Era véspera do aniversário da fundação de Danverous City e muitas movimentações ocorriam para prestar as devidas homenagens, seja no mundo real ou virtual, prosseguindo no manifesto memorial em razão do cataclísmico terremoto que ceifara inúmeras vidas. Após as festas de final de ano, a data estava sendo aguardada pelas famílias mais altas classes, em especial a do próprio fundador cujo herdeiro, Henry Danverous, bisneto do prestigiado empresário Robert Danverous, pretendia organizar uma festa beneficente voltando olhares caridosos para refugiados do megassismo ainda sem moradia fixa e que passavam por sérias necessidades.
Mas em contraponto a solidariedade de Henry, havia também a ganância guiando as mentes de quem cobiçava ardorosamente o tão comentado - por vezes tido como mítico - tesouro de herança da família Danverous de valor incalculável que compreendia artigos de ouro puro, joias, roupas e tapeçarias que valiam milhões. Naquela noite, uma dupla de jovens resolveu audaciosamemte pular os portões do cemitério restrito a membros de famílias fundadoras das maiores cidades californianas. Se esgueirando pelas sombras dos mausoléus, os rapazes se encaminhavam ao que pertencia a Robert Danverous, ávidos pelas riquezas lá contidas numa expectativa incontrolável.
— É uma boa hora pra ligar as lanternas, né? — disse um deles chamado Tyler, um rapaz forte, moreno e vestido camisa branca se mangas longas, bem atrás do amigo.
— Se você quer que os imbecis que botamos pra dormir vejam a gente, faz você. — disse o outro chamado Norton, um jovem magro com barbicha que usava roupas pretas e um gorro.
— Devíamos ter usado uma voltagem maior nessas arminhas de choque. — disse Tyler — Quanto pagou por elas? Aposto que todo seu salário. Cara, sinto te informar, mas não valeu a pena. O risco da gente se ferrar bonito aqui é gigante, podíamos estar assaltando um banco.
— Quer fechar essa matraca e só me acompanhar? — perguntou Norton virando-se zangado para o amigo — A gente tá seguindo no caminho pra Eldorado, parceiro. Nada pode nos parar se chegamos até aqui ilesos.
— E no caso de sermos pegos com os bolsos cheios? Vamos nos fazer de bonzinhos e dizer que doaremos pra caridade?
— É simples: somos cidadãos de Danverous City refugiados em Los Angeles, temos direito a essa fortuna tanto quanto qualquer um. Além do mais, o velho muquirana não incluiu na partilha de bens, cortou o barato dos herdeiros.
— Tinha me esquecido disso. Mas se todos tem direitos, não seria mais justo dividir com a parcela da população que migrou pra cá sem nenhum tostão furado?
— Tá legal, Madre Teresa de Calcutá, imagino que você nem saiba da festa que o bisneto do fundador vai dar pra favorecer o povo carente. Ele tem o suficiente pra cobrir todo mundo que ficou na miséria. É a obrigação moral dele, não a nossa. Vem logo, é por aqui. — disse Norton que se apressou nos passos influenciando Tyler.
Já se viam frente ao mausoléu Danverous no qual se encontrava a tumba do fundador. Usando do batido truque do grampo na fechadura, Norton abrira a porta vagarosamente. O caixão de Robert Danverous era impecavelmente polido repousando sobre uma plataforma de pedra. A dupla fo ise aproximando mais rápido, a ansiedade partilhada entre eles. O recinto estava com suas lâmpadas de luzes laranjas acesas. Os fechos do caixão foram abertos e um lacre na forma de um símbolo celta marcado no centro desapareceu como poeira ao vento sem que notassem. Nesse instante, as luzes piscaram junto a um leve tremor de terra. Os dois reagiram aos fenômenos ficando parados e alertas.
— Não tô gostando nada desse clima. — disse Tyler — Sentiu isso? E se o fantasma do fundador quiser arrancar nossas cabeças?
— Que papo é esse de fantasma? Foi só um tremorzinho de nada. Fora que a instalação elétrica daqui deve ser um lixo. Me ajuda aqui, empurra forte. — pediu Norton colocando as mãos sobre a tampa do caixão. Ambos pressionaram firme para abrir. A tampa caiu com baque surdo, deixando a vista o fascinante tesouro. Os semblantes dos rapazes se abrilhantaram com o ouro contido no caixão, a empolgação sendo tamanha que viraram o caixão para o lado derrubando os vários itens.
— Caramba, a lenda era real mesmo. — disse Tyler, emocionado — O corpo do fundador deve ter sido enterrado na mansão da família.
— Nunca duvidei! Nem disso e de nós. A gente tá rico!
— A gente tá rico! — repetiu Tyler, feliz — Não faz ideia do quanto eu esperei dizer isso um dia!
— É tudo nosso, parceiro! — disse Norton pegando barras de ouro e depois dando um apertado abraço em Tyler.
— Ahn, Norton... Você tá descendo sua mão pra minha bunda?
— O quê? Que conversa... — disse Norton franzindo o cenho, mas logo vendo nas costas do parceiro uma centopeia comprida rastejando — Merda...
— Ai, o quê que é isso? — disse Tyler se afastando agitado tentando tirar das costas. Ficou horrorizado ao ver a centopeia segurada.
— Ai meu Deus... Tyler! — disse Norton finalmente reparando no tesouro que antes havia em meio a eles no chão. As peças de ouro com joias foram substituídas por artrópodes de variadas espécies como centopeias, lacraias, piolhos de cobra e baratas rastejando amontoados. A dupla repeliu os insetos com chutes e correram até a porta. Porém, a mesma testava trancada — Merda, merda, merda! — berrava Norton, socando a porta.
— Será que essa bagaça era amaldiçoada?! — disse Tyler tentando abrir desesperadamente — Tava fácil demais pra ser verdade! Porra, não dá, é como se... tivessem nos trancado por fora!
As luzes voltaram a piscar, desta vez mais aceleradas. Os ruídos dos insetos aumentava fazendo a dupla olhar para trás. Viram os artrópodes formar uma pilha se avolumando e metamorfoseando numa criatura insectoide abominável que ameaçava atacar feroz os observando com sua visão macro. Ambos gritaram apavorados quando a criatura asquerosa avançou e as luzes apagaram. Bastante sangue respingou em jato na janela pequena na parte superior da porta.
Ouvindo os grotescos sons de corpos sendo mutilados, estava um duende usando terno e chapéu verde de fivela sentado numa lápide sofisticada olhando o mausoléu.
— Feliz Dia de São Patrício, meus caros salvadores. — disse ele num sorriso maldoso.
***
No início da manhã, Frank abriu a porta da sala de pesquisa assobiando. Mas acabou por reduzir o som até o silêncio quando fixou os olhos em quem estava ali a sua espera.
Lilith estava sentada sobre a mesa tomando uma taça do vinho comprado por Giuseppe, saboreando um gole da sofisticada bebida.
— Vocês tem um gosto refinado pra vinhos. Esse daqui mesmo não vale uma taça, mas se embriagar inteiro com a garrafa. — disse a demônia que vestia sua costumeira blusa branca e calcas jeans.
— Tá fazendo o quê aqui? — indagou Frank a olhando sério.
— Não vá sacando nenhuma arma ou aquela espada horrorosa. — disse ela pondo a taça ainda cheia na mesa — Vim em missão de paz. Um pedido de favor, sendo mais exata.
— Ao Fred? Ele não tá morando aqui, arranjou um apartamento perto de onde a ex-esposa dele vive pra ficar mais próximo do filho. Nem me pergunte onde, não vou deixar você cagar com a missão dele de achar o ponto de equilíbrio. — disse Frank que foi ao bebedouro tomar um copinho d'água.
— E por que eu seria um empecilho? — perguntou Lilith saindo da mesa e fitando de braços cruzados — Ah, claro, ele te contou a novidade na noite de natal.
Frank tomara um gole da água antes de falar.
— A pior notícia do ano, sem dúvida. — disparou o detetive — Era só o que faltava, os dois pombinhos serem pais de um bebê demônio ou sei lá que trambolho monstruoso você tá gerando aí nesse ventre.
— Eu também não faço a menor ideia, mas não é pra atordoar o Fred, não mais do que ele já vem suportando desde que voltou.
— Sabe como ele reagiu? Não ficou muito emocionado do tipo "nossa, que benção, serei pai pela segunda vez". — afirmou Frank — Desde então ele evita esse assunto comigo, não tá com a cabeça no lugar pra falar disso. O cara já passa por uma crise de identidade sobrenatural e você joga essa bomba no colo dele.
— Não me recrimina, simplesmente aconteceu, o amor bateu em nossa porta. — disse Lilith estreitando os olhos com um sorrisinho.
— Insiste ainda nesse papo furado de amor?! Sai fora, sua demônia vagaba, eu tô pouco me lixando pros seus sentimentos em relação a ele e a esse bebê. Se não quer atormenta-lo, melhor ter esse filho sozinha.
— Adivinhou meu plano. O Fred não deve em hipótese alguma se aproximar de mim durante a gestação, talvez nem depois, e preciso de você pra mante-lo quietinho. Mais do que você pensa quero ver ele alcançando o equilíbrio, meu apoio é incondicional.
— Não vamos competir sobre quem tá torcendo mais por ele. Sou irmão, família dele, portanto o apoio que eu dou já basta pra ele se firmar cada vez mais nessa meta. — disse Frank jogando o copinho descartável na lixeira de pedal — Mas tô gostando dessa sua postura de distanciamento. Por que esperou mais de dois meses?
— Acha que tem sido fácil? Carregar uma ninhada de proles que eu tive com um anjo desertor não se compara a carregar... ele. — disse Lilith que passou sua mão na barriga meio protuberante carinhosamente — Fred não tem noção do filho extraordinário que virá. Não temos tido contato próximo nos últimos meses.
— Então significa que ele tá afim de te chutar da vida dele. Não é isso que você quer?
— Não, é o total inverso, eu que desejo afasta-lo enquanto ele me envia mais de cinquenta mensagens por dia perguntando onde estou e como anda a gravidez.
— Ele esqueceu que existe uma coisa chamada invocação?
— Só não o fez ainda por falta de recursos ou por medo de encarar essa nova realidade olhando nos meus olhos, mas muito em breve eu sei que ele fará isso, por essa razão que vim. — dizia Lilith num certo tom de urgência — Sei que vocês possuem o Necronomicon e também que nele consta um feitico que bloqueia a invocação de um demônio. Uma insígnia mística que se fixada em mim pode impedir que eu seja invocada.
— Se liga, o Fred pode se teletransportar. Se ele quiser, pode ir pra onde quer que você esteja, tem um radar embutido. Quando ele tomar coragem, vai ver só. — destacou Frank.
— Se a marca não ocultasse a localização, sim. — informou Llith levantando uma sobrancelha — Há bruxas vivendo aqui, preciso que uma delas conjure o feitiço da marca.
— A Agnes é quem domina plenamente o grimório, mas as outras duas, a Lisbell e a Tanya, podem dar uma força, são aprendizes dela. Acontece que a Agnes... não anda passando muito bem ultimamente. — revelou Frank, lembrando que Agnes vem sofrendo com sintomas da doença perniciosa ocasionada pela rejeição à magia.
Carrie e Giuseppe entraram na sala, ambos tomando um susto e travando. Mas a reação da assistente se manifestou mais intensamente, tanto que ela deixara a xícara de café cair se espatifando no chão ao rever Lilith, a expressão de choque.
— Não sabia que tínhamos visita logo tão cedo. — disse Giuseppe para Frank — Quem é a bela dama?
— Lilith, muito prazer. — disse a demônia sorrindo sedutora.
— Amiga de vocês? — indagou Giuseppe para o detetive e a assistente.
— Aliada estratégica. — respondeu Frank a encarando com dureza — Nada mais e nada menos que isso.
— Carrie, o que houve? — indagou Giuseppe — Derrubou o café assim desse jeito, parece que...
— Frank, o que essa lambisgoia faz aqui? — perguntou Carrie.
— Bom rever você também. Eu só não lembrava do seu nome, mas dessa cara de dondoca bem sustentada nunca esqueci. — disse Lilith procurando medir as palavras.
— Espero que o Fred seja favorável ao aborto. — disse Carrie.
— Seremos uma linda família, pode apostar.
— E o lance de ficar longe dele pra protege-lo? — questionou Frank, ríspido.
— Calma, tudo a seu tempo. Tenho esperança de que até nosso filho nascer, ele já tenha equilibrado seus dois lados. Conto com você pra que ele seja um bom menino. Onde estaria a Agnes agora?
— O que quer com a Agnes? Frank, ela tá de olho no Necronomicon, cuidado. — disse Carrie, nervosa.
— Relaxa, ela só quer se manter distante do Fred pra que ele consiga harmonizar as duas metades dele. Você sabe, ele não pode se expor a coisas de puro mal como demônios. — avisou Frank, acalmando-a.
— A Agnes saiu com as amigas pra fazer compras num shopping sem hora pra voltar. — informou a assistente.
— Sério? Que pena, eu esperava resolver isso agora mesmo. Mas me admira que pra alguém supostamente doente ela tenha disposição pra se distrair com passeios em plena pandemia.
— Ela tá dizendo a verdade, a Agnes e as outras saíram, mas não pra um shopping, acho que uma loja de artigos de bruxaria. — disse Frank.
— Pois quando chegarem, as avise pra me invocar pro feitiço da marca anti-invocação. Não conte ao Fred que estive aqui e nem do feitiço. — disse Lilith pegando a garrafa de vinho.
— OK, a Carrie avisa assim que elas chegarem, minha boca será um túmulo... E nem pensa em levar essa garrafa. — advertiu Frank.
— Não ia levar por mais que quisesse. — disse Lilith — Pega aí. — jogou para o detetive que segurou-a firmemente. A demônia havia desaparecido num piscar de olhos desafiando a percepção.
— Ela é um demônio? Que lástima. — disse Giuseppe, desiludido.
— Quem vê cara não vê coração, né? — disse Carrie indo até o seu laptop se sentar a mesa — Então a diabinha voltou pedindo um favor. Estranho, não vi aquela pose altiva de quando a conheci naquele dia traumático no DPDC. Efeito da maternidade?
— Quer saber o que eu acho? Ela só tá agindo como "boa menina" — disse Frank fazendo aspas com os dedos — porque tem alguém mais escroto e perverso que ela dominando o pedaço. Mas até que a intenção dela é boa. E por falar nesse alguém mais escroto e perverso... — foi até a amiga dar uma olhada no laptop — Nenhuma atualização sobre o Chernobog e o fantoche dele?
— Expansão dos chips antivirais seguindo a todo vapor, além de uma conferência na ONU. — disse Carrie — É tudo que sei da agenda do nosso anticristo. Mas que tal voltar o foco pro aniversário da fundação de Danverous City? O DPLA te designou pra um caso a respeito.
— Ah, bem lembrado, tô sabendo que a família fundadora vai dar um baita baile beneficente. — disse Frank inclinando-se atrás de Carrie — Mas peraí... Que fotos são essas? O que moeu a carne desses dois infelizes que entraram no mausoléu?
— Dois jovens migrantes que levaram muito a sério a lenda do tesouro de Robert Danverous. — disse Carrie passando as grotescas imagens — A invasão ocorreu ontem à noite, por volta das onze, os seguranças alegaram terem sido apagados por armas de eletrochoque.
— Não vejo por qual motivo os herdeiros plantariam uma armadilha na tumba de Danverous. — disse Giuseppe — Não sei o que de fato houve, mas alguma coisa habitava lá que causou essas horríveis mortes.
— Trancaram um monstro pra salvaguardar o tesouro? — especulou Carrie.
— Se é que esse tesouro existe. — desconfiou Frank — O quê mais?
— Bom, agora vem a tragédia familiar: um primo de Henry Danverous foi encontrado morto na madrugada com requintes de crueldade. O pescoço amarrado por uma corda no ventilador de teto para fazer parecer um suicídio precedido de automutilação. Mas não encontraram nenhum laudo psicológico que comprove.
— Os Danverous tem raízes mexicanas, a essa hora provavelmente o bisneto do fundador deve estar preparando algum evento reunindo a família após o funeral. — adicionou Giuseppe se aproximando — Uma festa com o sentimento de que o ente querido teve uma boa passagem.
— Eu duvido dessa boa passagem com uma morte dessas. — disse Frank determinado a investigar minuciosamente — Esse evento pós-funeral tá acontecendo agora, será?
— Bem provável. Dá um pulo na mansão Danverous e conversa com o anfitrião. Talvez ele tenha respostas mais aprofundadas.
— Vou voando pra lá. — disse Frank sacando a chave do BMW — Vai sair agora, Giuseppe?
— Um comissário atrasado é um comissário fora da lei. — disse ele, logo saindo junto ao detetive da sala.
***
Com o BMW preto rasgando a estrada, Frank dirigia tranquilo até que recebera uma ligação inesperada. Verificou na tela do celular, expirando o ar pela boca ao ver que era Fred.
— Foi mal, maninho, mas esse não é um bom momento pra me ligar, tô a mil por hora indo pra uma investigação e você sabe como reduzo a velocidade quando foco mais no celular que no volante. — disse Frank olhando o velocímetro.
— Hora meio chata pra gente se falar, né? Mas tudo bem, eu não vou tomar seu tempo, só queria... — disse Fred que estava na casa de Pamela sentado no sofá dela — Quero saber se Lilith apareceu pra você nesses últimos dias.
— Ahn... Não, ainda bem. O que aquela vagaba ia querer comigo? Acompanhar ela numa clínica pra fazer ultrassom?
— Coisa que ela deveria ter programado comigo faz um tempinho. Mas ela não respondeu a nenhuma mensagem minha desde que me contou sobre a gravidez.
— E acho melhor perder as esperanças quanto a isso. — disparou o detetive que notou estar sendo pouco sutil.
— Como assim? Frank, fala a verdade, vai. Ela te procurou, não foi?
— Mas não menti, é serio. O que ela pensa em fazer com essa gravidez é problema dela. Não vou me meter nesse impasse de vocês dois.
— E se ela decide abortar? É pra isso que quero invoca-la, evitar que ela cometa uma loucura dessas.
— Acho mais válido ela evitar você pra garantir um largo progresso na sua busca pelo equilíbrio de nefilim. Deveria ser essa a sua prioridade.
— Frank, é um filho meu, uma vida lá dentro, pode-se dizer que já o amo só de saber que ele existe. Não posso ignorar isso deixando ela fazer o que bem entende. Anda, me apoia.
— Olha, admiro o seu amor paternal, é bonitinho, mas por enquanto você precisa se focar em avançar no seu processo interior. Quer mesmo ver esse filho nascer, Fred? Uma aberração inédita pra somar ao catálogo de monstros?
— Eu também sou uma aberração, Frank. Mas acima disso sou seu irmão. Abandonaria um filho que nascesse com uma condição sobrenatural, seja ela qual fosse?
Frank emudeceu ao ouvir a questão, refletindo o que acabara de proferir e como tal mensagem foi absorvida pelo meio-irmão. Lembrou-se rapidamente de Nathan e a natureza meio humana e meio górgona que o filho carregava em seu DNA. O fato de nunca te-lo visto nascer ainda maltratava seu coração, mas estranhamente tal sofrimento foi abrandado.
— É claro que não, eu nunca faria uma barbaridade como essa. Se você quiser ser um pai presente, tem que fazer isso depois que bater sua meta pessoal. Não é egoísmo se colocar em primeiro lugar a essa altura.
— Até concordo nessa parte, mas ainda assim vou invocar a Lilith hoje, já tenho o material. Poderia ser agora, mas a Pamela me concedeu permissão pra passar um dia inteirinho com o Donald, vamos ver a final do Super Bowl no estádio. — disse Fred que logo viu o filho vir do corredor já aprontado com mochila nas costas — Olha ele aquí. Tá pronto pra nossa aventura? Frank, tenho que ir, a gente se fala mais tarde.
— Beleza, vai curtir o dia de São Patrício com seu filhote.
— Hoje é dia de São Patrício?! Tava por fora, mas bem que podíamos viajar pra Irlanda ver a comemoração de perto e esquecer que o mundo virou uma bagunça apocalíptica.
— Eu e você na Irlanda? Não sei se toparia com essa minha sede de caçar monstros não me deixando distrair com praticamente mais nada.
— Não levaria só você, também a Carrie, o Giuseppe, a Pamela, o Donald e até o Derek.
— Se estivermos vivos depois que limparmos toda essa merda que o Chernobog cagou, podemos marcar. Vai logo enquanto eu vou pro meu corre lidar com o assassinato de um membro da família Danverous.
— Fiquei sabendo pelo jornal, boa sorte no caso. Mas se tratando da família Danverous, certamente não foi uma morte com motivação comum. Dizem as más línguas que o fundador tinha conexões com entidades místicas pra barganhas envolvendo sorte e vitalidade. — compartilhou Fred que logo olhou para o filho de soslaio. Donald apontava agitado para seu relógio de pulso a fim de agilizar o pai — Frank, foi bom a gente conversar depois de tantos dias, eu não tava muito bem emocionalmente. Agora tenho que desligar, meu garotão aqui tá no maior pique pra começar a maratona.
— Falou, a gente conversa mais tarde ou amanhã. Mas vê se pensa bem no que vai fazer.
— Não pensei, eu vou fazer. — reforçou o nefilim o tom firme — Tchau, cuida bem desse caso.
Frank desligou, mas uns segundos sentira uma culpa lhe invadir o âmago por acobertar o encontro com Lilith. Logo chegara à estonteante mansão dos Danverous estacionando numa vaga livre perto dos carros de luxo dos convidados para o almoço no pós-funeral. O detetive foi entrando mostrando o distintivo aos seguranças, sua passagem permitida. A festa ocorria ao ar livre no amplo espaço que abrigava um belíssimo jardim de variados tipos de flores e plantas exóticas.
— Eu tô procurando Henry Danverous. Policia de Los Angeles. — disse Frank mostrando a credencial para um dos convidados, um homem gorducho de paletó preto.
— Ah, ele está logo ali, pode ir lá falar com ele.
— Aquele ali rodeado de mulheres é o Henry? Obrigado. — disse o detetive que se direcionou ao bisneto do fundador cercado de mulheres entusiasticamente conversando sentado à mesa sob uma barraca de plástico branco em meio a flora exuberante do jardim. Henry possuía a visível fisionomia esguia de um homem que se aproximava dos sessenta com uma aparência relativamente jovial, sua pele morena, rosto quadrado e cabelo castanho penteado com gel para o lado — Henry Danverous?
— Com licença, eu já volto. — disse o milionário levantando e indo até Frank — O próprio. Pois não?
— Detetive Frank Montgrow, polícia de Los Angeles. Podemos ter uma conversinha sobre as circunstâncias da morte de seu primo?
Ambos caminhavam devagar entre as pessoas vestidas de preto ao redor confabulando.
— Romero e eu éramos pouco próximos, trocávamos visitas muito ocasionalmente, mas, por favor, não pense que não senti o impacto da morte dele, foi um choque pra toda família. Meu coração continua sangrando pela forma como tudo aconteceu, eu me sinto inseguro.
— Mesmo com a distância entre vocês, tinha alguma noção das ligações que ele tinha?
— Era um homem muito reservado, no trabalho ou em família, não tinha o hábito de expor suas amizades. Não está me considerando um potencial suspeito, está?
— De forma alguma, afinal você que é o herdeiro majoritário da fortuna. Sabe como geralmente acabam essas disputas familiares com uma herança milionária em jogo...
— Bilionária. — corrigiu Henry — Meu bisavô não brincava em serviço, mas se havia alguém na família com ligações duvidosas... esse alguém era ele. Muitos de nós descendentes trata como lenda as supostas histórias dele mancomunado com seres de outra dimensão obcecado por mais riqueza e até pela vida eterna. Essas lendas se propagaram ao longo dos anos resultando na morte de dois jovens gananciosos e inocentes que invadiram o mausoléu.
— O tesouro de Robert Danverous. Procede mesmo essa história?
— A existência de um tesouro sim. Que foi armazenado no caixão do mausoléu desde a morte do meu bisavô, não.
— Então o que havia no caixão? — indagou Frank, a curiosidade elevando-se.
— É aqui que toda essa história fica menos credível. Tudo o que se sabia acerca dessas relações ocultas do meu bisavô não passavam de boatos que os opositores políticos dele usavam de artifício pra tacha-lo de louco.
— Danverous City foi engolida por um abismo de onde saiu uma esfera gigantesca de pedra que explodiu e soltou a pior praga da história da humanidade. — salientou Frank — Nada mais soa inacreditável por mais absurdo que pareça.
— De fato, o mundo em que vivemos hoje não é o mesmo de antes do Big One. Ainda estou me acostumando com essa nova realidade, boa parte do mundo ainda está tentando digerir. — disse Henry parando a caminhada e virando-se frente ao detetive com olhos estreitados — Dizem que, em 1952, meu bisavô selou um pacto com um duende irlandês, o famoso Leprechaun, negociando moedas de ouro em troca de sorte ilimitada para vencer as eleições pra governador da Califórnia.
— Que baita coincidência hoje ser dia de São Patrício e o principal suspeito de um homicídio da família fundadora ser o mascote da data. — comentou Frank — Seu bisavô trancou o duende no caixão? O que rolou depois desse pacto?
— O duende oferecia o direito à três desejos. Quando foram realizados, meu bisavô se recusou a ceder sua parte do acordo, enganando o duende com um saco de moedas falsas. O Leprechaun voltou pra retaliar tentando matar meu bisavô, mas de alguma maneira ele foi aprisionado no caixão e agora se libertou pra praticar sua vingança contra todos os herdeiros.
Enquanto Frank e Henry seguiam no papo, o irmão de Henry, Mathias, um homem moreno com um bigode modesto e usando um terno cinzento, entrava na sala de estar da mansão falando ao celular e foi avançando mais adentro.
— O que quer que eu faça? Que eu me esconda embaixo da cama com medo desse assassino que nosso bisavô trancou há décadas? Se um de nós for o próximo da lista, podemos tentar uma barganha legítima, sem trapaças.
Ao andar pelo corredor, sentiu ter deixado cair a chave de seu carro do bolso e virou-se para se abaixar e pegar.
— Entendeu? Arriscado, mas que opções temos?
Ao voltar-se para frente, seu rosto empalideceu ao ficar cara a cara com o Leprachaun com sua face amarela e enrugada. O duende estava de ponta a cabeça e sorriu maquiavélico para Mathias que derrubou o celular sem perceber.
— Alguém disse barganha? Lamento desaponta-lo, mas não me disponho mais a transações financeiras. — disse o duende que pulou do teto ficando de pé e virando-se para Mathias — Vou escrever um novo testamento para Danverous. — sacou um papel detrás do terno verde floresta — Me empreste uma caneta. — pegara uma caneta de antigo modelo do bolso do paletó de Mathias como se a tirasse do nada — Mas está sem tinta. Já sei. — espetou rapidamente a ponta da caneta na garganta do irmão de Henry. Mathias seguiu cambaleando para trás tocando horrorizado com as duas mãos no ponto espetado de onde gorgolejava sangue incontrolavelmente.
O Leprechaun escrevia tranquilamente um texto enquanto sua vítima se esbarrava nas paredes tentando conter a cascata de hemorragia da garganta, seus olhos esbugalhados de quem tem plena consciência que estar recebendo um beijo da morte.
— E pronto. Opa, isso na verdade é um atestado de óbito, o mais prolixo que já li! — disse o duende num tom de escárnio — Vou deixar com você pra que não se perca. — colocara dentro do bolso do paletó dele — Adiòs, mi hombre! — beijara-o na boca e saiu em risadas dando cambalhotas velozes até o fim do corredor escuro. Mathias caiu encostado na parede, o sangue não parando de jorrar. A morte lhe cegou os olhos que se mantinham abertos de horror.
Um dos seguranças engravatados, já tendo sido orientado por Henry quanto a vigiar os passos de alguns mentora da família cujos nomes constavam no testamento, entrou na mansão chamando por Mathias, mas como não obteve resposta e ele já poderia estar em mais nenhum outro lugar senão aquele, tirou sua arma do coldre e seguiu rumo ao corredor. As luzes haviam sido apagadas, mas logo achou o interruptor reacendendo-as.
O corpo de Mathias se esclareceu a poucos centímetros do segurança que tomara um susto.
— Sr. Henry, está na escuta? Código de emergência, temos alerta de intruso!
Henry pausou a conversa com Frank para ouvir o chamado através do comunicador preso ao ouvido.
— Não pode ser verdade... É ele mesmo, o Mathias? Meu Deus... — disse Henry seu abalo emocional estampado no semblante — Chame todo o resto e vasculhem a mansão inteira!
— O que foi que houve? Não vai me dizer que...
— Ele está aqui. — respondeu Henry — O maldito finalmente está entre nós. Acabou de matar Mathias, meu irmão mais novo.
— Deixa comigo, se esse duende safado espera matar mais alguém da família por aqui, sou o único que pode arruinar com a festinha dele.
— Não, espere, não saque a arma, não aqui fora. Sem estardalhaço, não queremos causar pânico geral. — pediu Henry detendo a mão de Frank que quss retirou a pistola carregada — Vamos juntos até a mansão, você me dá cobertura caso ele nos pegue numa emboscada.
— Combinado então. Fica juntinho de mim, me acompanha pra onde eu estiver olhando. — determinou Frank que logo passou a andar na direção da mansão com Henry atrás.
A dupla adentrou na opulenta residência tomando cautela com os passos. Frank enfim sacara a arma e seguiu mirando-a em cada ponto mais opaco.
— Tem esposa e filhos, Henry?
— Estamos esperando nosso terceiro herdeiro. Aliás, herdeira. Já entramos no sétimo mês da gestação. O quarto já foi preparado, faltando apenas escolher o nome. Maria ou Paola. Divergimos quanto a esses dois.
— Espero que você não precise morrer pra uma decisão ser tomada. — disse Frank qie sentiu cheiro de sangue — Vem desse corredor... Consigo sentir, é... sangue.
— Sentiu daqui? Que olfato invejável. — comentou Henry, surpreso.
Ambos prosseguiram, enfim se deparando com um rastro largo de sangue no piso branco qie levava até o final.
— Talvez um dos meus seguranças que descobriu o Mathias morto levou o corpo para a biblioteca. Vamos lá. — disse Henry, tenso.
Ao chegarem na biblioteca, dotada de janelas em arco, Frank e Henry estranharam o rastro ser interrompido. O detetive olhou para os cantos e foi vistoriando entre os móveis. Henry sentiu algo pingar em seu ombro e constatou ser sangue. Olhando para cima, tivera o assombro irresistível com seu segurança preso ao teto e morto com várias feridas profundas no torso.
— Oh não... Detetive Montgrow...
Frank olhara e mirou sua arma em todas as direções.
— Cadê esse desgraçado?
— Bem atrás de você. — disse o Leprechaun de ponta a cabeça dando um peteleco na cabeça de Frank que se virou depressa e atirou. O duende subiu saindo ileso, reaparecendo detrás de um dos sofás — Acho muito chata essa brincadeira de atirar, mais chata ainda pra quem é ruim de mira.
O detetive disparou outra vez, mas o duende se abaixou veloz, tornando a aparecer sentado com as pernas cruzadas em cima de uma estante.
— Sabem o trabalho que tive em recolher todo o lixo? Agora é com vocês, limpem a sujeira.
— Filho da mãe, para de truque e vem aqui me enfrentar mano a mano! — disse Frank, irritado.
— Vou faze-lo pagar caro por Romero e Mathias, juro pela minha vida, dou a minha palavra! — vociferou Henry dando uns passos adiante — A sua sorte foi que meu bisavô não pensou em matar você quando teve a chance!
— Fala daquele sujeito estúpido que me trancafiou naquele caixão mofado depois de me tapear quanto tão honestamente ofereci meu serviço? Realmente o pior erro dele em me poupar. O pior idiota é aquele que acha fazer os outros de idiota. — fixou os olhos em Frank — Hum, você me desperta sentimentos...
— Sai fora, visconde de sabugosa. Meu time é outro. — retrucou Frank que logo disparou novamente. Mas o duende sumira na velocidade da bala, reaparecendo bem próximo ao detetive levantando com uma face sorridente e pentelha.
— Achou! — disse Leprechaun que levara um pesado soco no nariz — Oh... Eu não estive errado, você é um caçador bem dotado... até demais.
Frank não quis mais conversa e tornou a socar o duende sucessivas vezes, mas foi percebendo que o oponente se metamorfoseava em um boneco de palha se desmanchando com os golpes, não sendo nada mais que uma das ilusões infames do duende. O detetive sentiu ser cutucado no ombro e virou-se.
— Miserável... — disse ele que olhou para o duende atrás dele acenando e erguendo o chapéu. Frank tentou desferir mais um soco, mas sua mão atravessou o peito da criatura que permaneceu tranquila — Me solta...
— Quer mesmo que eu solte? — indagou Leprechaun, estranhando — Tudo bem, seu pedido é uma ordem, chefinho. — retirou o braço de Frank num empurrão que o arremessou contra uma estante com várias livros que quebrou no impacto — Hora de remover essa pedrinha no meu caminho antes que eu tropece. — sacou uma espada de esgrima da sua pochete de couro e arrastou a lâmina no chão produzindo umas faíscas.
— Espera! — berrou Henry fazendo-o virar o rosto para ele — Não o machuque.
— Machuca-lo? Eu nunca faria isso! Apenas pica-lo como cebola e depois desfiar que nem frango. Ou quer ser o próximo?
— Na verdade, quero sim. — disse Henry os braços abertos indo na direção dele. Frank se levantou com as costas meio doídas tirando livros de cima — Me leve como seu prisioneiro. O que acha de uma última barganha para poupar a vida de todos os meus familiares?
— Henry, não faz isso... Deixa ele comigo, nossa briga aqui não acabou. — disse Frank.
— Frank, sou o anfitrião e eu dito as regras, não se preocupe. — afirmou Henry que voltou-se ao Leprechaun — O tesouro do meu bisavô são as moedas autênticas que ele prometeu a você. Sei onde estão. Frank é quem irá me resgatar após o negócio feito. Uma vez que tiver as moedas, você desiste da sua matança e volta pra sua terra encantada.
O duende o encarou mordaz, uma desconfiança instintiva que o impedia de levar o acordo a sério.
— Você me faz lembra-lo em muitas coisas. Pois saiba que se me enganar novamente a maravilhosa festa dos Danverous será banhada com o sangue dos seus confraternos. — disse o duende guardando a espada — Venha.
Frank andou até Henry devagar. Quando ambos se aproximaram, o herdeiro rapidamente aproveitou para cochichar no ouvido do detetive o parando.
— As moedas estão no cofre do museu Danverous, atrás do autorretrato do meu bisavô, mas o sistema de senha parou de funcionar, então só basta abrir. Mas são falsas. Espero que tenha um bom plano pra atrasa-lo.
Frank reagiu surpreso e tenso, mas tomou encargo da missão arriscada.
— O que soprou no ouvido dele? — questionou Leprechaun agarrando Henry pela nuca.
— A combinação do cofre das moedas. Podemos ir logo?
— Nunca vi alguém com tanta pressa de morrer.
— Ele fechou um trato contigo e você vai cumprir sua parte, seu cara de pamonha estragada. — rebateu Frank — Pra onde você vai leva-lo?
O duende tirou do bolso uma bússola dourada similar a um relógio e a jogou para o detetive.
— Faça disto o seu guia até o cativeiro. Um localizador de duendes que roubei de um nobre conde francês que me pagava bem pelos sapatos que eu lhe encomendava. Traga as moedas dentro de duas horas ou o mandarei de volta separadamente, se me entende. — disse Leprechaun que riu e logo desapareceu magicamente com Henry sob custódia.
— OK, vamos jogar seu joguinho, duende salafrário. — disse Frank que foi caminhando para sair da biblioteca e ir ao museu do fundador.
***
No bunker da ESP, Carrie batia a porta do quarto utilizado pelas bruxas como santuário de treinamentos místicos. Lisbell abrira a porta.
— Ah, oi, Carrie. Quer alguma ajuda? Outro frasco de creme rejuvenescedor emprestado?
— Bem que eu gostaria, mas, dessa vez, não. Um favorzinho que não é pra mim. Posso entrar?
A assistente foi permitida a entrar e relatou o pedido de Lilith as três bruxas e um pouco além disso.
— Fred terá um filho com um demônio feminino? — indagou Tanya, perplexa.
— Não é qualquer demônio mulher que se encontra facilmente em casas eróticas. — disse Carrie sentada em um banquinho entre elas — O nome dela é Lilith, a pior das piores.
— Esse nome remete diretamente aos tempos da criação. — disse Agnes — Acredita-se que ela tenha sido a primeira alma humana corrompida a pisar no submundo.
— E isso procede. — disse Carrie — Frank me contou uma vez que ela foi a primeira mulher em vez de Eva, isso que ele soube do Adrael faz alguns anos. Mas e então? Vão ajuda-la?
— Fico mais surpresa com o fato dela querer estar longe do Fred pra beneficia-lo se ela se importa tanto com esse filho. — disse Lisbell.
— Pois é, aparentemente ela possui... sentimentos verdadeiros por ele. — disse Carrie que mantinha-se duvidando — Sem poder invoca-la, Fred pode limpar sua alma se mantiver distância de forças malignas.
— Certo, faremos. — decretou Agnes — Lisbell, trate de invoca-la. Tanya cuida dos preparativos ao feitiço da marca. Vou ao banheiro, só um minuto. — a bruxa necronomiana se dirigiu ao banheiro depressa, levando as outras a suspeitarem.
Agnes cuspira um bom volume de sangue na pia branca, vomitando continuamente por alguns segundos, mas procurando não fazer ruídos muito audíveis. Ergueu a cabeça de boca aberta, o olhar cansado na face triste refletida no espelho oval e a pele mais pálida. Ali tivera a mais firme certeza de sua morte morosa com a magia de Zaratro rejeitando cada vez mais seu corpo.
Notou manchas pretas perto do ombro direito e baixou a parte do vestido que cobria. Arregalou os olhos ao constatar chagas horrendas se espalhando como uma infecção pelo braço e ameaçando se propagar ao tórax. Ao retornar ao quarto, fungou o nariz tentando disfarçar.
— Meu Deus, você está... — disse Carrie a olhando fixamente.
— Estou bem, agora vamos iniciar. — interrompeu Agnes que recebeu o Necronomicon de Tanya aberto na página do feitiço.
— Carrie não analisou errado, você não parece estar saudável. Me deixe conjurar esse feitiço e descanse um pouco. — disse Tanya.
— Não adianta maquiar a fraqueza que tá mais do que estampada na sua cara. — disse Lisbell — Faz dias que vínhamos notando, não tem estudado o grimório com a mesma obsessão de antes e agora temos a resposta nua e crua. Confessa, você não dá mais conta de segurar.
— Eu posso! — disse Agnes virando-se zangada para elas — Pelo menos esse feitiço específico eu posso executar sem sequelas. Não quero que percam a confiança em mim, ainda preicsam dos meus ensinamentos.
— Se você diz... — disse Lisbell que olhou para o pentagrama invertido feito com tinta spray vermelha. Recitou a invocação, a chama explodindo. Na fumaça, a figura de Lilith se esclarecia.
— Estava ansiosamente esperando. — disse a demônia, sorrindo educada para as bruxas. Olhou para Agnes — Você que é a Agnes?
— Prazer conhece-la, Lilith. Que fique claro não estarmos fazendo isso por você, tampouco cobrando uma retribuição.
— Fiquem tranquilas, não é comigo que estarão em débito. — disse Lilith, o semblante autoconfiante — Carrie, surpresa vê-la. É uma aprendiz de bruxaria?
— Sou apenas a garota de recados aqui. Não seria louca de botar minhas mãos numa arte tão perigosa e imprevisível, tecnologia é mais minha praia.
— Está pronta? — indagou Agnes — Me dê seu braço esquerdo.
A demônia o fizera, estendendo o braço com o punho fechado. Agnes baixou os olhos para o grimório e foi pronunciando cada palavra em latim arcaico do feitiço de impressão da marca anti-invocação, sua voz soando cavernosa e sussurrante e os olhos brilhando em roxo. A insígnia se desenhava no antebraço de Lilith como pela ponta de um cigarro aceso.
Após o encantamento ser concluído, Lilith tocava suave na marca.
— Por quanto tempo aproximadamente ela se mantém?
— Em um demônio de elite como você... — disse Agnes indo até ela — ... estimaria uns cem anos.
— Tá bom pra você ou acha pouco? — indagou Carrie.
— De bom tamanho. Não serei mais incomodada por um bom tempo. Obrigada, Agnes. Posso sentir que esse é o original e inimitável. Mas uma cópia tem suas vantagens.
— Não está insinuando que... — disse Agnes que sentiu tontura e vertigem, logo caindo para frente desmaiada. Lisbell, Tanya e Carrie a cercaram para ajudar.
— O pulso dela tá muito fraco. — disse Carrie.
— Em minha defesa, não insinuei nada. — disse Lilith meio desdenhosa com Agnes — Mas devo dizer que ela se encontra num lento processo de morte de dentro pra fora. Não resta muito tempo.
— Quanto exatamente? — indagou Tanya.
— Ela talvez morra em dois meses, talvez até menos. — disse Lilith secamente — Não sei o que houve, mas a magia adoeceu ela até o mais profundo nível da alma. Como um dente acariado, a dor será pior quando chegar no limite. Lamento por ela.
Lilith desapareceu em milissegundos, deixando Carrie e as bruxas ampararem Agnes desfalecida.
— O que ela tem está mais pra um câncer em metástase. — disse Carrie, preocupada, ajudando Lisbell a deita-la na cama segurando pelas pernas — O único jeito é forçando ela a devolver a magia que ela drenou do Zaratro.
— E o faremos. — disse Lisbell.
— Mesmo que Hoeckler se oponha. — disse Tanya.
***
Frank enfim aportava na localidade onde a bússola detectora de duendes apontava com maior intensidade, reduzindo a velocidade do BMW numa área florestal de onde podia avistar uma cabana a alguns metros de um posto de gasolina clandestino. Mas antes que saísse do veículo, uma ligação de Carrie soou no celular.
— Opa, Carrie, fala aí, mas fala ligeiro que eu tô pra engatar uma operação urgentíssima. — disse ele não tirando os olhos da cabana decrépita.
— Adivinha quem ganhou passe vip para a festa beneficente dos Danverous?
— Elton Hartley?
— O que aquele megalomaníaco faria num evento de caridade homenageando uma cidade extinta? E estando possuído por Chernobog é que não iria mesmo, afinal ele que a riscou do mapa. — disse a assistente que fez uma pausa — Foi o Giuseppe, uma cortesia pelo rendimento dele de comissário, além dele ser cidadão migrante.
— Me ligou pra contar essa incrível novidade? Me faz um favor, liga quando tiver algo de substancial pro caso. Eu tô enfrentando a merda de um Leprechaun, o famoso duende irlandês do Dia de São Patrício, e criou uma situação com refém, no caso o bisneto do fundador, Henry. Eu tenho que ir agora salva-lo senão...
— Frank! — disse Carrie interrompendo-o com severidade — Fica calmo, não deve ser um problema que você não consiga resolver em uma dois minutos, não liguei pra tomar seu tempo. Você tem o instinto primitivo de caçador... Isso não torna tudo mais fácil?
— Poxa, foi mal... — disse Frank passando a mão no rosto — Desculpa estourar contigo, Carrie, é que...
— Relaxa, eu sei exatamente o que tá havendo, esse sangue do Orion afeta você emocionalmente, anda tendo muitas oscilações de humor desde que voltou vencedor do jogo de caçada. Mas precisa controlar essa instabilidade ou ela passa a controlar você.
— E você acha que eu não venho tentando? Putz, tá vendo só? Fiz de novo! Não consigo mais parar de dar respostas atravessadas e grosseiras, esse agora é o novo eu, o sangue me transformou num bruto casca grossa. Tô quase a ponto de pedir pra Agnes um feitiço que remova essa porcaria de mim. E por falar nela... Ela já chegou com as outras?
— Sim, até já imprimiram a marca na Lilith. Mas... a Agnes não passou nada bem. Ela desmaiou pouco depois do feitiço, mal tinha pulso. A doença dela se explicitou mais agora. Lilith deu até uma expectativa de vida bem curta pra ela, algo em torno de dois meses. Estamos cogitando... fazê-la devolver a magia ao Zaratro.
— Cê sabe que ela não vai se sujeitar a isso, né? O pior pesadelo dela é o Zaratro escapulindo da cela. A menos que o Hoeckler intervenha.
— Mas não sabemos como ele vai reagir. Ou ele concorda com a devolução da magia ou proíbe achando que não é a cura.
— Zaratro mesmo me disse que a única chance dela se salvar é transferindo de volta. Com a chance disso acontecer, ele não mentiria. E o Hoeckler acreditaria com zero de suspeita, é a vida da mulher que ele ama, nada mais importa.
— Se for assim, uma preocupação a menos. Olha, voltando a festa dos Danverous, Giuseppe foi permitido a levar acompanhante, ou seja, eu.
— Se liga que o chip vacinal é o passaporte pra entrar na festa. Henry me contou. Sem chip, sem entrada. Avisa pro Giuseppe. — disse Frank abrindo a porta do veículo para sair.
— Sem problema, a equipe científica da ESP nos quebra um galho.
— Vai pedir pra falsificar chips? Cuidado pra vocês dois não serem barrados no baile. Agora tô indo salvar o Henry, o tempo que o duende infeliz me deu tá esgotando. — disse Frank com o saco de moedas de ouro tirado do cofre — Ele me deu uma bússola mágica pra acha-lo, mas ela meio que foi inútil.
— O instinto, não foi? Te faz farejar monstros a longas distâncias. Tem certeza que quer se desfazer disso, se é que há jeito?
O detetive silenciou ante a questão, andando com a expressão séria e preocupada.
— É uma vantagem enorme, claro, mas... No fundo, eu tô apavorado, Carrie. Não sei até onde isso pode me levar. — pausou, respirando fundo — Boa sorte na festa com o Giuseppe, a gente se vê mais tarde. Tchau.
Henry sofria torturas físicas lancinantes amarrado pelos pulsos numa viga de madeira no teto com lacraias carnívoras mordendo seu corpo nu da cintura para cima, tanto nas costas quanto na frente. Henry gemia e grunhia alto, as feridas causadas pelos artrópodes sangrando.
— O seu amiguinho vai se atrasar. — disse Leprechaun olhando no relógio de bolso sentado sobre a mesa com as pernas cruzadas — Receio que ele o deixou na mão. Assim como seu velhote miserável fizera. O espírito dele jamais descansará vendo seus pobres herdeiros morrerem um a um.
— Tenho certeza... — disse Henry suportando as mordidas dos insetos com olhos fechados — ... que ele está tendo um excelente descanso... já que você não teve a oportunidade... de mata-lo. Ele cumpriu sua trajetória de vida.
— É pra me comover? Estou quase lacrimejando. — disse Leprechaun que saltou da mesa e pegada um martelo com o qual bateu no abdômen de Henry — Grite mais e fale menos!
Um tiro atingiu as costas do duende o parando antes que desse um novo golpe. Frank chutou a porta violentamente e entrou com a arma mirada no duende.
— Tempo esgotado, amigo!
— No meu relógio ainda faltam dois minutos! Não trapaceia senão leva chumbo! Agora solta o Henry, tá aqui as moedas. — disse Frank que largou o saco na mesa. Leprechaun sorriu maldoso ao ver o negócio ser efetuado.
— Frank, obrigado. — agradeceu Henry. O detetive acenou com a cabeça. Leprechaun fez seu cativo desaparecer num estalar de dedos.
— Pra onde o mandou? — indagou Frank guardando a arma.
— De volta ao lar. Onde mais? Sou um homem de palavra.
— Só vou saber quando voltar pra mansão e rever o Henry são e salvo. Era pra ser uma troca: você me dava ele e eu te dou as moedas. Mas não faz diferença pra você, então... vamos acabar logo com essa treta. — disse Frank que pegou o saco de moedas andando até ele. Porém, ao ganhar boa proximidade, o detetive jogou o saco para trás e agiu rápido ao prende-lo com uma algema, embora junto a ele — Ha-ha! Se achava o espertão, né?
— O que é isso? Chama de esperteza prender você comigo numa das suas pulseiras? Que piada! — questionou Leprechaun, confiante. Estalou os dedos, mas nada ocorreu — Mas... Não! Minha magia foi neutralizada!
— É pra isso que servem as algemas anti-magia, parabéns por notar. — disse Frank aproximando o rosto ao dele — O jogo virou, duende panaca. Só você e eu, juntinhos até o fim da noite quando a festa dos Danverous acabar.
***
Após o anoitecer, Frank se deu ao trabalho de caminhar pela floresta carregando o peso do Leprechaun que o irritava constantemente.
— Pra onde estamos indo? Não nos perdemos? — perguntava o duende.
— Fecha a matraca, não tô levando nós dois pro meio do nada.
— Era pra hoje ser meu dia de maior sorte e você arruinou! Meu bom São Patrício, me perdoe pelas oferendas que não pude dispor! — dizia ele com as mãos juntas olhando para o céu como numa súplica ao santo irlandês.
— Sabe qual o defeito dessas algemas? É que não deixam o preso mudo!
— Ora, você também não falaria.
— E eu lá quero ficar tagarelando com um bicho feio que nem você por horas e horas! Só tô te aguentando pra salvar o evento do Henry.
— Mas e depois? — indagou Leprechaun, malicioso.
— Você pega as moedas e vaza pro seu mundinho pra fazer inveja aos seus irmãos.
— Não tenho irmãos... Nem amigos. Você é a companhia mais longa que já tive. — disse o duende cofiando sua barba ruiva.
— Tá pensando o quê? Que eu sou seu amigo só por estar preso com você nessas algemas? Você tá querendo me engabelar, mas vai ter que se esforçar mais porque eu não nasci ontem.
— Fui sincero, muito sincero, se duvida. As riquezas que eu acumulo não preenchem o vazio existencial da minha solitária vida.
— Por que você mata? Não podia simplesmente ser um sapateiro honesto?
— Sou condicionado a sanha de assassinar quando um pacto é desrespeitado. Veja aqui. — disse Leprechaun mostrando um retrato seu que exibia uma imagem sua de face mais humana e apresentável. Frank conferiu apertando os olhos com a claridade da lua.
— Esse é você? Não brinca...
— Um Leprechaun devotado ao seu propósito como eu sempre foi impoluto de corpo e alma. Até o maldito dia em que Robert Danverous me passou a perna. Meu espírito foi corrompido, forçado a buscar a vingança como liberdade.
Frank parou virando-se para ele.
— Então... se você ficar com as moedas, voltaria a ser como antes, um duende normal?
— Um pacto malfadado é isoladamente o ponto de ruptura pra que eu permaneça assim pra sempre.
— Se entendi bem... O Robert deveria estar vivo e arrependido pra te entregar as moedas e você retornar a sua forma original.
— Mas como o desprezível me prendeu no caixão e morreu anos mais tarde, o pacto se perdeu. O que selei com o herdeiro não acarreta em nenhuma mudança a não ser minha promessa de deixar seus queridos familiares em paz.
— Nem ferrando que vai me convencer a te soltar baseado nessa promessa. Você ficou maligno, virou um ser traiçoeiro. Nada garante que você não continue a matar mais gente da família depois que tiver as moedas. E eu juro que se fizer isso, vou atrás de você pra te esfarelar com as minhas mãos literalmente. — declarou Frank em tom ameaçador.
— Céus... Você me dá arrepios e náuseas. Está dentro de você, certo? Corre nas suas veias junto ao seu próprio sangue. Mas é uma maldição, Frank. Você deve ser... parado. É um perigo pra todos a sua volta. — disse Leprechaun retirando um pêndulo do bolso — Que tal fazer uma pausa e descansar?
O duende balançava o pêndulo que emitiu uma onda hipnótica que induzia Frank a acompanhar os movimentos repetitivos, o levando a uma sonolência irresistível. Adormecido, o detetive caiu encostado numa árvore.
— Vejamos esses bolsos... — disse Leprechaun enfiando a mão nos bolsos do sobretudo preto — Ah, aqui está. — pegara a chave que removia as algemas. Se libertara, fazendo escárnio com Frank e em seguida desapareceu voltando a cabana. Abriu o saco das moedas e pegou uma, mordendo-a para autentica-la. Sentiu quebrar um pedaço — Carvão?! Aquele maldito se atreveu a me enganar! — jogara o saco na parede e o incendiou, o fogo instantaneamente se alastrando por toda a cabana — Hora de uma visitinha ao meu insolente negociante. — disse o duende, seu ódio fervendo como as chamas.
***
A festa de gala na mansão Danverous recebia sua vasta lista de convidados que passavam pela segurança para checagem do chip vacinal. Carrie e Giuseppe eram os próximos da fila. A assistente estava de vestido verde, fascinada com a decoração da fachada e as luzes dos refletores.
— Acho que o último evento da alta sociedade em que fui não tinha nem metade dessa ornamentação. — disse Carrie de braço dado com o comissário de polícia.
— Atenção, agora é a nossa vez de passar. Espero que funcione. — disse Giuseppe, nervoso.
Um segurança negro e robusto os parou.
— Braços esquerdos, por favor. – exigiu ele que usou um scanner similar a um radar rodoviário portátil sobre os chips. As leituras confirmaram serem legítimos — OK, podem passar.
— Sério, podemos? Não tem nada de errado? — indagou Carrie um tanto incrédula com a eficácia dos chips falsos.
— Você ouviu ele, vamos entrando. — disse Giuseppe com as mãos nos ombros dela para faze-la andar — Obrigado.
Enquanto isso, Frank despertava na floresta, balançando a cabeça rápido para se reorientar. Olhou para sua esquerda e ergueu o braço, constatando a fuga do Leprechaun.
— Filho da puta. — disse o detetive que logo se levantou — Pior que não tenho o número do Henry... — andou meio trôpego. Pegou o controle do carro e ativou o alarme, ouvindo o som contínuo e se orientado com o instinto até onde estava o veículo — Norte. — correra
Na mansão Danverous, os convidados dançavam embalados pela música relaxante tocada por uma banda. Carrie e Giuseppe haviam se encaminhado ao museu Danverous, avessos ao salão principal onde ocorria o baile com luzes movimentadas num espaço semi-escuro. Mas próximo ao alto da escada um intruso observava agachado ao corrimão toda a primazia elegante da festança.
— Danverous, o sangue deles estará na sua conta. — disse Leprechaun com o pêndulo que balançou recitando um feitiço irlandês. Repentinamente, os músicos cessaram junto aos convidados que se encaravam com testas franzidas. De súbito, uma algazarra iniciava com vários dos convidados se atracando uns com os outros violentamente, batendo, esmurrando, chutando e arremessando contra mesas e paredes — É disso que uma boa festa precisa!
Como Carrie e Giuseppe estavam no museu, não foram afetados pela mágica ardilosa do duende, mas o pânico entre todos que lá estavam se instaurou rapidamente, todos saindo para ver o que se passava.
— Mas o que tá havendo aqui? Giuseppe, não sai de perto de mim!
— Não podemos atravessar essa celeuma! O que deu em todos eles? — questionava Giuseppe que se abaixou esquivando-se de uma garrafa jogada que espatifou na parede, mas um caco rebateu contra seu rosto — Ai!
— Machucou? Ai meu Deus... — disse Carrie, abaixada, virando o rosto dele para dar uma olhada. O vidro fizera um corte sangrento perto da sobrancelha — Vamos pelos fundos!
— Não foi nada! Mas... não tem saída! Estão todos enlouquecidos! Cadê a segurança?
A dupla seguiu sem rumo meio abaixada para se proteger da balbúrdia medieval. Leprechaun descera ao salão, se misturando a confusão agredindo e matando com uma faca aleatoriamente em meio às luzes agitadas. Fazia respingos de sangue salpicarem no piso de cerâmica. Mas um estampido bastou para dispersar os convidados afetados para fora da mansão, alguns dos que ainda estavam vivos. Carrie e Giuseppe saíram detrás de uma mesa, amedrontados. O tiro acertara o Leprechaun no peito, o duende tocando na ferida.
— Henry! Mas que bela pontaria, podia ter facilmente acertado qualquer um dos seus estimados convidados!
— Estava aguardando o momento que reaparecia. — disse o herdeiro vestido de smoking preto apontando a arma — Suspeitei desde o princípio que fugiria da armadilha de Frank. A propósito, onde ele está?
— O pus pra dormir como um bebê!
— Pois o bebê aqui acordou! — disse Frank chegando na mansão com um disparo no duende que recuou — Devia ter me matado, sabia? Acho que não é tão mal quanto pensava.
— Frank! — chamou Carrie que correu até ele. Leprechaun cravou os olhos nela, logo sumindo e reaparecendo a tomando como refém.
— Solta ela! — mandou Frank mirando a arma.
— O que fará? Me matar? Você se diz caçador mas nem faz ideia de como se livrar de mim!
— Mas eu sei! — disse Henry que jogara moedas de ouro de um pote que trazia, mas escondia atrás de si. As moedas caíram ao chão douradas como ouro e brilhantes como diamante — Não queria as moedas autênticas? Aí estão elas ao seu deleite! Pode pegar!
— Meu São Patrício... — disse Leprechaun, perplexo. Largou Carrie correndo para catar as moedas uma por uma — Esperei anos por esse momento... Minhas, minhas, todas minhas!
— Frank, segura! — bradou Henry que jogou uma faca dourada para o detetive que a pegou com uma só mão — Essa adaga é uma matadora de duendes, tirei da coleção do meu bisavô! É parte do tesouro dele! Depressa!
Leprechaun parecia desconectado da realidade coletando as moedas afoito de quatro no chão. O detetive segurou firme o punho da adaga, avançando contra o Leprechaun. Primeiro, o chutou na lateral da barriga, em seguida se colocando sobre ele. Enfim o apunhalou com a adaga impiedosamente no peito. O rosto e os olhos do duende manifestaram um brilho alaranjado tremeluzindo como um choque. Mas a simples chance de matar não saciou Frank. O instinto primitivo de caçador aflorou em dominação ao seu estado de espírito. Passou a espancar o corpo do duende, bem como esfaqueando inúmeras vezes numa fúria impecável.
— Frank... Já chega. — disse Carrie, tensa — Chega, Frank!
Mas o detetive prosseguia urrando e dando facadas sucessivas no Leprechaun já morto. Giuseppe o conteve vindo por trás.
— Frank, Frank... Chega, acabou! — disse o comissário policial agarrando o braço direito dele. Sentia a respiração intensa de Frank como um animal enfurecido — Acabou, ele morreu.
Aos poucos o detetive, boquiaberto, recobrava a razão, piscando os olhos agitado, além de amenizar sua respiração. Deixou a adaga cair da mão, levantando com a ajuda de Giuseppe.
Mais tarde, a polícia e a emergência paramédica cuidava de avaliar e suprimir os danos. Frank foi para fora tomar um ar após se despedir de Carrie, Giuseppe e Henry. Decidiu ligar para Fred que naquela hora já deveria ter retornado do passeio com o filho.
— Fred? E aí, como passou o dia divertido com teu filhão?
— Melhor impossível, ainda mais com a vitória do time da casa. Mas acabei de voltar pro meu flat e... já preparei a cereja do bolo pra coroar o dia.
— Do que você tá falando? Peraí, não diz que...
— Digo sim, Frank. Vou invocar a Lilith agorinha mesmo e colocar tudo a limpo.
— Não, cara, vai colocar tudo a perder, isso sim! Você tava indo tão bem vivendo essa vidinha sossegada e vai fazer tudo escorrer pelo ralo ficando perto da demônia?!
O nefilim se fechou para as palavras do meio-irmão, recitando o feitiço invocatório.
— Fred, larga dessa ideia, tá cometendo uma burrice, tá se autossabotando...
— Espera... Não aconteceu nada. E-eu... fiz tudo direitinho, disse palavra por palavra. Por que? Por que não aconteceu nada? Por que ela não tá aqui? — perguntava Fred, exasperado.
— Escuta... — disse Frank, entristecido, se rendendo ao que era certo fazer naquele instante — A Lilith me procurou hoje no bunker.
— Nossa, que bom saber! O que ela tramou com você pra me deixar no escuro?
— Na verdade, ela queria a ajuda de uma bruxa pra fixar nela uma marca anti-invocação. A Agnes usou o Necronomicon pro feitiço.
— E você achou que a melhor maneira foi me guardar segredo?
— Lilith me pediu pra não contar! Absurdo dizer isso, mas ela tá certa! É pro seu próprio bem, cara, por favor, pensa direito.
— Quer saber? Eu tava errado quando acreditei no juramento de não ocultar mais nada entre nós. — disse Fred que desligara o telefone na cara de Frank. O detetive fechou os olhos, extasiado ao pensar que a mágoa do nefilim duraria supostamente por nove meses.
XXXX
*A imagem acima é prorpeidade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://www.celtic-weddingrings.com/celtic-resources/myth-of-the-leprechaun

Comentários
Postar um comentário