A noite de vigília em um colégio de ensino médio em Los Angeles prosseguia normalmente até um dos guardas noturnos acabar dando falta de seu parceiro com quem se revezava nos entornos da área relativamente pacata.
— Segura o queixo porque essa notícia aqui vai te arrancar o coração. — disse o corpulento guarda negro de cabelo cortado na régua olhando uma página na internet pelo celular e caminhando para mostrar ao colega — Vai por mim, cara, esses apostadores de jogos tem uma técnica secreta de faturamento.... Não é possível que... — olhou para frente esquadrinhando o espaço onde havia alguns arbustos aparados, não vendo sinal algum do parceiro — George? Ah não... — andou mais passos a procura dele, mas nada — Ele nunca abandona o ponto assim, nem pra ir ao banheiro. George, cadê você? George!
A ausência de resposta só poderia indicar que o sumiço de George teria justificativa acidental. O guarda foi para perto do acostamento da estrada sacando seu rádio-transmissor.
— Alô, central de atendimento! Aqui é o agente Bradford, vigilância da zona 789, colégio San Augustine! Meu parceiro desapareceu sem vestígios, solicito a polícia imediatamente!
Uma voz feminin respondera:
— Perdão, senhor, mas este canal pertence a linha de chamada a iniciativa Patrulheiros de Aço. Posso transferir sua ligação que já foi automaticamente gravada.
— Puta merda... Beleza, faz isso aí, chama os homens de lata que não patrulham coisa nenhuma! — disse Bradford, irritado, logo desligando. Não desistiria fácil da busca por George e saiu aflito pelos arredores.
Nesse instante, aproximava-se um grupo de quatro alunos recém-expulsos do colégio, todos portando latas de spray que agitavam euforicamente.
— A gente vai zoar com essa espelunca... — disse um deles chamado Wade, um garoto de cabelo comprido vestindo moletom e gorro, fazendo uma linha com o spray de cor vermelha na calçada. Levou um pescotapa de Kevin, o mais velho e que se intitulava líder do bando — Qual foi, otário?
— Vai começar quando eu disser que começa. — afirmou Kevin, um rapaz caucasiano magrelo de cacheados cabelos castanhos. Lisa era a única garota, tinha um rosto meigo com bochechas coradas e uma cabelo pintado de verde água.
— Depressa, vamos aproveitar que não tem sinal dos sentinelas por aqui. — disse ela, agitando seu spray — Ou quer que eu e o Bob sigamos na frente?
— Ei, ei, só ao meu comando hein! — bradou Kevin — Vambora, não temos tempo a perder. A gente entra por lados diferentes e se encontra no ginásio pra espalhar os papéis higiênicos.
— Essa é a ideia do gran finale? Quanta originalidade. — debochou Lisa. Bob era o mais reservado da turma, um garoto gordinho, porém forte que usava camisa azul de futebol americano. O grupo delinquente chegava mais próximo do prédio. Lisa notou a estátua medonha do mitológico Hodag alguns metros da entrada — Aí, galera. Topam rabiscar toda essa estátua de merda do Hodag?
— É o mascote do nosso time. — ressaltou Bob.
— E daí? Fomos expulsos, OK? Quer dizer que não tem mais nada que nos prenda a esse lugar. É bom lembrar que foi exatamente alguém do time de futebol que nos denunciou. Kevin, deixa, por favor, essa coisa é parte daqui e...
— Tá legal, mas não se empolga demais pra não gastar a lata inteira.
Lisa virou-se para o Hodag medonho e inanimado agitando o spray. Borrifou o que achou ser o bastante, os rabiscos vermelhos. Finalizou com o desenho de um pênis na testa da criatura. Wade e Kevin tornaram olhares brincalhões com a atitude da amiga.
— Ela tinha que encerrar com o desenho favorito dela. — disse Wade.
Ruídos foram ouvidos parecendo vir dos arbustos, deixando-os em máximo alerta.
— Que barulho foi esse? — perguntou Bob — Gente, eu não tô passando bem... Tem uma aura sinistra por aqui, tô sentindo... arrepios.
— Lá vem a mediunidade do Bob atacando novamente. — disse Lisa — Da última vez que caímos nessa, fomos quase abduzidos por uma... mariposa voando em torno da luz.
— É verdade, melhor darmos o fora daqui rápido. Sinto uma coisa estranha vagando por aí.
— Primeiro vamos checar se não é nada que nos bote em encrenca. — disse Kevin que foi seguido pelos demais. O grupo passou entre os arbustos, chegando perto dos fundos da escola. Kevin apontou a lanterna ligada na escuridão. Deram de cara subitamente com Bradford vindo até eles com um ferimento gravíssimo no ombro parecendo uma mordida profunda da qual jorrava muito sangue que deixava rastro — Caraca! Que merda foi essa?
— Nossa, ele tá péssimo! O que a gente faz? — questionou Lisa, amedrontada.
— Eu disse pra cairmos fora! — disse Bob quase chorando — Nem devíamos ter vindo!
— Diz pra nós quem fez isso com você! — pediu Wade. Bradford caiu de joelhos sem muitas forças, os olhos revirando.
— Não quem... — disse o guarda babando sangue — Foi o... Ho.. — caiu para frente derrotar pela dor e a consequente morte.
— Vou chamar a ambulância. — disse Lisa pegando o celular, mas Kevin a detivera segurando seu braço.
— Não dá mais, ele já era. Vamos logo acabar com isso! — disse o líder que correu para adentrar na escola. Após invadirem por julgarem mais seguro, as luzes ainda acesas da escola piscavam incessantemente nos corredores. Lisa sentiu que parou de pensar nos amigos pr um determinado e olhou para trás. Voltou quando não os viu seguindo-a. Ao ver no corredor do qual dobrara, o coração palpitou forte.
— Ah não, Kevin... Bob... Wade... — disse ela horrorizada com os corpos dos amigos deitados no chão os três ensanguentados e trucidados. Uma saliva pegajosa pingou do teto sobre o cabelo e os ombros dela, a fazendo instintivamente olhar para cima tremendo. Soltou um grito agudo quando se deu conta do Hodag com as patas traseiras coladas no teto esticando seu pescoço para baixo e abrindo sua bocarra de dentes enormes que abocanhou Lisa pela cabeça e a tirou do chão. Uma cascata profusa de sangue espirrou em jatos sobre o piso branco e as paredes.
***
A manhã seguinte iniciou turbulenta para alguns moradores que frequentavam a taverna mais badalada do bairro no qual se registravam índices absurdos de ocorrências envolvendo criaturas paranormais oriundas do submundo. Um grupo delas, inclusive, ja havia se adaptado ao plano terreno, mais precisamente um bando de homens-lagartos com portes físicos robustos e faces esverdeadas e hediondas de tão feias. Tornaram-se uma gangue de motociclistas que covardemente atacavam quem estivesse passando na rota de suas motos turbinadas.
Os largartos humanoides de faces enrugadas e monstruosas dobraram para a rua da taverna, parando em frente a mesma. Um BMW preto se via estacionado na esquina. Os quatro homens-lagartos entraram com estardalhaço anunciando um assalto armados com rifles.
— Todo mundo se abaixando quietinho! Não quero ver ninguém de pé! — disse o líder atirando para o algo gerando gritos e vozerio entre os clientes. Um deles pulou o balcão, logo rendendo o barman que teve um rifle pressionado a sua cabeça enquanto os outros dois brutamontes apontavam as armas para os fregueses apavorados — Abre o caixa aí, Diskroll! Vê se tem umas verdinhas sobrando pra gente e acho bom que tenha porque não aceito sair daqui de barriga e nem de mãos vazias! Anda logo!
O homem-lagarto que tomara o barman como refém bateu forte sobre a caixa registradora cuja gaveta saiu fora caindo no chão e deixando a mostra um grande volume financeiro.
— O nosso amigo aqui juntou um montante daqueles. É nosso dia de sorte!
— Não teria tanta certeza disso, não. — disse Frank entrando na taverna invasivo, logo agarrando o homem-lagarto mais próximo. Dera uma cabeçada pesada, em seguida tomando o rifle e com o cano da arma perfurando o peito do monstro. O chutou na barriga fazendo cair sobre uma mesa vazia que se despedaçou.
O líder é os outros dois miraram no detetive.
— Qual de vocês vem agora? — perguntou Frank olhando para cada um deles.
— Com toda essa valentia, deve ser a merda de um caçador pra atazanar nosso dia que tava indo tão bem! — disse o líder.
— Não qualquer caçador, só pra situar vocês. — disse Frank, altivo, se aproximando.
— Ele talvez esteja certo, nenhum caçador genérico derrubaria um de nós assim tão fácil! — disse o que estava atrás do balcão. O barman, um homem sexagenário de bigode grisalho, que havia sido largado tentou uma fuga discreta indo de quatro. Porém, o homem-lagarto notara, pegando-o de volta pela gola da camisa novamente pressionado a arma nele — Um movimento brusco e eu explodo a cabeça dele!
— Você ouviu, né? Cai fora do nosso quintal. — disse o líder.
— E se eu der mais um passo? Só um mísero passo. Isso conta como movimento pra permitir que esse homem morra? — questionou Frank.
— Você tá brincando com a sua vida e com a dele também. — alertou o homem-lagarto — Tá pensando que não temos coragem? Já deixamos uma boa trilha de sangue desde que saímos daquela terra de ninguém e pra lá não voltamos nunca. Aqui é nossa morada eterna.
— É, tô ligado, percebi que gostaram muito daqui, só que vocês não estão em instalação permanente, mas numa colônia de férias. A diversão acaba quando vocês topam comigo no caminho. — declarou Frank causando risadas entre os monstros — Contei uma piada? Olha pro amigo de vocês aí. Pensam que estão livres de acabar que nem ele? Não viram nada.
— Ele foi pego na guarda baixa. Você foi ágil, meus parabéns. — disse o líder da gangue — Sabe, só teve um caçador que eliminou um de nós com essa mesma destreza e rapidez. Só que isso foi há muito tempo. Mais do que consigo me lembrar.
— Imagino. Ele foi um parente meu bem distante, sem mentira. Os genes dele correm nas minhas veias e me fizeram supera-lo. Eu já dei uma boa amostra.
— Para de se achar e se manda! — esbravejou o líder mantendo a arma apontada a Frank.
— Só quando libertarem os clientes e o barman. Primeiro ele. — exigiu o detetive, autoritário.
— Ou você se manda ou vou estourar os miolos dele!
— Ah, vai? Tenta aí. — disse Frank com um sorriso de canto despertando a estranheza nos clientes — Olha, dei um passo. Agora outro... — tirava uma arma discretamente do bolso de trás do sobretudo preto e a manteve escondida — Se quisesse matar alguém aqui, já teriam feito a maior carnificina, conheço vocês, lagartos ctônicos. Tão sanguinários quanto lobisomens.
O dedo de Diskroll no gatilho ameaçava apertar para deflagrar o tiro fatal. Frank fitava o monstro testando-o perigosamente.
— Eu duvido que você atire antes de eu acabar com o seu chefe e o teu parceiro.
— Mais rápido que uma bala? Vai vendo. O próximo passo que der será o último suspiro de vida dele, só avisando. — ameaçou o líder.
O detetive ousadamente dera o passo.
— Vai, continua blefando.
Eis que Diskroll apertou o gatilho, estourando a cabeça do barman cujo sangue espirrou no balcão junto a pedaços da massa encefálica. Os clientes se alvoroçaram com o ato, ainda mais assustados.
— Isso é blefe pra você? Vai, continua bancando o herói, não tá funcionando. — provocou o líder.
Frank tomou uma ação ligeira ao chutar uma cadeira contra o rosto do líder da gangue, logo o empurrando contra o balcão. O outro que estava próximo fez menção de atirar, mas Frank agarrou o líder e usara o corpo dele como escudo para os disparos que o homem-lagarto efetuava. O detetive jogou o corpo baleado do líder contra o parceiro. Diskroll pulou do balcão e agarrou Frank por trás tentando um golpe de mata-leão, mas o detetive, o corpo inclinado para frente suportando o peso do monstro, resistia e moveu-se para trás fortemenre, derrubando-o. Pegou o rifle do líder e atirou contra Diskroll na cabeça. O remanescente tirou o corpo do chefe de cima dele e avançou feroz contra Frank que aplicou um chute veloz e hábil girando. Com sua pistola, disparou três vezes acertando na cabeça.
— Vão virar bolsa de grife. Aliás, não vão, não. — disse Frank que tivera uma ideia — Todo mundo pra fora, rápido! Fora, fora, fora!
Ainda aterrorizados, os clientes correram saindo da taverna quase aos empurrões. Frank procurou querosene ou gasolina atrás do balcão, logo achando um galão branco cheio de combustível aditivado. Espalhou o líquido pelo bar, molhando as mesas e cadeiras, além dos corpos dos homens-largartos. Largou o galão e acendeu um isqueiro, jogando no chão. O rastro de gasolina se incendiou e propagou pelo local. O detetive saía enquanto o fogo consumia o interior do bar. No lado de fora, o burburinho tomava conta dos clientes, muito mais pela postura de Frank do que o assalto em geral.
— Ele simplesmente... deixou o Sr. Miller morrer. — disse uma mulher abalada para os amigos. Frank ouvira o comentário com um semblante austero olhando para as pessoas, ficando meio reflexivo ao retornar para o BMW.
Dentro do veículo, seu celular tocara. Tirando-o do bolso da frente do sobretudo, conferiu o nome e o número, não mentindo para si mesmo quanto a surpresa que tivera.
— Por essa foi que eu menos esperava. — disse o detetive após atender — Não tá mais de ovo virado comigo depois de saber que a Lilith não quer te ver nem pintado de ouro, né?
— Eu tenho que te confessar... — disse Fred não sabendo como iniciar aquela conversa — Minha mágoa por ela não se comparava a que tive de você. Ela poderia ter os motivos mais claros do mundo pra se afastar de mim, você não iria concordar em vender seu silêncio.
— Ela não me subornou, fica frio. Olha, se ligou na intenção da gente se acertar... faz isso direito, não se reata uma amizade entre irmãos depois de tanto tempo por telefone.
— Foram só três semanas, você nem sentiu saudades. — retrucou o nefilim.
— Acredita, pelo jeito que você ficou irado, foi como se tivessem sido meses. Pior, pensei que ficaria sem falar comigo pra sempre.
— OK, eu exagerei, subi demais o tom. Mas ainda continuo não engolindo esse lance dela me restringir na espera do meu filho. Já me tornei pai ausente forçado uma vez, não quero me tornar de novo.
— Dá pra gente se falar noutro canto? Tá a maior algazarra onde eu acabei de resolver uma treta. Detonei com um bando de lagartos ctônicos que invadiram um bar na zona de perigo máximo. Só uma pessoa morreu, mas... sei lá, o povo tá achando que cometi um erro, mas eu... não sinto a menor culpa pelo que fiz, é como se uma baixa civil não tivesse mais o mesmo significado pra mim.
— É esse instinto primitivo de caçador, o Orion pode ter sacrificado a própria humanidade pra obter esse poder, os testes que ele passou não bastaram. Toda escolha exige uma renúncia, né? Se tá fazendo isso com você, imagina o que não faria comigo nessa instabilidade que tô vivendo. Vem pra cá, tô perto de uma área descampada a duas quadras da casa da Pamela.
— Falou, já tô indo. — disse Frank que logo desligou e deu a partida no carro. Enquanto se afastava dali, o corpo de bombeiros acabava de chegar para apagar o incêndio que se agravava.
***
Na área aberta com um gramado meio seco que servia de campo de futebol improvisado, Fred aguardava Frank encostado na cerca de arame em losango. Virou o rosto para a direita, vendo o BMW parar perto de um poste. Frank saiu dando olhadelas ao meio-irmão que acenou tímido.
— Me chamou, tô por aqui. — disse o detetive se aproximando — É engraçado, me fez lembrar de quando nos distanciamos por uns dias depois que você se transformou no nefilim do mal pela primeira vez. Daí fomos atrás do Atticus, voltando a sermos parceiros.
— Pois é, eu meio que tô compartilhando desse deja vu. — disse Fred sorrindo leve, mas a seriedade retomou à sua expressão — E aí, como tem passado?
— Nada disso, aqui não é uma conversa casual. Vamos logo resolver esse imbróglio entre você e a Lilith começando por nós dois acertarmos as ideias. — disse Frank, sincero.
— Vai se justificar pela decisão dela de não querer ser invocada pra evitar?
— De evitar que você seja influenciado pela presença dela, é esse o ponto. — disse o detetive querendo faze-lo entender claramente.
— Mas sou o pai dessa criança e o mínimo que ela poderia me oferecer seria uma permissão de acompanhar a gravidez de perto.
— Se importa mesmo com a cria de um demônio?
— E se ele for humano? O Donald é integralmente um, talvez as proles de um nefilim herdem o lado humano sem nenhum traço genético do sobrenatural.
— Mas é a Lilith, a demônia número um da história, não dá pra confiar que o pãozinho no forno dela seja 100% como o filho que você teve com uma uma humana. Pode não ser um padrão.
— E que diferença faz sendo humano ou um monstro pior do que eu? — indagou Fred andando devagar com as mãos nos bolsos da calça e chutando levemente o solo arenoso — A emoção de lidar com a espera de um filho é algo que eu... ansiava sentir outra vez com a Pamela. É uma experiência catártica, você não entende.
— Cheguei perto de entender. — revelou Frank levando o irmão a franzir o cenho.
— Quando foi isso?
— Não tivemos tempo suficiente pra conversar das doideiras que aconteceram na sua ausência. Mas não convém explicar isso agora, você tem que aceitar a distância da Lilith pelo seu bem, tá em processo de equilíbrio, não pode se envolver com forças malignas, principalmente demônios. Até ela ter esse bebê, você já vai estar bem posturado nessa sua natureza de nefilim, só relaxa, confia e espera.
— Mas e depois? Ela me proíbe de ver meu filho ou enfia num lar adotivo qualquer. É um lindo final feliz, Frank. — resmungou Fred mantendo sua indignação.
— Se ela aprontar essa, juro que vou atrás, arranco o bebê dos braços dela e faço uma negociação.
— Não usaria um bebê como isca pra atrai-la de volta a mim só pra força-la a acreditar que tô apto a viver uma segunda paternidade sem risco de surtar com os gatilhos.
— Acredite, usaria sim. Que outra forma teria de fazê-la cair na real? Mas por agora ela tem razão em manter você longe dela até esse bebê vir.
— Caramba, você não é mais o Frank que eu conhecia. Tá concordando em gênero, número e grau com um demônio sem sentir um pingo de repulsa. — avaliou Fred, preocupado.
O celular de Frank tocara, sendo Carrie na linha.
— Alô, fala aí, Carrie. Manda a boa do dia. — disse ele fazendo uma pausa para ouvi-la — San Augustine, né? Beleza, tô a caminho. Já fiz minha ronda na zona de perigo máximo. OK, a gente se fala. Tchau. — desligara — Assassinatos dentro e fora de um colégio. Vítimas com sinais de ataque animal, mas sabemos que essa causa não cola mais hoje.
— San Augustine... Eu estudei lá do fundamental ao colegial. Eu bem que ando precisando me exercitar um pouco... — disse Fred insinuando um pedido que Frank encarou com flexibilidade.
— Quer matar as saudades dos anos dourados?
— Algo a mais, não finja que não entendeu. E nem adianta me proibir, eu quero apenas me limitar a investigação. Você que vai rir da cara do perigo sozinho. Sendo assim, posso ir?
— Fechado, mas você fica na minha aba o tempo todo. Quando o bicho pegar, sai de cena. — determinou Frank afim de prezar pela segurança emocional e física do irmão.
— Tudo bem, uma caçada esporádica não vai me fazer recair, o meu lado puro continua domimante, então acho difícil desmoronar.
— Bora lá cuidar disso. Nada de paquerar as líderes de torcida hein. — disse Frank caminhando até seu carro.
— E você nem perca o foco com os atletas do futebol. — revidou Fred que levou uma cotovelada no braço esquerdo por Frank, rindo.
***
Durante o segundo tempo no turno escolar da San Augustine, que por decisão unânime do Conselho não fechara as portas temporariamente em virtude dos assassinatos, a aula de história era lecionada pelo professor Quentin Fohler, um homem caucasiano na casa dos quarenta de cabelo castanho bem penteado para trás e com aspecto intelectual, com destaque aos óculos de armação fina. Naquele dia, porém, tivera uma surpresa em pleno trabalho, a qual fez esvair seu apetite docente.
Dois policiais vieram pelo corredor sendo vistos passando próximos da janela pelo professor e seus alunos. Um deles abriu a porta e falou educadamente:
— Professor Fohler, queira, por gentileza, nos acompanhar até a delegacia para prestar os devidos esclarecimentos.
— Que esclarecimentos? Não podem invadir minha sala sem um mandado apresentado ao suspeito. Será que dá pra fechar a porta, voltar e tentar de novo? Sugiro que desta vez comecem com "desculpe interromper sua aula, professor Fohler", eu ficaria bastante grato.
— O mandado foi apresentado a sua diretora de modo que permitisse nossa entrada. — retrucou o policial num tom mais austero — E se dirigir a nós com sarcasmo não favorece em nada sua posição, professor. Eu vou falar novamente e desta vez não é um pedido: venha conosco agora até a delegacia prestar depoimento.
Fohler correu os olhos pela classe, seus alunos o encarando desconfiados e temerosos com a suspeita de envolvimento direto nas mortes brutais. O professor tomara a melhor postura.
— Sim, claro, fiquem à vontade. Eu sinceramente não faço a menor ideia de qual minha conexão com os crimes acontecidos ontem, mas...
O outro policial entrou para algema-lo, o fazendo depressa e logo levando-o dali. O burburinho dos alunos sufocou o breve silêncio. Ao saírem da escola, vinham de encontro a Frank e Fred que acabavam de chegar.
— Já identificaram um suspeito?! — disse Frank, surpreso.
— Achamos uma camisa ensanguentada na casa dele com DNA de uma das vítimas, George Lopez, era um dos vigias noturnos. — disse o policial jovem que dera voz de prisão — Ele se chama Quentin Fohler, professor de história. Esteve no colégio poucas horas antes dos assassinatos.
— Corrigindo provas, pra ser mais específico. — defendeu-zlse Fohler, desconfortável — Mas juro que não lembro de absolutamente nada após terminar e sair da sala, foi como se minha mente tivesse sofrido um apagão...
— Aham, entendemos, esquecidinho. — zombou o policial.
— Por que causa ou razão eu mataria dois vigias e quatro adolescentes?
— Deixe as justificativas pro interrogatório. — rebateu o policial, dando passos adiante para conduzi-lo a viatura.
— Esperem, fui designado ao caso, então melhor manterem ele esperando por mim. Não vamos demorar. — ressaltou Frank.
— E esse aí, quem é? — indagou o outro — Parceiro novo?
— Estagiário. Só uma degustação de treinamento. — mentiu Frank sorrindo simpático.
Os policiais compraram a ideia, tornando a caminharem com Quentin sob custódia. A dia de caçadores foi se direcionando a escola.
— Estagiário é? Eu tô numa quase abstinência forçada de caçadas, mas também não precisava me diminuir, né? — queixou-se Fred.
Frank procurara a dirrotra do colégio, Helen Vaugh, a encontrando na sala particular.
— Opa, desculpa entrar assim, mas... — disse o detetive que mostrou o distintivo — Polícia de Los Angeles, é sobre os assassinatos dos alunos que foram expulsos daqui.
— Ah, entre, por favor. — disse Helen, uma mulher de quase cinquenta anos, esguia de cabelos castanhos escuros com uma franja lateral — Acabaram de levar o professor Fohler como suspeito. — largou numa caixa alguns papéis que organizava e veio até Frank — Eu nem queria estar aqui hoje, o maldito conselho estudantil governa tanto essa escola com mãos de ferro que parecem robôs insensíveis. Mas por outro lado, é até compreensível. — fechara a porta — Já foi um longo atraso decorrente da pandemia, causou prejuízos no rendimento de todos. — suspirou tristemente — Eram jovens inconsequentes, mas... eram vidas com futuros e planos. Não sei como Fohler se encaixa nisso.
— Ele esteve aqui ontem a noite, segundo ele corrigindo provas, mas que de repente apagou depois que saiu. Acharam uma camisa dele suja de sangue, sangue esse comprovadamente de um dos vigias noturnos. Parece que seu empregado tá metido num daqueles casos típicos de assassinos desmemoriados que cometem o ato inconscientes e no dia seguinte alegam amnésia. Já lidei com tipos desse, a maioria usando a perda de memória como artificio, já vi até forjarem laudos médicos.
— E se for o caso do Sr. Fohler... Como devo ajudar?
— Pode ajuda-lo a sair de lá inocente. Como ele vinha se comportando recentemente? — indagou Frank, estreitando os olhos atento.
— Eu não sei bem ao certo, não somos tão próximos, exceto durante as reuniões de pais e professores e do conselho. Mas garanto que de todos que pudessem ser apontados, Fohler é um dos que eu menos esperaria.
— Não tem mesmo nenhum indício que possa me contar, algo percebido na última reunião, qualquer coisa que seja minimamente estranha?
— Não sei, eu... A meu ver, ele sempre agiu normalmente, cordial e respeitoso, nada que fugisse ao seu caráter habitual. A última reunião foi no mês passado, mas juro que não notei nada ligeiramente diferente nele... A não ser uma certa distância emocional em relação a alguns temas que discutimos.
— Ele não esboçava reação quando falavam sobre assuntos delicados, tipo bullying, essas coisas?
— Sim, de fato ele... — disse Helen divagando quanto a esse dia da reunião escolar — Ele pouco parecia tocado com relatos de mães que sofriam com filhos vítimas de agressões e preconceito, por vezes dando opiniões frias e neutras. — fez uma pausa voltando-se a Frank — O curioso é que ele passou a indicar esse comportamento após uma viagem a Vancouver um ano atrás, não sei de mais detalhes.
Frank ficou a pensar do que se trataria tal viagem, aguardando ansioso interroga-lo. Enquanto isso, Fred percorria um corredor até o vestiário esportivo visando falar com alunos que eram próximos dos falecidos. Mas ao dobrar, esbarrou numa figura medonha que o fez estremecer de susto com direito a um grito rápido. Era um jovem usando uma fantasia de Hodag para animar a torcida durante o campeonato de futebol americano.
— Opa, amigão, o que é isso? Foi mal aí se te asustei! Odeio usar essa roupa.
— Não, eu tô legal. — disse Fred tocando no coração que palpitava acelerado — Fantasia assustadora hein. Estão prevendo a segunda onda do vírus e vão comemorar Halloween antecipado?
— Quem dera. — disse o rapaz que saíra dali. Fred balançou a cabeça depressa tentando esquecer a face bestial do Hodag gravada na mente. Entrou no vestiário dos atletas que se aprontavam para o treino. As conversas descontraídas dos rapazes silenciaram dando lugar a olhares estranhos.
— E aí, galera? Como vão... vocês? Ahn... Eu sou Fred Montgrow, polícia de Los Angeles, vim trocar uma palavrinha rápida, sem enrolação.
— Policial, é? Cadê o distintivo? — questionou um deles.
— Sou estagiário. — respondeu o nefilim de má vontade.
— Era de se esperar. — disse um outro em tom zombeteiro causando umas risadinhas — Já começou errado, parceiro. Ninguém aqui tem nada a ver com o banho de sangue. Cai fora.
— Como posso ter certeza? Algum de vocês tinha algo contra aos cinco estudantes que foram expulsos?
— Tá insinuando que um de nós estraçalhou aquele bando de babacas? — perguntou um dos atletas, este sendo o mais forte e nervoso — Eu falo por todos, sou o capitão do time. Até tínhamos algo contra, mas nada que fizesse a gente perder nosso precioso tempo pra fazê-los virarem presunto. Na verdade, pensamos até em dar uma festa, aquela galera é um pé no saco. — falou desatando a rir.
Os demais elevaram um coro de apoio a fala insensível com risadas e piadas maldosas.
— Olha, irmão, é sério, vaza daqui, ninguém tá nem aí pro que rolou com aqueles otários. Ah, acho que sei o que deve ter acabado com eles. Deve ter sido... o Hodag. — disse o atleta fortão pronunciando o nome da criatura com entonação forçada para provocar medo, gerando risos nos amigos. Mas ao virar-se para Fred, não o viu mais ali.
Durante a saída, Frank comentava de sua conversa com a diretora.
— Parece que o Fohler tinha negócios ocultos em Vancouver, seja lá o que for, fez ele voltar diferente e isso foi perceptível por mais que a diretora queira pensar que tudo estava normal.
— Minha hipótese é de que... — disse Fred inseguro e retraído — O chip vacinal do Elton Hartley, todos os garotos do futebol americano tinham um.
— E daí? Por que meteu o chip do Hartley no meio?
— Há fortes suspeitas de que o chip vem reduzindo drasticamente a inteligência emocional das pessoas como um dos efeitos colaterais, não é teoria de conspiração. Nenhum daqueles rapazes tem relação com as mortes, apesar de não serem os maiores fãs do grupo expulso. Mas... eles tratavam isso com zombaria e deboche, faziam pouco caso.
— Será que Fohler tá microchipado também?
— Será que essa merda de chip não tá transformando seus adeptos em assassinos brutais? Ou em monstros mutantes?
— Apostaria fácil num monstro pelas fotos serem confundidas com ataque animal. As marcas nos corpos eram mordidas profundas. E não acho que o chip transforme literalmente em monstro. Pra apagar a memória depois? Longe de duvidar da tecnologia do Hartley, mas ele é um cara discreto, não ia fazer uma jogada dessas se o que ele mais quer é uma vasta população de adoradores e escravos.
— Então só resta um palpite... — disse Fred olhando com temor para a estátua que lhe causava arrepios. Frank percebeu e acompanhou o olhar do irmão.
— O Hodag? Não sei, não... Na minha época de clubista na taverna Sol da Meia-Noite esse bicho tinha ido pro grupo da extinção. — disse Frank que olhou bem a fisionomia do monstro e um flashe de memória atravessou sua consciência.
— Frank, qual foi? Acorda. — disse Fded estalando os dedos perto do rosto dele.
— De repente me veio... algum tipo de lembrança, piscou na minha mente quando olhei fixamente pro Hodag.
— Provavelmente o Orion já o caçou. Agora é sua vez. Boa sorte. — disse Fred que deu um tadinha nas costas do detetive e deu passos se afastando.
— Ei, peraí, onde pensa que tá indo?
— Pegar um táxi, você assume daqui.
— Fred, abre o jogo. Se for mesmo um Hodag, é um problema pessoal pra você?
O nefilim comprimiu os lábios em nervosismo dando olhadelas para a estátua.
— Frank, eu preciso... me proteger de gatilhos que influem no meu psicológico e... essa coisa é um deles. Reviver traumas pode ferrar com meu processo, sabe disso.
— Mas conta pra mim que lance é esse do Hodag. É a primeira vez que te vejo com medo real de um monstro sem nem ele estar aqui.
— Foi no colegial, estudei aqui e... tive um encontro com essa coisa do qual eu por pouco sobrevivi. E se sobrevivi... talvez seja porque manifestei um dos meus poderes de fúria. Soltei um urro tão forte e alto... que afugentei ele. Mas o medo permaneceu em mim desde então. Ele virou o protagonista dos meus pesadelos.
— E não fez nada pra superar?
— Com o tempo foi amenizando, até quase esqueci, mas agora... o passado volta pra me assombrar. Não sei se desisto do caso, uma vez que começo quero ir até o fim. Me ajuda aí.
— Você decide, não eu. Vai pensando enquanto interrogo o Fohler. Vamos. — disse Frank tocando no ombro de Fred ao lado dele.
***
Na sala de pesquisa, Hoeckler decretada aberta uma reunião contendo com Carrie, Giuseppe, as três bruxas e alguns agentes presentes ao seu redor.
— É o suficiente pra abordar o que tenho urgentemente a dizer aqui e agora. — disse ele olhando em volta.
— Suficiente? Frank evaporou, não existe mais? — perguntou Carrie, estranhando.
— Frank está a trabalho e meu tempo é curto. — justificou Hoeckler.
Giuseppe também discordava.
— Mas Carrie tem razão, me parece contraproducente falar de um assunto tão urgente e sério sem a presença de Frank que é a peça central na linha de frente nessa guerra.
— Ele será atualizado mais tarde. Agora ouçam com atenção, por favor. — disse Hoeckler que denotava desconforto na expressão — Não poderíamos esperar por Frank pois fui convocado a uma conferência marcada com Elton Hartley pra daqui a duas horas.
— Espera... Você de encontro marcado com Elton Hartley?! — disse Lisbell.
— Achávamos que a sua iniciativa privada nas contenções de anomalias paranormais fosse um segredo de estado, talvez o mais bem guardado a sete chaves da América. — disse Tanya.
— Theodor, sem rodeios: o que aconteceu? Algo saiu dos trilhos, não foi? — perguntou Agnes que havia passado maquiagem para ocultar sinais de sua doença.
— Detesto admitir, mas... Fomos expostos. Aliás, nós nos expusemos. A força-tarefa de conter os indivíduos saídos do submundo exigiu larga escala, era inevitável, e esse foi o resultado, nos abrimos ao risco calculado, mas...
— Superestimaram a furtividade. — completou Giuseppe, lamentando o deslize — Alguns ratos podem escapar de ratoeiras espalhadas, mas não uma ninhada. Com perdão pela analogia.
— O que vai dizer a ele? — indagou Carrie, preocupada — Usar de algum truque mirabolante pra sair pela tangente?
— Impossível a essa altura do jogo. — disse Hoeckler passando as duas mãos no rosto — Agora que ele está a par de tudo, resta ceder as propostas dele.
— E se você tiver objeções? — perguntou Agnes.
— Os agentes Rowe, Walton e Hampton irão comigo pra garantir que minhas discordâncias sejam aceitas. — disse o chefe olhando para seus confiáveis homens armados — Sinto muito, mas ESP, a partir de hoje, será um tentáculo da Globemax, sujeita as suas vontades independentemente de quais forem. E é exatamente isso que me preocupa.
No DPLA, Frank chegava a sala de interrogatório vendo Fohler sentado lendo um livro.
— Muito bem, hora das cartas serem postas na mesa. — disse o detetive se aproximando. Permaneceu de pé com as mãos apoiadas sobre a mesa — Não lembra mesmo do que ocorreu após sair da escola?
— Achei que nunca viria. Mas até que recebi um tratamento hospitaleiro e uma boa distração. — disse Fohler fechando o livro.
— Não se evade senão complica pra ti. Pode falar abertamente, não vou te achar um lunático.
Fohler suspirou longamente com a boca, incomodado.
— De fato, não tenho lembranças nítidas de quando senti minha mente ser sequestrada.
— Como se tivesse levado uma pancada forte e desmaiado? Foi essa a sensação?
— Não exatamente, minha consciência foi... sobreposta por outra coisa dentro de mim, é difícil explicar racionalmente... — disse Fohler atormentado com as mãos no rosto — Acontece todas as noites, a um certo horário, desde que...
— Desde que viajou pra Vancouver?
O professor ergueu o olhar tenso para Frank.
— Exato. Eu tinha ido pra um retiro espiritual...
— O que houve antes pra motivar a busca por esse retiro?
— E-Eu... fui atacado. — disse Fohler imerso nas memórias olhando para o vazio — Um animal selvagem pulou sobre mim... Fui mordido. Desculpe, não consigo falar com exatidão...
— OK, pula pra parte do retiro. O que você esperava conquistar lá?
— Eu me sentia distante de quem eu era, uma fúria irracional crescia dentro do meu ser. Não sei bem ao certo como cheguei lá, foi como se... meu instinto guiasse. Eu só sabia que aquele era o lugar onde eu deveria estar. Mas... nada era o que parecia. Eles me revelaram a face do verdadeiro mal. Nunca vou esquecer desse dia.
— Duvido que te mostraram o que é o mal em sua pura forma. Não chega nem perto do que eu já encarei olho no olho. O que fizeram com você?
— Rituais, cerimônias, cânticos... Eles louvavam a uma entidade, eram paganistas que me submeteram a testes de iniciação dolorosos. No fim, me entregaram esse artefato. Não é um souvenir digno de se guardar. — disse Fohler que retirou um objeto do seu paletó cinza e entregou-o a Frank — O chamavam de totem.
O detetive analisou o totem cuja parte superior possuía um formato sinal a cabeça de Hodag como se a face do monstro tivesse sido entalhada.
— Sem dúvida, você foi amaldiçoado graças a isso aqui. Não chegou a associar a sua mudança de humor com a mordida do animal?
— Minha cabeça estava uma bagunça, achei que fosse estresse do trabalho. O que fizeram comigo?
— Não vê algo familiar nisso? — perguntou Frank destacando o totem — Essa cabeça aqui.
— Mas isso... me parece o Hodag, mascote do time de futebol da escola. Bem que eu tinha visto uma semelhança.
— Foi a coisa que te mordeu. Os rituais dos bruxos que cultuam a figura do Hodag só afloraram a maldição em você.
— Meu Deus... Então fui eu... Eu matei aquelas crianças inocentes e aqueles homens... — disse Fohler, abalado e suando — O monstro assume meu corpo quando cai a noite, agora tudo se encaixou.
— O sangue deles pode estar nas suas mãos, mas não se tortura, não tava consciente do que fazia. — orientou Frank, compassivo — E creio que só há um meio de te salvar. — pegou um isqueiro do bolso do sobretudo e acendeu, logo indo até uma lixeira. Queimou o totem e o jogou na lata — Caso aparentemente encerrado.
O celular do detetive tocara lhe trazendo um pressentimento que contrapunha sua fala ao ver o nome da chamada.
— Fala aí, Fred. Já chegou em casa?
— Que mané ir pra casa, eu voltei ao San Augustine, isso sim. Quer dizer, depois de pegar meu carro. Tô saindo daqui agora mesmo. Fisguei uma informação interessante.
— Mas eu tô confiante de que já resolvi aqui com o Fohler. Ele tinha um totem de Hodag que ele ganhou de bruxos num retiro espiritual de fachada depois que foi mordido por um, era esse totem que despertava a maldição.
— Se liga, a estátua aqui em frente a escola tem a carcaça de um Hodag que foi morto por um lenhador. Esse cara cedeu a carcaça sem cobrar nada. Ela me deu o endereço da casa pra saber mais detalhes.
— Ele talvez saiba mais acerca desse culto ao Hodag, lenhadores que também caçam sabem mais a fundo do folclore. Você vai lá?
— O que você acha? Não esquenta, vou me cuidar pra não sair da linha. Falou. — disse Fred, desligando.
***
A residência do lenhador localizava-se numa zona arborizada semelhante a um bosque. Fred bateu a porta do lenhador que atendia pelo nome de Leon, um homem caucasiano na faixa dos trinta anos, ostentando uma barba por fazer, cabelo preto longo, além de usar um boné creme e uma camisa de flanela xadrez vermelho e preto. O também taxidermista atendera.
— Olá, ahn... Desculpa o incômodo, me chamo Fred, sou membro de um clube de caçadores no centro de Los Angeles e me indicaram você como a melhor fonte sobre a coisa que andou rondando a escola, a San Augustine...
— Não trato com ninguém que não seja do clube onde frequentava. Além do mais, fui banido, tive minha licença cassada. Se veio esperando firmar parceria, perdeu seu tempo. — disse Leon que quis fechar a porta depressa, mas Feed impediu com o pé esquerdo.
— Espera, você é a pessoa certa pra me tirar todas as dúvidas. Seu nome é Leon Vance, certo? Você é lenhador, sabe qualquer história do folclore nacional.
— Claro, como um bom cidadão do Kansas. E você, do que sabe?
— Que o Hodag tá por trás das mortes nos arredores da escola.
Leon assumiu um olhar de interesse sobre Fred, o convidando a entrar. Dentro da sala de estar, o nefilim corria os olhos admirando a decoração rústica para uma casa como aquela. Dava atenção especial às cabeças empalhadas de animais como ursos, cervos, alces e coiotes.
— Belos troféus. Pegou todos sozinho?
— Se quer uma coisa bem feita, faça você mesmo. — disse Leon que vinha da cozinha com uma caneca amarelo de café — Gostou desses? Devia ver os que guardo no porão, itens raros.
— Adoraria, mas tô meio apressado, só tô quebrando un galho pra um amigo, o Frank, ele quem tá conduzindo a investigação, trabalha no DPLA. — disse Fred virando-se para Leon — Falou pra diretora que a carcaça que você doou pra estátua pertencia a um Hodag real?
— Falei sim, inclusive dando uma aulinha de história contando que o Hodag tem origem pré-histórica sendo uma quimera de vários animais, com atributos até de T-Rex, que foi forjada por magia negra da pesada. Ela achou informativo. Ninguém mais duvida da selva de monstros. Eu tô adorando esses novos tempos, apesar dos pesares. Não sente a liberdade enchendo o seu peito?
— É, eu sei, esse quase fim do mundo nos trouxe essa vantagem. Mas voltando ao Hodag... O professor de história, ele quem se transformou e matou na noite passada. O Frank há pouco descobriu que ele tinha um objeto místico, um totem com a forma do Hodag, o adquiriu numa espécie de culto ritualístico. Tem alguma coisa a dizer a respeito?
— Deixa eu adivinhar... Esse curso fica em Vancouver, no Canadá?
— Sim, o professor havia ido pra lá...
— E usam a fachada de reitor espiritual?
— Pois é, confere.
— Vai precisar tomar café bem forte pra aguentar o resto do dia. — disse Leon pondo a caneca numa mesinha baixa de mogno.
— Não, obrigado, eu só quero parar mais detalhes... — disse Fred verificando sua caixa de mensagens no celular.
— Então te recomendo o meu chá mate. — disse Leon que subitamente o agarrou por trás numa chave de braço — Se distrai fácil, campeão. Cadê seu amiguinho, o Frank?
Fred dera uma cabeçada forte para trás, quebrando o nariz de Leon que resistiu firme.
— Resposta errada! — disse o lenhador, fortificando o aperto — Sabe, você foi a melhor coisa que me apareceu!
— Quem é você, Leon? Essa sua força... não é de caçador. — disse Fred, o rosto vermelho.
— Minha dádiva e maldição. — disse Leon que pusera um totem idêntico ao de Fohler no bolso do casaco de Fred — Aquele Hodag eu matei com minhas próprias mãos e com muito orgulho! Bem, isso depois dele me morder. Os malucos da seita maldita invadiram meus pesadelos e fui influenciado a visita-los. Pra quê? Pra negociar a carcaça da fera em troca de uma cura? Não! Pro otário aqui ganhar o presentinho que destranca a jaula da fera e que agora tô dando pra você de cortesia. O seu amigo Frank também não se safou dessa!
— Frank se livrou! Queimou o totem do professor!
Leon dera uma risada infame.
— Queimou, foi? Avisa pra ele que a maldição é inquebrável a menos que transfira o totem! Vai saber se o professorzinho não fez isso, pois queimado ou não a maldição permanece!
Num golpe ágil, Fred dera uma cotovelada a barriga de Leon, se desvencilhando, logo virando-se e o empurrando fortemente com as duas mãos. Leon bateu com as costas na estante que quebrou-se.
— Que sorte a minha! De volta ao clube com dois Hodags pro jantar.
— Você é um cretino, não vai sair ileso!
— Eu não tô preso num loop temporal pra me deixar ser mordido outra vez e assombrar aquela escola ridícula.
— Peraí, o quê? Já matou pessoas na sua época de Hodag por lá? Há quanto tempo?
— Se bem lembro... Foi há mais trinta anos.
A memória se esclareceu para Fred em tortuosas reprises dos olhos enormes da criatura o encarando no escuro. Já os dele se tingiam de vermelho.
— O que é isso nos seus olhos, Fred? Será que a transformação veio antecipada? Se bem que já tá quase escurecendo. Vai ficar aí esperando pra facilitar meu trabalho?
Imaginando um terrível cenário, Fred virou as costas e saiu correndo se volta ao carro. Frank percorria uma estrada com o BMW voltando do DPLA, o breu da noite em totalidade. A ligação de Fred foi prontamente atendida.
— Diz aí, como foi com o lenhador?
— Frank, onde você tá agora?
— Na estrada... Faz um tempo que saí do DPLA. Por que? Não tô gostando desse tom...
— Você tem que voltar imediatamente! O lenhador... tinha um totem de Hodag, foi mordido no passado, ele era o Hodag de quando eu tava no colegial!
— Cacete... Esse mundinho tá ferrado, mas não deixa de ser pequeno hein.
— Ele me pegou de guarda baixa e pôs o totem no meu bolso, ou seja, transferiu pra mim a maldição! — informou Fred, acelerando mais — Tá crente que o Fohler fez o mesmo com você pra poder caçar dois Hodags e ser readmitido ao clube. A maldição é irreversível, destruir o totem é inútil. Tem certeza que o Fohler não te passou a posse?
— Se fosse a intenção dele, eu já teria me transformado. Mas e você? Tá dando pra segurar?
— Acho que... — o nefilim suava frio, pão lhos avermelhando novamente. Balançou rápido a cabeça e se recompôs — A maldição tá agindo como catalisador... Você sabe pra quê. Vai, volta pro DPLA, o Fohler pode ter se transformado, tô indo pra lá, a gente se encontra e vai atrás dele!
— Beleza, mas... Tenta ao máximo se conter. Falou. — disse Frank que logo desligou — Ah, meu Deus, logo quando ele tava no caminho certo...
O celular do detetive tocara, sendo Carrie na linha.
— Carrie, pode falar! Tava voltando pro bunker...
— Então é melhor dar meia-volta porque tá a maior algazarra no DPLA, o caos instaurado. Recebi uma notificação de alerta. Parece que houve um banho de sangue.
Frank girou o volante mudando a rota para a direção oposta na mão dupla e pisou fundo cantando pneus. Seu retorno ao DPLA se reuniu em pressa, respiração desritimada e tensão cardíaca batendo como som de tambor. Fred não havia chegado primeiro, como esperado. Se deparou com corpos mutilados pelo corredor onde passava, as luzes piscando trêmulas, deixando pegadas de sangue para trás enquanto via outras adiante com formatos animalescos.
Seguiu com a arma em riste, logo sentindo um odor singular, mas não de sangue. Com o olfato aprimorado, se dirgiu a passos apertados, fovrando alguns corredores e ignorando algumas vítimas fatais. Chutou de leve a porta do escritório do legista, o abrir vagaroso revelando a figura dantesca e bestial do Hodag com suas presas ensanguentadas tend ovalado de fazer uma proveitosa refeição. A criatura rosnou e avançou. Frank se esquivou, o monstro batendo a cara na parede. O detetive sorriu de canto, se desafiando a um empate, guardando a arma.
— Vem pra cima, seu escroto.
O Hodag rugira, furioso, avançando e erguendo-se para se manter bípede. Mas três estampidos soaram. Disparos que atingiram as costas da fera. Fred estava do lado com arma em punho chamando a atenção do monstro que cravou-o como alvo. Porém, Frank agarrara a cauda robusta do Hodag.
— Frank, solta ele!
— Ele não sabe qual de nós atacar primeiro! Atira na cabeça!
Contudo, as lembranças torturante regressaram mais violentas fa!Nero do emocional de Fred um saco de pancadas. O nefilim sucumbiu ao efeito invaviso do trauma, cedendo ao medo. No limite da força, Frank foi jogado contra a parede com o mover da cauda pelo Hodag que disparou contra Fred. Mas o nefilim tinha o semblante assustado de uma criança com a face cheias de sinais da metamorfose para a sua versão maligna. Se abaixou com as mãos na cabeça no instante que o Hodag pulara sobre ele. O monstro acabou saindo pela janela cujo vidro se estilhaçou inteiro.
— Qual foi, Fred? — disse Frank vindo até ele ajuda-lo a levantar — Aquele não é mais o Fohler!
— Não é nada disso! — vociferou Fred, os olhos macabros de seu lado mau fazendo Frank recuar de leve a cabeça — Eu não consigo. Não consigo passar por cima desse medo.
— Consegue sim, você é um Montgrow! — disse Frank tocando nos ombros dele — Tem a alma de um caçador, além de um poder gigantesco. Um caçador faz seus medos terem medo dele. E eu sei que você é totalmente capaz.
Fred assimilou a motivação, mesmo que isso viesse com um custo. Voltou-se para a janela quebrada e deu passos, pulando.
— Fred! — chamou Frank vendo o meio-irmão correr atrás do Hodag pela área aberta do estacionamento. A fera tentava saltar as cercas elétricas, mas foi eletrocutada, causando curto-circuito e explosões com faíscas no sistema. Frank se arriscou a pular ciente de que o sangue de Orion o salvaria de fraturar as pernas.
Fred foi caminhando desajeitado, os olhos fixos no Hodag que inutilmente tentava escapar.
— Chega de fugir... pra nós dois.
Frank corria até o estacionamento, assistindo atônito ao momento em que Fred deixava o lado monstruoso gritar mais alto na sua consciência, seu corpo ganhando robustez absurda, sua pele acinzentando e as roupas rasgando.
— Não foi bem esse o conselho que eu dei.
O Hodag não se intimidara e veio com tudo. O nefilim maligno ergueu a cabeça e rugiu intensamente, colidindo com a criatura ao correr até ela. A chutou no queixo, derrubando-a sobre um carro que foi esmagado. Em seguida o pegou pela cauda, logo o jogando ao chão, depois repetindo da esquerda para a direita furiosamente, destruindo o concreto do chão. Por fim, o agarrou com as duas mãos que logo pusera entre as presas da criatura, os olhos coléricos dela encarando os dele. Como se manuseasse papel, rasgou o Hodag em duas metades, as entranhas e o sangue explodindo no ar. Frank se paralisou de assombro.
— Essa é a força de um nefilim...
Fred rapidamente retornava ao normal após largar o cadáver de sua presa. Frank correu pegando uma capa azul que cobria um dos carros para agasalhar o meio-irmão. Fred deitou no chão, abalado com o que fez.
— Frank... Eu sinto muito, decepcionei você...
— Não se culpa. — disse Frank o cobrindo — Talvez pra você fosse o único jeito.
Amparado pelo irmão, nefilim se debulhou em lágrimas, chorando copiosamente de cabeça baixa. Mas logo reergueu-a bradando um longo urro de tristeza, dor e fúria por se desvirtuar de sua proposta que tornou uma missão de vida e depois daquilo fora completamente frustrada.
***
De Volta ao bunker da ESP, Frank havia trazido Fred, já vestido novamente após passar no seu flat, para ficar por uma noite dividindo o quarto. Ambos passavam por um corredor.
— Cara, eu não queria estar na pele do Fohler naquela hora. — disse Frank relembrando — Então aquele é você na forma de Hulk demoníaco... Eu sei que tô tentando quebrar o gelo e falhando nisso, mas...
— Não, tá tudo bem. Os cacos estão se juntando aqui dentro. Só não esperava no fim das contas ficar com medo de mim mesmo. Não foi muito diferente da primeira vez. Acho que essa minha guerra espiritual tá perdida.
— A culpa foi minha por te deixar participar da caçada. Pronto, assunto encerrado. — determinou Frank — Mas você não é um caso perdido. Uma recaída não significa derrota.
Um agente vinha até eles repassar um aviso.
— Montgrow, o chefe quer ver você na sala de pesquisa agora. Urgente.
— Eu tô acabado de sono, fala pra ele...
— É inadiável. — interrompeu o agente, categórico. Frank estranhou e olhou para Fred.
— Vai só, eu vou cometer um assalto na geladeira. Toda essa aventura deu uma baita fome. — disse Fred.
— Me espera no quarto se terminar logo e eu demorar, dependendo do que seja. — falou o detetive acompanhando o agente.
Frank adentrava a sala de pesquisa vendo Hoeckler sentado ao sofá vendo pela TV um novo pronunciamento de Elton Hartley junto com outros agentes de pé a espera dele. O agente que viera com ele trancou a porta.
— Ué, trancou por que? Hoeckler, o que foi? Reunião mais estranha...
O presidente da fundação ESP apenas aumentou o volume da TV no momento em que Elton Hartley dissera as seguintes palavras:
— Esses indivíduos merecem toda a marginalização por se enquadrarem acima da lei, mas eles verão que não ocupam esse pedestal, jamais ocuparam. A sanção presidencial foi deferida nesta tarde com apoio majoritário das bancadas parlamentares da Câmara e do Senado. A partir de hoje, esses autodenominados caçadores serão rigorosamente coibidos e suas ações posteriores serão criminalizadas como usurpação de poder da segurança pública. Aqui está uma lista com vários nomes que coletamos graças a testemunhas cooperativas ao FBI, a CIA e a mais nossa nova parceira no fronte de batalha, a organização ESP.
O detetive ouvia meio boquiaberto cada nome proferido por Hartley, de todos que conhecia, inclusive o próprio.
— Mas... Hoeckler, que presepada é essa? — perguntou ele, irritado.
— Exatamente o que acabou de ouvir, Frank. — disse Hoeckler levantando e virando-se para ele — Chegamos a um ponto de ruptura. A ESP se expôs, Hartley me sondou... e esse é o resultado. Não tive escolha.
— Se prestou a isso... Por que? Fama, status, dinheiro...
— Sobrevivência! — disse Hoeckler, estourando — Se eu não assinasse o maldito contrato, Hartley jogaria o nome da ESP na latrina, além de ordenar uma dissolução imediata. Era esse destino que você julgaria melhor?
— Mas nos dois cenários eu perco os maiores aliados que fiz nessa cruzada! Eu perco você... a quem até pouco tempo considerava um amigo. — lamentava Frank que derramou uma lágrima.
Hoeckler passou a mão no rosto.
— Sinto muito, Frank. Mas vai ter que ser assim. Vai ter que acabar assim. É o fim da era dos caçadores. — fez uma pausa tensa — Prendam-o.
Os agentes cercaram o detetive armados. Quando um deles tocara-o, Frank reagiu explosivo, agarrando a mão desse agente e a torcendo até quebrar. Chutou e socou os demais com grande facilidade, sua agilidade nos golpes impressionando Hoeckler.
— Não deixem ele escapar! Mexam-se!
Frank destruíra a porta com um chute violento, mas foi agarrado por dois agentes, os quais foram empurrados para os lados. Frank bateu a cabeça de um deles na parede e deitou o outro sobre seu joelho partindo a coluna dele. Foi até Hoeckler desferindo um soco pesado no rosto do ex-aliado que caiu sobre a mesa derrubando tudo.
— Vocês perderam a autonomia e o meu respeito também! Pro inferno com essa lei.
O detetive saiu enfurecido e encontrou Fred no corredor alarmado. Era seguido por agentes.
— Frank, vem comigo!
Frank correu e tocou na mão do irmão antes que os agentes alcançassem, ambos teletransportando para o BMW que ficou do lado de fora.
— Parece que levamos uma bela facada nas costas. — disse Fred — Eu tava quase terminando o peito de peru quando senti meu pescoço outra vez agarrado.
— Sem tempo pra conversa. Pé na tábua. — disse Frank que ligou o veículo.
— Mas o que rolou pra se voltarem contra nós assim?
— Viramos criminosos, foi isso. — respondeu Frank, ainda meio incrédulo — Viramos a caça.
O BMW saiu rasgando o asfalto sem rumo definido com uma nova e sombria camada deste novo mundo se explicitando.
XXXX
*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://portal-dos-mitos.blogspot.com/2014/02/hodag.html?m=1

Comentários
Postar um comentário