Frank - O Caçador #108: "Cidade dos Anjos"


Paralelamente ao embate travado entre o grupo de Frank e os violentos infectados pelo novo vírus letal, um casal trafegava em uma modesta camionete pela rodovia mais deserta de Los Angeles naquele instante. Na carroceria traziam mantimentos arrecadados num grupo humanitário para fins de estocagem devido ao iminente contexto de pandemia. Audrey e Patrick eram um longevo casal que vivia numa área considerada pacata na zona residencial da capital, mas já temiam que a mesma perdesse tal fama tão logo.



— Mal nos recuperamos de um desastre e já caímos em outro. — disse Audrey que possuía aparência jovem para uma mulher caucasiana na faixa dos 40 anos, além de cabelos loiros acinzentados — Ouvi dizer que esse vírus transforma o sangue numa pasta ou lama... parecida com piche. Que horror.



— Fim dos tempos, amor. Esses especialistas só sabem tranquilizar a população na base da mentira, geram desinformação porque o caos gera mais renda pros cofres dos poderosos. Ninguém está a salvo. — disse Patrick, um homem caucasiano de aparência um pouco mais velha tendo cabelo castanho em corte social — Vão faturar horrores com o sofrimento dos outros, você vai ver.



— Nós já vimos. — disse Audrey olhando-o — O mesmo filme se repete, só que desta vez pode não haver final feliz... pra quase ninguém. Eu... — ela esboçou um tom choroso, pondo a mão direita na boca.



— O que foi, amor? Olha, se foi uma coisa pesada que eu falei pra te deixar sem esperança ou preocupada, eu...



— Não, tudo bem, eu estava só... — disse Audrey se interrompendo para expirar o ar pela boca, contendo o choro — De repente pensei no quanto esse vírus ameaça nosso sonho. Não acha que... seria melhor pararmos?



— Pararmos de tentar? 



— De alimentar esperanças. — respondeu Audrey fitando-o tristemente — Patrick, não pense que eu me refiro a como vínhamos tentando esse tempo todo. Até porque você sempre bateu na tecla de que adotaríamos se nada mais adiantasse.



— Não, eu ainda acredito em nós. Que somos capazes de gerar uma vida, de realizar o que sempre almejamos desde quando juramos que nada abalaria esse sonho até que a morte nos separasse. – disse Patrick, firme na sua expectativa de conceber um filho.



— E se... não houvesse mais como? Não apenas essa loucura de vírus e monstros espalhados pelo mundo nos impedindo de adotar, mas também... a respeito de nós mesmos.



— O que você quer me contar, Audrey? Se te conheço bem, nunca foi de rodeios. 



— Eu quero te dizer que... 



A declaração de Audrey foi abruptamente interrompida pela aparição perturbadora de uma bola de fogo rasgando o céu noturno e quase sem nuvens, a luz incandescente clareando intensa como se o sol passasse depressa. 



— Ah, meu Deus! — gritou Audrey, aturdida com o meteoro se aproximando.



— Vai cair na pista! — anteviu Patrick pisando fundo no freio.



A rocha caíra no meio da rodovia, provocando um impacto destruidor que produziu uma cratera de considerável profundidade. A camionete freou de lado, logo o casal saindo do veículo para conferir o corpo celeste. Atravessaram a fumaça para verem o que havia no fundo da cratera. Tiveram a impressão do ouvir sons de um bebê. Em meio a toda destruição e fogo, de fato havia um bebê recém-nascido largado.



— Audrey... Você acredita em milagres agora?



O bebê rapidamente emanou uma luz branca tão resplandecente quanto a que viram antes, iluminando seus rostos e deixando-os comovidos com aquele aparente galardão trazido pelos céus.



***



A manhã seguinte se iniciou de maneira tortuosa para Frank que acordou com a mente bombardeada de lembranças indigestas da noite anterior, acentuadas, em particular, na hora do banho. Relutou fechar os olhos com a água do chuveiro lhe caindo no rosto, baixando a cabeça apenas pensando na despedida trágica de Owen em seu leito de morte.



Os flashes iam e vinham, não se esquecendo do sangue que escorria profusamente da ferida aberta tenebrosa na barriga do jovem ex-funcionário do DPDC.



Sangue este que Frank, logo após sair do banho com sua toalha verde presa na cintura, reviu no sobretudo cor creme largado numa cesta sobre a cama junto à outras peças de roupa. Pegou a veste com as duas mãos vendo as grandes manchas vermelhas com expressão de pesar. Suspirou olhando para o vazio, a culpa insistente o fazendo desejar voltar no tempo para apagar tamanho erro. E novamente os flashes retornavam. Frank balançou rápido a cabeça para afastar a memória e foi até seu closet.



Ao abri-lo, procurou algum casaco que pudesse usar como substituto, porém encontrou a roupa mais apropriada. Chegou ao recinto batizado de sala de pesquisa onde lá estava Carrie à sua mesa diante da tela do laptop. Havia sofás e cadeiras, além de uma TV de 60 polegadas fixada a um painel na parede. Carrie quase se engasgou com o gole do café ao ver Frank entrando com sua nova vestimenta.



— Caramba, cheguei a pensar por um segundo que fosse outra pessoa. — disse ela meio assustada — Visual bacana, gostei. Bem descolado e rústico.



— Quem foi que fez o café hoje? — indagou Frank mostrando seu longo sobretudo preto de couro por baixo da camisa branca que sempre usava a trabalho.



— Giuseppe, o mestre cafeteiro. É o apelido que dei a ele assim que provei. Experimenta.— disse Carrie, logo tomando mais um gole — O que houve com o outro sobretudo?



— Tá sujo com o sangue do... — hesitou o detetive em falar o nome de Owen enquanto punha seu café na caneca.



— Tudo bem, Frank. Não precisa resistir.



— Acho que quem tá resistindo aqui é você.



— Nós dois estamos sofrendo pelo Owen, então não pense ser o único só porque acha que eu tô fingindo que tá tudo bem. — disse Carrie, dura.



— Foi mal, eu... não quis te chamar de insensível. Tô baqueado ainda. — disse Frank que tomou um gole do seu café — Não bastasse a culpa de ter ferrado com Danverous City, ganhei esse prêmio extra por ter deixado o Owen se juntar a nós.



— Não, pare. Só pare, por favor. — disse Carrie, severa no seu olhar e na voz — Já tem culpa demais nas suas costas, não precisa adicionar mais um peso ao seu fardo de caçador. O Owen quem teve a ideia de gerico de nos acompanhar. Até falei que seria melhor ele ficar na casa da irmã, mas aquele cabeça dura... — um suspiro choroso foi dado pela assistente. Frank pegou uma cadeira e sentou-se frente a ela na mesa.



— Vamos combinar de hoje à tarde, se der, fazermos um túmulo pra ele perto do memorial das vítimas do terremoto? — sugeriu Frank.



— Sem problema, qualquer dia faremos. — disse Carrie, os traços de tristeza bem explícitos — Peraí, já existe um memorial pros mortos do Big One?



— Vai ser aberto pra visitação hoje ou amanhã. Peço pro Hoeckler providenciar uma pedra de mármore pra fazer uma lápide com todas as letras gravadas. — determinou Frank tomando mais do café — E não é que o Giuseppe tem mão cheia pra café?! Nota mil.



— Me promete que não vai mais remoer a morte do Owen deixando essa culpa desnecessária te consumir. — pediu Carrie.



— Posso tentar. Mas vai demorar até que eu consiga me perdoar de vez. É meu processo de reparação.



— Nosso. — disse a assistente, sensível, afagando o antebraço esquerdo do detetive — Mas e aí, o que houve com o sobretudo antigo?



— Joguei fora. — disse Frank pegando dois croissants e enfiando na boca.



— Mas por que? Tem uma lavanderia nesse bunker, caso não saiba.



— Já que não sou mais detetive federal, não tem porque guardar a farda do emprego. Se eu tiver que um dia pendurar o sobretudo, vai ser esse aqui que, por sinal, pertenceu ao Nathan. — revelou Frank para a surpresa de Carrie.



— Foi do Nathan?! Ah, bem que estava me lembrando alguém. Ele te deixou de presente, não foi?



— No dia que se despediu pra embarcar no Expresso Temporal na viagem sem volta. Isso aqui é minha homenagem à ele. Também encaro como uma volta às origens de quando eu caçava a paisana.



— Ahn, quanto a isso, acho que deve desconsiderar. — disse Carrie olhando no computador com uma expressão meio nervosa — O Departamento Policial de Los Angeles acabou de aceitar sua inscrição para o cargo de detetive prioritário da divisão de homicídios.



— Minha inscrição? Que negócio é esse, Carrie? Eu não pedi pra ser integrado ao corpo policial de Los Angeles. Poxa vida, logo quando eu mais queria voltar pras minhas raízes você me apronta essa. Me lembrou da vez que me inscreveu na ADP quando fui afastado do DPDC.



— Desculpa ter feito sem seu consentimento, mas pensa só na oportunidade valiosa de dar continuidade a função que você tava habituado. É um programa de admissão de agentes que trabalharam em Danverous City. Seu nome estava na lista e cedo ou tarde seria aprovado, inscrito ou não.



— E soube de antemão que ele foi admitido ao cargo. — disse Giuseppe entrando na sala — Meus parabéns, Frank. O chefe de polícia lhe aguarda de braços abertos pra entregar seu distintivo. E... Roupa nova?



— A outra tava velha que nem essa minha carreira de caçador.



— Boa escolha, combina com Los Angeles. — disse o ex-diretor do DPDC — Sabem me dizer como anda a situação no mundo externo do qual fomos privados graças a um decreto de quarentena?



— Só se agravando. O vírus já se alastrou em mais 6 países nas últimas 18 horas. — informou Carrie conferindo as notícias na internet — Frank, disse que ontem Chernobog falou com você e te propôs um jogo, mas notei que você não se aprofundou muito no assunto.



— Pois é, era disso que eu gostaria de falar com mais calma só entre nós, por enquanto. — disse Frank levantando-se — A sinuca de bico é maior do que vocês presumem. Carrie, melhor ficar sentada, vai precisar.



— Quer deixar de enrolação? Se eu tiver um derrame de tanto nervosismo, você é o culpado. — disse Carrie, apreensiva para saber mais.



— O jogo não envolve somente eu. São oito caçadores, contando comigo, tendo que matar 100 criaturas em 10 dias pra disputar um prêmio que é nada mais e nada menos que... a cura. — revelou o detetive, relembrando o momento da sinistra reunião com a entidade.



— A cura pra esse vírus!? Qual a lógica desse deus monstro, afinal? — questionou Giuseppe — Por que ele colocaria em xeque um plano diabólico que está sendo tão bem-sucedido?



— Pra mim ele não passa de um sociopata que só quer ver o circo pegar fogo. O vírus é feito de miasma que ele mesmo produz, confirmando que ele é o próprio vírus.



— Então, em tese, essa suposta cura o mataria? — indagou Carrie, refletindo a possibilidade.



— Um vírus cria vários clones de si mesmo, certo? São cópias que sobrevivem individualmente. — disse Frank imerso no raciocínio — Não é curando uma única pessoa que a doença vai ser erradicada ou mandar esse desgraçado pra vala. É tipo o... o demônio replicador, ele se multiplica, mas é preciso destruir cada cópia até chegar ao original.



— Diante de uma crise viral, mesmo causada por um ser de outro mundo com poderes de um deus, obviamente há alguém que ele infectou primeiro. — disse Giuseppe.



— Um paciente zero. — falou Frank, sentindo uma faísca de esperança — Ele teve um ponto de partida pra se clonar.



— Mas como todo e qualquer infectado, ele já pode ter virado geleia de miasma. — disse Carrie.



— Supondo que se matássemos o demônio replicador original antes das cópias. Todas elas desapareceriam num instante, iam virar fumaça. — especulou Frank, confiante — O infeliz que foi pego primeiro ainda tá vivo, isso enquanto houverem milhares de clones do Chernobog po aí Se eu vencer essa bagaça, encontro ele, enfio a cura goela abaixo e já era.



— Frank, vai com calma aí. Precisamos ter absoluta certeza de que esse infectado existe.— disse Carrie, desconfiada — Parece tudo fácil demais por ser um jogo de caça a monstros, você fazendo o que faz, mas agora competitivamente. 



— Ela está certa, Frank, esse deus sombrio deve ter uma astúcia comparada ao seu poder de destruição. — declarou Giuseppe, pouco otimista — Não acho que ele seria tão ingênuo a ponto de deixar vivo o único infectado que detém sua forma original.



— E se o vírus original for transferido pra outro paciente com o zero sendo morto depois? Não daria pra saber em quem está, viraria um jogo horrível de adivinhação. — aferiu Carrie.



— Pior que isso pode acontecer ou já aconteceu, até porque os demônios estão com ele. Mas nem é só essa questão que me deixa agoniado. — disse Frank, a preocupação nítida — As pessoas com quem eu tô competindo.



— São todos amigos seus? — indagou Giuseppe.



— Meus parceiros de caça foram todos pro beleléu. Ele reuniu os caçadores que estão em maior atividade. Duas pessoas conhecidas esbarraram comigo naquela prisão abandonada.



— Quem você encontrou por lá? — indagou Carrie.



— Primeiro foi a Miyako Yamazaki. — respondeu Frank, lacônico.



— A namorada do Nathan?! Mas ela não era apenas bibliotecária? — questionou Carrie.



— Ela também atua como caçadora, é herdeira de um clã que enfrenta forças malignas do folclore japonês. — esclareceu Frank — E a outra pessoa é... — fez uma pausa, deixando Carrie vibrando de aflição.



— Quem, Frank? — perguntou em voz alta, quase na ponta da cadeira.



— A Natasha. — revelou Frank tranquilamente. Carrie deixou as costas se largarem na cadeira, atônita — Carrie, não vá ter um derrame, calma.



— É uma amiga íntima dela? — indagou Giuseppe, preocupado com a reação de Carrie.



— Mais do que uma amiga, é minha alma gêmea. — disse a assistente, desolada — Maldito Chernobog... Ele que não ouse tocar um fio de cabelo da minha musa do rock senão eu mesma faço questão de mata-lo.



— Vamos voltar pra realidade, Carrie, você tá muito atordoada com essa notícia, segura o facho. — aconselhou Frank ajudando-a a levantar.



— O que acontece se alguém perder o jogo? — perguntou Giuseppe.



— Caso esteja em risco de vida numa caçada, gravemente ferido, o caçador morre... infectado pelo vírus que será inoculado a partir dessa marca maldita. — disse Frank, mostrando o braço esquerdo com uma pequena parte da marca — É ir caçando quantos monstros puder pra marca ser completada. A cada 10 monstros, a marca avança.



— Oh, meu Deus... — disse Carrie sendo abracada por Frank para se acalmar — Nem me pergunte pra quem estou torcendo.



Um agente da ESP surgiu na porta entreaberta olhando para Frank.



— Montgrow, o chefe quer uma palavra com você agora. Vem comigo.



***



No corredor das celas onde os seres capturados pela fundação se encontravam aprisionados, Frank e Hoeckler caminhavam lado a lado discutindo uma tarefa de eminente importância.



— Interrogar o Zaratro nesse exato momento? Depende do humor daquele inútil.



— Ele não é tão inútil agora, pelo menos não para servir ao propósito de aplacar as hostes de Chernobog. — disse Hoeckler à esquerda do detetive — E acredite, ele pode ser o coringa que precisávamos pra levar alguma vantagem.



— Mas você sabe o que rolou com ele, a Agnes drenou toda a magia que mantinha ele ligado ao Necronomicon e ao Chernobog. — contrariou Frank.



— Na nossa tentativa de obter respostas, ele compartilhou uma informação bastante significativa. — disse Hoeckler olhando para Frank com total seriedade — Disse que a magia necronomiana está retornando aos poucos à sua alma. O que ele possui agora não passam de resquícios deixados após a absorção de Agnes. Mas ainda assim capazes de estabelecer uma conexão com Chernobog.



— Pra talvez rastrea-lo? Porque a gente tá contando com a possibilidade de haver um paciente zero escondido em algum buraco. Se o matarmos, podemos erradicar todo o vírus.



— Teoria interessante, Frank. Mas tenho a leve impressão de que... — disse Hoeckler, os olhos estreitados — ... vocês três estariam guardando alguma informação robusta.



— Fica relaxado, ninguém tá ocultando nada sobre esse vírus ou as intenções do miserável. — disse Frank, tentando não transparecer sua insegurança em omitir o fato do jogo de caça e o que estava a ser ganho e perdido. Pigarreou forte para mudar o rumo da conversa — Então é aqui onde os detentos veem o sol nascer quadrado? Ops, me enganei, não tem como ver o sol. — disse Frank achando engraçado. 



Parou para ver uma anomalia em especial que se via na forma de uma mulher de aparência elegante datada da década de 1930. A normalidade se limitava a esse aspecto. Era difícil de afirmar qual seria a cor do vestido daquela dama elegante pois a mesma era desprovida de cores, estando inteiramente sob uma camada de preto e branco assim como o ambiente ao seu redor, tal qual a fotografia de um filme mudo da época mencionada.



A mulher se sentou na mesa com olhares sedutores direcionados a Frank, exibindo pernas torneadas que cruzou com graciosidade. Ela sorriu abertamente ao detetive que, por instinto, se deixou levar dando um tímido olá para ela balançando a mão direita enquanto devolvia o sorriso. Hoeckler o repreendeu num instante:



— Não acene pra ela. É uma anomalia de classe Rubi, pode induzi-lo a um estado de obediência que o tornaria vítima do poder insano dela.



— Que bizarro, parece que ela saiu de um daqueles filmes da época do meu avô. — disse Frank, observando a cela.



— Ela apenas parece ser desse tempo antigo. Em suma, uma entidade ligada ao fenômeno dos filmes mudos podendo converter a realidade para que se assemelhe fisicamente com a de um desses filmes. — explicou Hoeckler evitando olha-la nos olhos.



— Então tudo que ela toca... basicamente fica em preto e branco, é isso? Tá me zoando, né?



— Quer uma demonstração? Vai ficar querendo. Veja o que ela fez com a cela. Não é o bastante pra acreditar?



— OK, acredito. — rendeu-se Frank — Vamos logo até a suíte de luxo do Zaratro.



— Sério? Pensei que iríamos fazer um passeio turístico explicando cada ESP de cada cela. Sabe quanto tempo isso levaria?



— Menos do que temos pra vencer o Chernobog, sem dúvida. — respondeu Frank. 



— Acertou. — disse Hoeckler que foi virando-se para prosseguir, mas tomara um baita susto com a repentina aparição de Raziel a poucos centímetros dele — Céus! Mas... O que significa isso? Quem é você?



— Primeira vez que te vejo tomando um tremendo susto. — disse Frank com ar de riso — Esse daí é o Raziel, um ofanim do batalhão de elite dos anjos. — voltou-se ao anjo — E aí, o que te traz aqui? Peraí, como que esse lugar não é a prova de seres barra pesada que nem os anjos?



— Na verdade, ele é. — disse Hoeckler, tenso — Ou ao menos teoricamente. Era o que pensávamos ser nosso limite de proteção.



— Raziel, por que veio? Algum problema com o Adrael? — perguntou Frank, ansioso por notícias do amigo.



— Não há com o que se preocupar em relação ao serafim banido. Apenas aguarda o início de seu julgamento previsto para ainda hoje. Mas não é a respeito dele que vim tratar com você.



— Pode falar, se for algo a ver com o Cherno... Digo, o Grande Mal.



— Sim, tudo gira em torno dele agora. A libertação dele trouxe consequências diretas ao nosso mundo. Elas não cessaram desde então. A última foi um desequilíbrio na árvore do nascituro angelical. Isso faz com que os recém-nascidos se transportem a este mundo. — contou Raziel, sério e austero.



— Em outras palavras, os bebês anjos estão sumindo de seus berços e vindo parar aqui. — depreendeu Hoeckler — Acho que isto explica a queda de um meteoro numa rodovia a caminho do centro. Nada foi encontrado na cratera. Mas soldados meus foram até lá e registraram assinaturas eletromagnéticas anômalas.



— O rebento foi retirado de lá por um casal de humanos que o adotou como filho. — disse Raziel olhando para ambos — Desde o primeiro momento, um anjo é parte do mundo celestial, não pode se dissociar dele.



— Quer que eu vá até a casa desse casal e roube a criança que eles pegaram pra criar? Já ouviu falar em achado não é roubado? — disse Frank.



— É lei celestial inquestionável recolher um anjo fora de seu ninho pouco após o nascimento. Mas isso é o que meu irmão Raguel apregoa. Como deve saber, não temos muita harmonia. — disse Raziel para o detetive.



— Pois é, lembro bem daquele dia em que seu irmão me deu um baita presente de grego no meu aniversário. Então quer dizer que você não vê tanto problema em anjos caindo na Terra?



— Ouça, eu não confronto a lei em se tratando de recolher os rebentos que não forem apanhados por humanos. Estão no seu direito como provedores de lar, sustento e crescimento.



— Então o que eu tenho que fazer?



— Thaumiel é o braço direito de Raguel que tem levantado suspeitas de um golpe para sobrepujar a alta corte. O impeça de capturar esse rebento que é o único a ter sido adotado até agora. — informou Raziel passando a urgência no tom. Ouviu a voz de Raguel em sua mente o fazendo fechar os olhos por um breve instante — Raguel acabou de me sondar. Deseja que eu volte imediatamente para os preparativos do julgamento. Você tem que estar lá como única testemunha de defesa, portanto terá de agir rápido. Eu mesmo o levarei assim que terminar.



— Tudo bem, se for pra defender o Adrael, eu topo a missão, apesar de... — Frank se deteve olhando de soslaio para Hoeckler rapidamente — Enfim, eu tô livre pra fazer o que for preciso. Mas você tá me pedindo pra peitar um ofanim que pode fazer de mim pano de chão.



— Não quero que enfrente Thaumiel, somente tente chegar antes dele. — ressaltou Raziel — Aqui está a localização. — o ofanim pusera dois dedos na têmpora esquerda de Frank, transmitindo as informações precisas.



— Está bem, eu... acho que tenho uma ideia do que fazer. Pode contar comigo. Mas pra facilitar, você bem que...



— Até logo. — disse Raziel desaparecendo em nanosegundos.



— ... podia me dar uma carona até lá. — completou Frank, frustrado em não poder economizar combustível — Cacete! – bateu a lateral do seu punho direito cerrado na parede.



***



Na casa de Audrey e Patrick, o bebê anjo deitado no seu berço manipulava alguns cubos coloridos com telecinesia, algo que foi flagrado pela mãe. Audrey se aproximou, abismada com a manifestação. Boquiabriu-se ao ver que o filho adotivo havia crescido meses em horas.



— Querida, será que... — disse Patrick entrando no quarto e se interrompendo com a demonstração de poder do pequeno serafim — Santo Deus... O que é isso?



— Zachary... Ele é mais do que especial, Patrick. 



— Eu sempre soube no fundo do meu coração que... a recompensa das nossas orações seria maior do que pedimos. — disse o pai pondo-se ao lado, maravilhado com o bebê e seu poder — Estamos numa nova era de milagres... antes de tudo acabar.



O bebê sorria movendo os cubos com o poder mental. O abajur acendeu-se bem como a lâmpada no teto, ambas as luzes trêmulas. Os pais se abraçaram, ombro a ombro, tentando processar o momento extraordinário que vivenciavam num misto de assombro e alegria.



Paralelamente, Frank rasgava o asfalto de uma estrada direto para a residência do casal adotante dirigindo uma BMW cinza emprestada de Hoeckler. Uma ligação de Natasha o tirou dos devaneios. Apertou no ícone verde do celular preso ao suporte no painel do veículo.



— Fala aí, Natasha. Já deu o pontapé inicial na sua maratona de caçadas?



— Olá, Frank. Bem, eu já dei início a minha jogada, mas não sozinha.



— Ah, é? Caça em grupo... Legal. Quem tá aí com você?



— Como minha fiel escudeira, sua amiga, e agora também minha, a caçadora de yokais. — relatou a caça-vampiros.



— A Miyako?! Ah, bom saber que vocês se deram bem. Tem mais alguém?



— Dylan e o russo, o Dimitri. Nós já estamos quase entrando no prédio. Pensava que essas Indústrias Crissman tinham sede apenas em Danverous City e Londres.



— Caramba, vocês estão prestes a invadir um prédio das Indústrias Crissman?! O que rolou aí?



— Parece que a SWAT foi acionada para conter uma rebelião de espécimes que se alimentam de carne humana. Ouvi dizer que são ratos de laboratório que foram alimentados demais e viraram essas coisas medonhas que devoram tudo o que for de carne e osso, vivo ou morto.



— Devoradores. Já encarei esses bichos escrotos uma vez. Provavelmente tem um exército deles aí dentro. Tomem cuidado. É bom que tenham munição de sobra, eles não morrem facilmente. Se puderem, atraiam eles onde a luz do sol entra pelas janelas, é a fraqueza máxima deles.



— Agradeço a dica. E você, o que tem feito?



— Por enquanto, nada. Fui encarregado de uma missão extracurricular. Vou ter que adiar minha primeira caçada desse jogo maldito.



— A gente foi metido numa encrenca das brabas, né? Eu nem consegui dormir. A Miyako também se sente péssima. — lamentou Natasha — Acredita na existência dessa cura?



Frank ficara silencioso por uns segundos.



— Não acredito em nada de bom que venha daquele infeliz. É cilada, na certa.



— Que vença o melhor caçador?



— É, isso aí. — concordou Frank — Que vença o melhor de nós oito. E eu achando que você iria logo atrás de um... Conde Drácula da vida.



— Se eu quiser vencer esse jogo, terei que ampliar minha aptidão. Pra você é mais simples.



— Nem tanto quanto você pensa. Merda, queria estar aí com vocês agora. Mas boa sorte.



— Podíamos marcar de caçar juntos... Se sobrevivermos aqui. Tchau.



— Falou. — disse Frank, desligando e acelerando.



Tocando a campainha de Audrey e Patrick, uma assistente social de nome Sofia, jovem de face e de cabelos castanhos bem lisos, veio para inspecionar as condições de vida do bebê adotado. Patrick se mostrou ressabiado.



— Chamou uma assistente social? Sem me consultar?



— Eu me poupei de uma discussão que não levaria a lugar nenhum. — disse Audrey indo atender a porta. Mas o marido a pegou pelo braço. 



— Audrey, espera. Mal tivemos um dia inteiro como pais e você já quer pôr tudo a perder? Só porque ele pode mover coisas com a mente e brilhar uma luz pelo corpo acha que não dá conta?



— Podemos não estar prontos. Não pro Zachary.



— Mas que conversa é essa? Ah não... — disse Patrick vendo-a ir até a porta, pondo as mãos na cabeça, atormentado com a decisão da esposa.



Audrey atendeu a visita sorrindo simpática. Sofia lhe retribuiu gentilmente.



— Bom dia, eu sou a Sofia, lar assistencial Toque de Amor. Audrey Weaters, certo?



— Bom dia. Sim, eu mesma que liguei. Vamos entrando pra que veja o bebê. — disse Audrey abrindo a porta para a moça entrar — Este é meu marido, Patrick.



— Prazer, como vai o senhor? — cumprimentou Sofia sorridente, oferecendo sua mão direita para apertar a de Patrick, porém o mesmo recusou, bufando raivoso ao sair batendo a porta.



— Me desculpe, ele anda aborrecido com algumas questões familiares, precisa de espaço. — justificou Audrey, constrangida.



— Não, tudo bem, eu entendo. Onde ele está?



— Aqui, venha. — disse Audrey sendo acompanhada pela assistente social.



Ambas chegaram ao quarto do pequeno Zachary que dormia.



— Aparentemente, não vejo inadequações no ambiente em termos de estrutura e higiene. — disse Sofia — Mas se ainda estiverem incertos sobre outras condições de cria-lo, podem abrir mão da guarda assinando termos de um contrato de doação. Você e seu marido devem estar de comum acordo. — disse Sofia.



— Gostaria que analisasse com mais calma. Fique à vontade, eu vou dar uma olhadinha na cozinha. — disse Audrey, hospitaleira.



— Quanta gentileza a sua. Obrigada. — agradeceu Sofia. A mãe adotiva a deixou sozinha no cômodo esquadrinhando cada lado. Sofia voltou rapidamente sua atenção ao bebê aproximando-se devagar. 



Zachary havia acordado com as vozes e olhava para a mulher que ia toca-lo carinhosamente. Porém, ao pegar na mãozinha do pequeno serafim, Sofia sentiu uma ardência excruciante que exalou uma fumacinha, a fazendo retirar a mão depressa. O celular dela tocou de repente e ela atendera.



— Você quer ferrar comigo, por acaso? Eu tô de serviço, idiota! — disse ela virando de costas para o bebê, revelando olhos totalmente negros sendo, na verdade, um demônio dentre os inúmeros espalhados em massa pela Terra após a vinda de Chernobog — Respeito o escambau! Não tô nem aí se você é o novo chefe do inferno, tô me lixando. Vai ter que comer muito espinafre se quiser nivelar com o diabo original. — fez uma pausa, ouvindo a réplica — Prometo não desaponta-lo, mestre. Melhorou agora? Enfim, parece que tô com um entrave aqui. Não posso levar o bebê com as mãos nuas, devia ter me emprestado luvas. — outra pausa — Ótimo, se esse for o único jeito... Tchauzinho, lá vem a vadia voltando. — disse, desligando logo.



Audrey voltou ao quarto ansiosa em saber das considerações da "assistente".



— E então, o que achou?



— Olha, entendo que mesmo provendo a melhor qualidade de vida possível ao Zachary vocês ainda podem estar indecisos quanto a adoção. Fique com meu cartão de contato. — disse Sofia entregando o papel com o número de telefone — Me liguem assim que tiverem chegado a um consenso. Agradeço muito a confiança.



— Eu que agradeço por ter vindo. Te acompanho até a porta. — disse Audrey, educadamente.



***



Enquanto isso, o prédio das Indústrias Crissman sofria um dia de terror com a rebelião das criaturas anteriormente cobaias dos experimentos hediondos conduzidos pela empresa sob pretexto de largos avanços na ciência e medicina. A energia havia sido cortada em mais da metade do local, requerendo o uso de lanternas pela escassez de janelas nos laboratórios. Natasha e Miyako haviam se separado de Dylan e Dimitri que formaram dupla averiguando os andares superiores. 



Num corredor de teto destruído, com lâmpadas e fios caídos cuspindo faíscas, as caçadoras seguiam cautelosas armadas com metralhadoras.



— Esse é o lado bom desse jogo. — disse Miyako — A gente sai da nossa zona de conforto.



— Vendo por esse ângulo... — disse Natasha — ... é até motivador. Fique atenta.



Com o piscar das luzes tornava-se um tanto difícil seguir tranquilamente. Nisso, um devorador se aproximava silencioso por trás de Miyako. Natasha virou-se notando com o pisca-pisca incessante a aproximação perigosa.



— Miyako, se abaixa! — bradou ela, mirando a arma no devorador que estava para abocanhar a caçadora nipo-americana. Natasha disparou com tudo na cabeça cinzenta, enrugada e de tamanho descomunal da criatura. Os tiros faziam buracos aos montes dos quais saiam sangue negro e viscoso. O monstro urrrava em dor com a chuva de balas — Vamos, por aqui!



As duas correram adiante, mas de repente a luz caiu de forma geral. Um grito soou estridente um pouco longe.



— Miyako! — chamou Natasha, aflita. Os geradores foram acionados automaticamente. Natasha correu à procura da parceira, mas ao dobrar um corredor deparou-se com uma presença no mínimo inesperada — Você...



O caçador da máscara de ferro ali estava sobre o corpo de um devorador que teve sua mandíbula quebrada e a boca de dentes pontudos rasgada, além dos olhos perfurados.



— Como sabia que estávamos aqui? — indagou Natasha, obtendo apenas silêncio como resposta do misterioso homem — Lembrei, você não fala. Ou não quer falar. Posso confiar em você pra me dar cobertura?



O homem de rosto oculto desceu pulando do cadáver medonho do devorador. Ele fez um gesto como se dissesse "primeiro as damas".



— Vamos lá, tenho uma amiga em apuros. — disse a caça-vampiros indo na frente — Admiro sua coragem de enfrentar esses monstros sem nenhuma arma. 



A dupla caminhou uns metros, logo ouvindo gemidos de dor. Era Dimitri encontrado caído de barriga para baixo com ferimentos graves pelo corpo.



— Dimitri! Tá tudo bem, vamos tira-lo daqui. — disse Natasha indo ao socorro do caçador que sangrava bastante — Me ajuda a levanta-lo.



— Não, não venham! Fujam! — pedia desesperadamente o caçador russo.



Um devorador escondido nas sombras pegara Dimitri pelas pernas e o arrastou para o escuro. O caçador soltou um grito, os dedos das mãos arranhando o piso e deixando rastros de sangue. Natasha avançou metralhando enquanto segurava a lanterna com outra mão. O devorador foi achado sem vida, mas Dimitri não estava menos pior. A marca de Chernobog desapareceu como se adentrasse nas veias. Dimitri passou a agonizar com o vírus espalhando-se pelo organismo, o empalidecendo horrivelmente. Teve um espasmo abrupto que assustou Natasha, a gosma negra expelindo pelos olhos, ouvidos, nariz e boca.



— Então é assim que o vírus age. — disse Natasha, pasma — A marca não deixou ele morrer pelos ferimentos.



— E se baixarmos a guarda, vamos acabar como ele. — disse Miyako reaparecendo para a feliz surpresa de Natasha — Foi mal ter me afastado, a luz caiu, eu me perdi... 



— Não, tá tudo bem, eu... fiquei mesmo bem preocupada com você. — disse Natasha próxima a ela.



— E esse aí...



— Nosso novo aliado. Algum sinal do Dylan?



Miyako fez que não com a cabeça, tensa.



– Agora que tem energia reserva, podemos usar o elevador. Vamos. — determinou Natasha.



***



Frank já se encontrava na casa dos Weaters sentado no sofá conversando com Audrey e Patrick e bebendo um copo d'água.



— É isso, detetive, estamos dispostos a entregar o Zachary ao lar adotivo de onde a assistente é associada. — disse Audrey.



— Nós não, você. — replicou Patrick — É o meu filho, ninguém tira ele de mim.



— Por favor, se acalmem. Me deixa ver o cartão que ela te deu. — pediu Frank. Audrey entregara e o detetive estudou bem — Não é muito sofisticado, parece que foi feito numa gráfica bem precária. Lares adotivos costumam fazer algo mais colorido e personalizado.



— Tá insinuando que esse lugar seja uma farsa? — perguntou Patrick.



— É o que vou descobrir com minha parceira de trabalho. — disse Frank pegando seu celular e ligando para Carrie — Alô, Carrie, me faz um favor rapidinho aí: pesquisa pelo lar adotivo chamado Toque de Amor.



Esperaram cerca de dois minutos até Carrie responder a questão.



— E aí, conseguiu achar? Ah bom... Não tem nada do tipo registrado com esse nome, né? OK, valeu. Alguma noticia da Natasha? Ela não retornou ainda? O celular dela pode estar desligado. Tá, beleza, qualquer coisa me manda mensagem. Falou.



— Detetive, então aquela assistente... — disse Audrey.



— É uma legítima farsante. — completou Frank, guardando o celular no bolso da calça — O nome é de uma maternidade localizada no Iowa. Vocês foram tapeados, não por uma pessoa, mas por um monstro.



— Que tipo de monstro? — indagou Audrey.



— Quando entrei no quarto do Zachary senti um odor de enxofre. Os demônios quando estão possuindo humanos exalam esse cheiro que fica no ar por horas. Vocês precisam ir embora. Ela não vai agir sozinha voltando pra cá.



— Irmos embora? Mas pra onde? — questionou Audrey.



— Um bunker super-seguro de uns caras que nem eu que lidam com coisas paranormais, podem ficar lá provisoriamente, o bebê vai estar sob total proteção... — disse Frank que se deteve na fala ao relembrar de algo que deu uma balde de água fria na sugestão — Putz, tinha esquecido do Thaumiel. 



— Quem é Thaumiel? — perguntou Patrick.



— Os anjos superiores querem pegar o bebê de volta, só que esse bunker não barra a entrada deles. O mais viável é ficarem aqui protegidos pelas runas anti-demônios que vou desenhar nas janelas. — disse Frank, levantando. 



— Mas não é com esses anjos que devemos nos preocupar mais? — contrariou Patrick também ficando de pé — De qualquer forma, seja quem for, anjo ou demônio, no meu filho não tocam.



— Vão por mim, os demônios são piores por quererem sabe lá o quê com o bebê. Com os anjos as intenções são claras. O direito de vocês tá assegurado, apesar de alguns anjos divergirem nesse lance de adoção. — disse Frank, determinado — Vou pegar umas latas de spray no carro. Pra reforçar, ponham sal grosso nas portas, especialmente em torno do berço.



— O que garante que essas medidas vão surtir efeito contra eles? — questionou Patrick.



— Vocês confiam ou não em mim?



— Patrick, seja mais flexível. — disse Audrey tocando-o no ombro.



— Está bem, vamos acreditar na sua sabedoria, detetive. A vida do Zachary está nas suas mãos.



***



No mundo celestial, o julgamento de Adrael ocorria ao ar livre em meio ao breu ocasionado pela morte do sol, restando apenas os ínfimos brilhos das estrelas que pontilhavam lindamente o céu. O juiz a comandar o tribunal era o arcanjo Rafael, anjo de porte truculento que possuía a aparência de um homem negro de cabelo social e uma barba por fazer. Ele se aproximou do púlpito onde declarou aberta a audiência.



— Silêncio! Antes de mais nada, me gratifico com a presença de todos nesta sessão. — disse Rafael com sua trovejante voz aos serafins e ofanins nos assentos similares a arquibancadas ao redor da área — Que se apresente o réu!



Adrael chegava algemado com grilhões de ferro sendo segurado nos braços por Raguel e Raziel. O soltaram, dando dois passos para trás.



— Adrael, está de acordo com a acusação acerca de seu ato infrator?



— Sim, meritíssimo. — respondeu Adrael, não conseguindo olha-lo nos olhos.



— Cometeu contravenção em seu pleno juízo sem influências de terceiros?



— Eu pensei ter escutado a prece de um amigo. Mas posteriormente descobri se tratar de algo forjado para me induzir ao erro. Anjos ligados a antiga tenente-general, Ethrea, foram os responsáveis, tudo para impedir que eu assumisse a alcunha. 



— E onde ela se encontra nesta hora?



— Morta. Infelizmente ninguém pode testemunhar ao meu favor.



— Existe alguém. — disse Raziel arrancando um olhar de revolta do irmão — Meritíssimo, peço sua permissão para me retirar a fim de trazer a testemunha de defesa com seu relato.



— Permissão concedida. — aprovou Rafael — Mas seja breve.



— Terá que escolher, irmão: o rebento ou o caçador. — disse Raguel. Raziel o olhou de soslaio indiferente, logo andando.



***



À noite, Frank se prontificou a vigília juntamente com Audrey e Patrick, não ficando tão expostos já que as janelas estavam cortinadas. O pai se colocou no quarto do filho observando qualquer movimentação suspeita. A mãe estava lavando a louça após um jantar oferecido à Frank que fazia guarda na sala. O foco de Audrey nos pratos, contudo, se voltou a janela na sua frente. Afastou a cortina, vendo alguém trajando uma túnica preta e uma máscara vermelha de rosto demoníaco parado perto da cerca. Ela recuou assustada, logo virando-se.



— Detetive Montgrow... — chamou ela que logo voltou a olhar pela janela. A figura espectral havia sumido dali — Deteti... — falou enquanto voltava para o lado oposto, mas logo foi interrompida pelo indivíduo bem ali na sua frente tapando sua boca com força para abafar um grito.



Patrick procurava por Frank e o viu saindo do banheiro.



— Aí está você, pensei que tinha fugido.



— Não, fui só soltar um barro aqui. Não que a comida da sua mulher não tenha caído bem. — disse Frank batendo na barriga.



— Vem ver isso. E tenta não surtar. — disse Patrick correndo até a sala. Apontou para Frank ver pela janela. O detetive conferiu, arqueando as sobrancelhas. O BMW se encontrava depredado nos vidros e faróis.



— O Hoeckler vai me matar. — disse Frank, congelado de espanto. De súbito, as luzes da sala piscaram trêmulas em ritmo acelerado — Chama a Audrey, depressa!



— Audrey! — berrou Patrick.



— Não será o Zachary fazendo isso? 



— Ele tá dormindo, não pode ser ele! — discordou Patrick, afoito — Amor, vem logo!



Tudo se imergiu em trevas absolutas. Mas num segundo as luzes retornaram. Porém, Frank e Patrick não estavam mais sozinhos na sala. Cinco invasores de túnicas negras e diferentes máscaras demoníacas se viam parados, cercando-os. Um deles, de máscara vermelha, agarrava Audrey nos braços em ameaça.



— Larguem ela! — disse Patrick, sacando uma arma e atirando no intruso. A bala nada fizera, mas ele retribuiu movendo a mão direita e empurrando Patrick com telecinesia direto contra a estante. Todos removeram suas máscaras, revelando as faces daqueles cujos corpos violaram.



— Seus miseráveis! Qual é a dessas fantasias? O Halloween já passou! — disse Frank.



— Nossa entrada dramática não impressionou você? Que pena. — disse o que segurava Audrey, mostrando os olhos pretos.



— Estamos sob nova direção agora. — disse o demônio que se passou pela assistente social.



— Chernobog? — indagou Frank.



— Ele não é um diretor, é um deus, o nosso deus. Mas não quer dizer que não precisamos de um líder da nossa espécie que coloque o inferno em ordem.



— Tá dizendo que tem um novo diabo na área? Como assim?



— Espera ele aparecer pra te detalhar a novidade.



— Sofia... — disse Patrick se levantando.



— Deixa eu me apresentar de novo: Jezabel. — disse ela sorrindo infame — Lembra de mim, caçador? Orgia de sangue.



— Você era um daqueles demônios do ritual da furunfa, né? Eu quase te peguei naquela noite.



— Será que vai ser diferente hoje? — perguntou Jezabel obscurecendo os olhos.



— Talvez. A diferença é que naquela época... — disse Frank, sacando a lâmina sacerdotal — ... eu não tinha isso aqui.



Frank avançou com a espada corajosamente, iniciando o embate contra o quinteto maligno. Audrey foi largada no chão violentamente, batendo a cabeça na mesa de jantar. Patrick a ajudou a levantar.



— Anda, tira ela daqui! — disse Frank que levou um soco pesado no rosto, caindo sobre a mesinha de centro com vidraça. A lâmina saiu da sua mão, mas antes que pegasse, um dos demônios a chutou longe e depois pisara sobre a mão do detetive que grunhiu alto cerrando os dentes.



Frank levara um chute no rosto e outro numa costela. Mas se reergueu após dar uma rasteira num dos demônios e sacar sua pistola com balas embebidas de água santa. Atirou em dois deles, sendo agarrado por trás pelo terceiro numa chave de braço. Os outros dois, Jezabel e o que usava máscara vermelha, perseguiam o casal que subia a escada até o quarto de Zachary. Apareceram nos dois pontos opostos. Jezabel descia deslizando uma faca no corrimão, sorrindo insana mostrando parte da face de demônio por baixo da pele humana com a boca de presas repugnantes.



— Hora do papai e da mamãe se despedirem um do outro. — disse o parceiro dela, rindo.



Frank se desvencilhou do mata-leão atirando por trás e virando-se para recitar o exorcismo romeno. O demônio convulsionava até se desprender do corpo por trás, sendo expulso ao ponto de ser defenestrado com a janela estilhaçando, logo fugindo. Pego desprevenido, Frank tomou um golpe na cabeça por um cadeira que o derrubou. Repentinamente, um outro demônio entrava na casa, este no corpo de um homem de meia idade vestindo sobretudo preto bem abotoado e ostentando um cabelo meio longo lambido para trás. Frank foi segurado pelo demônio que lhe deu a cadeirada.



— Que tipo de demônio entra pela porta da frente? — indagou Frank, machucado — Então... é você o novo coisa ruim?



— Agares. Prazer em vê-lo, Frank Montgrow, ainda mais neste estado. Seu nome é famoso em todo o submundo. É o tipo de alma que eu viria buscar pessoalmente se eu fosse a morte. — disse o demônio soberano inclinando para Frank — Colocaria minhas vítimas em sono profundo com meu novo poder. Mas prefiro fazer à moda antiga.



Agares aplicou um chute potente no rosto de Frank, levando-o a mais imediata inconsciência. No lado de fora, Thaumiel se avizinhava. Mas fora barrado por Raziel.



— Saia do meu caminho. Já não basta proteger um infrator da lei, agora você mesmo deseja quebrar uma?



— Não vou discutir as leis com você, Thaumiel. — disse Raziel, desembainhando sua espada que se iluminou. Thaumiel sorriu de canto.



— Entendi. Do jeito difícil. — disse o ofanim que também sacou sua espada. Um duelo mortal começava perto dos fundos da casa. No interior dela, exatamente no quarto de Zachary, Frank despertava com um choque no pescoço pela mão de Agares. O detetive estava amarrado numa cadeira com o rosto ainda mais ferido que antes. Viu Audrey amarrada nos pulsos num cabide de pendurar roupas e chapéus. Logo sentiu um líquido gotejar na sua testa. Era sangue caindo de cima. Ao olhar, constatou ser Patrick preso ao teto e com um ferimento gravíssimo na barriga.



— Vocês não saem daqui com o bebê nem que a vaca tussa. Pra que querem leva-lo?



— Assunto confidencial dos demônios. — disse Agares — Não percebe o que está em jogo aqui? As vidas desse pobre casal não lhe importam?

— Vai pra puta que te pariu. — disse Frank cuspindo saliva e sangue no rosto de Agares que se limpou tranquilamente — Como foi que passaram pelas runas?



Os demônios controlaram o riso. Jezabel explicou.



— Fomos agraciados com a presença do nosso deus. Nos deixou mais fortes do que jamais fomos.



— Por isso migraram todos pra cá. Mas... minha pior dúvida é como esse desgraçado aí se tornou o capeta. — disse Frank — O cara que mandava antes tava lá sob uma regra inquebrável.

— O nefilim não governava devidamente. Não quisemos nos curvar a um rei medíocre que pede permissão da mãe para agir como um menino mimado. Ele abriu mão da posse em prol de outro demônio... que por sua vez transferiu a mim. — contou Agares, soberbo — Mas não vem ao caso, vamos falar do que realmente interessa: ele.



Zachary estava acordado no berço circundado por sal grosso. Agares voltou a atenção para Audrey que chorava copiosamente.



— Fica longe de mim, fica longe de mim...



— Aquiete-se, não entre em pânico. Quero apenas fazer uma singela proposta.



— Sai de perto dela! — disse Frank que acabou recebendo um soco de um dos demônios.



— O que acha de selar um pacto? O bebê anjo em troca de um filho meu no seu ventre. Posso inseminar uma vida totalmente humana.



— Não cai nessa, Audrey! — avisou Frank, sangrando na boca. Tentou afrouxar os nós.



A luta entre anjos no mundo externo seguia despercebida pelo vizinhos, submissos ao toque de recolher da quarentena. As espadas luminosas colidiram brutais. Raziel chutara Thaumiel na barriga, empurrando o ofanim para longe. Mas logo se reergueu, contra-atacando. Raziel defendeu-se com a espada em horizontal.



— Os demônios irão ceifar vidas inocentes, incluindo a única testemunha que pode salvar o seu protegido! Me deixe pegar o rebento e vá cuidar do caçador! — disse Thaumiel.



— Ele sabe controlar a situação! 

— Não seja ingênuo! — disse Thaumiel forçando mais à espada contra a de Raziel — Está tudo muito silencioso lá dentro! Será que já não ocorreu uma tragédia? Será que não fugiram com o rebento? Irmão, raciocine! 



Raziel desviou o olhar, refletindo as possibilidades boas e ruins. As palavras de Thaumiel soaram como uma súplica para que aquele embate sem sentido terminasse de uma vez. No quarto, Agares tentava seu jogo de sedução com Audrey.



— O que me diz? É sabido que humanos e demônios geram proles humanas, é simples assim. 



— Humano até uma certa idade! — adicionou Frank que tomou outro soco, desta vez no nariz.



— Você se intitula o diabo... — disse Audrey — Eu, como uma mulher cristã, jamais me deixaria cair na lábia do pai da mentira. Acha que vou ser louca de gerar um filho seu? Suas mãos estão sujas com o sangue do meu marido!

Agares a esbofeteou, raivoso. Se dirigiu ao berço de Zachary para pega-lo no colo.



— Aí é o fim da linha pra ti! — alertou Frank.



— Sério? Sinto cheiro de óleo sagrado. Vejamos. — disse Agares que acendeu uma labareda de fogo no indicador direito. Deixou a chama cair no círculo de sal que incendiou na hora. O demônio cruzou o fogo ileso, surpreendendo Frank. Agares se virou para seus asseclas — Nosso deus será um pai digno de ser honrado.



Antes que Agares pudesse se virar, todos os outros se abismavam ao ver Zachary flutuando sobre o berço com os olhos brilhando em branco celestial. O novo diabo expressou medo pela primeira vez defronte ao pequeno anjo emanado sua luz e exibindo asinhas de serafim.



— Audrey, Patrick... Fechem os olhos! — mandou Frank que logo fechou os seus intensamente.

O anjo explodiu sua luz no quarto inteiro, desintegrando Agares e seu séquito. Thaumiel e Raziel cessaram a luta vendo a poderosa luz refulgir fora da casa. Ambos se entreolharam, concordando em agir. O corpo de Patrick caiu duro no chão. Frank desatou o nó e fora direto libertar Audrey. Zachary caiu no berço sentado, começando a chorar. Ao verificar os sinais vitais de Patrick, Frank apenas balançou a cabeça para Audrey que se jogou no corpo do marido aos prantos. Os dois ofanins apareceram na entrada do quarto.



— Raziel... Você tá com o Thaumiel, mas como... — disse Frank.



— Não há o que temer. — disse Raziel — Vamos, levarei você para testemunhar no julgamento.



— Aí você deixa seu amigo tomar o bebê dos braços da Audrey que acabou de perder o marido! 



— Não vou leva-lo. — disse Thaumiel — Vou pedir requerimento aos arcanjos para conceder a guarda. É essa a feitura da lei.



Frank respirou mais aliviado. Raziel se aproximou dele o tocando. 



— Audrey... Eu sinto muito. — disse o detetive que recebeu uma expressão compreensiva dos olhos encharcados da mulher. Raziel e Frank teletransportaram-se ao mundo celestial. Mas Raguel veio para dissuadi-los.



— É tarde demais. O júri está concluindo a votação. Rafael logo aplicará a sentença. Você o deixou esperando em demasia.

— Ainda não acabou. — disse Raziel.



— Então quando é noite na Terra é também aqui? — questionou Frank olhando ao redor — Esquisito, da primeira vez que vim minha alma tinha sido arrancada do meu corpo enquanto eu dormia e era de dia aqui.



— Não está à noite. — corrigiu Raziel — Aqui está, meritíssimo. A testemunha decisiva.



— Lamento, mas seu tempo expirou. — proferiu Rafael — O júri está em plena votação.



Frank tomou a liberdade de dar um passo adiante para fazer um pedido.



— Olha, com todo o respeito, sei que não sou ninguém na fila do pão pra sugerir alguma coisa pra alta corte judicial dos anjos, mas... acho que nesse caso em particular um exceção pode ser aberta. Me permita defender meu amigo, por favor. Juro dizer a verdade e nada além da verdade.



Rafael fitou o detetive com sua visão austera. O arcanjo ergueu a mão esquerda num gesto para que o júri composto por dez serafins parasse. 



— Mas que insolente. — disse Raguel que foi travado por Raziel para que não intervisse

— Permissão de manifesto concedida! — disse Rafael — Se pronuncie agora.



— O Adrael foi vítima de uma trama arquitetada pela Ethrea pra eliminar a chance de não ser escolhida como tenente sabendo que ele era o favorito a assumir a patente. — declarou Frank — Eu dou minha cara à tapa ao contrário dos anjos subordinados à ela que não estão aqui pra dizer uma palavra em apoio ao irmão deles. Medo de quê? Represálias? Ela morreu! O que eles tem a temer? Talvez seja o ego. Nisso vocês não são nada diferentes dos humanos. — fez uma pausa, voltando-se a Rafael — Ele cometeu um engano. Atendeu a minha voz sem pensar duas vezes porque temos uma ligação, uma irmandade. — olhou para Adrael — Ele é meu anjo da guarda e meu melhor amigo, nunca me deixaria na mão a menos que estivesse ocupado demais. Descobri isso vivendo com ele, abrigando ele sob meu teto na hora mais difícil dele. Não merece ser condenado por ter agido de boa-fé.



O júri retomava a votação. Um ofanim entregou o papel com o resultado a Rafael que leu em voz alta.



— Por 8 votos favoráveis, o réu está absolvido de sua condenação, sendo passível de restauração da sua graça, essência e poder!



Vários serafins aplaudiram a decisão. Frank dera um abraço apertado em Adrael após o anjo ser libertado dos grilhões.



— Estou em débito eterno com você, Frank.

— Não me deve nada. Te ver saindo dessa furada é a maior recompensa pra mim.



Os dois permaneceram abraçados ao som das palmas acaloradas daqueles que aguardavam um veredito justo e imparcial.



***



Na Terra, o prédio das Indústrias Crissman prosseguia em caos total com várias viaturas da polícia de Los Angeles em cerco. Frank chegou com o BMW estragado, saindo às pressas. Natasha veio ao encontro dele correndo.



— Frank! — chamou ela — A Miyako...



— O quê? O que houve com ela? — indagou Frank quase esbarrando nela ao se dar um freio.



— Ela ficou lá dentro, nos separamos pra procurar o Dylan... Ele tá ali na ambulância fazendo inalação porque aconteceu um incêndio. O Dimitri foi morto.

— O russo? Caramba... A gente tem que voltar lá e pegar a Miyako! Não devia ter deixado ela sozinha!



— Mas não deixei, nos perdemos por conta do incêndio, houve uma explosão de gás! Tinha funcionários infectados lá além dos devoradores, alguns deles escaparam, mas acho que liquidamos boa parte. — disse Natasha, nervosa — Eu tô me sentindo tão culpada! Se ela morrer...



— Calma, deixa que eu entro lá e trago ela!



— A polícia restringiu, estão esperando ordens do alto escalão da SWAT pra invadir o prédio.



Um policial gritou apontando para um corpo que caía da janela do oitavo andar cujo vidro quebrara com a queda.



— Miyako! — disse Frank.



— Não! — disse Natasha notando ser ela. Ambos correram na direção do ponto limite da queda. Mas logo avistaram uma luz de salvação vir voando em alta velocidade. Era Adrael, recomposto de suas forças, conseguindo pegar Miyako a uma altura segura de evitar um impacto mortal. O anjo a segurou, batendo devagar suas asas brancas cintilantes. Numa área aberta, pousou frente à Frank e Natasha com a jovem caçadora nos braços.


— Eu tô sonhando ou... acabei de ser salva por um anjo? — disse Miyako, chocada.



— Não acreditava que isso ocorreria um dia? — indagou Adrael, os olhos brilhantes.



— Não. — respondeu ela ainda perplexa — Eu sou xintoísta.



Frank e Natasha se aproximavam. A caça-vampiros não reprimiu o pasmo.



— Eu tô sem palavras... É um anjo autêntico?! Nossa, acho que eu vivia bitolada demais no meu mundinho de vampiros pra me impressionar tanto com o que acabei de ver.



— Bem-vindo de volta, Adrael. — disse Frank, orgulhoso de vê-lo de volta a sua forma.



***



Na manhã seguinte, Frank estava no memorial dedicado às vítimas do megassismo que engoliu Danverous City, olhando cada lápide de 1,80 m com fotos fixadas dos mortos. Adrael apareceu ao lado dele em teleporte. Ao olha-lo, o detetive se surpreendeu com sua aparência.



— Ué, aposentou seu uniforme de guerra?



— Aquelas eram vestes formais de um serafim. As que se usam em guerras são bem diferentes. Mas não tão polidas quanto as dos ofanins. — disse o anjo que vestia casaco creme, camisa xadrez vermelho e preto e calças jeans, além de calçar sapatos pretos — Estas eu encontrei jogadas na rua.



— Por que essa mudança agora que voltou a ser parte do batalhão?



— Frank, ao seu lado eu adquiri um sentimento de pertencimento. Não tinha esperança alguma de voltar a voar com minhas asas. Preciso fortificar meu aprendizado com os humanos e no meio disso está você. Foi muito mais meu irmão do que qualquer outro anjo que esteve comigo.



Frank sorriu de leve reconfortado.



— Quando quiser passar uns dias lá em casa... a porta da frente tá aberta, mas se quiser entrar do seu jeito tá valendo. Tem certeza de que não tá pronto pra se reajustar no mundo celestial?

— É cedo. Com o tempo, vou restituindo minha confiança. E fiquei sabendo do rebento que desapareceu da árvore. Foi só o primeiro de vários que cairão devido à catástrofe que o Grande Mal vem causando nos dois mundos.



— Tava resolvendo o caso desse bebê, inclusive. Foi jogo duro, mas acabou bem. A mãe teve a guarda concedida pelos ofanins. O ruim é que o marido dela pagou com a vida nas mãos de demônios que tentaram roubar o bebê pro Chernobog.



— O que espera acontecer daqui em diante? 



Frank respirou fundo olhando para a foto da lápide a sua frente.



— Quer saber o que eu acho? Que vai faltar hectare pra enterrar gente. Mas vou fazer das tripas coração pra não ver mais ninguém que prezo morrer. Já perdi esse cara aqui. Não me faz perder você também.



A foto na lápide era de Owen, incluso entre as vítimas por ter morrido no território de Los Angeles onde também houveram baixas.

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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

*Imagem retirada de: https://aminoapps.com/c/terroramino_pt/page/item/anjos-caidos/L21g_0JlIBIMdZngE1jLXZw0JjzkqGGj1DP
















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