Frank - O Caçador #111: "Traindo o Movimento"

 


Oklahoma - Oklahoma City



Uma noite atarefada como havia sido para aquele professor universitário de meia idade não merecia uma saída desesperada para sobreviver aos perigos noturnos que ameaçassem a vida, como um assalto a mão armada. Luke Robbins acreditava que a vida lecionando no ensino superior lhe reservaria uma carga de estresse menor em comparação ao período nas escolas estaduais. Seu ledo engano se revelou naquele instante de fuga agoniante para salvaguardar sua vida.



Os dois criminosos atiravam erroneamente de propósito para adverti-lo durante a perseguição  numa rua deserta e pouco iluminada que tinha proximidade com uma área florestal. As olhadelas do professor não cessaram enquanto ele mantivesse sua preciosa maleta de trabalho consigo e segura. Sua careca brilhosa a luz do luar era quase um farol para os meliantes incansáveis. Quando passou por uma linha férrea, deu graças a Deus por um trem vir passando logo após ele, assim bloqueando seus persecutores que soltaram impropérios em voz alta.



Já tentativa de despista-los efetivamente, se enveredou para a floresta visando um atalho que não sabia onde iria desembocar. Porém, seu pé esquerdo torceu numa parte íngreme, fazendo-o rolar até bater com força na base de uma árvore. Levou um instante para se reorientar e voltar a correr. Mas lembrou-se de algo esquecido pelo caminho.



— Minha maleta... Onde está? Cadê? Oh, não... — disse ele, virando para a direção oposta, mas hesitou voltar. Ouviu un piado de coruja bastante alto e ameaçador que o fez flexionar os joelhos se abaixando como se fosse um grande animal carniceiro pairando sobre ele — O que foi isso? — indagou, logo rindo de si — Que idiotice a minha, é só... é só uma coruja. Mas em todo caso, melhor tomar uma pílula. – retirou um frasco do bolso do paletó preto-azulado e pusera uma pílula calmante mastigável na boca.



Tornou a correr adiante por alguns minutos, sem pausa para descanso. Não faria uma a menos que se sentisse forçado. E isso ocorreu num dado momento. Entreviu algo pesado cair a sua frente, logo pegando o celular do bolso da calça e acionando a lanterna. Foi se aproximando meio rápido até que a luz o fez descobrir. O susto que tomou quase fizera ele vomitar o próprio coração. O cadáver de um dos bandidos jazia sem olhos e pele. Em seguida, outra coisa despencando ao chão. Voltou a lanterna para o corpo do segundo assaltante na mesma condição que o parceiro.



Seu nervosismo crescente que nem sua pílula conseguia refrear o levou a gravar um vídeo pelo celular como uma despedida.



— Aos meus alunos, colegas e amigos... Se estiverem vendo essa gravação... significa que estou morto. Independente de quem estiver vendo, não abra a minha maleta se a achar. Caso seja uma autoridade competente, mande-a para o laboratório de pesquisa da capital, é de suma importância! Ah não, não... 



O professor detectou com sua visão periférica a morte se aproximando na forma de uma coruja humanoide de 2 metros voando baixo com as garras dos pés afiadas e soltando seu piado tão estridente quanto o grito emitido pela sua vítima indefesa.



O celular foi largado, a tela recebendo vários respingos de sangue.



***



Em Los Angeles, o dia já iniciava trabalhoso para Frank que seguia no tratamento psicoterapêutico contra suas crises de pânico decorrentes do trauma vivido durante o fatídico terremoto que arrastou Danverous City abaixo. Ao sair da sala após o término da sessão, o detetive viu Hoeckler encostado de ombro na parede perto da porta, o aguardando enquanto mexia no celular.



— Você já tava aí? Como que eu não ouvi sua voz lá de dentro? — questionou Frank, fechando a porta.



— Nosso isolamento acústico é de primeira categoria, privacidade sem limites. — disse Hoeckler andando, logo sendo acompanhado pelo detetive que não se continha de curiosidade para se inteirar do motivo para aquele chamado — Antes de você se aventurar em mais um caso, preciso de um favor de extrema importância, do tipo que somente você tem a habilidade de cumprir devidamente.



— Se eu puder adivinhar... Hoje eu finalmente terei uma entrevista exclusiva com o prisioneiro de luxo da ESP. Olha, não sei se tô com saco pra aturar a voz daquele bruxo safado... Acordei com uma baita de dor de cabeça, só fui pra terapia porque odeio faltar compromisso. — disse Frank que passou a mão no rosto em expressão de cansaço, o que instigou uma análise de Hoeckler.



— Você me parece mais exausto do que de hábito. Todo esse cansaço é pela carga-horária do DPLA?



— O quê? Eu... Não, eu me sinto bem fisicamente. Cansado, lógico, mas levando a vida como sempre. Eu sou uma rocha em se tratando de tomar porrada, caio e me restauro num instante, apesar de umas dorzinhas que ficam por uns dias. Nada que os analgésicos não resolvam. Minha vida voltou aos trilhos depois do baque com toda a desgraça apocalíptica que trouxe a gente pra cá.



— Pois me parece que está trabalhando redobrado, você claramente não está tão disposto quanto parece após um simples dia de investigação e caçadas a monstros. — disse Hoeckler, o estudando — Há algo diferente em você, Frank, e sinto que não tem necessariamente uma relação direta com suas crises psíquicas.



— Vamos só... ir até o Zaratro e acabar com a paz dele enchendo de perguntas desconfortáveis sobre o Chernobog. — disse Frank se indispondo a prosseguir discutindo a respeito de seu estado físico. Os dois cruzaram alguns corredores até chegarem na cela exclusiva de Zaratro, um ambiente meio exíguo que mais se assemelhava a um cofre bancário pelas partes cinzentas e porta de aço com válvula destravada por meio de escaneamento de retina e reconhecimento biométrico.



A pesada porta abriu-se com o lento girar em sentido horário da válvula, deixando visível a figura do bruxo das trevas sentado numa cadeira com os pulsos algemados para trás. Zaratro trajava as mesmíssimas vestes: túnica preta com capuz e dividida no meio parecendo um casaco ou sobretudo que descia aos joelhos, além das calcas também pretas e botas de couro desgastadas e com fissuras.



— Faça bom proveito. — disse Hoeckler — Por enquanto, sem coerção. Aja com cautela, não se sabe que truques manipulativos de dissimulação ele tem na manga pra suprir a ausência da magia só pra tangenciar.



— Então me traz uma buzina de navio porque ele parece que tá no nível mais profundo do sono. Contando carneirinhos endiabrados. — disse Frank, entortando um pouco a cabeça para ver o rosto de Zaratro que transparecia estar dormindo — Meteram um sossega-leão nele?



— Não passa de uma artimanha fingida para atrasar nosso conhecimento quanto às maquinações do mestre dele. — avaliou Hoeckler — Pelo menos é nisso que acredito. Tente trazer o dorminhoco de volta a realidade, se é que ele está fora. Boa sorte.



O presidente da fundação deixara Frank a sós com o bruxo aparentemente adormecido. O fechar da porta fez soar quase um estrondo.



— Se nem o som da porta te despertou é porque você tá nas camadas mais fundas desse sono. — disse Frank se aproximando — Hibernação? É melhor sair dessa porque tenho uma novidade pra te contar. Uma não, um monte. Mas antes quero só me certificar de que eu não falando com as paredes aqui. — o rodeou, logo sacando uma arma e apontando-a para a cabeça do bruxo atrás dele — Tá sentindo isso aqui ou não? É bala anti-magia que botei nessa arma doidinho pra enfiar no seu crânio quando eu tivesse a chance de te colocar uma prensa como um policial malvado. — fez uma pausa, esperando uma reação — E se eu destravar? Ainda vai pensar que é blefe? Eu não caio nessa, tô vendo que a tua respiração mudou.



Zaratro reabria os olhos devagar, erguendo a cabeça lentamente.



— Como ousa me tirar do meu exílio meditativo?



— Corta essa, você só tava de cena pra dificultar o trabalho da ESP e o meu também. — disse Frank ficando de frente a ele — Olha só, até tinha me esquecido que deixou de ter aquela cara de Hellraiser pra ficar com a de coroa cafetão depois da Agnes te sugar até a última gota.



— Continua enganado sobre isso. Eu tenho sobras, resquícios na minha essência mágica natural que ainda conservo e me mantém em alerta a cada passo do meu patrono. — disse Zaratro, sorrindo de canto — Um bruxo pode ser privado de seu poder, mas nunca deixa de ser um bruxo. Não esperava revê-lo tão cedo, filho de Orion.



— Não vem com esse papo de Orion pro meu lado, o que ele foi ou deixou de ser não importa, não tem significado algum pra toda a merda que existe ao meu redor nesse momento.



— Ah, ele significa mais à esse cenário do que imagina. Não pense que não estou a par. A conexão com o meu senhor é inquebrável como a maldição mais hedionda. Uma vez necronomiano, sempre necronomiano. Mas estou apto a responder as suas perguntas, eu não tenho muitas opções a meu dispor.



— Então você pode recuperar sua magia sombria a conta-gotas pela ligação impossível de desfazer com o Chernobog?



— A menos que aquela herética se coloque no meu caminho outra vez e repita o erro que cometeu.



— Por que um erro? Ela se imbuiu de um poder que pode usar e abusar ao bel prazer, a essa altura talvez esteja mais poderosa do que você nunca foi um dia.



— Eu posso ter omitido algumas lições durante meu ensinamento na formação das minhas alunas. — disse Zaratro com cinismo nítido — A magia é como uma assinatura própria e inimitável de alguém. Uma impressão digital que não pode ser falseada ou replicada. Ou até mesmo um órgão específico que pode ser transplantado, mas sem garantias.



— Quer dizer então que... a Agnes corre perigo tendo a sua magia fixada ao espírito dela?



— Não qualquer perigo, uma rejeição que desencadeia a morte mais lenta e dolorosa possível. O corpo e a alma definhando em conjunto até que não sobre uma fagulha de vida. Eu teria a complacência de avisa-la, mas... 



— Tá legal, você acha que eu nasci ontem e espera que eu acredite que isso não seja uma mentira pra atrair ela até aqui e devolver tudo que tirou de você pra se salvar. Tira o cavalinho da chuva, pois ela se mandou, fugiu pra terra natal dela sem olhar pra trás. — disse Frank não alterando a severidade com que falava.



— Eu não seria estúpido de subestimar a sua sabedoria, muito menos de ter essa expectativa. Ela está condenada e se persistir em me superar, o tempo será encurtado cada vez mais. O castigo merecido pela soberba de me tripudiar.



— Saindo desse lance cabuloso da Agnes, eu... tenho mais uma questão, essa sim muito importante: o paciente zero.



— Como disse?



— A pessoa que foi a primeira infectada pelo vírus que o Chernobog criou. Existe ou não?



— Minha visão ainda está limitada, espere mais alguns dias.



— O cacete que eu vou esperar dias, eu tenho menos de 6 pra vencer a porcaria desse jogo de caçador pra conseguir a ucra como prêmio! — disse Frank o agarrando pela roupa — Só me diz se ele está vivo ou morto.



— Não posso fornecer a resposta por ora. Terá de ser paciente quanto a isso, porém... Deve agir rápido.



— Sim, pra matar centenas de monstros e sair vitorioso com a cura do vírus que nem sei se existe também!



— Errado. Se eu tiver que dar um conselho, deixe as incertezas de lado. Saiba que há uma força latente pra despertar em breve. É nisso que precisa focar e agilizar seus esforços. — disse Zaratro assumindo uma seriedade que levantou preocupação crescente em Frank — O falso messias está para nascer.



O detetive soltara-o, refletindo sobre aquela informação que transmitia dúvida e urgência em igual medida. 



— Me diz quem é ele. — exigiu Frank.



— Tempo esgotado para novas perguntas. Se quiser renovar o seu pacote de respostas, volte em alguns dias. E nem pense em me ameaçar com esta arma, não seria imprudente de matar o único informante ao seu alcance.



Frank o encarou raivoso por alguns segundos, resolvendo sair daquela cena sentindo-se esgotado de paciência. Abriu a porta com força e fora embora sem ver que Zaratro sorria consigo mesmo se rejubilando com a catástrofe desenfreada no mundo externo.



***



Na sala de pesquisa, Frank debatia com Carrie e Giuseppe acerca do interrogatório que serviu como um teste ao seu emocional instável



— Aquele filho da mãe tá curtindo com a minha cara. — disse Frank dando um soquinho na mesa e andando de um lado para o outro — Me obrigando a voltar pra masmorra dele só pra interagir mais comigo porque minha cara lembra o aprendiz caçador dele.



— Ou talvez a quantidade de magia que ele tenha não seja o bastante pra visualizar além da superfície. — especulou Carrie.



— Pois é, tem isso também. Mas fiquei tão perturbado com esse lance do Orion que me desatentei.



— Seria bom conhecer mais desse Orion através desse bruxo lendário. Afinal, é o ancestral mais antigo da sua árvore genealógica. — disse Giuseppe se servindo de um café — No seu lugar, eu iria querer saber até o que ele conoa no café do manhã.



— A Agnes pode ser carta fora do baralho, mas... sei lá, eu não consigo deixar de pensar na encrenca que ela se meteu sugando a magia do Zaratro. Ele me disse que ela pode morrer lenta e dolorosamente por conta de uma rejeição.



— Mas ela possui o necronomicon, se descartou porque foi ambiciosa e egoísta. — opinou Carrie, ligando a TV — Ela é muito útil ainda pra nós, por mais que eu odeie admitir. Isso se chama lei do retorno. Ela te introjetou um câncer sobrenatural que te transformaria numa abominação do inferno, agora é a vez dela colher o que plantou sofrendo mil vezes pior.



— Mas ela não vai estar sozinha, deve ter ressuscitado as amigas da convenção de bruxas. Tentariam achar uma cura a tempo dela nos ajudar contra o Chernobog e o cara que o Zaratro disse ser o falso messias. — declarou Frank pensando nas inúmeras possibilidades observáveis.



— O que disse? Falso messias? — indagou Giuseppe, surpreso — Estamos no apocalipse, certo? Não seria de se estranhar o surgimento de um falso profeta ou salvador a essa altura.



— Sim, mas não vivemos o apocalipse da Bíblia. O contexto pode ser parecido em alguns pontos, mas no geral é bem diferente. — contrariou Frank — O Chernobog quer desenrolar seu próprio apocalipse e tenho quase certeza que tá descrito no necronomicon. Carrie, depois você procura as traduções que tinha feito naquele dia em que eu e a Lisbell fomos pro submundo.



— Alô, memória de peixe! As traduções que eu fazia com o software da ESP morreram junto com o meu laptop. — disse Carrie que ainda levantava a perda material incalculável — E estavam tão avançadas... 



— Ah, é mesmo, o desgraçado do Silas tinha detonado com o laptop quando tava te ameaçando. — relembrou Frank que logo olhou para a TV onde era transmitida uma coletiva de imprensa — Flexibilização?



— Apenas em Oklahoma, Idaho e Indiana. — disse Carrie atenta ao que estava sendo veiculado — Começaram mesmo a produzir imunizantes. Mas é a droga de um vírus mortal e de um nível sobre-humano. Como o mundo já tendo ciência total dos monstros e entidades à solta por aí feito baratas vai comprar a ideia de uma vacina contra um vírus que transforma alguém num zumbi de sangue preto? Inconcebível.



— Mais concebível do que se supõe. — apontou Giuseppe — Esse homem fala com muita convicção sobre o financiamento de laboratórios e produção de vacinas em larga escala. Fiquem atentos a ele, é bem conhecido na indústria de tecnologia e ciência. 



— Elton Hartley, bilionário queridinho do setor de telecomunicações e avanços tecnológicos. — disse Carrie, aumentando o volume da TV — Sigo ele nas mídias. Milhões seguem.



— Já ouvi falar, mas nunca dei muita bola. — disse Frank, assistindo de pé — Pensei que ele só fechava com indústrias automotivas pra fabricar carros elétricos.



— Ele é bastante plural na forma de conduzir seus negócios. — disse Giuseppe — Expande capital pra diversas empresas que não recusam o benefício que só ele tem o poder de oferecer. Lembro de vê-lo em primeiro lugar na lista dos empresários mais ricos do mundo. Ninguém o tira do topo pois sempre está a milhares de passos à frente já que pensa à frente do seu tempo.



— Vamos parar com a babação e ouvir o que ele tá dizendo dessa vacina. — pediu Frank meio rude.



Elton Hartley possuía um estilo que facilmente sugeria um aspecto de bon vivant da alta classe americana. Era um homem caucasiano de cabelos pretos em corte social com um topete bem penteado com gel. Ostentava também uma barba por fazer, além de uma oratória invejável.



— A Globemax não vai medir esforços pra ampliar cada vez mais o portfólio, nesse sentido iremos bancar toda e qualquer agência de saúde que estiver interessada em ser gerida por nós durante a produção em massa de imunizantes a uma escala mundial. Fizemos acordos com diversos laboratórios bem reputados, logo mais vocês saberão quais, além de que estamos em negociações com outros graças as nossas filiais europeias e asiáticas. O mundo... a humanidade em geral tornou-se uma única família. Nenhuma vida está acima da outra. Nesses tempos sombrios onde os medos dos nossos piores pesadelos se tornaram reais, olhemos mais ao próximo com humildade, empatia e, claro, amor. A esperança não morre enquanto houver quem a mantenha viva. Obrigado a todos pela atenção, tenham um bom dia.



A coletiva foi encerrada com aplausos calorosos da imprensa. Hartley saia do palco acenando com simpatia em agradecimento. Frank assistia com olhos estreitados.



— Belo discurso. Tô quase derramando uma lágrima. — ironizou ele.



— Ah, Frank, lá vem você com sua desconfiança. — disse Carrie — Ele é um filantropo nato, já ajudou, por exemplo, vários países da África a combater a desnutrição e a fome, fora programas de assistência social para crianças em situação de rua.



— Olha, ele pode ser o que for, indo de salvar um gatinho de uma árvore até encontrar a cura pra todas as doenças, que eu não vou parar de pensar que ele é suspeito. — disse Frank para os dois — Se liguem, esse cara tem lábia das boas. Esse vírus tá além de qualquer ciência e vem um zé ruela desses vender falsas esperanças.



— Um zé ruela de enorme influência midiática e mais zeros na conta na bancária do que qualquer cidadão americano comum. — pontuou Carrie.



— Tá defendendo ele? Caíram fácil assim nesse papo furado? Esqueceram do que eu falei? — perguntava Frank, o aborrecimento estampado — Falso messias! Quem mais vocês acham que pode ser esse arrombado?



— Calma aí, Frank, relaxa, você tá muito cismado com tudo isso. — orientou Carrie expressando incômodo com a postura irascível do detetive.



— Pensando bem, a suspeita de Frank é válida. — disse Giuseppe, pensativo e dispensando o café na xicada ainda cheia — É bem claro de quem se trata o falso messias na Bíblia.



— O anticristo? — indagou Carrie, franzindo o cenho — Mas não estamos num apocalipse desconhecido?



— Mas parecido em alguns pontos, eu tinha dito isso antes. — disse Frank, passando da irritabilidade a apreensão — Zaratro disse que ele tá pra nascer. Chernobog não iria esperar um nascimento literal. Se for o Hartley, alguma coisa muito sinistra ele tem dentro de si, vai ver nem ele faz ideia do que seja, mas vai despertar.



— Oklahoma já tem um laboratório operando. — disse Giuseppe — Foi o primeiro estado a receber o aval de flexibilizar a quarentena.



— E por falar em Oklahoma... — disse Carrie conferindo notícias pela internet — A polícia da capital encontrou órgãos espalhados numa floresta e corpos contendo traços de ataque de aves de rapina. O DPLA autorizou você a investigar já que todos os distritos de lá se negaram, mas precisa dar um pulo no prédio e pegar a permissão impressa.



— Lá vou eu pra mais uma fase do jogo. — disse Frank pegando a chave do BMW em cima da mesa — Tomara que seja um monstrão de valer altos pontos pra minha tatuagem tribal.



***



Na estrada até Oklahoma City, o detetive fazia uma chamada de vídeo para Miyako pelo celular no suporte. 



— Fala aí, Miyako. Qual é a boa? 



— A péssima, na verdade. — respondeu ela parecendo chateada — Natasha ignorou todas as minhas ligações e mensagens desde aquele dia. Bem, só respondeu uma... dizendo que estava ocupada e não podia falar no momento. Diria que nossa relação foi de um vulcão em erupção pra uma era do gelo. 



— Não tem que se sentir dependente da Natasha pra tudo nesse jogo. Você tem experiência, apesar de muito jovem, vai encontrar sozinha um caso que corresponda a sua capacidade. — disse Frank num tom meio professoral.



— Tem razão, ela não precisa de uma caçadora que só sabe lidar exclusivamente com bakemonos.



— O quê? — indagou Frank sem entender.



— Bakemono. — respondeu Miyako quase soletrando — Uma classe de yokais. Pode ser uma criatura que assume uma forma animal, por exemplo, como as kitsunes e os nogitsunes.



— Se eu te disser que já tive contato com esses daí...



— Nossa, que máximo. Mas... você os matou, certo?



A pergunta emudeceu Frank que se limitou por um instante a expressar seriedade.



— Era uma situação específica demais pra favorecer esse jogo nojento...



— Não, espera, me escuta. Sr. Montgrow, mesmo que eu não goste do jeito que a Natasha vem me tratando, eu entendo o individualismo dela. Ela só não tá sabendo demonstrar, mas está certa em assumi-lo. E não vou te recriminar se o fizer também. Eu teria coragem... sabendo que minha vida depende disso. 



— Sabe que... você tá coberta de razão? Não é mais uma rotina normal de caçadas, então... é matar ou ser morto no maior sentido. Valeu por me dar esse choque de realidade, eu sou difícil de me desapegar do meu trabalho como faço. Pior que enfrentei um caçador participante que tentou me dar um conselho parecido. É difícil. Haja sangue frio. — olhou para a caçadora — Você vai ficar bem seguindo nessa linha?



— Eu tenho que estar, né? A gente se fala qualquer dia, já tô de saída pra minha caçada.



— Boa sorte. 



— Ao senhor também. Mas talvez seja a última vez que diremos isso um pro outro.



Frank tinha de concordar, querendo ou não. Cada jogador deveria prezar por sua individualidade na tomada de decisões, independente das circunstâncias. O detetive foi seguindo tentando digerir a obrigatoriedade de agir sem misericórdia naquele campeonato sangrento. Chegou a uma delegacia da capital de Oklahoma, apresentando a permissão ao superintendente. Logo, tratou com um policial sobre as mortes na reserva florestal numa sala.



— Não acham que uma coruja ou outra ave de caça fez todos esses estragos, né? — perguntou Frank de pé próximo a janela com o policial Grayson, um jovem caucasiano recém-transferido que esbanjava uma face simpática de sorriso cheio realçada por olhos verdes.



— Tá brincando? Uma coruja não estaria tão faminta pra dissecar uma presa assim. Nem uma águia. Não vai dizer que foi um bando de corujas, né?



— Tô com a impressão de que os papéis se inverteram aqui. Geralmente sou eu que defendo as teorias mais absurdas enquanto os outros ficam céticos. — disse Frank sorrindo de canto com um olhar curioso a Grayson.



— É que existe uma lenda... — disse o policial falando baixo e se inclinando — ... de um monstro metade homem e metade coruja que aterrorizou a cidade nos anos 40 e 70. Todos o chamavam de Stikini. Agora que tudo relacionado a monstros em geral veio à tona depois do Big One, ninguém mais duvida.



— Eu sempre fui crédulo nessas coisas, era chamado de maluco as vezes. Um lado positivo nessa grandíssima merda que tá rolando mundo afora, pelo menos. Posso ficar a vontade pra compartilhar minhas suspeitas quando investigar casos desse tipo. 



— Aqui, esse é o celular da última vítima encontrada, um professor universitário chamado Luke Robbins, ele trazia uma meta misteriosa. Gravou até um vídeo se despedindo antes de ser retalhado pelo Stikini. Quer dar uma olhada?



— Me mostra aí. — aceitou Frank. Grayson deu o celular de Robbins ao detetive e fechou as persianas brancas para ficarem mais reservados. 



— Mais álcool em gel? 



— Não, obrigado. — disse Frank esperando o vídeo carregar e reproduzir a fatídica gravação. As imagens foram executadas na tela, cada palavra de Robbins sendo absorvida por Frank. Pausou o vídeo na parte em que o professor focaliza a criatura raptora saindo da escuridão com suas garras de coruja afiadas nos pés — É bem de acordo com as descrições. Já tinha lido relatos de aparições faz tempo. O trauma voltou pra assombrar a cidade na pior hora.



— Acha que é o mesmo do passado? Será que é um filhote? Eles procriam?



— Não geram ninhadas, até onde se sabe. Considerando que é uma criatura amaldiçoada por suposta magia negra, não tem porque negar a hipótese de ser o mesmo bicho. Esses monstros transmorfos normalmente vivem ciclos de atividade de tempos em tempos, talvez até hibernam que nem os ursos.



— Você fala como se fosse um caça-fantasmas legítimo. Tem formação acadêmica pra isso? Tava pensando em recalcular a rota.



— Continua só policial, muito melhor. Valeu, Grayson. — disse Frank o tocando no ombro.



Em seguida, após sair do décimo-quarto distrito policial de Oklahoma City, Frank partiu para um hotel três estrelas com uma reserva lhe cabia no bolso. Recebeu as chaves da concierge que usava máscara hospitalar.



— Obrigado. — disse ele com o recibo. Se direcionou ao seu quarto olhando o número talhado na chave — 78. Deve ser por aqui. — seguiu pela numeração em ordem crescente nos corredores. Porém, ao dobrar ao corredor da esquerda, tivera uma tremenda surpresa desagradável — Putz... — disse baixinho ao ver Omar saindo do seu quarto numerado com 77. Frank deu dois passos em recuo depressa e deu uma espiada escondido. O caçador usava uma camisa de mangas amarelo creme, calças jeans e botas marrons, indo na direção oposta.



Frank expirou o ar pela boca em alívio, logo se encaminhando ao seu quarto após o rival sair de vista. Mas ao invés de entrar no quarto, decidiu bisbilhotar o vizinho, justo o de Omar. A porta foi deixada aberta e o detetive a abriu adentrando no recinto. Mirou numa mochila preta sobre a cama de lençóis brancos e limpos. Não perdeu tempo em remexer nas coisas pessoais de Omar, pegando um fichário contendo anotações.



— Vamos ver o que temos aqui... — disse ele, folheando e correndo os olhos depressa pelos escritos. Contudo, o vibrar do celular quebrou seu foco, atendendo a contragosto — Oi, Carrie. Agora não é tempo bom pra ligar. Mas se quer saber, já tô em Oklahoma.



— Ah, tudo bem, mais tarde tento de novo.



— Não, peraí, deixa eu te contar: fiz reserva num hotel e descobri agora há pouco que... — fechou os olhos por uns segundos — O Omar também tá por aqui, ainda por cima ficando com um quarto bem de ladinho do meu.



— Ah não, encrenca em dobro. E se ele estiver...



— Ele tá. Acabei de saber pelas anotações que ele fez, tem um desenho da criatura responsável pelas mortes na reserva florestal. Um homem-coruja, o Stikini. Depois dá uma pesquisada. É uma lenda popular em todo o estado.



— Sabia dessa tal lenda de homem-coruja, só não que tinha nome. Mas peraí... Frank, vo-você tá no quarto dele a revelia? 



— E tinha que ser de outro jeito? Esse cara vai ser uma pedra no meu sapato...



— Pode apostar que sim. — disse Omar atrás de Frank pressionando uma arma na cabeça do detetive que congelou de tensão — Vamos, dê tchauzinho pra seja lá quem tenha ligado.



— Carrie... Eu vou ter que desligar agorinha mesmo, se é que me entende. 



— Frank... Ah meu Deus, vê se toma cui---



Encerrou a ligação antes da assistente finalizar seu pedido desesperado. Frank guardou o celular e ergueu as mãos, se levantando.



— Por que está aqui? — questionou Omar, baixando a arma.



— Te faço a mesma pergunta. 



— Acho que já sabe a resposta. Mais uma feliz coincidência, tô começando a gostar disso.



— Sinto te informar, mas esse caso do Stikini já tem dono. — disparou Frank sem medo.



— Há quanto tempo chegou?



— Uma hora e meia, mais ou menos. — respondeu Frank movendo a mão esquerda em sinal de mais um menos.



— Peguei a estrada desde a madrugada. Ganhei. — disse Omar indo até a mochila e dando um leve empurrão em Frank — Você tem que aprender que nesse jogo o caso pertence a quem chega primeiro. Nova regra, sabia?



— O quê? Tá dizendo que o Chernobog estabeleceu outra regra? Quando? 



— Ele veio pessoalmente até mim. — informou Omar fechando a mochila — A licença pra matar finalmente foi liberada entre os caçadores. Qualquer um que intefira no desempenho do adversário visando sabota-lo... deve morrer. E adivinha só o que você tá fazendo.



— Agora essa... Eu não vou engolir, mas não vou mesmo. Tá achando que sou otário, né?



— Não acredita? 



— Claro que não, muito menos vindo de você! 



— Então permita-me que você saiba através da fonte original. — disse uma menina pálida de cabelos desgrenhados e vestido pijama rosa que saia do banheiro. Na veste dela havia o sangue negro manchando até a barriga. 



Frank a encarou, atônito. 



— Chernobog?



A entidade apenas sorriu com a boca de sua hospedeira, os branco dos dentes sujo de preto.



— Foi assim que ele surgiu. — disse Omar — Mas estava no corpo de uma velha reumática.



— E então, o que estão esperando? Quem dará o primeiro golpe? Quem cairá afundando no próprio sangue?



— Eu não tô nem aí pra suas regrinhas! Não tá em posição de fazer perguntas. — disse Frank avançando impetuoso. Mas a entidade entortou a cabeça e o fez cair vomitando sangue e sentindo um peso extremo no corpo. Mas logo cessou a tortura. 



— Apenas para que lembre de não me subestimar. — disse Chernobog, os olhos negros da hospedeira como dias órbitas vazias — Não desperdice sua única vida. Eu me apequenei, mas meu poder não. — olhou para Omar — A regra é cumprida sob critério de quem pode aplicar, portanto... aja com seu livre arbítrio.



Frank tossia vendo a menina se afastar de volta ao banheiro escuro sorrindo maleficamente. Se levantou com esforço, estendendo o braço direito.



— Espera... Eu tenho uma dúvida... — disse ele que foi verificar o banheiro, acendendo a luz, mas a entidade havia sumido. Omar dava uma risadinha maldosa — Tá rindo do quê? Se tivesse sentido o que eu senti, teria mijado nas calças.



— Foi tão intenso assim? Mas você mereceu, não pediu com educação. Ele me deu opções... — disse Omar que logo volto a apontar sua arma — Quanta generosidade.



— OK, você venceu. Acaba logo com isso. — disse Frank de braços abertos entregue a morte.



Entretanto, o caçador com ficha corrida resolveu voltar atrás baixando a arma.



— Segunda chance?



— Tá sugerindo... sermos parceiros dessa vez?



— Não conseguiria pegar esse homem-coruja se abastecendo de informações sozinho. Me diz o que sabe que eu te digo o que sei.



— O professor morto... trazia uma maleta que ele deixou bem claro ficar ao acesso de alguma autoridade do governo.



— Acho que sei com quem deve estar. — disse Omar pegando seu celular — Allan Morrison, subsecretário do governo, chefia uma campanha de doação de órgãos. Ele também é vinculado ao laboratório de pesquisa daqui que ajuda na produção da vacina. — mostrou uma foto de Allan — Onde acha que foram parar os órgãos de todas as vítimas na floresta?



— Tinha alguns espalhados nas árvores....



— Não pareciam humanos. Ninguém recolheu temendo que fosse alimento da criatura. A polícia daqui faz um péssimo trabalho.



— É, não conseguiram te pegar. — rebateu Frank referindo-se a ficha criminal do caçador — Beleza, eu vou atrás dele agora. Mas nada de me passar rasteira, ouviu bem?



— Como quiser, parceiro. — disse Omar com um sorriso duvidoso que Frank retribuiu com uma cara fechada de desconfiança.



***



No prédio da secretaria do governo municipal, Frank procurava o escritório de Allan Morrison, passando por um corredor e fixando os olhos no nome do funcionário na porta. Bateu educadamente, sendo indagado de quem era.



— Polícia de Los Angeles. Eu não vim prende-lo pela acusação que vem recebendo... 



A porta se abriu rapidamente por um nervoso homem calvo e meio gordo de óculos de grau usando camisa branca e gravata vermelha. Deixara Frank entrar para uma conversa detalhada sobre os mistérios rondando sua vida.



— A iniciativa da campanha de doação partiu diretamente de você mesmo? — perguntou Frank sentado frente a ela que estava à mesa de trabalho.



— Sim, mas veja bem... Está tudo sob controle, eu posso lhe assegurar a credibilidade do meu projeto. — disse Allan não disfarçando seu nervosismo ao tomar uma pílula e um copo d'água tremendo.



— Tá bem, eu quero debater o assunto com as cartas na mesa. Você desviou os órgãos destinados a campanha para seu próprio benefício, um objetivo bem escuso. Afinal, onde os consegue?



— Não é o que está pensando... Estou a beira de uma crise nervosa, me desculpe. O remdio demora pra fazer efeito. — disse Allan sentindo uma súbita ânsia de vômito. Regurgitou sobre a mesa dois globos oculares quase inteiros. Frank levantou depressa e o encarou severo.



— Eu sabia, você é a coisa que mata e leva a refeição pra floresta. O homem-coruja, também conhecido como Stikini! Fica tranquilo, seu segredo tá seguro comigo, embora os monstros como você estejam expostos pra todo mundo.



— Por favor, não me mate! Eu imploro, me deixe viver, sou um homem inocente vítima de uma trama diabólica! — disse Allan ajoelhando-se.



— Allan, levanta. Shh, vão ouvir você. Se controla, eu não vou te matar... embora eu devesse. Mas não vou, então se acalma. Me diz o que tinha na maleta do professor Robbins. Você e ele tinham uma conexão?



— Robbins foi meu colega na faculdade, fiquei tão atolado de trabalho que nem pude ir ao funeral dele. — disse Allan limpando suor da testa ao levantar — Aquela pesquisa significava tudo pra ele, devotou sua vida a ela. 



— O que é exatamente?



— Ele usou o sangue de Elton Hartley para produzir a cura do vírus! Luke tinha proximidade íntima com a família dele... pois foi professor de Hartley no ensino médio, admirava a aptidão dele pra resolver os maiores dilemas da ciência.



— Só que esse vírus não tem nada a ver com ciência. É uma vacina que tinha lá?



— Provalvemente a mais eficaz de todas. Hartley aposta todas as fichas nela. Eu já a encaminhei para baterias de testes.



Frank ligava todos os pontos possíveis de entremear para tirar alguma conclusão.



— Ótimo, agora me fala o que aconteceu com você pra virar esse monstro. Uma maldição?



— Todas as noites ela me vira do avesso. Minha família nunca saiu de Oklahoma, não posso fugir do meu lar. Talvez por isso a cidade viva assombrada pelo passado que se repete. 



— Maldição de família. Algum ascendente seu foi vítima de um ritual de ocultismo a base de sacrifício animal, no caso uma coruja ou várias.



— O que eu faço? Não quero morrer... — disse Allan afogando-se num choro.



— Se houver... uma mínima chance de reverter esse sofrimento...  tem minha palavra de que vou encontrar uma salvação. — determinou Frank, compadecido do drama vivido por Allan.



***



De volta ao quarto de hotel, o detetive se debruçava compenetrado em uma pesquisa mais aprofundada sobre os mitos envolvendo o Stikini nos mais diversos sites de arquivamentos relacionados a casos de caráter paranormal. Encontrou algo acerca do ritual ocultista que requeria uso de animais em sacrifícios. O detetive leu parágrafo por parágrafo, achando o tópico da reversão de magia negra usada no ritual. Era como um antídoto para um veneno. Frank pensou na única pessoa ao seu alcance para prover tal solução.



Deixou o computador de lado na cama, juntou as mãos e fechou os olhos. 



— Adrael, eu sei que pode me ouvir de onde quer que esteja e ahn... Só vem logo até aqui, preciso de um favor, é urgente.



O anjo surgiu prontamente ali diante do detetive. Mas o detalhe que chamou atenção de Frank era o avental que o anjo usava com letras bordadas em rosa que diziam "cozinha com mãos de fada" dentro de uma flor bordada em vermelho.



— Essa foi a prece mais informal que eu já ouvi em toda a minha existência. — disse Adrael.



— O que é isso aí? Virou chef de cozinha agora? — indagou Frank com um sorriso brincalhão — "Cozinha com mãos de fada"?! — não resistiu ao riso — Por favor, me diz que você não comprou isso aí na internet.



— Não, foi a senhora do apartamento vizinho que me presenteou depois que fiz um bolo de cenoura com cauda de chocolate pra ela. Eu venho encontrando uma atividade saudável na culinária, me ajuda a desopilar.



— Só cuidado pra não errar a mão e nem pensar de inventar receita, porque aí será tudo menos saudável. — alertou Frank levantando.



— Não precisa se preocupar, eu ainda não causei nenhum incêndio. Pra qual causa você me chamou? É tão urgente assim? Melhor ser breve, o suflê ficará pronto em dois minutos. — falou o anjo, olhando no relógio de pulso.



— Preciso curar uma vítima de ritual ocultista, é um homem que foi usado como cobaia por um bando de satanistas de merda pra ser zoomorfizado numa coruja bestial que arranca órgãos de suas presas. Tudo que preciso pra cura-lo é de sangue sagrado. Não pensei noutra coisa senão você.



— Eu já volto. — disse Adrael que sumira em nanosegundos. 



— Ah não, ele foi ver o bendito suflê... Espero que não tenha virado carvão.



O anjo retornou naquele instante trazendo um pote de vidro e uma faca de cozinha.



— Nossa, que susto. Pensei que tivesse ido ver se o bagulho que você deixou no forno não deu ruim. Legal, me dá o pote.



O sangue angelical de Adrael era derramado dentro do recipiente até ser enchido quase a borda.



— É o bastante, já chega. — disse Frank que tampou o pote. O corte o antebraço esquerdo do anjo se regenerava espontaneamente — Valeu, Adrael. Depois me manda uma das suas gororobas pra eu provar.



— Pode deixar. Tem certeza de que está agindo corretamente? 



— Tô apostando alto que vai funcionar. Se cuida.



Adrael dera um tímido sorriso amigável e teleportou-se de volta ao seu apartamento. Frank não demorou em ligar para Allan e avisa-lo da boa notícia da potencial cura a sua maldição.



— Exato, a gente se encontra no centro de pesquisa as nove em ponto. Até mais, vê se não surta pra não botar mais bofes pra fora.



Omar entrava na quarto de modo invasivo, fechando a porta com peso. Frank encerrou a ligação na hora.



— Não te ensinaram a bater antes de entrar?



— Você invadiu meu quarto quando eu saí. Estamos quites. Com quem estava falando?



— Você tinha razão, o Allan é de fato o cara por trás do Stikini. A parte ruim vem agora: a maldição de que ele sofre pode ser quebrada. Adivinha o que eu escolhi.



Um semblante de ira se desenhava na face austera do caçador afro-americano.



— Você não se atreveria... 



— Não só me atrevo como eu já fiz meio caminho andado pra curar o Allan e nem você nem ninguém vai me impedir. Vaza dessa cidade, Omar. Não tem nada pra você aqui.



— Que merda, você não aprende... — disse Omar pondo as mãos na cabeça e andando pelo quarto — Não aprende! — desferiu um soco no espelho que o rachou todo.



— Qual é? Vai dar piti agora? Eu não tô nem aí pra esse jogo se eu tiver que desperdiçar a minha vida pra salvar a de um inocente!



— Inocente?! Do que você tá falando? A maldição o transformou num monstro assassino. Lobisomens são inocentes quando se transformam sob a lua cheia pra fazerem suas chacinas? Vampiros são inocentes quando mostram suas presas ao verem sangue? 



— Que comparação mais idiota, o caso do Allan é bem diferente! Ele não tem controle sobre o monstro que a maldição o torna. Tanto é que vomita os próprios órgãos durante a transformação e os deixa num lugar seguro. Eram esses órgãos que a polícia não pegou.



— Porque foram frouxos, uns maricas! Se soubessem que queimando os órgãos desse bicho ele vira pó não teriam dado pra trás. Você sabia, né? Não faria isso, Frank? Porque eu sim! 



— Não vou deixar você chegar nem 10 metros perto do Allan e fim de papo. — disse Frank, categoricamente.



— Eu cometi um erro achando que podíamos formar uma dupla, uma parceria frutífera. Tentei ser legal com você, Frank. Mas dessa vez você mostrou quem é por trás desse casca dura.



— Ah é, e o que eu sou? Já que você me conhece tão bem. — disse Frank cruzando os braços.



— Um covarde que gosta de bancar o herói com medo do que é capaz de fazer. O seu limite torna você fraco e uma vergonha para a classe. — disse Omar chegando bem próximo dele.



Cansado das ofensas, Frank o socou num cruzado de direita fortíssimo, mas logo Omar rebateu com um gancho de esquerda. Frank caiu sobre a cama e chutou o rival com os dois pés, fazendo-o bater as costas na porta. Omar pegara um caco grande do vidro do espelho e avançou contra Frank que segurou fortemente os braços do caçador sendo empurrado contra a parede ameaçado de ter um dos olhos perfurado pela ponta do caco. Antes que a ponta penetrasse na sua córnea, Frank chutou a canela esquerda de Omar, o desestabilizando, podendo assim tomar de assalto o pedaço pontudo do espelho e finca-lo no ombro direito do caçador que gritou em dor.



— Mais um ombro pra suturar! — disse Frank que desferiu vários socos pesados, de direita, esquerda ou com as duas mãos juntas. O último que dera nocalteou Omar num tombo rápido. Para criar um cenário, Frank sacou uma arma e atirou na coxa direita de Omar, em seguida limpando a arma com um pano e a pondo na mão direira do caçador. Foi surpreendido pela chegada repentina do camareiro aterrorizado.



— O que foi isso? Pareceu um tiro! O-ouvi barulhos... O que houve aqui? 



— Me ajuda aqui, ele tentou se matar! Sorte que eu tava aqui pra conter ele!



— Vou chamar a ambulância! 



— Não, deixa que eu levo ele pro hospital! Só me ajuda a levar ele pro meu carro.



— Tudo bem. — concordou o camareiro, levantando o corpo de Omar de um lado e Frank do outro — Que pesado, ele é um armário. Você não fica muito atrás, mas amassou a cara dele legal.



— É, eu sei. Vambora. — disse Frank se movendo à frente.



***



Uma imprevista chuva torrencial castigava Oklahoma City naquela noite. O clima tempestuoso evocou as lembranças torturantes de Allan enquanto ele aguardava a chegada de Frank no laboratório de pesquisa numa sala onde profissionais microbiologistas normalmente realizavam seus trabalhos. 



Os relâmpagos piscavam no seu rosto tenso e taciturno durante a viagem ao passado tenebroso. A cada relampejar, um flashe do dia mais terrível que passou. Dentre as memórias, um ambiente a luz de velas onde se via deitado nu em meio a risadas maldosas, depois uma carcaça de coruja tendo a face pintada de sangue por uma mão, passando para a coruja revivida que foi espremida sobre ele e derramando seu próprio sangue pela boca. 



Allan balançou a cabeça depressa e pusera as mãos na cabeça, gritando atormentado com as trovoadas. Enquanto isso, num cemitério uma cova feita às pressas tornou-se lamacenta, uma poça funda de terra e água. Emergindo dela com esforço, Omar se arrastou e olhou para frente com apenas um único objetivo em mente que fervia seu sangue. O rosto enfurecido do caçador foi iluminado por um relâmpago.



Frank havia chegado com certa antecedência ao laboratório. Encontrou Allan encolhido perto de uma mesa. 



— Já tô na área. Allan? Pode sair, não tenha medo. — disse o detetive que trazia uma faixa com algumas seringas contendo o sangue angelical. O secretário veio até ele, os óculos tortos — A que horas você se transforma?



— Por volta das nove. Mesmo horário em que fui submetido àquela experiência. Não devia estar aqui, eu posso ataca-lo...



— Quer que eu vá pra outra sala preparar a munição enquanto você vira homem-coruja?



— É mais seguro. — respondeu Allan. Subitamente, ele começara a sofrer dos efeitos primários da metamorfose como entortamento dos ossos que o fazia gritar e cair — Depressa!



— Já vou! — disse Frank que correu para fora da sala, mas deu uma obsrvada pela janelinha da porta — Cruzes... — falou ao ver Allan vomitando os próprios órgãos quando as características de coruja já estavam assumindo sua fisionomia. O Stikini piou estridente, seu bico formando-se.



Frank adentrou noutra sala envolvendo a faixa com as seringas no corpo. Como a chuva havia parado, o barulho de um carro em alta velocidade foi audível, o atraindo até a janela. Uma camionete cinza que reconheceu.



— Só pode ser sacanagem... 



O carro veio diretamente ao centro de pesquisa, logo invadindo agressivamente o local ao arrebentar a entrada. O vidro da porta estilhaçou com o impacto intenso. Saindo do veículo com um rifle, Omar seguiu adiante chamando por Frank em voz alta e destravando a arma. Eis que Frank surgia no corredor.



— Seu desgraçado miserável! Vou cavar uma cova especialmente pra você também, só que não vai pra lá respirando! 



Frank correu em recuo, o que levou Omar a atirar e persegui-lo. O caçador alcançou o detetive, pulando sobre ele ao agarra-lo na cintura. Três seringas se soltaram da alça e deslizaram no piso de granito. Frank reagiu dando uma cotovelada no rosto de Omar que revidou com a coronha do rifle. Frank contra-atacou o empurrando e depois recolhendo as seringas. Mas Omar o golpeou na cabeça com a arma. 



— Me enterrar vivo?! Foi esperto da sua parte. Você avançou no caso, então pode-se dizer que a licença pra matar foi transferida. Só que agora nós dois estamos nivelados! E é minha vez de ultrapassar! Cadê os órgãos da criatura?



— Vai pro inferno...



— É pra lá que eu te mandar se não disser! Cadê? — disse Omar, explosivo.



O Stikini aparecia no corredor após destruir a porta da sala. A criatura soltou seu piado medonho avançando contra eles. Frank correu batendo no ombro de Omar e o derrubando. O caçador viu que era o alvo e entrou numa sala próxima, forçando ao máximo para barrar a invasão do Stikini. A criatura meteu suas garras na porta, arranhando o braço esquerdo de Omar num corte sangrento.



— Merda! — disse ele, suportando a dor enquanto tentava impedir o monstro de entrar.



Frank acionou o alarme de incêndio que soou um barulho a ser ouvido numa distância suficiente para a polícia vir. O Stikini voltou sua mira contra o detetive e piou alto, voando em ataque com seus olhos negros de coruja. 



— Frank, seu... A polícia tá patrulhando, eles devem ter ouvido... Mas pelo menos minha vida foi salva. Ah, que merda! Não vou ser grato àquele filho da mãe! 



Omar fugiu pela janela da sala e correu pelo gramado molhado. No corredor do laboratório, Frank dera um pulo que parecia bem calculado e ficou sobre a criatura como se fosse sua montaria. O Stikini se debatia loucamente para tira-lo de cima. Frank pegou uma única seringa e enfiou fundo na cabeça do transmorfo. Ao contrário do que imaginou, uma dose foi o bastante para a transformação se desfazer.



Allan voltava a ser ele mesmo lentamente. Porém, Omar fora parado por dois policiais que o renderam e o algemaram de joelhos.



— Espera, você não me é estranho. — disse um deles olhando o rosto de Omar — Acho que essa chuva nos trouxe sorte. — sorriu confiante.



— Me larguem! O verdadeiro criminoso tá lá dentro! Ele me enterrou vivo! 



— Para de balela, seu vagabundo. — disse o mesmo policial — Você é Omar O'Donnel, um dos mais procurados do estado de Oklahoma. Escolheu um péssimo dia pra voltar aqui.



O centro de pesquisa logo mais foi cercado de viaturas com suas sirenes bicolores. Frank estava ao lado de Allan que foi coberto por um lençol.



— Detetive Montgrow, eu não tenho palavras... 



— Olha, se poupa. Mas não pensa que foi fácil. Te dominar daquele jeito pra injetar a cura foi o tudo ou nada mais arriscado da minha carreira. Nunca mais quero fazer isso de novo.



Omar era conduzido a viatura e cravou os olhos coléricos em Frank. 



— Feliz agora, Frank? Estou fora da jogada! Mas fica esperto: eu vou contar os dias pra gente se rever! E é melhor você vencer esse jogo e sobreviver pra que esse dia chegue! Vou te caçar até o inferno! Ouviu bem? Até o inferno! 



— Foi bom te conhecer, Omar. — disse Frank o encarando com olhos estreitados, nem um pouco intimidado com a ameaça ardorosa, lhe restando um inevitável sentimento de repulsa.



***



Voltando ao bunker, Frank sentiu o cansaço aumentar devido a Hoeckler vir até ele com clara expressão de que queria lhe contar algo.



— Olha, não vem que não tem. Se é pra ter outro papo reto com o Zaratro, melhor adiar. Tô só o bagaço, vou cair na minha cama.



— Espere, Frank. Não é sobre o Zaratro. — disse Hoeckler o parando — É a Agnes. Ela... apareceu pra mim numa projeção astral.



— Dizendo o quê?



— Que está de malas prontas para voltar. 



A informação pegara Frank de surpresa o fazendo arquear as sobrancelhas.



— Amanhã mesmo. — complementou Hoeckler que possuía uma expectativa nervosa quanto ao retorno inesperado da bruxa.



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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

*Imagem retirada de: https://clubebrasileirodetrensfantasmas.blogspot.com/2015/04/a-lenda-do-homem-coruja.html?m=1

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