boca, seu merda! — disse Frank jogando mais água santa, fazendo o rosto de Kristen arder até fumaçar. O demônio gritou com o efeito causticante do líquido sobre a pele que tornou horrivelmente pálida. O detetive viu que o frasco havia esgotado e o jogou no chão.
— Parece que suas chances estão indo embora, caçador. Não tem mais nada na manga mesmo? Cadê o seu ás infalível pra me tirar deste lindo corpinho? Eu gostei tanto dela, esses lindos cabelos pretos tão bem cuidados... Quando eu sair daqui, vou corta-los e me passar por ela numa versão diferente do que os amigos conhecem. Mas não sem antes saborear um purê de carne de caçador.
Frank o encarou furioso, já considerando qualquer alternativa duvidosa que pudesse ser efetiva por mais desesperada e absurda que parecesse. Pegou um pote de sal, abriu-o e dentro jogou todo o óleo sagrado que restava, misturando bem numa diluição concentrada. Tampou, logo agitando.
— O que é isso? Hora do café da manhã? — perguntou o demônio.
— Um bem nutritivo pra você! Quer experimentar? Então, toma! — disse Frank, logo rapidamente abrindo o pote e enfiando a solução na boca de Krisren. O demônio engolia o conteúdo tendo espasmos intensos como se estivesse convulsionando.
Frank afastou-se vendo-o se contorcer loucamente em piruetas horrendas. O demônio se desprender das amarras flutuando deitado no seu contorcionismo que dava a impressão de que os ossos de Kristen iam sendo fraturados um a um. As pernas e braços viravam, tal qual a cabeça girando em 360° enquanto o monstro soltava gritos de cólera e dor. Ficou de barriga para cima levitando, enfim saindo do corpo de Kristen que caiu na cama com tamanho impacto que quebrou as pernas do móvel. O monstro infernal caiu sobre o chão de cócoras e virou o rosto hórrido de pele preto-azulada para Frank.
Antes que o detetive sacasse uma arma para disparar balas embebidas de água santa, o demônio tratou de fugir atravessando a parede. Kristen despertou tossindo com um gosto agre na boca. Vomitou um bom volume da substância resultado do sal e óleo sacro unidos. Frank fez uma expressão de nojo cerrando os dentes enquanto ajudava Calvin a levantar quando ele acordava.
— O que aconteceu? Minha filha... — disse o homem, desorientado e sentido forte dor no rosto — Alguma coisa me acertou e... eu apaguei. Foi aquele monstro?
— Honestamente, fui eu. — disse Frank — Mas por uma boa razão.
— O quê? Foi você, detetive Montgrow? Por que? Eu tinha uma ideia que poderia resolver tudo...
— Já cuidei disso. Olha ali sua filha.
Calvin voltou sua atenção para Kristen sentada na cama sem entender nada do que ocorreu. O pai correu ao abraço de sua filha, emocionado.
— Não faz ideia do quanto tive medo de perder você para aquela coisa medonha que roubou seu corpo.
— Do que está falando, pai? Não tô lembrando de nada... Argh, o que me fizeram beber? Eu acho que vou ficar com esse gosto horrível pra sempre!
— Relaxa, vai passar em... alguns dias, talvez semanas. — disse Frank — Calvin, eu te poupei de ver umas coisas bem bizarras, vai por mim. Teria tido um treco se visse o que aquele desgraçado fez quando enfiei goela abaixo o suquinho que preparei especialmente pra ele.
— Não precisa explicar o que fez ou como fez, detetive. Sou eternamente grato a você. — disse Calvin, comovido, abraçado a filha ao lado dela.
— Pai, quem é ele? Dá pra alguém me explicar que merda tá acontecendo aqui?
— Olha essa língua hein.
— Você ouviu coisas ainda piores da boca dela. — disse Frank — Bom, não era ela, mas... soou como se fosse, né? Enfim, vou indo nessa, vocês precisam de um momento a sós pra digerir toda a loucura que aconteceu aqui. Te agradeço pelo chamado, Calvin. Quando precisar, não hesita.
— Está bem, detetive. Foi uma honra receber sua ajuda. Lá no fundo eu sabia que conseguiria. Desculpe se eu me excedi, você sabe, eu estava a beira de enlouquecer de tanto desespero...
— Não tem que se desculpar por nada, entendo perfeitamente como se sentia. Agora cuida da sua filha, vocês precisam mais um do outro do que mim agora, meu trabalho aqui tá 100% encerrado.
— Até mais, detetive Montgrow, não vou me esquecer das recomendações.
Frank deu um joinha com uma piscadela e um aceno positivo de cabeça ao sair do quarto. O detetive retornou ao carro, sendo surpreendido por uma ligação de sua mãe. Atendeu prontamente, pondo no viva-voz.
— Alô, mãe? O que é que foi? — perguntou ele, o aparelho próximo a boca.
— Filho, ainda está na cidade?
— Ahn, tô... Tô sim, mas quase de saída depois de solucionar um caso de possessão demoníaca. Mas, pra senhora ficar tranquila, correu tudo bem no fim das contas quando tinha tudo pra acabar pior do que começou.
— Que ótimo, graças a Deus. Eu preciso que venha aqui em casa, depressa.
— O que é, mãe? Não dá pra ser mais direta? Assim me deixa ansioso, me faz ter maus pensamentos. O coração chega disparou...
— Não é nada com que tenha que se preocupar sobre mim. Chegou aqui uma novidade pra você.
— Boa ou má notícia?
— Maravilhosa, meu filho. — disse Heather, a mãe de Frank com um entusiasmo explícito. O detetive se deixou sorrir leve, esperançoso.
***
Ao chegar na casa de sua mãe, Frank não se continha de tamanha inquietação, entrando rápido ansiando saber do que se tratava. Heather veio da cozinha e se alegrou ao vê-lo.
— Oh, aí está você. Dá pra perceber que veio a mil por hora nesse carro de segunda mão. Bem, acho que dessa vez terá a chance de adquirir um zero quilômetro e mais recente. — disse ela com seus cabelos pretos meios grisalhos nas pontas caindo aos ombros. Usava um casaquinho cinza por baixo de uma blusa amarela clara e calças azuis. Trazia algo escondido na mão direita atrás dela.
— Como pode ter tanta certeza? — indagou Frank franzindo a testa com um sorrisinho, gostando do ar de mistério incitado pela mãe.
Heather mordeu os lábios, sorrindo contida.
— Graças a isto. — disse ela, mostrando um envelope e entregando-o ao filho — Abra.
Frank o pegara, abrindo depressa e leu a carta dobrada na íntegra, não escondendo sua emoção.
— Ai meu Deus, não tô acreditando... Me segura que eu acho que vou cair. — disse Frank fazendo a mãe rir — Nossa, eu não dava nada pro teste que eu fiz... E olha só aqui: uma carta de admissão novinha na minha mão.
— Um representante do DPDC veio pessoalmente entregar. Falou que você passou não apenas pelo seu desempenho, mas também por dois candidatos terem desistido. Ah, meu filho, você é um homem de muita sorte. — disse ela, afagando os braços de Frank. Logo se viu uma mudança de semblante repentina, uma tristeza enchendo sua face.
— Espera, mãe, pra quê essa cara? Fica feliz, seu bebezão é o mais novo detetive prioritário do DPDC. Não é que eu queira me gabar, mas isso pede uma comemoração daquelas. Só uma pena que... nossa família não seja tão extensa pra realizar uma festinha.
— Mas é por essa razão que me preocupo. Somos tão poucos e... Desde a partida do Klaus foi como se essa família tivesse perdido uns 10 membros de uma só vez. Ele era um homem digno como você, devotado ao trabalho porque a vida dele dependia disso. Eu sei que certamente você não vai largar de seguir os passos dele quando estiver por aí atuando como agente do DPDC. — disse Heather olhando fundo nos olhos do filho.
— Olha, mãe, vamos focar nessa conquista por enquanto. Quando a senhora fala do papai, vem toda aquela melancolia e num momento como esse não é a melhor ideia remoer os mortos. Eu vou ficar bem, independente do que eu enfrentar. Sim, agora que eu não vou mesmo me afastar do negócio de família. Mas sei que a senhora tá assustada porque... claro, isso vem com mudanças, isso te deixa com incertezas. A mim também, dá um certo medo do futuro.
— Não, tudo bem se as coisas mudarem entre nós. Se ficarmos mais distantes, é melhor pra você, precisa se distanciar mais do seu ninho. — disse Heather, tocando no rosto de Frank carinhosamente — Não importa quantas vezes eu olhe pro seu rosto, sempre vou lembrar do Klaus. Ele vive em você. Corre nas suas veias.
Frank comprimiu os lábios, controlando os sentimentos em relação a nostalgia da mãe. Apoiava as rememorações, mas a ocasião requeria um tom diferente, fora do clima de saudade incurável pela morte do pai de Frank, um caçador tão destemido quanto ele.
— Nunca vai estar sozinha. — disse Frank, tocando-a no ombro — Esteja eu perto ou distante. O espírito do papai tá olhando por nós de algum lugar. — fez uma pausa, logo voltando a sorrir — E chega de aluguel. — sua mãe riu, baixando a cabeça.
— Já pensou onde vai morar?
— Sabe aquela casa na zona norte de Danverous City que te mostrei pela internet uma vez? Ela tá a venda. Com o salário gordo que vou ganhar, dá pra pagar de boa as prestações. Vou até entrar em contato com o proprietário, espero que ele ainda conte comigo pra fechar negócio.
— Deus queira que sim. Você vai agora lá?
Frank suspirou fazendo suspense.
— Não sem antes de saber o que a senhora fez pro almoço hoje.
— Ah, seu glutão, eu já devia imaginar. Vem, já está quase pronto. — disse Heather virando-se para ir a cozinha com Frank seguindo-a.
***
Departamento Policial de Danverous City
Frank passava por um corredor um tanto perdido pois era aquela ainda era a segunda vez que pisava naquele prédio gigantesco de 28 andares. Tentava sucessivamente pegar informações quanto a sala do diretor operacional, mas todos que abordava o ignoravam ou se recusavam a falar.
— Povinho mais mal-educado. — resmungou, dobrando por um corredor. Acabou esbarrando numa assistente chamada Carrie Wood, uma mulher próxima de completar 40 primaveras qie tinha um chamativo cabelo ruivo meio escuro e alaranjado em estilo chanel quase tocando os ombros com uma franja bem alisada. Seu rosto tinha feições que indicavam logo de cara ter um aspecto maternal com olhos castanhos que transmitiam agradabilidade.
— Ops, desculpa, quase derrubei essa pilha de papéis... — disse ela, tomando cuidado.
— Não, eu que me desculpo, devia andar mais devagar nesses corredores. — disse Frank sorrindo educadamente — É que ando com pressa pois tô procurando o diretor Duvemport.
— Oh, a sala dele fica a três corredores. Direita, esquerda e direita. — disse Carrie apontando para a direção de onde veio — Acabei de sair de lá. Agora tenho que voltar pra minha sala e... Não conheço você...
— Ah, eu sou Frank. Frank Montgrow. Vim pra confirmar minha admissão como agente prioritário. Obrigado por me informar. — disse Frank, tornando a andar rumo ao gabinete do diretor.
— Disponha. — disse Carrie que também voltou a sua caminhada, porém virou-se para ele com ar de surpresa como se uma determinada palavra tivesse passado despercebida e começou a ecoar na sua mente para alerta-la — Ele disse prioritário?!
Frank logo encontrara a sala de Ernest Duvemport, o respeitado e condecorado diretor operacional do departamento. Bateu à porta dele.
— Está aberta, entre! — disse Ernest com sua voz severa de coroa. Frank abrira a porta vagarosamente, olhando com timidez o interior do recinto de trabalho do seu novo chefe.
— Olá, eu vim...
— Eu sei, não precisa dizer, venha, sente-se. — disse Ernest, um homem na casa dos cinquenta anos de cabelo em elegante corte social todo branco assim como a barba bem feita. Trajava-se de um terno preto bem passado com uma gravata vermelha de seda — Digo, fique de pé. — pediu ele, levantando-se — Muito prazer, é de muita valia termos um vencedor neste cargo após tanto tempo de buscas insatisfatórias.
— Eu agradeço demais pela oportunidade, senhor. Não tem ideia do quão abençoado eu me sinto por ter me escolhido. Olha, eu prometo agir em nome da lei, seguir o regulamento a risca, assino até contrato de fidelidade...
— Rapaz, aqui não é uma entrevista de emprego. — disparou Ernest, interrompendo-o rígido — O cargo já é todo seu, mas ainda é cedo pra juramentos.
— Peraí, então eu não vou assinar nada ou ganhar meu distintivo hoje?
— Vai sim, claro que vai. Mas por ora isso não é relevante. Existe mais uma etapa a ser ultrapassada.
— Quer dizer... um último teste? Mas pensei que a bateria de provas tinha encerrado dentro do esquema que me apresentaram. — salientou Frank, sentindo-se confuso — Falta mais uma?
— Exato. Queira me acompanhar, por favor. — disse Ernest indo até a porta. Abriu-a e saiu da sala, gestuando com a mão direita para Frank segui-lo. O detetive não teve outra escolha a não faze-lo por mais contrariado que se sentia quanto ao número de testes.
— Sem querer parecer indelicado, mas... Gostaria de saber pra onde está me levando. — disse Frank, extremamente curioso.
— Ao nosso último teste, lógico. — disse Ernest, vagamente. Frank expirou pela boca, tentando manter a paciência. Após passarem por alguns corredores, ambos adentravam numa sala mergulhada em total escuridão. Ernest tateou a parede, encontrando o interruptor e acendendo a luz branca-amarelada de uma lâmpada que iluminou apenas uma mesa com duas cadeiras.
Frank olhou para os equipamentos sobre o móvel, dentre eles un laptop. Mas um em especial lhe chamava a atenção.
— Aquilo ali é um... polígrafo? — perguntou, apontando para o aparelho de tamanho médio próximo ao computador.
— Agora sim, sente-se. — disse Ernest puxando uma cadeira — Não esperava uma sabatina, né?
— Até que eu previ, mas dessa forma, sem querer ofender, acho muito drástico. — disse Frank, resistindo — O senhor tem minha total confiança, pode acreditar.
Ernest riu com ironia.
— Pensa que me convence apenas me pedindo simplesmente que confie em você? Devia ver o histórico de agentes imprudentes com os quais lidei em anos de carreira. Vamos, sente-se. Encare como um exame de rotina, é uma checagem de aspectos físicos e mentais que lutei pra que fosse aprovada unanimemente pelo Conselho de Segurança. Não quero arriscar a credibilidade e a reputação da corporação acreditando cegamente que um homem dizendo ter princípios valorosos pode agir dentro das normas, não outra vez. — fez uma pausa, olhando fixamente para Frank — Vou pedir novamente: sente-se. Ou melhor, é uma ordem.
Frank relutantemente sentou na cadeira e procurou amainar-se emocionalmente. Ernest preparou o procedimento colocando os galvanômetros nos dedos da mão direita e os pneumógrafos no tórax. Na tela do laptop seguia-se a leitura dos sinais vitais como pulso e respiração, variando conforme as respostas.
— Onde mora? — iniciou Ernest, atento às medições.
— Em Danverous City, rua McCallister, 1244, zona leste. Mas tô prestes a me mudar pro norte, uma casa que tá a venda por parcelas.
— Ótimo... apesar dessa última informação ser desnecessária... Próxima pergunta: Tem histórico de alcoolismo relacionado a delitos como limite de velocidade ultrapassado?
— Não, senhor. Bebo geralmente entre amigos, de vez em quando em casa, coisa bem social.
— Já experimentou drogas ilícitas?
— Nunca.
A leitura prosseguiu favorável ao detetive.
— Histórico de agressão por surtos psicóticos?
— Nenhum.
— Possui desordens e transtornos mentais diagnosticados?
— Não, senhor. Sou plenamente são.
— Traumas não superados?
— Talvez só... a morte do meu pai. Foi esse evento traumático que me inspirou a seguir à carreira policial depois de servir nas forças armadas por quatro anos.
— Não diga "talvez" ou "eu acho". O detector exige certeza absoluta para que você passe sem leituras que indiquem uma possível mentira. Continuemos: a sua inspiração foi pela circunstância em si?
— Sim, eu... Meu pai desapareceu em Vanderville, ele também... também era policial.
A medição registrou uma primeira indicação de mentira.
— Ouviu este som? O detector captou uma ligeira variação nos seus sinais, sendo assim... esta mentindo. — disse Ernest, mordaz — O que não quer me contar a respeito do seu pai ou... a seu respeito, Frank?
— Por que o senhor de repente ficou interessado em saber do meu pai? Vai fazer perguntinhas capciosas agora pra desvendar algum segredo meu?
— Mais uma variação. Frank, seu humor calmo mudou para uma intranquilidade muito óbvia. Essa pergunta acerca do seu pai incomoda você. Por que exatamente?
— Por que o que envolve minha família tem quer ser mantido como um segredo de estado.
— A última passagem de seu pai foi em Vanderville, certo? Ele desapareceu ou foi dado como morto?
— Acredito que ele esteja morto a essa altura. Já fazem 22 anos. — disse Frank entre a cruz e a espada sobre o controle das emoções.
— Vanderville, justo a cidade onde se acumulam relatos de manifestações estranhas e obscuras... comumente tidas como paranormais.
— Agora chega! — disse Frank, subitamente reagindo contrário ao teste, tentando remover os fios — Vou embora, cancela a admissão!
— Outra variação, essa bastante intensa! Frank, preciso que fique aí, não se atreva a levantar! Estou ciente do que ocorre nas sombras tanto aqui em Danverous City quanto nas regiões circunvizinhas, casos aparentemente normais que escondem evidências extraordinárias. Você lida com esses casos específicos ou não, Frank?
A resposta demorou alguns segundos, mas pela maneira como Frank encarava o processo, com sudorese e mãos geladas, era inescapável que o negócio oculto de familia viesse a ser exposto.
— Sim. — disse ele, baixando a cabeça como sinal de rendição. O polígrafo não registrou leitura que denunciasse mentira.
— Muito bem, nós encerramos por aqui. — disse Ernest, desligando o aparelho — Meus parabéns, você passou na avaliação. Quem diria, um detetive paranormal contratado no DPDC.
— Eu achava que...
— Que eu fosse mais um ignorante e incrédulo? Com tantos debates científicos e testemunhas oculares de eventualidades sobrenaturais esnobados pela mídia, além dos crimes sem solução de indícios fora do normal... não iria mesmo me fechar na bolha dos que acreditam no mundinho pequeno em que nós somos a espécie dominante. — disse Ernest, firmemente.
Frank não parava de fitar o diretor com pasmo.
— O senhor agora tem minha confiança pra lidar com esses casos... Mas preciso saber se eu tenho a sua pra não vazar nada sobre mim.
— Dou a minha palavra... de que o seu esqueleto no armário está seguro.
Os dois saíram da sala indo até a que pertencia à Carrie.
— Quero que conheça sua assistente, é uma das mais disciplinadas. Recusou o cargo de secretária porque não gosta de servir cafezinho pro chefe.
— Não, pode dispensar assistentes, eu trabalho melhor sozinho, sempre foi assim nos distritos onde passei. Eu era da divisão de homicídios, nunca tive um parceiro, muito menos parceira.
— Só que aqui não é somente mais um distrito policial. A grandeza do DPDC deve ser igualmente proporcional à capacidade de seus funcionários e o trabalho coletivo se inclui nisso para reforçar a competência. — disse Ernest, logo batendo na porta — Terá que se adaptar, Frank. Carrie é uma excelente profissional, você vai gostar dela e do trabalho que ela oferece.
Carrie abriu a porta, meio desconcertada ao ver Frank ali junto de Ernest.
— Você?! Nossa, que coincidência. — disse Frank achando engraçado.
— Já se conhecem de outros carnavais? — indagou Ernest.
— A gente esbarrou no corredor... Frank Montgrow, não é? — disse Carrie, olhando-o estreitamente.
— Sim. Você é boa em lembrar nomes.
— Sou muito melhor do que pode imaginar. — disse Carrie, levantando uma sobrancelha — Pra quê modéstia? O diretor comprova minha eficiência todo santo dia e isso me basta.
Ernest deu uma piscadela simpática para ela.
— A minha validação é importante pra quase todos daqui. Menos pro superintendente. Inclusive, vou requerer a transferência da Srta. Wood ao seu gabinete para ele ainda hoje. Mas com meu aval, já podem até mesmo resolver um caso... — Ernest olhou de soslaio para Frank — ... do tipo que gera dúvidas acima da média.
— Tem uma sugestão em mente? Quero dizer, uma ocorrência sem investigação ainda? — perguntou Frank.
— Um desaparecimento em Ylon. Uma família teve seu fim de semana arruinado após a filha caçula misteriosamente desaparecer quando se enfiou numa floresta para pegar uma bola. — informou Ernest — Estavam hospedados na pousada Hauser. Aliás, ainda estão. Soube que os pais da menina não querem deixar o local até que a polícia a encontre viva ou morta.
— Pousada Hauser... Esse lugar não fica perto de um pântano? — perguntou Frank.
— Sim, há um pântano depois da floresta. Existem lendas em torno dele, mas obviamente que estamos tratando de fatos aqui. — disse Ernest olhando para Frank sugestivamente.
— Não quer entrar? — pediu Carrie a Frank.
— Obrigado. — disse Frank, aceitando. Ernest os deixou a sós na sala particular da assistente.
— Bem-vindo a minha senzala moderna. — disse Carrie indo até sua mesa — Aceita um café?
— Nosso chefe me contou que você não gostava de servir café. — disse Frank, sentando-se — Que foi por isso que não quis ser secretária.
— Eu não gosto é da monotonia. Prefiro a emoção de participar da rota investigativa cuidando dos detalhes nos bastidores. — disse Carrie pegando um copinho descartável e indo até a cafeteira — Puro ou no leite?
— Não, obrigado pela gentileza, mas não quero. Podemos discutir esse caso da menina desaparecida?
— Tudo bem, eu tô meio ansiosa pra ver como é sua metodologia. — disse Carrie sentando-se na sua cadeira — Vai ser ótimo pra irmos nos vinculando melhor trabalhar num caso logo depois de você ser contratado.
— Ele me submeteu a um polígrafo pra avaliar minhas condições gerais. Eu fiquei... meio chocado com isso. O DPDC tem muita sofisticação pra contratações.
— Todo e qualquer funcionário da área criminalista está sujeito a esses testes. Bem, vamos aqui ao caso da garotinha chamada Mia Majors. — disse Carrie conferindo no computador — A polícia local de Ylon decretou as buscas encerradas. Foi há três horas.
— Assumiram que ela não teria ido muito longe ou atravessado o pântano. — disse Frank – Bem natural. Mas uma bola não pode ter caído tão distante pra ela se perder facilmente, mesmo sendo uma criança
— O pântano fica a cinco quilômetros da floresta. Depende da brincadeira que ela fazia com seus irmãos. Se jogavam vôlei ou queimada... Vai saber.
— Sequestro? Alguém de tocaia entre as árvores observando a família? — teorizou Frank.
— Tipo um stalker? Seria bom perguntar a família se eles tiveram alguma experiência com perseguidores por algum motivo pessoal.
— E se não for... — disse Frank querendo enveredar a conversa para um outro tópico — Ela pode ter sido vítima da lenda, mais precisamente do personagem dela.
— Lenda? Mas que lenda? O diretor acredita em cada besteira sensacionalista que falam ou lê. Francamente, em pleno 2013 você não vai dar respaldo pro que os teóricos da conspiração alardeiam internet afora, né?
— Carrie, você acredita no sobrenatural? — perguntou Frank, paciente e atento.
A assistente respirou fundo antes de responder.
— Acredito na realidade tangível.
— Então só acredita naquilo que pode ver, ouvir e tocar? Não é religiosa nem vai a igreja?
— A minha fé espiritual nada tem a ver com crenças em seres de outro mundo. Onde você quer chegar? Tá realmente considerando a ínfima possibilidade dessa menina ter desaparecido em uma causa paranormal? Acorda, é um trabalho que busca trazer soluções práticas a casos iguais a esse levando em conta a nossa realidade.
— Não precisa me lembrar qual a importância do trabalho. Só acho que na pior das hipóteses uma suspeita de algo anormal por trás de um caso como esse deve ser levada em conta.
— Normal na superfície apenas? É ver para crer.
— Quase todo caso sobrenatural tem uma fachada comum, é típico.
— Você fala como se... tivesse alguma bagagem nessas coisas... — disse Carrie encarando-o com estranheza — Quem é você realmente? Martin Mystery.
— Tenho cara de italiano?
— Olha, dificilmente vai ganhar algum crédito tentando resolver o caso por essa via se nada corroborar com sua tese.
— As lendas podem ser só lendas. Mas de uma coisa tenho certeza: tenho uma boa bagagem pra me sustentar se não tiver sido o padrão. Em toda minha vida, achei que só partilharia esse segredo com uma única pessoa que é a minha mãe. Mas aí o diretor me pegou desprevenido. Dizem que se uma terceira pessoa fica sabendo deixa de ser segredo...
— Que segredo? — quis saber Carrie, afoita — Você é algum tipo de investigador ou caçador de paranormalidades?
— Nem precisei falar. — disse Frank cruzando os braços.
— Nossa, eu nem... É, isso explica o diretor te contratar. Pelo visto, não começamos com o pé direito. Vamos entrar em conflitos constantes, vai desgastar nossa relação profissional...
— A menos que você veja o que eu costumo ver.
— Olha aqui, você... — disse Carrie, aborrecida, sendo interrompida pelo telefone tocando, logo atendendo — Alô? Diretor, oi... O Frank ainda tá aqui sim. — fez uma pausa — Claro, estamos nos dando super bem, fazendo amizade, compartilhando pontos de vista em comum...
Frank deu uma risada contida ao ver a expressão irritada dela. Carrie logo ficou perplexa com um pedido do diretor.
— OK, vou dizer a ele. Até mais. — disse ela, pondo o fone no gancho. Voltou-se para Frank — Não vai acreditar no que nosso estimado chefinho nos sugeriu.
***
Ylon
A chegada de Frank e Carrie juntos surpreendeu Maggie e Ben na manhã do dia seguinte. A família inteira correu para fora a fim de dar as boas-vindas.
— Eu vou me arrepender disso pelo resto da vida. — disse Carrie usando chapéu e óculos escuros e trajando um casaco jeans por cima d esmalte blusinha rosa — O diretor não pode nos forçar a agir sob disfarce, é... ilegal.
— Não precisamos nos disfarçar. Esquece, eu vou atuar de cara limpa. — disse Frank usando as mesmas vestes do dia anterior — Todos que ajudo ficam sabendo do que eu faço por trás da capa de federal.
— Não é arriscado alguém vazar seu segredo?
— Eu convenço a darem um voto de sigilo como retribuição. Acho que funciona na maioria.
— É meio irresponsável, mas sou uma reles ignorante e cética que não é ninguém pra julgar o comportamento de um homem que transita entre o mundo dos humanos e dos monstros.
— Isso se chama acreditar que as pessoas podem ser genuinamente gratas depois de um episódio sombrio de suas vidas. — rebateu Frank — E pra quê esse chapéu? O sol mal tá brilhando.
— Eu preciso parecer uma turista nada habituada ao clima de Ylon. — disse a assistente detestando a cada minuto estar ali forçosamente — Frank, liga pro diretor e tenta reverter isso. Eu sou a assistente, você é o agente. Ele tá de onda conosco, só pode. Não somos como... Mulder e Scully, por exemplo.
— Na verdade, de certa forma, somos sim.
A família da pequena Mia se aproximou deles.
— Hóspedes novos? — indagou Ben.
— Não apenas isso. — disse Frank, logo sacando seu distintivo de agente prioritário — Detetive Frank Montgrow, a serviço do DPDC. Essa aqui é minha assistente, Carrie. Faremos reservas por pelo menos três dias até concluir o caso.
— A polícia daqui desistiu em horas. Não vão cometer o mesmo erro. — disse Maggie, visivelmente abalada — Quero minha filha de volta mais do que tudo.
— O que acham que pode ter ocorrido? — indagou Frank.
— Estão dizendo que ela foi levada pelo Lupeux. — disse Floyd atrás do casal.
— Floyd, quer parar com isso? — repreendeu Ben — Já não basta ficarmos a ver navios por dias, ainda temos que aturar essa maldita lenda.
— Pode nos dizer do que se trata? — pediu Carrie — É algum codinome de sequestrador?
— Antes fosse. O Lupeux...
— Para! Chega dessa história maluca! Ninguém aqui quer ouvir essa baboseira de monstro ou demônio! — explodiu Ben contra o irmão.
— Eu quero. Pode prosseguir, Floyd. — disse Frank.
— Eu não sei muito sobre ele, mas... sei o bastante pra não ser louco de entrar nessa floresta. Dizem que o Lupeux é basicamente um homem-lobo que leva pessoas solitárias depois de chama-las pelo nome atraindo pra uma armadilha... que é o pântano. — disse Floyd — Sou o único aqui que não enxerga isso como história pra fazer criancinha dormir mais cedo.
— Detetive, contamos com você pra seguir pistas que levem até onde nossa filha está. — disse Maggie — Os donos da pousada nos isentaram de pagar taxa por prolongar a estadia.
— Está bem, vou fazer tudo que estiver dentro das minhas possibilidades. — disse Frank.
— Já ouvi esse papinho antes. — disse Ben, andando de volta a casa.
— Quanta confiança no trabalho investigativo. — disse Carrie quase sussurrando para Frank.
À noite, Frank estava na cama usando seu laptop vestindo um pijama xadrez verde enquanto Carrie saia do banho usando um roupão azul turquesa. A assistente se largou na cama, de ponta a cabeça para o detetive e ficou a observar os pés dele, se apoiando no cotovelo esquerdo.
— Seus pés são enormes.
— Puxei do meu pai. — disse Frank, compenetrado na sua atividade.
— E essas solas rechonchudas... dão a impressão de inchaço. — comentou ela.
— Carrie, vai tentar dormir ou vai ficar analisando meu pé?
— Não seja grosseiro, eu só tava tentando puxar algum assunto pra espantar o tédio.
— OK, eu... não quis ser grosso. — disse Frank, sereno — Mas não tô entediado fazendo uma pesquisa sobre o tal Lupeux.
— Sabia da lenda mas não sabia da criatura. — disse Carrie sentando-se do lado dele.
— Da criatura em si sim, mas não do nome. Achei um site com maiores detalhes. Consta que o Lupeux age tanto a luz do dia quanto a noite, seu alvo favorito são crianças, já teve até um culto de bruxas na França que o invocava como uma entidade pagã que realizava desejos em troca de oferendas. Mas com a santa inquisição, a seita foi dissolvida. Mas onde quer que o Lupeux apareça há sinais da adoração que consagrava ele. Olha aqui, são fotos de um pântano na Romênia, essa aqui é na Eslováquia... e essa outra na Lituânia.
— Por que um pântano? Ele é fã do Shrek?
— Leva isso a sério, uma criança inocente sumiu. — disse Frank olhando-a com reprovação — Dizem relatos nos fóruns da internet de supostos sobreviventes que o Lupeux vive numa espécie de dimensão fora do espaço e do tempo parecida com um pântano... mas é como se fosse o próprio inferno.
— Me poupe, Frank. Como se já não estivesse absurdo o suficiente, me vem com essa.
— Não sou eu que tô dizendo. Também fico desconfiado, não vou acreditando em tudo que leio. Quando se fala de sobrenatural, há mais dúvidas que certezas, mesmo pra um caçador.
— Vou dormir, ficar com a cabeça nas nuvens não é pra mim. — disse ela, deitando.
Enquanto ambos conversavam no quarto, Clark, o filho mais velho, saía despercebido da pousada munido de uma lanterna. Saiu abaixado e só ficou de posição ereta quando se enselvou na floresta correndo. Desacelerou quando ouviu a voz sinistra lhe chamando em meio risadas e outras vozes falando a respeito dele.
— Onde você tá? Cadê você? O que fez com a minha irmã?
A voz continuava chamando-o gerando um efeito hipnotizante na mente de Clark que largou a lanterna para acatar o chamado. Quando deu por si, estava no pântano olhando seu reflexo na água. Não somente o reflexo como também a figura do Lupeux empoleirado no galho com seus medonhos vermelhos. Antes que reagisse, Clark foi empurrado ao lago, sentindo algo o puxando para o fundo.
Frank e Carrie saíram do quarto após ouvir gritos de Maggie que foi amparada por Ben.
— Não, Clark! Não! Não... Não! — dizia ela aos prantos.
— Mas o que foi que houve? — perguntou Frank.
— Clark saiu escondido atrás da Mia. — disse Floyd — Aquele pivete teimoso...
— Não existe guarda vigilante por aqui? — questionou Carrie.
— A segurança dessa pousada está largada as baratas há muito tempo. — disse Ben.
— Eu vou atrás dele, fiquem todos calmos, especialmente você, Maggie. — disse Frank que logo voltou ao quarto. Carrie o aguardou se trocar no banheiro. O detetive saiu trajando um sobretudo cor creme por cima de uma camisa branca, além de calcas jeans e botas marrons.
— Hum, visual legal. Gostei da gravatinha azul. — disse Carrie.
— Eu tava doido pra inaugurar meu uniforme de trabalho. Agora sou um detetive caricato.
— Vou com você. — disse Carrie — Tirar a prova.
Frank assentiu para ela, mesmo parte dele julgando ser uma ideia questionável.
— Cola em mim. E tapa os ouvidos.
— Trouxe tampões comigo, vou pegar uns pra você também.
A dupla saiu pela floresta sem medo do que pudesse aparecer adiante. Os fachos de luz das suas lanternas eram as únicas coisas para se avistar no meio daquele breu noturno debaixo de um céu parcialmente nublado.
— Não tá com medo, tá? — indagou Frank.
— De um bicho se enroscar na minha perna? Sim, tô tremendo que nem gelatina. — disse Carrie olhando em volta com tensão na face — Não existem aquelas centopeias por essas bandas, existem?
— Eu me preocuparia mais em colocar os tampões. Já estamos quase na metade do caminho até o pântano. — disse Frank, caminhando em ritmo estável — Mas lembrei que o Floyd mencionou sobre o Lupeux atacar pessoas solitárias... Será uma preferência dele? Um padrão? Ou... Ah, esquece. Pra quê gastar saliva com alguém que não dá trela pra isso? Vou pôr meus tampões, por via das dúvidas.
De repente, Carrie já havia se desviado do trajeto, seguindo sozinha, mas não por escolha própria. A assistente ouvia uma voz de criança gritar por socorro. Depois foram duas vozes em uníssono, um menino e uma menina.
— Já tô indo! Frank, onde você tá? Vem aqui! Acho que... encontrei as crianças! — disse Carrie, guiando-se pela lanterna pois a floresta aparentava se tornar mais escura ao longo do caminho. Tão escura para um momento ideal da lanterna falhar, a luz tremeluzindo. Mas Carrie não ligou para o fenômeno estando absorta pelo som da voz que passou a chama-la, uma criança especial — Arthur? Arthur... Filho, calma, a mamãe tá indo te buscar... Não chora.
Frank dava continuidade, ainda sem notar que Carrie estava a metros longe.
— Vem, bicho escroto. Eu sei que você não tem opção a não ser aparecer na minha frente e me levar pra sua terra natal. Não vou ser mais uma vítima comum. Carrie, fica bem junto de mim...
O detetive enfim percebera algo estranho. Olhou para trás, cosntatando a ausência da assistente.
— Ah, tá de sacanagem... Carrie!
A mais nova amiga de Frank cruzava a floresta induzida pela voz de seu filho já falecido em meio a total escuridão da noite. Chegou à beira do lago pantanoso vendo o reflexo do filho na água, mas que logo em seguida se desfez para tornar-se o dela. O empurrão foi forte para fazê-la cair com tudo na água imunda.
A força que puxava para o fundo a impedia de nadar. Rapidamente, a assistente emergiu retomando o fôlego. Contudo, não mais estava no pântano que conhecia. Ofegante e encharcada, Carrie saiu devagar da água olhando os arredores sombrios daquele mundo angustiante. O céu era negro como noite, mas possuindo uma lua colossal que brilhava em vermelho intenso acima.
— Que lugar é esse? — indagou vendo as árvores secas e mortas — Frank! Ai, meu Deus... Parece que tô pisando em lama... já não basta estar toda molhada.
Viu a figura de Clark se aproximar dela.
— Ei, você! É o filho do Ben e da Maggie, né? Nossa... Você está bem? Cadê sua irmã?
Mia apareceu atrás dele timidamente.
— Sim, estamos bem. Mas você não. — disse Clark que mostrou olhos vermelhos brilhando. Mia expressou o mesmo. Carrie estava rodeada de várias clones das crianças exibindo os terríveis olhos escarlates. Todos um instante se transformaram em Arthur.
— Arthur, não! Aaaaaaahh! — disse Carrie que foi atormentada pr uma sensação horrível de mal estar que a fez se curvar aos clones do filho é reviver as lembranças dolorosas da partida dele — O que tá fazendo comigo? Me deixa em paz! — berrava ela — Nãããããooo!
As cabeças dos clones logo se metamorfosearam para se parecerem com a do Lupeux, cabeças de lobos esqueléticos com dois chifres robustos. Em paralelo, Frank andava perdido na floresta, mas logo assumiu que a única forma de encontrar sua assistente era se permitindo ser uma vítima. Retirou os tampões, crendo que ela foi atraída para o pântano.
— Legal, vamos jogar seu jogo, desgraçado.
Ouiu a voz de seu pai pedindo que o resgatasse do inferno, deixando ser tomado pelo transe.
— Pai, eu já tô a caminho, seu filho vai salva-lo...
Alcançou o pântano, olhando o reflexo do pai na água que logo veio a ser o seu. Recuperou seu juízo balançando forre a cabeça e piscando os olhos inúmeras vezes. Entreviu a sombra do Lupeux atrás de si, virando-se para encara-lo, o que ninguém, até então, havia tido a chance se fazer. O lobo infernal soltou um urro ensurdecedor, pulando do galho para cima, caindo com ele no lago.
Emergiu no lago pantanoso da dimensão astral do monstro, saindo da água com esforço. Tossiu enquanto se recompunha fisicamente. Virou o rosto para a esquerda, tirando água dos ouvidos, podendo escutar os gritos de agonia de Carrie cercada pelas crianças com cabeças animalescas. O detetive se levantou, caminhando trôpego em direção a ela.
— Carrie! — a chamou, mas se mostrou inútil. Recorreu ao disparo de uma arma ao alto. Os clones foram desaparecendo um a um, juntando-se num só ser... o Lupeux em carne e osso, soltando seu rugido estridente da sua bocarra de mandíbula longa com dentes afiados e pontudos feito agulhas. Frank reaveu forças para correr.
— Ah não, fica longe... Fica longe de mim! — disse Carrie horrorizada com a aparência do monstro, tentando fugir se arrastando. Olhou fixamente para o rosto lupino dele, seus olhos de pupilas dilatadas encontrando os dele que brilhavam vermelhos num tom diabólico, a visão se enturvando um pouco. Ela se forçou a acelerar sua fuga, mas logo raízes finas brotaram da terra e a envolvendo inteiramente.
— Solta ela, tua briga é comigo! — disse Frank que pulou sobre o Lupeux. O detetive e o monstro saíram bolando no solo lamacento daquele fim de mundo tingido em vermelho. O Lupeux logo usou uma força telecinética para repelir Frank, jogando-o longe. Ficou se quatro, rosnando feito um cão e avançou.
— Frank, mata essa coisa! — disse Carrie quase mumificada pelas raízes que não paravam. Frank, caído, sacou a arma, mirando na cabeça.
— Vá de retro, seu capeta. — disse ele, disparando. O tiro acertou o meio da cabeça da criatura que tombou para trás. As raízes cessaram sobre Carrie e se recolhiam. Frank foi ao encontro dela. Mas de inesperado, a mão do Lupeux agarrou sua perna direita, o derrubando.
— Frank! — gritou Carrie, abismada.
O monstro não soltava, sedento por devora-lo. Frank tentava chuta-lo no rosto.
— Sai de cima, monstrengo! Me larga!
Frank percebeu que deixou cair a arma na queda, mas estava fora de alcance. Carrie correu para chutar a pistola até ele. Frank a pegou, apertando firme o gatilho contra o monstro. Procurou acertar em todas as áreas vitais. O Lupeux se chacoalhava com os disparos, logo sucumbindo a morte em definitivo. O corpo da criatura queimou em brasas e se desfez em poeira e fumaça negras.
— Frank, olha. — disse Carrie olhando em volta. O pântano mundano estava entre eles novamente — Voltamos ao mundo real.
— Já até imagino o que vai dizer. — disse Frank indo até ela — Tudo não passou de um pesadelo. Pode falar, nada disso serviu pra fazer seu ceticismo cair por terra.
— Se foi tudo um sonho... Por que ainda estamos ensopados e fedendo a lama de pântano?
Frank deu um risinho de alívio, a tocando no ombro.
— Bem-vinda ao meu mundo.
— Mas de agora em diante, fico só nos bastidores. É o lugar onde pertenço.
— Tá tudo bem? Traumatizada?
— Um pouco. Mas não exatamente pela verdade sobre esse lado sombrio do mundo. Isso também, mas... Deixa pra lá. Eu vou superar e... me adaptar a essa nova realidade. Só me dá um tempo pra processar tudo direito.
Clark e Mia surgiram próximos a ele.
— Frank, as crianças. Olá. Como estão?
— Bem. — disse Mia — Vocês nos salvaram.
— Nós vimos tudo. — disse Clark — Aquele bicho quase nos pegou pra comer. Obrigado.
— Agradeçam a ele. — disse Carrie — O herói de vocês.
Frank de mostrou desajeitado para lidar com o elogio, mas o admitiu consciente seu feito nobre. O detetive e a assistente levaram os irmãos de volta a pousada sãos e salvos. Ao abrirem a porta, a família não se conteve de alegria. Ben e Maggie abraçaram fortemente os filhos, emocionados e gratos a Frank.
Floyd possuía uma dúvida a sanar.
— O Lupeux... existe mesmo?
Frank acenou positivamente com a cabeça.
— E que fim ele levou?
— Já era. — respondeu Frank, tranquilo.
***
Na dia seguinte, Frank agradecia aos homens que cuidaram da sua mudança para a casa da zona norte apos fechar negócio com o imobiliário.
— Valeu rapaziada, bom dia pra vocês. — disse o detetive se despedindo dos trabalhadores — Dou uma ligadinha pro corretor mais tarde pra confirmar se tá tudo OK. Falou, valeu. — deu um joinha e uma piscadela. Frank entrou na residência que passaria a chamar de sua pelo que esperava ser um longo tempo — Lar doce lar.
Se largou no sofá preto de três lugares. Mas seu sossego foi interrompido pelo toque do celular.
— Carrie! E aí, absorveu melhor o que testemunhou ontem com esses olhos que a terra há de comer? Ah, desculpa, bom dia pra você.
— Continuo assimilando o horror que eu passei ontem. Não fica me perguntando o tempo todo se tô bem, venho tomando calmantes pra aliviar a ansiedade, tá passando. E você, como está?
— Revigorado agora que sai do cafofo onde eu morava pra uma casinha suburbana decente.
— Espero que traga esse vigor pra cá porque o diretor cancelou sua folga pra hoje. Seu segundo caso chegou e acho que é da sua alçada.
— O diretor revogou a folga? Liguei pra ele hoje bem cedo dizendo que me liberou pro dia inteiro pra que eu fizesse a mudança. E nem tive tempo de lavar o sobretudo que sujei de sangue daquele monstro. Cacete...
— Brincadeirinha. Pode ficar aí na sombra e água fresca curtindo sua nova bat-caverna.
— Ah já tá achando que tem intimidade pra fazer pegadinha, né? Espera só o troco. — disse Frank com ar risonho. Fez uma pausa — Gostei da nossa primeira vez, Carrie.
— Ahn, isso soou... estranho. — disse ela, envergonhada — Mas gostei sim de sermos parceiros nessa aventura bizarra. Só vai demorar pra eu me acostumar, embora você tenha ajudado a abrir minha mente. Obrigada, Frank. Eu era uma das que zombava do ditado de que há mais coisas entre o céu a terra do que sonha nossa vã filosofia. Precisava desse choque de realidade, o maior que já sofri.
— E você me ajudou a ver que uma assistente pode ser bem útil. Você podia cuidar da pesquisa, parece ser sua cara, você é meio nerd com esse jeitinho de bibliotecária.
— Como quiser. Parceiros?
Frank deu um sorriso de canto.
— Parceiros. E tô sentido que não será por pouco tempo.
— Penso o mesmo. Até o próximo caso.
— Até o próximo caso. — disse Frank com autoconfiança plena, logo desligando.
XXXX

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