No mesmo dia do invernal enterro de Miyako, o o último restante para o findar do desafio de caça, Frank precisou se desdobrar como nunca antes para sair no encalço de diversos monstros sob a orientação de Hoeckler que havia dado a concessão ao detetive de incluir os anônimos egressos do submundo na sua lista para somar pontos na marca de Chernobog. Ao final da tarde, o detetive arrombou um apartamento com um chute forçudo, arrebentando a tranca. O prédio estava cercado de policiais que acreditavam ser um suicida.
No recinto havia um homem gordo de costas para ele com as mãos na parede, usando regata branca e bermuda azul celeste numa posição similar à como se estivesse sendo revistado pela polícia. Frank não sacou nenhuma arma, apenas o fitou por uns segundos o desesperado homem cuja pele transbordava suor.
— Por favor, me ajuda! Não aguento mais! Tira essa porcaria de dentro de mim! — berrava o sujeito — Eu não quero me matar! Não sou um maluco suicida, só quero ser salvo!
— Amigo, olha, pode não parecer, mas tenho uma boa ideia de qual seja seu problema. — disse Frank aproximando-se com cautela — Você vai ter que deixar a coisa sair.
— Eu não consigo! Será que tava dentro do cereal e não percebi? É a merda de um parasita intestinal, né?
— Basicamente isso. — disse Frank olhando tenso para a bunda do homem na qual se via uma protuberância movendo-se insistente — Você tá com tanto medo que não consegue solta-la. Relaxa, só isso! Tem mais chances de sobreviver com ela fora do que dentro!
O aflito homem olhava para cima, enfiando a mão direita por baixo da bermuda e executando um movimento repetitivo no órgão genital.
— O que você tá fazendo? Tá mais calmo agora?
— Tô batendo uma. Você falou pra relaxar, não foi? É o que eu tô fazendo... oh... lá vem...
Frank estreitou os olhos, sentindo um certo nojo, apesar de já ter sido adepto da prática num distante passado. A criatura parasita rasgou o traseiro do hospedeiro, saindo a vontade enquanto ele gemia em seu ato relaxante.
Na sala de monitoramento do bunker da ESP, Hoeckler falava através de uma escuta presa ao ouvido esquerdo de Frank.
— Esperteza dele pensar nisso. A liberação de hormônios como a dopamina farão com que a anomalia abandone o hospedeiro pois se prende ao organismo graças aos efeitos negativos no sistema límbico.
A criatura que se revelava se assemelhava a uma lampreia ou um verme que se estendia a até cinco metros de comprimento, tendo uma cor alaranjada e amarronzada. O ser rastejou para fora, abrindo sua boca redonda com inúmeros dentes pontudos em advertência a Frank. O detetive correra para fora, sendo perseguido pela criatura vermiforme que emitia um som grotesco, deixando um rastro de sua pasta pegajosa e amarela.
— Use a granada de toxina inflamável! — sugeriu o presidente da fundação. Frank pegara o explosivo do bolso interno do sobretudo preto e jogara contra a boca do parasita que engoliu, logo sofrendo com o estouro do conteúdo de dentro para fora, o queimando. O alarme de incêndio foi acionado com a fumaça e as labaredas preenchendo o cadáver da criatura.
— Terminei aqui com o verme maldito. Próxima missão, por favor. — disse Frank se molhando todo com a água que chovia do teto ao som do alarme — Ainda localizando, é? OK, vou atrás de umas cabeças de vampiros.
Frank invadia um covil de vampiros no início da noite mostrando um facão afiado de prata que o fez correrem do local que parecia um bar clandestino da mais precária espécie.
— Ué, estão fugindo por que? Não são os bichões do pedaço? Venham cair de boca no meu pescoço, seus merdas!
Um dos vampiros surgia num canto escuro, mostrando as presas e os olhos azuis que se exibiam certa luminescência. Ele avançou contra Frank que o derrubou contra uma mesa num golpe preciso. Baixou o facão sobre ele impiedosamente. Poucas horas mais tarde, o detetive jogara cabeças decepadas dos sugadores de sangue dentro de uma estrutura retangular de concreto que era utilizada para cultivo de plantas numa casa abandonada. Toda a terra havia sido retirada para alocar as cabeças empilhadas.
Mais tarde, Frank perseguia numa estrada deserta a toda velocidade, uma criatura alada similar a um morcego.
— Não vai me dizer que aquilo é um vampiro não propriamente dito, vai? — perguntou Frank a Hoeckler, se olho no ser sobrevoando as proximidades da estrada — Morcego albino tamanho família é um bom nome pra ele.
— Prefiro batiza-lo de Gargoyki. Ele se alimenta de carne humana morta que passou bastante do prazo de validade. Desde o Big One, ele vem causando estardalhaço nessa região e sempre escorregadio. — disse Hoeckler ampliando o zoom com a localização da criatura pelo radar — Está se deslocando pra uma usina de força. Creio que pousará exatamente lá.
Frank deu uma última acelerada perseguindo o Gargoyki até local indicado. O detetive adentrou na usina munido de um rifle e uma lanterna, acabando por encontra-lo devorando dois vigias noturnos que patrulhavam os arredores. A luz da lanterna o iluminou por inteiro, o levando a rugir com sua bocarra. A criatura tinha pele alva como a neve, asas similares a de morcegos, olhos vermelhos e uma fisionomia que remetia diretamente a uma gárgula animalesca. Frank não hesitou em atirar com tudo, dando um furioso grito de guerra em avanço corajoso.
Depois, pretendia invadir outra facção vampírica. Olhava para um prédio inacabado em obras.
— Se não houver reféns... coloque tudo abaixo. — aconselhou Hoeckler.
— Nem precisa mandar. — disse Frank trazendo uma mochila que continha explosivos a serem armados. O detetive saiu do prédio carregando um saco com um bom volume de cabeças de vampiros enquanto explosões intensas e fulgurantes se elevaram em nuvens de fogo e fumaça. Jogou o saco cheio no porta-malas e depois partira de volta a casa abandonada. Encheu mais a "banheira da morte", mais cabeças rolando e somando — Acho que excedeu a capacidade máxima. Se tentarem plantar alguma semente nisso aqui de novo, capaz de morrer antes de nascer.
O detetive fora abrir o porta-malas do qual tirou um vampiro que se autodenominava o líder daquela facção. Estava preso por grossas algemas de prata e vendado. Frank o levou para o matagal meio seco próximo a casa.
— Caçador desgraçado... Sua raça vai ser extinta em breve, os vampiros serão legitimados a ocupar o topo da cadeia!
— Continua sonhando, Alice. Porque abrir os olhos pra realidade vai ser bem doloroso. — disse Frank o empurrando para que andasse — Quer uma vista bonita antes de ir pro Limbo?
— O que é? Não, não... Me solta, miserável, podemos fazer um acordo! Você matou meu bando sozinho, parabéns! Mas não significa que eu, como líder, deva ser sacrificado também. Nunca negociou com chefes da máfia depois de dizimar seus asseclas?
— Olha, do que eu lembro da minha experiência com mafiosos foi bem diferente do meu trabalho aqui com você. E tem mais uma coisinha. — disse Frank, removendo a venda dos olhos do vampiro enquanto o alvorecer despontava no horizonte — Não sou caçador de negociar com monstros.
Os olhos do vampiro explodiram em fogo com a exposição ao sol nascente, as chamas se estendendo para todo o corpo enquanto ele gritava em lamento e dor. O esqueleto do sanguessuga foi reduzido a carvão em brasas junto a cinzas. Frank respirou e soltou o ar longamente, exalando todo o seu cansaço.
Mas ao virar-se, deu de cara com um infectado pelo vírus miasma na forma de um mulher com uniforme azul de comissária de bordo.
— É brincadeira... Não, não é possível...
— Nada é impossível, Frank. Espero que tenha sido o seu lema como competidor, pois o levou muito a sério ao ponto de se sagrar vitorioso.
— Mas que merda é essa? Eu te vi ser engolido por aquela pedra direita pra outra dimensão, o grandioso Jardim do Éden!
— Elton estabilizou nossa conexão, é a minha âncora, assim mantenho a pestilência ativa mesmo eu estando tão distante.
— Se não fosse por ele, o vírus teria sumido da face da Terra e você fora de cena até não sei quando. Mas e aí, eu... venci mesmo seu joguinho ou tá me enrolando?
— Veja por si. — disse Chernobog fitando o braço esquerdo do detetive. Frank verificou puxando a manga do sobretudo. A marca estava completa — A dor foi ausente pois seu corpo se adaptou a preparação.
— Pra beber do sangue do Orion, né? Você vai me levar pra onde ele meteu o frasco?
— Por ora, o jogo prossegue. Achou mesmo que tinha acabado? Não, Frank, você tem mais dois desafios pela frente se quiser o elixir de Orion.
Frank logo lembrou de Sarah e o caçador mascarado, preocupando-se.
— Eu vou ter que mata-los... A Sarah talvez não custe muito esforço, mas o Mister M... sem chance, ele é peso-pesado pra mim, do tipo mais apelão possível. Quem é ele? Me diz quem tá por trás daquela máscara!
— Provalvemente descobrirá... se o eliminar. A qualquer instante, vou envia-lo para a localidade em que foi resguardado o elixir do instinto primordial. Esteja preparado. — disse a entidade, desaparecendo em nanosegundos. Frank ficou a pensar nas dificuldades terríveis que passaria para obter o grande prêmio, olhando a macabra insígnia concluída.
***
A volta para o bunker se deu de forma exaustiva para consumir toda o restante da força de disposição que Frank possuía. O detetive chegou a sala de pesquisa a lentos passos, sendo recebido por Carrie.
— Nossa, finalmente chegou! Nos deixou roendo as unhas aqui pensando no pior. O que houve?
— O comunicador... Eu perdi enquanto lutava com os vampiros. — disse Frank sentindo o corpo pesar devido ao sono — Há quanto tempo estão acordados?
— Desde as cinco, nem dormimos direito na agonia de esperar você vir de uma caçada ininterrupta que já tem durado tantas horas. — disse Giuseppe usando seu habitual terno cinza e gravata vermelha — Tenho uma entrevista daqui a pouco no DPLA. Uma pena estar de folga estendida e não poder me acompanhar.
— Entrevista pra quê? Você foi admitido pra um cargo?
— Comissário. O anterior se demitiu para antecipar sua aposentadoria. Logo mais será eu a nem mais tocar num distintivo. Mas enquanto isso não acontece, vou queimando o combustível que me resta.
— Parabéns, Giuseppe, você merecia uma vaga como essa. Melhor do que ficar aqui de bobeira, né? E por falar em combustível... O do carro do Hoeckler já foi zerado. Sorte que não precisei empurrar até aqui.
— É, eu já imaginava que o tanque voltaria esvaziado. — disse Hoeckler entrando na sala com uma xícara de café — Tamanho cansaço que não teria como pegar uma mangueira pra abastecer.
— Não tá sendo sarcástico, né? Apesar da marca ter me deixado mais apto pra caçar e beber do sangue do meu ancestral, eu tô destruído, tenho que reabastecer a mim mesmo. — rebateu Frank.
— Então o cansaço de antes quando você estava numa posição inferior do jogo era por conta da marca estar te enfraquecendo? — questionou Carrie.
— Sim, mas também o cansaço físico normal. Agora é só cansaço mesmo porque... — disse Frank levantando a mangá esquerda do sobretudo para mostrar a novidade — ... eu venci essa bagaceira. Fechei os 100 monstros.
Hoeckler virou-se cravando os olhos na marca completa tatuada no antebraço do detetive. Carrie suspirou em alegria por ele.
— Ah que bom. E eu chegando a pensar que o tal mascarado iria prevalecer ganhando de lavada. E o que acontece agora? Os finalistas perdedores são mortos pelo vírus?
Frank assumiu seriedade bruta com a pergunta.
— Seria conveniente demais pra ser verdade.
— Mas o jogo deu por encerrado com você completando a marca e alcançando o número máximo de monstros. Não foi assim que ele estabeleceu? Eu sei que ele é um ser vil e traiçoeiro, mais do que qualquer um que existe, mas... regras são regras, definidas e absolutas. — comentou Giuseppe, questionador.
— Ele não fala todas as regras numa tacada só. É sempre uma surpresinha que ele tira da cartola dependendo do curso das coisas. A última foi essa: o campeão enfrenta os dois perdedores. Não sei se ele vai explicar melhor quando me levar pra terra onde Judas perdeu as botas e o Orion escondeu o sangue. Ele é o manda-chuva, se cria as regras pode quebra-las, afinal ele é um deus, não tem nada ao alcance dele que ele não possa fazer.
— Se ele é tão divinamente poderoso assim... por que simplesmente não acaba com tudo? — refletiu Carrie.
— Porque é mais divertido ver sofrimento e sangue ser derramado. — respondeu Frank — Assistir de camarote o mundo arder no inferno que ele mesmo gerou.
— O que fará agora? Esperar ele se comunicar telepaticamente ou via projeção? — perguntou Hoeckler.
— Eu vou tentar dormir um pouco, mas... a qualquer momento eu posso desaparecer daqui pra cumprir a última provação. Então, se não me verem na cama mais tarde, já sabem.
— Mas o que pode acontecer caso você morra por um dos dois caçadores? — indagou Carrie.
— A Sarah é a única adversária que eu consigo encarar de igual pra igual. Agora o Mister M é dureza, aquele cara vai me fazer de tapete. Se ele me transforma em presunto, acho que... a marca é transferida do meu braço pro dele, daí ele enfrenta a Sarah ou segue até o troféu se ela já tiver sido morta, mas seria impossível ela levar a melhor, então, pra resumir, ele ia ganhar de nós dois facilmente. — disse Frank que passou as mãos no rosto, cansado — Tá muito imprevisível, não faço ideia do que vai rolar, aquele maldito é cheio dos trambiques, diz uma coisa, depois altera... Não acredito em nada do que ele fala, não até ver diante dos meus olhos.
A TV foi ligada por Hoeckler naquele instante e estava sintonizada no canal de notícias. Na tela estava Elton Hartley se preparando para uma nova e crucial coletiva de imprensa que reunia quase todos os veículos de mídia da América e da Europa, incluindo alguns da Ásia.
— Muda isso aí, não quero ver a cara desse canalha tão cedo da manhã. — pediu Frank.
— Está em todos os canais. — disse Hoeckler, mudando com o controle remoto — Pelo visto, é um anúncio de extrema importância. Se preparem, o mundo pode estar entrando numa nova fase da era mais sombria da história.
— Vai começar. — disse Giuseppe, sério.
— O quê? — indagou Carrie.
— O reinado dele. — disse o mais novo comissário do DPLA — Todas as nações se curvando diante da sua influência. Veja, há mais seis pessoas com ele, sócios da megacorporação. Sete cabeças da besta.
Hoeckler aumentara o volume da TV ao máximo e os quatro ouviram atentamente ao pronunciamento mais aguardado do bilionário.
— Vou assistir mais tarde, preciso cuidar de uns afazeres. — disse ele, saindo da sala.
Hartley iniciava seu discurso ao grande público:
— Caros cidadãos do mundo, eu prometo não tomar muito do tempo de vocês que me assistem nesse exato momento. É apenas uma pequena introdução acerca da minha mais nova inovação tecnológica para frear os avanços da crise viral. As vacinas convencionais se mostraram lamentavelmente ineficazes no controle da expansão da doença, não atingindo resultados significativos esperados.
— Sou só eu ou mais alguém tá achando a oratória dele um tanto... artificial? — indagou Carrie, franzindo a testa.
— Tá falando que nem o T-800. — disse Frank captando a diferença abissal com o pronunciamento passado.
— Se bem que a Globemax andou conduzindo experiências com robótica usando inteligência artificial. — comentou Giuseppe — Estão criando um exército de androides autoconscientes, mas... acho que essa parte é teoria da conspiração.
Hartley prosseguia demonstrando o novo suprassumo da tecnologia.
— Este minúsculo chip que suas câmeras mal podem focalizar carrega a assinatura do meu DNA codificado para ativar a funcionalidade de imunização, além de uma combinação de variados antídotos. — disse ele mostrando o objeto ínfimo e quadrado — É fácil de implantar, é aderente a superfície da pele e será gratuitamente distribuído em hospitais, clínicas e ambulatórios. O uso é obrigatório para realizar tarefas cotidianas como saques bancários, compras e acesso a locais públicos como shoppings e cinemas. A sua eficácia já foi comprovada ontem com um de meus voluntários que se dispõs a ser cobaia recebendo uma amostra do vírus. A infecção foi refreada assim que o dispositivo antiviral aderiu.
— Sangue de Cristo. — disse Giuseppe fazendo o sinal da cruz.
— As profecias não mentiram. — disse Carrie, nervosa — Todos vão estar sob o domínio desse chip, querendo ou não.
— Eu que não vou colar um troço desse no meu pulso, nem ferrando. — opinou Frank não escondendo a ojeriza com a artimanha — Traz o DNA dele, óbvio que boa coisa não deve sair disso.
Após agradecer a participação dos jornalistas e responder uma série de perguntas, Hartley acenava de forma meio apática para se despedir. Porém, dois homens vestidos de camisas e calças pretas se levantaram. Um deles fizera um sinal com a mão direita aberta e os dedos juntos enquanto o outro gritou uma palavra que correspondia ao gesto do amigo.
— Maranata! — vociferou ele que logo sacou uma arma e disparou contra a cabeça de Hartley, gerando uma comoção intensa entre os presentes. Em meio ao alvoroço, a dupla foi detida pela polícia de forma repressiva, sendo levados dali. Os sócios de Hartley, bem como boa parte da equipe, rodeava-o, mas não expressavam a mesma tensão dos repórteres.
— Caramba! Foi certeiro. — disse Frank, atônito com a surpreendente atitude dos religiosos — Mas ele tá se fingindo de morto.
— Era tudo o que a mídia mais ansiava: fanáticos religiosos cometendo atos radicais em plena apresentação daquilo que eles mais temem. — disse Carrie, o nervosismo alcançando o pico — Vou tomar uma água, essa me pegou de jeito, acho que vou ter um ataque cardíaco. — foi até o bebedouro.
Giuseppe estava sem palavras, boquiaberto.
— Quer uma água também? — indagou Frank olhando-o.
— Não, obrigado... Estou bem. O choque logo vai passar. Ele não morreria com um tiro desses, né?
— Não sendo a cria de um demônio com uma humana. Olha aí, estão levando ele pra ambulância, ele poderia até mesmo reduzir os sinais vitais pra disfarçar um estado grave. Mas porque fizeram questão de cobri-lo com o lençol como se estivesse morto? Aí tem...
— Frank, melhor você ir dormir, precisa descansar, passou horas e horas correndo atrás de monstros sem nenhuma pausa pra respirar. — avisou Carrie, voltando para eles.
— Mas antes vou tomar um banho daqueles, tô fedendo a sangue e tripas de monstro. — disse o detetive, pronto para o descanso. Contudo, ele desapareceu diante de Carrie e Giuseppe num piscar de olhos.
— Ah não! — disse Carrie, afligindo-se — Frank!
— Ele estava... bem aqui. Sumiu de repente. Se eu não soubesse a causa real, diria que o arrebatamento começou. — disse Giuseppe, perplexo com o sumiço do detetive, sentindo ter tido sua percepção desafiada.
— Aquele patife do Chernobog... Nem deu tempo dele recarregar as forças! Você viu como ele tava exausto por mais que fizesse parecer que não! Não tô com bom pressentimento... Meu coração tá palpitando mais do que o normal...
— Vamos nos acalmar, Carrie. — disse Giuseppe a tocando nos ombros e ajudando-a a se sentar no sofá — Sabemos que Frank é mais forte do que parece, muito mais do que ele acredita ser. Ele vai se sair bem.
— Desliga isso, só vai dar essa maldita coletiva o dia todo. — pediu Carrie passando a mão no rosto em preocupação nítida e agravante. Giuseppe pegou o conteúdo remoto e apertou para desligar a TV — E se for uma farsa? Esse instinto de caçador primitivo ou seja lá o que for...
— Só saberemos quando Frank retornar. — disse Giuseppe enfatizando a questão de quando — Por ora, tudo o que nos resta a fazer é... rezar.
— Não adianta rezar. — disse Carrie, vertendo lágrimas, desesperançosa — Ninguém vai nos ouvir.
— Não fomos abandonados. Agora não é hora de perder a fé, muito pelo contrário.
— Você não tem que ir ao DPLA assinar o contrato de filiação?
— O superintendente me deu cinco dias úteis, não há pressa. — informou Giuseppe a olhando com serenidade — Segure minha mão. — virou sua robusta mão direita com a palma para cima. Carrie o fitou triste, acatando o pedido ao dar sua mão esquerda e entrelaçar os dedos — Reze comigo. Pela vida do Frank.
Carrie fizera que som com a cabeça, logo fechando os olhos para se concentrar espiritualmente.
***
Frank sentiu ter acordado numa poça de lama fétida, deitado de barriga para baixo e erguendo a cabeça com o rosto enlameado. Viu uma terra infértil, devastada e úmida sob árvores negras e relâmpagos vermelhos que piscavam incessantemente ao som de trovões altissonantes. Levantou-se, passando a mão direita no rosto ao se limpar.
— Argh... Que porcaria... Merda... Parece que caí numa montanha de bosta! Que joça de lugar é esse aqui? Não é o submundo, então...
— Bem-vindo, Frank. — disse Chernobog usando o corpo de um presidiário com uniforme laranja — Bem-vindo ao Limbo.
— Eu já tinha sacado. — retrucou Frank voltando-se a entidade — Limbo é bem sinistro. Mas não é o inferno caótico que eu imaginava recheado de monstros amontoados numa agonia infinita como almas perdidas.
— Que poético. — disse Sarah surgindo da escuridão com sua espada na mão — Devia ter seguido a carreira de orador fúnebre. É uma pena que logo mais você precisará de um.
— Bom te ver também, Sarah. — disse Frank, cortês e sarcástico — Só que não é comigo com quem você deve se preocupar.
O caçador mascarado vinha até eles andando vagarosamente, suas botas deixando pegadas fundas no solo rochoso.
— É com ele. — apontou Frank para o adversário mais árduo de driblar — O que me diz de uma aliança temporária? Você e eu contra ele.
— Que tal você e ele juntos? — sugeriu a caçadora.
— Não se superestima hein. Se quiser morrer depressa, basta pedir pra ele partir pra cima de você sozinho.
— Quero terminar isso logo, sair desse lugar hostil com a salvação do mundo nas mãos! Não é por fama ou dinheiro, é por humanidade! Essa marca no meu braço não destruiu quem eu sou por dentro! Portanto, não é por mim que lutarei, é por todos!
Sarah avançou diretamente contra Frank que esquivava dos golpes da espada. A pegou pelo braço direito e a jogou no chão por cima.
— Cheguei a ser faixa marrom no judô! — gabou-se Frank.
Mas Sarah o chutou no rosto e se reergueu rápido, logo desferindo um corte horizontal quase fatal no peito de Frnak que não recuou a tempo. O detetive grunhiu com a dor, mas se armou com um canivete do qual soltou a lâmina maior.
— Não brinque comigo. — disse Sarah, aborrecida. A caçadora avançou furiosamente com movimentos mais agressivos da espada, sentindo-se insultada com a coragem do oponente em se utilizar de uma lâmina menor — Ninguém me subestima assim! — falou ela com pausas rápidas entre cada palavra.
Frank parou de se esquivar, dando uma cotovelada certeira no nariz de Sarah após visualizar uma abertura vantajosa, depois aplicando um chute na barriga que a afastou. Ela brandiu novamente a espada com cólera, mas Frank abaixou-se em nova esquiva, fincando a navalha no abdômen da caçadora. Mas Sarah resistiu, dando uma joelhada direita acertando o queixo de Frank, em seguida se preparando para apunhala-lo bem no peito.
Contudo, o caçador mascarado se pos atrás dela num piscar de olhos e agarrou sua cabeça com a mão direita, executando um movimento brutal que produziu um ruído de "crec" bastante sonoro. Sarah tiveram seu pescoço quebrado e Frank sua vida salva no último segundo.
— Ela era minha! Tinha que esperar a sua vez! — reclamou Frank.
— Ficou mortalmente vulnerável depois daquele golpe. Não tive escolha senão agir. — disse o caçador da máscara de ferro com sua voz cavernosa e distorcida para o total espanto de Frank.
— Ah, agora resolveu soltar a língua!? Muito obrigado por salvar a vida que você agora tem obrigação de eliminar, gênio. De acordo com a regra do cara pálida aí, são ambos os finalistas que perderam contra o vencedor, não os três ao mesmo tempo matando um ao outro. Ou será que ele mudou essa de última hora também?
— Tem toda a razão. Mas ferir esta regra intervindo numa luta com o vencedor ao matar um outro perdedor não acarreta em nada. — disse Cherbobog, parado entre as sombras e sob os relâmpagos escarlates.
— Então enquanto eu continuar vivo não importa se um perdedor matar o outro?
— Exato. No caso de um perdedor acabar derrotando o campeão original, como quase ocorreu há pouco, ele se torna o portador da marca e o alvo do perdedor restante. Assim defini e não me dei ao luxo de alterar por mera conveniência. — explicou Chernobog, altivo.
— OK, dessa vez você jogou limpo. Agora é que o bicho vai pegar de vez. Prepara a pipoca pra assistir a uma luta bem sangrenta estilo MMA. — disse Frank movendo os braços em aquecimento para combater o último adversário — No fundo, eu já previa que o gran finale seria entre nós dois, por mais que eu quisesse o Omar bem aqui na minha frente pra uma revanche justa. Você é osso duro de roer, saiu na frente de todos com ampla vantagem. Qual é o segredo por trás dessa força descomunal? Me diz qual é, você agora pode falar, né?
O caçador mascarado ficou estático o fitando.
— Quem é você de verdade? Você não me intimida com essa máscara de Dr. Destino. Anjo caído não é pois foram todos condenados à extinção. Me restou suspeitar que possa ser ninguém menos que... — disse Frank que apontou para Chernobog — ... você.
— Como se proclama detetive fazendo uma conjectura tão absurda?
— Você trapaceou o jogo inteiro e pode estar trapaceando agora, é a droga de um deus maligno que só deseja ver o caos por onde passa! — acusou Frank, o indicador direito em riste como julgamento — Por que em sã consciência eu confiaria na sua palavra hein? O que tá credibilidade pra esse jogo funcionar sem marmelada? Se for você controlando esse corpo disfarçado, já era pra mim. Eu morro, o instinto do Orion fica trancado por toda a eternidade e você segue pintando e bordando na Terra com o seu Pinóquio apocalíptico! — fez uma pausa, respirando fundo e dando dois passos adiante — Só começo a lutar depois de me revelar quem é ele. Sou o campeão, posso exigir isso, né?
A entidade soltou uma risadinha de escárnio que fizera Frank bufar de impaciência.
— Tente arrancar a máscara dele, se puder. Porque eu também quero descobrir. Por alguma estranha razão, não o identifiquei quando recolhi para meu desafio. Estou sendo muito honesto.
— É a máscara! Tem algo nessa máscara de ferro que bloqueia qualquer tipo de detecção paranormal. E agora fiquei ainda mais curioso porque até mesmo uma entidade do nível dele não é capaz de ver através disso. Se revela logo de uma vez... ou eu mesmo faço por você.
— Não será necessário. — disse o mascarado, tirando mais uma reação de surpresa do detetive. Virou-se para Chernobog — Eu desisto.
A fala fizera a mente de Frank travar. Um tortuoso questionamento se abria.
— O quê? Que negócio é esse? Não faz sentido! Tá com a faca e o queijo na mão pra me descer o sarrafo até a morte e pegar a marca pra garantir o prêmio! Por que logo você desistiria pra me manter vivo?
— Sendo assim, eu oficializo, em definitivo, Frank Montgrow como o legítimo campeão. — determinou Chernobog andando até eles — Afastem-se.
Os dois caçadores o fizeram, sem saber o que a divindade das trevas pretendia fazer a seguir. Chernobog estendeu o braço direito de seu hospedeiro até o chão agachando-se, logo exercendo uma força de vibração que gerou um tremor moderado. A marca da entidade se desenhou no solo ao redor dela em luz vermelha, fazendo uma espécie de púlpito brotar da terra. Frank assistia com certa apreensão, a desconfiança indo ao limite.
A luz da marca se apagou devagar. Chernobog levantou-se, dando a Frank o passe livre para pegar o frasco que estava dentro do bloco de pedra.
— Tem minha permissão. — disse a entidade sorrindo com infâmia. Frank andou até o púlpito encarando Chernobog com um olhar rebelde. Havia um buraco retangular num dos lados do púlpito no qual o frasco fora depositado. O detetive pegou-o. Era feito de barro e possuía um formato cilíndrico bem desenvolvido.
— Tá bem cheio, mas... Não sei se devo, não tem como confiar no Zaratro, muito menos em você! — protestou Frank, indeciso.
— Zaratro o enterrou na zona menos hostil do Limbo. Ninguém irá impedi-lo, pode beber.
— Não é isso, desgraçado! E se for uma farsa? Uma esparrela pra me tirar de cena!
— Quer se fortalecer o bastante para me enfrentar com a arma suprema dos anjos, não quer? Se tiver amor pela sua vida, tome o elixir. O jogo só acaba quando você o fizer. Do contrário, isso me obrigará a inocular o vírus por meio da marca em ambos e tudo pelo que passaram para chegar até aqui não terá tido a menor serventia. É o seu último desejo, Frank? Desperdiçar a sua vida sem assumir riscos? Contraditório levando em conta a sua história.
Pressionado e sem saída, Frank cerrou os dentes enraivecido, logo removendo a tampa improvisada com uma pedra em forma de rolha. Olhou para o buraco do frasco de barro numa guerra contra a hesitação.
— É a maior herança de sua linhagem, Frank. Tome posse dela. — disse Chernobog, persuasivo.
De súbito, o detetive virou o frasco bebendo até que não sobrasse uma gota sequer.
— Pronto, tomei a vitamina do caçador mais foda que já existiu. E agora? Cadê meus músculos de Popeye?
O antebraço esquerdo de Frank evocou uma ardência insuportável no ponto da marca. O detetive puxou a manga do sobretudo grunhindo de dor e ficando abaixado de um só joelho.
— O que tá havendo com ele? — indagou o caçador mascarado dando um passo a frente.
— Fique onde está. — ordenou Chernobog olhando por cima do ombro — Não é o que pensa.
A marca de Chernobog ia desaparecendo, seus traços iluminados em roxo. Frank ergueu a cabeça olhando para o céu vermelho e tempestuoso do Limbo, sentindo o instinto primordial lhe correr pesadamente pelas veias de todo o seu corpo que exibiam uma leve luminescência vermelha. Os olhos de Frank brilhando na mesma cor foi o último sinal evidente da inserção completa do elixir.
— Está consumado. — disse Chernobog, os olhos vazios e negros do infectado possuído parecendo arregalados de fascínio. Frank se levantou, alongando o pescoço.
— Esse bagulho queimou nas minhas veias junto com a marca... — disse ele que viu o antebraço limpo — Ótimo, já tava de saco cheio daquela tatuagem nada a ver comigo.
— Pois bem, aproveite. — disse Chernobog, afastando-se deles. Moveu a mão esquerda do infectado e fechou como sinal de controle da marca sobre o caçador mascarado. Porém, algo parecia errado — O que significa isto? Eu acabei de converter a marca no vírus em você!
— Por que ele precisa morrer se desistiu? Como finalista ele não tem esse direito? — questionou Frank, irritado.
— Eu quem decido quem vive ou morre nessa circunstância! — declarou Chernobog, possesso, a voz em tom monstruoso — Não importa, vocês passarão um bom tempo juntos em uma eterna caçada. Você provavelmente encontre Orion, Frank. Que minha gloriosa irmã receba suas miseráveis almas!
Diversos olhos inumanos, grandes, brilhantes e vermelhos espreitavam entre as árvores na escuridão como vigias atentos. Frank olhou ao redor, pressentindo um perigo sufocante.
— Frank, é uma cilada! — avisou o caçador mascarado que foi até ele a largos passos e o tocou no ombro — Vamos embora!
— Não! — berrou Chernobog, explodindo sua fúria.
O caçador oculto teleportou-se junto a Frank a uma casa abandonada no meio da floresta.
— Essa foi por pouco. — disse Frank — Filho da puta... Ele ia me largar naquela terra sem lei pra passar o resto da minha vida caçando monstro sem parar pra me coçar! Aquele lugar é horrível... Senti... Eu senti tanto... tanto desespero. — disse Frank passando a mão no rosto em recomposição psicológica.
— Gostaria de ouvir da sua boca... — falou uma voz feminina familiar vinda detrás da parede entre a sala e o corredor para os quartos — ... que o inferno agora parece um destino turístico dos sonhos.
Frank olhou num misto de descrença e temor. A figura voluptuosa e atraente que ali surgia ostentava cabelo pretos ondulados emoldurando um rosto branco típico de europeu com olhos penetrantes e negros... tão negros assumiam todo o globo.
— E aí, Frank? Sentiu saudades minhas? — perguntou Lilith sorrindo com seus lábios expressivos e vermelhos, mas a malícia perigosa mantida no olhar.
O detetive tivera um brusco acesso de fúria, sacando do sobretudo a lâmina sacerdotal, indo com tudo para cima de Lilith bradando um grito de guerra.
— Frank, não faz isso! — disse o mascarado o agarrando por trás, mas Frank virou-se e dera um fortíssimo empurrão que o jogou contra uma estante feito um boneco. O detetive avançou contra Lilith, a ira estampada na face. A demônia o segurou com as duas mãos para impedir que a lâmina lhe transpassasse, sendo recuada pela força imparável de Frank.
— Ficou mais forçudo! Andou malhando? — ironizou ela, elevando mais a raiva animal do detetive. Mas o repeliu com telecinesia e abriu suas mãos para mante-lo parado — Alguém tem que esfriar a cabeça.
Frank rosnava feito um cão submetido a paralisia. Porém, foi prevalecendo sobre a telecinesia, chegando a dar dois passos adiante. Lilith aumentou a escala, mas o detetive seguiu com mais um passo, depois outro... mais outro...
— Chega! — disse o caçador mascarado aparecendo em teleporte na frente de Frank e lhe dando uma cabeçada seguida de um cruzado de direita que o derrubou. Mas Frank se reergueu subitamente para tentar de novo. O mascarado segurou-o com força, o impedindo —Para, Frank, para! Já chega! Ela não vai te machucar, tenta ser racional! — o empurrou.
Aos poucos, Frank recuperava a calma, piscando os olhos depressa várias vezes.
— Sou eu, Frank... — disse o caçador misterioso que finalmente sanaria a dúvida do então adversário ao remover a máscara metálica que lhe cobria todo o rosto e a cabeça. A reação de Frank foi a mais espantada possível, ele arqueando as sobrancelhas e boquiabrindo numa descrença inicial — Eu voltei.
— Meu Deus... Não dá pra acreditar, mas... É você mesmo? — indagou, largando a lâmina sem querer.
— Sim, Frank... Seu irmãozinho tá de volta a civilização. — disse Fred, com barba por fazer, sorrindo nervosamente, a testa cheia de gotas de suor — Não ganho um abraço?
Ignorando o bombardeio de interrogações que sua mente sofria, Frank se inclinou ao lado emocional de como lidava com aquele retorno inesperado do meio-irmão. As respostas ficariam para depois, naquele instante era tempo de reavivar o vínculo fraternal.
— Não sabe o quanto senti sua falta, cara. — disse Frank indo abraça-lo forte — Senti que eu... tinha perdido você pra sempre.
— Idem. — falou Fred dando tapinhas nas costas do detetive durante o apertado abraço. Lilith estava de braços cruzados, observando com certo desdém, chegando a revirar os olhos — Mas dessa vez tô aqui pra ficar até o fim.
— Muito bem, rapazes, o reencontro foi comovente e emocionante, mas nesse momento precisamos voltar nossa atenção a realidade problemática desse mundinho condenado. — disse Lilith, interrompendo-os — Podem deixar os discursos e abraços pra véspera de natal... se sobreviverem até lá.
— Peraí, você tava morta! Lembro de você sendo tostada até os ossos no submundo pela sua "melhor amiga". — disse Frank fazendo aspas com os dedos — Minha cabeça tá girando, esse dia tá uma surpresa atrás da outra. Fred, me explica o que houve, senão vou pirar.
— Primeiro eu devo perguntar: você está bem?
— O surto já passou, eu... Eu fiquei fora de mim assim que vi ela, com certeza é efeito do instinto primordial, foi como se um véu tivesse sido colocado pra que obedecesse a esse poder.
— Pelo visto, essa herança de família é das boas. Que honra ser amiga de um caçador que adquiriu tamanho poder. — disse Lilith.
— A última coisa que eu espero me tornar um dia é amigo de demônio. — disse Frank — Se acontecer, juro que eu me mato. Fred, me diz que não foi você quem trouxe a demônia vagaba de volta.
— Também senti falta dos seus elogios. — retrucou Lilith, a expressão de deboche.
— Frank, preciso te contar, mas é inevitável que... você fique bem frustrado. — disse Fred, inseguro em revelar — A Lilith e eu... Ahn... — Frank o encarava com olhos estreitados em desconfiança — Tivemos um lance íntimo e...
— Como é a história? — indagou Frank, abismado — Tá de tiração comigo... Você e ela, é sério isso?
— Um relacionamento sério, pra ser mais exata. — disse Lilith.
— Que já demos por encerrado. — rebateu Fred, um tanto ríspido — Eu disse a você milhões de vezes, tenho esposa e filhos. Falei que quando essa droga de jogo acabasse, voltaria pra eles.
— Sim, aceitarão um cara que não lembram de ter visto nunca na vida como marido e pai. Será tão natural. — devolveu ela.
— Frank, você e o Adrael ainda são amigos, né?
— Mais do que naquela época. Você... quer que eu peça a ele pra restaurar as lembranças da sua família?
— É claro. Mas ele deve estar ciente de que eu não sou mais aquela criatura instável, descontrolada e perigosa de antigamente. Consigo administrar meus dois lados perfeitamente agora.
— Mentira. — disparou Lilith — Ele ainda tem crises ocasionais pelas emoções afloradas. Por estar perto de mim e ter estado com Kezabel governando o submundo... Na verdade, mais sendo marionete dela do que um rei de fato.
— Por falar na sua mãe... — disse Frank para o meio-irmão — Eu sinto muito, ela tá morta.
— Já esperava perdê-la desde que senti energias de anjos ofanins transitando no submundo. — relatou Fred, pronto para esclarecer tudo — Me cansei de ser um rei medíocre vivendo sob tutela da mãe e ridicularizado pelos próprios servos. Ela quis que eu continuasse me sujeitando a humilhação constante, mas... chegou um determinado momento em que meu orgulho próprio me deu o tapa de luva que eu precisava. Segui meu próprio caminho.
— Então basicamente ela só te levou pra usar você e...
— Isso mesmo, se valer da minha influência de nefilim pra se sentir no poder mandatário. Acho que ela veio atrás de mim, por isso acabou capturada pelo anjos.
— Na realidade, foi pelo cavaleiros sombrios do Zaratro, o bruxo que criou o Necronomicon, a bíblia profana do Chernobog. — informou Frank.
— Mamãe cometeu o erro de me contar desse livro dizendo que era possível ressuscitar todo e qualquer ser vivo, natural ou sobrenatural, inclusive demônios.
— E foi com base nisso que reviveu essa traste
aí?! Pra quê? Tinha saído da aba da sua mãe pra não ser mais influenciado pelo lado monstruoso da sua natureza, não precisava se enroscar em mais alguém que só iria continuar o processo.
— Ele pode ser metade anjo caído, mas sente amor verdadeiro. — disse Lilith — E mesmo eu sendo um demonio... me convenci ser ainda capaz de amar. O Fred foi o único que me fez redescobrir isso. Mas se for da vontade dele querer se afastar... não vou mais me opor. Kezabel o aprisionava, não farei o mesmo.
— Você capaz de amar alguém?! Demônio falando de amor verdadeiro... É o fim dos tempos mesmo. — disse Frank segurando a risada nervosa — Fred, pode deixar que falo com o Adrael, ele vai concordar. Se reaproximar da família vai te ajudar a aperfeiçoar o controle. Mas... como você ressuscitou a Lilith se o Necrononicon real já tinha sido roubado?
— No cemitério das almas vingadas, vi você e duas mulheres enfrentando um monte de caras mascarados no meio da chuva de sangue, acho que eles eram bruxos. Depois que aquele exército de daevas passou, fui lá e encontrei o livro largado. Pelas páginas, acreditei ser o Necronomicon, mas estranhei que pra um livro criado por um mago tão antigo estivesse no nosso idioma.
— Aquilo era uma cópia que os bruxos da Index roubaram pra pegar o original no submundo quando íamos negociar com Zaratro pela liberdade de um bruxo leal a Merlin que, pasme, foi aprendiz do trevoso e mandou ele pra tumba lá nos tempos do Rei Arthur.
— Caramba, jurava que Merlin fosse autodidata. — disse Fred, meio surpreso — Enfim, continuando: após reviver a Lilith, planejamos fugir do submundo juntos, mas aí um monte de portais ou frestas se abriu por toda parte atraindo a escória que vivia lá para este mundo. Fomos os últimos a sair. Daí viemos pra essa casa onde ficaríamos até o final do jogo.
— Ou pra sempre como um casal próspero. — adicionou Lilith.
— Acreditou que pudesse ser uma cura pro vírus? — perguntou Frank.
— Não acreditei em nenhuma palavra do que ele disse. — respondeu Fred, sincero — Só fui escolhido pra preencher o número total que ele pretendia, oito caçadores. Ele sentiu em mim o potencial, embora não soubesse quem ou quê eu fosse. E essa máscara...
— Foi ideia minha. — interrompeu Lilith, as mãos na cintura — Manipulei um feitiço de ocultação e bloqueio, nada nem ninguém iria reconhece-lo, tampouco detectar sua energia se usasse os poderes.
— Verdade. Olha, tem um sigilo gravado com meu sangue. — disse Fred mostrando no verso da máscara a existência de um ícone místico — Não ia bobear com cada anjo no céu querendo um pedaço de mim. Como sabíamos que a coisa ficou séria do que jamais esteve, e isso exigiria atenção dos ofanins, decidimos nos precaver. Nós lemos a profecia no livro. Se dermos qualquer passo em falso, acabou.
— Eu sei disso. Vamos ser calculistas, na medida do possível. — disse Frank, sério — Com o instinto e a espada de fogo dos anjos me torno o pior pesadelo do Chernobog.
Fred de repente olhou para o nada com preocupação, logo pondo novamente a máscara.
— O que foi? Tá colocando a máscara de novo... — disse Frank que reparou na ausência de Lilith — E a piranha se mandou...
— Frank. — disse Chernobog surgindo no meio da sala, ainda possuindo o presidiário — Acalme-se, não vim retaliar, apenas oferecer um privilégio.
— Já tô privilegiado o suficiente com o elixir de caçador, obrigado. Agora cai fora.
— Não, considere como um prêmio adicional. Mas tem liberdade de escolha entre dispensa-lo ou aceita-lo.
— E o que é? — indagou Frank, aborrecido.
— O direito de selecionar até dois caçadores eliminados para retornar à vida.
Se o que propunha a entidade era verdade, Frank não pensou demais ao decidir quais receberiam uma nova chance de prosseguir na jornada terrena.
— Mas não foi você quem determinou a lei universal de não reviver os mortos? Tá aí que você é um baita hipócrita. — apontou Frank.
— Estou lhe dando uma oportunidade única. Se disser não, é irrevogável. Quer perder a chance?
Fred olhou para o detetive fazendo que sim com a cabeça, o incentivando a confiar.
— Tá legal... A Natasha e a Miyako. — disse Frank o que já estava na ponta da língua.
— Como quiser. — disse Chernobog, estalando os dedos. Subitamente, as duas caçadoras apareceram na mesma velocidade com que Chernobog desapareceu dali. Frank mal continha a emoção ao revê-las vivas e intactas.
— Mas... O que tá havendo? Onde é que eu vim parar? — indagou Natasha, desorientada.
— Voltamos, é isso? — indagou Miyako esquadrinhando a casa — Sr. Montgrow...
— Frank... Ah, meu Deus, você tá vivo. — disse Natasha, logo abraçando o amigo — Que ótimo, você nos trouxe de volta. Obrigada...
— Não precisa me agradecer. — disse Frank, a voz embargada, indo abraçar Miyako — Ao menos uma coisa boa aquele maldito pensou em me dar, fora o prêmio do jogo.
— Você venceu!? — disse Natasha, surpresa — Mas se você ganhou, então... O que ele faz aqui? Aliás, onde é aqui? Estamos em Los Angeles?
Fred retirou a máscara, sorrindo simpático e acenando para elas.
— Até que enfim se revelou. — disse Miyako, olhando-o fixamente — Quem é você?
— Pelo que vejo, você e ele parecem se conhecer... — disse Natasha a Frank — Ou é só impressão minha.
— Diria que são até parecidos. — analisou Miyako.
— Prometo contar tudinho a vocês mais tarde. Temos que ir pro bunker, reunir todo mundo e traçar uma estratégia contra o Hartley urgente. — disse Frank com firmeza — Fred, podemos ir.
— Espera, deixa eu conferir na sua cabecinha de vento onde é esse lugar. — disse Fred tocando na têmpora de Frank e vasculhando psiquicamente a localização do bunker — OK, agora sim. Toquem em mim vocês duas.
— Mas... — disse Natasha, perdida — Ah, tudo bem! Não vou questionar.
Miyako relutantemente estendeu a mão direita e o tocou no peito.
— Sinto um coração puro em você. — disse ela que recebeu um olhar estranho de Natasha — Eu meio que sou sensitiva.
Fred teleportou-os direto ao bunker da ESP. Carrie vinha tomando um copo de café ao entrar na sala de pesquisa onde se deparou com Frank parado com um sorriso fechado e misterioso.
— Frank! Nossa, que susto, quase me engasgo! Graças a Deus, você voltou!
— Se prepara pro coração bater mais forte.
— O que tá escondendo? Esse seu sorrisinho me deixa com um pé atrás...
— Não é nenhuma pegadinha. Olha aqui quem mais voltou além de mim.
Natasha surgiu levantando-se atrás do sofá junto com Miyako. A assistente mal percebeu o copo cair da mão derramando café. A expressão de perplexidade lhe preencheu na face, os olhos marejando. A caça-vampiros veio até ela com semblante tranquilo e sereno.
— Eu nem sei o que dizer... — disse Carrie quase chorando. Partiu para o abraço apertado em Natasha, algo que durou pouco mais de um minuto — Mas como? É você mesma, minha musa do rock, inteirinha como se nada tivesse acontecido. — ficou tocando o corpo de Natasha que naturalmente riu.
— Chegou a pensar que fosse um fantasma? — perguntou a caçadora.
— No máximo. — respondeu Carrie também rindo — Frank, vai ter que obrigatoriamente me contar em detalhes sobre essa virada do destino.
— Trocando em miúdos: o Chernobog resolveu me agraciar com um prêmio de consolação além do que ganhei no jogo pra escolher duas pessoas eliminadas que merecessem reviver.
— Se você ganhou... Então levou vantagem sobre o caçador mascarado? Ele não era quem você mais temia pela suspeita dele ser um anjo caído? Conseguiu elimina-lo?
— Não e ele tá bem atrás de você.
Carrie se virou bruscamente, assustada. Ao ver a figura robusta de Fred, ficara totalmente boquiaberta.
— Não brinca... Fred?!
— E aí, Carrie? Faz tempo, né? — disse o nefilim que a tocou no ombro e deu um sorriso aberto.
A assistente o olhou de cima a baixo, incrédula.
— Eu não sei o quanto mais posso me chocar nesse dia. Acabei de tomar um calmante, vou precisar de mais três de uma só vez.
— Tem mais alguém aqui, um rosto novo na nossa equipe. — disse Frank apresentando Miyako. Carrie voltou-se a ela, simpática.
— Você deve ser a Miyako, muito prazer. — disse ela apertando a mão direita da caçadora.
— O prazer é todo meu. Será que podia me dar um pouco desse calmante? Porque eu tô super nervosa e ansiosa, mas ao mesmo tempo muito feliz. Que loucura esse dia tá.
— Somos duas então. Preciso ser beliscada pra ver se tô sonhando. Minha melhor amiga de volta dos mortos, meu antigo parceiro de trabalho de volta do submundo, meu melhor amigo sobrevivente de um desafio mortal... Não sei como não desmaiei. — disse Carrie sendo tocada nos ombros por Natasha ao lado dela, ambas partilhando sorrisos.
— Cadê o Giuseppe? — indagou Frank.
— Ele saiu pro DPLA faz pouco mais de três horas. Hoeckler não saiu do escritório e as panteras passaram o dia enfurnadas no aposento delas estudando novas mágicas. Lá fora, o caos só piora. Dizem que Hartley está em estado grave na UTI.
— Ah, eu imagino. Pois quando Giuseppe chegar, quero todo mundo aqui reunido, vamos discutir os próximos passos contra o riquinho do mal.
***
Já noite, todos que Frank gostaria de ver presentes na sala de pesquisa estavam ali, com exceção de agentes da força-tarefa móvel. O detetive se prestou a primeiramente apresentar Fred. Até mesmo Adrael fora chamado.
— Bem, pessoal, gostaria que conhecessem o Fred... meu meio-irmão.
A informação chocou Agnes e Lisbell.
— E é um caçador como você? — perguntou Lisbell.
— Mais do que isso. Bem mais. — disse Frank — E é casado, só pra avisar.
— Que pena. Se eu não estivesse com Tanya e ele solteiro, estaria seriamente indecisa. Com todo o respeito. — disse a bruxa de cabelo ruivo escuro.
— Tudo bem. — disse Fred meio sem jeito — E parabéns a vocês por se assumirem um casal. Se decidirem casar, adoraria testemunhar isso.
— Já está convidado pra cerimônia ao ar livre. — disse Tanya — Gostamos de você, sinto que será de imensa ajuda. A aura que você emana... é de uma envergadura acima de tudo que já vi.
— Claro, pra um ser que é metade anjo isso é a coisa mais óbvia de se ouvir. – disse Frank.
— Um nefilim, interessante. — disse Agnes olhando para Fred — Com ele temos uma arma secreta muito mais efetiva que o Necronomicon.
— Mas ele deverá se manter escondido considerando que Raguel não ficaria nada satisfeito com um nefilim caminhando sobre a Terra durante uma guerra santa. — disse Adrael — Talvez só deverá agir em momentos extremamente cruciais.
— O plano atual é arrancar a esfera da dimensão de bolso de dentro do Hartley antes que o inominável escape do Éden. A Agnes tem que reforçar continuamente o feitiço de selamento pra dar tempo de Fred e eu nos prepararmos porque o pokemon vai sair da bola, é certo isso. — disse Frank.
— Nesse intervalo, vou passar um tempo pra me reajustar ao mundo. — disse Fred — E isso inclui minha família. — olhou para Adrael — Perdoo você. Cumprindo sua palavra, então... sem ressentimentos.
— Eu o farei muito em breve. Se diz que alcançou estabilidade e controle, me resta acreditar nisso. Sua energia mudou, apesar de ter estado envolto de seres corruptos. Há uma força interior admirável em você, posso sentir.
— Obrigado, Adrael. Eu vou procurar vencer tudo o que instiga liberar meu lado maligno. Vou me purificar completamente, é minha maior promessa.
— Frank tem um irmão sobrenatural... Quem diria. — disse Giuseppe ainda surpreso — Espero que volte pra sua antiga vida. Se é um bom pai e esposo, merece ser lembrado.
— Obrigado. Mas essa paz não vai durar tanto quanto eu gostaria.
— Na verdade, ninguém terá uma paz genuína. — disse Carrie antenada nas notícias pelo laptop — Só se o todo-poderoso arrebatar seus favoritos.
— O que tá rolando, Carrie? — perguntou Frank.
— Segundo as maiores fontes jornalísticas do mundo, a Globemax foi autorizada pelo governo americano a dar curso à produção em massa da iniciativa CSS que significa... Super-Soldado Cibernético. A princípio, usariam exoesqueletos de metal em voluntários das forças armadas, mas com o avanço na automatização, optaram por modelos autônomos e artificiais. O presidente sancionou uma lei anti-monstro que entrará em vigor amanhã mesmo para reforçar o toque de recolher e a segurança nacional.
— Quer dizer que... o Hartley vai soltar um monte de exterminadores do futuro nas ruas pra manter a população segura contra os monstros? Sacanagem, já não bastava o chip... — disse Frank, preocupando-se.
— Santo Deus... — disse Giuseppe — O exército do anticristo está vindo à tona.
— Esse cara é meio a meio como eu, tecnicamente sou o único capaz de nivelar uma luta. — disse Fred, disposto a agir.
— Esqueceu do que o Adrael falou? Você não pode se expor. O Raguel é um anjo brabo, tá de olho em tudo e anda numa linha bem controversa ultimamente. Nada confiável. — alertou Frank.
— Não foi exatamente com o objetivo de aprisionar o Grande Mal que ele sugeriu a ideia. — disse Adrael — O olho que tudo vê é uma relíquia celestial inestimável e foi enterrado no Éden para salvaguarda-lo do mal. Raguel deseja uma Guerra Santa ainda mais catastrófica.
— Se eu tivesse a desconfiança de Theodor, teria recusado. — disse Agnes olhando para o ex-amado — Mas me senti tão importante sendo incumbida por um anjo de elite e, diga-se de passagem, um príncipe encantado, que não resisti.
— Não foi culpa sua, Agnes. Se o Raguel planejou com intenção de tornar tudo pior, ele vai pagar caríssimo. — salientou Frank — Vocês três me dão cobertura?
— Crie uma distração. — disse Agnes — Juntas o cercaremos pra recitar um feitiço de remoção que treinamos hoje cedo usando ratos.
— Pra quebrar um pouco essa atmosfera negativa... — disse Carrie levantando com uma caixinha de papelão contendo pedaços de papel dobrados — Hora de sortearmos nossos amigos secretos. Vamos lá.
A assistente passou por cada um que retirasse um papelzinho. Mas ao chegar em Adrael, foi ela quem pegara o último.
— Eu apreciaria participar disso. — disse o anjo.
— Foi mal, fiz pensando em 10 pessoas ao todo. — justificou Carrie, desconcertada — Quem sabe na próxima?
— Talvez não haja próxima. — retrucou Adrael, pessimista.
— Hum, tirei alguém que eu não esperava. — disse Fred. Frank se inclinou de lado para espiar e levou um tapinha de Carrie.
— Ei, não vale olhar! E nem dar dicas de antemão. — avisou ela, severa.
— Frank, melhor se apressar. — disse Hoeckler olhando algo na internet pelo celular — Um grupo de fanáticos religiosos marcha rumo a Globemax. A repercussão do chip antiviral e dos soldados cibernéticos levou os cristãos mais fervorosos à loucura. Em vez de tochas e forquilhas, estão carregando armas pesadas.
— Ai caramba... Adrael, me leva até lá agora. — pediu Frank ao que o anjo atendeu de imediato.
Foram parar num largo corredor de paredes pretas que levava diretamente a ampla sala de reuniões da Globemax.
— É o ponto mais próximo que consigo alcançar. — disse Adrael — Existe uma alta concentração de energia maligna irradiando, é... asfixiante.
— Nem com o miserável preso noutra dimensão vocês serafins conseguem chegar perto. — analisou Frank.
— Nunca fui preparado para enfrentar algo dessa magnitude, por isso meu recuo. Vá, Frank, detenha-o antes que seja tarde. Farei minha parte com a família do nefilim.
Frank assentiu e correu até a porta dupla, sacando a lâmina sacerdotal. Viu Hartley de costas olhando o caos abaixo pela imensa janela que proporcionava uma vista panorâmica da cidade. Os membros da comunidade religiosa iniciavam um confronto com a força tática policial munida de cassetetes, escudos e armas com balas de borracha, alguns dos manifestantes quebrando vidraças da entrada, mas reprimidos violentamente pelos guardas.
Frank arremessou habilmente a lâmina contra Hartley que a parou telecineticamente. O bilionário virou-se pegando-a.
— Sua fé é como a deles: cega e ingênua. Quer ver o que acontece? – fincou a espada no coração do qual sangue gorfava e girou. Frank cerrou os dentes, sentindo-se estúpido — Massagem cardíaca. — desencravou a lâmina, jogando-a — Se quiser ser defenestrado daqui pra ser pisoteado pela arruaça lá fora, basta pedir. Mas se insiste em me enfrentar...
— Não só insisto, como também vou mostrar do que agora sou capaz. — disse Frank, confiante — Vem cá.
Hartley mostrara olhos pretos com íris vermelhas avançando furioso. Frank aplicou um soco pesado que quase o derrubou.
— Quanta força... — disse o demione, rindo — Metade da minha estrutura óssea facial até rachou. Está diferente do nosso primeiro encontro.
— Você ainda não viu nada. — disse Frank que logo desferiu mais socos em diversas partes do torso de Hartley bem como no rosto em um ritmo nunca antes executado por ele. Por fim, girou dando um chute bem agressivo. Hartley contra-atacou rugindo feito um leão bravo, as pupilas brilhando. Lançou uma onda vibratória que tirou Frank do chão fazendo ondular a pele da sua face como numa ventania intensa. O detetive foi lançado contra a parede, mas firmou os pés dando um impulso para "voar" até Hartley e o derrubar. Ambos caíram sobre a mesa, partindo-a em duas. O bilionário afastou Frank com telecinesia e bateu as duas mãos efetuando um poder de subjugação.
— Me reverencie, Frank. Se curve ao deus do novo mundo. O deus que os alienados abaixo terão de aceitar, independente do que pensem. Se disser "eu me rendo a ti", com toda a devoção, prometo não liberar meu exército de reserva.
— Nem... morto! — disse Frank, resistindo ao controle.
— Bem, como desejar. Compartilharemos o sangue dessas pessoas em nossas mãos. — disse Hartley tocando na escuta do ouvido esquerdo — Acionem força letal, teste de campo CSS.
As máquinas humanoides com olhos verdes brilhantes saíam cuspindo balas nos manifestantes, elevando a cacofonia de gritos do pandemônio instaurado que transformou-se num fuzilamento em praça pública.
— Aquele não era você tomando um tiro na cabeça, né?
— Um protótipo com revestimento à imagem e semelhança do criador. Vamos dar um basta nisso entre nós. Tiramos no cara ou coroa pra ver quem começa o segundo round?
Agnes, Lisbell e Tanya surgiram dos cantos escuros da sala recitando o poderoso feitiço de remoção. A medida que pronunciavam o latim arcaico, um símbolo místico de luz púrpura se desenhava cercando Hartley. O trio de bruxas intensificava o poder de pressão sobre ele que passou a levitar sob o domínio da magia. A esfera foi saindo gradualmente do peito de Hartley disparando contra o chão. Frank a pegou, mas largou na hora ao senti-la fervendo.
— Merda! Não, não tá acontecendo... — disse ele vendo fissuras no cristal. Hartley voltou ao chão, mas explodiu uma onda sombria emanada do corpo que repeliu as bruxas. Subitamente, uma massa de sombra e fumaça negra arroxeada que parecia ter uma consistência de piche e lama em formato esférico de grande tamanho. Frank foi recuando caído, olhando atemorizado.
— Não terminamos aqui, Frank. — disse Chernobog. Um ponto vermelho de luz cresceu no centro da esfera, dando a entender ser o valioso olho que tudo que vê subtraído do Éden. A esfera se desfez, a "lama" negra dirigindo-se a boca de Hartley pela qual adentrou. Os olhos do bilionário reabriram-se, o esquerdo brilhando todo em vermelho enquanto a entidade sorria.
— Não pode ser... — dizia Agnes levantando — Não!
Chernobog desaparecera com Hartley. Um silêncio se fez deixando apenas a barulheira caótica abafada metros abaixo. Frank se levantou indo ajudar as bruxas.
— Lisbell... Tá tudo bem? Agnes, Tanya...
— Sim, estamos. — disse Tanya, tocando na cabeça ferida — Mas falhamos.
Adrael surgia de repente para avisar Frank.
— Frank, o que houve aqui? — indagou o anjo que notou a esfera quebrada — Não... Como puderam deixa-lo escapar?
— A Agnes fez o melhor que pôde. — disse Frank — Esse olho... talvez o tenha deixado mais forte.
— Era o que eu mais temia, mas confiei no esforço da magia delas pra mantê-lo selado. Uma pena ter sido em vão.
— E aí? Ao menos devolveu as memórias da família do Fred, né?
— Sim, mas... Há uma restrição que pode frustra-lo.
***
Na manhã seguinte, o BMW de Frank estava parado em frente a casa em que vivia Pamela Hackson com seu filho, Donald.
— Ah, não esquece de agradecer a Carrie pela invasão no banco de dados pra tornar isso possível. Boa sorte. — disse Frank para Fred já fora do carro. Deu um joinha ao irmão que fez que sim com a cabeça, suando de nervoso.
Fred entrou na casa vendo a esposa fazendo um bolo na mesa de jantar. Ao virar-se, Pamela arquejou de susto.
— Meu Deus... Fred, você...
— Sim, amor, eu... eu voltei. Me desculpa, a porta tava aberta, fui invadindo...
Donald veio ao cômodo, se alegrando com o retorno do pai.
— Não acredito! Pai, você tá aqui! — disse e correndo para abraça-lo emocionado — Senti muito sua falta! Todas as noites rezava pra que finalmente voltasse! Deus me ouviu!
— Eu também. — disse Fred, segurando as lágrimas — Nossa, como você cresceu, meu filho!
— Acabou de fazer 12 anos. — disse Pamela soando fria ao marido — Mas ele não passou os últimos quatro aniversários incompletos ou em branco.
Um homem aparecia vindo da cozinha, afro-americano alto, robusto, de cabeça meio raspada e barba por fazer.
— Opa, não sabia que tava com visita. Amor, cadê a faca de trinchar? Não vi na gaveta dos talheres.
— Devo ter colocado na última porta da despensa junto com a batedeira e um monte de tralha aleatória junta, tá uma bagunça.
— Ele te chamou de quê? — indagou Fred, temeroso.
— Esse é o Derek... meu noivo. Derek, este é o Fred, meu ex.
— Ah, olá, a Pamela me falou de você umas vezes... — disse Derek estendendo a mão, o que Fred não retribuiu expressando antipatia — Ahn... Eu vou procurar a faca. Foi um prazer.
— Donald, vai pro seu quarto, deixou a TV ligada.
— Mas quero ficar mais com o papai.
— Agora! — bradou ela recebendo um olhar impetuoso do filho que saiu.
— Educado ele, né? O seu estepe. — ironizou Fred.
— E você um grosso e infantil. O que foi? Acha que pode simplesmente voltar como se tivesse passado uma temporada de férias no seu emprego perigoso?
— Eu estive em cativeiro por rebeldes extremistas, só pude me libertar agora.
— Sinto muito, mas chegou tarde. Dei entrada no divórcio que foi homologado. Deram você como morto, Fred. O que eu fiz nesse meio tempo? Recomecei. E tenho esse direito. Agora é a sua vez.
O baque soou como um tiro certeiro no peito em como Fred absorvia a verdade.
— OK, deixei de ser seu marido, mas não pai do Donald!
— Não tô te proibindo de vê-lo, que isso fique bem claro. Muita coisa acontece em três anos e não se cura de uma ausência assim tão rápido. — disse Pamela, comovida — Venha quando quiser, mas... acabou. Não existe mais nós.
— E pra quê toda essa...
— Vou dar uma festinha intimista. Comemorar meus cinco meses. Eu tô grávida do Derek.
Fred sentia um nó lhe estrangular a garganta ao notar a barriga da ex-esposa.
— Parabéns. Olha, eu... vou viajar pro Alasca junto com o Frank, aquele meu amigo que eu trouxe daquela vez, porque a amiga dele, Carrie, vai fazer uma festa de natal na casa da irmã dela, até amigo secreto terá. Eu me sentiria o homem mais feliz do mundo... se você e o Donald fossem comigo.
— Tudo bem, estamos confirmados. Mas não sem o Derek. — disse Pamela, a condição desanimando Fred.
— Claro, ele pode vir também. Vou tentar ser amigo dele. A gente se vê daqui a três dias.
Ao voltar para o BMW, Fred bateu forte a porta.
— Que cara é essa? — indagou Frank.
— Pisa fundo, vamos dar o fora daqui.
— Não, me conta o que rolou lá dentro. Ela não te dispensou, né? O Adrael me falou que tinha um obstáculo pra você, mas não especificou.
— Ela tá com outro. — disse Fred, lacrimejando olhando pela janela — Noiva e grávida.
Frank arqueou as sobrancelhas, chocado.
— Que droga. — disse ele socando de leve o volante — Ia ser a grande oportunidade de equilibrar suas duas metades longe da Lilith.
— Não, tá tudo bem, Frank. Mas não volto pra Lilith, ela é passado. Vou apenas segurar a onda. E o Adrael não teve culpa, ele não podia interferir na forma que a Pamela reconstruiu a vida dela. Eu que fiz tudo errado. — disse Fred, enxugando as lágrimas — Mas ela aceitou meu convite de passar o natal conosco levando o Donald e o cara novo também.
— Bom, ao menos um lado positivo você criou. Vamos nessa, não fica deprimido. — disse Frank ligando o carro para partir de volta ao bunker.
Lá, Carrie e Giuseppe viam na TV o noticiário acerca dos eventos decorridos do levante de cristãos manifestantes contra Elton Hartley e sua nova política influente à segurança e à lei. Frank e Fred vieram na parte em que se falava dos soldados cibernéticos preparados para patrulhar a cidade no toque de recolher em todas as cidades flexibilizadas da epidemia.
Hoeckler entrou trazendo uma má notícia adicional:
— Frank, acabei de interrogar o Zaratro usando a magia de disfarce que Agnes testou em mim. Acho que fiz uma boa imitação sua. Mas o que ele revelou... me caiu como um balde de água fria.
— O Fred já tomou um, minha vez agora.
— Orion foi corrompido após terminar o desafio da entidade Khaleido. Ao ser sondado pelos anjos após se rebelar contra Zaratro e Chernobog, ele falhou no teste da espada angelical... e morreu. Por conta do sangue ligado a Khaleido se tornou indigno.
— E isso faz com que o Frank... — disse Carrie.
— Sim. O instinto de caçador primitivo que conecta você e Orion... não o dignifica à espada. Sinto muito, Frank.
— Não vou me preocupar. — disse Frank, calmo — A gente já perdeu mesmo. — foi saindo da sala.
— Peraí, Frank, não diz isso. Vai jogar a toalha? Aonde você vai? — perguntou Fred que foi tocado por Giuseppe.
— Vamos dar espaço e tempo pra ele processar isso.
Fred proferiu sua opinião:
— Não notaram o quanto esse instinto mudou nele? Não é mais o mesmo. E sinto que essa mudança vai progredir. O corpo pode estar revigorado. Mas e a mente? Que preço ele vai ter que pagar?
Frank lavava o rosto na pia do seu banheiro. Ao ergueu o rosto e se secar, ficara encarando o seu reflexo no espelho. Sua expressão ganhou tom de fúria contida e intimidadora. Conforme seguia fitando a si mesmo, uma imagem de Orion piscou a ele que não se abalou... pois enxergava ali uma alma gêmea familiar no sentido mais absoluto. Duas almas intrínsecas se entreolhando como um só.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

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