Os jovens irmãos Syd e Javi nunca visitavam o tio materno, Jeff Anniston, sem um previamente o avisarem. Mas naquele final de tarde ensolarada, a tradição seria quebrada em nome da curiosidade incessante que ambos nutriam e partilhavam a respeito de um segredo existente na casa do tio, mais precisamente no alçapão do lado de fora que condizia a um abrigo contra tempestades. Jeff trabalhava como lenhador, portanto nada mais natural que vivesse cercado de árvores na sua moradia que era um casarão alto com um bom número de compartimentos.
A dupla seguiu cuidadosamente pela floresta a fim de não serem vistos através de uma das janelas da fachada.
— Anda logo, Javi, é pra esquerda. — disse Syd, uma garota de lisos cabelos castanhos escuros usando moletom xadrez vermelho e preto.
— Eu sei onde fica, só... tô meio nervoso. — disse Javier, um garoto de 16 anos usando boné e casaco azuis — Dá tempo da gente se salvar, sabia? E não tô falando do tio Jeff...
— Ah, para, Javi. Não vai me assustar com essa história de zumbis no alçapão. — disse Syd olhando para ele com a testa franzida
Os dois se aproximaram do ponto, passando do risco de serem avistados. Syd abriu as portas, levantando uma nuvem de poeira que fez dissipar com a mão.
— Lanterna. — pediu ela ao que Javi atendeu tirando da sua mochila e logo entregando. A luz da lanterna banhou alguns degraus da escada de concreto que descia ao fundo.
— Alguma coisa não tá cheirando bem. — disse Javi, temeroso.
— Deve ser você que cagou nas calças acreditando nas histórias do tio Jeff.
— Quer que eu entre pra te mostrar que não tenho nada a provar sobre a minha coragem? Beleza, eu topo. — disse Javi, tomando a lanterna.
— Bem melhor assim, já que você de vigia seria um desastre. Tenta não gritar feito uma menininha se encontrar tipo... uma aranha. Tio Jeff avisou que anda tendo uma infestação e logo da sua espécie favorita.
— Caranguejeiras? Fala sério... — disse Javi, fazendo cara de nojo, logo encarando a escada em face séria — Que se dane, já fui muito zoado por você e pela galera do colégio por causa desse medinho ridículo. Vou entrar, você fica de guarda e não faz nenhum barulho se der ruim.
— Alto e claro, capitão Bravura. — brincou Syd fingido bater uma continência
— Idiota. — retrucou Javi, descendo os primeiros degraus. Syd riu e ficou a observa-lo seguir ao mesmo tempo que dava olhadas na frente da casa temendo que o tio pudesse sair. Mas ao retornar a atenção para o alçapão não viu mais a luz da lanterna. Ela se agachou para chama-lo.
— Javi? Não zoa com a minha cara...
De súbito, Javi subiu rápido na escada assustando-a com um grito e fazendo cair com os quadris no chão gritando.
— Não pensou que eu ia perder essa, né?
— Seu maluco! — disse Syd tentando falar baixo ao repreende-lo — Tio Jeff pode ter nos ouvido. Agora ferrou, eu gritei muito alto. Desgraçado, eu vou ter que entrar também.
— Ué, não era você que não não dava bola pras histórias dele? Ou tem medo de aranhas também?
Javi logo sentiu agarrar fortemente sua perna esquerda, sendo puxado para baixo.
— Javi, não! — gritou Syd ouvindo a voz do irmão silenciar na escuridão. Cogitou pedir ajuda ao tio, mas visualizou o risco de reprimenda por parte dele. Assim, se encorajou a descer a escada sem lanterna, apenas no intuito de resgatar Javi e correr dali depressa.
A escada terminou num chão de terra úmida. Praticamente as cegas, Syd procurava pelo irmão o chamando várias vezes. Encontrou a lanterna do irmão, a pegando. Tomara vários sustos ao iluminar vários corpos envolvidos em teias de aranha como se fossem mumificados.
— Javi... — disse ela ao encontra-lo na mesma condição, porém ainda consciente. Ele tentava avisa-lá de um perigo à espreita, mas sua boca encontrava-se amordaçada pela teia. A linguagem dos olhos arregalados de Javi a fez olhar para cima com a lanterna apontada. Logo, a figura de um monstro de grande estatura com características de uma aranha negra veio sobre Syd que emitiu um grito estridente de horror ao ver a coisa grotesca descer rápido para abocanhar sua nova presa.
***
As batidas do coração era o único som audível naquele instante de terror em que o jatinho desviava arduamente de edifícios e pontes que cediam de forma assombrosa com o megassismo que devorava a cidade. Os sons retumbantes das palpitações soavam como o de tambores num seguimento desritmado. De repente, Frank viu pela janela a asa da aeronave ser partida em duas ao chocar-se com a lateral de um prédio. Tudo apagou quando o detetive se deparou com Carrie caindo da porta de emergência num momento em que o avião dava piruetas descontrolado.
Mas nada transcorria normalmente, parecia em câmera lenta, como se Frank obrigatoriamente tivesse de viver aquela cena em toda a sua plenitude para gravar todo o desespero de encarar sua melhor amiga sendo lançada ao abismo sem fundo não tendo onde se segurar. Os olhares terrificados se entendiam. Um único som passou a se sobrepor aos poucos às estrondosas batidas. Era a voz de Carrie gritando fortemente o nome de Frank em uma expressão de puro horror estampada na face.
O detetive quase pulou da cama com o sobressalto ao despertar do pesadelo que refletia seu trauma com o Big One. Ficou sentado reavendo o fôlego, o suor frio gotejando da testa. O abalo chocante transformou-se em choro, pondo as mãos no rosto ao se dar conta de não ter passado de uma realidade piorada.
— Ai meu Deus... — disse Frank, soluçando lento com o pranto inevitável.
Depois do amanhecer, Frank chegou a sala de pesquisa para tomar o café, não se surpreendendo com Carrie já ali bem cedo da manhã. Giuseppe também estava, mas não foi notado logo de início. Frank focou nos olhos de Carrie quando a mesma cruzou o contato visual. Apenas veio de imediato um flashe da assistente em queda no avião direto ao inferno terroso abaixo, naquela expressão inesquecível.
— Bom dia, Frank. Dormiu como um bebê?
— O importante é que eu preguei o olho. A cama ainda... não tá muito confortável. — disse Frank, um tanto evasivo. Carrie estreitou os olhos, suspeitando do cansaço na face do detetive.
— Bom dia, Giuseppe. — disse Frank, puxando uma cadeira.
— Bom dia, Frank. Você não parece mesmo ter dormido muito bem. Esse seu colchão deve ter estralado suas costas.
— Não é nada demais, acho que o travesseiro não é do o tipo que me faz contar carneirinhos. Mais tarde eu peço pra um agente trocar. — disse Frank pondo café numa caneca — O que me traz aí, Carrie?
— Quer dizer um caso novo?
— Anúncios de bens de segunda mão é que não é, né? Se bem que eu tô precisando de um carro, de preferência um sedã prata.
— Não vendem carros usados nessas empresas de comércio online. — salientou Giuseppe.
— Antes de conseguir um, precisa arcar com o estrago no que o Hoeckler te emprestou. — disse Carrie — Não, não estou dizendo isso porque fui informada pessoalmente por ele, eu sei que ele vai te responsabilizar pelo dano.
— Acho justo. — disse Frank dando um gole no café. Carrie franziu o cenho.
— O carro nem é seu, não foi você que danificou.
— Mas tava sob minha confiança, então... acho que posso rachar metade da conta pros reparos. O resto é com ele. — determinou Frank, molhando um donut no café e enfiando na boca em seguida.
— Bem, menos mal. Não aceite se ele te impor pagamento integral. — disse Carrie digitando veloz no laptop — Aqui está, mais um dia normal em Los Angeles. Como desgraça pouca é bobagem, dois bairros vizinhos populosos estão sofrendo com vários desaparecimentos misteriosos, em especial de alunos de uma escola pública. Entre eles, os irmãos Javier e Sydney Aniston, de 16 anos, foram vistos pela última vez em casa quando saíram sem avisar ontem. Mas a polícia colheu informações do celular de Sydney em que conversava por mensagens com o irmão sobre uma investigação que faria na casa do tio, não especificando nada.
— Eles podem ter combinado isso pra despistar caso a mãe desse uma olhada nas mensagens. Vai ver marcaram de ir a um outro lugar. — especulou Frank — Essa garotada adolescente de hoje em dia tá ficando cada vez mais escorregadia pra se livrar do controle parental.
— Verdade, mas é provável que não seja uma artimanha pra disfarçar. Terá que ir a casa do tio deles que não quis se pronunciar com ninguém até agora. — disse Carrie, fechando o laptop — Esse é o caso pro qual te designaram, que sorte a sua.
— Sorte por que? — indagou Frank, a boca cheia.
— Porque a Natasha me enviou hoje bem cedo uma mensagem de que iria cuidar da investigação juntamente com sua nova parceira de caçada, a Miyako. — disse Carrie, mudando para um tom entediado ao falar sobre Miyako, levando Frank a dar uma risadinha contida pelo ciúme explícito — Mas tratei de avisar que você podia combinar esforços com elas se ficasse com o caso. Vou agora mesmo informa-la disso. — pegou o celular para entrar no aplicativo — Oh, ela está online. — digitou a mensagem enquanto Frank e Giuseppe se esbaldavam com as rosquinhas — Prontinho, ela respondeu que não tem problema de se encarregarem de colher relatos quanto aos desaparecimentos pelas vizinhanças.
— É bom que elas tenham um plano bem formatado, não podem tomar parte de uma investigação sem forjar credenciais. — alertou Frank.
— Identidades falsas? Melhor avisa-la rápido antes que ela saia. — disse Carrie, os dedos velozes na tela do celular.
— Ótimo, enchida a pança, hora de tocar o barco. — disse Frank, levantando — Esse tio da nossa dupla sumida de irmãos talvez não recusaria trocar uma ideia com um detetive bem remunerado do DPLA. Não me olha assim, Giuseppe. Não vou coagir o cara.
— O nome dele é Bernard. Natasha disse que acabou de sair, está esperando a sua ajudante ninja chegar no carro. — disse Carrie, verificando — E não, Frank, não estou com nenhum traço de ciúme.
— Seu olho tremendo diz o contrário. — disse Frank com bom-humor ao apontar o olho esquerdo da assistente tremido, logo saindo da sala. Carrie o esfregou forte.
— Ah, mas que merda, ele percebeu. — resmungou ela.
***
A casa da professora que lecionava para os alunos desaparecidos localizava-se na mesma zona onde os mesmos viviam. Ela foi tida como uma potencial depoente no caso, pois conhecia de perto alguns deles que volta e meia a visitavam nos fins de semana para aulas de reforço, especialmente nos períodos de provas.
— Espero que essa nossa aventura de atrizes da lei compense o tempo que gastamos falsificando nossas identidades. — disse Natasha saindo do carro parado em frente a residência. Miyako saiu do lado do carona.Avas estavam trajadas com ternos cinzentos de agentes do FBI.
— Tomara que ela não peça pra gente especificar de qual divisão do FBI somos. — disse a caçadora nipo-americana — Essa roupa vai de encontro a minha autoimagem. Tô parecendo um cosplay de algum personagem de série americana. Se ao menos estivéssemos sendo pagas pra isso...
— Não se pode ter tudo, infelizmente. — disse Natasha se direcionando à porta da casa. Bateu educadamente após ver que não tinha campainha — Nem mesmo um salário que dê pra instalar uma campainha.
— Ela já devia ter atendido. Será que não tá aí? — questionou Miyako dando uma espiaodinja pela janela — A casa parece bem silenciosa, acho que ela mora sozinha. Devíamos averiguar as imediações pra saber de mais desaparecidos.
Natasha insistiu batendo mais vezes e nada da professora dar sinal de sua presença.
— Sra. Duchovy, é o FBI! Precisa nos deixar entrar!
— Lamento, ela não se encontra. — disse o vizinho da esquerda, um senhor meio gordo na faixa dos 60 anos usando colete de lã marrom, camisa azul claro e boina preta que estava regando as plantas com uma mangueira.
— O senhor a viu saindo? — indagou Natasha.
— Não, mas assim como você bati inúmeras vezes e nada dela atender. Não a vejo há três dias.
— Três dias atrás ocorreram os primeiros desaparecimentos. — salientou Miyako falando baixinho para a parceira — Ela é mais suspeita do que pensávamos.
— Obrigada, tenha um bom dia. — disse Natasha, logo voltando ao carro e sendo acompanhada por Myiako que navegava pela internet no celular — Pra onde uma professora sairia num regime rigoroso de quarentena?
— Fazer compras no supermercado?
— Os serviços essenciais só abrem a tarde. Esse homem parece observar bem a vizinhança, então é suposto que ele a teria visto saindo, seja a pé ou de carro. — declarou a caça-vampiros, abrindo a porta do veículo — O que tá olhando?
— Vários sites estão divulgando o desaparecimento de um grupo de trabalhadores num canteiro de obras no outro bairro. Alguns foram achados nos túneis, mas estavam inconscientes e... enrolados em teias de aranha.
— A polícia não localizou o resto ou pistas?
— Não, por receio de seja lá o que tenha levado eles, afinal os monstros agora são de conhecimento público, não seriam loucos de seguirem uma rota que pode conduzir ao ninho dessa aranha tamanho família. Isso foi hoje cedo. Se estivéssemos lá...
— Não podemos enfrentar algo que não temos certeza absoluta do que é. Aranha gigante soa genérico demais. Já combati várias, mas essas agiam somente a noite... como os vampiros.
— Então você lutou contra aranhas vampiras?
— E uma porção de outras coisas que sugam sangue.
— É, você tem muita história pra me contar. Será que posso dirigir agora? — fez uma pausa fazendo uma expressão exagerada de súplica.
— OK, não vou te tratar como uma criança. — disse Narasha jogando a chave para ela e trocando de lugar. As duas entraram no veículo e ficaram paradas olhando a rua por um instante sem saber como prosseguirem — Tá ciente de que essa nossa aliança é meramente temporária, né?
— Olha, eu entendo perfeitamente que não estamos nessa juntas por piedade uma da outra. — disparou Miyako — Se o cara poderoso que está ameaçando destruir o mundo nos der licença pra matar um concorrente... você será meu primeiro alvo. Não me subestime, Natasha. Posso parecer inexperiente com esse rostinho jovem demais pra minha idade, mas minha experiência falaria por si só se me visse em ação. Se eu tiver que te matar, vou te matar. Uma vida por bilhões, não vejo problema.
Natasha a encarou com naturalidade e compreensão, fazendo um aceno lento e positivo de cabeça.
— Se chegarmos ao fim, tente cumprir essa promessa. Senão ficarei bem decepcionada.
Miyako concordou e girou a chave do Corolla Sedan preto, dando a partida. O carro saiu pela rua, a dua indo vasculhar a área em busca de desaparecimentos ocorridos há pouco tempo.
***
Frank cruzava a floresta em direção à casa de Bernard Aniston que se avistava como uma grande construção em meio a abundância de vegetação. O detetive subiu os degraus da escadinha perto do alpendre e logo bateu à porta. Bernard veio ao atendimento sem relutância, destrancando a porta.
— Olá, eu sou o detetive Frank Montgrow, DPD... polícia de Los Angeles. — disse Frank mostrando o distintivo e xingando-se mentalmente por quase ter cometido uma gafe vergonhosa — Sr. Aniston, fui incumbido de averiguar o desaparecimento dos seus sobrinho e soube que restringiu acesso de policiais a sua casa. Não faria o mesmo comigo, faria?
Bernard era um homem de meia idade em plena faixa dos 50 anos, tinha cabelos castanhos quase grisalhos e rosto meio quadrado. Permitiu Frank a entrar para uma conversa franca.
— Naquele momento eu não tinha cabeça pra falar com ninguém. — disse ele sentado no sofá após ter recebido Frank que resolveu permanecer de pé — Syd e Javi são como os filhos que eu nunca tive. Detetive, não estava pensando que eu os mantenho aqui em cativeiro, estava?
— Não, eu só presumi que eles tivessem passado pra visitar você pois tinham combinado de virem aqui por mensagens no celular. A propósito, bela casa a sua, se eu pudesse largaria a cidade grande pra viver no meio do mato com toda essa calmaria e sossego.
— Ahn, obrigado... Mas se eles quisessem vir me visitar, teriam me avisado ligando ou pelo aplicativo de mensagem, estamos sempre em contato. — declarou Bernard, pensando no que eles teriam feito — Oh céus... Agora eu sei porque planejaram isso a revelia dos pais deles: o alçapão lá fora.
— Aquilo lá que parece uma entrada de abrigo pra tempestades? O que tem ali dentro? — questionou Frank. Bernard tomou um gole do chá calmante que estava tomando.
— Não faço ideia e nem quero saber. Aqueles dois cabeças de vento caíram na idiotice de bancarem os detetives especiais pra entrarem no alçapão e descobrir o que há de tão sinistro nele quando eu já os tinha alertado pra não ir. — disse Bernard, o tom duro como se na sua mente estivesse ensaindo uma bronca aos sobrinhos — Há lendas mais antigas que minha morada por aqui quanto a esse suposto abrigo, diziam que era um reduto de cadáveres deixados por um assassino, outras versões avisaram que era amaldiçoado e quem entrava não conseguia mais encontrar a saída pelos vários túneis e ficariam eternamente presos num labirinto onde não veriam saída, passando fome e sede até morrerem sem que seus gritos de socorro fossem ouvidos.
— Nossa, bastante... medonho, eu admito que ouvir você contando me arrepiou todos os pelos. Por curiosidade, você trabalha por aqui perto?
— Sou lenhador, administro uma madeireira importante nesse bairro. Hoje não fui trabalhar atormentado por todo esse pesadelo.
— Acredita que eles ainda estejam lá? — perguntou Frank, insinuando algo que Bernard captou ligeiramente.
— Não, não, não, por favor, eu imploro, detetive, não se arrisque tanto. Se as lendas não fossem tão reais, Syd e Javi estariam aqui comigo e tudo não teria passado de uma brincadeira deles, teriam se enganado e não...
— Bernard, se acalma, por favor, eu não posso fazer meu trabalho sem correr riscos, isso significa que é meu dever me enfiar nesse buraco pra inspecionar se há mesmo um perigo muito sério que pode ter feito algo com seus sobrinhos. — disse Frank, olhando fixamente para o lenhador visando convence-lo.
— Eles estão mortos. — disse Bernard, caindo em prantos. Frank suspirou, não sabendo exatamente como deixa-lo menos afligido.
— Eu vou até o alçapão, Bernard. E você não vai me impedir, senão pode ser qualificado como obstrução de justiça e certamente a última coisa que você quer é ser incluído numa lista de suspeitos. — disse Frank vendo-o se debulhar em lágrimas e dando passos até a porta — Vou indo.
— Espere. — disse Bernard o fazendo parar próximo da porta — Há uma segunda entrada que eu acredito ser mais segura. — olhou para Frank — Meu porão. Venha, eu vou mostra-lo.
O detetive acompanhou o lenhador até o porão que possuía uma segunda via para se infiltrar pelos túneis subterrâneos. Bernad acendeu a luz precária e amarela do recinto e desceu a escada de madeira que rangia com os passos. Desacorrentou as portas do alçapão, as abrindo para Frank entrar livremente.
— Se encontra-los mortos, não esconda de mim. — disse o lenhador. Frank o tocou no ombro como demonstração de empatia pela sua dor. O detetive descera, munido de uma lanterna. Cruzou um caminho repleto de teias de aranha — Cuidado! — gritou Bernard — Há uma infestação de aranhas em toda essa região! São caranguejeiras e viúvas-negras!
— Tudo bem, eu me viro! — disse Frank, prosseguindo. Num dado instante, encontrou as aranhas correndo em meio ao que pareciam corpos envolvidos nas suas teias. Havia um sorbe o qual estavam um grupo numeroso de caranguejeiras. Frank pegara um tronco fino de madeira encontrado ali e as tirou cauteloso. Virou o corpo com o pé direito para que pudesse visualizar a face. O cadáver tinha um rosto irreconhecível de tão carcomido em pele e carne, dando para entrever partes do crânio.
Frank se afastou rápido pelo forte odor de carne putrefata. Seguiu até que encontrou um túnel grande pelo qual poderia passar um caminhão. Foi andando com o facho da lanterna em linha reta iluminando bem a sua frente. Ouviu ruídos adiante que aumentaram de volume. Um exército de aranhas viúvas-negras vinham correndo pelas laterais do túnel. Mas aquilo não passou de mera distração para algo pior irrompendo da escuridão. Frank apontou a luz mais acima, logo sendo surpreendido por uma criatura de fisionomia hedionda vindo ataca-lo.
O detetive correu junto às pequenas viúvas-negras, saindo do túnel atemorizado com aquele monstro repugnante com aspecto aracnídeo. Voltou ao porão pedindo para Bernard fechar depressa, continuando a correr. Foi para fora da casa, vomitando no alpendre e logo sofrendo com sintomas de ansiedade como palpitação, falta de ar e suor excessivo. Se segurou na parede, recompondo-se. Bernard veio, curioso.
— Detetive, o que houve? Está tudo bem? Você... parece mal. O que viu lá?
— Um corpo. — respondeu Frank, limpando a boca e a testa — Mas não é da Syd e nem do Javi. Na verdade, tá cheinho de cadáver lá dentro, um mausoléu de quinta.
— Mas é estranho que tenha corrido até aqui tão assustado. Viu mais alguma coisa, não foi? Não minta pra mim....
— Olha, Bernard, eu sinto muito. As chances dos seus sobrinhos estarem vivos... ficaram ainda mais remotas. Me desculpa o incômodo. — disse Frank, em seguida indo embora, deixando Bernard a pensar no que teria provocado tamanha reação de medo em um detetive que deveria estar habituado a se rodear de corpos putrefatos. Frank ligou para Natasha ao tomar mais distância da casa do lenhador.
— Natasha, e aí? Como tá se desenrolando entre você e a Miyako?
— Estaca zero até agora. Fomos até a casa da professora, a Srta. Duchovy, mas um vizinho nos disse que ela não estava. Tudo que soubemos foi de mais desaparecimentos nas proximidades, mas alguns foram achados, todos eles envoltos de teias de aranha. — disse a caçadora que notara algo numa rua a esquerda — Espera, Miyako, dobra pra ali. Acho que encontramos uma possível pista...
— Acabei de sair da casa do lenhador que teve os dois sobrinhos provavelmente jantados pela coisa que encontrei abaixo do porão dele.
— Uma aranha gigante?
— Quase isso, mas muito pior. O bicho era gigantesco, talvez mais de dois metros. Da cintura pra cima parecia humanoide com uma cabeça parecendo o Alien da Ripley com os oito olhos de aranha e um monte de presas nojentas. Ele disse que havia uma infestação de aranhas.
— As coisas estão se encaixando um pouco. — disse Natasha vendo pela rua onde dobraram vans do controle de pragas — Não deve ser coincidência tantos carros do controle de pragas. Seja lá o que for essa coisa, está teleguiando aranhas pelo túneis dos dois bairros.
— Eu vou até a casa dessa professora. Antes de eu vir, a Carrie me passou mensagem dizendo que os alunos sumidos foram vistos pela última vez na casa dela. Vizinhos disseram aos policiais, mas sem provas que a coloquem como suspeita não podem emitir um mandado. Agora é minha vez, sem pedir permissão.
— Seja bem furtivo. Os vizinhos costumam ser bem observadores. Se irmos fundo nisso ainda hoje, está conosco nessa, certo?
— Claro, vamos detonar essa mamãe aranha juntos. A gente se vê. — falou Frank, logo desligando e entrando no outro BMW emprestada por Hoeckler, este na cor cinza.
***
Parando o carro a uma certa distância no outro lado da rua, Frank se encaminhou a casa de Hannah Duchovy, a professora que poderia fornecer informações precisas sobre o real último paradeiro dos alunos antes de não voltarem aos lares. Com o velho truque do granpo inserido na fechadura, o detetive adentrou na residência atento ao redor para detectar qualquer vislumbre de alguém o vigiando. Aparentemente, nenhum sinal de bisbilhoteiros de plantão.
Ouviu o barulho de água corrente ao passar por um corredor após a sala. Vinha do banheiro, logo se acreditava ser Hannah tomando um banho. Era a brecha imperdível. Frank abriu a porta de um cômodo, vendo se tratar do escritório da professora com uma mesa de madeira com luminária e pastas sobre e uma estante atrás preenchida com livros grossos. Munido do medidor EMF, foi entrando sorrateiro, deixando a porta entreaberta focado na leitura do aparelho que indicava uma variação eletromagnética vinda da mesa.
— É de baixo que tá vindo... — aferiu ele após a medição alcançar o pico com o bipe baixinho. Se agachou e a suspeita foi esclarecida. Aproximou o aparelho ao chão e o bipe se intensificou — É no subterrâneo. Deve ter alguma passagem aqui embaixo... — se levantou, guardando o EMF e movendo a mesa com as duas mãos empreendendo bastante força. O ruído alto seria um inconveniente a ser suportado, levando em conta que o som do chuveiro havia cessado.
Após afastar a mesa, o buraco profundo no chão revelou-se. Sacou sua lanterna e lançou o facho de luz pelos cantos escuros, agachado. Pensou em investigar, mas considerou a desvantagem de explorar o túnel sob o risco de Hannah vir ao escritório e se deparar com a mesa fora do lugar.
— Não vale a pena, ela pode me dar um flagra daqueles. — disse Frank, ficando de pé e colocando a mesa de volta a posição anterior. Saiu do escritório praticamente na ponta dos pés, mas a voz de reprimenda da professora soou alarmando-o.
— Ei, quem é você? O que pensa que está fazendo na minha casa? Vire-se agora pra mim ou vou chamar a polícia! — disse Hannah com toalhas brancas enroladas no corpo e na cabeça. Era uma mulher na casa dos 40 anos de pele morena, olhos castanhos expressivos e lábios carnudos.
Frank foi virando-se, mostrando o distintivo.
— Não precisa chamar.
— O quê? Mas... Mas o que um policial faz aqui na minha casa se achando no direito de invadir sem que eu veja?
— Eu tenho um mandado de averiguação. Existe autonomia garantida pro agente entrar sem pedir licença, sabia? Especialmente quando alguém tá sob suspeita de um crime.
— A qual crime se refere? Qual é a acusação? Eu quero ver o mandado impresso!
— Seus alunos desapareceram, tendo sido vistos pela última vez aqui na sua casa! O que rolou aqui? Uma festinha do pijama? Estão todos no seu quarto dopados de álcool ou num buraco enfiados?
— Você se considera mesmo um detetive? Pois não acho que um agente responsável faria acusações tão infundadas, muito menos invadiria sem prestar uma mínima satisfação! Agora fora daqui antes que eu te expulse a pontapés!
— E cometer desacato a autoridade?! Afrontosa você hein, nem se importou com a ênfase que eu dei nos desaparecimentos. Qual é o jogo? Quem é você de verdade?
— Sai logo daqui! — vociferou Hannah, a expressão de pura raiva. Frank fizera uma cara de incômodo e desdém, virando-se para sair. Voltando ao carro, seu celular tocara.
— Carrie, e aí? A Natasha entrou em contato?
— Sim, acabamos de nos falar. Me contou do levante das aranhas. Senti arrepios só dela mencionar, ainda mais a respeito do monstro envolvido que ao que parece decidiu estocar comida na época mais propícia assim como nós humanos nessa pandemia de vírus miasma.
— Encontrou o mito do monstro? Manda a bomba.
— Se denomina Arachne, dizem lendas antigas que são oriundos do inferno com o propósito de tornar as aranhas a forma de vida mais proeminente na cadeia alimentar. As origens deles datam desde a época dos primeiros hominídeos. Acredita-se que sejam espíritos de pessoas mortas por picadas de aranhas pré-históricas, pode-se dizer que são quase um elo perdido na cadeia evolutiva. Quando essas almas sucumbem ao inferno, várias aranhas a deformam alterando o veneno até originar o monstro que está atacando os inocentes desses bairros. — disse Carrie, vidrada no laptop.
— Bem que eu tava achando familiar pela aparência do bicho. Meu pai catalogou essa desgraça nos arquivos. Se não tô enganado, a fraqueza dele é fogo, assim como o Zeta.
— Deu de cara com a coisa? Onde?
— No túnel que acessei a partir do porão do Bernard. O cara quase implorou de joelhos pra que eu não fosse lá conferir se tem algum vestígio dos sobrinhos dele por causa das lendas que rondam o alçapão do lado de fora que foi por onde os irmãos entraram pra xeretar.
— E a você foi a casa da professora? Natasha me falou que você tentaria.
— Saí há pouco, quase sendo chutado. Talvez seja ela a nossa mulher-aranha. Encontrei um buraco debaixo da mesa no escritório, me pareceu que um túnel foi cavado.
— Mas não pode ser só ela. Aqui diz que os Arachnes normalmente vêm ao mundo dos vivos na época do acasalamento e nesse período reúnem comida para os filhotes. A ninhada deles costuma variar de 20 a 50.
— Então eles apenas devoram humanos quando estão com fogo no rabo. — disse Frank, curioso em relação ao segundo espécime — Mas só tô encucado com a questão dos túneis.
— Eu baixei uma cópia digital da planta do subterrâneo de toda Los Angeles. Há dois túneis ligados entre a área residencial do bairro onde a professora mora e a área florestal perto da madeireira Aniston.
— O lugar onde o Bernard trabalha, ele é o proprietário também. O Arachne que eu vi provavelmente era a mãe, mas não vi nenhum ovo de filhote por lá.
— Há um ponto entre os túneis. Fica no subsolo de um bar. Suponho que lá esteja a ninhada.
— Ahn, Carrie, valeu por informar, mas vou ter que desligar, tem uma ligação na espera, pode ser a Natasha. A gente se fala mais tarde, até mais. — disse Frank, logo encerrando a chamada e atendendo a próxima — Alô?
— É com o detetive Montgrow que falo? — pergunto a chorosa voz de uma mulher.
— Sim, por que? Desculpa perguntar, mas como conseguiu esse número?
— Eu sou a mãe da Syd e do Javi, me disseram que o senhor está cuidando de desvendar o sumiço deles e das muitas outras pessoas que vem desaparecendo. Por favor, preciso que venha aqui, tenho algo que ficará interessado em ouvir.
***
Natasha e Miyako haviam estacionado o carro em frente a uma lanchonete onde deram uma pausa para um almoço rápido. Um outro carro, uma picape preta e robusta, vinha ao encontro delas parando bem próximo.
— Quem é? — indagou Miyako comendo o resto de batatas fritas num saco.
— Não quem, mas o que. — disse Natasha, jogando fora no lixo um copo de refrigerante com canudo — Nosso arsenal chegou.
Enquanto isso, Frank estava na casa dos pais de Syd e Javi pronto para saber do que tanto gostariam de revelar. O detetive se sentou no sofá branco diante deles.
— A Syd enviou um áudio?! Graças a Deus ela tá viva.
— Aqui está. — disse a mãe, uma mulher caucasiana de cabelos pretos ondulados e olhos azuis, preparando parar executar o áudio enviado ao seu celular pela filha.
— Mãe, pai... Sou eu, eu tô presa num lugar imundo e fedorento no geral, mas muito bem escondida dentro de um armário. Não sei por quanto tempo vou continuar viva. Eles podem me pegar, esses monstros que se disfarçam de gente, mas parecem aranhas mutantes... Eu só quero que saibam... o quanto eu amo vocês.
A gravação se encerrou.
— Foi o único que ela enviou? — indagou Frank.
— Sim. — respondeu a mãe, controlando o choro — Há duas horas.
— Nos desculpe por ligar pro senhor sem que fosse avisado. A polícia nos deu seu nome e telefone e não hesitamos. — disse o pai, um homem meio calvo com barba — Só queremos que encontre eles. — pediu, a voz embargada.
— Ela não disse nada do irmão. — apontou Frank.
— É disso que temos medo. — disse a mãe, angustiada.
— Não pensem no pior, ela só tava nervosa, numa situação dessas ninguém raciocina muito bem ou tem tempo de falar o necessário pelo perigo dos sequestradores estarem por perto.
— Se ela achou um lugar pra se esconder, deveria estar com o Javi. — disse o pai.
— Talvez não teve como liberta-lo. Enfim, eu não vou ficar fazendo teorias pra não deixa-los mais nervosos. — disse Frank, levantando — Eu tenho uma boa ideia de onde pode ser o cárcere deles.
Após sair da casa dos Aniston, o detetive foi ao encontro de Natasha e Miyako no mesmo local onde elas receberam a assistência da pessoa que veio na intimidadora picape preta.
— Prontas pra irmos atrás das malditas aranhas?
— A todo vapor. — disse Natasha abrindo o porta-malas com caixas contendo lança-chamas compactos — Tem que admitir que você é um caçador bem assessorado.
Frank visualizou as armas dando um sorriso de canto expressando confiança no desempenho que teria junto a elas na missão de resgate.
— Eu vou fazer o seguinte: entro pelo túnel descendo pelo porão do Bernard e vocês seguem pelo buraco que tem na casa da professora, os dois túneis levam ao mesmo ponto, o covil da ninhada. Cuidado com a mamãe monstro. A gente se encontra lá. — definiu Frank, pegando seu lança-chamas.
***
A volta apressada à casa de Bernard ganharia ares mais tenebrosos quando o detetive entrasse procurando pelo lenhador. A porta estava aberta, mas não havia nenhum indicativo da presença dele em qualquer cômodo.
— Bernard! — chamou Frank em voz alta indo verificar na cozinha. Sentiu um forte e familiar odor que lhe causava repulsa e náusea. Tivera a certeza de que vinha da geladeira que estava desligada e foi abri-la. O susto que tomou assaltou seu fôlego, torcendo mais forte o nariz ao recuar — Cacete...
O corpo de Bernard estava fatiado em vários pedaços. Braços, pernas, mãos, pés, torso e cabeça empilhados com algum estágio de decomposição pela gordura necrótica liquefeita pingando abundante. Frank chutou a porta da geladeira para fecha-la e correu para o porão. Removeu as correntes e se emburacou no túnel com sua lanterna na mão esquerda e o lança-chamas na direita. Os ruídos que ouviu da primeira vez retornavam ainda mais audíveis com o silêncio amedrontador, mas desta vez oriundos detrás do detetive que virou-se.
Frank sentiu cócegas leves no ombro direito. Viu ser uma gorducha aranha caranguejeira escalando seu corpo e a tirou rápido com a lanterna. Mais das peludas aranhas vieram marchando pelo túnel em torno do detetive. Irrompendo da escuridão, o Arachne macho, de aparência alusiva aquelas aranhas, avançou em ataque emitindo agudo e grotesco. Frank correu em disparada sendo perseguido pela criatura de corpo aracnídeo da cintura para baixo e humanoide para cima com sua horrenda cabeça alargada verticalmente contando com várias presas negras que se moviam.
Dotado de seus oito olhos, o Arachne seguiu no encalço de Frank com sua visão adaptativa a um ambiente escuro. Frank ora mandava fogo com o lança-chamas nas aranhas que vinham em massa, ora se concentrava em correr mais depressa. O Arachne soltou mais do seu som aterrador, parecendo irritado com suas irmãs sendo incineradas. Mesmo pra um monstro aparentemente pesado, corria a uma velocidade considerável com suas oito patas peludas.
A lanterna de repente falhou, levando Frank a soltar um palavrão alto, restando recorrer ao lança-chamas abrindo fogo direto no rosto do Arachne e nas caranguejeiras que tentavam subir nele cercando-o. A criatura berrou com o rosto incendiando e parte do tronco pegando fogo. Frank viu que havia chegado ao fim do túnel e subiu uma rampa pedregosa, lançando mais rajadas de fogo nas aranhas persistentes.
Rolou após a sofrível subida, vendo estar num corredor iluminado por lâmpadas brancas e tremeluzentes. Achando o covil num espaço mais amplo e um pouco mais escuro, Frank encontrou diversos cadáveres de Arachnes do tamanho de geladeiras espalhados. A lanterna felizmente voltara a funcionar e o detetive passou o facho pelos corpos queimados, mas o fogo era azulado em brasas e labaredas. De súbito, voltou a luz para a sua frente, iluminando o caçador mascarado que pareceu surgir como um fantasma diante do detetive que assustou-se.
— Puta merda! Vê se avisa que tava próximo, ô Mr. M! — repreendeu Frank encarando o caçador com sua sinistra máscara de ferro — Ah, tô lembrado que você não fala. Qual é a desse voto de silêncio? Ou você é realmente mudo? Sei nem porque tô perguntando, mas bem que eu gostaria que me dissesse como chegou aqui.
O homem misterioso permaneceu parado o fitando. Ele virou o rosto para sua esquerda de onde Natasha e Miyako surgiram.
— Frank! — disse Natasha aproximando-se correndo — Você tá bem?
— Tô, acabei de atravessar o túnel mais rápido graças ao bicho feio! Esse é diferente do que eu vi de início. O anterior tinha a aparência que remetia a uma aranha viúva-negra, enquanto o que me perseguiu agora parecia uma caranguejeira de Chernobyl.
— Ai, que horror. — disse Miyako, expressando temor — Desculpa, eu... Eu meio que tenho fobia de aranhas desde pequena.
— Então perdeu a chance de desistir quando podia. — disse Natasha.
— Não precisa ser tão dura com ela, só tá aqui com a gente pelo jogo e nada mais. — orientou Frank — E o nosso amigo aí... Brotou do nada, mas detonou com um montão de filhotes.
— O que ele faz aqui? — indagou Natasha, surpresa — Aliás, como ele sabia?
— Nem adianta perguntar pra ele. Tô começando a achar que... — disse Frank que teve a fala interrompida pelo acender das luzes não muito suficientes. Duas pessoas apareciam ali e se revelaram para o espanto de Frank — Eu devia ter sacado na hora...
Hannah estava ao lado de Bernard como um casal de mãos dadas, sorrindo satisfeitos.
— Muito excitante saber que o jantar veio até nós. — disse Hannah.
— Só uma pena que nossos filhos recém-nascidos não tiveram a oportunidade. — falou Bernard olhando os corpos dos filhotes.
— Vocês são... — disse Natasha.
— O papai-aranha e a mamãe-aranha. — disse Frank, mirando o lança-chamas neles — Assumiram as identidades da Srta. Duchovy e do Bernard desde que vieram do submundo.
— Desde que migramos no dia em que todas as portas nos foram abertas quando a cidade que bloqueava nossa passagem sucumbiu. — disse a Arachne mãe — E não poderia ter sido numa hora mais conveniente. Estávamos cansados da monotonia melancólica daquele mundinho decadente. — exibiu rapidamente traços de sua aparência monstruosa numa metade do rosto, sorrindo infame.
— E será pra lá que os mandaremos. — disse o falso Bernard — Não inteiros, é claro. Uma parte de cada vez. — fez um barulho repetitivo com a boca como se estivesse provando e saboreando uma comida.
— Os alunos da professora... — disse Miyako.
— Esquece, viraram papinha dos bebês aranhas. — disse Frank — Escutem aqui: nem ferrando que estamos presos com vocês dois. Viemos pra provar o contrário. Somos quatro se ainda não percebeu!
— Acho que precisa contar de novo. — disse o Arachne macho com um sorriso insano. Os filhotes que resgatam para nascer saíam dos grandes ovos que eclodiam ao mesmo tempo. A ninhada se juntava atrás dos seus pais como soldados aprontando-se para uma guerra
— Abrir fogo! — disse Frank, disparando com o lança-chamas nos filhotes que avançaram.
— Mas e ele? — perguntou Miyako referindo-se ao caçador mascarado.
— Ele se vira! Cuidado pra essas coisas não pularem em cima de vocês! — disse Frank, eliminando um a um a cada rajada. Natasha e Miyako faziam o mesmo. O caçador misterioso, por outro lado, usava de sua força física avantajada, socando e esmagando os Arachnes filhotes, chegando a arrancar e rasgar a cabeça de muitos deles com imensa destreza. A sua ação brutal fazia bastante do sangue viscoso e esverdeado dos filhotes jorrar no ar.
Miyako se viu acuada, recuando ante a quatro dos filhotes. Natasha notou a fragilidade da parceira e tratou de agir, lançando fogo contra eles que se afastaram cobertos pelas chamas, gritando em dor.
— Enfrente o medo! — aconselhou a caça-vampiros.
Um outro filhote veio pulando sobre Natasha com suas patas compridas e finas que foi salva por uma rajada de fogo lançada por Miyako.
— Uma protege a outra. — disse a caçadora nipo-americana.
Frank viu que o caçador misterioso dava conta de cobrir as garotas, visualizando uma saída para ir atrás de Syd. O Arachne macho notara a fuga do detetive enquanto ele inflamava mais dos filhotes e resolveu segui-lo.
— Cuide deles, vou deter o Montgrow. — disse ele, saindo. A Arachne mãe ficou de quatro, os braços abaixados e as pernas distanciadas e flexionadas. Sua forma humana foi dando lugar aos atributos físicos de sua autêntica forma numa transformação bizarra. Soltou um bolo de teia contra o caçador mascarado que foi derrubado ao ficar imobilizado nos braços.
— Mamãe está muito zangada. — disse Natasha, queimando o último filhote que agonizava.
O caçador misterioso surpreendentemente se libertou dos fios de teia com sua força bruta, se reerguendo vigoroso. Natasha retirou um lança-chamas do seu coldre.
— Pega! — disse jogando a arma para o mascarado. Os três abriram fogo simultaneamente contra a Aracnhe mãe que urrava selvagem. Frank seguiu por um corredor acessando algo similar à um vestiário com alguns armários e lembrou do áudio de Syd.
— Syd! — chamou em procura desesperada.
— Aqui! — gritou ela batendo na porta do armário onde se escondia. Frank tentou abrir, mas a porta estava emperrada.
— Tenta chutar! — avisou o detetive que foi conferir no corredor. O Arachne macho se encaminhava até ele a passos tranquilos, se transformando aos poucos, deixando a falsa pele humana para trás. Syd conseguiu sair com um forte chute dado na porta que se soltou. Frank a levou correndo adiante sob a perseguição implacável do Arachne já inteiramente metamorfoseado — Pela escada!
Subiram uma escada de ferro que dava direto ao interior do bar mencionado por Carrie. Porém, o Arachne passara pela porta, destruindo a parede. Frank manteve Syd atrás dele, tomando proximidade. Disparou mais fogo, mas o Arachne se esquivava de um lado para o outro das rajadas, movendo acelerado suas grossas pernas peludas de caranguejeira. A arma infelizmente falhou, sinalizando esgotamento, levando-o a recorrer a pistola. O Arachne veio ataca-lo com um golpe de mão, a arma sendo largada. O detetive foi jogado contra o balcão, batendo suas costas enquanto Syd ficou a mercê da criatura que lançou um bolo de teia prendendo-a nos braços e pernas.
— Não! Socorro! Não, não, não! — disse Syd recuando e removendo com dificuldade a teia aos poucos aterrorizada pelo Arachne e seu rosto hediondo e peludo com as cores de uma caranguejeira normal salivando para a presa suculenta. Frank tentava levantar, se sentindo inútil. Mas Syd se libertou parcialmente das teias, conseguindo chutar a pistola de volta à Frank numa curta distância.
O detetive atirou várias vezes nas costas da criatura que sentiu-se afrontada e virou-se fiando sua teia entre as múltiplas presas. O último tiro alvejou o peito do Arachne macho, sendo certeiro pois atingiu o coração praticamente exposto do monstro. O Arachne arfava em seus últimos suspiros até que tombou para frente da cintura para cima, suas patas peludas fraquejando. Syd ofegava, tremendo. Mas voltou sua atenção para Frank que gemia de dor apertando o braço esquerdo.
— Detetive! — disse a garota indo ajuda-lo. Frank puxou a manga do sobretudo preto, vendo a marca de Chernobog na altura do pulso em sua primeira parte — Tá se sentindo bem? Se machucou?
— Não... Não, eu tô bem. E você?
Syd caiu num choro copioso irresistível.
— O Javi...
— Ah... Eu sinto muito. — disse Frank, levantando para abraçá-la em consolo pela perda concreta do irmão que somou aos desaparecidos que serviram de alimento a Arachne mãe antes dela parir sua última ninhada.
***
Durante a apreensão dos agentes da ESP no subsolo aos espécimes de Arachne, Frank veio falar com Miyako que estava encostada numa das vans pretas da organização.
— Como se sente?
— Não devia importar pro senhor já que...
— Olha, podemos ser adversários nesse jogo, mas enquanto não estivermos sendo a presa ou o predador de algum monstro... ainda podemos nos tratar como amigos. — ressaltou Frank, ficando ao lado dela.
— Ela não quis mais falar comigo desde que fritamos a aranha mãe. – lamentou Miyako, triste por Natasha e o tratamento que recebeu — Vou entender isso como um ponto final na parceria. Eu já esperava, só... não pensei que ela agisse com tanta frieza. Salvei a vida dela e isso não significou nada? Quem ela pensa que é?
— Pode ser que a Natasha esteja começando a encarar o jogo com mais espírito competitivo. — avaliou Frank — Você não tem que esperar nada dela, nem de mim, nem de ninguém. Se ela não te agradeceu por salvar a vida dela, não quer dizer que ela fez pouco caso. A Natasha é assim mesmo, se fecha demais na casca dura.
— Conversamos sobre o rumo desse jogo. Não vai ter como a gente trabalhar juntos nisso até o fim. Com o tempo, nossos egoísmos vão tomar conta de nós e vamos agir como animais competindo pra ver quem prevalece. — disse Miyako — Eu tenho que admitir, estou com medo. O futuro nunca antes pareceu tão assustadoramente imprevisível.
Frank a fitou com serenidade e afagou no ombro.
— Vai pra casa, relaxa a cabeça e não pensa demais no futuro. O presente é tudo que temos.
— Obrigada, Sr. Montgrow. Mas se eu tiver que morrer... — disse a caçadora derramando uma lágrima — ... meu último desejo seria reencontrar o Nathan.
Frank mostrou um semblante entristecido. Ao ver o caçador mascarado saindo do local, foi até ele após se despedir de Miyako.
— Ei, você! Não pensa que eu caio nessa de voto de silêncio. Não sei o que preciso pra te fazer falar, mas uma hora não vai dar mais pra sustentar esse seu personagem. A casa vai cair pra ti, você não é melhor que todos nós por causa de sabe-se lá o que te faz tão especial. Pra mim quem não mostra a cara não é confiável. O que tem tanto a esconder?
O homem ficou estático o fitando, mas logo se moveu, mostrando seu antebraço esquerdo. Frank boquiabriu-se com o que viu. O caçador misterioso ostentava metade da marca. Ele saíra caminhando calmamente sem rumo, deixando Frank a pensar com o coração angustiado que suas chances de vencer estavam minadas por um concorrente perigoso de se subestimar.
XXXX
*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/11/nanofios-sao-responsaveis-pela-forca-das-teias-de-aranha-diz-pesquisa.html

Comentários
Postar um comentário