O suntuoso luar naquela noite de clima frio anunciando a vinda de precipitações esperadas para aquela época parecia inspirar um convite irrecusável para jovens desimpedidos furarem o toque de recolher. Ao todo eram quatro membros de um grupo reunido nos arredores de um complexo industrial largado as traças.
Chad era o autoproclamado líder e aquecia as mãos no fogo ateado num barril enquanto os demais - Riley, Quinn e Wally - conversavam animados sentados em blocos de concretos.
— Aí, Chad, será que dá pra fazer uma demonstração? — indagou Riley, um rapaz sardento e meio gordo usando gorro de frio, levantando uma garrafa de bebida — Lançamos uma aposta valendo até 20 dólares.
— Não, esquece, não vou fazer aquilo de novo. — recusou Chad.
— Oh, logo quando queríamos rever nosso homem-dragão! — disse Quinn, uma garota de cabelos ondulados castanhos usando um super verde escuro por baixo de um casaco preto — Vai, Chad, só uma vez, por favor!
— A gente promete não filmar. — disse Wally, rapaz afro-americano com cabelo na régua que trajava casaco anti-frio azul — Mas não prometemos guardar segredo. — deu uma risada que contagiou Quinn e Riley.
— Beberam tão pouco e já ficaram bêbados? — questionou Chad indo até eles esfregando as mãos.
— A prática leva à perfeição. — disse Quinn, logo tomando mais um gole de cerveja — Deixa de ser chato, só uma vez não vai te matar.
— Acidentes podem acontecer, sabiam? A propósito, eu joguei o isqueiro junto com as tralhas pra fazer a fogueira. Foi mal desaponta-los, amigos. Algum sinal da guarda?
— Essa área é bem fechada no entorno desse prédio, acho que estamos fora do campo de visão. — disse Wally — E aí, quem quer começar a jogar o desafio da garrafa?
— Acho que precisa de mais uma vagina entre nós. — disse Riley que levou um soquinho de Quinn que caiu na risada, embora achasse o comentário de mau gosto — Que tal Verdade ou Consequência? Fazíamos no colegial, lembram?
— Muito clichê. — opinou Quinn — Eu queria mesmo era zoar pela cidade, mostrar um belo dedo no meio pra essa lei estúpida que obriga todos a se enfurnarem em casa. É um saco! Quando isso vai acabar?
— Los Angeles já devia ser flexibilizada. — comentou Wally.
— Concordo, mas os maiores índices de contágio seguem aqui, afinal somos o marco zero da pandemia. — informou Chad, tomando uma garrafa de uísque — Vamos pressionar o Elton Hartley nas redes, o cara tá ganhando muita influência entre os poderosos. Sempre que rola uma inovação no campo da ciência e da tecnologia, é ele quem tá nas capas de revista. Se ele for candidato a presidente, tem meu voto confirmado.
— E se ele for um maluco que quer enganar meio mundo com essa história de vacina extraordinária? — teorizou Quinn — Galera, isso que estamos vivendo é o fim do mundo em sua mais pura forma. Olha esse vírus, transforma quem se infecta em zumbis que sangram preto.
— E se o arrebatamento já aconteceu e nós somos aqueles que ficaram pra sofrer o princípio das dores na grande tribulação? — questionou Wally arrancando olhares incrédulos e sarcásticos dos amigos — Só tô especulando, OK? Não vou encarnar o profeta do apocalipse que cometia em tudo quando é notícia de sinais. Só acho que... a essa altura não podemos duvidar de mais nada.
— Se eu tiver que morrer em pleno fim do mundo, não tem que ser sóbria. — disse Quinn, erguendo sua garrafa — Um brinde à vida?
— É isso aí, esse é o espírito. — disse Chad também levantamdo sua garrafa. Riley e Wally também o fizeram. Os quadros bateram de leve as bocad das garrafas para simbolizar o quanto estavam dispostos a aproveitar ao máximo o que restavam de suas vidas em tempos extremamente incertos como aqueles.
Porém, o momento de confraternização sofreu uma interrupção inesperada. Wally pisou numa barata que iria subir em sua perna esquerda. Mas logo vinham mais delas ao redor do grupo, acompanhadas de gafanhotos, moscas e vespas peçonhentas que vinha num enxame massivo. Os jovens levantaram depressa.
— O que é isso? Tá vindo inseto de toda parte! — disse Chad, espantando as vespas e gafanhotos.
— Será que não falamos demais do fim do mundo e atraímos uma das pragas egípcias? — indagou Wally recuando das baratas.
— Ai, uma mosca entrou no meu ouvido! Alguém tira de mim, por favor! — disse Quinn, desesperada, dando tapas no ouvido direito. Sem perceber, se direcionava ao barril incendiado — Tira de mim! Alguém tira, por favor! Socorro! Ah, meu Deus, socorro!
A jovem acabou encostando no fogo e labaredas se espalharam rápido pelo corpo, transferindo para Chad e Riley que tentavam ajuda-la. Num instante, estavam os três em chamas completamente, gritando estridentes e rodopiando em total desespero. Wally era envolvido pelas baratas e esbarrou num dos amigos, logo sendo a sua vez de ser consumido pelas chamas. O rapaz rolou no chão preenchido pelo fogo, urrando sofridamente com a ardência causticante.
Minutos depois, um policial que realizava o patrulhamento noturno verificou após ouvir os gritos quase incessantes dos jovens, passando o facho da lanterna por todos os cantos. Encontrou os quatro corpos carbonizados, estarrecido. Mas logo notou indícios curiosos: a parte de trás dos corpos estavam abertas, como se fossem estátuas destruídas. Agachou-se e viu um tipo de muco gosmento de cor amarelada em um deles no interior, tocando e expressando nojo.
— Quem está aí? — perguntou, levantando e virando a lanterna para a direção oposta da qual viera ruídos altos — Seja quem for... se tiver sido responsável pelo que aconteceu aqui, tá muito encrencado. Olá? Alguém aí?
Andou uns passos adiante, fitando a escuridão. Mas abruptamente uma mão que lembrava a pata de um inseto, mais precisamente uma barata, agarrou a perna esquerda do policial que instintivamente apontou a luz para mais à frente. A última coisa que vira foi o um rosto insectoide com características humanas lhe soltar um grunhido selvagem. O ser híbrido puxara-o, arrastando para o breu onde seu grito de horror foi se distanciado e reduzindo.
A lanterna caiu largada ao chão, tremeluzindo até apagar-se.
***
Um casal, no meio da noite, realizava uma fuga esperta até um lugar específico para terem a aguardada primeira vez. Pararam frente a um motel com luzes de néon rosas no seu letreiro e foram entrando animados e sorridentes. Seguiram por um corredor vermelho com iluminação na mesma cor, de mãos dadas e trocando olhares apaixonados.
Porém, uma surpresa recaiu sobre a moça de longos cabelos castanhos claros com franja. Haviam adentrado numa sala repleta de pessoas nuas se relacionando sexualmente. A mulher virou-se ao companheiro, ficando horrorizada com os olhos totalmente pretos que ele exibia para ela com um sorriso sacana. Dentes pontudos e salientes pareciam querer romper a pele, assustando-a definitivamente antes de ser agarrada para ceder ao ato à força.
Elton Hartley despertou num sobressalto na sua cama King Size de límpidos lençóis brancos. O bilionário quase pulou após o sonho que se relacionava diretamente à visão que Chernobog compartilhou por meio do seu recipiente de segurança, o paciente zero mantido sob externa bateria de testes na ala biomédica da Globemax. Ofegava, passando as mãos nos cabelos pretos lisos, atônito com o pesadelo que estava tomando forma na sua vida.
— Tem alguma coisa errada comigo... Eu não sou normal... Sou um monstro, uma aberração.
Enquanto isso, Frank foi a um lar assistencial para idosos onde focalizou sua atenção numa mulher usando chapéu feminino dos anos 1920 que alimentava pombos no jardim. Se direcionou à ela calmamente para aborda-la de um modo amigável.
— Olá, bom dia. Manhã gostosa, né? Parece que vai fazer sol o dia todo e a neve vai ter que esperar. — disse o detetive ganhando uma expressão simpática dela com suas bochechas coradas — Assim como também nem parece que o mundo tá acabando.
— Fico feliz que esteja acabando. Já não era sem tempo. — disse ela, jogando migalhas de pão aos pássaros — O ser humano falhou no seu propósito de existência em todos os sentidos. Dá pra acreditar que ainda temos escapatória do juízo final?
— No momento, eu... duvido muito. — disse Frank, ansioso em tratar do assunto que gostaria de discutir — Se importa de eu me sentar ao lado da senhora? Eu me chamo Frank Montgrow, sou detetive do DPLA, não vim incomoda-la, apenas quero fazer umas perguntas.
— Tudo bem, só não assuste os meus filhinhos de asas. O que deseja saber de mim, detetive Montgrow? Alguma coisa lhe interessa a meu respeito?
— Sim, ahn... A senhora chegou a ser mãe?
— Há duas respostas pra essa pergunta: sim e não. — disse ela — A propósito, meu nome é Margot. Pode me chamar assim, como queira.
— Está bem... Ahn, será que poderia explicar melhor quanto a sua maternidade?
— Não fui nada mais que uma progenitora. Mas insistem em igualar esse termo ao papel de uma mãe. Eu não me senti capaz de dar a criação digna ao meu filho pelas circunstâncias.
— Se refere a como se deu a concepção dele?
— Por favor, eu sinto as minhas entranhas revirarem toda vez que aquela noite me volta a memória. Se eu pudesse apaga-la, eu o faria sem pestanejar. Mas já que quer tanto saber... Eu conheci um homem num bar desqualificado no Kansas e agimos precipitadamente, se é que me entende. Mas tudo porque ele me induziu a fazer o que queria, tão sedutor... tão tentador. — disse Margot, seus olhos azuis penetrantes — Fomos a um lugar onde pudéssemos fazer o que nós dois queríamos. Mas... o que eu havia encontrado ali passou longe de qualquer limite. Ele era um homem sedento por quebrar regras. Por isso não quis uma relação a dois, se é que me entende. Mas eu sabia que era ele o pai do meu bebê.
Frank depreendia exatamente o que Margot relatava acerca da noite em que foi subjugada sexualmente.
— Se eu não tivesse visto aqueles olhos, eu não saberia no meio de toda aquela gente depravada. — continuou Margot, sua seriedade quase saltando — Não sei vai acreditar em mim...
— Não, o que tiver de absurdo que queira me falar, não vou julgar como loucura. Depois de tudo que aconteceu nos últimos dias, difícil alguém achar que coisas de outro mundo sejam pura fantasia do imaginário coletivo. Os tempos são outros agora, o extraordinário se revelou.
— Eu estou ciente. Desde aquela noite. Aqueles olhos... aqueles malditos olhos pretos.
— Olhos pretos... em que sentido?
— De serem completamente odiáveis. Parecia uma tinta preenchendo todo o globo ocular. E também haviam dentes selvagens... que pareciam querer rasgar a pele e mostrar a verdadeira face daquele sujeito persuasivo.
Frank balançou positivamente a cabeça, já entendendo o problema que Margot havia atraído até culminar numa gravidez indesejada.
— Em que ano exatamente você o conheceu?
— Acho que... Não, tenho certeza, não estou demente como acreditam meus cuidadores, só criei uma situação para estar aqui e não me sentir tão solitária. — desabafou Margot, amassando o pão ao se inquietar — Foi em 1982. Há exatos 40 anos.
O detetive ficou pensativo fazendo um lento menino positivo de cabeça para a informação, mordendo os lábios. O ano correspondia a data de nascimento contido na certidão de Elton Hartley presente no arquivo do orfanato.
— E o nome do orfanato para o qual a senhora o entregou?
— Estrela do Amanhã. — respondeu Margot.
— OK, isso é tudo. — disse Frank, levantando — Uma pena que o Estrela do Amanhã foi destruído com a queda de Danverous City.
— Mas ele foi refundado aqui em Los Angeles no ano passado. — revelou Margot — As irmãs tinham memórias sombrias do antigo lugar.
— É, eu tô inteirado disso, só não sabia que tinham migrado pra cá. Olha, foi um prazer, agradeço por se abrir comigo.
— Mas já vai? Podia ser sua vez de se abrir agora. — sugeriu Margot o encarando com empatia — Parece tão triste, abatido... Talvez deva conversar sobre o que o atormenta.
— Quando me sobrar um tempinho, venho te visitar, Margot. Agora tenho que ir mesmo, a labuta me chama. Eu tô bem, só... alguns probleminhas de casa. Até mais. — disse Frank, logo virando-se e andando para ir embora.
— Sei que não fará como os meus outros três filhos que tive depois! Até mais, detetive.
Frank acenou de costas, andando depressa para o BMW, mal se aumentando de vontade em contar para Carrie do que apurou.
***
Agnes saía de uma discreta loja de antiguidades que também revendia itens de uso essencial para bruxas e videntes. A bruxa necronomiana usava um vestido preto com detalhes particulares em púrpura forte, além de óculos escuros apesar do sol enfraquecido pelas nuvens predominantes e o clima trazendo a agradável sensação térmica de 24. Mas antes que alcançasse o carro preto de um motorista funcionário de Hoeckler na ESP, uma aparição surpreendente barrara seu caminho.
— Você é... — disse ela, espantada, tirando os óculos ao olha-lo dos pés a cabeça.
— Raguel, segundo general do batalhão dos ofanins. — disse o anjo, cortês, seus cabelos loiros abrilhantando mesmo com a luz solar amena tal qual a polidez admirável sua armadura dourada — Poderíamos conversar?
— No momento eu não disponho de tempo, mas... — disse Agnes dando olhadelas nervosas para o carro — Por que um anjo iria querer ouvir o que um ser ímpio como eu tem a dizer?
— Depende do que vem a ser tratado. E agora tenho um bom motivo para solicitar que colabore de alguma forma. Eu não tenho preconceitos com sua classe, a propósito. Pelo contrário, acho que são vítimas fatais da intolerância e da injustiça, embora seja uma pena que muitas de vocês utilizem suas práticas para prejudicar a terceiros egoisticamente. Sei que tem vínculo com Frank Montgrow e está tentando se reformar.
— Tem mesmo certeza de com quem está falando? — perguntou Agnes, inclinando-se para Raguel e levantando uma sobrancelha.
— Claro, estou ciente dos seus atos recentes. É por sua causa que o Grande Mal está liberto.
— Frank também teve sua parcela de culpa ao querer transferir a chave e a fechadura da prisão de Chernobog a um anjo banido. — ressaltou a bruxa — Em minha defesa, eu só acatei a um plano sob a condição de sair livre com o Necronomicon.
— E por conta de recuperar o livro maldito, dois serafins pagaram com suas vidas. — acusou Raguel.
— Eu diria que eles vieram numa hora bastante oportuna. — disse Agnes, relembrando com um sorriso satisfeito do momento.
— Eu não vim recrimina-la. — esclareceu Raguel.
— Mas foram anjos, deveria estar aqui para terminar o que eles começaram sendo você o honorável comandante de um batalhão de elite. Mas já que deseja uma conversa pacífica em vez de uma retaliação... não vou rejeitar, mas preciso que seja breve, alguém me espera.
— Quero que entregue isto a Frank. — disse Raguel dando a bruxa uma esfera cristalizada do tamanho de uma bola de golfe.
— O que quer que eu faça? Que eu dê de presente um pequeno globo de cristal? Posso sentir uma mana extraordinária emanando dele... É poderoso, é primitivo... celestial na mais pura substância.
— Uma dimensão de bolso. Mas não qualquer uma. Nós, ofanins, temos autonomia sobre realidades físicas para testarmos nosso potencial de semelhança com o Altíssimo.
— Entendo. Mas por que eu? Por que não entregar pessoalmente ao Frank?
— Você é a garantia de que o Grande Mal permaneça selado por mais tempo do que a estrutura da dimensão é capaz de suportar.
— Eu até poderia inserir um feitiço de selamento poderoso o bastante com o Necronomicon, mas Frank não faz ideia de onde se encontra a partícula original de Chernobog.
— Ele se fragmentou a um nível subatômico, mas não representa certeza de fracasso. — destacou Raguel a olhando com sua truculenta seriedade — Se a dimensão traga-lo, as extensões dele serão eliminadas. Então, Frank não precisará se preocupar com as provações que ele e outros sete foram submetidos a fim de obter uma cura improcedente.
— Que provações? Ao que se refere?
— O Grande Mal colocou o maior dom de Frank à prova para conquistar um prêmio inestimável. Não só ele como também mais almas, alimentadas por um espírito ambicioso de competição que só irá os corromper. — sintetizou Raguel deixando Agnes um tanto chocada — Frank é a principal vítima envolvida, portanto, no momento, está inapto a passar pelo teste da Flamígera. Mas se tiver sucesso em trancar o Grande Mal na dimensão, todo o tormento será findado, pelo menos por ora, por tempo suficiente para Frank se dignificar.
— Mas o que impede exatamente Frank de empunhar a espada sendo digno?
— A marca que o Grande Mal imprimiu em cada um dos seus seletos caçadores. — afirmou o ofanim levando a bruxa a rememorar o dia anterior quando vislumbrou a tatuagem de Natasha que tanto despertou sua curiosidade.
— Eu... farei o que estiver ao meu alcance. Mas tenho uma última pergunta. — disse Agnes que foi interrompida pelo motorista buzinando para ela vir depressa — O que é essa tal dimensão? Pra onde Chernobog deve ser mandado?
Raquel a fitou por um instante em mistério e depois olhou rapidamente para a esfera transparente que parecia um diamante bem lapidado.
— O Jardim do Éden. — respondeu ele, friamente. O ofanim desapareceu num piscar de olhos diante da bruxa que foi voltando ao carro quase boquiaberta com o choque pelas notícias.
***
Frank estava de volta ao bunker após a ida ao asilo onde a mãe de Elton Hartley se autoexilou. Foi direto a sala de pesquisa onde estavam Carrie e Giuseppe conversando.
— Opa, tô de volta. Alguma novidade? Eu sei que não devia falar "boa notícia" porque todas são ruins ou péssimas.
— E continuam ainda piores. — disse Carrie de olho na internet pelo laptop — Mas antes de você saber da mais nova bomba sobrenatural que você terá que desarmar, eu e o Giuseppe estamos ansiosos para ouvir o que a senhora Hartley disse tim-tim por tim-tim.
— Ela não é senhora Hartley, o nome dela é Margot. Entregou o filhote de capeta ao orfanato em 1982, quarenta anos atrás. O Hartley fez uma festa de arromba pra festejar as quarenta primaveras há uns meses, então... é ela mesmo. — disse Frank permanecendo de pé perto deles — Ela se afastou da família por se sentir sozinha e se exilou no asilo.
— Ela chegou a contar do que se lembra do pai de Hartley? — perguntou Giuseppe.
— Era um demônio. A seduziu levando ela pra uma suruba. Acho que ela só soube que ele era o pai depois que o Hartley manifestou o poder dele ainda bebê. — disse Frank ainda abismado com a informação — Viu que não daria conta de criar um monstro e cedeu a guarda pras freiras. Nesse caso, acharia bem aceitável deixar numa caçamba de lixo pra quem tivesse o azar de encontrar e pegar no colo pra adotar.
— Não, isso é maldade, mesmo pra um bebê fruto de uma fornicação com um demônio. — opinou Carrie franzindo a testa.
— Verdade, ainda é uma vida inocente inldendente da sua natureza. — concordou Giuseppe.
— Mas sendo meio humano e meio demônio... o que ele é? — questionou Carrie.
— Um demione. — respondeu Frank — Não tô inventando, é um termo verídico na comunidade caçadora. Apesar de com certeza haverem centenas deles por aí, ninguém nunca teve a chance de topar com um e matar.
— É bem óbvio, demônios são movidos a luxúria e depravação, não seria estranho existirem proles com humanos espalhadas aos montes. — disse Carrie
— Mas por que nunca se ouviu falar de ocorrências envolvendo esses seres híbridos? — indagou Giuseppe.
— Os demiones costumam despertar o lado demoníaco na adolescência, mais por gatilhos emocionais do que uma coisa automática e súbita. — revelou Frank.
— Será que a Carrie, a estranha, era um desses? — se perguntou Carrie — Queria ter o telefone do Stephen King.
— Alguns nem chegam a despertar, vivendo normalmente como humanos civilizados até a velhice. — acrescentou Frank — Talvez fosse o caso do Hartley, provavelmente ele não passou por muitas situações onde ficou angustiado ou traumatizado, até porque viveu no bem-bom a maior parte sendo mimado pelos pais adotivos e ricaços. Mas com o Chernobog no pedaço, ele é sondado e a podridão da alma dele vai ser despertada. Não tem como salva-lo disso.
— Só se o paciente zero estiver no complexo de biomedicina da Globemax. — especulou Giuseppe — Supondo que a natureza oculta de Hartley se manifeste graças à influência direta do Chernobog em sua versão original.
— Será mesmo? Olha, Giuseppe, se você acertar essa, te mando um presente dos bons se eu tirar você no amigo secreto. — disse Frank, empolgando-se com a teoria válida do ex-chefe.
— Vamos fazer um amigo secreto? — indagou Carrie — Não sei se tô no clima pra isso... especialmente depois de anteontem.
— Foi ideia do Hoeckler, pasmem. Ele disse que seria uma boa opção pra quebrar a atmosfera negativa que todo esse problemão com o Chernobog vem criando. Eu topei na hora. Vocês estão dentro?
— Por mim, sem problema. — disse Giuseppe, aberto a ideia — Pelo menos algo divertido pra tornar esse natal menos sombrio. Mas você, Frank, tem a obrigação de vencer esse jogo pra que possamos ter uma festa e não um memorial fúnebre.
Agnes passava despercebida pela sala e parou olhando rapidamente pela brecha da porta entreaberta, ouvindo a menção ao jogo. Tornou a andar, decidida sobre o que fazer em diante.
— Fica tranquilo, eu vou dar o máximo de mim nessas semifinais. — garantiu o detetive — Ah, mais uma coisa sobre o Hartley: o orfanato onde ele cresceu é o Estrela do Amanhã.
— Nome familiar... Não é o mesmo em que o Fred também esteve? — perguntou Carrie.
— Exato. Agora tô na dúvida se o Fred chegou a conviver com ele por algum período.
— Onde será que ele está agora? Será que escapou do inferno? — quis saber Carrie.
— O Agares, o então novo diabo, disse que ele resolveu permanecer lá como autopunição. Inclusive, o Agares quis inseminar um filho na Audrey, a mãe adotiva do bebê anjo, talvez pra criar um potencial a ser o anticristo.
— E com quem está a posse do inferno? — indagou Giuseppe, curioso.
— Não faço ideia. Dane-se, não ligo pra quem manda naquela merda. Carrie, fala aí a tal bomba do dia. Numa escala de zero a dez, quão grave é?
— Acho que um nove. Escuta só: moradores de Bervely Hills relataram avistamentos de seres estranhos na noite de ontem e parte da madrugada. Algumas fotos chegaram ao conhecimento da polícia. Vem ver aqui.
A assistente clicou numa imagem capturada por celular mostrando uma criatura humanoide possuindo asas de inseto, mais precisamente de uma mosca, revirando o lixo num beco.
— Como é que essas testemunhas burlaram o toque de recolher? — perguntou Frank.
— Frank, pra muitos regras existem para serem quebradas. A pessoa não se identificou no depoimento. Disse que logo após tirar a foto, a criatura percebeu sua presença e foi aí que se deu conta de que o homem-mosca não estava se alimentando do lixo.
— Carne humana. É, vai precisar bem mais que isso aí pra me impressionar. Esse monstro foi o único flagrado fazendo uma boquinha?
— O restante dos depoimentos não trazem fotos como provas. Mas alguns relatam algo em comum: insetos. Homem com aparência de barata, outro de um gafanhoto, outro de uma vespa... Argh, fico arrepiada só de pensar. Imagina só, uma barata antropomórfica carnívora. Sorte que nenhum deles tem características de abelhas, né, Frank?
— Nem tenta me zoar, eu já superei essa fobia tem uns anos. — rebateu Frank com um sorrisinho de canto — OK, tenho quatro homens-insetos pra macetar. Mas dessa vez não tô afim de repartição de pontos.
— Então se aparecer um outro caçador lá, você vai... — disse Giuseppe.
— Não, no máximo vou atrasar. — corrigiu Frank antes que ele dissesse — A Miyako ainda tá no jogo e... Eu não teria coragem de partir pro extremo de mata-la só pra abocanhar esses monstros todinhos pra mim.
— Mas e a tal da Sarah, a caçadora durona? — indagou Carrie.
— A mesma coisa, embora ela seja um pé no saco. O Dylan já era, foi estripado pelo Mister M. E é dele que tenho mais medo. Na certa, ele aparece, é Bervely Hills e esses bichos estão fazendo a maior farra nas ruas devorando gente que viola o toque de recolher. Não importa, não vou deixar ele ficar nem com um pedacinho de asa, nem que ele me frature todas as costelas.
— Vá com calma, Frank. Melhor tomar cuidado com o que deseja. Se é um adversário perigoso, tente agir da mesma forma que com os outros, não o enfrente num conforto aberto. — aconselhou Giuseppe, levantando-se.
— Ahn, além do mais... Olha só, uma provável pista da origem dos nossos insetos monstruosos. — disse Carrie abrindo uma página de notícias que reportava sobre desaparecimentos — Na noite de anteontem, quatro jovens desapareceram, os pais estão morrendo de desespero sabendo que eles combinaram de furar a quarentena. Os ataques só iniciaram efetivamente na noite de ontem, mas o sumiço de um policial que patrulhava no dia que os jovens afrontosos armaram a fuga se reunindo nos arredores de um complexo industrial. Lá foram achados quatro corpos carbonizados e vestígios de insetos como peles, asas e um cheiro muito forte e desagradável. Aqui as fotos dos corpos torrados até os ossos.
— Foi nesse local que tudo começou. Não só morreram carbonizados, passaram por metamorfoses, como se tivessem saído de casulos. — aferiu Frank ao visualizar as nauseantes imagens — E eu pensando que teriam vindo do submundo, era a hipótese mais óbvia.
— Alguma ideia do que poderia ter transformado esses jovens em monstros asquerosos com cara de inseto? — perguntou Giuseppe acendendo um cigarro.
— Um velho conhecido meu. — disse Frank recordando-se de um inimigo que até então havia caído no esquecimento, mas a partir dos indícios claros pôde enxergar sua ação voltando a tona — Se tem inseto na parada, eu já sei que é ele.
— Me contem mais depois, vou no banheiro. Sei que odeiam a sala fedendo a nicotina. — disse Giuseppe andando para sair da sala e fumar num local mais reservado. Porém, o ex-diretor fora travado pela aparição abrupta de Chernobog usando um infectado do vírus miasma — Meu Deus... — falou, recuando nervoso e deixando cair o cigarro. O homem com uniforme de metalúrgico e infectado pisou sobre o cigarro para apaga-lo.
— Não se dê ao luxo de causar a própria morte lenta. — disse a entidade — Esse papel cabe à mim.
Carrie estava congelada de medo e foi tranquilizada por Frank que gesticulou para ela se manter onde estava.
— O que tá fazendo aqui? Veio me dizer alguma coisa do jogo? — exigiu saber Frank.
— Vejo que está ciente do que fazer esta noite. Será um páreo árduo de se aguentar.
— Eu fiquei sabendo primeiro desse caso então a licença pra matar pertence a mim, né?
— Regra anulada. Era limitante. Proporciona mais emoção ver todos se digladiarem para arrancar um pedaço da criatura alvejada sem oferecer poder a um determinado jogador.
— Ótimo, você só quer se divertir vendo a gente se matar pra completar essa marca, eu sei. Devia ter pensado nisso antes.
— Mas pensei, Frank. Apenas não era conveniente naquela altura. — justificou Chernobog sorrindo com a face extremamente pálida e quebradiça do infectado — Espero que esteja pronto para rever seu maior adversário.
O detetive expressou certo pasmo ao imaginar a quem a entidade estava se referindo.
— Não... Você não tá querendo dizer...
— Sim, Frank! Eu o adequei ao jogo novamente. Suponho que tenha sabido da fuga em massa do vigésimo quinto distrito policial de Oklahoma City. Ninguém é retirado do desafio assim tão simplesmente. Faria o mesmo com você, com todos, os trato como iguais... até o sujeito anônimo que deixa você tão obcecado.
— Que merda... — disse Frank cerrando os dentes em raiva — Duas pedras nos meus dois sapatos. Mal posso esperar.
— E-ele não tá mentindo. — disse Carrie — De fato, ocorreu uma rebelião na prisão dessa delegacia na capital de Oklahoma. Disseram que de repente surgiram infectados mesmo com todos os protocolos de segurança rigidamente cumpridos. Foi na noite anterior à morte da Natasha.
— Quando eu tava na floresta caçando o Baykok. Por que não me avisou, Carrie?
— Foi mal, você sabe... Fiquei tão extasiada com a sua ideia de hospedar a Natasha aqui que minha cabeça ficou uma bagunça, ainda mais depois da invasão daquele demônio desgraçado que a matou. — disse Carrie que voltou seus olhos para Chernobog, mudando drasticamente sua expressão — Foi você... Foi você que o enviou até aqui pra eliminar mais alguém do seu joguinho nefasto, não foi? Foi você!
A assistente levantou repentinamente da cadeira dominada pela vontade de partir para cima de Chernobog, mas foi contida por Frank que a agarrou com as duas mãos.
— Carrie, não faz isso! Se controla! — pediu Frank que lançou um olhar fuzilante à entidade — Sai já daqui, seu bosta! Eu juro que eu ainda vou te pegar! Prometi isso na nossa primeira conversa, lembra? Vou vencer esse jogo e te deitar na porrada com esse instinto do Orion!
Chernobog sorriu pleno com o rosto do homem.
— Não se atrase... ou vai desperdiçar suas ínfimas chances.
A entidade desapareceu em nanosegundos, deixando Carrie cair joelhos em um choro copioso ainda dilacerada pela morte de Natasha. Frank se ajoelhou também para ampara-la com a cabeça dela sobre seu peito.
***
No gabinete particular de Hoeckler, Agnes surgia batendo na porta escancarada. O presidente da fundação se virou, reagindo um tanto surpreso, mas logo expressou certa indiferença ao arrumar uma pilha de papéis numa pasta sobre a mesa.
— Agora não tenho tempo pra discutir nossa relação. Tente mais tarde... ou não tente.
Agnes bufou e foi logo entrando, fechando a porta com ar impetuoso. Hoeckler parou sua tarefa, suspirando como sinal de cansaço ao esperar uma perda de energia com mais um desenrolar na crise de relacionamento.
— Theo, o que devo compartilhar com você não pode ser adiado. É grave e certamente de todo o seu interesse. Melhor sentar, talvez perca o equilíbrio. Não é assim que você se sente quando descobre ter sido enganado?
Hoeckler voltou-se a ela de má vontade e assumiu uma postura paciente.
— O que tem a me contar de tão agravante? Seja direta, não quero essa conversa se prolongando pra mais do que uns cinco minutos.
— Frank esconde um segredo de você desde que veio pra cá. Um anjo chamado Raguel me avisou para entregar isto a ele. — disse Agnes mostrando a esfera de cristal tirada de sua bolsa — Disse ser uma dimensão de bolso, um universo inteiro que eles podem controlar na palma da mão.
— Raguel... Esse nome não me soa estranho, acho que Frank já chegou a ter contato com esse anjo certas vezes... Mas por que abordou você? Foi pra reprimir o uso do Necronomicon?
— Apesar de saber que precisei do sangue de dois anjos mortos pra ressuscitar a convenção, ele não me puniu. Me encarregou da missão de encantar a esfera para que sirva de prisão para Chernobog. Frank deve cuidar do resto. Já descobriram o paradeiro do paciente zero?
— Acha que ele e os amiguinhos na sala de pesquisa dividem alguma informação crucial comigo? Não perdem por esperar, sabem como detesto que fiquem de segredinhos num grupo fechado. Somos todos uma equipe, além de que sou o chefe dessa organização, não admito ser privado de fatos importantes. — disse Hoeckler, categórico — Se Frank me esconde algo, como venho suspeitando há alguns dias, ele terá que se ver comigo e reavaliar essa conduta.
— É o que deveria estar dizendo a ele agora. Lembra da tatuagem daquela caçadora? Ela notou que reconheci a marca de Chernobog e cobriu na hora. Frank também possui essa marca, além de mais outros quatro caçadores.
— O quê? Mas... o que diabos significa isso? Algum tipo de seita? Frank é um agente duplo?
— Não, mas está trabalhando sob o jugo de Chernobog em um tipo de jogo que consiste em caçar um determinado número de criaturas para completar a marca disputando um prêmio que teoricamente é uma cura para o vírus. — revelou Agnes, firme no tom — O que vai fazer a respeito, Theo?
Hoeckler imergiu em pensamentos, sua expressão denotando o choque da revelação. Um sentimento de traição lhe esquentou o sangue.
— Agradeço pela ajuda. Só não seja ingênua de esperar que isso altere nossa situação.
— Eu sei que não vai. — disse a bruxa o olhando fundo nos olhos. Retirou a aliança de compromisso do dedo anelar direito — Mas quando quiser recomeçar... lembre-se disso. — pusera na mão esquerda dele, a fechando.
O presidente da ESP colocara o anel no bolso, não dizendo mais nada ao sair da sala. Fora até a sala de pesquisa a passos largos. Felizmente para ele Frank ainda estava lá. O detetive assistia a um filme com Carrie no sofá enquanto Giuseppe mexia no celular carregando.
— Ah, que ótimo vê-lo ainda por aqui, Frank. — disse Hoeckler, fechando a porta com força. O ato inspirou algo ruim em Frank, levando-o a baixar o volume da TV e se levantar — Tenho grandes novidades a revelar.
— Nós também temos. — disse Frank indo até ele — Mas não é bem uma certeza, só que não custa confiar. Fala você primeiro.
— Tudo bem... Vou ampliar as operações geograficamente. A ESP ficará mais exposta, mas não tem problema, a realidade anômala não é mais nenhum segredo de estado. É justificável eu fazer isso levando em conta o conhecimento público. Agora quando se trata de um grupo limitado dentro de outro bem maior omitindo fatos do líder... já é bem diferente. Sabe onde eu quero chegar, né, Frank?
O detetive fez um meneio positivo de cabeça, o semblante sério comprimindo os lábios. Carrie lançou um olhar tenso para o amigo enquanto Giuseppe encarava ambos com preocupação.
— Quer que eu abra o jogo? Tá aqui. — disse Frank, levantando a manga esquerda do sobretudo preto, exibindo a insígnia de Chernobog tatuada no antebraço — Você bem que desconfiava, né? Vi o jeito que olhou pra Natasha na hora em que a Agnes percebeu ela escondendo a tatuagem quando ia dizer que aquela era a marca do Chernobog. Esperou passar o funeral só pra me colocar contra a parede cobrando explicações.
— Por que fez isso? — indagou Hoeckler — Por que escondeu essa sujeira debaixo do tapete achando que eu fosse cego ou idiota? Pensei que fôssemos uma equipe sólida e firmada no mesmo propósito. Mas não, você, com seu ego inabalável de caçador, resolveu priorizar uma agenda própria ocultando algo de suma importância pra nossa missão. Você me subestimou, Frank. Sabe como eu me sinto? Traído pelo homem em quem mais confio!
— Para de drama, eu não quis te dizer nada porque você ia ferrar com tudo!
— Defina isso pra mim, por favor.
— Interferindo numa parada que não é da sua conta! Quer que eu seja mais claro? Se quiser, eu até desenho. — confrontou Frank, os nervos aflorados — O Chernobog é imprevisível demais pra apostar alto em qualquer plano de ação. Ia fazer o quê? Mandar seus homens se meterem na competição? Pedir pra eles serem inclusos?
— Iria monitorar suas ações, bem como causar alguma intervenção se preciso fosse. Não tenho medo de lidar com inimigos imprevisíveis porque eu sou um! Você é prova viva disso.
— Chega! — berrou Carrie se pondo entre eles — Essa discussão não vai ter fim enquanto o mundo acaba lá fora. — voltou-se a Hoeckler — Frank não traiu você, apenas queria que a tropa da ESP não sofresse baixas se Chernobog evitasse qualquer interferência no jogo. Imagina quantos homens você perderia se envolvendo.
— Foi nesse raciocínio que coadunei com isso. — disse Giuseppe se juntando a Frank e Carrie — Homens de família sacrificados em vão. No seu lugar, eu não os trataria como meros peões no tabuleiro.
Uma epifania se deflagrou na mente de Hoeckler com os argumentos proferidos em oposição à sua linha de pensamento.
— Está bem, sem intromissões. Mas quero meus soldados na linha de frente contra o Hartley.
— Aproveita essa noite então. Porque o paciente zero tá muito possivelmente na ala médica da corporação do dito cujo. — disse Frank, um pouco mais calmo.
— E você, onde estará?
— Em Bervely Hills detonando com uns monstros com cara de inseto que perambulam por lá fazendo vítimas durante o toque de recolher. Tenho que vencer esse jogo, não pela cura, porque ela não existe.
— E que tipo de prêmio é esse? Uma medalha de ouro pro melhor caçador do mundo? Ou prefere esconder isso de mim também?
— É um frasco. — informou Frank a contragosto — Um frasco contendo o sangue do meu ancestral mais antigo, o Orion. Se eu beber, vou me encher de uma força tremenda que só ele tinha. Pra mais detalhes, fala com o Zaratro.
— Os que são eliminados do jogo...
— São mortos pelo vírus. — completou Frank — A marca se converte nele e infecta quando sofre algum risco de morte na caçada. Essa é a única regra fixa. A Natasha morreu por isso. E mais morrerão, infelizmente. Talvez seja eu... ou não.
Um instante de silêncio pesou sobre os quatro em uma partilha de sentimentos melancólicos.
— Me avise quando sair. Preparo um grupo de força-tarefa móvel em direção a Globemax. — determinou Hoeckler — Vamos varrer tudo atrás desse moribundo.
— Mas encarar o Hartley pode não ser moleza. — alertou Frank — Como o anticristo, ele é um monstro, no caso um demione, metade humano e metade demônio.
— Como um nefilim? — indagou Hoeckler, surpreso.
— Não tão poderoso quanto um, mas vai dar trabalho se já tiver despertado sendo marionete do Chernobog. Todo cuidado é pouco.
— Mas você terá que nos cobrir quando encerrar em Bervely Hills. Agnes dirá a você depois. Eu vou notificar meus homens. — disse Hoeckler prestes a sair — Frank, você, mais do que qualquer um de nós, tem a obrigação de sobreviver à isso. Não me decepcione.
O ex-superintendente saiu, fazendo Frank expirar o ar aliviado, tocando no ombro de Carrie.
— O que será que a Agnes tem pra você? — perguntou Carrie.
— Tô louco pra descobrir. — disse Frank pretendendo procura-la em poucos minutos.
***
A noite em Bervely Hills iniciou de modo agitado pelo recantos onde as criaturas insectoides agiam nas sombras. No complexo industrial próximo de onde a reunião dos jovens impetuosos tivera um desfecho trágico, Miyako corria freneticamente olhando para trás inúmeras vezes. Acabou batendo a cabeça numa coluna de aço e caindo. A criatura com traços anatômicos de mosca voava produzindo um zumbido arrepiante. Com seus múltiplos pequenos olhos, visualizou a presa vulnerável.
— Ai... Droga. — disse Miyako, tentando levantar com a dor da batida latejando na testa — Não, fica longe de mim... Sai daqui! — gritou ela, se arrastando quase sentada a mercê da mosca humanoide que voava baixo para ataca-la. Porém, um tiro a acertou em cheio, derrubando-a. Miyako olhou para trás, tensa, mas logo sorriu aliviada — Entrada triunfal. Mandou bem.
— Me diz que você não veio pra cá desarmada. — disse Frank, armado com um rifle, estendendo a mão direita para levanta-la — Vem... Ótimo. Tenho umas granadas de inseticida aditivado aqui. Se quiser umas...
— Valeu, Sr. Montgrow. — disse a caçadora, pegando os artefatos. A criatura de repente tivera um espasmo súbito, assustando ambos. Convulsionou se debatendo com grunhidos grotescos parecendo agonizar pelo tiro.
— Vambora. — disse Frank pegando Miyako pelo braço para saírem dali depressa. A criatura parou com os espasmos e foi rastejando com uma trilha de sangue deixada. De sua boca afunilada expeliu uma gosma ácida esverdeada que atingiu a perna esquerda de Miyako.
— Ele me acertou! — disse ela ao cair, mas foi segurada por Frank prontamente — Sr. Montgrow, melhor ir sem mim...
Frank a deixou deitada indo direto ao monstro. Disparou dez vezes contra a cabeça da mosca humanoide com uma pistola numa demonstração enfurecida de vingança. Voltou para Miyako e conferir o quão grave era o estado.
— Peraí, não se mexe muito... Deixa eu ver...
— Não... Tá doendo demais, que merda... Eu fui uma idiota! Sou uma vergonha como caçadora! Uma vergonha pros meus pais, pra todo o clã!
— Não diz isso, você é uma das mais valentes que já conheci, só não tava preparada pra lidar com tantos monstros fora do seu hábito. — disse Frank olhando o ferimento com o ácido verde que corroía a pele até os ossos — Meu Deus...
— Tá horrível, não é? — indagou Miyako, a voz de choro e dor combinados.
— Não... Não tá muito feio, só fazer um curativo...
— Não mente pra mim! — exclamou ela, as lágrimas rolando — É o fim da linha pra Miyako Yamazaki... Eu sabia que seria hoje. Sr. Montgrow... Quem perde nesse jogo não vai pro céu e nem pro inferno, confere?
Frank fez um meneio positivo de cabeça, a tristeza chorosa tomando conta de sua face.
— O Limbo. É pra lá que os eliminados vão.
— Então... Não é de todo ruim... morrer assim. — disse ela, trêmula, a pele se tornando incolor com o vírus miasma progredindo no organismo — Vou reencontrar o Nathan... Se ele estiver lá, já estarei me sentindo no paraíso. Agradeço todo o apoio que me deu. Nunca vou esquecer...
— Miyako... Não, não faz isso comigo, fica comigo! — disse Frank o choro transbordando dos olhos. A caçadora nipo-americana gorfou o sangue negro pela boca e pelos olhos, totalmente pálida como a neve. O detetive levantou-se e num impulso socou uma coluna de aço várias vezes, esbravejando urros.
— Sinto muito pela japinha. — disse uma familiar voz atrás dele. Frank parou com o acesso de fúria e voltou o olhar raivoso e inconformado para o sujeito, logo sacando sua pistola e apontando-a.
— Acho que tá atualizado do jogo, então se der mais um passo é bala direto no teu crânio. — ameaçou Frank para Omar que retornara.
— A situação atual não tá favorável pra gente reacender nosso conflito, não acha? Realmente eu estive planejando me vingar, mas... Algo no íntimo do meu ser foi mais forte e falou mais alto que esse rancor. Frank, será que podemos agir como verdadeiros heróis agora? Esse bairro será dizimado se nada for feito, preciso de você mais do que você de mim!
Frank baixou lentamente a arma e andou para pegar as granadas que Miyako carregava. As jogou uma por uma para Omar.
— Que se dane as regras. — disse o detetive — Vai ser nós dois na grande final. Nem que seja pra matar um ao outro.
— Nós e o máscara de ferro. Ele tá por aqui, o vi rasgando em pedaços a coisa com aparência de vespa. — informou Omar andando ao lado de Frank — Se visse o que eu vi... não pensaria duas vezes antes de fugir daquele cara.
— Não esquenta com isso. Na melhor das hipóteses, ele é o Chernobog trapaceando. Ele não iria ser estúpido de fazer um de nós enfrenta-lo na final sem... — fez uma pausa suspeita.
— Sem o quê? — perguntou Omar, desconfiado.
— Deixa pra lá... Eu tô sentido com a morte da Miyako, ficando pirado das ideias...
— Cadê aquela sua outra amiga? A britânica gostosa.
— Morta. — respondeu Frank, pesaroso — Dizer que sente muito não chega a ser natural num contexto como esse, certo? Então não diga isso pra mim enquanto esse jogo continuar.
Num condomínio residencial, um casal e seus dois filhos tentaram fugir pela escada de incêndio por conta de uma invasão de baratas. Porém, o pai acabara por cair sobre um latão de lixo enquanto os demais desciam.
— Pai! — chamou a menina, a filha mais nova, correndo para ajuda-lo. Mas parou ao ver que inúmeras baratas o envolviam, tomando-o. Ela gritou de horror.
— Fujam! — pediu o pai afundando nas baratas amontoadas como se fosse areia movediça.
— Não! – gritou a menina sendo puxada pela mãe e a irmã mais velha, ambas chorando — Papai!
Elas seguiram pelo beco escuro, mas a filha caçula foi agarrada no braço pela barata humanoide.
— Solta ela seu monstro nojento! — disse a irmã mais velha enquanto a caçula gritava de medo. Após desvencilhar-la, correram no lado oposto, mas a criatura bateu suas asas vermelhas e marrons voando sobre elas e logo pousando para barra-las. Os braços que lembravam patas de barata foram erguidos para beliscar pedacinhos das presas que gritavam abraçadas.
Contudo, o terror foi cessado graças a mão que brutalmente atravessou o peito da criatura por trás. A barata humanoide caiu inerte. O salvador era o caçador mascarado que limpou o sangue frio, viscoso e amarelado na roupa. Um tiro acertou sua máscara metálica, assistindo as vítimas.
— Fica paradinho. — disse Omar. Frank vinha logo atrás com o lança-granada em riste — Acabou com mais um, não foi? Que merda. Para de cortar o nosso barato!
— São quatro... Já foram três... — disse Frank que interrompeu a frase ao avistar uma massa estranha e distinta vir ao longe.
— Tinha mais um lá dentro! — disse a mãe — Parecia um... um gafanhoto mutante ou coisa assim! Façam alguma coisa, por favor. Meu marido tá morto, minhas filhas apavoradas...
— Todo mundo pra dentro! — alardeou Frank não tirando os olhos da direção de onde vinha a nuvem de gafanhotos — Vem vindo um exército de gafanhotos em peso pra cá! Milhares deles! Voltem pro prédio e procurem lugar seguro!
A mãe e as filhas correram retornando ao condomínio. Frank e Omar se entreolharam.
— O último que chegar... — disse Frank que não terminou a frase ao disparar para dentro do edifício. Omar o xingou alto, correndo atrás. O caçador mascarado saiu andando na rua vendo a nuvem de gafanhotos avassaladora como uma revoada sem precedentes. Os insetos passaram por ele que desapareceu rápido.
Frank e Omar subiam e desciam escadas pulando degraus, passando por corredores numa busca desenfreada pelo monstro. Omar atirava para advertir Frank, os olhos insanos de sede por matar. O gafanhoto humanoide derrubara o caçador da escada após vários tiros a esmo. Omar caiu de uma altura letal, mas suas costas bateram fortemente numa viga até que tombou numa piscina vazia na área de lazer do complexo. Frank correu ao socorro dele.
— Omar! Caramba... Não sei como ainda tá vivo, foi uma queda e tanto! A luz do prédio foi cortada, o bicho te pegou de jeito...
— Frank... Não sabe o quanto te odiei... por transtornar meu caminho. Mas é um jogo, então... eu preciso admitir a derrota quando não me restar mais nada.
— Vou chamar uma ambulância.
— Não! A última coisa que fará por mim... é cumprir sua palavra. — disse Omar — Me mata.
— Que nada, eu disse que seria nós dois como finalistas. E é assim que será!
— Eu não sinto as minhas pernas! Nem os meus braços. Eu fracassei. Não pode me salvar agora. Pelo menos, não pra me manter vivo.
A marca no braço do caçador se espalhou como o vírus nas veias desencadeando o processo. Frank o olhava com certo dó, mas resolveu atender a súplica. Apontou a arma à cabeça de Omar.
— Não hesite. — disse o caçador, chorando e empalidecendo — É melhor perder pra si mesmo do que pra um inimigo.
Frank expressou tristeza profunda e dera o tiro de misericórdia, a bala fazendo um buraco na testa do caçador que faleceu de olhos abertos. A nuvem de gafanhotos invadiu a área rapidamente, encurralando Frank. O monstro remanescente veio voando em ataque, suas asas batendo asquerosas. O detetive mirou o lança-granadas e disparou a bomba inseticida. O gafanhoto humanoide caíra com a fumaça tóxica, agonizando e apodrecendo.
— Essa foi por você, Omar. Podia ter suas falhas de caráter, mas... era um caçador de coração e lá no fundo queria fazer a coisa certa acreditando na cura pra todo esse mal.
A nuvem de gafanhotos se conteve, os insetos juntando-se. Logo, a figura de um ser espectral usando uma túnica preta esfarrapada materializava-se. Frank avançou com o lança-granadas.
— Aí está você! Há quanto tempo, né? Peste Sombria.
A entidade encapuzada o empurrou violentamente com telecinesia.
— Você tem algo que me pertence. — disse Peste Sombria com sua voz gutural. Frank retirou do bolso do sobretudo um gafanhoto que pegara da nuvem e escondeu. Usou um caco de vidro para fazer o sigilo de obliteração na palma direita com cuidado para o inseto não escapar.
— Sabe por que não tinha acabado com a tua raça antes? Porque nunca tive a oportunidade de fazer isso aqui. — disse Frank mostrando o símbolo feito a cortes na mão. Pusera o gafanhoto sobre a palma e o perfurou com o vidro, logo depois recitando um encanto para acionar o efeito do sigilo. Peste Sombria avançara contra o detetive alongando a boca com a qual emitia um grito estridente.
Frank terminou o recitamento antes da entidade alcança-lo em centímetros, vendo-a explodir em fogo azul pelo braços, depois as chamas estourando intensas pelo corpo até todo o resto ser consumido por elas numa explosão distorcida que misturava as cores azul e verde.
— Mal voltou e já foi. — disse Frank, tentando levantar — Mas dessa vez pra sempre.
Seu celular tocara e o tirou de um bolso interno do sobretudo.
— Alô? Tá certo, vou indo nessa... Eu sei o que fazer, a Agnes me contou tudo. Aguentem firme aí, tô chegando. Falou.
Após desligar, o detetive saiu quase mancando para chegar ao carro e rumar para a Globemax. No prédio da empresa, Hartley estava sentado na sua cadeira lambendo os dedos sujos de sangue estando rodeado de vários corpos de agentes da ESP que invadiram para pressiona-lo quanto a real localização do paciente zero.
— Se eu soubesse... que desperdiçaria quarenta anos de vida sem uma experiência prazerosa como essa... teria me autodescoberto bem antes. A minha outra metade. Tão perto e tão distante...
O bilionário tivera a sensação de mais alguém adentrando no prédio, mais precisamente na ala biomédica. Tirou os pés da mesa e levantou-se, desaparecendo em nanosegundos da sala. Frank chutou a porta do quarto onde repousava o moribundo homem possuodo por Chernobog.
— Te peguei. — disse Frank, retirando a esfera de cristal do sobretudo. A apontou para o paciente que lhe sorriu com os dentes negros — Tá rindo do quê? Você já era.
— Não esteja tão certo disso. — disse a entidade com a voz rouca do homem. Frank tomou mais proximidade, a bola começando a brilhar intensamente. O detetive virou o rosto apertando os olhos enquanto o homem abria a boca deixando sair uma espécie de fumaça negra e densa de escuridão pura sendo tragada para a esfera que ficava mais pesada. A palma da mão esquerda de Frank queimou, fazendo ele largar o cristal que caiu com impacto. Após a absorção completa, o moribundo enfim desfalecia na cama. A esfera exalava fumaça quente que Frank não ousou tocar.
— O que você fez? — vociferou Hartley, os olhos lretos demoníacos. Estendeu o braço direito, usando telecinese para jogar Frank contra uma parede e imobiliza-lo — Como chegou aqui?
— Um dos seus paus mandados foi forçado a falar com uma leve pressão na cabeça, se é que me entende! E aí, curtindo muito a vibe de demônio? Você tá morto por dentro, demione.
— É isso que eu sou, então? Pois saiba que jamais nessa vida me senti tão vivo e completo! Não sei quem você é, mas se for ligado à falsa equipe da SWAT que invadiu meu palácio sagrado, cometeu um grande erro. E sinto informar, mas estão todos destrinchados feito perus de natal alguns andares abaixo. — disse Hartley que logo voltou-se para o paciente zero, desconcentrando-se de Frank e assim o libertando. — Não, não, não! — berrou, os olhos voltando ao normal — Você não pode tê-lo matado! Ele me abençoou com um desígnio!
— Pelo contrário, te amaldiçoou! Você não tem culpa de ser quem você é, mas se ceder ao que ele acha que você deve fazer... será uma escolha consciente. Você decide. — disse Frank de volta ao chão.
Hartley o olhou enfurecido, o rosto vermelho.
— Eu sou o que eu faço.
— Um demônio assassino?
— Não. — contrariou Hartley ficando de frente ao detetive, os olhos enegrecendo — Um deus.
Frank moveu um carrinho grande de limpeza ao lado, empurrando-o com toda a força contra Hartley. Com a batida, o bilionário foi jogado contra a parede de vidro da qual caia uma água em cascata. A estrutura se estilhaçou inteira. Frank rasgou um pedaço da coberta da cama e apanhou a esfera cuidadoso. Porém, Hartley se reerguia, molhado de sangue e água, abrindo os olhos negros cujas íris estavam vermelhas e as pupilas logo brilhando em laranja.
— Sou eternamente grato a ele por me fazer entender quem realmente eu sou. Nada do que disser pode me demover.
— Merda... Tá pelando ainda... — disse Frank com dificuldade de pegar a esfera ainda quente.
— Deixa que eu te ajudo. — disse Hartley que tomou o artefato telecineticamente a sua mão.
— Não! — disse Frank que fez menção de sacar uma arma, mas o bilionário usou de um simples mover de cabeça com sua tremenda força psíquica para derruba-lo ao chão como uma peça de xadrez — Cacete... — resmungou, não sentindo um milímetro do corpo.
— Não se preocupe, cuidarei bem dele. — disse Hartley desabotoando a camisa e pressionando a esfera ao seu peito que a engoliu — O mestre e o aprendiz, agora amigos inseparáveis.
A parte do teto acima de Hartley queimou até desabar, provendo caminho para uma luz fulgurante e branca. Ele olhou para cima vendo uma centelha poderosa sair dentre um redemoinho de nuvens. Dela saiu um raio de luz branca potente caindo sobre Hartley a fim de desintegra-lo. Mas ao atingir o chão e atravessar até o térreo, ele já havia desaparecido.
Frank sentia novamente as articulações e levantou. Adrael surgiu repentino ali com seu traje angelical de combate.
— Frank! Você está bem?
— Adrael... Tá de uniforme... Voltou pro seu mundo? — perguntou Franl passando a mão atrás da cabeça onde sentia muita dor.
— Foi por um chamado de Rasiel, agrupou vários serafins para destruir o Grande Mal dentro da nova prisão. Fomos ao limite das nossas forças.
— Pois eu acho que não deu muito certo. O safado do Hartley se fundiu com a esfera e partiu antes de ser atingido por aquele mega raio laser. Não sabia que vocês podiam fazer aquilo. E como vocês observam o que rola aqui embaixo? Ah, esquece, quero ir pra casa e dormir como se não houvesse amanhã porque... agora mais do que nunca talvez não haja um amanhã.
— Disse esfera? Uma dimensão de bolso?
— Sim... O Raguel quem mandou, me deu a honra de aprisionar o coisa ruim e pediu pra Agnes enfeitiçar a bolinha. A essa altura, o Chernobog deve estar colhendo florzinhas no Jardim do Éden pra fazer um buquê e casar com ele mesmo.
— O Éden?! Raguel não teve essa audácia... — reagiu Adrael, tenso.
— Não sabia dessa?
— Rasiel não nos especificou pois não sabia também já que Raguel assumiu a linha frontal. Mesmo depois de tantas desavenças e provas de índole suja, ele ainda confia cegamente no irmão.
— Mas é um lugar sagrado, o mais sagrado que existia na Terra, pode ser que era a única opção.
— Não se trata disso. Há um tesouro inviolável escondido no solo do Éden. O olho que tudo vê.
— Inviolável pros anjos, exceto...
— Exceto a ele. — disse Adrael transmitindo a urgência que fez Frank assumir preocupação.
***
Na manhã do enterro de Miyako, Frank e Carrie foram os últimos que ficaram quando todos caminhavam para ir embora — Agnes, Tanya, Lisbell, Hoeckler e Giuseppe.
— Não acha que foi insensível ocultar a morte da garota pros pais dela? — indagou Carrie, triste.
— Ela era independente, morava sozinha. Melhor pra eles acreditando que ela está bem. Além disso, eles moram no Japão. A ponte aérea tá fechada.
— Mas... Frank, para de enrolar com essa ideia de conservar os corpos dela e da Natasha. No que você tá pensando?
— Eu vou traze-las de volta. — disse Frank firmemente, olhando para a amiga — A Agnes me prometeu um feitiço de reanimação. Pode dar bom ou dar muito ruim... Mas pago pra ver. Que se lasque a ordem natural.
Carrie ficou em silêncio, devaneando com a possibilidade.
— Hoje é o último dia. Quantos monstros restam até fechar a marca?
— Perdi a conta. Mas vou dar meu sangue e a minha vida pra agarrar esse prêmio. Porque é a mim que pertence e a mais ninguém.
A assistente afagou as costas do detetive para conforta-lo, deixando sua cabeça no ombro direito dele. Ambos observavam distraidamente as lápides de Miyako e Natasha que estavam lado a lado, imersos nas memórias agradáveis.
Em uma área restrita da Globemax, um exoesqueleto humano de metal preto era ativado por um computador. A cabeça emitiu um brilho esverdeado pelos olhos mecânicos e austeros.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://noticias.adventistas.org/pt/coluna/rafael.rossi/quem-e-o-anticristo/

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