Frank não recordava-se de uma ocasião em que precisasse andar a passos com tao extrema cautela como naquela vez em que precisou se armar com um lança-granadas em direção à sala de reuniões dos conselheiros da ESP no bunker de segurança. A porta dupla de ferro abriu-se com rangido metálico agudo. O detetive imediatamente mirou no indivíduo que estava de pé sobre a longa mesa retangular rodeada de várias cadeiras.
Frank reagiu pasmo ao olhar um pouco mais abaixo. Duas mulheres, uma a direita e outra a esquerda do homem de olhos totalmente negros por estar possuído por um pérfido demônio.
— Aí está ele... Aqui estamos nós... No nível final da nossa brincadeira. Pronto para o seu último desafio, Frank? Uma atitude vale mais que mil palavras pra explicar. — disse o monstro submundano, levitando duas facas voltadas para baixo sobre cada uma das mulheres inertes deitadas estando reféns da telecinesia — Baixe a arma e largue-a se ainda quiser jogar.
Sem nenhuma saída visível, o detetive cerrou os dentes em raiva, jogando o lança-granadas no chão ao ceder à exigência daquele implacável jogo de gato e rato que culminou a esse destino.
— Depende apenas de você. — disse o demônio — Uma deve viver. A outra deve morrer. Qual delas, Frank? Faça sua escolha.
Frank parecia explodir com seu rosto avermelhando de comoção e os olhos marejados, pondo as mãos na cabeça e se ajoelhando numa rendição humilhante e satisfatória ao ego sujo do demônio que sorriu ao ver suas vítimas em pânico contido.
De coração estrangulado, Frank derramou uma lágrima de desespero sem a menor ideia de como tomar uma decisão tão crucial como aquela.
***
10 horas antes
No meio da manhã, uma visita em especial ocorria no bunker da ESP, o que alegraria imensamente o dia de Carrie, tanto é que Frank decidiu surpreende-la com uma venda nos olhos a conduzindo até a sala de pesquisa. Sendo acompanhado por Hoeckler e Giuseppe, o detetive a levava devagar ao recinto.
— Frank, o que quer que seja, não vai me arrancar suspiros. Eu confesso, não sou tão impressionável. — disse a assistente.
— Não é o quê, mas quem. — disse Frank — Tá esquentando, espera...
— Você disse quem?! — falou Carrie, espantada, tirando parte da venda preta — Estamos voltando pra sala de pesquisa!? Quem está lá? Não vai me dizer que... — deu um sorriso largo para Frank — Ai, meu Deus...
Carrie correu à sala removendo totalmente a venda ao não segurar a incontrolável ansiedade. Frank deixou os ombros caírem de frustração.
— Pra quê que eu fui inventar? Eu sabia que podia não funcionar com ela, mas minha teimosia falou mais alto. — disse Frank que logo ouviu o grito de felicidade da amiga e apontou com o polegar direito para trás — Olha aí.
— Acho que foi sua culpa por ter dito ser alguém. — apontou Hoeckler — Quando fez comigo não deu dicas tão óbvias.
— Mas naquela vez era alguém que se acreditava estar morto, no caso a Agnes. Você tava tentando superar, esquecer e seguir a vida.
— Rapazes, vamos ver o que a Carrie está aprontando com sua companhia especial. — disse Giuseppe indo na frente. O trio seguiu à sala de pesquisa e lá encontraram a assistente abraçada a Natasha que viera se hospedar por uns dias no bunker.
— Quis fazer disso uma surpresa, Frank? Logo pra Carrie? Não sei em quem mais ela pensaria sobre uma pessoa que ela adora visitando essa masmorra sofisticada. — disse Natasha.
— Masmorra só para as anomalias. Estamos na ala civilizada. Não é nenhum hotel cinco estrelas, mas oferecemos conforto e isso basta. — disse Hoeckler — Seja bem-vinda, eu sou Theodor Hoeckler, presidente da fundação.
— Ah, muito prazer. Frank havia me falado de você antes. — disse Natasha, simpática, apertando a mão direita de Hoeckler.
— Bem ou mal? — indagou ele dando uma olhadela de soslaio para o detetive.
— Ahn... Ele só falou. — respondeu a caça-vampiros. Hoeckler virou o rosto desconfiado para Frank que deu de ombros comprimindo os lábios e arqueando as sobrancelhas.
— Frank cometeu o deslize de me dar uma pista. — disse Carrie ao lado da sua artista favorita — De início, apostei num presente de natal antecipado. Bem, de certa forma, é um presente, um baita presente.
— Nem precisou ser algo mais específico. Ela matou a charada assim. — disse Frank estalando os dedos da mão esquerda para indicar o quão rápido a assistente presumiu com quase certeza — E aí, vamos logo conhecer seu quarto, Natasha?
— Porque primeiro não a levam pra um tour pelo bunker? — sugeriu Carrie a tocando nos ombros.
— Esse lugar é enorme e ela tá cansada, quase virou a noite com a caçada de ontem — disse Frank.
— Estiveram caçando juntos? — indagou Hoeckler com ar intrusivo de curiosidade.
— É meio complicado de explanar na circunstância atual. — respondeu Natasha meio insegura.
— Eu não entendo porque saiu de Londres pra vir justo pro marco zero da infecção do vírus. — apontou Hoeckler, intuitivo — Tem familiares aqui em Los Angeles?
— Não, eu vim a pedido do Frank pra ajuda-lo a caçar os múltiplos monstros que fugiram em massa do submundo já que ele lida com a escassez de caçadores americanos, então resolvi ser um quebra-galho. — disse a caçadora.
— Mas não é muito distante da sua alçada? — insistiu Hoeckler.
— Eu não caço exclusivamente aqueles vampiros de olhos azuis que só atacam durante a noite. Venho tentando ampliar meus conhecimentos, métodos e técnicas.
— Mas a esmagadora maioria das criaturas que fugiram do submundo com o terremoto são de espécies totalmente desconhecidas, nunca antes catalogadas pela fundação. — contrapôs Hoeckler exercendo uma certa pressão — Caçadores normalmente lidam com o que já possuem algum conhecimento prévio. Nós da fundação ESP enfrentamos o desconhecido praticamente às cegas, foi pensando nisso que tomamos a liberdade de caçar todo e qualquer monstro anônimo saído do abismo. Frank sabe disso, é de inteira responsabilidade da ESP.
Giuseppe passava a mão no rosto levantando os óculos, o que Frank viu e partilhou da preocupação. Carrie parecia tensa com o rumo da conversa.
— É, você tem razão, Hoeckler... Mas não vou deixar de ajudar uma amiga que só quer dinamizar mais a carreira. — justificou Frank.
— Não é que eu queira restringir vocês, mas soa estranho você contrariar o nosso protocolo pra fazer isso por ela, além do fato dela ter vindo pra uma área de extremo risco de contágio. — explicou Hoeckler julgando a desconexão lógica — Fora que os aeroportos britânicos fecharam com a pandemia, cancelaram todos os voos.
— Olha, que tal irmos logo mostrar o quarto pra minha musa do rock? Pode dar essa licença pra ela, Hoeckler? — perguntou Carrie interrompendo a conversa no momento certo.
— Que seja, sigam-me. Desculpe se eu fui indelicado ao questionar sua vinda pra cá, é que... alguma coisa me parece oculta, mas deve ser apenas impressão minha, esses tempos sombrios estimulam a paranoia e o medo.
— Verdade. — disse Natasha num meneio positivo de cabeça. Hoeckler saiu da sala para que o seguissem pelos corredores. A caça-vampiros aproveitou para indagar Frank enquanto saíam — Por que ele não pode saber?
— Ia dar ruim, vai por mim. — disse Frank andando ao lado dela.
Hoeckler os levou para o refeitório onde estavam Agnes, Tanya e Lisbell.
— Essas são as nossas meninas super-poderosas. — disse Frank.
— Pode vir aqui o quanto quiser, até pra assaltar a geladeira como o Frank faz todas as noites. — disse Hoeckler.
— Levo uma vida dura, tenho que me alimentar bem pra manter essa minha forma. — retrucou Frank, bem-humorado — Pra quando chegar nos sessenta não murchar tudo.
— Olá, sou a Natasha. E vocês são...
— Bruxas. — disse Agnes sorrindo levemente simpática a caçadora — É sempre bom ver um rosto novo e feminino nesse ramo perigoso. Sou a Agnes.
— Tanya. — disse a bruxa morena de cabelos pretos acenando.
— Lisbell. — apresentou-se a bruxa de cabelos ruivos escuros.
— O Frank tinha me contado que tava recebendo auxílio de bruxas pra reforçar a luta contra o Chernobog.
Agnes viu a marca de Chernobog no antebraço da caçadora, despertando dúvida nela.
— Isso por acaso é a...
Natasha logo percebera, tratando logo de baixar a manga do casaco para esconder a insígnia da entidade. Hoeckler notou o ato tal como a expressão de Agnes que lhe deixou alertado.
— É uma tatuagem.
— Mas parecia incompleta. — aferiu Agnes estreitando os olhos para a caçadora — Ela me é muito familiar. Posso vê-la se não se importar?
Frank logo interveio para impedir que uma exposição mais grave acerca do jogo ocorresse.
— A Natasha tem que ir ver o quarto, vocês terão o dia inteiro pra fazer amizade com ela.
— Não tô com pressa. Gostei delas, quero ficar mais um pouco, eu tenho o dia inteiro pra conhecer meu quarto.
— Tem certeza mesmo? — perguntou Frank que fez questão de enfatizar o tom de seriedade que Natasha captou a intenção pela linguagem da expressão.
— Absoluta. Eu vou ficar bem.
— E por que não estaria bem? Somos bruxas dominadoras de uma magia ancestral e perigosa, mas temos fichas limpas. — disse Tanya.
— Em certos pontos. — disse Lisbell a namorada — Todo mundo tem um passado.
— O meu também não é dos mais virtuosos. — disse Natasha esbanjando bom-humor — E vocês mexem com taromancia ou estão fazendo um joguinho?
— A cartomante aqui é a Agnes. — disse Tanya — Queremos aprender os dotes dela pra divinação, mas ela, chata que é, não permite.
— Um dia eu vou ensina-las, fiz essa promessa há mais de mil anos. Agora não é o momento mais apropriado, estaríamos perdendo o foco na magia necronomiana — disse Agnes que logo voltou-se para Natasha — Quer ler a sua sorte?
— Bom, eu... Acho que vou dar o braço torcer por serem bruxas, eu nunca acreditei nessa coisa de leitura de sorte ou adivinhação. — disse Natasha que ofereceu a mão direita.
— Geralmente a sorte é lida primeiramente a partir da mão esquerda. Isso se quiser ver a má sorte.
A caçadora engoliu a saliva, nervosa.
— Eu prefiro saber do que a sorte me reserva de bom.
Hoeckler puxou Frank para um canto mais discreto enquanto Carrie se juntava a conversa entre Natasha e as bruxas também interessada em ouvir sobre seu destino na leitura de sorte. Giuseppe se sentou à mesa mexendo no celular.
— Frank, pegue isso. — disse Hoeckler dando ao detetive un frasco contendo um líquido de cor verde pântano — É a uma poção da confidência. Agnes tinha acabado de preparar antes da sua amiga caçadora chegar.
— O que você quer que eu faça com esse troço?
— Pra um interrogatório bem-sucedido com Zaratro. A magia dessa poção é irresistivelmente opressiva, qualquer um que a tomar estará sob seu completo domínio.
— E como você quer que eu enfie esse elixir da verdade goela abaixo nele?
— Ah sim, lembrei. — disse Hoeckler tirando do bolso um conta-gotas e entregando a Frank — Uma única gota e um aroma será liberado como reação para que ele inale, o efeito permanece.
— Beleza, o bagulho aqui tem garantia, mas tem um asterisco que você esqueceu de refletir.
— O quê exatamente?
— Ele pode ainda não saber de merda nenhuma sobre a cura, o paciente zero ou o anticristo. Ele tá recuperando a magia dele pra voltar a ser ligado ao Chernobog na velocidade de um download de internet discada. Não acho que a essa altura ele tenha obtido mais do que já sei.
— O que não anula a hipótese dele estar sendo omisso. Vá logo e tire essa prova, já perdemos muito tempo dando as boas-vindas a sua amiga.
Mas antes que Frank virasse totalmente para ir a cela de Zaratro a contragosto se utilizando daquele artifício místico, Hoeckler o parou pegando no seu braço direito.
— Sabe, eu até poderia incluir esta poção como um adoçante pro seu café com uns biscoitinhos pra que tivéssemos um papo bem franco sobre a tatuagem da sua amiga. Mas ainda bem que a Agnes está aqui pra fornecer tudo acerca disso, assim eu não preciso te submeter a esse teste porque... eu odeio tapear as pessoas.
A declaração fizera o detetive encara-lo com rudeza na face. Hoeckler devolveu um sorriso soberbo de canto com olhar malicioso ao virar as costas e se aproximar das meninas, deixando Frank se encaminhar até a cela do bruxo com a mente pesando de nervosismo pelas implicações antevistas de Hoeckler a par do jogo. Por um corredor, esbarrou de leve no ombro de um agente.
— Opa, foi mal. — disse Frank acenando retraído.
— Sem problema. Eu também não olho por onde ando às vezes, eu sou meio novato aqui. — disse o agente que logo ao se virar para a sua direção e tornar a andar, piscou os olhos que tornaram-se inteiramente negros, um demônio infiltrado entre os agentes dentro do bunker representando uma ameaça irrefreável a todo o padrão de segurança da instalação.
***
De frente para a robusta e pesada porta de aço da cela, Frank respirou fundo antes de retirar do bolso externo do sobretudo preto de couro uma película que mimetizava a impressão digital de Hoeckler. A descolou do plástico retangular do tamanho de um cartão cuidadosamente e colocou sob o seu polegar direito. Em seguida, pegara uma lente que facilitava o acesso já que a mesma reproduzia fielmente a estrutura ocular de Hoeckler. A inseriu no olho esquerdo e passou no reconhecimento de retina logo após o biométrico.
A válvula da porta girou, concedendo passagem irrestrita ao interior da prisão. Frank adentrou fitando o bruxo que se mantenha de cabeça baixa sentado naquela cadeira metálica com as mãos presas por algemas anti-magia. O detetive estalou os dedos bem perto do rosto dele, o fazendo sobressaltar levemente.
— Assustei você, lorde das trevas? Cuidado com essa postura, senão vai virar um velho corcunda.
— O filho de Orion me perturba novamente por mais respostas pras suas perguntas tão inquietantes. — disse Zaratro erguendo o olhar cínico para Frank — Teve algum progresso lá fora?
— Não é da sua conta. Capaz de mesmo nesse estado limitado você ainda criar uma ponte de contato com o Chernobog pra se comunicar telepaticamente com ele. A menos que ele não queira falar com você já que perdeu sua serventia. Na verdade, se ele te considerasse mesmo um servo valioso, teria vindo tirar você daqui usando um dos infectados.
— Eu conheço o agir do meu mestre. Ele não tomaria uma atitude tola dessas. Se temos alguma interação, mesmo que instável, ele já está ciente de que o Necronomicon está aqui.
— Só dizer sim ou não. Mas eu cansei de pedir com educação, não me deixa outra escolha.
— Tortura? Cadê suas ferramentas? Ou pretende se valer de alguma pressão psicológica sobre um homem vivente desde os tempos mais imemoriais deste admirável mundo condenado?
— Não, nada de truques mentais, nem tortura. O que eu quero de você virá da maneira mais simples possível. — disse Frank rodeando o bruxo. Ficou atrás dele, adicionando a gota d'água na poção da inconfidência — Com magia nada se perde, né?
— Do que está... — disse Zaratro que foi interrompido por Frank aproximando o frasco da poção exalando o aroma desencadeado ao nariz do bruxo que inalou uma boa quantidade, revirando os olhos meio zonzo.
— Isso aí, cheira tudo. — disse Frank, encostando a borda do frasco nas narinas do prisioneiro — Agora vai me contando sobre o paciente zero do vírus miasma. Existe ou não?
— Ele detém a forma original do mestre. — disse Zaratro sob o efeito esperado, falando num tom meio aflito — Mas não consigo... encontrá-lo, seu paradeiro é desconhecido, meu poder não o alcança, ele se encontra num ponto cego dada a minha atual condição. Mas está em algum lugar.
— OK, mas o que ocorre se eu injetar a cura nele?
O bruxo virou o rosto para ele com ares de riso e não resistiu, o que imediatamente efervesceu a ira de Frank. O detetive aplicou um soco pesado de direita.
— Responde! — ordenou cuspindo gotículas de saliva tamanha sua raiva. Zaratro continuava a sorrir com riso debochado de escárnio com a boca machucada e sangrando.
— Que cura?
A indagação que soava também como resposta levou Frank a assumir seriedade mesclada a preocupação estampadas na face. Enquanto isso, o agente possuído que esbarrara de ombro com Grank minutos antes entrava despercebido na sala escura de monitoramento. O técnico de vigilância da fundação olhava fixamente as imagens nos monitores de cada ponto da cidade e do bunker. Acreditou ser seu parceiro.
— Tava fazendo o quê no banheiro? Líquido ou sólido? Falou que ia me trazer mais café, né? Tá aqui, pode botar mais uma rodada. — disse ele entregando a xícara sem olhar para trás — Aí, você sabe o que rolou com a câmera 67 daqui?
Uma mão decepada foi posta dentro da xícara. Ao conferir, o vigilante tomara um susto de provocar infarto, largando na hora a xícara que se espatifou no chão. Ele olhou para o agente atrás dele com olhos pretos como a mais profunda escuridão.
— Agente Dowen?!
— Desculpe, tivemos um pequeno problema técnico. Mas deixa comigo. — disse o demônio que sacou uma arma e disparou o meio da cabeça do vigilante cujo sangue espirrou nas telas — Muito bem, onde estão os códigos de defesa? Eu bem que poderia perguntar a você, mas certamente não seria tão cooperativo quanto deveria. Que pena, amigo.
Na cela de Zaratro, Frank se sentia abalado pois havia alguma esperança ínfima de que o prêmio do jogo de caça fosse ser um elixir curativo de propriedades mágicas acima de qualquer medicina exercida pela extinta classe wiccana.
— Não tem cura, é isso? Aquele maldito... Eu já não tenho nem mais nome pra xingar ele.
— Foi tão ingênuo de acreditar que meu mestre ofertaria um antídoto poderosamente legítimo em troca de uma série de serviços básicos de caçadores? Dá pra ver pela sua expressão. O engodo mais sublime para este cenário.
— Uma parte de mim achava que pudesse ser uma cura, mas sou humano e ainda conservo algum otimismo mesmo com tanta merda acontecendo uma atrás da outra! Mas e aí, sabe me dizer o que verdadeiramente é o prêmio?
— Você tem que me permitir falar sobre Orion.
— Se tem algo a ver com ele, sou todo ouvidos! O Orion já teve uma experiência parecida?
— Quando ele ainda se considerava meu aprendiz, meu mestre me orientou a submetê-lo a um teste de condicionamento. Na mesma época em que os anjos o pressionavam a brandir aquela maldita espada flamejante contra meu mestre e aniquila-lo.
— O Orion foi um caçador potencial dos anjos?! Essa me pegou... Mas vamos nos ater a parte em que ele é testado. Como se deu esse jogo? Quais eram as regras?
— Não era um jogo como meu mestre elaborou para agora. Mas o objetivo final é o mesmo. — disse Zaratro vendo um filme perpassar sua mente — Orion não poderia ser digno de empunhar a espada se estivesse ligado a uma entidade que governa o Limbo para a qual ele sacrificava monstros como oferendas.
— Khaleido? A Agnes me contou dele quando a gente se conheceu. Vi uma parte dessa coisa arrastar o meu filho pra esse inferno plus ultra. Vi uma fotinha dele no Necronomicon, parece um irmão gêmeo do Chernobog, só que com muito mais olhos e tentáculos do que se pode contar. Então o Orion trabalhava pra alimentar essa coisa... Mas a troco de quê?
— Quando o poder enche a cabeça de um homem seu autoconhecimento ultrapassa todas as perspectivas alheias não tendo mais nada a provar. Orion teve sua família massacrada por lobisomens e Khaleido ofereceu o prato da vingança para saborear frio. Em troca de 100 almas de monstros, ele receberia um poder que excede a capacidade de um caçador comum o tornando o mais implacável predador da história. Um instinto extraordinário e primal. Ao fim da corrida, Orion concluiu seu desafio com louvor, deixando seu sangue modificado como herança... para as futuras gerações.
— É aí que eu entro... Significa que eu devo vencer esse jogo, não importa o que aconteça. Mas não posso beber desse sangue sem renunciar a minha posição de potencial... Caramba... — disse Frank, embasbacado.
— Há sempre uma escolha a fazer, Frank.
— Acha que eu tenho uma? — vociferou o detetive, explodindo — O chefão do mal me tatuou a marca dele, já me riscou da agenda dos anjos me metendo nessa cilada! Se eu não fizer, ninguém mais fará. É minha herança de família, então vou reivindicar meu direito.
— Mas você tem escolha: a morte ou o poder. Fico feliz que tenha ido pela opção vantajosa.
Frank sentia repúdio de si mesmo ao estar destinado a sujar o próprio sangue com um poder perigoso de lhe subir a cabeça.
— Onde tá esse sangue? Ele deixou em algum frasco?
— Sim, mas está em um lugar inacessível...
— Não importa! Onde é?
Antes que Zaratro respondesse, um gás branco saía pelo duto de ventilação da cela e por todos que estavam pelo bunker. A fumaça envolvia o ambiente rapidamente feito uma névoa, levando a um efeito sonífero. Zaratro estava prestes a cair em sono profundo, mas Frank resistia.
— Zaratro, me fala... Que merda é essa de fumaça? O que tá havendo? Tá dando sono pesadão... Merda...
Tanto o detetive quanto o bruxo adormeceram com o gás que se espalhava pela instalação através do sistema defensivo acionado pelo demônio infiltrado entre os agentes.
***
O peso no corpo se aliviava aos poucos durante o despertar de Frank que tossia bastante enquanto tentava se reerguer. O gás sonífero já havia dissipado, tendo afetado a todos, incluindo agentes nos corredores. Olhando em volta com a visão ainda se reajustando, o detetive se deu conta de estar na sala de pesquisa junto de Carrie, Hoeckler e Giuseppe que ainda se viam desacordados no chão.
— Carrie... Carrie, acorda... — disse Frank indo até a assistente — Acorda, Carrie, por favor. — deu umas batidinhas no rosto dela que respondeu bem ao despertar — Ótimo, você tá bem. Deixa eu te ajudar...
— O que tá acontecendo? De repente, um gás sonífero saiu dos dutos de ventilação lá no refeitório... E voltamos a sala de pesquisa?!
— Seja lá quem tiver aprontado essa, nos tirou de onde estávamos sem nenhum esforço. — disse Frank com uma suspeita a considerar — Começo a achar que ele tá aqui.
— Tá falando do... — disse Carrie, tensa — Chernobog?
— É o jogo, ele quer ver mais um sair eliminado.
— Frank, shhh... Hoeckler tá acordando, melhor evitarmos o assunto delicado.
— Que assunto delicado é esse? — indagou o presidente da fundação despertando igualmente com Giuseppe que balançava a cabeça zonzo — Se tem uma coisa que eu odeio é me guardarem segredos.
— Hoeckler, espera aí... — disse Frank ficando de pé para ajuda-lo a levantar, depois voltando-se a Giuseppe — Giuseppe, vem cá....
— O que está havendo aqui? Quem ativou um gás do sono assim tão levianamente? Achei que era só pra emergências de invasão. — disse o ex-diretor do DPDC.
— E é. Jamais autorizaria liberar o sonífero sem um motivo plausível. — declarou Hoeckler — Suponho que a central de sistemas foi hackeada. Um intruso está operando os códigos de defesa do bunker. Tem certeza que a sua amiga caçadora veio sozinha, Frank?
— Vai desconfiar da Natasha?! Larga de neurose, é claro que ela veio sozinha, eu mesmo fui lá e abri a porta do bunker pra ela! — confrontou Frank apoiado por Carrie indignada.
— Essa foi a suspeita mais torpe e sem lógica que eu já ouvi! Por que diabos ela faria isso? Brincadeira de mau gosto? Ela tava sozinha, acredita no Frank.
— Por que exatamente ela pediu hospedagem justo aqui, afinal? — indagou Hoeckler, insistente.
— Esqueci de falar: ela tava sem grana pra reserva de hotel, daí quando ela me ligou eu indiquei o bunker pra ela ficar por uns dias, pelo menos até o natal, no réveillon ela volta pra Londres se as rotas aéreas forem reabertas. — justificou Frank para a satisfação de Hoeckler.
— Não podia ter emprestado uma graninha? — indagou Carrie.
— Eu tô duro, torrei o que tinha na minha conta estocando suprimento e nem recebi meu salário ainda. — lamentou o detetive olhando ao redor com desconfiança máxima — A gente tá numa maior fria, tô com um péssimo pressentimento.
— Espera, mas e a tal tatuagem dela? — perguntou Hoeckler fazendo Carrie bufar de revolta soltando o ar pela boca ao fuzila-lo com o olhar — Ela se recusou a mostrar pra Agnes que reconheceu bastando um mero vislumbre. Não podia deixar aquilo passar batido, sabem como eu sou.
— Tá insinuando o quê, Hoeckler? Para de implicar com a Natasha, vamos focar nesse abacaxi que nos apareceu do nada pra ferrar com nosso dia. — disse Frank, irritado.
— Essa tatuagem deve ter ligação com o Chernobog, não é? Você sabe, Frank, minha intuição me alerta que você sabe de alguma coisa em relação a isso e não quer me contar! — disse Hoeckler exaltado em postura combativa cutucando o peito de Frank com o dedo indicador direito. O detetive fez menção de enfrentá-lo, cerrando os punhos.
— Acalmem-se os dois! — bradou Giuseppe separando-os — A amiga de Frank é inocente e nós precisamos dar atenção ao que realmente é urgente nesse exato momento! E mesmo que ela estivesse, sei lá, possuída por Chernobog ou enfeitiçada, levaria horas pra tirar todos nós de onde estávamos. O intruso nos mudou de lugar por uma razão muito específica.
— Mas Chernobog é uma entidade astronomicamente poderosa, pode se deslocar pra onde bem entender na velocidade da luz como fazem os anjos e os demônios. — disse Hoeckler — Não teria trabalho algum.
— O que Chernobog viria fazer aqui? — questionou Frank, impaciente — Libertar o Zaratro? Grande piada! Ele não tá nem aí, descartou o maior seguidor dele como papel higiênico cagado. Quem tiver entrado no bunker pra fazer o que fez já estava infiltrado há algum tempo, é minha teoria.
— Posso dar uma dica se quiserem. — disse um agente parado próximo a porta. Todos viraram o rosto para ele, reagindo alarmados. O agente mostrara seus olhos pretos.
— Um demônio. — disse Frank — Se até um anjo ofanim passou pela segurança reforçada desse lugar, não me admira que a merda de um demônio tenha passe livre pra fazer a farra.
— Mas que tipo de demônio é esse? — indagou Giuseppe, atônito.
— Do tipo que se vira em cinquenta pra se divertir e trabalhar. — disse o demônio, sorrindo infame.
— Em cinquenta... — disse Frank olhando bem para a criatura infernal e constatando algo terrível — Cara, isso não tá acontecendo... — sua expressão alterou para fúria contida — Te mandei pro inferno quando eu tava na prisão, seu desgraçado.
— Pois é, eu até passaria 20 anos vagando sem rumo pelo inferno, mas algumas frestinhas se abriram e... — disse o demônio que deu de ombros — O que eu podia fazer? Eu gosto de esticar as pernas por aqui mesmo, o meu paraíso.
— Frank, quem é ele? — perguntou Carrie.
— O Replicador. — disse Frank o encarando raivoso — Tinha banido esse filho da puta pro inferno lá na penitenciária Roosevelt. Deixa eu adivinhar: você serve a um líder de nome Chernobog.
— Exato, Frank, e devo a ele um nobre gesto de gratidão por interromper as férias que você me deu. Com o fracasso de Agares, os demônios agora se dobram unicamente ao temível patrono das trevas. O diabo não é nem mais um anjo ou um demônio... ele é um deus. — falou o Replicador com orgulho — Ele vai desencadear uma nova guerra santa e vou estar do lado que vai vencer. Mas até esse evento começar, você já terá padecido de todas as dores vendo aqueles que ama morrerem bem na sua frente.
— Talvez você deva agradecer ao Frank pelo sonho do mal ter se realizado. — disse Hoeckler que foi repreendido por Frank chiando com a boca e franzindo a testa para pedir silêncio.
Um outro gás começou a soprar com leve ruído pelos dutos, este com um odor metálico e artificial.
— Oh, desperdicei o tempo que eu tinha pra explicar meu novo desafio mortal. — disse o Replicador — O gás tóxico misturado com miasma vai se concentrar em poucos minutos. Terão que achar minhas cópias sem orientações prévias.
— Então foi a mando dele que tu veio, né? Vocês são bem parecidos, gostam de joguinhos sádicos e trapaceiros! — acusou Frank, sacando a lâmina sacerdotal — Nem precisa explicar qual é sua maracutaia agora, você é previsível demais pra inventar alguma coisa nova.
— Está certo ao pensar que reciclei algumas coisinhas do meu jogo anterior naquele hospital. O objetivo é o mesmo: destrua minhas cópias até chegar ao meu eu original. Mas nunca... nunca, nem por um minuto... enquanto estiver no meu jogo... me julgue previsível, Frank. — disse o demônio que sacou uma faca ensanguentada e cortou a garganta de seu hospedeiro, sorrindo maníaco. Carrie e Giuseppe reagiram horrorizados ao verem o sangue descer profuso do corte.
Frank avançou com a lâmina anti-demônio e o apunhalou fundo na barriga.
— Que a diversão comece. Eu tava morrendo de saudades. — disse o Replicador segundos antes de ser eliminado, os olhos pretos sumindo e retornando aos já estáticos e sem vida do agente.
— Ele está morto? — indagou Giuseppe usando a gravata para tapar o nariz por conta do gás.
— Era só uma cópia. A gente tem que dar o fora daqui, procurar a Natasha, as bruxas... — disse Frank deitando o corpo do agente e fechando os olhos dele — Descansa em paz, Dowen.
Hoeckler ativou um código no cofre da sala que deu abrira uma passagem secreta. Parte da parede deslizou para o lado, revelando prateleiras com um variado arsenal militar.
— Aí sim hein. — disse Frank indo pegar uma sunmetralhadora — Carrie, pega uma também.
— Eu que não vou ficar desprotegida com um bando de clones demoníacos a solta nesse lugar. — disse Carrie pegando uma pistola. Giuseppe também escolheu seu armamento, uma submetralhadora menor que a de Frank, destravando.
Hoeckler tossiu ao pegar sua AK-47.
— Depressa, o gás está se densificando! Estão todas munidas de balas enchidas de sal e embebidas de água santa! Vamos!
Os quatro saíram correndo da sala, dormindo por corredores aleatórios. Hoeckler sacou seu rádio-transmissor para contatar a equipe de agentes.
— Emitindo alerta de contaminação por vírus miasma! Solicito envio e distribuição de máscaras de gás imediatamente! Tratem de se protegerem da inalação deste gás, é o HE-38 adulterado pelo intruso! Se dispersem armados com balas anti-demônios!
— A visibilidade tá ficando difícil. — disse Frank correndo com sua arma pesada.
— A respiração também. — complementou Carrie.
— Eles virão logo com as máscaras, se nada der errado nos próximos três minutos aproximadamente. Ou seremos infectados. — disse Hoeckler.
— Mas e as garotas? — indagou Giuseppe.
— Se elas estiveram ainda no refeitório, há uma passagem secreta pra um compartimento de proteção em casos de rebelião dos prisioneiros por falha na contenção. Já aconteceu uma vez aqui... e não foi nada agradável. É totalmente livre de fissuras por onde o gás passe.
— Tudo bem, vamos contar que a Natasha e as bruxas estão seguras e que o Replicador só mudou nós quatro de lugar porque foi parte do plano dele estarmos juntos! — disse Frank a Carrie e Giuseppe — Tudo que tiver olhos pretos que encontrarmos pela frente, atirem! As cópias são mais frágeis às balas!
As cópias do demônio surgiam tanto usando agentes da ESP quanto pessoas comuns como receptáculos. A presença de civis inocentes chocou a Frank que teve sua humanidade desafiada. Hoeckler atirou num homem que avançaria conta ele portando um cutelo. O possuído caiu com vários buracos vermelhos no peito.
— Civis?! Esse demônio insano quer levar esse jogo diabólico além de qualquer limite! — disse Giuseppe.
— Confesso que por essa eu não esperava. — falou Frank, tenso. O quarteto dobrou para um corredor onde mais agentes possuídos vieram e mandaram uma chuva de balas que os fez cair atirando a esmo, felizmente nenhum disparo acertando qualquer um dos não-possuídos.
— Tá todo mundo bem? Sem bala perdida? — perguntou Frank ao que responderam com acenos positivos de cabeça.
— Devia ter pego os coletes, droga. — resmungou Hoeckler.
Mais cópias do Replicador surgiram, desta vez sem hospedeiros e saindo das paredes atravessando-as como sombras materializadas e feras famintas. Carrie gritou ao ver um surgindo atrás dela abrindo sua boca dantesca de dentes pontudos e disparou. Os rapazes não economizaram balas contra os que vinham ao ataque selvagem, audacioso e direto.
— Assim são os demônios fora das cascas?! Meu Deus, são aberrações, animais perversos! — disse Giuseppe, perturbado com a selvageria caótica dos seres infernais — Quero todos mortos! Não vai sobrar nenhum!
— Fica todo mundo junto! Mais deles podem aparecer, possuindo ou não! — disse Frank avançando pelo corredor de paredes cinza escuro com ladrilhos verde musgo como todos os outros.
— O gás está cada vez mais denso... — disse Hoeckler, sentindo-se mal e desacelerando — Resta só mais um minuto... pro vírus agir nos pulmões pelas gotículas no ar, nos matar asfixiados e infectar...
— Eu tô quase desmaiando. — disse Carrie se apoiando na parede.
— Resistam, os caras vão aparecer com as máscaras! Aguentem firme! — disse Frank, desesperado.
— Já é tarde demais... — disse Hoeckler — E o que é mais estranho: você parece não sentir nada... como se estivesse imunizado.
Frank o encarou cogitando contar a verdade. Porém, surgiu um menino possuído diante deles. A cópia mostrou os olhos negros sorrindo com a boca do garoto em meio ao gás que adquiria o estado de um nevoeiro.
— Vamos, Frank, decida seu ato: atire ou fuja. Teria coragem? Eu sou apenas uma criança. — disse o Replicador, rindo malicioso.
O detetive cerrou os dentes com o dilema tortuoso numa hesitação que fazia seu coração sangrar.
— A sua clemência é o que enfraquece sua força voraz de caçador, Frank. — disse o demônio com ar de deboche — Aqui a sua moralidade humana não tem nenhum valor ou benefício.
Frank mirou a arma, mas o dedo travou sem tocar o gatilho.
— Eu não consigo. Chame de fraqueza, tô me lixando pro que você pensa. Não vou abater uma alma inocente usada por um verme que nem você.
— Assim que eu gosto de vê-lo, não mudou nada.
Hoeckler surpreendentemente tomou a iniciativa de lançar uma rajada implacável de balas contra o corpo do garoto, liquidando a cópia. Carrie virou o rosto, atordoada.
— Por que fez isso? Eu ia exorcizar ele! — reclamou Frank empurrando Hoeckler.
— Onde pensa que está? Numa caçada convencional? É matar ou ser morto! Assim que funciona nesse maldito jogo demoníaco! Não deixar as emoções interferirem nas ações! — retrucou Hoeckler, alterado.
— Vejam... Chegaram. — disse Giuseppe vendo os agentes trazendo as máscaras anti-gás. Porém, no momento de por a sua, o ex-diretor acabou por desmaiar.
— Giuseppe! — disse Frank segurando ele — Ah não... Hoeckler, me ajuda aqui.
— Me diz que ele vai ficar bem. — disse Carrie.
— Torçam pra que o vírus não tenha sido inoculado na sistema respiratório. Ele pode só ter ficado inconsciente pelo ar rarefeito. — disse Hoeckler o segurando junto a um agente — Vão até o refeitório, cuidamos dele.
Frank fez que sim com a cabeça e tornou a correr junto de Carrie rumo a cozinha.
***
Após passarem por cinco corredores sem nenhum sinal de cópias do Replicador, Frank e Carrie acessaram o refeitório sem maiores transtornos. O detetive rapidamente buscou um pote de sal grosso e derramou na soleira da porta da cozinha fazendo uma linha para barrar a entrada de demônios.
— Onde tá essa bendita sala de proteção que o Hoeckler falou? — perguntou Carrie desesperadamente procurando nas paredes, a voz abafada pela máscara de gás que cobria toda a face.
Frank ouviu batidas vindas do refrigerador inox. Estranhou haver duas geladeiras e resolveu verificar na que sabia de onde vinham os sons.
— Espera, não reparei que aqui tivessem duas geladeiras. — disse o detetive tocando na porta, sentindo as batidas. Encostou o ouvido direito, captando vozes — São elas... Estão aqui!
Mas Carrie sequer tivera tempo para aproveitar o alívio quando mais três cópias surgiram em teleporte no recinto. Os clones possuíam dois civis e um agente da ESP. A assistente metralhou os três antes que se aproximassem perigosamente enquanto Frank abria a porta. Contudo, um outro clone apareceu por trás dela a esfaqueando nas costas perto da região lombar.
— Carrie! — disse Frank que mandou chuva de balas para cima da cópia do Replicador que viera de surpresa, esta possuindo um homem magro de casaco verde e boné preto — Não, não, não... Carrie, fica comigo. Vem, vou te levar lá pra dentro. — a pegou nas braços levando-a até a sala secreta cuja passagem cabia a sua altura.
— Carrie! Frank, o que aconteceu? — indagou Natasha correndo até ele.
— Oh não, o que houve com ela? — indagou Tanya, expressando preocupação por Carrie.
— Levou uma facada. — disse Frank a ponto na mesa redonda de madeira no centro do recinto. Virou-a de lado exibindo o ferimento — Alguém se habilita aos primeiros-socorros, por favor?
— Deixa comigo. — disse Lisbell, prestativamente — Ela ficará bem, a primeira vista não foi tão profundo. Melhor darem espaço.
Frank se afastou um pouco, passando a mão no rosto após tirar a máscara. Natasha também, o tocando no ombro para acalma-lo.
— Frank, o que está acontecendo? — perguntou Agnes — Tudo o que sabemos é de um vapor infestando a cozinha e nos fazendo cair num sono que pode ter durado horas. Depois que acordamos, Theodor, Carrie e Giuseppe haviam sumido e então assumi que fosse ser uma emergência grave para nos obrigar a ficar aqui.
— Tá o maior caos no bunker todo. Um demônio com o poder de se multiplicar se infiltrou entre os agentes. Todos nós dormimos por tempo suficiente pra ele sequestrar pessoas aleatórias.
Carrie finalmente fora curada pela magia de Lisbell que emanava um feixe de luz verde nas mãos sobre a ferida. A assistente ficou sentada na mesa, esquadrinhando o ambiente.
— Eu me senti fora do mundo por um instante. Esse é o abrigo secreto, é? Podia ser maior.
— Carrie, não sabe o medo que eu tive. — disse Frank a tocando no rosto. Natasha ficou ao lado dele, contente pelo restabelecimento da amiga.
— Minha musa... — disse Carrie dando as mãos à Natasha, emocionada — Ainda bem que você tá ilesa.
— Que susto, se não fosse por ela... — disse a caça-vampiro olhando para Lisbell — ... teríamos sofrido uma baixa terrível. Obrigada.
— Disponha. — disse Lisbell — Algum plano pra deter esse demônio antes que cause mais estragos?
— Acho que tenho sim, tô elaborando aqui. — disse Frank, pensativo — É baseado num sonho que eu tive ontem a noite. Foi profético, deve ser uma visão induzida por esse demônio.
— Como foi esse sonho? — indagou Carrie.
— Ele... o demônio... estava na sala de reuniões do bunker e o encontrei em cima da mesa com duas mulheres deitadas como reféns. Ele levitava duas facas em cima delas, ameaçando matar as duas se eu não escolhesse uma pra morrer. O sonho acabou sem que eu decidisse.
— E quais de nós acha que serão as vítimas? — perguntou Natasha.
— Você... e a Carrie. Tenho certeza. A sala de reuniões do conselho da ESP é o nível final do jogo desse demônio. Eu não vi direito como eram, mas não tem como ser duas mulheres desconhecidas que ele trouxe pra cá dentre os civis que os clones dele possuiu. — declarou Frank, convicto — Ele vai pegar duas das pessoas que eu mais considero na vida.
Natasha e Carrie deram as mãos lado a lado, partilhando da tensão crescente.
— Disse que ele se multiplica? — indagou Tanya, o ar de curiosidade — Agnes, isso não te faz recordar de uma certa lenda famosa entre toda a comunidade bruxa?
— Sim, não tenho dúvidas de que seja ele. — confirmou Agnes.
— Ele quem? Por acaso vocês fazem ideia de quem o Replicador foi na vida passada dele? — questionou Frank, ávido por respostas.
— Desde os tempos da convenção de Zaratro, sabia-se de uma história sobre um warlock que conjurou um feitiço de multiplicação em si mesmo numa época em que tal magia era usual somente para objetos. — contou Agnes — Ele também atuava como ladrão de artefatos e antiguidades, por isso se desdobrou em várias cópias para praticar seus roubos mais ativamente. Grande parte da comunidade tratou isso como boato pois um feitiço instável jamais deveria ser testado no usuário, caso contrário o efeito esperado é a morte certa.
— Os warlocks eram subestimados demais, por isso ninguém contava com o sucesso desse feitiço pra algo tão conveniente. — disse Lisbell.
— OK, quando eu ficar frente a frente com a versão original do desgraçado, vou perguntar a ele sobre esse passado oculto. — disse Frank.
— Nossa, então ele foi um bruxo? Me passou pela cabeça que fosse um esper ou algo parecido. — disse Carrie.
— Não, os espers não vão pro céu nem pro inferno. Bruxos só vão de tobogã pro inferno, sem exceção.
— Não esqueça dos wiccanos. — disse Lisbell.
— Ah, verdade, eles tinham salvação, pena que foram extintos. Nunca supus que ele tivesse sido um bruxo por mais bizarro que fosse um demônio com esse poder. Eu iria morrer com essa dúvida se você não tivesse voltado, Agnes. — disse Frank.
— E ainda pode morrer se sair a caça desse demônio sozinho. — disse Natasha.
— Caramba, Natasha, você leu minha mente. — disse Frank dando um sorrisinho que sugeria mistério — Só que eu não vou sozinho, embora você e a Carrie devam estar aqui.
Natasha e Carrie balançaram devagar a cabeça em negação, confusas.
— Mas nós somos as únicas que podem te acompanhar até lá pra impedir que a visão se realize. — disse a caçadora.
— Não exatamente vocês de fato. — disse Frank que voltou o olhar esperto para as bruxas — Sabem onde eu quero chegar?
Agnes o fitou com firmeza ao entender a intenção por trás da estratégia.
— Pode funcionar.
O detetive pouco depois estava de volta aos corredores do bunker armado com um lança-granadas, mas o deixando em reserva preso numa alça para o confronto final contra o Replicador. Atrás dele vinham Carrie e Natasha com pistolas carregadas atirando em cópias do demônio que encontraram nos corredores aos lados. Frank se servia da sumetralhadora, mas antes de apertar o gatilho recitava o exorcismo romeno que desprendia as cópias de seus hospedeiros, assim removendo o peso da culpa em sacrificar inocentes. O detetive mandou bala contra três cópias que possuía civis, a chuva de balas ensurdecedora que parecia fazer temer o corredor. Os três clones tombaram e sumiram como ilusões.
— Muito bem, adiante garotas, faltam só mais oito cópias pra gente de... — disse Frank que interrompeu a fala ao virar-se. Seu semblante alterou drasticamente ao não ver as duas ali — Ué, cadê elas? Carrie! Natasha! — olhou nos dois corredores adjacentes.
— Uma pena ter subtraído elas de você tão cedo, Frank. — disse a voz do Replicador ecoando na mente do detetive — Mas fico satisfeito que esteja contabilizando meus clones abatidos. Já pode tirar a máscara, o gás mortal dissipou.
— Só acredito em você porque não vejo mais aquela névoa. — disse Frank arrancando a máscara do rosto incomodado — Finalmente, tava me sufocando. Essas máscaras cheiram a mofo velho. Agora me diz onde você tá.
— Numa sala ampla onde os membros mais influentes dessa organização se reúnem. Quer que eu seja o seu guia?
— Não preciso de GPS, já conheço boa parte desse bunker como a palma da mão. — retrucou Frank caminhando pela direção que iria com Carrie e Natasha — Tô chegando aí, me aguarda. Não faz nada com elas. Eu sei qual é o teu jogo.
— Imagino que saiba. Dei a você uma prévia na noite passada. — disse o Replicador com uma ridasinha debochada — Mas adianto que aja rápido, pois em doze minutos vou acionar um código que destrava as celas onde estão encarcerados os diversos seres apanhados por seus amigos cientistas e soldados.
— Filho da mãe... Nem se atreva a soltar as feras do zoológico, tá me ouvindo? Chego aí em menos de doze minutos, eu juro!
Enquanto isso, na salinha de proteção, Natasha roía as unhas andando de um lado para o outro, inquieta quanto ao desempenho de Frank.
— Chega, eu não vou esperar horas pra esse dia infernal acabar. — disse a caça-vampiros — Carrie, me dá sua arma.
— Natasha, você tem que relaxar, o Frank tá se saindo bem, acredita nisso como eu. — disse Carrie, nervosa pelo pedido da amiga — O plano das nossas cópias é praticamente infalível.
— Eu bem que gostaria de compartilhar desse otimismo, mas não acho que um demônio como esse vá ser enganado tão facilmente. O Frank vai precisar de alguém cobrindo as costas dele se algo der errado. — destacou Natasha, veemente.
— Carrie está certa, a estratégia em tese é aplicável, mas na prática há riscos a serem friamente calculados. — disse Agnes sentada à mesa redonda com as parceiras.
— Fica aqui, você mesmo incentivou o Frank a não ir sozinho e ele é bem mais entendido de como funciona a mente perversa e trapaceira de um demônio. — reforçou Lisbell.
— Pois é, não faz sentido correr tamanho risco sem saber lidar com o que não enfrenta no seu dia-dia. — opinou Tanya.
— Basta atirar pra matar, simples assim. — retrucou Natasha — Falo das cópias, o demônio original eu deixo pro Frank se encarregar.
— Mas você nem sabe onde fica a sala de reuniões, se é que vai ser lá onde tudo vai acabar. — disse Carrie, apreensiva.
— Meu celular. — disse Natasha mostrando o aparelho cuja tela exibia um ponto vermelho no meio de uma planta geográfica — Pus um rastreador no bolso do Frank enquanto ele se distraía. Uma vez ligado, mostra pra quais direções o alvo segue usando uma planta gerada automaticamente a medida que ele se move. Ele não sabe que também sou boa nisso.
— Não, por favor. — disse Carrie, a súplica no olhar ao segurar o braço direito da caçadora.
— Me dá a arma, Carrie... ou vou tira-la de você à força. O Frank precisa de mim, eu sinto isso.
A assistente se debulhou em lágrimas entregando a pistola à Natasha que saiu rapidamente da saleta.
Frank se encontrava ajoelhado perante o Replicador após a cena de seu sonho profético se concretizar invariavelmente.
— O que vai ser, Frank? Decide pela morte delas? É tão complicado assim? — indagou o demônio com seus olhos pretos infames.
— Não escolher... também é uma escolha. — disse Frank reerguendo a cabeça.
— Estranho. Seu rosto devia estar encharcado de lágrimas. Talvez comece a chorar e a lamentar de verdade depois que eu fizer isso.
O demônio baixara as duas facas nos corpos das ilusões de Carrie e Natasha. Porém, apesar de paeedeen mortalmente feridas, o Replicador notara algo atípico. Ambas estavam com suas imagens instáveis e ficando transparentes... até desapareceram por completo. O demônio urrou de fúria contra Frank, externando sua tremenda força sobrenatural ao destruir as lâmpadas que salpicaram faíscas e alguns vasos luxuosos de cristais. Frank levantou pegando de volta o lança-granadas após o leve tremor e mirou no demônio.
— Não se pode ganhar todas, seu vacilão. — disse ele, disparando uma granada que acertou o Replicador em cheio, fazendo-o voar contra a parede mais adiante que ganhou um rombo destruidor com o impacto. O demônio caiu com as pedras, sofrendo com os efeitos ácidos da água santa e sal misturados — Dizem que pra vencer um demônio é necessário ser mais esperto que ele. Uma hora eu tinha que fazer você sentir isso na pele por todas as vidas que desgraçou e tirou! Agora é minha vez de saborear o doce da vitória!
— Não tenha tanta certeza... — disse o demônio, sorrindo com o rosto do sente possuído carcomido.
— Frank! — chamou Natasha chegando a sala com a pistola em riste — Graças a Deus, você tá bem. Cadê ele?
— Natasha?! Era pra você ter ficado lá na sala de emergência, eu já detonei com ele!
— Mas eu tive o pressentimento de que... — disse Natasha, mas sua fala foi bruscamente interrompida quando uma barra de aço transpassou seu peito por trás. O autor do ato estava escondido numa parte opaca, próximo da porta, sendo uma cópia do Replicador.
— Natasha! — disse Frank perplexo. A caçadora gorfava sangue em abundância enquanto seu executor sorria atrás dela — Não!
— Eu avisei, Frank. Nunca me julgue previsível. — disse o Replicador através dele mesmo e da cópia ao mesmo tempo. Frank sacou uma pistola do sobretudo e se dirigiu até o clone que também andou alguns passos — Nosso último acerto de contas? Pode vir, Frank, não vou fugir.
O detetive, tomado pela cólera, disparou uma rápida de balas da pistola beretta contra a cópia cujo receptáculo chacoalhava com os disparos até cair. Foi até a Natasha que agonizava, mas ainda tendo forças para puxar a barra do corpo.
— Natasha...Calma aí, espera...
A caçadora jogou o pedaço de aço e se deitou de barriga para cima. Frank pressionou o buraco com as duas mãos para conter a hemorragia.
— Frank... Vá embora, não tente me salvar. — disse ela soluçando e espasmando — Não se puna... por isso. Eu que cometi o erro.
— Não, tá enganada. — disse Frank, a expressão de choro — A culpa é minha.
— Estamos no fim dos tempos... Não existe lugar seguro. — disse Natasha deixando cair uma lágrima enquanto retirava as mãos de Frank do seu peito — Acho que eu devia ter dado a mão direita.
A marca de Chernobog se espalhou em conversão para o vírus miasma ser inoculado no organismo da caçadora. Natasha tragicamente experimentou a morte degradante de um infectado pelo nefasto vírus. Frank afastou-se sentado, não controlando o pranto, ao ver o corpo da caçadora se definhar em palidez e sangue negro estourando pela boca, nariz e olhos. Levantou-se, arrasado pela culpa.
— Terminou de se despedir da sua amiga? Eu ainda tô aqui. Eu disse que não iria fugir. — disse o Replicador original. Frank lançou um olhar cortante por cima do ombro direito — Bela escolha de visual novo, até porque vai comparecer a muitos funerais daqui pra frente.
Frank descarregou o que restava da pistola no demônio que recuava sendo oprimido pelos tiros. Em seguida, o detetive desferiu incontáveis socos pesados em ritmo acelerado rosnando de fúria, logo o jogando sobre a mesa de reunião. Subiu no móvel e banhou o demônio com óleo santo num frasco, depois sacando um isqueiro e o acendendo.
— Você pediu por isso, né? Faço questão de atender. Meu único consolo... é que você vai pra um inferno mil vezes pior.
Jogou o isqueiro sobre o Replicador que incendiou por inteiro gritando e rolando de dor.
— Até nunca mais, seu filho da puta.
***
Frank retornou a sala de pesquisa após receber no celular uma mensagem de Hoeckler. O detetive chegara por último, sentido alívio por ver Giuseppe de pé e sem ter sofrido efeitos primários do vírus. Mas foi olhando para a Carrie que o peso do luto voltou em segundos.
— Cadê ela? — indagou a assistente, o olhar triste, mas que no fundo preservava esperança — Frank, cadê ela?
A resposta de Frank veio na linguagem do seu semblante entristecido, comprimindo os lábios e segurando ao máximo as lágrimas. Balançou a cabeça em negação, baixando-a.
— Não! — disse Carrie vindo até ele e batendo suas mãos no peito do detetive que estava inerte — É mentira! Diz que é mentira, Frank! Diz pra mim que é mentira! É mentira, é mentira... mentira... — a assistente se rendeu ao choro copioso de boca aberta se deixando cair, mas sendo segurada e amparada por Frank que a abraçou deixando transbordar suas lágrimas. Todos na sala, agentes, Giuseppe, as bruxas e Hoeckler, manifestaram pesar e lamentação expressando profunda tristeza.
Mais tarde, Frank observava Carrie num quarto hospitalar do bunker. A assistente estava dormindo por efeitos de remédios antidepressivos que tomava.
— Ela tá dopada, se você não tivesse feito alguma coisa pra faze-la parar... — disse Frank para Hoeckler ao lado dele.
— Ela ficará bem. Mas e você?
— Eu não sei. — respondeu secamente.
— Sinto muito. — disse Hoeckler, arrependido das suspeitas que proferiu — Quando quiser conversar... sobre esse dia terrível... ou qualquer outro assunto, pode vir me procurar. — fez uma pausa — Vi o corpo da Natasha. Mas não havia nada no braço esquerdo dela. A tatuagem... sumiu misteriosamente. Agnes jura que é um emblema iconográfico de Chernobog.
— Hoeckler, faz um favor pra mim: sai daqui. — disse Frank sem olha-lo — Não tô com cabeça pra isso agora.
— Tem razão, me desculpe, é uma péssima hora. — disse o chefe da ESP — Força. — deu um tapinha nas costas do detetive e saíra.
O funeral da caçadora, custeado pela fundação ESP, na tarde do seguinte foi silencioso e restrito. Frank derramou um pouco de terra sobre o caixão de Natasha, a expressão inalterada de desalento. Hoeckler, Giuseppe, as bruxas e Carrie estavam ali para dar o adeus sob guarda-chuvas protegendo dos chuviscos.
Logo, a presença de Mike, o irmão da caça-vampiros, surpreendeu a todos, menos Frank que o havia chamado por ter o número dele registrado no celular. O detetive abraçou-o, prestando as devidas condolências.
A chuva caiu mais forte e rápido no vasto cemitério com o descer do caixão.
Em paralelo, Elton Hartley visitava um homem moribundo num quarto situado no prédio da sua empresa mais precisamente na ala biomédica.
— Como está nosso grande e resiliente homem hoje? Espero que ainda vivo. Há alguns exames que preciso proceder com você. Está dormindo? Não tem problema, eu vou só... sedar você pra depois colher uma pequena amostra de sangue e leva-lo ao teste. O que faz de você tão especial? — disse o bilionário, dando um peteleco na agulha com as gotas do sedativo escapulindo. Foi baixando lentamente a agulha...
Porém, o homem subitamente despertou tocando na cabeça de Hartley com as duas mãos, os olhos pretos arregalados. A mente do empresário foi novamente bombardeada com visões, mas desta vez reais, oriundas de seu passado, especificamente de sua origem.
Hartley tirou as mãos do homem e se afastou, caindo para trás. Ofegante, ficou a pensar chocado no que foi forcsdo a enxergar.
— Agora você entende. — disse o paciente zero... aliás, Chernobog.
— Que tipo de monstro eu sou, afinal? — questionou Hartley sentindo nojo de si.
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