Frank - O Caçador #110: "Raposa em Pele de Loba"

          

Nas alcateias em geral, a reunião dos lobisomens durante as noites de lua cheia tradicionalmente significava a elaboração de planos coordenados de ataques a locais que contivessem grandes concentrações de alvos suculentos para morder, mastigar e desossar. Mas com a proximidade de um fenômeno raro abrindo margem para uma oportunidade única de uma caçada histórica e indispensável, a prioridade de foco mudou. Ao menos para a alcateia chefiada por Wade Truesley, o objetivo fulcral para a próxima grande operação dizia respeito à essa mudança. 



Na cabana onde se aglomeravam, os lupinos, ainda em suas formas humanas, ouviam atentos ao discurso de Wade, o alfa com a aparência de um homem robusto afro-americano com longos cabelos em dreadlocks, tendo no rosto uma expressiva cicatriz diagonal que atravessava o dorso do nariz até a têmpora esquerda. Os olhos que transmitiam agressividade, liderança e imponência encaravam os rostos submissos.



— Temos muita sorte de lidar com uma concorrência em baixa nesses últimos meses. Portanto, não devemos nos preocupar com qualquer empecilho que venha no nosso caminho. Somos os mais veteranos em Los Angeles, devemos mostrar orgulho ao reivindicar esse território no qual pisamos agora, é nosso direito tendo em vista que nosso alvo reside aqui e estará caminhando durante a lua azul cuja vista será mais contemplativa nessa área. — dizia Wade indo de um lado para o outro devagar, as mãos juntas para trás.



— Mas e quanto aos caçadores? — indagou um dos subordinados — Eles ainda existem, né?



Wade riu contidamente em escárnio.



— O quê? A classe em extinção? Me poupe. Qual foi a última vez que tiveram o privilégio de arrancar a pele e saborear a carne de um deles? Vocês lembram? Aposto que não. — disse ele, olhando pada cada um dos lacaios — A ausência deles nesses últimos tempos é apenas um lembrete de que a era dos monstros está para iniciar. Não é assim que nós chamaram por todos esses anos? Vamos assumir esse nome. Eu sinto que já estamos neste novo tempo. A noção de que o jogo virou a nosso favor desde o Big One vem se tornando uma absoluta certeza.



Dentre os membros da alcateia havia um que se distinguia no numeroso grupo por estar encapuzado, mas detalhes como modo de vestir eram costumeiramente ignorados - desde que não fosse extravagante.



— Só os trouxe aqui hoje pra emitir esse comunicado. Amanhã, a noite da lua azul nos reserva o triunfo da imortalidade com o sangue da lendária Asena queimando deliciosamente em nossas gargantas!



Um coro de aprovação foi levantado. Mas o integrante encapuzado não exprimiu um "a", tampouco moveu um músculo.



— Ah, Wade, pra quê desperdiçar essa noite? Só porque temos um evento importante amanhã, não significa que precisamos passar fome hoje. — disse um membro.



— Está bem, está bem. Quando eu fizer o chamado depois de encontrar uns petiscos, venham pra que eu sirva o jantar. — disse Wade, o sorriso de desfaçatez.



Ao fim da reunião, o encapuzado saia retraído com as mãos nos braços pela floresta. Não tardou para notar uma perseguição efetuada por dois dos lobos de Wade. O líder soltou um uivo escutado a longa distância, mas a dupla ignorou o convite para a refeição.



— Vocês não tem mais o que fazer? — indagou o encapuzado que na verdade tratava-se de uma encapuzada.



— Ora, não é todo dia que temos disponível uma loba pra macetar. — disse um deles, gerando riso no comparsa.



— Acham que sou ela? Estão perdendo tempo. Melhor atenderem o chamado do chefinho de vocês, senão nem precisam voltar. — disse ela que deflagrou uma corrida. 



No encalço dela, os dois lobisomens se transformaram, abandonando as roupas rasgadas para perseguirem,na como animais famintos. A suposta mulher-lobo os despistou numa área aberta repleta de matagal. A viram escapar no meio da vegetação percebendo uma cauda espessa e alaranjada. Atrás deles, soaram rosnados intrigantes. Os dois lobisomens viraram-se e a última coisa que viram foi uma rajada de fogo violeta despejada impiedosamente contra eles.



***



Após passar por uma bateria de exames médicos, Frank se sentiu motivado a recorrer ao método psicoterapêutico na tentativa refrear suas crises ansiosas proporcionadas pelos constantes flashes das memórias do dia que arrebatou seu orgulho de caçador. Para tanto, Hoeckler reservou uma sala de isolamento acústico para que as sessões ocorressem sem interferências de quaisquer barulhos ou ruídos. 



A psicanalista chamada para tratar o caso do detetive atuava dentro da fundação há alguns anos prestando suporte psicológico a conselheiros e agentes que tivessem vivido experiências traumáticas com as anomalias diversas apreendidas pela organização. De rosto caucasiano e bastante jovial, a mulher loira de cabelo preso em um pequeno rabo de cavalo estava sentada numa cadeira ao lado do sofá de couro carmim improvisado como um divã no qual Frank relaxava deitado contando as agruras passadas com os recorrentes episódios dos transtornos psíquicos.



— Sr. Montgrow, já pelo menos tentou encontrar algum meio de fugir dessa espiral de culpa que o atormenta tanto olhando para si com mais frequência? 



— Como você disse antes, eu... colocava minha integridade em segundo plano, as dores dos outros também eram as minhas, eu absorvia a nata dos problemas alheios e... tudo foi virando essa tremenda bola de neve que foi só crescendo enquanto eu descia ladeira abaixo com todo o peso que eu fui acumulando. — disse Frank, os olhos fitando o teto — Ossos do ofício que chama, né? Mas não pude fazer nada por mim... já que toda a responsabilidade não permitia lembrar da importância que eu deveria dar a minha vida. Isso é parte do fardo de caçador. Esquecer de si e se doar por inteiro pela vida de outra pessoa. É se colocar na frente de alguém que vai tomar um tiro. A gente se dispõe a carregar o peso do outro não importa o que aconteça, desde que esse outro sobreviva.



— É uma demonstração muito espontânea de empatia e complacência, mas... Se com todo o tempo que gasta investigando casos paranormais arriscando sua própria vida pela sobrevivência daqueles que mais precisam, o que sobra pra você? Essas crises podem ser efeitos colaterais de um autocuidado deficiente ou até mesmo ausente em grande parte da sua jornada. Assumiu esse fardo esmagador visando ser um herói, mas no fim das contas tornou-se um mártir sem controle ou atenção devida às próprias dores emocionais e isso só piorou com a destruição de Danverous City.



— Acho que você sintetizou bem o que tenho me transformado desde o dia em que decidi sair de casa para ir atrás do meu primeiro caso sobrenatural. — disse Frank, olhando de soslaio para a doutora — Nunca me importei o suficiente comigo pra ter tanta consciência do mal que essa vida pode me causar. Desculpa se eu parecer muito conservador, mas eu não posso desonrar o legado em troca de pensar mais nas minhas necessidades emocionais por medo de ferrar com a minha cabeça. É disso que eu me propus a viver, tá no meu sangue e vai estar até meu último suspiro. Eu sei que não tá sugerindo que eu pare...



— O problema é a constância em seguir à risca o legado. Se quisesse, faria pausas periódicas para se cuidar física e mentalmente.



— Nas horas vagas, eu fazia uns exercícios com meus halteres e barras na garagem. Isso quando eu tinha horas vagas.



— E do interior? Não se dava ao trabalho de procurar ajuda psicológica pra atenuar os impactos do seu trabalho? Uma vez na vida deveria ter aplicado essa manifestação de amor próprio. Sr. Montgrow, sinto em lhe dizer, mas essas feridas abertas por mais tempo o levarão a autodestruição... provavelmente a insanidade e o isolamento. 



— Não existe como tapar o abismo sem fundo que eu criei, doutora. O caminho que eu tracei não tem rota de fuga, não tem saída de emergência. Eu sou um baita de um teimoso, não sou? 



— Sua amiga assistente me inteirou disso de antemão. — disse a psicanalista, levantando uma sobrancelha interrompendo as anotações que escrevia no seu caderninho.



O celular de Frank tocara inesperadamente.



— Opa, desculpa, esqueci de desligar. Também não avisei pra ninguém, a não ser o Hoeckler, que eu tinha hora marcada com você.



— Sem problema, pode atender. Aliás, já estamos a 15 minutos de terminarmos a sessão. — permitiu a doutora olhando no relógio do celular. O detetive enfim aceitou a chamada.



— Alô, Carrie. O que foi? Eu tô no meio da terapia. — disse Frank levantando da cintura para cima no sofá — Caso novo, é? Não pode esperar mais um pouco? Tá OK... Tô indo na velocidade de um míssil. Falou.



— Está de saída? — indagou a psicanalista.



— Quando se é da polícia de Los Angeles não se pode ignorar uma chamado, né? Vou indo nessa, me desculpa. — disse o detetive, ficando de pé — Eu juro que vou controlar meus surtos e todos aqueles flashes na memória... Prometo me dar mais atenção dessa vez, penso até em fazer um mantra pra me tranquilizar toda vez que acontecer. Agradeço demais, Dra. Goulding.



— Eu que fico grata, Sr. Montgrow. Mas não acabamos por hoje. Ainda tem muitas lacunas a serem preenchidas. Mas se seguir minhas recomendações, estará no caminho certo pra estabilizar a sua rotina de forma que sua mente consiga absorver melhor as consequências da escolha que tomou pra vida.



Frank assentiu com um menino de cabeça e um sorriso educado. Saiu da sala e balançou a cabeça rapidamente. 



— Caramba, quanta informação.



Ao chegar na sala de pesquisa, foi recebido pela curiosidade insatisfeita de Carrie.



— E então, numa escala de zero a dez, o que achou de ser psicanalisado?



— Quase uma tortura. Então eu diria que... um cinco. Não posso tornar mais leve o fardo nessa altura do campeonato. — disse Frank, parando próximo a ela e se apoiando na parede com o braço direito — Não agora que tô encarando a pior coisa que já me aconteceu em toda a minha carreira. Se for pra salvar o maior número possível de vidas, eu desço nessa espiral até o fundo.



— Frank, entenda que se for a vista da sua vida... já terá saído caro demais. — orientou Carrie — Talvez isso não tenha que necessariamente exigir um sacrifício.



— É, acho que... você pode tá certa. Ela me classificou como mártir.



— E eu concordo. Nada mais apropriado levando em conta tudo o que passou.



— Sabe, você é quem devia ser minha psicóloga. Me entende melhor do que eu mesmo, praticamente lê a minha alma.



— Não, tadinho de você se eu seguisse essa vocação. Ia te dissecar até onde você nem imagina. Enfim, hora de você pegar no batente agora que relaxou no sofazinho com a doutora bonitona. — disse Carrie, voltando-se ao laptop — Chacina em acampamento na reserva florestal Eldenroy. Mortes brutais, corpos mutilados e alguns desaparecidos. Preciso dizer a suspeita?



— No lugar dos meus colegas policiais, também  gostaria que fosse um coiote ou um chacal. Mas pelo que vejo, não podem ser tão ingênuos de pensar que uma fera normal fez essa baderna toda. — disse Frank observando as fotos do local do ataque sanguinário, todas de fazer virar o rosto — Vou nessa, ver o que posso coletar de indício pra algo além do óbvio.



***



Na zona da reserva florestal em que o acampamento e o subsequente massacre ocorreram, um bom número de policiais interditava a área que possuías as faixas amarelas com os dizeres "não ultrapasse". Frank teve de exibir seu distintivo para um dos policiais e assim ter sua permissão de entrar no espaço que também compreendia uma cabana que havia sido incendiada.



— Já fizeram varredura completa por aqui? — indagou Frank para um policial observando o trabalho dos colegas.



— Cuidamos somente da contenção de danos. Mas se quiser participar da brincadeira... — disse o policial, logo removendo o pano que cobria um dos corpos achados.



O cadáver era de uma vítima masculina e apresentava escoriações e marcas de arranhões nos braços e pernas, além dos ferimentos horríveis na barriga e no tórax que claramente sugeriam a ação de um animal selvagem.



— Ops, hoje não será um dia muito produtivo, ao que parece. Não precisa ser detetive pra concluir que foi...



— ... um ataque de animal. — completou Frank, a contragosto — Se for pra minimizar meu trabalho, é melhor nem ficar aí parado respirando no meu cangote.



O policial ergueu de leve as mãos em sinal de rendição ao argumento de Frank e foi andando.



— É tudo seu. — disse ele, afastando-se — Boa sorte.



Frank prosseguiu, pegando seu celular e tirando uma foto. Em seguida, foi procurando pistas no solo, captando as pegadas tanto dos ocupantes da cabana que acamparam quanto dos animais ferozes que ali passaram realizando a carnificina brutal. Mas notou algo particularmente distinto no meio. Um pouco enterrado, havia um colar com um pedrinha de diamante como pingente. O pegou, estudando-o.



— Isso daqui deve valer uma fortuna. 



Pusera o colar no bolso externo do seu sobretudo de couro preto. Não demorou para encontrar também um tufo de pelos de lobisomem. Estreitou os olhos, pegando-os com cuidado, mas notando uma diferença sutil na tonalidade. Decidiu levar a evidência diretamente a equipe pericial da ESP.



De volta ao bunker, Frank estava na sala de análise forense da fundação acompanhado de Hoeckler, aguardando o resultado da perícia realizada pelo computador dotado de um software avançado que determinava com altíssima precisão a qual grupo sobrenatural qualquer amostra física analisada pertencia.



— E você se enganou, Montgrow. — disse o analista após a conclusão do processo — O sistema identificou como sendo de uma kitsune.



— Kitsune?! — disse Frank, surpreso — Bem que eu tinha percebido uma cor estranha. Os lobisomens tem pelagem negra, preto vivo e brilhante de fazer se camuflar no escuro facilmente. Agora essa me pegou.



— Nunca tivemos registros de um monstro como esse atuando em massacres sangrentos. — disse Hoeckler — A pelagem de uma kitsune, salvo engano, não deveria ser laranja como a de um tigre ou de espécies de raposa com essa cor num tom mais avermelhado?



— Até onde eu sei, sim. — disse Frank — As kitsunes são raras demais, do tipo que só se vê uma vez na vida e outra na morte. Tô realmente surpreso de saber que tem uma perambulando por Los Angeles, mas ainda mais surpreso com o fato de uma estar envolvida num ataque de lobisomens. Elas não têm o hábito de mastigar carne humana, a menos que estejam no período do acasalamento, daí ficam mais selvagens. Muito menos se misturam com lobisomens, apesar de já ter ocorrido um caso onde as duas espécies geraram um filho e... lembranças amargas, acho que você sabe bem o que é.

— Isso tudo é factual ou não passa de lenda? — indagou Hoeckler para o detetive.



— Naquele modelo clássico de ouvi de um amigo que ouviu de outro amigo e assim vai. Mas acredito ser verdade crua sim. O único jeito de obter certeza total, lógico, é localizando essa kitsune onde quer que ela esteja. — disse Frank olhando para a tela do computador — Será que vocês transcenderam em fazer reconhecimento a base de uma pequena amostra de DNA?



— Ainda subestimando nossa capacidade de criar soluções práticas? Você não aprende. — disse Hoeckler sorrindo de canto — Wynn, ponha na tela a ficha completa da pessoa a quem pertence os dados biomoleculares.



O analista acessou a identificação geral cruzando os resultados da análise com informações do banco de dados associadas a pessoa. A ficha surgiu na tela com a foto.



— Naomi Pratt. Ela é natural de Indiana. Mas não há informação alguma de sua localização precisa onde se instalou, mas diz aqui que o celular dela foi grampeado e agora ela está... numa cafeteria em Koreatown. Aproveita, não fica tão longe, ela entrou nao faz nem cinco minutos.



— Até nosso banco de dados tem limitações. Imagina o que está ao dispor das corporações policiais de todo o país. — disse Hoeckler.



— Ótimo, Wynn, me passa o endereço. — disse Frank pegando seu celular para digitar nas anotações — Melhor do que se desdobrar com invasão de domicílio.



***

O detetive enfim parava em frente a cafeteria qie estava praticamente cheia naquela manhã. Entrou no estabelecimento correndo os olhos pelo interior à procura do rosto de Naomi. Mas num instante esbarrou em alguém. Virou o rosto, constatando ser exatamente Naomi - mulher jovem caucasiana na casa dos 30 anos, cabelo castanho clado beirando ao ruivo e olhos verdes. 

— Me desculpa... — disse Frank olhando-a fixamente. Naomi evitou o contato visual prolongado e saiu de cabeça baixa usando um casaco jeans. O celular do detetive tocara — Merda; cheguei tarde. — se indispôs a atender o número desconhecido, mas cedeu — Alô? 



— Frank, não diga nada, apenas olhe a sua direita e venha até a mesa seis. — disse a voz grave masculina. Frank o fizera, desconfiado, e focou na mesa mencionada. Ali se encontrava um homem afro-americano careca de óculos escuros vestindo casaco bege por cima de uma camisa de flanela azul e preto. Ele olhava o cardápio com o celular colado ao ouvido esquerdo. Baixou os óculos para encarar Frank e fez um gesto de cabeça chamando-o.



Não pensando em recusar, apesar de ver escapando-lhe facilmente, o detetive acabou aceitando o chamado do "desconhecido".



— Tô lembrado de você... — disse Frank, sentando-se frente a ele — Nos vimos na prisão Roosevelt quando o Chernobog reuniu os caçadores pra anunciar o joguinho infame dele. Só esqueci do nome...



— Omar. — disse o caçador, tirando os óculos e estendendo a mão direita para Frank — De você eu não consegui esquecer. Tenho que agradece-lo, me impediu de fazer uma loucura naquela hora e meu estresse tava no limite, foi mal pela minha reação.



Frank retribuiu apertando a mão dele o olhando com certa suspeita.



— Alguém que se chama Natasha te deu meu número, não foi?



— Eu a vi ontem numa lanchonete em Bervely Grove acompanhada daquela japonesa gatinha. Pedi seu número porque senti que poderíamos gerar algum vínculo. Passei pelas redondezas investigando o caso dos desaparecimentos que coincidiam com uma infestação estranha de aranhas, mas perdi o interesse e me engajei numa caçada mais emocionante perseguindo uma fera voraz com uma cabeça digna de enfeitar uma parede.



— Devo dizer que você não sabe o que perdeu. Mas tudo bem, quanto menos concorrentes em campo juntos, melhor pra avançar no jogo.

— Meio cedo pra olharmos demais pros nossos próprios umbigos, não acha? Mesmo pra um lobo solitário como eu, vejo vantagem de uma mão lavar a outra. Não devíamos agir todos sozinhos, afinal quando se mata um monstro junto a um parceiro o ganho é compartilhado. — disse Omar, convicto de querer uma parceria com Frank.



— Quer uma caçada partilhada comigo? Lamento, cara, já tô ocupado com uma e, sem querer ofender, você me atrapalhou ligando pra mim.



— Não foi tão coincidência assim termos nos encontrado justo aqui, Frank. Por que acha que aconteceu logo no lugar onde uma moça suspeita de ser um monstro raríssimo parou pra tomar um cafezinho e comer uma torta?



— Ah, OK... Você é esperto, saquei a jogada. — disse Frank apontando para Omar com o indicador direito e balançando com um sorriso de canto — Estamos atrás da mesma coisa. A garota que acabou de sair. Ou melhor, que deixei escapar por sua causa. O nome dela é Naomi.



— Não me leve a mal, não foi minha intenção atrapalhar você. — disse Omar amenizando — Podemos caça-la, venho perseguindo ela desde ontem. No meio da caçada na floresta, encontrei uma cabana onde se reúne uma alcateia de lobisomens. Fiquei de tocaia ouvindo eles falarem de uma loba lendária conhecida como Asena, o líder dessa alcateia tá afim de beber do sangue dela nessa noite de lua cheia pra se tornar imortal. Cheguei a ver uma mulher saindo, mas sendo perseguida por dois dos lobos.



— Tá suspeitando da pessoa errada. A Naomi é uma kitsune. E mulheres-lobo são figurinhas que você não encontra repetidas por aí, que dirá uma loba cujo sangue concede imortalidade. — contrariou Frank, mostrando-se resistente ao desejo de Omar em firmar aliança.



— Imagine quantos pontos extras podemos conseguir matando dois monstros raros. Meu carro é aquele ali, vamos entrar nele, pegar uma estrada e sairmos na frente de todos.



— Eu entendo você querer que a gente saia no lucro juntos, mas... eu acho que é mais seguro mantermos sigilo e a individualidade dentro do jogo. Compreende isso, né? Não me interpreta mal, eu só...



— Tudo bem, Frank, valeu a tentativa. — disse Omar, mostrando-se incomodado — O engraçado é você se abrir de bom grado àquelas duas garotas. Qual foi? Você é misândrico, por acaso?



— Não é isso, em boa parte da minha carreira eu trabalhei com caras, amigos por quem lutei e sangrei. Você quer se tornar mais um na minha estrada, só que agora a situação é diferente. A Natasha é minha amiga veterana, a primeira mulher com quem eu cacei na vida. Já a Miyako conheço ainda meio que recentemente. — disse Frank que logo se levantou para ir — Eu conheço bem elas, Omar. Já você, não.



O caçador lançou um olhar mordaz para Frank.



— É assim que prefere? Pois bem, não vou insistir.



— Melhor ficar fora dos meus assuntos. É um jogo, cada um na sua trilha. E se o Chernobog quiser ver os finalistas num arranca-rabo pra pegar essa cura no final de tudo... Eu não vou pegar leve se eu chegar lá.



— Faça o favor de retribuir isso. Suas palavras também são minhas. — disse Omar que bebeu um gole do seu café, fazendo cara feia — E esse café está amargo. Igual a nossa relação.



Frank saiu dali com seriedade austera no rosto após aquela conversa instável com Omar. Viu o carro do caçador parado frente a janela próxima a qual conversavam. Sem que ninguém, nem mesmo Omar, visse, o detetive retirou de sua carteira um micro-rastreador, o implantando embaixo da traseira do veículo. O dispositivo possuía instalação magnética e colou bem onde foi posto. 

Se certificou novamente de que ele não notara e seguiu caminhando direto, presumindo que Naomi teria feito o mesmo trajeto, não abrindo mão de caça-la por estar inconformado com facilidade risível com que a deixou ir. Foi andando, ajeitando o sobretudo preto que o agasalhava bem naquela manhã fria de sol parcialmente encoberto. Contudo, ao passar por um beco, fora bruscamente agradado nos ombros numa abordagem agressiva. Por instinto, Frank deu uma cotovelada antes que a pessoa tivesse chance de lhe prender numa chave de braço. Mas logo percebeu se tratar de Naomi, percepção que o distraiu para o contra-golpe na forma de um chute no abdômen seguido de outro na perna para fazê-lo cair de joelhos, o que proveu abertura para imobiliza-lo.



— Identifique-se!



— Sou um velho de 50 anos, OK? Pode quebrar meu braço agarrando com toda essa delicadeza! — rebateu Frank.



— Não fica de onda com a minha cara! Quem é você? Mais uma piadinha e eu quebro mesmo! — ameaçou a kitsune.



— Tá bom, você não tá de brincadeira. Nem eu também. Mas tudo bem, você ganhou. Eu ando investigando chacinas de lobisomens. Eu sei quem e o que você é... Naomi! — disse Frank, sofrendo com o desconforto do aperto. A kitsune suavizou a expressão, libertando o detetive — Frank Montgrow, prazer. — falou, conferindo se o braço direito não estava torcido.



— Eu... Me desculpa, perdi a cabeça, mas foi pra me proteger porque... — disse Naomi, desconcertada — ... colocaram um alvo nas minhas costas por engano.



— Sou caçador trabalhando pro DPLA. Coletei evidências de uma participação sua num massacre contra jovens que acampavam, não sobrou um pra contar. Agora sou eu quem faço as perguntas: o que uma kitsune faz numa alcateia quando bife humano não é o prato principal da sua dieta?



— Não estou exatamente com eles. Está mais pra uma infiltração, colheita de informações e nada mais. Sim, eu estive no lugar onde os lobos atacaram, mas minhas presas estão limpas. No meio da correria e do caos, eu apenas fingi me alimentar. Sabia que era questão de tempo até um caçador farejar até mim pelo rastros que eu deixo, mas me sentia ainda menos segura sabendo que haviam lobos desconfiados da minha presença justo quando o líder da alcateia deseja o sangue de uma loba mais rara do que qualquer outra.



— A Asena? — indagou Frank, estreitando os olhos.



— Como sabia dela? 



— Um "amigo" me contou. — disse Frank fazendo aspas com os dedos.



— Já nem quero conhecê-lo, pelo jeito que falou. Mas posso te apresentar os meus. — disse Naomi, mais receptiva — Vem, vou te mostrar.



— Então você também tá atrás da Asena interessada no sangue dela? — questionou Frank, não disposto a colocar a mão no fogo pelas intenções da kitsune.



— Quero protegê-la! Mas você não faria isso de graça se soubesse o que esse sangue é capaz de fazer, o milagre que ela pode realizar. Vem comigo ou pretende ir com seu amigo numa caçada pra matar uma vida inocente?

A relutância levou alguns segundos para ser superada na aceitação do convite da ktisune em acompanhá-la a algum esconderijo onde pudessem discutir a situação reservadamente. Os dois chegaram num bar que era gerenciado por um grupo de irmãos com jaquetas pretas em um estilo bad boy. Os quatro jogavam uma parida de sinuca quando Naomi retornou ao local trazendo o visitante inesperado.



— Pessoal, temos visita hoje. — disse ela ao entrar. Os irmãos receberam a presença de Frank com olhares tortos e duvidantes.



— Eu sei que todas as kitsunes são mulheres, mas... E eles? — disse Frank, curioso quanto a classe a qual pertenciam os rapazes.



— Nogitsunes. — respondeu Naomi.



— Ah, sim, tinha esquecido que existia um oposto masculino pra tua espécie. — disse Frank que logo se voltou pada os irmãos que se aproximavam — E aí, rapaziada?



O quarteto de raposas sobrenaturais demonstrou um consenso de antipatia. Frank até pensou em estender a mão direita para dar um aperto, mas se retraiu com a postura apática dos irmãos. Naomi tentou esclarecer.



— Pessoal, ele não é exatamente quem pensam... 



— Quero ouvir da boca dele. — disse Ewan, aparentando ser o líder do grupo. Era um nogitsune de 30 anos com feições nipônicas e cabelo preto espetadinho — Falei pra você não trazer qualquer um que considere aliado em potencial, você primeiro deveria testar a lealdade dele por um tempo.



— Mas ela já testou e de um modo bem rude. — disse Frank — Estão achando que sou um possivel dissidente dos lobos, né? OK, pra ficar provado de vez... — disse Frank que foi retirando um canivete de um bolso externo do sobretudo e soltou uma lâmina, tocando a palma da mão esquerda com ela — Viram? Nenhum sinal de queimadura. É lâmina de prata pura.



— Ele é um caçador. — disse Naomi.



— Ótimo, isso faz tanta diferença. — ironizou outro dos nogitsunes, um cara de cabelo longo amarrado também com traços asiáticos.



— Não me levem a mal, quero muito ajudar todos vocês a manter a Asena longe das garras da alcateia que a quer como troféu. — destacou Frank, pacífico — Preciso que confiem em mim pra isso, senão... 



— Senão o quê? — indagou Ewan levantando uma sobrancelha e dando dois passos adiante.



— Eu saio por onde entrei e nunca mais verão minhas fuças na vida. 



— Legal, fica à vontade. Só não vaza a nossa localização, essa taverna é tudo o que temos.



— Ewan, por favor, ele não quer a Asena morta! — disse Naomi, atordoada com a relutância do amigo. 



— Vocês todos moram aqui? — perguntou Frank esquadrinhando o interior do bar.



— Tem quartinhos nos fundos, dá pro gasto. — disse Ewan, palitando os dentes — Tragam a melhor cerveja da casa pro nosso visitante.



— Não, obrigado, eu tô de serviço, sou policial, além de que a confiança de vocês já me basta. A Naomi disse que tem um interesse pessoal no sangue da Asena. Mas onde vocês se encaixam nisso tudo? 



— Brigamos com os lobos pelo território onde a Asena irá passar nesta noite quando a lua azul estiver brilhando. — disse Ewan sentando na mesa de sinuca — É a única noite na qual ela se transforma de humana para loba através desse fenômeno.



— Caramba, até nisso ela é rara? Eu tenho que conhecê-la pra aumentar minha bagagem, mas reitero que não é pra transforma-la em tapete... mesmo que eu devesse por uma razão específica que é complexa demais pra explicar a vocês, é coisa grande, nem queiram saber. — disse Frank tentando passar uma boa imagem aos cabreiros nogitsunes.

— Temos apenas essa noite pra captura-la pois somente a lua azul ativa a condição milagrosa do sangue dela. — declarou Ewan, levando Frank a uma dúvida contundente.



— Peraí, vocês também querem um pedacinho da coitada?! A mesma intenção dos lobos?



— É o preço que cobramos a Naomi pela nossa cooperação. — disse Ewan, sério, olhando de relance para a kitsune.



— É, não existe almoço grátis nem entre feras especiais como vocês. — disse Frank — Mas e quanto a você, Naomi? No caminho todo não disse nada sobre seu objetivo com a Asena.



— Pretendo usar o sangue dela... — falou a kitsune, meio pensativa —  ... pra trazer meu filho de volta. Quando voltei pro solo americano, encontrei o corpo dele desovado numa floresta em Danverous City. Se eu não tivesse encontrado o Ewan e os outros, me obrigaria a desistir de conservar meu filho. Nada mais me importa.



— Como ele se chamava? — indagou Frank.



— Brian. — respondeu Naomi, reativando uma memória até então adormecida em Frank que tentava mantê-la no porão mais fundo dentre as lembranças mais dolorosas que colecionava.  Flashes do seu encontro com o menino híbrido de lobisomem e kitsune passaram como um filme na mente, especialmente do momento em que foi impedido de salva-lo da morte pelos agentes da ESP que o abateram cruelmente. O som do tiro fatal voltou a ecoar na lembrança imaginando a silhueta de uma mão com arma de fogo mirando na cabeça do garoto.



— Naomi... O nome do seu marido, por acaso, era Howard? — perguntou o detetive se trazendo de volta ao presente.



— Sim... Ele era lobisomem. Nos relacionamos sem a menor ideia de quem éramos um pro outro, guardamos segredo até o dia do nosso casamento. — informou Naomi, desconfiada — Conhecia ele?



— Salvei o Brian de um sequestro armado por uma facção de lobisomens que queriam extrair o sangue de híbrido dele pra se tornarem imortais durante um eclipse lunar. Depois, ele foi capturado de novo, mas desta vez junto com o pai. Infelizmente, não pude salvar o Howard que acabou morrendo numa briga feia de cachorro grande com o líder da facção.



— Eu já imaginava que ele tivesse morrido com o Brian também morto, ele falhou em protegê-lo.



— Ele acreditou que você tava morta. — disparou Frank a olhando severo.



— Eu sei, mas assumi que comigo presente o perigo viria até eles mais cedo, principalmente ao Brian. — lamentou Naomi, emocionada.



— Agora eu tô confuso. Pensou mais em si mesma ou na sua família quando decidiu abandonar eles?



— Eu tive uma escolha a fazer, não sabe o quão difícil foi pra mim! Encarreguei ao Howard a missão de proteger nosso filho se eu tivesse que ir embora porque eu era um farol pros desgraçados que queriam dissecar O Brian vivo!



— Tivesse mudado de cidade, isso não teria acontecido! O Howard sacrificaria o emprego pela sobrevivência do filho. Já você escolheu fugir com medo de lidar com as consequências porque o seu lombo também tava em risco. Sabia que o sangue de uma criatura rara concederia os desejos mais ambiciosos de um lobisomem e isso inclui você! Em vez de ficar com seu marido e filho, quis salvar sua própria pele! Toda família que se preze não larga a mão pra enfrentar as dificuldades! 


— Para de me julgar! — vociferou Naomi, chorosa, mostrando olhos caninos de kitsune — Eu não fiz só por mim! Pra garantir que o Brian ficasse seguro, deixei com ele meu amuleto que na verdade é uma pedra mística que transmuta uma criatura em outra para se disfarçar. Eu a usei pra me infiltrar no grupo do Wade sabendo que ele e os lacaios ocupavam o território onde a Asena se transformaria. Mas eu a perdi.



— Tá falando disso aqui? — indagou Frank, retirando do bolso o colar com o diamante que apreendeu no local do acampamento — Achei como evidência no lugar do massacre. — entregou para Naomi.



— Não confiava totalmente no Howard pra segurança do Brian. — disse a kitsune tocando na pedra — Achava que ele se renderia a ambição de ser imortal e entregaria o ouro ao bandido. Mas era o único a quem podia recorrer. 



— Então era esse amuleto da sorte que o Howard mencionou pra mim. — recordou Frank — Lembro que ele disse ter valor sentimental e não sobrenatural.



— Por conta da minha incerteza com o Howard, não disse nada sobre o poder da pedra. — disse Naomi que foi até uma mesa e espremeu a pedra com uma mão, fragmentando o diamante que não passava de uma camada falsa cobrindo a pedra mágica de transmorfismo — Eu tinha dois amuletos. Este é o meu.



— Mesmo se trouxer o Brian de volta a vida, não vai anular o seu erro. — disse Frank insistindo em sua visão — Como vai olhar nos olhos dele e justificar ter se afastado tanto dele quanto do marido?



— Não parou pra pensar que embeber o corpo dele com o sangue da Asena serve pra me redimir do que eu fiz? Ele vai entender. — contrapôs Naomi.



— Já podem parar com essa discussão, estamos perdendo o foco. — interveio Ewan saindo da mesa de sinuca — O bando do Wade ficará de tocaia esperando a Asena na floresta, mas nós deveremos atacar o QG deles antes com todos lá dentro, inclusive Naomi.



— Que tal uma pequena alteração? Eu me entrego como a Asena enquanto Frank cuida de mante-la segura. – sugeriu Naomi.



— Arriscado, porém funcional. — disse um nogitsune de cabelo meio raspado.



— Se for o único jeito pra mantê-los na cabana, não vejo porque não tentar. — assentiu Ewan.



— Mas nem sabemos quem é a pessoa por trás da Asena ou onde ela tá. — disse Frank.



— Ela se chama Emma, tem 22 anos e trabalha naquela cafeteria. — informou Naomi para a surpresa do detetive — Estive lá procurando ela, mas me disseram que ela começa o expediente a tarde e sai no início da noite.



— Como conseguiu identifica-la? — perguntou Frank, franzindo o cenho.



— Seres raros se guiam pela energia de outros. Descobri sobre a Emma há dois dias, mas não conseguia me aproximar e olha só... estamos no dia D. Eu sou uma tremenda covarde. Você concorda, não é, Frank?



O detetive ficara em silêncio por uns segundos, olhando-a com mais flexibilidade.



— Tudo bem, Naomi, talvez eu tenha sido injusto, você só... foi embora da vida do Brian e do Howard com a intenção de vê-los bem, apesar de traçar o caminho errado.



— A melhor alternativa era estar fora pra que eles vivessem um pouco mais. — disse Naomi enxugando uma lágrima — Eu só adiei o inevitável. 

A kitsune recebeu um toque amigável no ombro por Ewan.



— Enterra o passado. É tempo de nos concentrarmos em renovar nossas vidas. E você terá essa chance com o Brian, mesmo que isso termine com minha cabeça arrancada. Parte do nosso acordo, lembra? Você vem primeiro.



— Obrigada, Ewan. — agradeceu Naomi, sorrindo fracamente ao amigo.



— Como é mesmo o nome do líder da alcateia? — perguntou Frank que lembrava de Naomi o citando há pouco.



— Wade. Te soa familiar? — quis saber Naomi.



— Um pouco. Sabe o tal "amigo" que me falou da Asena? Pois é, ele tava lá na cafeteria e me chamou pra trocar uma ideia quando você saiu.



— Tem alguém com você atrás da Asena pra mata-la? — questionou Ewan, irritado.



— Comigo não, eu mal conheço esse cara. Mas ele me pediu pra ajuda-lo a caçar a loba e no meio da conversa... o telefone dele tava em cima da mesa e tocou, daí vi bem rápido o nome Wade na tela. O nome dele é Omar, recusei firmar parceria com ele sentindo que é encrenca.



— Nesse caso é provável que ele esteja trabalhando com o Wade. — disse Ewan — Se eu pego esse cara, juro que... 



— Não, deixa ele por minha conta. — definiu Frank, confiando na sua estratégia de impedimento — Pus um rastreador no carro dele, vou ficar de olho em cada quilômetro que ele andar. O problema é se ele tiver um desses. — tirou o medidor EMF e mostrou.



— Que troço é esse? — indagou um dos nogitsunes.



— Serve pra captar atividade paranormal. — disse Frank, ligando o aparelho e o movendo próximo a Ewan e Naomi — Viu? Esses traços indicam o nível de distorção eletromagnética. Com vocês aqui, chegou ao máximo num instante.



— Mas nem sequer estamos transformados. — disse Ewan.



— É aí que mora o perigo pra Emma. Por que se o Omar voltar pra aquela cafeteria acreditando piamente que a Asena trabalha lá trazendo um desses... acho que nem preciso dizer o que vai rolar. — alertou Frank — O detector capta a energia sem necessidade dela se expandir, ou seja, vocês emitem um nível de energia máximo independente de estarem na forma humana ou não.



— Então você deve permanecer de vigília em frente a cafeteria pro caso dele vir. — sugeriu Naomi.



— Pior que preciso voltar pro bunker onde me instalei e fica meio distante desse bairro. Mas prometo que ao menor sinal dele ir até a cafeteria, vou atrás dele, fico monitorando pelo computador da minha assistente.



— Espero que isso dê certo. — disse Naomi.



— Faremos dar certo. Todos nós. — disse Ewan olhando para Frank que acenou de leve com a cabeça positivamente em determinação.

***

Pouco depois do cair da noite, Wade e seus comparsas de alcateia já se encontravam reunidos na grande cabana. O líder chamou a todos para abordar uma questão irresoluta que necessitava urgentemente ser respondida. 



— Como sabem, sou um excelente observador, nada escapa ao meu olhar atento. Ontem não foi diferente, não tinha como ser. — disse Wade encarando seus subordinados severamente — Subtende-se que todos aqui saibam que é inadmissível não acatar a um chamado. Pois bem, ocorreu que dois rebeldes resolveram se abster da nossa operação. Acovardados? Duvido. Traidores? Provável. Desertores não tem o direito a anistia. — fez uma pausa — Portanto, eu quero reafirmar minha posição de comando para que ninguém mais se atreva a falhar assim! Quando eu chamo, todos, sem exceção, devem atender. E como acabaram esses inúteis? Claro, apodrecendo no meio do mato. Mas parabéns a quem me poupou o trabalho de puni-los. 



No meio do extenso grupo estava Naomi encapuzada, controlando seu nervosismo e aguardando o momento oportuno.



— A dupla de infelizes tinha uma agenda própria tão importante assim pra ignorar uma ordem expressa? Creio que não se limitava entre eles. Portanto, eu exijo que apareça qualquer um a saber o mínimo sobre o que aqueles idiotas pretendiam. Vamos, ninguém a se manifestar?



Naomi se colocou a frente, adquirindo toda a atenção.



— Eu! — disse a kitsune, removendo o capuz. A alcateia inteira reagiu abismada com a inclusão de uma loba no grupo e vários porquês se fizeram. Wade franziu a testa, confuso.



— Não precisam ficar surpresos, rapazes. Naomi tratou particularmente comigo sobre manter seu anonimato como a única loba da alcateia a fim de não ser uma distração. Por que resolveu desfazer do nosso acordo justo agora?



— Por que... Não sou apenas uma loba que entrou despercebida nesse grupelho que você chama de alcateia.



Um dos lobos não gostou nada do comentário.



— Aí, sua vadia, mais respeito quando for falar...



Wade o pediu para parar sinalizando com a mão direita, logo voltando sua atenção a Naomi.



— Quem você é de fato? — indagou o líder.



— Eu sou... sou a Asena. — disparou Naomi, arrancando reações de espanto — Seu alvo desta noite esteve aqui o tempo todo, Wade. Além disso, ajudei a dar cabo dos seus fugitivos. Pode acreditar, eu vou me transformar logo mais e resolvi entregar meu destino a você.



— Por que? 



— Por ter me dado um lugar quando eu não tinha mais onde me encaixar no mundo. Hora de retribuir o favor. — disse Naomi, oferecendo os pulsos juntos para ser algemada.

— Prendam-na. — ordenou Wade, fitando-a com aspereza. Dois dos lobos a agarraram e outro pusera algemas de prata usando luvas. A levaram até o compartimento mais adentro — Ah, antes que eu me esqueça: quero cinco de vocês pra reduzir aquele caçador inútil a um monte de ossos enterrados. Não demorem.



Naomi ouviu, satisfeita pela confirmação da aliança de Omar com Wade, a qual estava prestes a ter um desfecho trágico, o que seria meno um obstáculo na proteção da Asena. Na sala de pesquisa do bunker, Carrie conferia no laptop a ficha de Omar após uma pesquisa no banco de dados verificando todos os cidadãos americanos registrados com tal nome.



— É ele! — disse Frank, levantando da cadeira. 



— Nascido e criado em Oklahoma, não é casado, não tem filhos, não tem seguro de vida... — disse Carrie com Frank inclinado perto do ombro esquerdo dela.



— Desce mais aí, essas informações não agregam. — disse Frank. Carrie o fizera, lendo descrições surpreendentes.



— Nossa, olha isso... Ele tem passagens pela polícia. — disse a assistente. Frank voltou os olhos para o celular — O que você tanto vê aí?



— Tô de olho no sinal do rastreador que implantei no carro dele, mas ficou parado faz horas. Será algum problema interno?



— Ele tem cara de quem sabe burlar estratégias. Fora isso, ele só tem acusações de fraudes, clonagem de cartões de crédito, falsidade ideológica, extorsão, sequestro e... homicídio triplamente qualificado. Chernobog tem um dedo de ouro pra selecionar jogadores.



— A Natasha e a Miyako já são de casa. O russo que morreu me parecia um cara honesto pela primeira impressão. O Dylan e a Sarah não me despertaram nenhuma suspeita, acho que são de boa, apesar da Sarah ser meio esquentadinha pelo que vi dela na reunião. O Mr. M deve ser só um esquisitão experiente. Sobra o Omar como a única maçã podre de que temos certeza.



— Pegou o rastreador emprestado do Hoeckler ou comprou numa lojinha virtual mequetrefe?



— Com o Hoeckler, mas ele não me daria um rastreador de quinta. — disse Frank que logo teorizou algo preocupante — Ah, meu Deus... Acho que sei o que o desgraçado do Omar fez.



O sinal do rastreador apitou no celular. 



— Ótimo, ele se mexeu! Vou a mil por hora. Falou, Carrie, depois te conto tudo! — disse o detetive saindo as pressas da sala.



— Espera! Me conta o que você pensa dele ter feito! Frank, não vai... — disse Carrie que foi barrada pela porta fechando após Frank sair correndo. Ela rosnou enraivecida cerrando os punhos. 



Emma saía do trabalho, ficando ao encargo de fechar o estabelecimento. Era uma jovem com rosto delicado de bochechas coradas e um expressivo cabelo ondulado que caia aos ombros tendo uma mecha azul no lado esquerdo. Foi andando pela calçada de braços cruzados até que foi parada por um carro a seguindo quase encostando no meio-fio.



O veículo parou e saíra dele alguém que inspirou temor em Emma. 



— Quem é você? Não preciso de carona, obri... — a fala de Emma foi cortada quando a mão direita do sujeito tapou agressivamente sua boca. 



O BMW que Frank dirigia seguia rompendo o limite de velocidade pela estrada, o detetive guiando-se pelo sinal rastreado do carro de Omar. Em paralelo, Wade dava o pontapé inicial à cerimônia ritualística que o consagraria como o primeiro lobisomem imortal da história. Estava roda a alcateia reunida num amplo espaço meio vazio e escuro na cabana. Uma grande abertura no teto fazia entrar a luz da lua cheia azul.



Naomi foi libertada das algemas, podendo assim, discretamente, tocar na pedra do seu colar e fechando os olhos ao se imaginar na pele da própria Asena. A kitsune ficou de quatro no chão, se metamorfoseando com seus ossos torcendo e pelos azulados brotando da pele. Wade asssitia maravilhado à transformação.


Um subordinado foi autorizado a se aproximar com uma faca. Outros dois agarraram-na no pescoço e na barriga. Naomi tentou resistir, mas foi advertida. Eles a ergueram.



— Na garganta, senhor? — indagou o lobo com a faca.



— Não. No peito. Bem no meio. — disse Wade com sadismo na face. O corte foi efetuado e uma vasilha foi posta abaixo com o sangue jorrando dentro. A falsa Asena gemia de dor, tremendo. O sangue foi logo oferecido a Wade que o bebeu imediatamente, indo até onde a luz lunar iluminava. Jogou a vasilha no chão e abriu os braços se banhando com a luz — Me conceda a benção da vida eterna, mãe astral!



Alguns dos lobos já transformados uivavam em coro. Porém, Wade em nada sentiu-se de diferente. Era para uma transformação involuntária ocorrer, mas tudo permanecia igual.



— O que é isso? Não sinto absolutamente nada... Eu deveria me transformar agora!



— Talvez seja uma boa hora pra isso. — falou Naomi, chocando a todos.



— Maldita! Farsante! — disse Wade vindo até ela — Ah, então foi... isto aqui! — notou o colar com a pedra vermelha e o arrancou — Uma pedra transmórfica! — a jogou no chão, pisando sobre e destruindo-a. Naomi se moldou a forma de kitsune em segundos — Agora sim tem minha permissão pra morrer!



Nesse instante, os nogitsunes invadiam barulhentos, quebrando as janelas. As raposas de pelo negro avançaram contra os lobos, deflagrando um confronto visceral onde se engalfinhavam com mordidas ferozes. No meio da balbúrdia, Naomi chegou a ser encurralada por dois, mas emanou uma aura de fogo e lançou sobre eles, os incinerando. Wade transformou-se, logo pulando sobre ela, mas Ewan interveio a mandnaso fugir. 



O líder nogitsune mordia profundamente o pescoço de Wade e os dois rolaram no embate. Ewan conseguira arrancar um olho de Wade que rugiu alto com a dor, o sangue esguichando no ar. Enquanto a luta selvagem ocorria, não muito longe dali Frank estacionava o BMW frente a uma casa que parecia ser a morada de Omar.



Arrombando a porta com a arma em punho, o detetive se deparou com o caçador agarrando Emma como refém, pressionando o cano da arma na cabeça dela. A sala estava às escuras, mas a luz forte da lua clareava o suficiente.



— Omar, larga ela! — bradou Frank.



— Quer apostar quem é mais rápido no gatilho? Eu topo. — disse Omar — Você não vai me fazer perder essa chance valiosa, não hoje! Eu quis dividir uma vitória com você e fui rejeitado! Sabe como lido com a rejeição, Frank? Vingança.



— Miserável, sabia que eu tava vindo pra cá, né?



— Estava só te esperando. Bem-vindo a meu lar temporário.



— Claro, com uma ficha longa na polícia você não faria disso aqui um lugar fixo. Então você me viu colocando o rastreador, né? Te subestimei, confesso. Mas não esperava que tivesse um caráter tão sujo se dizer caçador.



— Seu imbecil, como quer que eu aja nessa merda em que fomos metidos? Ela é um monstro! E como tal deve ser morta, independente de qual espécie seja! É a minha filosofia. Fui burro de acreditar que pensássemos igual! 



— Foi mais burro ainda fechando negócio com lobisomens! — rebateu Frank descartando se aproximar com a ameaça de Omar.

— Me diz se não faria a mesma coisa dentro desse jogo! Anda, me fala! Se quiser jogar de verdade, se quiser viver, terá que abandonar os seus princípios, Frank. Vai ter que deixar o seu lado mais animal aflorar. — argumentou Omar — Eu vou estourar os miolos dela na sua frente.



— Tem que esperar ela se transformar quando a lua azul chegar no ápice. Mas aí você vai conseguir detê-la?



— Não importa! Eu a mato e extraio o sangue pra cumprir minha parte do acordo com o lobo alfa. — disse Omar, ofegante — Por que não atiramos nela juntos quando ela virar loba hein? 



Emma se encorajou a suplicar por ajuda.



— Não deixa ele me matar, me ajuda, socorro...



— Cala a boca! — mandou Omar, a agarrando mais forte. Emma chorava copiosamente, apavorada com a possibilidade mortal.



— Omar, solta ela! — reafirmou Frank mais rigoroso — Entendo você querer avançar no jogo, mas não é por esse caminho!



— Fale por você! Não passa de um perdedor querendo poupar a vida de uma fera sobrenatural num jogo de caça que vale sua sobrevivência! Tenta pensar mais em si mesmo, vê com mais clareza a situação em que estamos! Por baixo dessa pele de garota inocente tem garras, presas e instinto animal! Ela não é tão diferente assim dos lobos. Segue o meu raciocínio, merda!



— Mas eu te entendo! Só que não vou abrir mão da minha humanidade nesse caso. Não por ela... Nem por você... Nem por ninguém. Eu já perdi essa luta bem antes desse jogo.



— Então vai descobrir da pior forma... que é melhor perder pra si mesmo do que perder pra um inimigo. — rebateu Omar, colérico.



Ruídos foram ouvidos ao redor da casa, chamando a atenção dos caçadores. Frank aproveitou aqueles segundos de distração para atirar errado de propósito num quadro, o que assustou Omar.



— Emma, foge! — disse Frank ao ver que a garota conseguiu se desvencilhar-se com o descuido de Omar. Ela correra para dentro, escapando pelos fundos. Omar partiu contra Frank, largando a arma e o socando no rosto. Frank revidou com uma joelhada na barriga e depois um soco ainda mais pesado, derrubando-o. Vendo a sua arma largada, Omar a pegou e disparou contra Frank, mas o detetive segurou seu braço, o tiro acertando de raspão. Deu uma coronhada na testa de Omar, mas levou uma rasteira do mesmo e foi chutado forte no abdômen quando ele se reergueu.



Mas a pancadaria foi inesperadamente interrompida com a invasão dos lobisomens enviados por Wade para eliminar Omar. Quatro deles entraram pelas janelas e o último pela porta da frente. Os olhos vermelhos das feras lupinas pareciam brilho na escuridão com a vontade de causar um banho de sangue.



— Trégua? — indagou Frank, sofrendo com a dor abdominal do chute. Omar o levantou, aceitando uma rápida parceria. Os lobos avançaram e os caçadores ficaram costa a costa atirando incontáveis vezes. Quatro foram abatidos, porém o último pulou sobre Omar usando o escuro a seu favor para um bote surpresa, tascando uma mordida no ombro do caçador.

Frank disparou oito balas de prata nas costas da criatura, a tirando de cima de Omar e enfim dando o tiro de misericórdia no peito. Foi verificar o estado de Omar.



— Isso não tá nada bonito. Esse lobão tava mesmo faminto. Fica aqui, depois volto pra te levar pra um hospital.



— Essa compaixão toda... é a mesma que você usa com certos monstros. Eu dispenso.



Frank o olhou num misto de contrariedade e dúvida, logo saindo atrás de Emma. A garota corria freneticamente pela floresta, desviando de árvores. Um lobo remanescente da alcateia de Wade corria perseguindo-a. Frank logo o alcançou dando um tiro de advertência.



— Aí, não quer jantar uma carne mais suculenta?



O lobo mirou sua fome no detetive, correndo e logo pulando sobre ele. Frank disparou com seu rifle na cabeça do lobo durante o pulo, o derrubando. Emma observou escondida numa árvore. Frank dera outro tiro no lobisomem, desta vez no coração, liquidando-o em definitivo. 



— Emma! Cadê você? 



— Oi... — disse ela, surgindo detrás da árvore. Frank se aproximou dela — Eu só... Só queria dizer que... Tô muito grata pelo que fez por mim. Eu sabia que lidaria com minha maldição essa noite. Só não sabia que seria tão disputada.



— Mas já acabou. Você tá livre. Pra ser quem você é realmente. — disse Frank.



— Você também é um desses caçadores, né? Por que lutou pela minha vida?



— Assim como nem todo monstro mata pessoas, nem todo caçador mata qualquer monstro É basicamente isso. Se nunca derramou uma gota de sangue inocente, não merece morrer.



Emma o fitou com emoção estampada na face e o abraçou forte em agradecimento. Ela seguiu andando rumo aonde a luz do luar azulado se fazia mais brilhante. Passou por árvores e arbustos e ali transcorreu sua metamorfose. No topo de uma parte íngreme, a Asena surgia sob o luar intenso que a enchia de uma aura estonteante a ser contemplada. A loba encarou Frank com seus amarelos olhos como sua despedida, logo correndo livremente.



O detetive percebeu Naomi e Ewan transformados atrás dele, ambos assistindo ao momento fantástico. 

— Naomi?



— Sou eu, Frank. — disse a kitsune se aproximando dele junto do amigo — A alcateia do Wade foi dissolvida. 



— Caraca, eu não tô... Desculpa, é meio bizarro interagir com você nessa forma. Não tinha ideia que as raposas paranormais mantinham a fala. É bem louco. — disse Frank com ar risonho — Mas pra quem já conversou com um corvo que se comunicava por telepatia, nem devia tá surpreso. Olha, eu... sinto muito, mas tive que deixa-la ir. Passou por um sufoco dos grandes nas mãos do Omar, então ela merece toda a liberdade na única noite em que não pode ser uma pessoa comum. Espero que entendam.



— É claro que entendemos. — disse Ewan — De acordo, Naomi?



A kitsune demorou para responder, pois digeria a ideia de não realizar a façanha de reviver Brian.



— Eu posso viver com isso, apesar do quanto eu esperei que fosse conseguir. O Brian deve estar em paz em algum lugar. Fiz por ele no passado. Estaria fazendo apenas por mim agora.



Satisfeito com a compreensão da kitsune ante ao luto pelo filho, Frank afagou a cabeça dela dando um sorriso fechado dada a renúncia ao egoísmo alimentado pela perda inaceitável.



***



Phoenix - Arizona



Na noite do dia seguinte, Emma descia de um ônibus com uma lesada mochila nas costas após decidir recomeçar a vida noutra cidade por conta de sua natureza vulnerável a caça pelos que cobiçam seu dom miraculoso. Ao atravessar uma rua deserta olhando no celular um guia de hotéis, uma presença se colocou adiante. A garota ergueu os olhos para a figura ali parada no escuro.



— Olá... Sabe me dizer qual a pousada ou motel barato mais próximo? O sinal de internet aqui é horrível, não carrega os guias. 



O indivíduo sairá das trevas, revelando-se o caçador mascarado. A aparência do sujeito misterioso incutiu apreensão em Emma que recuou devagar.



— Pensando bem... Acho que... vou procurar sozinha.



— Não resista. — falou o homem por trás da sinistra máscara de ferro com uma voz cavernosa, porém num tom calmo — Será rápido e indolor.



Baixou sua mão direita sobre a cabeça de Emma que estava paralisada de medo. Num movimento brusco, quebrara o pescoço da garota que caiu morta. Saiu andando tranquilo, puxando a manga esquerda da cota de malha metálica que usava, vendo a marca de Chernobog se estender mais uns centímetros no antebraço.



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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

*Imagem retirada de:https://portal-dos-mitos.blogspot.com/2016/06/asena.html?m=1

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