Harrisburg - Pensilvânia
Um especialista da caça animal e taxidermista, Hank Grimes, havia tirado uma noite para se embrenhar numa mata com uma vastidão de árvores de troncos tortos e meio estreitos. Mas não se tratava de uma caçada comum de sua área na qual comumente preferia realizar de forma grupal. Um objetivo pessoal de vingança era a bússola que dava o norte para dar cabo de uma criatura que lhe subtraiu um companheiro de trabalho recentemente.
Hank andava cautelosamente armado de sua espingarda bem carregada pronto para apertar o gatilho a qualquer movimento brusco que lhe viesse diretamente. Com o ritmo, uma força movida pela retaliação ao assassinato de seu colega o impulsionou a soltar provocações ao ser que ali residia e certamente o observava.
— Vamos, apareça desgraçado! Ou quer que eu atire primeiro? Aposto que não tem uma dessas! Hoje você presta as contas pelo que fez ao Marshal! Claro, você não sabe o nome dele, mas não me importo! Aparece pra eu ver a tua cara e poder atirar bem de pertinho!
Uma presença espectral foi vista escondendo-se entre as árvores, um sombria viva de olhos verdes brilhantes como os de cachorro no escuro, senão mais brilhantes. Movia-se em velocidade sobre-humana pelas árvores e arbustos, desafiando a percepção de Hank afetada pelo conhaque que tomava de uma garrafinha fina. O caçador jogou o frasco da bebida no chão em fúria.
— Onde você tá, filho da mãe? Pensa que não te vejo correndo feito um covarde? Para de jogar comigo e vem me enfrentar de cara limpa!
O taxidermista gaguejou balbuciando palavras ao sentir algo o atingindo certeiro pelas costas. Mesmo embriagado, não teve dúvidas que o tiro viera de cima de uma árvore. Caiu sentindo o corpo endurecer como se estivesse petrificando gradualmente. Conforme a paralisia avançava, sua visão enturvava com a toxina da flecha nas costas se espalhando no organismo e ao mesmo tempo visualizava um borrão negro se aproximando dele, mas distinto pelos olhos verdes luminosos lhe encarando fixamente e em gradativa proximidade armado com arco.
A vista de Hank escurecia enquanto os sentidos apagavam aos poucos, não chegando a estar plenamente consciente para ver o rosto embaçado de seu capturador.
***
O salão central do bunker de alta segurança da ESP se enchia de agentes agrupados em aguardo ao retorno de Agnes previsto para aquela manhã. Em meio aos homens fardados de preto com seus coletes parrudos não poderiam faltar Frank juntamente a Carrie e Giuseppe para presenciar a chegada da bruxa que foi buscada no aeroporto por dois filiados a fundação e pagos por Hoeckler para a tarefa.
— Por que cargas d'água o Hoeckler precisa transformar isso num evento ou comitê de boas-vindas? — questionou Carrie em voz baixa à direita de Frank — Até parece que pensa em reatar com ela. Será?
— O que ele pensa em fazer dessa relação não é da nossa conta. Você sabe, em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. — respondeu o detetive com franqueza — Mas eu contei pra ele do depoimento do Zaratro sobre... a doença que um bruxo sofre quando se rouba magia alheia. Ele ficou em choque. Ter se desiludido com a Agnes pelo que ela me fez não quer dizer que lá no fundo ele guarde tanto rancor assim. Se ela decidiu voltar e ele aceitou, significa que houve arrependimento e perdão, é o que eu acho.
O portão de ferro abria-se no alto da escada metálica em espiral. Os dois homens que foram incumbidos de traze-la vinham na frente de ternos pretos e óculos escuros carregando as bagagens. Porém, ao contrário do que se esperava, Agnes veio acompanhada de duas aliadas bruxas, estas cobertas por capuzes cinzentos semelhante a túnicas. As presenças adicionais foram notadas com curiosidade e espanto de todos ali, inclusive para Hoeckler que veio a frente.
— Então ela trouxe companheiras de quarto...
— Não está feliz, senhor? — indagou um dos homens de terno.
— Eu nunca estou feliz, Foster. — retrucou o presidente da fundação — Ninguém no meu lugar estaria.
As três bruxas vieram juntas com Agnes no meio das encapuzadas. A bruxa irlandesa veio portando uma bolsinha de couro com alça no antebraço esquerdo e trajada num longo vestido carmesim escuro com camadas de babados, seu rosto branco e de maçãs salientes emoldurado pelos cabelos pretos ondulados que caíam além dos ombros. Os olhos castanhos dela colidiram-se com os verdes melancólicos de seu ex-amado num contraste emocional gritante. Hoeckler aproximou-se.
— Sejam... todas bem-vindas a nossa base alternativa. Agnes, eu... fico agradecido que tenha reconsiderado. Finalmente tomou consciência do papel vital que você tem nessa guerra que estamos travando incansavelmente desde que Danverous City se foi.
— Fique despreocupado, Theodor. Comigo vocês tem uma arma de destruição que pode intimidar o inimigo e não estou falando apenas do Necronomicon, apesar de ter aprendido com ele em dias mais do que com Zaratro em anos. Mas eu continuo a mesma, acredite. A sensação soberba de poder que me deslumbrou naquele dia desapareceu. Voltei a ser eu mesma graças ao apoio das minhas irmãs de convenção.
Carrie cochichou para Frank:
— Viu só? Ela não chamou ele de Theozinho. Parece que será só aliança estratégica daqui pra frente.
Frank acabou dando um bocejo prolongado que chamou a atenção da assistente.
— Tá tudo bem? Já deve ser a quinta vez que você boceja assim em curtos intervalos.
— Eu tô ótimo, só... exaurido das últimas caçadas. — justificou Frank, fungando o nariz e piscando os olhos rápido.
— Qual a última vez que dormiu por pelo menos duas horas e meia?
— Quando eu ainda tinha minha casa própria. — disse Frank passando a mão no rosto em cansaço — Acho que sei o que tá pegando: a marca. Chernobog falou que tô em quarto lugar na competição depois da morte do Dylan. Talvez esse esgotamento seja um efeito colateral combinado a exaustão. Se eu não avançar mais, a preguiça vai assumir meu corpo e já era.
— O que vocês dois tanto confabulam aí? — indagou Giuseppe à esquerda de Frank.
— Nada demais, bobagem. — disse Frank, indisposto a detalhar.
Hoeckler e Agnes prosseguiam interagindo.
— Fiz um agente ceder um quarto pra compartilhar com outro. Poderia ter avisado que viria acompanhada.
— Decisão de última hora, me desculpe. Eu posso dividir com elas?
— Sem problema. Mas antes acho que seria de bom grado que elas se identificassem. Você planejou isso?
— Uma surpresa já que você me adiantou sobre essa recepção tão calorosa. — disse Agnes olhando de relance para os agentes — Cheguei a pensar por um segundo que me trancaria numa cela ao lado de Zaratro. A propósito, como ele tem passado?
— Se está tão curiosa, pergunte a ele pessoalmente, terá o dia inteiro pra isso.
— Não comece com mais uma das suas crises de ciúmes, Theo...
— Ciúmes? Você me virou as costas jogando fora tudo o que tínhamos construído! Não voltou na esperança cega e ingênua de que fosse readmitida a minha vida como éramos antes, voltou?
— Ih, me enganei, ele não superou. — disse Carrie meio constrangida.
Frank soltou um pigarro forte que interrompeu a discussão.
— Ahn, Hoeckler, dá pra agilizar isso aí? Porque todos nós temos mais o que fazer das nossas vidas e você certamente não nos trouxe até aqui pra assistir a uma DR que pode ser resolvida entre quatro paredes, né?
Hoeckler olhou rápido para trás e se recompôs.
— Certo. — disse ele, ajeitando o costumeiro terno azul indigo — Faça as duas das pessoas mais importantes de sua vida se revelarem.
— Meninas, agora, juntas. — disse Agnes sorrindo com expectativa. As duas bruxas removeram os capuzes, expondo suas faces. Frank ficou embasbacado com uma delas.
— Lisbell?! Mas... Eu pensei que.. Agnes, me explica isso aí, tô sentindo que dormi tempo demais e acordei noutro universo.
— Ouça dos próprios lábios dela. — disse Agnes permitindo a bruxa ruiva a dar uma justificativa.
— Olá, Frank. — disse Lisbell passando uma simpatia cordial ao detetive — Eu decidi colocar um ponto final nas desavenças entre mim e a Agnes diante de tudo que vem ocorrendo, ela... — olhou para a bruxa — ... me encorajou a seguir em frente carregando o luto pelo Darius, me engajou a se unir na luta contra esse mal sem precedentes. Eu não esperava que tudo chegasse a esse ponto, tive fé que você conseguiria evitar isso a todo custo. Eu sinto muito por Danverous City. Deve ter sido um inferno pra você, mas que bom que sobreviveu. — olhou para Carrie — Feliz em te ver também, Carrie.
A assistente sorriu fechado com uma piscadela e um aceno educado movendo os dedos.
— Mas como isso aconteceu? Quem procurou quem? — indagou Frank.
— Após reviver boa parte da convenção, fui atrás daquelas que escolheram não se fecharem numa tumba com medo de Zaratro. — disse Agnes — Nesse passeio de recrutamento, aproveitei pra dar uma passada em Londres e a encontrei tomando um capuccino discretamente. Ela resistiu de início, mas nosso diálogo fluiu de modo que pudéssemos reestruturar parte do que perdemos uma com a outra. A convenci de que o coração dela pertencia ao princípio da convenção.
— Me dei conta da magnitude do perigo que Chernobog representa depois da queda de Danverous City, então não me restou escolha, não iria ficar parada e isolada sofrendo em silêncio por uma perda com o mundo se despedaçando ao meu redor. — declarou Lisbell.
— E ela... — disse Frank voltando a atenção para a bruxa de pele morena e parda com feição elegante e cabelos pretos bem lisos.
— Sou a Tanya, prazer. — disse a bruxa fitando o detetive com seu olhar intenso e penetrante — Fui uma das que preferiu se recolher a própria insignificância, mas são águas passadas. Por um lado, fico mais tranquila sabendo que existe alguém que coloque Zaratro no seu devido lugar e ainda inspire um medo desesperador nele.
— Olha, desse medo todos nós aqui partilhamos. — disse Frank — Mas óbvio que não é por isso que vamos arregar pro miserável. — voltou-se para Agnes — Podemos mesmo contar com você? Não tem nada errado?
— Estou à disposição pro que precisarem. — disse Agnes tentando transmitir confiança — De qualquer forma, fui eu quem saí com o maior prejuízo nessa situação toda. Vejo isso como uma chance de me redimir da culpa. Eu agradeço que todos tenham concordado.
— Se essa vaca nos passar a perna, juro que vou ser o primeiro a meter uma bala anti-bruxa. — disse um agente para o outro ao seu lado.
Frank e Carrie se entreolharam sérios após sentirem ênfase na fala de Agnes sobre o prejuízo sofrido. Estava nítido que a bruxa se negaria a deixar explícito qualquer sinal de vulnerabilidade suscitado pela agravante rejeição da magia necronomiana que a consumiria como um câncer pernicioso.
— Me acompanhem, vou mostra-las o quarto. — disse Hoeckler, conduzindo as bruxas — Vocês todos voltem para seus aposentos. — ordenou ele aos agentes que se retiravam prontamente. Frank, Carrie e Giuseppe acompanharam Hoeckler juntos às novas hóspedes.
Lisbell dava olhadelas de soslaios constantes para Frank com um sorrisinho. Ao perceber, o detetive não deixou de indagar a atitude.
— O que foi?
— Você ficou mais durão com esse sobretudo novo. Caras do seu porte ficam ótimos no pretinho básico. Ficam mais imponentes... mais charmosos... — jogou um olhar sedutor.
Tanya a vislumbrou com uma expressão fechada, o que Carrie notara instantaneamente. Frank fingiu uma tosse para disfarçar sua timidez ante ao flerte da bruxa, mas logo Carrie se interpôs entre eles.
— E aí, Lisbell? Como tem passado?
— Isso por acaso foi uma tentativa sua de interceptar minha paquera com seu amigo? Relaxa, eu só faço isso pra me divertir com ele, não com segundas intenções.
— Até porque ela já está muito bem acompanhada. — disse Tanya dando sua mão esquerda a de Lisbell entrelaçando os dedos.
— Oh, vocês duas... Enfim, eu não vou julgar, sejam felizes. — disse Carrie. Frank também havia reparado.
— Você joga no outro time agora, é? E o Darius? — perguntou Frank, curioso.
— Na verdade, nos dois. Meu passado com Darius está enterrado junto com ele. Vocês dois foram os únicos homens por quem me interessei de verdade. Mas agora a Tanya me oferece o recomeço que eu precisava, criamos uma sintonia pura desde o tempo de aprendizes e agora despertamos o que realmente nos une. — olhou para Tanya — O amor mais forte que a nossa irmandade.
— Isso foi... lindo de se ouvir. — disse Carrie expressando contentamento.
— Então seu lance com os caras era mais carnal? — indagou Frank — Eu não passaria de um acessório pra você usar, abusar e descartar?
— Eu nem preciso responder, já resumiu perfeitamente. — disse ela com uma expressão sacana. Frank franziu a testa, se desagradando com a resposta.
Minutos depois, o detetive entrou na sala de pesquisa após tomar um banho.
— Frank, corre aqui, o DPLA enviou nova investigação certinha pra você. — dizendo a assistente defronte ao seu laptop à mesa — Tomou banho, foi? Espero que a bruxinha cara e coroa não tenha visto você de toalha.
— Não, aqui todo mundo foi instruído a respeitar a privacidade. E por que te incomoda a Lisbell flertar comigo? — questionou Frank com um sorrisinho.
— Namoraria uma bruxa que só queria devorar cada pedaço seu e depois partir pro próximo?
— Eu não namoraria mais ninguém que aparecesse. — disse Frank pegando um copo d'água — Não depois da Lucy.
Carrie comprimiu os lábios ao se compadecer do quanto o detetive ainda sentia pesar com a morte inaceitável da górgona.
— Ela foi a única mulher que você amou de verdade, não é? Claro, depois da sua mãe.
— Sabe, podíamos jogar conversa fora sobre assuntos mais leves em vez de a todo instante falar de vírus sobrenatural, cura duvidosa, jogo de caçar monstros, anticristo, Chernobog, etc.
— Concordo, mas vai acabar de ficar pesado de novo porque temos o caso na Pensilvânia de um homem que foi resgatado de uma floresta muito popular com relatos de desaparecimentos misteriosos na calada da noite. — disse Carrie lendo uma notícia publicada há poucos minutos. Frank se aproximou dela para ver melhor, tomando goles da sua água — Diz aqui que ele parecia estar imerso num transe, repetindo uma palavra sem parar, mas sem pronuncia-la claramente. Ele se chama Hank Grimmes, encabeça um grupo de caça esportiva.
— Aconteceu na capital?
— Sim, a floresta fica em Harrisburg. Quando ele foi hospitalizado em estado grave, identificaram na barriga dele uma incisão cirúrgica. No meio da bateria de exames, constataram que... o fígado dele foi removido.
— Nosso monstrengo tem um gosto carnívoro bem restrito, ao que parece. — disse Frank dando um gole na água em seguida — Peraí, isso me lembra uma lenda, cem por cento americana, sobre um tipo de caçador espiritual, basicamente um fantasma, mas não como os fantasmas comuns movidos por vingança. O nome me escapuliu da memória...
— Talvez esse vídeo divulgado nas redes sociais te ajude a lembrar. Tá viralizando mais que o vírus miasma. — disse Carrie dando o play na gravação feita por repórteres locais. Hank estava sentado na cama rodeado de médicos prestes a examina-lo, balbuciando uma palavra cuja inicial era "b", mas o resto se ouvia entrecortado — Não dá pra ouvir direito, o áudio tá abafado, muito falatório em volta.
— O que tá fazendo? — indagou Frank ao ver Carrie executando um processo em particular.
— Copiando o link desse vídeo direto pro software de aprimoramento de áudio que instalei ontem. E sim, pedi ao Hoeckler.
Convertendo o vídeo para o programa de melhoria do áudio, Carrie reproduziu novamente.
— Não tem como isolar só a voz do Hank? — perguntou Frank, atento a tela.
— Perguntar isso chegaria a ser uma ofensa aos desenvolvedores. — disse Carrie, realizando o procedimento — Tive um cursinho básico. Depois vou pro intensivo, mas eles cobram horrores por isso.
O áudio das conversas paralelas foi silenciado graças ao isolamento do áudio de Hank, pondo em volume máximo. A palavra proferida pelo caçador esportivo se ouviu mais inteligível.
— Bangkok... Bai... Baykok. — disse Frank, captando o nome — Assim que ele se chama, me lembrei. Meu pai tinha catalogado ele no arquivo. Queria ter essa sua memória de elefante. Esse maldito extrai o fígado das vítimas pra substituir por pedras. Preciso interrogar o Hank, se ele ainda estiver vivo.
— Ou com a cabeça no lugar. Esse transe parece instável, não sabemos como ele pode reagir a diferentes estímulos. Diz na notícia que ele foi agressivo quando tentavam aplicar injeções.
— Vou me certificar de que ele tá bem e em plenas condições de depor. — disse Frank, pronto para passar o resto do dia com o pé na estrada rumo a Harrisburg — Putz... Provavelmente ele se deu mal porque tava sozinho.
— E o que isso implica dizer?
— O Baykok não tem só uma dieta exclusiva, ele tem um modus operandi exclusivo. Caça quem fizer a idiotice de perambular sozinho pela floresta na qual a tribo indígena de onde ele veio realizava rituais de sacrifício de sangue aos deuses pagãos. Talvez esse Baykok seja o espírito de um membro da tribo morto por caçadores e se ligou a alguma entidade pagã cultuada pelos Anishinaabe.
— Essa é uma tribo bem famosa, eles foram extintos por colonizadores ingleses. — disse Carrie conferindo a lenda na pesquisa — Como espera lidar sozinho com um índio caçador fantasma que surrupia fígados das vítimas? Dá conta de avançar com a marca do jogo?
Frank se mergulhou em pensamentos por um instante, deixando um sorriso confiante se formar no rosto. Olhou para Carrie, decidido.
— Acabei de ter uma ideia fantástica.
***
Caindo na estrada rumo a capital da Pensilvânia na tarde do dia seguinte, Frank fizera uma nova chamada de vídeo pelo celular para Miyako a fim de repassar seu plano de caçada para aquela noite contando com o sucesso de um árduo objetivo que valeria qualquer risco.
— Foi isso mesmo que eu acabei de ouvir? Não, Sr. Montgrow... Isso soa precipitado demais. — disse Miyako reagindo avessa a sugestão.
— Espera, eu ainda nem contei direito minha intenção por trás de organizar essa caçada grupal. — disse Frank sorrindo de leve.
— Mas o que me deixa nervosa é que parece estar muito confiante. Me fala porque todos nessa altura do campeonato aceitariam dar as mãos amigavelmente e dividir a conquista por um único monstro? Não faz sentido, é... impraticável. — argumentou a caçadora.
— Não se essa movimentação atrair a atenção do Chernobog. Ele tem que aparecer pra todos nós e esclarecer qual é o real prêmio dessa bagaceira que eu já tô cansado de participar.
— Então é isso? Deseja colocar ele contra a parede? Eu não sei... É um inimigo tão poderoso quanto imprevisível. O que sabemos dele não chega nem a ser metade do que ele sabe sobre nós ou de todo o mundo, afinal ele é um deus e pode ter um certo nível de onisciência, talvez ler nossas mentes ou dominar as probabilidades. Não quero ser parte disso...
— Miyako, é a nossa única e melhor chance de agrupar todo mundo pra exigirmos respostas concretas... Digo, quase todo mundo. — disse Frank ao lembrar de Omar.
— Ué, quem seria excluído dessa missão suicida? Diz que sou eu, por favor.
— Não é você, na verdade... Lembra do cara que abordou você e a Natasha na lanchonete no dia que enfrentamos os Arachnes? Um cara negro, careca, mal-encarado...
— Ah sim, eu lembro... Ele quis uma parceria, mas a Natasha avisou que já tinham três jogadores cuidando do caso, ele se zangou e saiu pagando a nossa conta dizendo que costuma retribuir com gentileza quando mulheres o rejeitam. Achei ele um escroto.
— Se você julgou ele assim, imagina se tivesse feito parceria de verdade. Não durou nem um dia comigo. Acabou enjaulado, pego no pulo. Ele é um psicopata homicida, se estivesse conosco nessa iria sabotar o plano, ainda mais porque eu elaborei e ele tá pianinho comigo querendo minha cabeça na parede dele.
— Nesse caso, ele está bem melhor lá na prisão mesmo. Então somos eu, o senhor, a Natasha, o Dylan e a Sarah.
— É com essa Sarah que eu tô mais cabreiro. Ela me inspirou ser alguém difícil de lidar na noite em que fomos tirados das nossas casas pra cair no jogo. Alguém tem o número dela?
— Dylan pode ter contato com ela. O senhor repassou pra mim, depois repasso pra Natasha, daí ela avisa ao Dylan que avisa a Sarah. — disse Miyako sentindo-se mais aberta a ideia — Perfeito. Já que o senhor falou que esse caçador espiritual prefere solitários, então se faz necessário que haja um grupo pra encurrala-lo.
— Opa, peraí aí, lembrei de mais alguém... Somos seis, não cinco. No início eram oito jogadores ao todo. O russo morreu e o Omar tá fora da disputa... Lembra daquele esquisitão que apareceu do nada no covil dos Arachnes?
— Aquele cara misterioso da máscara de ferro? Ah não, ele é o mais difícil, ele é tão... estranho. Não é nem por aparentemente ser mudo, mas senti uma aura pesada e intimidadora vinda dele. Será que ele é humano? Do jeito que rasgou os filhotes aranhas em pedaços...
— Não faço ideia do que aquele maluco seja. Quando eu me despedi de você naquele dia depois que terminamos o serviço, eu fui até ele e... o miserável me mostrou o braço com a marca pela metade. O cara tá virado no hack, Chernobog escalou um jogador bem apelão pra nos fazer sentir limitados e ultrapassados.
— Não brinca! Ele já tem metade da marca!? Mas como assim? A gente não pode deixar alguém não-identificado ganhar esse prêmio, seja lá que for, cura ou poder sobrenatural, não importa. Ele é o menos confiável, sem dúvidas. Se fosse pra excluir alguém, seria ele.
— Mas é por causa dele que vamos levar o Chernobog a nos encontrar por lá, além de arrancarmos da boca dele sobre o prêmio. Ou ele desembucha ou nos declaramos fora.
— E se ele quiser matar todos nós se desistirmos? Não sei se vale tanto risco. — especulou Miyako aflita com as eventualidades adversas que essa noite poderia entregar.
— Não tem outro modo da gente fazer isso. É matar ou ser morto, né? É o lema desse jogo. — disse Frank com plena convicção — Fala com a Natasha, faz um esforço, diz que eu tô propondo. Na certa ela vai ceder se explicar tudo direitinho como te falei.
— Tudo bem, eu... vou tentar, mas não se surpreenda se aparecer só eu, o senhor e o mascarado. Sem a Natasha, não temos Dylan nem Sarah. Só temos que contar com a sorte. Até mais, Sr. Mongrow. Conversar com o senhor é um acalento pro desespero que sinto.
— Nosso papo torna toda essa treta mais leve. A gente se vê mais tarde. Sabe onde fica, né? Falou.
A chamada foi encerrada, mas logo veio uma ligação de Carrie que o detetive não recusou.
— Diz aí, cavoucou o passado do Hartley?
— Se você esperava um volume robusto de informações privilegiadas, já pode ir se decepcionando. — declarou a assistente dando um balde de água fria na expectativa de Frank — Tudo o que achei de dados biográficos diz respeito à vida acadêmica dele em boa parte, além de uma breve introdução sobre a infância que ele passou num orfanato até ser adotado por um casal abastado aos seis anos. Nada mais.
— Então o mauricinho é órfão, é? Sem nomes de pais biológicos?
— Frank, você quer que eu cometa uma forma alternativa de violação federal? O banco de dados do registro civil tem milhares de certidões de nascimento...
— Disso eu sei, mas você tem o dia todo pra garimpar a do Hartley. Não tem barra de pesquisa pra facilitar?
— Lógico que sim, mas ele obviamente não é o único cara chamado Elton Hartley na face da Terra. E nem é garantido se a certidão dele foi emitida de fato. Uma agulha num imenso palheiro. Mas de concreto ao menos é sabido que ele é natural de Kansas City, Missouri, o orfanato é localizado lá, inclusive.
— Se eu sair inteiro dessa caçada de hoje à noite, parto amanhã bem cedo pra lá, daqui de Harrisburg mesmo. Ah não, tem que verificar se tá em atividade ainda. Merda...
— Foca nessa missão, por ora. Te ligo depois avisando se o orfanato está fechado ou não. E sobre o Baykok: ele é indestrutível.
— Como é? Não me sacaneia, Carrie, todo fantasma que se preze tem uma fraqueza. Pra espíritos vingativos que nem esse daí são as mesmas, embora ele seja um tipo especial. Tô levando quase todo o estoque de sal grosso que encontrei na despensa.
— A lenda informa que não há métodos conhecidos de mata-lo. Mas sobra uma remota possibilidade: queimar os ossos.
— Acabou de ficar melhor: transformar o rolê numa caça ao tesouro. Tô indo agora pro hospital onde o Hank tá internado. Me liga.
— Tá certo, vê se toma cuidado caso a testemunha tenha um surto psicótico, saiba usar as palavras.
— Até mais, Carrie. — disse Frank, desligando. O BMW chegava aos entornos da área metropolitana da capital. Em pouco mais de meia hora, Frank chegou ao hospital no qual Hank estava em observação clínica. O detetive recebeu autorização do médico responsável por dar falta do fígado do paciente, comentando sobre seu assombro com a descoberta.
— Constatar aquilo gelou a minha espinha. — disse o doutor, um homem caucasiano meio careca, de rosto magro e usando óculos de armação preta — De tempos em tempos, lidávamos com casos onde a vítima não era recolhida viva. As análises forenses se repetiam em todos os corpos achados naquela selva.
— Esse é realmente o único caso de sobrevivente na condição de órgão removido?
— Sim, mas provavelmente não se difira em mais nada aos episódios anteriores. — disse o médico chegando ao quarto de Hank — Sendo assim, seja lá quem ou o quê o atacou, extraiu o fígado dele com uma precisão cirúrgica invejável e o substituiu por uma pedra. O que o mantém vivo ainda?
— Me deixa ter uma palavrinha rápida com ele agora que recuperou o juízo, segundo me disseram.
— Eu confirmo, ele está são e fisicamente estável. Qualquer coisa, não hesite em chamar. — disse o médico, deixando Frank livre para conduzir um breve interrogatório.
— Eu agradeço. — disse Frank fechando a porta, logo voltando-se para o caçador esportivo e se aproximando dele — Hank? Tá acordado? Ah bom, pensei que estivesse dopado de morfina. Eu sou Frank Montgrow, vim de Los Angeles só pra termos uma conversa esclarecedora sobre o que testemunhou na noite de ontem.
— O que um policial de Los Angeles faz aqui na Pensilvânia?
— Sou agente prioritário, me concederam legitimidade interestadual e você teve sorte que seu caso tem a mim como solucionador. Sei que caça animais por esporte e lidera um clube relacionado a prática. Pode me dizer o que pretendia fazer na floresta dos Grandes Lagos já que não há animais silvestres por lá?
— Eu meti meus amigos em uma tremenda furada no dia em que fomos caçar, mas não exatamente para abater animais. — disse Hank, a fala cansada e vagarosa — Rezava a lenda que um tesouro dos índios Anishinaabe era protegido por um espírito guardião, um feiticeiro da tribo que morreu em confronto com os ingleses. Ouro puro do mais alto quilate. Fechei meus olhos pro bom senso quando a ganância se tornou minha guia e induzi meus companheiros ao vale da sombra da morte. Fui o único a escapar... saindo de mãos vazias e o coração repleto de dor, vingança e ódio.
— O que havia exatamente não era tesouro nenhum, certo? — questionou Frank, estreitando os olhos.
— Escavamos ossos antigos. E foi aí que ele saiu de sua tocaia. Era como uma sombra viva se movendo mais rápido que qualquer animal predador. Ele destroçou meus amigos com um porrete cheio de pregos. Fez o mesmo comigo, mas me deixou viver com uma pedra no lugar do estômago.
— Na verdade, foi seu fígado. É disso que esse caçador das sombras se alimenta. E não é uma ameaça física, do tipo que você pode encarar num mano a mano facilmente. No que tava pensando quando voltou pra se vingar?
— Não dá pra pensar direito quando se está bêbado. Eu acreditava nas lendas do Baykok, mas feri o protocolo. Tudo que eu tinha era apenas uma arma, um frasco de conhaque e um desejo sanguinário de vingança. — desabafou Hank olhando o detetive com certa apreensão — Você não pretende ir lá, né?
— É algo em particular, mas não vou sozinho.
— Mesmo eu tendo acabado de dizer que meus amigos foram mortos apesar de estarmos todos juntos?
— Suponho que desde que não encontremos os ossos do Baykok, estamos seguros em grupo. Hank, você e seus parceiros não estavam prontos pro que iriam enfrentar. Acredite, eu tô e os meus também. Já ouviu falar nos caçadores de assombrações? Eu sou um deles.
— É claro que conheço. Tive amigos dessa classe hoje praticamente extinta. Você é uma raridade, Frank. Não desperdice sua vida com um ser que é uma força onipresente.
Subitamente, Hank tivera uma reação adversa na forma de uma dor abdominal fortíssima como inúmeras agulhadas esperando profundamente que o fizeram gritar alto e vomitar sangue em alta quantidade. Frank apertou desesperado o botão vermelho de emergência para chamar os médicos. A equipe chegou as pressas no quarto.
— Preciso do kit de incisão agora! — disse o médico que falara com Frank anteriormente.
— O que tá havendo com ele? — indagou Frank.
— Temos que remover o corpo estranho! Está provocando um colapso geral!
— E por que não fizeram isso antes?
— As salas de cirurgia estão quase todas ocupadas pra dar espaço aos infectados do vírus miasma!
Hank se debatia com a dor, mas logo sofreu uma parada abrupta. O monitor cardíaco sinalizava a perda vital com sua linha verde reta. Após tentativas mal-sucedidas de ressuscitação, o médico jogou o estetoscópio no chão.
— Mas que inferno! — disse ele, logo pondo as mãos na cabeça enquanto o resto da equipe lamentava a morte do paciente. Frank encarou tristemente a partida de Hank, prometendo a si mesmo fazer justiça pelas vidas desgraçadas com a ação do Baykok.
***
O prédio da corporação Globemax era um dos mais vistosos dentre todos concernentes as áreas de aplicação que a empresa se propunha. Elton Hartley se olhava com um espelhinho de mão sentado de costas a mesa, aparando suas sobrancelhas. A chegada de sua secretária, Evelyn, quase o fez arrancar um pedaço de pele.
— Au! — disse ele, cometendo o deslize ao se assustar com a vinda da secretária — Evelyn, quando vai aprender a bater antes de entrar?
— Desculpe, senhor, eu vim depressa para que analisasse essas propostas dos colaboradores financeiros. — disse Evelyn, uma mulher de pele bronzeada com um cabelo preto amarrado num coque com fios caindo aos ombros. Usava uma blusa branca e saia marrom, além de um lenço azul claro em volta do pescoço — Tenho alguém na linha esperando, é o seu agente de viagens, quer agendar uma visita pra hoje a tarde.
— Não, espera, eu... — disse Hartley levantando — Está desculpada, mas trate de se policiar. Eu quase fiz uma atrocidade com meu rosto. Acha que preciso de mais um procedimento?
— Se minha opinião importa, diria que a harmonização aprimorou o suficiente. — disse Evelyn que evitou trocar olhares mais íntimos com o chefe. Mas ele se aproximara e a tocou fazendo-a virar o rosto para ele — Olha, eu não tô disposta agora, tô com uma pilha de coisas...
— Relaxe do trabalho. Talvez precise de férias remuneradas. — disse Hartley de modo sedutor — O que acha de passa-las na minha casa?
— Eu adoraria, quer dizer... Pra uma visita casual.
— Negativo, uma hospedagem completa. — disse ele que se colocou atrás dela e a empurrou de leve para a mesa deixando-a inclinada — Assim teremos mais tempo pra isso.
— Não, senhor Hartley, aqui não! Não agora! Seria... precipitado. — disse Evelyn, voltando-se a ele — Comprometida. — disse ela mostrando uma aliança de noivado na mão direita.
— E eu que sonhava nós dois num iate alimentando golfinhos com nossos filhos. — disse Hartley, desinteressado na secretária — O que ainda faz aqui? Volte ao trabalho!
— S-sim, senhor. — disse Evelyn, sentindo-se mal pelo tratamento ao sair do enfeitado gabinete do bilionário. Hartley sentiu um cansaço fatigante lhe acometer, o levando a retirar a gravata vermelha e afrouxa a gola da camada branca. Foi ao banheiro lavar o rosto na pia — Calma, Elton, calma... É estresse, só estresse. Você é o gênio do século. O destino do mundo tá nas suas mãos, não se dê ao luxo de desapontar 7 bilhões de pessoas.
De repente, a mente do empresário foi bombardeada por imagens horríveis que se seguiam em velocidade árdua de acompanhar.
— Minha cabeça! — disse Hartley com as mãos nas laterais da cabeça, atormentado pelas visões hediondas — Meu Deus, o que é isso?
Olhou para o espelho, mas viu o próprio reflexo extremamente pálido lhe sorrir com olhos negros parecendo órbitas vazias.
— Me chamou, Elton? — disse o gêmeo maligno com uma voz distorcida, embora similar ao original.
— Não... Você não é... É uma alucinação. Ando tão obcecado em erradicar esse vírus maldito que... cheguei ao ponto de ver a mim mesmo infectado.
— Sua mente está saudável. Mas o corpo não está formado em sua totalidade.
— Como assim? — indagou Hartley, estreitando os olhos e franzindo a testa — Quem é você? O que quer de mim? Como entrou na minha mente? É você o responsável por todo esse caos, né?
— Estou fisicamente em cada polegada onde a pestilência alcança. Mas a você estou como uma projeção ligada ao seu inconsciente. Elton, não sabe o dom extraordinário que possui.
O bilionário derramava uma lágrima.
— O que eu devo fazer? Tenho medo... de tudo fugir ao meu controle.
— Não acontecerá... a menos que me aceite como seu mestre... para fazê-lo nascer de verdade. — disse Chernobog com um sorriso arrogante e atroz — Basta você abrir a porta... e eu entro para colocar tudo em perfeita ordem.
Filetes grossos de sangue escorriam das paredes de azulejos cinzas e brancos, bem como do espelho. Hartley olhou em volta, atemorizado com o fenômeno. A luz apagou subitamente, depois reacendendo. O sangue sumiu das paredes, assim como o reflexo malévolo no espelho. Hartley se colocou a pensar naquilo, boquiaberto e assombrado.
***
Na floresta dos Grandes Lagos, a luz lunar praticamente não se distribuía bem território devido às árvores altas de copas cheias em meio às mortas de troncos finos e tortos.
Frank se encontrava com Miyako que já se via junto de Dylan e Sarah.
— Boa noite a todos. — disse o detetive que recebeu um olhar atravessado de Sarah.
— Boa noite o escambau. Olha o fim de mundo pra onde você nos atraiu. É bom que não seja um joguinho sujo seu pra nos passar pra trás. — declarou a caçadora afro-americana com seus dreadlocks chamativos. Usava uma jaqueta jeans por cima de uma blusa branca — Ou eu juro que faço picadinho de você.
— Com essa peixeira que você tem aí eu não duvidaria. — retrucou Frank — Mas fiquem despreocupados, não tem armadilha nem golpe baixo. Tudo que precisamos fazer é tentar achar os ossos do Baykok e queima-los — disse olhando também para Dylan.
— E como faremos isso no meio desse breu? Ele marcou um X onde enterrou o tesouro? — perguntou o jovem caçador de cabelos castanhos.
— Usamos os medidores EMF. Trouxeram os seus?
Dylan e Sarah mostraram os aparelhos. Miyako também o fizera.
— Cadê a Natasha? Não teve sorte com ela? — perguntou Frank.
— Consegui me comunicar com ela, mas não prometeu que viria.
— É porque sou péssima em fazer promessas. — disse Natasha, surgindo entre as árvores e vindo até eles. Miyako se alegrou ao vê-la — Me desculpa pelos últimos dias.
— Não, tudo bem, eu entendo. Precisava de um tempo pra agir sozinha, respeito isso. — disse a caçadora de yokais.
A presença sombria do caçador mascarado foi notada ao pé de uma árvore grande.
— Esse cara tá começando a me assustar. — disse Natasha o encarando com suspeita.
— Frank e eu achamos que ele não seja humano. — cochichou Miyako.
— Peraí, estamos competindo com um monstro? — especulou Dylan — Por que o Frank não dá uma prensa nele? Quem sabe ele abre o bico.
— Se ele não tomar iniciativa, eu vou. — disse Sarah, corajosa — Arranco essa máscara e faço ele sentir minha lâmina apertando o pescoço.
— Calma aí, você tá muito impetuosa. — disse Miyako.
— É meu estado natural. — justificou Sarah friamente — O que ele tá fazendo?
— Bem, galera, é o seguinte: trouxe essas pulseiras eletrônicas que estão conectadas a esse rastreador. Já pus uma no Mister M aqui. O lance será confundir os instintos do Baykok, iremos formar três duplas pra procurar possíveis sobreviventes. Se não encontrarem, vocês se separam pra deixa-lo ainda mais perdido. Eu ficarei mais distante pra procurar os ossos, o rastreador vai apitar se eu tiver me distanciado das pulseiras. Quando eu estiver lá, o Baykok vai me atacar por ameaçar os ossos, mas antes mando um sinalizador pra saberem minha posição. Cada um tem seu EMF e lança-chamas, certo? Ótimo, vamos formar as duplas.
— Espera, chegamos pra dar cobertura a você contra o Baykok no local dos ossos. Mas Como vamos desenterra-los e lutar contra ele ao mesmo tempo? — questionou Dylan.
Sarah se obrigou a concordar.
— Ele tem razão. Seu plano tem uma falha gritante, coisa de amador. — insultou ela.
— Há duas hipóteses: ou se mata o Baykok queimando os ossos desenterrados ou queimamos o espírito dele diretamente. Nenhuma vítima teve como atear fogo nele, temos que apostar.
— Eu realmente espero que ele não morra tão facilmente num confronto direto. — disse Sarah, sacando sua espada — Se eu tiver que ir pra cima de todos vocês por esses ossos, eu irei.
— Em qual você aposta mais? — indagou Dylan a Frank.
— Acho que os ossos enterrados é só um chamariz pra pegar vítimas que pensam haver ouro ali. Na certa, ele deixou uma indicação de onde estão. Então creio que é mandando fogo nele que os ossos queimam junto e ele morre.
— Faz sentido. Seria burrice ele deixar alguém vivo pra desenterrar os ossos e queimar sabendo que essa ação o mataria. — aferiu Natasha — Vou com a Miyako.
— E eu com o garotão. — disse Sarah olhando para Dylan. Frank virou-se para o mascarado.
— Somos eu e você, parceiro. — disse o detetive, preparado, mas com segundas intenções em mente ao fazer dupla com o misterioso homem.
Cada dupla seguiu por direções distintas. Ao longo do caminho, eventualmente a perseguição do Baykok começaria à medida que avançassem floresta adentro. O mascarado ia na frente de Frank que o olhava desconfiado.
— Ei, espera por mim. Eu que tô no comando. — disse Frank, andando rápido para alcança-lo — Ninguém entrou em contato contigo, então porque você veio? É um tipo de dom sensitivo?
O caçador permaneceu silencioso, ignorando seu parceiro. Frank se sentiu um idiota por tentar fazê-lo dizer nem que fosse um "a".
— Legal, vamos só andar atrás de gente sequestrada pelo Baykok. Só que eu coloquei o pessoal em risco dizendo pra se separarem caso não encontrassem ninguém, nisso ele vai escolher alguém pra atacar...
O mascarado fizeram um gesto com a mão esquerda pedindo que ele parasse de falar. Apontou com a direita onde detectou algo e se dirigiu até lá. Era uma área mais fechada entre árvores, tornando difícil a visibilidade pelo escuro. Frank não o seguiu e ficou a observa-lo em alguns metros. A deixa foi ideal para uma prece à Adrael. O anjo surgiu ali usando roupas humanas como um casaco azul, camisa preta e calcas jeans.
— Frank, o que faz aqui? Parece um lugar tão... inóspito.
— Chega aqui, senão ele vai te ver. — disse Frank pedindo para conversarem num ponto onde não fossem vistos ou ouvidos.
— De quem fala? Pra quê me chamou?
— Tá vendo aquele cara ali? — indagou Frank apontando entre galhos para o mascarado que fazia sua varredura — Preciso que faça uma leitura de alma. Como fez com o Boginki no dia que você foi enganado com a prece falsa.
— Fique aqui, não demoro. — disse Adrael andando passos adiante sem tirar os olhos do caçador. Se escondeu atrás de uma árvore seca e ergueu a mão direita, a movendo para o lado. O anjo voltou depressa, fazendo um ruído que fizera o caçador olhar para trás, mas não o flagrando — Impossível.
— O quê que é impossível? Viu alguma coisa?
— A leitura foi nula. Como se algo externo bloquasse, talvez seja aquela máscara. Mas não foi isso que me surpreendeu mais. — disse Adrael com uma seriedade alarmante — As vestes dele. São as vestes de um querubim.
— O quê? Ele usa o traje dos querubins, mas... não foram todos extintos?
— E foram, não houve remanescentes.
— Mas anjos podem rastrear energias sobrenaturais, o que explicaria esse infeliz estar sempre na hora certa e no lugar certo, por isso ele tá em primeiro lugar no jogo. Uma vez vi fogo azul num covil de monstros onde eu caçava. Só querubins caídos lançam fogo assim, certo? Mas foram todos dizimados...
— Não é um querubim. — cravou Adrael — Mas pra esclarecimento absoluto vou consultar Raziel ou Raguel sobre a época da caça aos caídos. Frank, seja quem ou o que for, não confie nele.
— Ou pode ser o próprio Chernobog pra fazer a gente de otário.
— O Grande Mal é imensamente astuto. Eu esperaria isso dele. Tenho que ir.
O anjo desapareceu em nanosegundos. Frank se encaminhou até onde estava o mascarado com uma lanterna.
— Achou alguma coisa?
O caçador apenas fez que não com a cabeça.
— OK, vamos andando. — disse Frank prosseguindo a caminhada. Mas ambos escutaram passos vindos da escuridão. Frank verificou entre duas árvores. Foi bem devagar conferir e apontou a lanterna. De repente, uma vítima irrompeu do escuro, um homem que tivera os olhos arrancados e as orelhas cortadas. Pulou sobre Frank, gritando choroso.
— Me mate! Eu imploro, por favor, me mata! Não aguento mais, me mata, me mata, me mata!
— Peraí, sai de cima de mim!
O homem sem olhos tirou uma arma do sobretudo de Frank e disparou contra o queixo, a bala atravessando o topo do crânio. O detetive se levantou, recompondo o fôlego, vendo inúmeras marcas de cortes profundos e hematomas graves pelo corpo do homem. O mascarado havia desaparecido.
— Ai, meu Deus... E agora, onde foi que aquele estrupício se meteu?
Frank se lançou numa corrida desenfreada para se distanciar até a área onde se acreditava estarem enterrados os ossos do Baykok, obrigando-se a antecipar o clímax do plano antes das outras duplas terem chance de encontrar sobreviventes. Retirou do sobretudo o sinalizador que acendeu rapidamente ao alcançar a zona de perigo com o bipe do rastreador. Todos avistaram a luz vermelha do sinalizador subir e dispararam até a área.
Contudo, o momento de atrair os demais se provou uma brecha de guarda baixa para o Baykok atacar o detetive num golpe violento de seu porrete com vários pregos e pontas de ferro. Frank caiu de quatro, largando o aparelho. O detetive se reergueu, se defendendo do próximo golpe ao segurar o porrete e encarando os olhos verdes brilhantes do espírito indigena que soltou um grunhido animal abrindo sua boca pútrida.
Frank dera um soco no caçador espiritual, seguido de um chute no abdômen. Mas o Baykok se mantinha imbatível, tentando novos golpes com o porrete dos quais Frank se esquivava abaixando ou recuando depressa. O detetive sacou seu lança-chamas compacto e disparou fogo no caçador que gritou estridente, o brilho sobrenatural dos olhos intensificando entre as chamas. Natasha, Miyako, Dylan e Sarah se aproximavam dali praticamente em simultâneo e usaram seus lança-chamas para auxiliar Frank. Mas as cinco rajadas de fogo em conjunto em nada pareciam provocar danos.
— Não tá adiantando! — disse Sarah que aumentou a potência do lança-chamas até que esgotou — Merda!
O caçador mascarado aparecia ali trazendo um saco cheio, atraindo os olhares de todos. Frank e os outros cessaram o fogo enquanto o Baykok estava cambaleante coberto de labaredas.
— O que você tem aí? É o que eu tô pensando que é? — indagou Frank.
O mascarado apenas virou o saco de ponta a cabeça, deixando cair os ossos desenterrados do Baykok.
— Desgraçado, você nos manipulou! — acusou Sarah, sacando sua espada contra Frank — Nos fez acreditar que incendiar esse maldito seria uma opção!
— Eu disse que era uma possibilidade! — retrucou Frank.
— Mas escolheu acreditar nela e nos inspirou a seguir seu raciocínio! — disse Dylan, exigindo uma corrente com um gancho afiado que girou ameaçadoramente — Você tá ferrado, coroa!
Num impulso, Natasha largou o lança-chamas e agarrou o Baykok numa chave de braço antes que ele restituísse sua força e fugisse. Miyako o pegou pelo braço esquerdo, segurando forte.
— Frank, depressa! Ele tá te dando a chance de bandeja! Vai!
— Um passo e a gente cai matando. — disse Sarah apontando sua espada ao detetive. Frank olhou — E se as duas donzelas intervirem, morrem também. Dane-se as regras, não saio daqui sem um pedaço dessa marca parasita.
— Nem eu. Vamos queimar os ossos juntos. — reforçou Dylan girando sua corrente.
Frank acabou escolhendo confronta-los ao mesmo tempo, desferindo agilmente um soco em Dylan e uma rasteira em Sarah. Mas Dylan enrolou o braço direito do detetive com a corrente e aplicou uma joelhada na barriga, fazendo-o cair. Aquilo facilitou a Dylan enrolar a corrente no pescoço de Frank a fim de estrangula-lo. Distraida com o embate de dois contra um, Miyako levará uma cotovelada do Baykok que se desvencilhou de Natasha e aproveitou para golpear as costas da caçadora de yokais que vacilou ao chão.
Natasha agarrou as mãos do Baykok por trás antes que ele executasse outro golpe brutal em Miyako e usava de sua força para impedi-lo. Mas o caçador espiritual desaparecer e reapareceu diante dela, batendo com a ponta robusta do porrete no tórax da caça-vampiros e depois no rosto a derrubando para o lado.
Sarah preparou-se para dilacerar Frank com a espada graças a neutralização que a corrente de Dylan gerava ao estrangular o detetive cujo rosto se avermelhava tamanha a pressão.
O mascarado assistia a tudo pleno, podendo facilmente queimar os ossos e sair vitorioso. Porém, tomou uma atitude surpreendente ao andar até Sarah e Dylan, os afastando de Frank com empurrões fortes. Frank retirou a corrente do pescoço e se levantou.
— Não sei porque tá entregando o ouro pra mim, mas... fico te devendo por essa.
O detetive foi até os ossos sacando um isqueiro. Acendeu-o e jogou sobre a ossada que foi envolvida pelas chamas. O Baykok logo sofreu com o efeito que interrompeu sua agressão a Natasha, sendo incendiado dos pés a cabeça numa combustão espontânea a reduzi-lo as cinzas, sobrando o rústico porrete.
Entretanto, raízes brotaram do chão com o serpentes, prendendo os caçadores nos pulsos até formarem troncos firmes, exceto o mascarado.
— Mas que merda é essa? — indagou Frank — Do nada vamos ser crucificados?!
— O que tá acontecendo? Quem tá fazendo isso? — questionou Miyako, aflita, com escoriações no rosto.
— Esse lugar foi povoado por índios que tinham ligações com o mundo espiritual! — disse Dylan — E se a entidade ligada aos Anishinaabe estiver retaliando pelo protetor da floresta ter morrido? Se for isso, já éramos!
— O Baykok se foi, mas o espírito ao qual ele se uniu continua vivo! — disse Natasha, sofrendo com a pressão intensa das raízes imobilizando.
— Não é nada disso! — contrariou Frank — Então por que o Mister M não tá preso que nem nós?
— Porque eu assim quis. — disse um homem barbudo com roupa de lenhador infectado pelo vírus miasma, saindo da escuridão — Porque valorizo as regras do meu jogo.
Frank o olhou estreitamente.
— Chernobog. Foi pra isso que nos reunimos, pra te atrair e exigir respostas.
— Sério? Achei que fosse só uma caçada em grupo pra ver quem encontraria o tesouro! — disse Sarah.
— Por que tá privilegiando ele? — perguntou Natasha, ríspida — Manipula as regras conforme os eventos! Isso é jogo limpo pra você?
— A forma como julgam minha maneira de construir o jogo é irrelevante. — disse a entidade se pondo ao lado esquerdo do mascarado — Ele ficou a par dos desaparecimentos nessa região primeiro, portanto ele terá minha concessão.
— Não é justo! O Baykok é uma lenda que atravessou gerações! — disse Dylan — Você só escolheu ele porque ele está na frente!
— Aceita que dói menos, em time que tá ganhando não se mexe. — disse Miyako.
— Interessante sua observação, meu caro Dylan. Mas não, eu me referia as ocorrências desde a minha renascença. Enfim, vamos ao ponto-chave. — disse Chernobog logo materializando com as duas mãos uma espada de miasma, a entregando para o mascarado — Tem o direito de eliminar um adversário. Escolha.
O caçador ostentou a espada negra, olhando para os rivais por trás da sua máscara de ferro intimidadora e de olhos retangulares vazios. Passou por Frank, Miyako, Natasha e Sarah, balançando a lâmina num suspense que incitava extrema agonia em todos os cinco. Miyako expirou aliviada ao ser poupada.
Dylan foi o único que recebeu um olhar mais prolongado do mascarado. O caçador de 25 anos o fitou tenso, tremendo e suando. O mascarado não fez cerimônia, baixando a lâmina sobre ele, o cortando da cabeça até a barriga num movimento brutal que fez sangue espirrar na máscara metálica. Os gritos de dor de Dylan ecoaram pela floresta, atormentando aos quatro jogadores restantes, especialmente Frank que virou o rosto sentido pela morte do jovem em contraposição a satisfação sádica de Chernobog.
***
Na delegacia onde Omar se encontrava preso, uma rebelião caótica assolava o prédio. A luz da cela do caçador tremeu, apagou e reacendeu, o surpreendendo ao revelar a presença de Chernobog mantendo-se no corpo do lenhador.
— Você de novo! O que faz aqui? Veio me punir por ter fugido do jogo, né?
— Pelo contrário. — disse a entidade, calma — Considere-se readmitido.
A fala provocou um júbilo em Omar que o fez esboçar um genuíno sorriso numa expressão maliciosa. Não ouviu mais os gritos e tiros. Tudo o que se passava na sua mente como próximo curso de ação era a figura de Frank sangrando agonizante diante dele.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://regozijodoamor.wordpress.com/floresta-sombria-jpg/

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