Frank - O Caçador #116: "Emergência no Alasca"

 


Juneau - Alasca 



Uma cativante atração natalina naquela pacata rua de calçadas cobertas por grandes volumes de neve era aberta ao público, especialmente crianças estimuladas a sentir algum encanto inocente pelos ornamentos simples e tradicionais da festividade em uma geração ainda mais inclinada e distraída às tecnologias modernas. Os irmãos gêmeos Clive e Adalyn, ambos de 9 anos e partilhando dos olhos azuis como traços genéticos, foram algumas dessas crianças convencidas a fazer uma visita na casa enfeitada onde morava um Papai Noel que distribuía presentes após uma tour pela residência. 



A dupla bem agasalhada se aproximava do reluzente local.



— É aqui mesmo, Clive? — indagou Adalyn olhando atentamente para a casa cuja fachada era repleta de luzes amarelas, vermelhas e verdes com bengalas doces em cada lado, além de vários enfeites concernentes a celebração e lindamente montados.



— De acordo com o cartão, sim. Chegamos. Mas a porta não devia estar aberta? — questionou Clive parando frente a casa junto a irmã.



— Vai ver ele é tímido, sei lá. Anda, vamos entrar logo antes que a mamãe perceba que fugimos.



Os dois se encaminharam a porta. Bateram ao mesmo tempo, logo sendo atendidos por um receptivo homem gordo, velho e simpático usando camisa branca com estrelas amarelas e uma calça vermelha com suspensórios, além de calça botas pretas bem associadas à representação mitológica popular.



— Venham, venham, podem ficar a vontade observando a decoração fabulosa que preparei especialmente para visitantes como vocês. — disse o velhinho gentil deixando-os entrar encurvando as pontas do bigode de sua espessa barba branca — Mas antes... — virou-se para eles com ar de advertência — Eu preciso saber onde estão seus responsáveis. Sem eles não podem assinar seus nomes na lista de visitas.



— Tá vendo só? Eu bem que te avisei! — disse Adalyn para o irmão — Se eu soubesse, teria contado a mamãe! 



— E ouvir um não em alto e bom som? Qual é, Adalyn? Fiz isso pela gente e é assim que você me agradece?!



— Por favor, por favor, não briguem, crianças! Eu só estava brincando, é claro. — disse o Noel, apaziguador — Podem se divertir à valer independente dos seus pais. Preguei uma peça das boas em vocês hein. — deu uma risada.



— Sério? Ah valeu papai Noel! Posso tirar umas fotos? Não é proibido, né? — pediu Clive sacando seu smartphone.



— Aqui a única proibição é ficar de cara amarrada e entediada. Aproveitem, minha casa é de vocês!



— Podemos ficar o quanto quisermos? — perguntou Adalyn, se empolgando enquanto corria os olhos pelas montagens e maquetes natalinas — Eu pensei que tinha regras chatas... como essa de trazer os pais pra cortar nosso barato.



— Essas vão pro Instagram! — disse Clive, fotografando cada detalhe — Caramba, deve ter dado o maior trabalhão modelar tudo isso, os bonecos, as árvores, as casinhas...



— Tá lindo, eu amei tudo. Inclusive, essa musiquinha que tá tocando... — disse Adalyn, fascinada com a decoração requintada, se deixando levar pelo som instrumental natalino.



— Cadê a sua fantasia? — indagou Clive, estranhando. O velhinho parou ao ouvir a pergunta quando estava saindo da sala.



— Ah, meu traje formal está na secadora. Eu já ia me trocar quando vocês chegaram. Ainda são sete e meia, ninguém viria tão cedo.



— É que saímos de fininho mentindo pros nossos pais. — revelou Adalyn. Clive lançou um olhar acusador e revoltado para a irmã.



— Sua linguaruda... — retrucou ele, baixinho.



— Oh, eu não faria isso no lugar de vocês. Mas já que vieram, não há mais volta. Guardem esse segredo como suas próprias vidas. Eu volto já.



Clive foi até sua irmã cochichar algo que notara.



— Adalyn, não teve a impressão... de que esse Papai Noel é meio esquisito?



— Como assim? Lá vem você, pirado com as ideias. Não vem estragar nosso momento. Ele é legal, nos deixou ficar pelo tempo que quiséssemos.



— E se nossos pais descobrirem que saímos e ficarem preocupados? Ele nem pensou nisso, só nos deixou... sozinhos e sem restrições. Será que toda criança que vir aqui tem liberdade de fazer isso?



Clive derrubou uma pequena escultura de rena folheada a ouro que se espatifou em pedaços no chão.



— Tá maluco? Olha o que você fez! 



— Shh... Quero ouvir o que ele vai dizer.



— Vamos ser expulsos!



— Será? Ele deixou claro que não tem regras. Não acha que deveria existir uma que impedisse qualquer visitante de tocar e quebrar coisas ou de tirar fotos?



Adalyn pensou a fundo na questão.



— É, você tem um bom argumento. Se não há regras... podemos ver o que tem na cozinha. Tô morrendo de fome.



— Traz peito de peru se tiver. Mas cuidado pra ele não te pegar no maior flagra. 



Adalyn virou-se correndo para a casa adentro e explorar livremente. O Papai Noel a viu passar pelo corredor pela brecha da porta entreaberta, arregalando os olhos cheios de veias na esclera.



A menina cravou sua visão na geladeira e a abriu. Porém, o que encontrou a fez recuar de imediato. Dentro do refrigerador estavam armazenados órgãos humanos como intestinos delgada e grossos, corações e fígados, além de mãos e pés decepados na parte de baixo, todos congelados. Adalyn seguia recuando, expressando horror e soltou um grito agudo, mas logo foi silenciada pela mão enluvada do "bom velhinho" tapando sua boca rapidamente. Clive preocupou-se com a demora da irmã e se encorajou a procura-la pela casa.



— Adalyn! Cadê você? 



Mas percebeu que havia cometido um erro ao falar em voz alta e tapou sua boca com as duas mãos desesperado. Na cozinha, viu o Papai Noel colecionador de vísceras humanas arrumando a geladeira. Ele segurava na mão esquerda um globo de neve. 



— A Adalyn sumiu! Cadê ela?



— Não sumiu, não. — disse o velhinho com olhar malicioso para o garoto — Você quer revê-la meu jovenzinho? Olhe para o meu globo...



— O que fez com ela? Você não é quem diz ser! Fica longe de mim!



— Olhe para o globo... — disse o velho, aproximando-se de Clive ameaçadoramente. Por puro instinto, o garoto focou diretamente na esfera de vidro que abrigava uma cidade em miniatura sob uma chuvinha de neve — Olhe!



A pequena redoma de vidro emitiu uma luz azulada que banhou todo o cômodo. Clive havia sido tragado pela tal luz. O falso Papai Noel enfim revelava sua faceta genuína e asquerosa. Tinha uma aparência envelhecida tal qual a imagem que falseava, mas usando roupas de frio azuis, sujas e com rasgos, além de barba branco-acinzentada com cristais de gelo.



— Façam companhia pro meu irritante irmãozinho. — disse ele que possuía um rosto enrugado de pele azul num aspecto monstruoso com orelhas pontudas. Deu uma risadinha sarcástica olhando para o globo de neve que sacudia, deixando visíveis dentes animalescos.



***



Na casa do lago onde Sharon Wood, irmã de Carrie, vivia com sua filha estando separada do marido, após as 12 badaladas do sino de uma igreja nas proximidades, a assistente tocou o seu próprio sino dourado e pequeno para anunciar aos convidados o momento mais aguardado de toda a festa:



— Pessoal, hora de começarmos a troca de presentes! Como a ideia partiu de mim, vou selecionar quem vai primeiro. — disse ela, o tom alto para todos na sala de estar. Correu os olhos pelos convidados, o indicador direito indo e voltando na seletividade — Hum... Deixa eu ver... — fizera um suspense com sorrisinho sacana — Frank. 



— Quem mais poderia ser senão o protagonista? — disse o detetive em tom brincalhão, arrancando umas risadas. Levantou-se com sua caixa de presente e foi ao centro da sala — Bem, vamos nessa... Nem sei por onde começar, não sou muito bom em descrever alguém pra esse lance de amigo secreto.



— Vai dando umas pistas sobre a aparência física, daí nós tentamos adivinhar. — disse Sharon, empolgada. A irmã mais nova de Carrie possuía um ar jovial sendo uma recém-iniciante da casa dos quarenta, com cabelos castanhos escuros ondulados e uma franja discreta.



— Vai, Frank, você consegue. — apoiou Natasha com uma garrafa de cerveja sentada no sofá ao lado de Miyako, a esquerda, e Adrael à direita com suas vestes civis humanas.



— Beleza, vou fazer de um jeito que pareça um monólogo de teatro. — disse Frank que pigarreou antes de começar — Ahn... A pessoa que merece esse presente desempenhou um papel controverso na minha vida numa certa parte da minha jornada de caçador. Alguém que interferiu severamente no meu trabalho com intenções duvidosas pra me controlar ou me limitar. Nós somos parecidos na teoria, mas totalmente diferentes na prática. Mas o tempo que lidamos com nossas diferenças... ajudou a construir uma relação mais sólida de respeito mútuo, embora eu não o considere exatamente um amigo... precisamos de mais tempo ainda pra que as feridas cicatrizem totalmente. Mas se eu dissesse que não conquistei nenhum aprendizado com ele, eu estaria mentindo na cara dura... e o pior, insistindo numa mágoa que já morreu afogada.



***



5 horas e meia antes



O BMW que Frank passou a considerar de sua propriedade atravessava uma rua meio deserta ladeada por grandes montes de neve nas calçadas. Guiado pelo GPS e incunvido de levar um pernil assado para somar a ceia, o detetive falava com Carrie ao celular encaixado no suporte.



— Faltam mais uns três quilômetros, segura aí. — disse Frank tentando tranquilizar a assistente quanto a sua demora — Vacilei feio em queimar o primeiro pernil, me distraí com uma pesquisa que eu tava fazendo sobre Chernobog e o irmão dele, Belobog.



— Nos últimos dois dias, você tem agido de forma meio complexada, sabia? Criou uma fixação em se aprofundar nas lendas que giram em torno dos deuses eslavos sendo que você nunca deu tanta credibilidade assim pras narrativas. Nem parece mais você.



— Depois do sete a um que levamos no dia em que tomei o sangue do Orion, não penso em outra coisa senão mergulhar fundo em tudo quanto é registro mitológico sobre o desgraçado pra quem sabe usarmos de alguma informação a nosso favor que possa ser verídica. — disse Frank que comia umas rosquinhas carameladas — Humm... Nossa, isso aqui tá uma delícia.



— Não é o pernil, né? 



— Umas rosquinhas que comprei numa lojinha aqui pertinho.



— Parou pra comprar rosquinhas?! Frank, você tá com a cabeça em outra dimensão, não é possível... Não tá levando em consideração a urgência da situação. Preciso da mesa pronta antes da meia-noite porque é véspera de natal, caso tenha esquecido. O segundo peru vai levar mais um tempinho, mas tem que chegar antes dele sair do forno ou ao menos poucos minutos depois.



— Você vai repetir o discurso de que eu tô diferente do meu normal por conta do instinto primordial, né? Eu tô apenas com fome, só isso.



— Tenho reparado nisso também. Seu apetite ficou mais voraz que o de um leão. Se isso não for esse sangue do seu avô pré-histórico, não sei mais o que é. Achei que usaria a desculpa a fase de crescimento.



— Olha, eu tô bem, apesar de tudo que ocorreu. Meu peso até aumentou nos dias que tiramos folgas pra comprar presentes aos nossos amigos secretos. Comer e me exercitar nesse intervalo me ajudou a desopilar um pouco de toda a merda que cresceu em cima da gente. A Natasha e a Miyako já chegaram?



— E se eu te disser que... só tá faltando você chegar? A propósito, o Fred tá só aqui no meu pé, não somente observando a paisagem do lado pela janela. Quer uma palavrinha com você agora.



— Ah, o Fred já tá por aí? Passa pra ele, pelo jeito que falou ele tá ansioso pra me contar alguma coisa.



— Vem logo pra cá, a Sharon tá louca pra te rever. Ela só interagiu com você uma única vez antes de vir fazer morada aqui. Não demora mais.



Carrie passara a ligação para Fred que não se continha de ansiedade para repassar uma informação elucidativa a Frank.



— Frank, não vai acreditar, eu encontrei um clube de caçadores aqui próximo num bar. Eles atestaram as evidências do Pé Grande na região. Obtiveram pelos enroscados nas árvores, além das pegadas enormes.



— Cara, melhor dispensar caçada por hoje. Jurei solenemente que tiraria umas férias até o réveillon.



— Mesmo com um instinto sobrenatural e primitivo de caçador correndo nas suas veias nesse sangue quente? Não minta pra si mesmo.



— Eu não sei se tá querendo me engajar ou tapear. Pé Grande? O mais mito dos mitos. Até os criptozoologistas já desistiram.



— Tem relatos de desaparecimentos entre os caçadores da região. Uma coisa que tá papando vítimas há três dias. Nessa época do ano é bem comum ouvir histórias do tipo, os indícios sendo exatamente iguais.



— Um Yeti, Pé Grande ou coisa parecida é bicho grande demais pra deixar pistas sem se expor por tanto tempo, se os caçadores daqui forem tão bons assim. Que tal a gente focar só na festança? Eu posso estar carregado de força pra caçar como nunca na vida, mas o momento atual pede uma pausa na ação. Como é que tá?



— Tudo numa boa. Donald tá jogando videogame com o Giuseppe, as garotas jogando banco imobiliário, Hoeckler vidrado no celular muito solitário e a Pamela ajudando a irmã da Carrie nos últimos preparativos. Vem logo porque a anfitriã número dois não vai iniciar a ceia sem o cardápio completo. Ah, tem uma visitinha surpresa. Acho que isso vai te acelerar mais.



— O quê? Convidado surpresa, é? Legal, mas avisa pra Carrie que peguei um atalho repleto de neve e corro o risco de atolar bonito. Se der ruim, você vem com o Giuseppe ou o Hoeckler empurrar até chegar aí.



— Por que eu viria acompanhado? Sou um nefilim superpoderoso, posso jogar seu carro longe, me deslocar na velocidade da luz... — disse Fred vendo Carrie o encarar contrariada de braços cruzados — ... e fazer uma excelente pegada na frente da casa. Não é mais prático? Mas toma cuidado, evita as partes íngremes demais, vai pelas mais planas... Tchau.



— Era pra ser uma surpresa definitiva. — disse ela, criticando a prévia dada sobre o convidado inesperado — Mas você tinha que dar uma dica.



— Não dei dica nenhuma, só disse que havia alguém não convidado antes. Enfim, Frank avisou que pegou um atalho cheio de neve pra se atolar. Melhor adiar o pernil pro almoço de amanhã.



— Nem pensar. — disse Carrie, categórica. Natasha veio até ela com uma taça de champanhe.



— Frank já tá a caminho? — indagou a caça-vampiros.



— Tomou a rota mais problemática pra vir mais rápido achando que o carrão emprestado dá conta de cruzar sem transtorno.



— Boa sorte pra ele e pra quem for cuidar desse pernil com o tempo que ainda resta. Quer jogar com a gente? Eu tô fora, mas entrou uma adversária de primeira pra me substituir. Tá quase milionária.



Ambas olharam para a convidada que superava expectativas com sua habilidade no jogo. Lisbell, Tanya, Agnes e Kisrten, sobrinha adolescente de Carrie se impressionavam com o quanto ela se sobressaía.



— Veja só, ela é... tão parecida com ele em tantos pontos.



— Só que mais competitiva. — adicionou Natasha, dando um gole na bebida.



No meio da disputa pela fortuna do jogo entre as garotas estava Heather, a mãe de Frank, dominando o tabuleiro entusiasticamente.



***



Decidido a acabar com o suspenso prolongado, Frank tornou o discurso mais objetivo.



— De todas as pessoas participando, ele foi a que eu menos esperei. — disse Frank ora olhando para cada um, ora olhando para o presente — Hoje me sinto mais confortável em expressar minha gratidão a ele por complementar meu trabalho... Aliás, aprimora-lo. A gente encontrou um ponto de equilíbrio superando o passado. — cravou os olhos em Hoeckler estendendo os braços — Tô mentindo, Hoeckler?



— Foram as palavras mais puramente honestas que já ouvi falar da nossa relação. — disse Hoeckler levantando-se em meio a aplausos e risadas. Recebeu o presente das mãos de Frank, logo ambos dando um rápido abraço — Espero que tenha acertado na minha preferência, mas já posso adivinhar... — falou rasgando o embrulho — Não acredito... Muito econômico da sua parte, mas gratificante também.



— Que negócio é esse? Um crânio? — questionou Sharon, visualizando tensa o incomum presente.



— Uma caveira ritualística de obsidiana que surrupiei de uma facção de bruxos que realizavam vodu e necromancia. — disse Frank — Vai ficar ótima na sua estante, não acha?



— Obviamente que vai, só que antes vai passar por umas boas análises, deve ser uma relíquia datada de tempos imemoriais. — disse Hoeckler estudando a caveira — Muito obrigado por ceder um artefato da sua coleção, Frank. Objetos místicos como esse quase nunca são recuperados pela fundação, quebrou um galho. 



Os dois apertaram as mãos, sorridentes. Porém, Carrie, apesar de surpresa, não tratou com bons olhos a maneira como Frank presenteou.



— Ei, espera aí, Frank. Muito fácil retirar um item do seu museu de bugigangas sobrenaturais quando poderia muito bem ter comprado numa loja de antiguidades raras ou fazer uma troca. 



— Carrie, até parece que você não me conhece... — disse Frank com ar risonho.



— Ah sim, a sua incorrigível mão de vaca. — rebateu a assistente, levando todos a gargalhadas — Foi muito esperto, isso sim. Acho que eu devia ter imposto a regra de apenas presentes comprados valendo.



— Tarde demais. — disse Frank que logo desatou a rir indo sentar de volta ao sofá menor ao lado de Giuseppe e Fred — Vai que é tua, Hoeckler. E por favor, tenta terminar um pouco antes das cinco da manhã.



— Até lá já estaremos cansados de tanta enrolação. — disse Giuseppe — Era pra ele ser o último, pois todos vão estar dormindo e o amigo secreto não recebe nada até acordar.



Mais risadas foram soltas com o comentário do comissário de polícia de Los Angeles.



— Vou provar a vocês que eu sei ser lacônico. — disse Hoeckler pegando o seu presente.



— Lacônico? — indagou Kirsten, sentada no chão, franzindo a testa.



— Pra dialogar com esse cara tem que estar com um bom dicionário na mão. — disse Frank.



— Quis dizer que posso tranquilamente ser direto e breve, vocês não vão ouvir uma tese de doutorado, fiquem calmos. Mas não durmam, por favor. — disse Hoeckler com um senso de humor atípico de seu jeito. Pigarreou forte — Ahn... A pior parte de sintetizar o que tenho a dizer sobre essa pessoa é que ela é digna de um discurso que poderia se arrastar por horas a fio. Eu apenas poderia dizer que... ela tornou-se uma das melhores coisas que já aconteceu na minha vida... Uma dádiva concedida pelo destino.



— Ah, nem pra guardar segredo! — disse Frank, rindo junto de Carrie e Giuseppe.



— Epa, sem spoiler, tem pessoas aqui que não fazem ideia. — advertiu Hoeckler — É irônico presentear essa pessoa considerando o momento difícil que passamos atualmente. Acho que desta vez o destino quis brincar com meus sentimentos... ou testa-los. — fixou o olhar numa pessoa específica e permaneceu assim.



***



5 horas antes



Naquela altura, Frank assumia-se completamente arrependido de ter tomado o atalho que em tese conduziria mais rápido a casa do lago. Além de ter atolado nas rodas traseiras, a dianteira bateu numa árvore, danificando o farol direito. Uma leve chuva de neve caía, a previsão alertando sobre risco de forte tempestade para até o dia seguinte.



— Merda! — disse Frank, socando o volante após as insistentes tentativas em sair do lugar — O jeito é ligar pra Carrie e dizer que... esse pernil se safou de ir pro forno. Ainda começa a nevar... Essa noite de natal não para de melhorar. 



Decidiu telefonar para Fred que estava rodeando a mesa pré-pronta, dando beliscões nos pratos. Recebeu um tapinha de Carrie na mão.



— Se controla ou vai ser mandado pro cantinho do castigo ali junto com o Hoeckler. — disse ela vendo o presidente da fundação isolado na poltrona na sala.



— Qual é a dele? Eu mal o conhecia na minha época do DPDC, ele não fazia o tipo acessível. — disse Fred observando-o mexer no celular com a perna direita cruzada sobre a esquerda — Agora vejo que ele não é muito sociável. Os boatos então eram verdade, nem sei como ele veio.



— Não é por aí, o cara de quem muitos falavam pelas costas não tem muito a ver com o que diziam. OK, só um pouco, mas o tempo e a convivência regeneram e... perdoam.



— Frank me contou... sobre ele ter tido participação na morte do Ernest. Ficaram um bom tempo acreditando que ele teria dado a ordem pra silencia-lo. Por ego e prestígio na fundação, ele resolveu deitar pro chefão. — disse Fred o fitando — No lugar dele eu teria mostrado um bom dedo do meio. Mas tudo bem, águas passadas, vocês parecem ter se acertado com ele depois que esclareceu tudo. As pessoas tem o direito de se redimir.



— Sabe... Ainda não acredito que voltou mesmo. — disse Carrie rindo de si mesma pela incredulidade persistente — A última vez que nos vimos foi... bem traumática. Quando você provocou um banho de sangue no meu aniversário, pra ser exata.



— Ah sim... Olha, eu nem sei como pedir desculpas... não tive coragem... fui um covarde.



— Mas estava sob domínio do Malvus e da fúria que aquele estado infligia sobre você. Procure perdoar a si mesmo. Acho que o Frank disse a mesmíssima coisa ao Hoeckler.



— Ouvi meu nome sendo mencionado... — disse Hoeckler levanrnado o dedo iniciador esquerdo sem tirar os olhos do celular — É bom que não estejam de fofoca.



— Relaxa aí, não tem ninguém aqui fofocando de ninguém. — disse Carrie falando um pouco mais alto. Ela virou-se para Fred com a mão direita perto da boca para abafar o som — Ele e a Agnes estão brigados, mas são só férias conjugais, apesar de serem amantes.



— Por isso ele tá tão na dele. — disse Fred tomando um gole do refrigerante — E amantes, é? Ele trai a esposa e ela o marido? 



— Não, ela não é casada. Já ele tá em processo de divórcio.



— Por favor, não cita essa palavra perto de mim. 



— Desculpa. Vi que você e a Pamela mal se olharam desde que chegaram. Ela me parece uma mulher sensata e batalhadora. Vai lá, tenta interagir com o atual dela. E que engraçado, os rapazes no videogame e as garotas no tabuleiro.



— O Derek é firmeza, já até trocamos números de WhatsApp. OK, você me encorajou, então vou fundo, acho que a gente vai se entender bem.



O celular de Fred tocou causando um susto. Atendeu rapidamente já sabendo ser Frank.



— E aí, Frank? Cadê você? Já passou mais de meia hora que nos falamos e nada de você aparecer. Não vai dizer que atolou, vai?



— Adivinha só. — disse Frank saindo do BMW e vendo as rodas afundadas no solo de neve — Sorte que o sinal telefônico tá de boas.



— Se a neve não piorar, sim. 



— A solução é buscar ajuda aqui perto. Não quero atrair você ou Giuseppe pro perigo com um suposto Yeti a solta.



Giuseppe vinha até eles para se inteirar.



— O que foi? Frank se meteu em problemas?



— Atolou o carro. — respondeu Carrie, o que foi escutado por Hoeckler que finalmente desviou os olhos do celular.



— Ele o quê? Só pra constar, eu não vendi ou dei aquele carro de presente, foi um empréstimo de bom grado.



— Você tem vários carros naquela garagem super espaçosa. Sim, o Frank me levou pra conhecer. — disse Carrie — Não podia simplesmente se desfazer de um pra ele?



— A menos que haja uma troca. É assim que colecionadores trabalham. – contrapôs Hoeckler — Um de vocês dois tem de ajuda-lo.



— Eu vou. — prestou-se Giuseppe — Fred, me empresta sua chave.



— É toda sua enquanto resgatar o Frank. — disse Fred jogando a chave ao comissário de polícia — Mas ele falou que iria buscar ajuda, então... se não o ver por lá, só traz o pernil rápido.



— Sugiro cancelar. O gás esgotou. — disse Pamela se aproximando. 



— O quê? Sharon! Tem outro botijão de reserva, né?



— Pior que eu nem lembro. Vou conferir aqui. Vem, Pamela. — disse a irmã mais nova de Carrie, perdida, sendo acompanhada pela ajudante e mais nova amiga.



— Ela sempre foi assim, memória de peixe. — disse Carrie — Fred, se encontrarem o gás, pode trocar o botijão?



— Tranquilo. — disse o nefilim, terminando de tomar o refrigerante. 



— Já vou ver a situação do Frank. — disse Giuseppe, andando pegar o carro que Fred adquiriu de segunda mão através de uma quantia emprestada por Frank na primeira parcela.



O detetive andarilhava por uma rua de grandes casas enfeitadas de luzes e adornos natalinos. Mas algo adiante se distinguia ao clima intenso de celebração. Frank foi andando depressa ao ver uma viatura de polícia estacionada.



— Olá, eu posso saber o que se passou por aqui? Sou detetive policial. 



— Ah bom, e eu sou o Papai Noel. — disse o policial, nada receptivo. Frank sacou o distintivo do casaco de frio preto que usava e o exibiu de cara fechada — Mas não está de serviço, está?



— Sou americano, trabalho em Los Angeles. Mas fiquei por dentro de desaparecimentos nessa região. É o caso aí? — perguntou vendo um casal aos prantos conversando com o policial.



— Duas crianças, menino e menina, são irmãos. Sumiram sem deixar rastros. Deixe isso conosco, tenha um ótimo natal. — disse o policial se despedindo com a mão no quepe. Mas Frank não se deu por satisfeito e saiu na frente do policial indo questionar os pais.



— Com licença, sou policial também... Vocês podem me dar uma descrição dos seus filhos?



— Se manda daqui, não é seu território de atuação! — reclamou o policial com o qual ele falara, quase o agarrando pelas costas.



— Não toca em mim, senão o bicho vai pegar. — ameaçou Frank.



— Toda ajuda é bem-vinda. — disse o pai acalmando os nervos da esposa ao toca-la nos ombros. Tirou o celular, mostrando uma foto de Adalyn e Clive juntos — Nossos filhos. Já foram ver na casa de visitação aberta do Papai Noel aqui próximo, mas nenhum sinal deles. Juramos que foram pra lá desobedecendo nossa ordem de não irem sozinhos. Com esse mundo repleto de monstros saídos daquele buraco gigante e se espalhando pelo mundo todo assim como esse vírus maldito... — sentiu a emoção querendo externar-se – ... eu temo que faremos um memorial em vez de uma ceia.



— Não... Não diz isso, Paul. — disse a esposa, deixando a cabeça do peito dele, chorando.



Frank se mostrou disposto a procura-los, sensibilizado com o drama e desespero dos pais.



***



Hoeckler prosseguia no discurso, prestes a finalizar. 



— A pessoa que abrilhantou minha vida dando um significado diferente e completo: Agnes Leinbow. — disse ele, revelando sem tanta surpresa por parte de Frank, Carrie e Giuseppe. A bruxa se levantou receosa e um pouco confusa com a postura maleável de Hoeckler que lhe entregou uma caixinha vermelha retangular com um laço verde. Os aplausos foram cessando a medida que ela desatava o nó — Não recuse. Não diz respeito somente ao passado... como também ao nosso presente e especialmente ao nosso futuro.



A bruxa o olhou rápido num misto de surpresa e expectativa. Abriu a caixinha, boquiabrindo-se.



— Theodor... Mas eu não entendo... 



O anel de compromisso que a bruxa recebeu durante o namoro e devolvera poucos dias antes. Hoeckler tomou a liberdade de coloca-lo no dedo anexar da mão direita dela.



— Quem sabe daqui um ano eu lhe dê um mais sofisticado.



— Se sobrevivermos. — disse Agnes deixando-se sorrir de leve.



— O mundo pode estar caindo sobre nossas cabeças... que eu não estou com a menor pressa. É de um recomeço que precisamos.



— Mas... Se Chernobog não tivesse se libertado, eu não teria nem pensado em voltar. Foi com base nisso que aceitou nosso término. Por que?



— Lembrei... da promessa mais importante que tinha feito em toda a minha vida. Se eu quisesse viver o fim do mundo plenamente, seria com a pessoa que mais amo. Fui desonesto com meus sentimentos. O que você deixou em mim, nada é capaz de remover.



Agnes ouviu aquelas doces palavras de olhos marejados, sentindo o coração reaquecer. Ambos selaram os lábios em um demorado beijo recebido com aplausos e gritos alegres.



A vez fora passada a bruxa que estava nervosa.



— Bem, hora de eu matar a curiosidade de vocês. E pra antecipar, não tirei o Theodor... Ou melhor, Theozinho. 



Hoeckler sorriu satisfeito para ela. Frank cochichou no ouvido dele:



— Ela não te jogou um feitiço do amor, né?



— Ela jogou sim. Mas isso foi há muito tempo. — respondeu ele, confiante da prosperidade que o relacionamento viveria dali para frente.



— Por onde começar? Eu... só tenho a dizer que reencontrar essa pessoa após tanto tempo, a despeito do ressentimento por um erro que cometi, despertou em mim a esperança de renovar aquilo que me tornava realmente forte...



***



4 horas e meia antes



Giuseppe abria o porta-malas do carro de Fred onde encontrou alguns ferramentas, dentre elas um gancho e uma corda para puxar o BMW. Expirou o ar gelado da boca em alívio. Fechou o porta-malas, preparando-se para a missão que confiou a si. Porém, ouviu um som advindo do lago congelado. Avistou um buraco na crosta de gelo, o barulho soando como água sendo batida. Ao se aproximar por pura curiosidade, constatou a água se agitando, o que sinalizava um possível afogamento.



— Minha nossa... — disse ele, ajeitando os óculos, tentado a ir ao socorro de quem quer que estivesse ali. Pisou com cuidado, andando devagar na frágil camada sólida. Chegando próximo ao buraco, inclinou-se à água — Me dê sua mão! — agachou-se cauteloso 



A resposta veio em duas mãos o puxando subitamente pelo casaco anti-frio para dentro do lago até o fundo. Uma luz azulada refulgiu intensa da água, os fachos elevados.



*** 



— Hoje consigo dizer que sozinha jamais seria capaz de enfrentar as ameaças que giram em torno do rumo que escolhi tomar. Ela é um dos pilares que sustentam essa força em mim. — disse Agnes olhando diretamente para Lisbell — Me sinto agraciada com o perdão dela. Devo reafirmar minha gratidão a você, Lisbell.



A bruxa de cabelo ruivo escuro levantou meio emocionada ao som dos aplausos após o singelo discurso da amiga com a qual se reconciliou em apoio ao combate do mal.



— Espero que tenha lembrado minhas preferências. — disse Lisbell desembrulhando o presente. Abriu a caixinha, descobrindo ser um colar com uma pedra fosca preta com listras finas em relevo — Pode parecer comum, mas sinto uma mana forte...



— Um poderoso amuleto. — revelou Agnes — Para que você e Tanya consumem o casamento em toda a prosperidade. Duplique-o e dê a ela.



— Obrigada. — disse Lisbell, sorrindo, logo abraçando-a. Após Agnes voltar ao seu lugar, a bruxa que integrava a facção dos Filhos de Merlin iniciava a descrição de quem seria seu presenteado — De início, eu não tinha noção de qual seria o presente ideal pra essa pessoa que conheci há pouquíssimo tempo, mas que tem sido íntima como se tivessem passado anos.



— Eu posso dizer quem é pra gente economizar tempo? Já passou da meia-noite e meia. — disse Frank, contendo a empolgação.



— Não, segura essa língua senão eu corto. — brincou Carrie — Continua, Lisbell.



— Eu não tive mesmo ideia do que dar, não até saber do que ela especificamente fazia nas horas vagas na profissão perigosa que Frank segue...



***



4 horas antes 



Frank perambulava pela floresta, rasgando a mata enevoada atrás de pistas evidentes da passagem de Adalyn e Clive. Mas sentiu que seria uma busca initilzada pela condição climática, dadas as últimas previsões. Parou, soltando ar gelado em vapor, olhando ao redor.



— Boa, Frank, você se perdeu. Você e essa mania de meter o bedelho onde não é chamado.



— Acho que é tarde pra arrependimentos. — disse o homem velho e barbudo que se fazia de impostor do Papai Noel encostado de braços cruzados numa árvore — Olá, meu caro andarilho. Está perdido? 



— Opa, quem é você? — indagou Frank, o facão em riste — Ah, já sei... O Pé Grande que anda sumindo com gente aleatória por aí. Esperava que fosse mais peludo.



— Jack Frost, prazer. Não me confunda com um ser tão ordinário.



— Já ouviu falar em sarcasmo? De você, acho que sim. Daquelas historinhas infantis europeias. Gostei de ver você naquele filme em desenho animado, pena que ficou velho e acabado da pior forma.



Jack Frost se enfezou, mostrando um gancho similar ao de alpinismo preso a uma corrente. Atacou Frank jogando o gancho, a corrente prendendo no braço direito do detetive que segurava o facão. Mas Frank o puxou forte, dando um soco pesado. Em revide, Frost dera uma cabeçada e emanou seu poder congelante que passou pela corrente até o facão. Final resistiu ao golpe e soltou seu braço antes que fosse inteiramente congelado, cortando a corrente num golpe bruto.



— Vai falando qual é a sua que eu não tô de brincadeira! Sabe de um casal de irmãos que desapareceu?



— Ah, você quer vê-los? Mas espere... — disse Jack Frost, notando algo estranho em Frank — Não é como os outros que tiveram o desprazer de me encontrar sozinho numa floresta. É dentro de você... é hediondo... é selvagem... Tome cuidado, caçador. Um poder dessa estrutura pode cegar sua razão... e transforma-logo num animal indomável. Pensando bem, talvez seja melhor trancafia-lo no meu globo, longe da sociedade civilizada!



Sacando seu globo de neve, Jack Frost mirou sua magia em Frank. O objeto reluziu, absorvendo Frank. Na casa do lago, a preocupação crescente era cotangiosa.



— Chega, não dá pra esperar um segundo a mais. — disse Fred levantando da cadeira perto da sala de jantar e indo até Carrie que colocava calda nas panquecas — Giuseppe não pode ter tido tanta dificuldade assim.



— Tem razão, tô com a sensação de que alguma coisa grave aconteceu. Pareço calma por fora, mas dentro de mim... eu tô a beira de um surto psicótico. Tem certeza de que pode ir? E o suposto Pé Grande? E os seus poderes? Se for lá fora e der de cara com um ogro das neves...



— Sem problema, eu me viro bem. Ainda sei agir como um caçador normal. — disse ele, determinado — A demora do Giuseppe só não me preocupa mais que a do Frank. Liguei pra ele há pouco e nada de retornar.



— O sinal não caiu, a nevasca nem começou. 



A campainha tocando os deixou em alerta.



— Quem mais viria? — indagou Fred. Carrie deu de ombros fazendo que não com a cabeça. O nefilim se prestou a atender ao correr até a porta. Surpreendeu-se um pouco com a visita — Adrael?! Eu... realmente não lembrava que você tinha sido convidado. Pra um anjo você até que se adaptou bem ao estilo de vida do cidadão médio americano.



— A amiga de Frank me permitiu participar da confraternização, embora eu esteja isento da diversão. — disse Adrael usando dois casacos, um preto por cima de uma verde escuro sobre uma camisa vermelha.



— Fala do amigo secreto, né? Injustiça deixar você de fora. Mas não podia vir do seu jeitinho?



— Em respeito ao lar, achei mais adequado entrar pela porta da frente. Mas não pense que vim andando até aqui. Eu me ajustei ao padrão de vida humano, mas não me esqueci do que naturalmente sou.



— Pois vai entrando, eu tô indo dar uma saidinha. A Carrie vai te apresentar pro pessoal que não é da nosso clube. — disse Fred dando passagem ao mesmo tempo que saía.



— Onde está o Frank? Não o sinto por aqui.



— Vou atrás dele agora mesmo. — disse Fred logo fechando a porta.



***



Lisbell havia se cansado rápido do suspense.



— Olha, eu não tenho a menor paciência pra discursar numa situação dessas, então só vou dizer que... a Natasha foi adicionada a minha lista de amigos e espero que não saia dela nunca.



A caçadora sorriu levantando com os aplausos calorosos. Recebeu o presente, imensamente agradecida. Ao abrir, não pode deixar de falar.



— Nossa... Já tive uma dessas, mas acabei perdendo numa aposta fajuta. — disse ela vendo as esferas de prata com espinhos presas a cordas num cabo grosso — Ótima pra afastar vampiros em bandos bem numerosos. Obrigada, Lisbell.



A caçadora e a bruxa deram beijinhos no rosto uma a outra com um abraço carinhoso.



— Carrie, você trouxe amigos sensacionais. — disse Sharon — É o melhor natal de todos, disparado.



Natasha se preparava para a sua vez:



— Assim como a Lisbell, me falta habilidade pra elaborar discurso. Mas digo que a pessoa merecedora desse presente... é alguém que, mesmo não sendo tão expressiva, transmite muita confiança e cumplicidade.



***



Fred se esgueirava correndo pela floresta em busca de Giuseppe ou Frank. Mas tomou uma tremenda pancada na cabeça que o derrubou.



— Oh, desculpe! Pensei que era um urso! — disse Jack Frost armado com um porrete.



Fred levantava passando a mão na cabeça onde doía e tentava se reorientar.



— Quer que eu traga gelo? — debochou Frost prestes a dar um novo golpe. Fred revidou com uma cotovelada no nariz do meio humano e meio elfo com aparência horrenda e envelhecida. O nefilim aplicou socos rapidamente, chegando a agarra-lo, ergue-lo e joga-lo no chão, finalizando com um chute — Você bate como um caçador! Mas não significa tudo o que tem.



— A sua sorte é que eu tô proibido de usar tudo que eu tenho, eu não iria nem suar! Quem é você?



— Jack Frost, o substituto do Papai Noel. — disse ele, levantando com o sangue azulado pingando das narinas — Não te ensinaram que é feio bater nos mais velhos? Eu tenho reumatismo!



— Vai ficar pior se não me disser o que andou fazendo por essas bandas!



— Você me parece o homem certo pra executar meu desafio.



— Quer saber? Vou acabar logo com isso. — disse Fred, sacando sua arma. Mas Frost agiu depressa ao emanar seu frio sobrenatural contra o nefilim que caiu de joelhos afetado pelo congelamento gradual, a pele empalidecendo.



— Um centímetro adiante e é morte por hipotermia! Horrível, não acha? Você é uma vida tão preciosa... uma carne suculenta que eu gostaria de experimentar. Mas agora ouça: está cidade viverá um eterno inverno como prova de minha vingança. A menos que encontre a minha vela de chama gelada e a apague com fogo de calor antes que o feitiço deflagre como uma bomba. Será que consegue, jovem extraordinário? Não vale trapacear. A vida dos que estão aqui dentro depende disso. — falou mostrando o globo de neve — Pena não faze-lo se juntar ao seu colega de trabalho.



— Frank... — disse Fred, suportando o frio extremo.



— Esse é o nome do homem de cabelo grisalho e forte como um touro brabo? Lamento, mas ele seria um empecilho duro de lidar. Já você... é a peça certa pro meu jogo. Boa sorte.



Frost desapareceu como numa névoa deixando Fred a pensar ainda mais desesperadamente na tragédia que aquele natal poderia se tornar. 



***



— Espero conhecer mais a fundo dela em breve. Lisbell tem muita sorte de estar com ela. Viram como sou péssima nessa brincadeira?



— Você foi ótima, não seja tola. — disse Tanya vindo até ela contente pelas palavras — Mas só precisava ter sido menos óbvia no final.



— Falhei em criar mistério, mas nisso aqui... eu acredito que acertei em cheio por menos que eu conheça você ainda. — disse a caçadora entregando o presente — Se não gostar, pode me transformar num morcego.



A fala gerou risos na plateia. Tanya abria sorridente o presente e se encantou à primeira vista.



— Não é possível... Alguém soprou no seu ouvido. — disse ela maravilhada com a gargantilha egípcia dourada — Eu tenho ascendência egípcia e nunca... usei nada que tivesse ligação com o passado místico da terra das pirâmides, não até agora. Muito obrigada.



As duas se abraçaram fortemente.



— Ninguém me contou, notei pelos traços étnicos. Pra dizer a verdade, fui numa loja de penhores visando trocar um artefato antigo cedido pela Agnes por um tão raro quanto. Será que pertenceu a Cleópatra?



— Não sei, mas vou usar em ocasiões especiais.



— Já confirma pro seu look quando casarmos. — disse Lisbell. Tanya dera uma piscadela sedutora e se aprontou para a sua vez. 



— Me sinto numa posição ainda mais desconfortável que a Natasha. — disse Tanya quase rindo — Tirar o nome de alguém que você mal conhece. Mas... no meu caso, não houve dúvida sobre o que comprar depois que pedi algumas informações. — olhou para Frank que acenou discreto, o que Carrie percebeu como uma violação do jogo — Pois é, acabei estragando um pouco a dinâmica. Ao menos, tenho certeza de que é o presente perfeito a ela.



***



3 horas antes



Frank abria a porta de uma cabana enfeitada com decoração natalina, o interior não menos preenchido de adereços. Parou surpreso ao ver Giuseppe sentado numa poltrona frente a uma lareira acesa tomando chocolate quente.



— Giuseppe?! Onde é que a gente tá, afinal?



— Na melhor prisão de todas. — disse ele, levantando — Talvez o homenzinho travesso que nos mandou pra cá queira que aproveitemos os prazeres do inverno antes de sermos mortos.



— Ele tinha um tipo de... Aqueles brinquedinhos de vidro pra chacoalhar a neve dentro. — disse Frank fechando a porta.



— Globo de neve? 



— Isso! — falou Frank indo aquecer as mãos na lareira, agachando-se — Piscou uma luz mágica e de repente... pá-pum, vim parar nessa dimensão espelhada. Tive que atravessar uma nevasca ferrada pra chegar ate aqui. Agora só podemos contar com o Fred pra nos tirar dessa ou um milagre.



— Sr. Aristone, trouxemos mais chocolate quente pro senhor! — disse Adalyn junto a Clive segurando uma panela com um pano de prato.



— Não, crianças, já tô satisfeito, obrigado.



— Peraí, como se chamam? — indagou Frank ficando de pé os olhando com curiosidade.



— Eu sou a Adalyn.



— E eu o Clive. E você? O Papai Noel falso te pegou também, né?



— Vocês são as crianças desaparecidas. Os pais de vocês... estão sofrendo bastante, deveriam ter ficado em casa. Bem, eu sou o Frank, policial e detetive. O maluco que capturou a gente se chama...



— Jack Frost! — disse a voz grave de um senhor de idade gorducho que se aproximava vindo da escuridão — Sei disso porque ele não é apenas o meu rival número um... mas meu pobre irmão também. 



Frank levantou uma sobrancelha, atônito.



— Não vão me dizer que esse aí...



— Sim, Frank. É ele. O icônico amigo das crianças. — disse Giuseppe.



— Nos encontramos de novo, Frank. — disse o genuíno São Nicolau, mais popularmente conhecido como Papai Noel, sorrindo simpático.



***



— Este presente merece ter o nome da proprietária gravado para que os inimigos dela se lembrem. — disse Tanya destacando a comprida e fina caixa grande — Miyako Yamazaki.



Boa parte aplaudiu e gritou alegremente quando a jovem caçadora se levantou para receber. 



— Inacreditável... — disse Miyako vendo o presente, perplexa — Mas essa é a... Raikiri, a espada dos deuses relâmpagos. Autêntica?



— Em cada partícula de carbono. Acho que Natasha e eu passamos na mesma loja de penhores.



— Bem que eu tinha visto você passando com um pacote desses. — comentou Carrie — Belo presente. Coisa que o Frank teria dado.



— Bateu uma invejinha aqui. — disse Frank, logo rindo — E aí, Miyako? Gostou?



— Se gostei? Adorei! É uma relíquia de milhões literalmente! Nem éramos amigas e já tinha pensado no melhor presente. Sou eternamente grata. — disse Miyako que fez uma reverência japonesa para expressar gratidão.



— Capricha no discurso. — disse Tanya dando uma apertadinha na bocecha dela e uma piscadela antes de voltar ao seu lugar.



— Vou tentar. — disse Miyako, nitidamente nervosa. Respirou fundo — Fica muito óbvio nessa altura se eu disser que é alguém que eu não sou íntima e que é um homem?



— O único homem que ganhou presente foi o Hoeckler, até agora. — disse Frank — Restam eu, o Fred e o Giuseppe. Quem foi de nós três?



Miyako sorriu misteriosa olhando para o trio.



***



2 horas e meia antes



Fred caminhava por uma rua relativamente movimentada devido a um coral natalino infantil que se apresentava a moradores daquele bairro. Chegou a ouvir um burburinho acerca de mortes numa igreja próxima, parando para ouvir. Virou-se perguntando aos dois homens onde ficava a tal igreja que fora palco da matança. Após a localização indicada, correu até lá munido de uma lanterna pois a energia caiu em parte do bairro. A chuva se tornou tempestade em poucos minutos. O coral foi suspenso e a população dispersada aos seus lares pela onda súbita de firo intenso que se alastrava.



Fred viu a igreja e correu enfrentando a ventania. Ao entrar no templo, fechou a porta dupla com esforço. Com o lugar quase totalmente as escuras, se muniu da lanterna, passando o facho pelos cantos rapidamente. Se deparou com um padre morto com uma tesoura de jardineiro cravada no peito e alguns fiéis entre os assentos mortos brutalmente, um deles com uma faca cravada no topo da cabeça. Seguiu na busca pela vela de chama gelada, mas se pressionou a agir rápido arriscadamente.



— Sabe lá onde ele escondeu essa vela exatamente. Pode ser um blefe... Só tem um modo de descobrir: furando o protocolo. 



O nefilim não teve escolha senão utilizar de seu poder de detecção paranormal, os olhos brilhando em azul. Passou um raio-x com a mão esquerda em cada parte.



— Atrás do altar. — disse ele, encontrando — Esse Jack Frost se acha um gênio do mal. — subiu ao altar, olhando a parte de trás. A vela de chama azulada estava quase no fim de sua cena queimando — Ele disse fogo de calor... — pôs a mão sobre a chama — Caramba, ele tava sendo literal. — viu a palma congelada — Ótimo, é tudo ou nada. — pegou um isqueiro, contudo a umidade do ar impedia acende-lo — Qual é? Anda! Acende! — nenhuma faísca de ignição. 



Pensou no método mais eficaz para aquecer o isqueiro, novamente envolvendo transgredir sua conduta de se ocultar. Estalou os dedos, gerando uma chama azul quente e encostou no isqueiro, logo apertando o disparador mais vezes. No processo, a ignição demonstrava-se. Na casa do lago, todos sentiam o frio extremo assolar, chegando a derrubar a energia. Juneau num todo sofria dos efeitos da magia invernal de Jack Frost que ameaçava se estender pelo  resto do mundo. Fred levou a chama laranja a da vela que como resultado se elevou bruscamente, mas logo reduziu apagando-se.



***



Miyako gerava a tensão necessária.



— Uni, duni, tê... Salamê minguê... O escolhido foi... 



— Esqueceu o sorvete colorê. — lembrou Donald. Pamela deu um olhar de advertência bem-humorado ao filho.



— Você. — disse Miyako apontando para Giuseppe, logo entregando o presente. Todos aplaudiram em júbilo — Sr. Aristone, aqui está. Simples, mas... de coração. Eu sei, fui bem clichê. Não sou tão boa nisso.



— Tudo bem, eu agradeço. — disse Giuseppe abraçando-a — Me sinto presenteado por uma filha, honestamente.



O comissário policial abriu o presente, revelando ser um relógio de grife.



— Tava crente que era eu, pensei que tava mentindo. — resmungou Frank — Olha esse relógio chique... Qual foi a bagatela disso aí? 



— Só todo o meu salário. — disse Miyako surpreendendo seu amigo secreto.



— Não precisava se dispendiar tanto por mim. Mas agradeço mesmo assim. Bom, minha vez... Prometo ir direto ao que interessa. — disse Giuseppe, incitando expectativa — Quem dos últimos três participantes faz o melhor café?



***



Na cabana dentro do globo de neve de Jack Frost, o Papai Nlel narrava sua história de vida com seu irmão problemático.

— Fomos colegas universitários, aliás melhores amigos jurados à eternidade. Muitos anos depois vim a descobrir o fato de sermos irmãos separados no nascimento. Bem que minha mãe sempre contava de um pesadelo em que um bebê era arrancado de seus braços por criaturas hostis vindas do Ártico e que pretendiam levar a humanidade a um inverno interminável.



— Mas o Frost parece mais um duende demoníaco do que um humano. — apontou Frank.



— Creio que ele foi vítima de experiências místicas que alteraram drasticamente sua aparência, mas a magia é herança familiar compartilhada por gerações. — disse Klaus — Mas meu nível é inferior comparado ao que ele possui. A natureza élfica que ele adotou lhe concedeu um poder imensurável.



— Então ele é uma espécie de elfo? — indagou Giuseppe.



— Uma raça de facínoras selvagens. Frost não só realizará uma agenda pessoal como também o propósito deles. Em poucas semanas, a América, em alguns meses o mundo todo.



— E que agenda é essa dele? Uma vingança? — perguntou Frank. 



— Ele foi expulso da cidade onde eu marquei como ponto de partida para fazer minhas réplicas entregarem os presentes. Saiu escorraçado com a roupa do corpo após ser pego praticando bruxaria. Vai retribuir séculos de banimento e humilhação com morte.



– Não vai, não. — contrariou Frank — A gente vai dar o fora dessa dimensão, custe o que custar.



— Por que prender pessoas num lugar desses se já tinha uma meta traçada? — questionou Giuseppe.



— Um mero capricho. Continua o mesmo fanfarrão. — disse o bom velhinho — Não sei se tenho coragem de olha-lo nos olhos novamente...



— Fica tranquilo, Papai Noel. — disse Adalyn tocando na mão dele — Vai dar tudo certo. Você e seu irmão... ainda podem voltar a se dar bem.



— Não, minha cara. Infelizmente, minha bondade e generosidade não penetram na casca de gelo que se formou no coração dele. Ele é um caso perdido. E podem me chamar de Klaus.



— Nome do meu pai. — destacou Frank, sorrindo de canto.



— Pra mim, todos os felizardos são como filhos. Você sempre foi um deles, Frank.



De repente, estavam todos na casa de visitação excessivamente ornada, caindo como se tivessem sido jogados lá dentro.



— A magia dimensional... foi quebrada. — disse Klaus — Estamos de volta ao mundo.



***



Carrie levantou a mão direita sorrindo. 



— Euzinha aqui. Frank faz um café que parece ter sido coado com a meia dele. Já o Fred...



— Não sei nem como se usa a cafeteira. — disse o nefilim.



— Também não precisava humilhar, né? — disse Frank a amiga, causando risadas.



— Você ganhou, Carrie. — disse Giuseppe indo até ela com o presente. Carrie abriu ansiosa. 



— A coletânea dos maiores sucessos da Natasha, isso aqui... é edição de colecionador. Meu Deus, nunca consegui comprar pois só tinha disponível na Europa. Obrigada, Giuseppe, um dia eu vou quitar essa dívida.



— Exigi que estendessem a venda para a América. — disse Natasha — Pensando em você, lógico.



— Mancada, Giuseppe, era pra ter um dado um spray de pimenta. — disse Frank que gargalhou junto de Fred.



— Engraçadinho. — disse Carrie que deu língua para os dois, rindo também — Bem, meu amigo secreto foi meu parceiro de trabalho... — olhou para eles, criando o suspense.



***

1 hora antes



A luz elétrica da casa sofreu uma pane súbita. Na semi-escuridão, Klaus foi direto ao corredor.



— Aonde você vai, Klaus? Temos que vazar daqui com as crianças antes que ele apareça. — disse Frank.



— Vou verificar se não há ninguém encarcerado. 



Eis que de repente Jack Frost irrompia da escuridão num grito furioso, sua face azul e altamente enrugada ainda mais repulsiva com os dentes pontudos, enfiando sua mão direita na boca do irmão que foi sendo empurrado. Vendo que Klaus estava sob congelamento gradativo, Franl sacou sua pistola e atirou no braço de Frost que soltara o irmão. Klaus caiu sobre as montagens natalinas, destruindo-as.



— Papai Noel! — gritaram Adalyn e Clive correndo para ajuda-lo. Mas Giuseppe os pegou.



— Não vão, temos que ir embora daqui, é perigoso! 



— Tira as crianças da sala porque a coisa vai ficar feia. — disse Frank pronto para o embate. Frost mostrou seu gancho com corrente, girando-o. Avançou contra Frank, mas o detetive desviou dos golpes numa rapidez absurda.



— Esse poder te deixou soltinho como um adolescente. — disse Frost.



— É, desatrofiou uns músculos. — disse Frank que dera um soco, seguido de uma joelhada na barriga e um chute no tórax que o empurrou contra Klaus que estava de pé e o socou com sua pesada mão direita, jogando-o para Frank que aplicou outro soco mandando-o de volta para Klaus... e assim se deu uma sucessão de socos para lá e para cá. 



— Vão ficar nesse pingue-pongue a noite toda? — indagou Frost, cambaleando — Cadê seus óculos, irmão?



— Os perdi quando me atacou mais cedo. O perdão que jurei dar a você... está revogado! — disse Klaus emanando sua magia dominadora com as mãos. Frost também o fez, um duelo mágico acirrado. Filetes de sangue escorriam das narinas de Klaus, manchando a alva barba — Meu corpo está envelhecido, mas minha essência mágica é a mesma! 



Tamanhas eram as forças em colisão que explodiram faíscas na instalação decorativa, havendo até mesmo um tremor que derrubou uns pedaços do teto. Contudo, Frost sentiu-se fragilizado, o corpo se despedaçando em gelo.



— Isso aí, Klaus! Desmantela com ele!



— Não sou eu. — disse Klaus mudando seu olhar para o irmão — Oh não... O feitiço do inverno eterno... exige um sacrifício uma vez quebrado.



— Usaria meus últimos minutos pra acabar com você, Klaus! 



— Mas que tolo você foi! Como pôde se sujeitar a tamanha estupidez, meu irmão? 



Frank avistou um machado de incêndio. Quebrou a vidraça protetora e pegou a arma, indo até Frost. O decapitou impiedosamente, a cabeça rolando no ar com pedaços de gelo e caindo no fogo da lareira onde derreteu.



— Deveríamos tê-lo deixado morrer pelo erro que cometeu. — disse Klaus, assombrado com a atitude do detetive.



— Não sou de esperar. Mas ainda sou um bom menino, né?


***



Frank e Fred aguardavam na ponta do sofá a resposta de Carrie.



— Esse seu silêncio não tá ajudando. — disse Fred — Diz logo que é o Frank.



— Peraí, ela disse "foi". — salientou Frank, atento — Continuo sendo parceiro dela no trabalho.



— Mas ele acertou, é você. — disse Carrie com o presente em mãos.



— É sério? Poxa, valeu, mas você bem que podia...



— Mentira, é o Fred. — disse ela, rindo ao entregar o presente para o nefilim.



— ... fazer uma homenagem. — completou Frank tardiamente, chateado em cair na pegadinha. Fred havia ganho um celular novo para se desfazer do seminovo que utilizava.



***



30 minutos antes.



Carrie abria a porta, suspirando despreocupada com os retornos de Fred e Giuseppe junto a Frank. 



— Carrie, sobre o pernil... me desculpa...



— Não esquenta, deixa pra amanhã. Tive um mau pressentimento quanto mais demorava, mas que bom que voltou vivo. — disse ela ao detetive.



— Temos uma longa história pra contar. — disse Giuseppe.



— Com um final feliz ainda. — disse Fred — Aquelas crianças nunca mais vão se atrever a desobedecee os pais de novo.



Heather se aproximava, emocionada ao ver o filho.



— Frank! Meu filho, que alívio você chegar! Por onde andou esse tempo todo?



— Mãe!? Mas... Como é que você...



— Digamos que dei uma olhadinha na sua lista de contatos. — revelou Carrie — Convidado surpresa, lembra?



— Ah sua danada... Foi só eu esquecer o celular na mesa que você abocanhou, né? Bem, pelo menos chegamos pouco antes da meia-noite. Caramba, tô chocado que cruzou duas fronteiras pra vir aqui por dois dias, logo a senhora que odeia viajar de avião. 



— Agora que o Frank está aqui... posso aproveitar pra que dizer que... — disse Fred, apreensivo diante de Heather.



— É ele, mãe. — disse Frank tomando a tarefa de Fred para poupa-lo do nervosismo — O outro filho. 



Heather virou o rosto para Fred, abismada. O nefilim se acanhou, baixando a cabeça.



— Me deixe olhar pra você. — pediu ela, tocando no rosto de Fred. Analisou-o detalhadamente em toda a face caucasiana e robusta — Os olhos são idênticos aos do Klaus. Consigo enxerga-lo nos dois. Saiba, Fred, que... você tem um lugar na nossa família. Não importa quem tenha sido a sua mãe... você teve um pai honrado e íntegro, apesar dos pesares.



— Obrigado.— disse Fred, uma lágrima caindo. Carrie e Giuseppe sentiam o coração esquentar assistindo ao abraço triplo e se aproximaram um do outro tocando nos ombros lado a lado.



No momento da ceia, a mesa longa e farta, Frank levantou-se tilintando uma colher na taça.



— Um minutinho da atenção de vocês, por favor. Eu... só tenho a agradecer a presença de todos vocês. É por estarmos gratos que todos nós viemos. Gratos por cada amanhecer que ainda vemos nascer nesses dias sombrios que... irão continuar até não se sabe quando. Nesse momento, mais do que nunca, precisamos viver cada dia das nossas vidas como se... o mundo fosse acabar em instantes. Porque vai acabar. Mas... não vamos celebrar como se fosse uma despedida infeliz... mesmo que seja o último natal de todos nós.

***



Fred dava seu presente a Frank que sorria emocionado. Abrindo a caixa e vendo o que era, o detetive não conteve as lágrimas. Dentro havia um grande dinossauro verde de brinquedo.



— O primeiro presente que nosso pai enviou pra mim no orfanato. — disse Fred — Quando passei uns dias na sua casa, me contou que tinha perdido. Foi mal não ter investido em algo mais apropriado a você, eu tô duro.



— Ah cara... Isso aqui tem um baita valor sentimental. Pra mim basta. 



Os irmãos deram um abraço apertado recebendo uma salva de palmas. Porém, o momento fraternal foi interrompido por um blecaute devido a nevasca. Boa parte gritou em chateação.



— Essa não! Vamos todos dormir a luz de velas. — disse Carrie.



— Tem um gerador lá fora, mas só pode ser ligado manualmente. — disse Sharon.



— Deixa comigo. — disse Frank, prestativo. O detetive saiu para ligar o gerador, a neve tempestuosa fazendo-o andar devagar. Se agachou para ligar a chave de força com auxílio de uma lanterna. Ao faze-lo, as luzes natalinas tornaram a acender.



— Tudo fica bem quando acaba bem, certo? — disse Klaus, trajando seu uniforme completo.



— Pode crer. Tá fazendo o quê por aqui? Não tem presentes pra distribuir entrando nas chaminés?



— A magia facilita meu trabalho... em todos os sentidos. Estou ciente do que vem ocorrendo. Salve o mundo, Frank. Merece esta glória. Mas antes precisa se livrar da coisa que se misturou ao seu sangue. Se deixar isso assumir todo o controle... o que o torna humano vai se esvair por completo. 



— Seu irmão disse praticamente o mesmo. Vou ficar bem, eu sempre fico. A carne aqui não é fraca.



Klaus sorriu fechado e virou-se. Assobiou alto com os dedos na boca, chamando pelas renas que vieram aéreas puxando o trenó revestido de veludo vermelho. O bom velhinho subira, pondo seu clássico gorro. As renas foram banhadas em luz fosforescente dourada.



— Tá de brincadeira... — disse Frank achando que estava sonhando — Parece que eu tô chapado e bateu a onda.



— Feliz Natal, Frank! — disse Klaus acenando.



— Igualmente. — disse Frank dando um joinha. Klaus atiçou as renas com as cordas fazendo o trenó sair do chão e voar até as árvores onde resplandeceu uma luz dourada, desaparecendo. Fred vinha ao encontro de Frank — É, Feliz Natal. — virou-se para o meio-irmão — Fred, não sabe o que acabou de perder. É o tipo de evento que só se testemunha uma vez na vida. Ué, que cara é essa? Tá pálido assim por esse frio de quebrar queixo ou...



— A Lilith acabou de me ligar. Vim rápido porque quero que seja o primeiro a saber. Daqui há pouco tenho que levar a Pamela, o Donald e o Derek de volta pro hotel. E o Adrael já foi.



— Ah é? Pois bem... Que novidade é essa da Lilith? Olha, Fred, se for pregação de peça sua, já vou logo dizendo...



— Ela tá grávida! — disparou Fred, desesperado — Grávida de mim, Frank.



O detetive fizeram uma expressão séria de quem não acreditava no que havia acabado de ouvir. Boquiabriu-se um pouco, fitando o aturdido nefilim que não processava a perturbadora notícia.



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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

*Imagem retirada de: https://www.spiritfanfiction.com/historia/numa-dessas-noites-de-inverno-3693300/capitulos/4540331

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