Frankfort, Kentucky
Havia chegado o período festivo das comemorações da Ivana Kupala, a celebração junina de origem eslava que era realizada no aguardo especialmente de prosperidade nas colheitas e aspectos diversos da vida. Na região rural americana, uma família russa reservou a noite em sua fazenda para confraternizar com amigos e vizinhos também imigrantes russos, festejando alegremente e compartilhando das boas expectativas que os ritos antigos e tradicionais proporcionavam, dentre eles um que consistia em casais saltando sobre a fogueira no qual se tivessem sucesso teriam longevidade no casamento. Contudo, se não completassem tal salto, era um indicativo de separação iminente. Houve apenas um afortunado não tendo êxito no salto, o fogo encostando no vestido da mulher.
O ritual mais esperado de tratava de um espantalho que era incendiado pelo patriarca da família anfitriã. O resultado definiria o rumo da festança. O boneco caiu, o que era visto como presságio de colheitas improdutivas e parcas, gerando assombro no povo e sepultando o clima animado. Como ditava o protocolo tradicionalista, o espantalho queimado deveria ser jogado ao rio para que a correnteza o encarregasse de leva-lo. Os membros da família e seus convidados observavam, segurando lamparinas, a beira do lago, o espantalho malfadado ser arrastado pelo rio. A esposa do patriarca segurou firme em sua mão ao lado dele lhe lançando um olhar de temor.
Um ano depois, uma das famílias residentes da área onde viviam os imigrantes russos era atormentada pela ameaça de um invasor qie atacava exclusivamente a noite assustando o gado ou subtraindo algumas cabeças - decepadas, mais precisamente. Numa noite em que o assassino impiedoso tornou a sinalizar sua presença nos entornos do rancho, o Sr. Langston, um homem na faixa dos sessenta e usando macacão azul por cima de uma camisa branca, resolveu manter a família trancada para ir a caça do malfeitor sem garantia de retorno.
Se embrenhou na mata armado com uma espingarda antiga, apontando em várias direções, se bebericando apenas da luz lunar que passava por entre os galhos das árvores. Mas sua caçada tiveram fim quando foi parado ao sentir sua barriga profundamente perfurada. Olhou para baixo vendo uma foice de cabo longo meio enferrujada, a lâmina cravada no abdômen. Salivando sangue boquiaberto, Langston tentou virar o rosto aterrorizado para a direita onde sabia estar seu agressor. A lâmina da foice foi retirada, o sangue jorrando feito cascata junto às entranhas, deixando-o cair com espasmos de dor padecendo na ferida profunda.
A figura de uma mulher de rosto pálido e horrendo com bastante palha que parecia ser seu cabelo se esclarecia. Langston gemia fitando-a horrorizado. Ela lhe sorriu bizarramente, logo erguendo a foice e aplicando o golpe fatal.
***
O BMW de Frank cruzava o território inicial de Frankfort para fazer uma parada temporária após fugas sucessivas e incansáveis das tropas da ESP que atuavam em conjunto aos infames Patrulheiros de Aço teleguiados por Elton Hartley na busca por caçadores em atividade. P detetive resolveu partilhar com Fred sua insatisfação com a mudança drástica de vida que foi forçado a adotar nos últimos meses.
— Quanto tempo não piso os pés no Kentucky. — disse Frank reduzindo a velocidade ao adentrar na zona rural da capital do estado — Papai fez uma viagem comigo pra visitar amigos caçadores, eu devia ter, se não me falha a memória... uns dez ou onze anos. A gente fez um piquenique no fim da tarde... uma farra de sanduíche de presunto e cerveja requintada.
Fred achara graça, imaginando o quão divertido havia sido o saudoso dia.
— Um dos melhores dia da minha vida. Acredita que foi quando eu pus a primeira gota de álcool na boca? Se a mamãe tivesse vindo, pegaria no pulo. — disse Frank sorrindo ao recordar, mas retomando a seriedade melancólica.
— Você tem ficado muito nostálgico esses dias. Me fala aí: isso tem amenizado de alguma forma a força do instinto primitivo?
— Esse meu saudosismo até que deixa um lado do coração quentinho... mas no outro lado sangra por essa fase atual que tô vivendo.
— Fase essa que nós estamos compartilhando, só pra constar. — retrucou Fred olhando-o — Não é só você quem tá sofrendo nessa barra furada que tá atravessando essa tempestade.
— Olha, não quis fazer parecer que meu sofrimento tá pior que de qualquer caçador. — corrigiu Frank.
— Tem certeza? O sangue sobrenatural de um caçador pré-histórico e implacável circula no seu organismo, somado ao fato de ser seu ancestral mais prolífico da linhagem. Não afeta nadinha o seu ego? Duvido. — contrapôs Fred que pensou como seria estando na pele do irmão — Se fosse comigo, eu me sentiria o máximo, o caçador mais insuperável de todos.
— Não vou mentir pra você e nem pra mim mesmo: esse poder tá querendo subir a cabeça, tem horas que me sinto uma força da natureza que ninguém é capaz de dar um freio, geralmente quando a porrada come, mas a gente não vem caçando com tanta frequência, então acho que meu ego tá salvo, por ora.
— Continua fingindo essa calmaria, tá ótimo, assim você não surta com todas as caçadas que desperdiça sem satisfazer a vontade do instinto.
— Eu tô tentando manter a calma, acredita em mim. — disse Frank soando aborrecido.
— E eu admiro sua resistência. Ter essa coisa no sangue deve ser como alimentar um leão que pesa toneladas.
— Só que uma hora esse leão vai rugir mais alto com fome e eu não vou ter escolha senão dar muitos quilos de carne fresca.
— Já parou pra pensar no que acontece se... — disse Fred encarando o irmão com curiosidade — ... você resolve se asbter completamente?
— Não quero nem pensar. Acho que o plano do Chernobog era fazer eu tratar aquilo que desde a morte do papai foi minha razão de existência como uma maldição ou um ciclo vicioso que acabaria comigo aos poucos quanto mais eu rejeitasse a sede de esfolar um monstro vivo. Mas não quero rejeitar, quero caçar, matar, minha mão tá coçando pra macetar geral.
— E pra complicar, ele influenciou o Hartley com a ideia do mundo segregar os caçadores. Te meteu num beco sem saída. É, agora vejo que tá sendo bem pior pra você, compelido a caçar sem poder.
— Tô odiando a cada minuto essa vida de foragido da justiça. — reclamou Frank, contendo sua raiva — Minha maior vontade agora é ir até a Globemax só pra acabar com a raça do Chernobog e do fantoche dele.
— Ir até o covil do inimigo nessa altura é pedir pra ser enquadrado numa cela da Alcatraz. Tá sabendo da nova? Construíram novas celas pra abrigar tanto monstros quanto caçadores. Tudo isso com incentivo financeiro da ESP e da Globemax. Não me sai da cabeça que aquele safado do Hoeckler vendeu a alma pro diabo só pra não perder a casinha dele.
— Deixa ele, quis priorizar o status da ESP do que sacrificar tudo que construiu pra viver na clandestinidade e fugindo que nem nós agora. Ele não tinha mesmo outra opção, não seria a mesma coisa se ele escolhesse recusar, a ESP tem muita tecnologia que seria confiscada, ele não aceitaria ficar só com as migalhas e um punhado de soldados. Parte do nosso esforço nessa guerra veio da ESP e ela precisa se manter como tá, mesmo que estejamos em lados opostos nesse momento.
— Ótimo, me fez sentir um pouco de pena do seu meio-amigo. — disse Fred observando a paisagem rural — Sabe, devíamos nos instalar em San Diego, talvez... passar uma temporada na casa da sua mãe, ela...
— Esquece, tá fora de questão, a mamãe não. — negou Frank categoricamente — Sei que tá afim de conhecê-la, até seria um lugar seguro, mas cedo ou tarde ela correria perigo e é bom lembrar que os homenzinhos de lata do Hartley usam força letal contra quem favorecer ou acobertar fuga de caçadores.
— Pois é, tinha esquecido que o filho da mãe autorizou essa medida contra testemunhas. Vamos ficar por aqui mesmo? Nada de motéis baratos e identidades falsas?
— Deve ter uma fazenda onde a gente possa se esconder.
— Se esconder numa fazenda? Ainda acho que cavar um buraco e se enfiar dentro é mais seguro. Mas se quiser apostar nessa, OK, você é o motorista e eu o passageiro, você que manda.
O carro reduzia a velocidade se aproximando da fazenda Romanov que continha uma pousada que se encontrava inativa devido a calamidade.
— Não podemos simplesmente entrar pela porta da frente. — disse Frank olhando a fazenda.
— Nossos rostos... já devem ter sido televisionados em todo o país. Os mais procurados da América. — comentou Fred, tenso — E agora? Pensa rápido.
— Teremos que ser furtivos. — disse o detetive abrindo a porta do carro para sair — Vem, a gente se esgueira até o celeiro.
A dupla se moveu discretamente para o interior da fazenda, logo alcançado o celeiro onde adentraram sem estardalhaço.
— Bem, aqui estamos, finalmente. — disse Fred olhando em volta — Gostei dos nossos colegas de quarto, pelo menos não assistem TV e não nos reconhecem como os criminosos mais perseguidos do país. — apontou para as vacas e cavalos — Você fica com a cama de cima e eu com a de baixo... Ah, não, espera, a beliche já tá ocupada. — apontou para as galinhas que cacarejavam agitadas com as presenças deles.
— Damos um jeito, é sobreviver ou se entregar. — determinou Frank esquadrinhando o local.
— Frank, temos companhia. — disse Fred erguendo as mãos — Atrás de você.
Um homem de meia-idade, na casa dos cinquenta, rosto meio redondo e cabelo grisalho bem rebaixado, além de trajar típicas vestes rurais masculinas, apontava uma espingarda para os invasores. Frank virou-se, logo erguendo as mãos em rendição.
— Antes que duvidem, está muito bem carregada. — disse o homem chamado Vladmir Romanov — O que vieram fuçar aqui? Roubar minhas galinhas? Se sim, são amadores.
— Desculpe, nós... — disse Frank não sabendo bem como se retratar — Não somos ladrões...
— Apesar de estarmos fugindo como criminosos...
— Fred, deixa que eu cuido disso, não precisa ajudar tanto assim. — rebateu Frank, irônico.
Vladmir atirou no chão coberto de feno, fazendo-os estemecerem. O homem foi se aproximando ameaçador.
— São os fugitivos cujas cabeças estão a prêmio pra todas as polícias do país?
— Não chegou a ver nossas caras por aí em cartazes ou na TV? — perguntou Frank.
— Não temos televisão. — respondeu Vladmir os fitando com austeridade — Mas as notícias chegam aos nossos ouvidos.
— Olha, nós somos caçadores, só queríamos um lugar pra ficar por uns dias... — disse Frank.
— E acharam meu celeiro um lugar perfeito pra se aconchegar sem pedir permissão?
— É que pensávamos ser reconhecidos pelos moradores dessa região. — justificou Fred.
— Só pra te situar, os caçadores estão sendo perseguidos pelos motivos errados. — argumentou Frank — Tem algo mais sinistro por trás dessa lei, querem sujar a imagem da nossa comunidade que, acredite ou não, já fez mais bem do que mal pra manter as pessoas a salvo de coisas que a ciência não consegue explicar.
O fazendeiro foi baixando a arma ao encara-los com menos severidade e assumindo como verdade a declaração de Frank.
— Eu não sou a favor nem do presidente e nem desse almofadinha ianque papagaio de pirata.
— Ele tá mais pra diabinho no ombro, vai por mim. — falou Frank baixando as mãos tal qual Fred.
— Não importa o que ele seja, eu não tô de acordo com essa lei caçando homens que lutam contra o mal que um dia foi oculto. Eu só pensei que fossem ladrões. Prazer, me chamo Vladmir. Bem-vindos a fazenda Romanov. — estendeu a mão direita para Frank que apertou amigável.
— Era essa hospitalidade que esperávamos. — disse Fred logo também dando o aperto de mãos.
O patriarca da família caminhava guiando-os até a casa que servia de pousada.
— Fazenda bem vasta hein. — disse Frank olhando a extensão do terreno.
— E com uma criação de gado de atrair qualquer investidor agrônomo. — elogiou Fred.
— Por pouco tempo, talvez. — disse Vladmir meio entristecido com a cabeça baixa — Os ranchos dessa área vêm sendo arrasados por um matador de primeira classe. Perdi um amigo ontem, não pude ir ao funeral dele pela pilha de afazeres.
— Peraí, tem um assassino à solta?! — disse Frank, curioso — Já acionaram a polícia?
— E o que a polícia tem a oferecer pra lidar com uma desgraça que corta cabeças de gado como se cortasse cebola? Logo mais será a vez daqui. Ele tá chegando... Digo, ela, na verdade.
— Ela? — indagou Fred — Ela quem?
— Por favor, queiram que eu apresente minha família. — disse Vladmir entrando na casa.
— Vlad, vi você saindo armado feito um louco ouvindo as galinhas gritarem... — disse Florence, esposa de Vladmir, uma mulher na faixa dos quarenta anos, de cabelo ruivo liso e preso com trancinhas nas laterais e usava um longo vestido de bolinhas com um avental azul celeste — Ahn, temos visitas... Nossa, que surpresa.
— Mais que visitas, clientes. — disse Frank, educado — Vamos ficar por alguns dias. O Vladmir nos encontrou no celeiro, quase atirou na gente, mas foi tudo um mal-entendido.
— Pensei serem ladrões, mas se tratam de caçadores. Ah, rapazes, esta é minha esposa, Florence.
— Olá, prazer. — disse Fred simpático — Me chamo Fred e esse é meu irmão Frank.
— Mas se são caçadores... não estão aqui pra se refugiar, certo? — perguntou Florence.
— Ouvi dizer caçadores? — disse a filha única do casal, Anna, uma jovem bela de cabelos loiros trançados nos dois lados, usando uma blusa preta sem mangas, calcas jeans e sapatilhas. Ela vinha do corredor quando virou-se para Frank e Fred, lançando um olhar mais prolongado para o nefilim que cruzou sua visão com a dela, gerando uma simpatia recíproca.
— E esta é minha filha, Anna. — disse Vladmir — Ela quem me ajuda nas tarefas diárias lá fora.
— Papai contratou empregados novos? — indagou Anna se aproximando de Frank e Fred.
— Se ele decidir nos pagar bem por ajudar nas tarefas, ficamos até o fim do verão. — disse Frank com bom-humor.
— Ah, vieram só se hospedar... Legal, mas ouvi a mamãe falar que são caçadores, o tipo de gente que passou a ocupar o segundo lugar na lista de pessoas mais detestáveis, perdendo só pros terroristas. Mas fiquem tranquilos, não temos nada contra, já até conhecemos alguns.
— Filha, seu modo de se portar foi indelicado. — repreendeu Florence — Cumprimente os nossos hóspedes devidamente.
— Desculpa. — disse Anna sorrindo desconcertada — Sou a Anna, prazer recebê-los.
— Eu sou o Frank e esse aqui é meu irmãozão Fred.
— Ah, bom, eu... bem que notei a semelhança. — disse Anna apertando as mãos deles sorridente.
— Qual é? Não sou tão parecido assim com o Frank. — contrariou Fred.
— Na minha opinião, um pouco mais bonito. — disse Anna que o deixou enrubescido. Frank lançou uma expressão brincalhona para ele.
— Sendo o que são, fiquem à vontade pra investigarem qualquer coisa a respeito da Ulishitsa. — disse Vladmir.
— De quem? — indagou Frank.
— Ulishitsa. — disse Anna adquirindo seriedade — O espírito maligno que se apoderou do espantalho na nossa festa tradicional, a Kupala.
Frank e Fred se entreolharam combinando de unirem esforços para aplacar a onda mortífera trazida pela criatura.
***
Carrie se submetia a um teste de paciência andando de um lado para o outro na sala de pesquisa, tendo tomado vários copos d'água esperando arrefecer a aflição. Aguardava uma visita de extrema importância. "Eu enlouqueço de continuar nessa tortura de espera. Não, já venho enlouquecendo só de saber que minha estadia virou cárcere privado", pensou a assistente que refletia sua condição após a reviravolta atribulada que a afastou de Frank.
O abrir súbito da porta a fez virar o rosto depressa. Lisbell entrava, mas deu uma olhada para fora conferindo os dois lados do corredor.
— Achei que o Barba Azul tinha mudado de ideia quanto a autorizar seus reféns a interagirem. — faliu Carrie, aliviada.
— Fui sorrateira a ponto de não ser seguida. Mas ele certamente suspeita que estamos conspirando.
— Será que ele poderia usar a Agnes como intermediária? Mandando ela fingir nos apoiar na tentativa de fugir dessa masmorra pra depois nos delatar.
— A Agnes não vem estado com disposição nem pra sair da cama, acho muito difícil, mesmo com o Hoeckler quase vinte e quatro horas acompanhando a evolução do quadro dela. — disse a bruxa ruiva expressando certa tristeza pelo panorama preocupante da amiga.
— É verdade, coitada... Me sinto mal de pensar que ela tá perdendo as forças dia após dia. Não tenho a visitado porque não quero dar satisfações ao censor ditatorial. Trouxe o mapa?
— E eu esqueceria? — disse Lisbell retirando o mapa dobrado de dentro da blusa verde com mangas longas. Foram até a mesa — A Tanya me contou da missão quase impossível no banco das amostras sanguíneas. Como se saiu de espiã?
— Não foi bem minha primeira experiência de espionagem à moda antiga, mas aquele feitiço de invisibilidade fez parecer que sim. — disse Carrie afastando as coisas sobre a mesa para dar lugar ao mapa que Lisbell ia desdobrando. A assistente tirou do bolso da calça o frasco contendo o sangue de Frank — Será que funciona? Essa amostra foi coletada antes do Frank obter o sangue do ancestral dele.
— Ele se imbuiu de um poder que alterou o físico em termos de habilidades combativas e sensoriais, não creio que aferiu o plasma sanguíneo. — explicou a bruxa — Se tivesse sido uma transfusão sanguínea, quem sabe...
Giuseppe entrara de supetão, assustando-as, especialmente Carrie.
— Nossa, que susto! Isso é jeito de entrar, Giuseppe? Quase derrubo o sangue do Frank.
— Desculpe chegar tão de repente. Quem achou que fosse? Hoeckler? Não tenho princípio de calvície. — disse o comissário policial destacando um aparelho celular — Consegui um trunfo pra contactarmos Frank. Não tem escutas aqui, certo?
— Fiz uma varredura semana passada e detectei microfones e câmeras escondidas. — revelou Lisbell olhando para as paredes verde oliva — Mas calma que tratei de usar uma magia branda pra criar imagens e sons falsos. Quem monitora vê e ouve cenas diferentes.
— Enfeitiçou as escutas... Ótimo, se pelo menos não é suficiente pra disparar os alarmes. — disse Giuseppe transpirando alívio — Pegue, Carrie. A linha é segura.
— Mas não sabemos se os celulares do Frank ou do Fred foram grampeados. — apontou ela, suspeitando da ação de rastreamento, o que era uma hipótese lógica a se considerar.
— Podemos tentar o localizador. Ao menos saberemos onde eles estão se não quiser arriscar uma ligação. — disse Lisbell, ansiosa para executar a mágica.
Carrie derramou uma gota do sangue no mapa dos Estados Unidos. Logo em seguida, Lisbell começou a proferir o feitiço em latim. Enquanto ela repetia as palavras mágicas, a gota se movia como uma linha vermelha passando pelos estados pelos quais Frank transitou como Utah, Kansas e Missouri. Parou em Kentucky sobre o ponto da capital, secando.
— Ele tá em Frankfort. — disse Carrie, satisfeita.
— Impressionante. — disse Giuseppe ante a eficiência da magia.
— Pra qual dos dois vai ligar? — perguntou Lisbell. Carrie ponderou rigorosamente.
— Nenhum. Tive uma ideia melhor. — falou, discando um número no celular trazido por Giuseppe olhando pelo seu — A Natasha... Ela pode ter trocado de aparelho, mas mantido o número. — colou ao ouvido, esperando atender.
— Alô? É você, Carrie?
— Ai, meu Deus... Que felicidade ouvir a sua voz. Foi mal não ter te ligado nas últimas semanas, tá tudo uma loucura. Eu fui proibida de falar com o Frank depois que a inquisição dos caçadores foi deflagrada. Por falar nisso, você tá bem, né? Num lugar hermeticamente fechado? Não voltou pra Londres, certo?
— Fica relaxada, Carrie. Eu tô ótima e ainda em Los Angeles no meu apê, até quando eu não sei, mas não quero virar uma nômade desajustada fugindo que nem um criminosa. Quer dizer, eu sou uma criminosa, aos olhos da lei.
— Pode dar uma ligadinha pro Frank pra mim?
— Claro, vou fazer conferência, só um instante. — disse Natasha telefonando para o detetive e colocando em modo triplo de chamada.
O detetive estava tomando café com biscoitos ao lado de Fred, ambos sentados no sofá acomodados com a generosidade hospitaleira do casal Romanov. O celular dele tocara em modo silencioso, fazendo-o levantar para ir atender num ponto reservado.
— Pessoal, eu tenho que atender uma ligação, é rapidinho, já volto. — disse ele olhando o nome na tela — Não deve ser nada urgente.
— Sem problema, pode ficar à vontade. — disse Florence que se serviu de mais leite — E então, Fred, nos conte de sua jornada de caçador, da sua trajetória nesse ramo. Nunca trouxe nada desse trabalho pra sua família?
— Quando se é pai de família e caçador você tem que se desdobrar mais do que é humanamente possível pra manter o mal afastado de quem você ama. Ainda assim, não basta. Eu sofri na pele esse risco e paguei um preço alto pra que não se repetisse.
— Nossa, isso... deve ter deixado marcas profundas. — disse Anna, compadecendo-se — Quer mais leite?
— Ah, obrigado, quero sim. — disse Fred pegando a xicara — E os biscoitos estão deliciosos.
— Eu quem fiz. — falou Anna contente pelo elogio — E não é a única receita que ponho a mão na massa.
Frank havia ido para a sacada atender a chamada.
— Natasha?! Eita, demorou pra dar um sinal de vida hein. Tava na maior preocupação, comecei a pensar no pior.
— Eu tô bem, acho que por enquanto. Nenhum androide seguindo meus rastros, mas já antecipo que é questão de tempo pra encostarem em mim, em você, no Fred, na Miyako... Não tem ninguém da nossa tribo blindado nessa "caça às bruxas".
— Falando na Miyako, como ela tá? Ela também não tem ligado ultimamente.
— Viva, sem dúvidas. Na certa, ela acha que seu telefone tá grampeado. Também não tivemos mais contato. Eu pensei a mesma coisa, só já poucos dias que consegui trocar de celular.
— Alô-ô? Eu posso participar dessa conversa ou não? — perguntou Carrie.
— Carrie?! Criou coragem pra ligar, até que enfim.
— Ela ligou pra mim pra fazer uma ponte e falar com você de um modo mais seguro. Nós duas usamos linhas sem grampo. Mas e você?
— Aí eu não sei... Eu tava com três celulares, saí de lá com apenas um, não ideia se é o que tem grampo desde a época que o Hoeckler não se bicava comigo.
— Guarda celulares desde aquele período? — indagou Carrie franzindo a testa.
— Me conhece bem, sou materialista, não despaego de coisa velha. Ah não, peraí. — deu uma risada breve — Acabei de lembrar, joguei o meu fora e o Fred me deu o dele. É tanta treta acontecendo que minha memória tá dando tilt.
— Ufa, menos mal. — disse Carrie — Onde vocês dois estão?
— Numa fazenda no Kentucky, paramos em Frankfort. Pela força do hábito, vamos nos meter num novo caso, parece que um espantalho assassino vem passando o cerol em pessoas que estiveram numa festa de origem russa que a família daqui da fazenda organizou há um ano.
— Hum, são russos, é? Será que são confiáveis? — questionou Carrie.
— O espantalho veio deles, mas ninguém tá por trás do motivo que fez ele criar vida, acredito que seja uma daquelas maldições de simpatia e ritual, um passo em falso e já era. Pesquisa sobre Ulishitsa e Ivana Kupala depois.
— Folclore bielorusso... Interessante. — declarou Natasha — Até que gostaria de estar aí brincando com vocês pra desopilar, mas tô negativada e três já é demais.
— O papo tá bom, mas por via das dúvidas melhorar pararmos por aqui. — sugeriu Carrie — Frank, só queria te dizer que o Hoeckler tornou nossa estadia aqui nossa prisão, nem a Lisbell ou a Tanya estão autorizadas a sair. Eu sou a mais perigosa pelo fato de ser seu braço direito, ele pensa que vamos trocar informações e armar uma estratégia. Venho com sofrendo com gatilhos de claustrofobia, quero sumir daqui.
— Calma, Carrie. Só mantém a calma. OK, nao sou nem de longe a melhor pessoa pra aconselhar isso, também tô com os nervos fervendo de agonia, principalmente porque meu cérebro quer obedecer a lei, mas meu corpo quer destroçar monstros adoidado. Tenta segurar a onda, tudo vai se resolver. A gente vai se reencontrar, todos nós.
— Esse megalomaníaco do Chernobog extinguiu a era dos caçadores, mas não a nossa esperança. — afirmou Natasha com firmeza.
— Se ainda continuamos aqui, vivos, nada foi extinto. Só acaba quando não rezar mais nenhum de nós. Carrie, manda abraço pro Giuseppe.
— Tá bom. Se cuidem, os dois, isso vale pro Fred também, claro. Não vai sair a noite, vai, deusa do rock?
— Ficar assistindo novela coreana e enchendo minha boca de chantilly. Não tem estilo de vida melhor, né?
— Beleza, vou indo nessa. Mantenham a fé de que vamos sair dessa de cabeça erguida.
A conferência se desfez entre os três quase que simultaneamente.
— Frank te mandou um abraço. — avisou Carrie para Giuseppe. O comissário assentiu meio desalentado, dando um sorriso fraco.
— Quer insistir num plano de fuga na surdina? — perguntou Lisbell.
— Que tal feitico de teleporte?
— Requer alta demanda de energia mística, dispararam os alarmes antes mesmo de você ter a chance.
— Então vamos arriscar a invisibilidade.
— Pra mim chega. — resmungou Giuseppe — Nos manter prisioneiros é uma medida drástica mesmo pro Hoeckler. Tenho esposa e filhos esperando que eu volte desde que esse pesadelo começou, o que faz de mim a exceção. Ele terá que engolir isso, queira ou não. — saíra da sala com indignação.
— Boa sorte pra ele. — disse Lisbell.
***
Ao longo daquele dia, Agnes sentia o quadro de sua doença evoluir mais agressivamente, os sintomas já conhecidos piorados junto à novos e indicadores de avanço terminal. A bruxa vomitou um bom volume de sangue em jato na pia do seu banheiro. Os jatos de sangue, inclusive, vinham intermitentes dessa vez, acompanhados de tosses intensas e secas. Olhou-se no espelho: abatida, fraca, pálida e fisicamente decadente.
Inflou novamente as bochechas regurgitando um volume sangrento, mas com a diferença assombrosa de ter a consistência similar à de uma gema de ovo e borbulhar de modo que liberava uma substância negra somar ao miasma de Chernobog. Encarou a mistura grotesca com pavor e ao reerguer-se para uma nova olhada no espelho, viu seu reflexo decrépito, ressecado e com olhos negros como se fossem órbitas vazias. A bruxa dera um grito rápido de susto, recuando. Hoeckler batia insistentemente na porta, chamando-a.
— Agnes, fale alguma coisa! Ouvi você gritar. Tudo bem, aqui vou eu arrombar...
— Não precisa. — disse ela saindo do banheiro — Vamos, diga que estou ainda pior do que quando entrei, vou concordar plenamente. A minha beleza que te encantou no dia que nos conhecemos vem se esvaindo.
— Não importa o quanto essa doença deteriore seu corpo, não vou te largar, estarei sempre aqui até o último segundo.
— Até que a morte nos separe, né? No fundo já sabíamos que não seria depois do sagrado matrimônio.
— Pois eu não, desde o começo sonhei com toda a lucidez que subiríamos a um altar trocando alianças, esse desejo permanece mais vivo que nunca no meu coração. Se aquele amigo secreto não tivesse acontecido, estaria me sentindo pior você você acabar assim, negando o meu direito ao perdão.
— Meu destino foi selado, Theodor. Esqueça...
Subitamente, Agnes foi erguida, ficando suspensa no ar como se a gravidade a rejeitasse. A bruxa gritava em dor enquanto uma energia obscura a envolvia como um escudo que a impedisse de ser tocada. Hoeckler se aproximou, mas foi violentamente repelido, arremessado contra o espelho acima da penteadeira. A energia sombria se desfez no mesmo ritmo que brotou, levando a bruxa a cair forte. Hoeckler levantou-se, indo ampara-la.
— Mas o que diabos foi isso? Pareceu um tipo de... barreira de sombra ou até mesmo enxame de maribondos. É a rejeição da magia querendo chegar ao extremo?
— Sinto meu corpo esmagado... — disse ela, tossindo e mal conseguindo mover-se — O que acabou de ver foi um prenúncio do meu fim, me tornei uma bomba-relógio impossível de desativar.
— É possível se devolver essa magia, valorize sua vida! — pediu Hoeckler, exasperado — Aceito qualquer consequência, menos você morrer!
— Então está a favor de Zaratro... seu canalha egoísta.
— Errado, você tem uma importância a cumprir nessa guerra e eu zelo incondicionalmente por ela.
— Não... tem que me deixar ir... — disse Agnes caindo em choro com o dela atormentando-a mais que a doença. Hoeckler a abraçou, derramando lágrimas como há muito tempo sabia que não fizera.
***
Novamente reunidos na sala de estar, Frank e Fred ouviam com atenção o relato dos Romanov acerca da lenda sombria entorno do espantalho utilizado durante a festividade tradicional.
— Sempre tememos isso em todas as Kupalas, essa foi a primeira vez que o rito fugiu às nossas expectativas. — disse Florence sentada no sofá maior com meu marido a direita.
— Nunca ouviram falar de outras festas dessa tradição que terminaram com esse ritual dando errado? — indagou Frank.
— Quando ainda vivíamos em Moscou, alguns amigos próximos da gente contavam histórias de Kupalas que não encerraram com chave de ouro. — disse Anna sentada perto dos caçadores — Todos que honram a tradição acreditam que é o soprar do vento após o ritual de lavar o espantalho no rio. Ele cai do pedestal se o vento não estiver favorável, o que indica mau presságio pra todos que participam.
— E o que acontece depois? — perguntou Fred.
— Nos desfazemos do espantalho. — disse Vladmir, dando de ombros — Jogamos no rio pra que a correnteza o leve sem rumo.
— Não tá esquecendo de nada, pai? O laço. — disse Anna olhando nervosa para seu pai que havia omitido sem querer tal detalhe.
— Ah, verdade nós... amarramos um laço vermelho na altura da cintura do espantalho pois no entendimento da tradição isso fará com que se afoguem, por assim dizer, anulando o presságio.
— Mas se o espantalho for arrastado até terra firme intacto e permanecer num número de meses igual ao de convidados da festa... — disse Florence, o semblante de seriedade servindo como alerta.
— Ele se torna a Ulishitsa. — completou Anna — Tecnicamente, ela é o mau presságio. E está matando os convidados por ordem de chegada.
— Caramba, a última festa foi há um ano, né? Você memorizou toda a ordem de convidados? — questionou Fred.
— Anna é dotada de uma inteligência que a faz desejar as maiores universidades do país. — disse Florence orgulhosa da filha — Mas nunca deixamos de encarar a falta de oportunidades.
— Um dia eu chego lá, quem sabe. — disse Anna, tentando ser otimista.
— Tenho certeza que uma faculdade de renome vai aceitar você, não desista. — afirmou Fred.
— Alguma sugestão de como dar um freio na matança dessa bruxa de palha? — perguntou Frank.
— Diria que ela está mais pra um demônio. — reforçou Anna — O espantalho ganha um corpo orgânico depois do período que ele fica na beira do rio, mas mantém traços de sua antiga "vida". — fizera aspas com os dedos.
— É preciso remover o laço. Mas não há garantias. — disse Vladmir — Essa é a parte que me deixa cabreiro sobre ser lenda ou realidade.
— Só tirar o laço e ela volta a ser espantalho? — perguntou Frank, ainda mais curioso — Parece moleza.
— Pro Frank é fichinha, acreditem. — falou Fred com um sorrisinho — Nada tem escapatória com ele na jogada, tá vivendo na melhor fase de caçador.
— Mas na pior época pra agir como um. — rebateu Frank, honesto.
— Admite, é sim sua melhor fase, em compensação, apesar da idade. — disse Fred levantando uma sobrancelha — Coluna de cinquenta, vigor de dezoito.
— Você é meu fã ou concorrente?
— Sou seu parceiro e é isso que se faz: um enche a bola do outro. Sua vez agora.
— O Fred tem medo de barata. — disparou o detetive gerando risada em Anna.
— Ei, é pra ser totalmente sincero como fui, não pra inventar e me fazer passar vergonha, para com isso. — disse Fred quase caindo no riso.
— É bom ver essa descontração, nesses tempos horríveis que não nos permitem dar um simples sorriso de alegria. — disse Florence.
— Vamos levando a vida conforme a gente se adapta a esses tempos malucos e estranhos. Vai passar. O amanhã nunca morre. — disse Frank olhando para o casal. Fred o fitou por uns segundos, um tanto curioso quanto ao otimismo que o irmão parecia querer transmitir.
— Ah, sobre o laço... Eu não sei bem ao certo se pode funcionar, mas queima-lo talvez cortaria o elo da Ulishitsa com a maldição do ritual e ela queimaria junto. — disse Anna.
— Vamos tentar. — disse Frank.
— Filha, não já passou da hora da ordenha? — indagou Florence.
— Nossa, é mesmo! Tenho que ir. — disse Anna levantando apressada.
— Se quiser ajuda, tô a disposição. — ofereceu-se Fred.
— Ótimo, precisava mesmo de um ajudante. — disse a jovem entusiasmada, o puxando pelo braço direito.
— Bem, não quero ficar de bobeira até a noite chegar e a Ulishitsa der as caras, então acho que vou cortar lenha pro jantar. — disse Frank se incumbindo da tarefa para a satisfação do casal Romanov.
No celeiro, Anna ordenhava uma vaca de costas para Fred que cuidava de outra, ambos sentados em banquinhos de madeira baixos.
— Hoje a noite... vocês devem ir até a casa dos Fletchers. Já se foram três convidados de duas famílias, eles são os próximos. Quando terminarmos aqui, mostro o endereço.
— Pode deixar tudo conosco, ninguém mais que tá na mira dessa espantalha horrenda vai morrer, eu prometo. — garantiu Fred retirando o leite tranquilo. Mas Anna lidava com dificuldades na vaca que escolheu.
— Droga... Essa daqui tá praticamente seca. Mal deu meio litro.
— Espera, deixa eu te salvar. — disse Fred virando-se com o banquinho para a direita dela, bastante perto. Agarrou as tetas da vaca firmemente — Parece até que é como espremer pasta de dente. Mas em vez de apertar embaixo, considere tentar na parte de cima. Veja e aprenda. — apertou forte, esguichando leite em abundância no balde de ferro.
— Nossa, sou uma lerda mesmo. Já teve experiência?
— Nunca, então encare como sorte de iniciante ou quase isso.
— Não foi sorte, você tem mais força, só isso.
— Não é na força, é no jeito. Um pouco dos dois, nesse caso. — falou Fred sorrindo simpático ao que ela retribuía com gosto. Numa brincadeira inesperada, esguichou leite no rosto de Anna — Opa, minha mão escorregou! — dera risada.
— Ah, seu danado! Olha só como aprendi. — disse Anna que dera o troco. Iniciaram uma guerrinha de jatos de leite na cara que os fazia dar altas gargalhadas, sabendo que construíam um vínculo prazeroso. O que não sabiam era de um olhar vigilante espionando ambos por uma brecha naquele clima de entrosamento divertido.
***
A residência da família Felton localizava-se a cerca de cinco quilômetros da fazenda Romanov, uma casa relativamente grande para ser ocupada por no máximo seis pessoas. Frank e Fred pararam bem em frente de lado, ambos saindo do BMW com armas em punhos e destravadas. Por meio do funcional, embora batido, triwue do grampo, adentraram no lar silenciosos, sentido que aparentemente não havia ninguém, as luzes da sala de estar apagadas.
— Será que já foram dormir? — indagou Frank.
— A Anna contou que os Felton pretendiam ir a um casamento na área urbana, mas não tinha certeza. — revelou Fred — Bem, isso confirma que eles estão fora de perigo, né? Não há vestígios de luta, nem de sangue... Tá tudo em ordem.
— Não é o que meu medidor tá sinalizando. — disse Frank com o aparelho EMF que registrava assinatura anômala ao redor.
— Frank, para de fingir, tô falando sério. — disse Fred, aborrecendo ao se virar para o irmão.
— Que foi? Não tô fingindo nada, só fazendo meu trabalho. Relaxa aí, tá tudo sob controle aqui dentro. — disse Frank apontando para si mesmo.
— Ah, tá de fingimento sim, e tá na hora de acabar com essa pose de caçador normalzinho. Precisa desse troço pra quê? É parte do seu furor nostálgico?
— A quem tô querendo enganar, né? OK, caí na real, nada vai voltar a ser como antes. Eu cheguei a um nível de caçador que ninguém da minha geração atingiu e uma parte de mim se sente mal porque isso tornou tudo mais fácil e por consequência desestimulante.
— E a sua outra parte é o desejo voraz de sair caçando tudo quanto é criatura sobrenatural, a que fala mais alto e você tá tentando inutilmente silenciar pra não me afetar. Já entendi seu ponto, prometo que deixo você cuidando de tudo sozinho e eu fico no meu canto. Não preciso ser induzido a participar.
— Eu não te induzi a nada, estamos juntos nessa pela força das circunstâncias. E o mais importante: porque somos irmãos e não vamos abandonar um ao outro nas horas que a cobra fumar pro nosso lado. — rebateu Frank o olhando com desafio.
— Fizemos uma promessa nessa rotina de fugas, lembra? Juramos que se um fosse capturado pela Globemax, o outro seguiria em frente. Se for mesmo meu irmão e um homem de palavra... vai honrar esse compromisso.
— Olha, estamos na hora e lugar errados pra uma DR. E não é no sentido de só estarmos aqui. Tem razão, não preciso do EMF. Mas você também sabe detectar monstros, né?
— Eu tô instável, meu sensor tá defeituoso. Daí me resta contar com seu instinto.
— Meu não, do Orion. Mas pra não menosprezar esse poder, digo que temos companhia. Atrás de você.
A Ulishitsa erguia-se atrás de Fred brandindo sua foice, os olhos vermelhos e demoníacos da mulher espantalho brilhando na escuridão com seu sorriso macabro de orelha a orelha. Fred desviou para a direita quando a criatura baixou a lâmina da foice. O nefilim rolou pelo chão. Frank atirou na Ulishitsa várias vezes, a mesma soltando berros estridente e selvagens embora as balas mal provocasse danos na pele meio coberta de palha cobrindo os seios. Ela pulou sobre o sofá, manejando a foice para acertar Frank com agilidade extrema. O detetive a socou no rosto e a chutou na barriga tentando arrancar segurando pelo cabo, mas a mesma pulou o derrubando.
Fred reergueu-se atirando nas costas dela que virou a cabeça para trás emitindo seu grito agudo. Frank atirou mais vezes tirando-a de cima e depois a chutou no peito, mandando para Fred que a socou forte no rosto, mas ela revidara com um corte veloz da foice na barriga do nefilim, o fazendo tombar em dor.
— Fred! — gritou Frank que levantou, rapidamente quebrando o pescoço da Ulishitsa. Ela caíra desacordada. O detetive conferiu o estado do irmão que não pareceu ter resistido — Foi muito feio? Deixa eu ver!
A Ulishitsa rapidamente se recompôs, levantando e brandindo a foice sem emitir sons, mas Frank, usando do instinto, virou-se agarrando a lâmina com as mãos nuas. Mas a força da criatura impulsionou a foice num corte no braço esquerdo de Frank. O detetive avançou dando uma cabeçada e um chute potente que a fez voar contra a parede. A Ulishitsa fugira em velocidade paranormal pela janela aberta ao pular.
Frank retornava a fazenda carregando Fred quase que nas costas. Foi ao celeiro cujas luzes estavam acesas e o deixou sentado no chão com o corte na barriga manchando a camisa cinza e o casaco preto de sangue.
— Frank... Meu fator de cura... pelo visto quebrou também. Me sinto estranho, é como se aqui meus poderes fossem neutralizados...
— Calma, vou chamar pelo Adrael pra te curar.
Anna surgia com uma espingarda, pronta para encarar a ameaça, mas aliviou-se.
— Ah, que ótimo, são vocês! Ouvi vozes, gemidos, eu tava fazendo uma ronda...
— Anna, me ajuda aqui, o Fred tá mal. — pediu Frank com um olhar meio triste, agachado perto do irmão.
— Meu Deus, Fred... Vo-vocês encontraram a Ulishitsa, não foi? E os Felton?
— Não estavam lá, felizmente. Como você disse, tinham ida marcada pra um casamento.
— Achava que era boato, mas ainda bem que saíram. — disse Anna, aflita pela condição de Fred — Tem algo urgente que preciso contar: a Ulishitsa tem que ser morta hoje mesmo.
— Não sei se vai dar, Anna. Com o Fred desse jeito, fica difícil. Eu mal dei conta de fazer um dano crítico nela com toda minha força.
— Você também se feriu... — disse Anna reparando no corte no braço de Frank — Como eu dizia, ela tem que ser morta hoje que seria o dia da Kupala se não tivéssemos cancelado. Caso ela saia dos limites da cidade, se torna imortal e a sede de matar dela piora. Há muitos anos, um padre abençoou essas terras orando pra que a seca acabasse, até que caiu uma chuva que durou dois dias e duas noites, fertilizando novamente o solo.
— Então é isso, ela só pode ser morta nesse território por ser um solo santificado. — compreendeu Frank ficando de pé.
— Há outra coisa mais sinistra sobre ela...
Enquanto Anna revelava mais fatos acerca da Ulishitsa, a própria passava por um cemitério arrastando sua foice numa trilha de concreto, a lâmina produzindo faíscas. Soltou um hálito quente da boca que fazia seu sorriso de coringa. Neste cemitério haviam sido sepultadas centenas de vítimas do vírus miasma, as quais emergiam das covas brotando da terra.
— Trazer os mortos de volta?! Só faltava essa pra deixar a noite mais divertida. — reclamou Frank — A festa hoje vai ser dela.
— Eu vou buscar o kit de primeiros-socorros. — disse Anna que virou-se para retornar a sua casa, mas bruscamente deu de cara com Lilith.
— Não vai, não, queridinha. — disse a demônia com um sorriso de canto e intimidando Anna.
— Quem é você? — indagou a jovem, assustada.
— Essa pergunta é mais minha do que sua. Vou até reformular: quem é você pra se engraçar pro lado do Fred daquele jeitinho? Parece ingênua e pura, mas tem uma luxúria que tá cansada de esconder. Mas escolheu o homem errado pra quem liberar o seu conteúdo.
— Lilith, veio fazer o quê aqui? — indagou Frank, ríspido.
— Eu estava aqui desde de manhã, assistindo o lindo início da amizade dos dois pombinhos.
— Então esperou a Anna aparecer pra dar seu chilique de ciumeira? Larga do pé do Fred. Não queria ele longe de você? Tá se contradizendo.
— Vim porque tinha visto você trazendo ele ferido e queria ver como ele estava.
— Eu tô péssimo. — disse Fred expressando dor — Agora pode ir, obrigado por nada.
— Não vou até a piriguete rural esclarecer suas intenções. — desafiou Lilith, as mãos na cintura numa postura altiva.
— Desculpa, eu nem sabia que ele tinha namorada. — defendeu-se Anna olhando para Fred e para a demônia — Mas não criamos um vínculo pensando em transformar isso num relacionamento, não da minha parte. Eles vão ficar aqui por mais dias, mas não pretendo enrolar o Fred, não sou desse tipo. Dá licença que eu quero passar. — andou para sair, mas Lilith a agarrou pelo braço — Me larga, sua vaca.
— Lilith, para, não machuca ela! — disse Fred.
— Nem ouse ir longe demais com o Fred.
— O que você faria?
— Arrancaria seu coração, literalmente. — respondeu Lilith mostrando sua face pálida de demônio com os olhos negros e as presas pontudas e salientes por baixo da pele humana. Anna gritou horrorizada, saindo aos prantos dali — Foi divertido. — disse, voltando-se a Frank.
— Cai fora, eu vou chamar o Adrael. — disse Frank juntando as mãos e fechando os olhos para fazer a prece — Adrael, preciso que venha, é caso de vida ou morte, o Fred tá gravemente ferido, os poderes de nefilim dele não funcionam nesse lugar. Cura ele por mim.
O serafim surgia no celeiro em milissegundos.
— Frank, olá. Por que Fred está limitado?
— Oi pra você também, sumido. Olha, aqui é solo sagrado, por isso o Fred tá bloqueado.
O anjo se aproximou e agachou-se, pondo sua mão direita sobre o corte profundo que sangrava profusamente. Emanou a luz branca curativa que sarou a ferida.
— Valeu, Adrael. Um dia te retribuo. — disse Fred levantando com a ajuda do anjo.
— O que esse ser repulsivo faz aqui? — questionou o anjo referindo-se a Lilith.
— Não me olha assim torto. Sabe que o Fred e somos muito ligados. Agora mais do que nunca. — disse Lilith acariciando sua barriga.
Adrael cravou os olhos na barriga de grávida da demônia, o que lhe inspirou suspeita.
— Fred, me diga que... não se sujeitou a esse pecado.
— No lugar dele, eu gostaria de dizer não. — palpitou Frank.
— Somos uma família. E tô disposta a dedicar a minha vida a esse papel mesmo que não apague meu passado miserável.
— A geração da vida era pra ser uma dádiva unicamente humana, mas como você conserva traços de sua antiga encarnação como primeira mulher... — disse Adrael que estendeu seu braço direito com a mão aberta diante de Lilith. Frank e Fred ficaram tensos imaginando que ele fosse explodir uma luz que matasse os bebês, mas seus olhos apenas brilharam. O anjo expressou uma reação de surpresa.
— Adrael, você quase me fez ter um infarto. — disse Fred, incomodado — Pensei que mataria meu filho. Aí seria um vacilo que eu jamais perdoaria.
— Não, esses bebês merecem vir com saúde.
— Peraí, bebês? — indagou Frank o olhando com tensão — Então são...
— Dois. — revelou Lilith — Sinto dois corações batendo. Iria dar a notícia hoje, mas sua amiguinha atrasou.
Fred tentava absorver a informação, não contendo a emoção de esperar uma dupla de filhos.
— Será que... são gêmeos? Meninos ou meninas?
— Meninos. — constatou Adrael no seu exame — Como Jacó e Esaú duelando no ventre.
— Estraga-prazeres, eu bem que planejava um chá revelação. — retrucou Lilith franzindo a testa frustrada.
— Eu preciso ir, há problemas no horizonte pra vocês resolverem por aqui. — disse Adrael — E Fred... seja um pai valoroso. Eles se diferem em natureza e essência.
— Tá querendo dizer que... — disse Frank.
— Um possui essência mista de anjo e demônio e o outro puramente humana. Só um deles me preocupa e não preciso dizer qual. — disse Adrael, a seriedade intensa — Nos vemos em breve.
O anjo desaparecera em teleporte imperceptível.
— Cacete... Meteu logo dois de uma vez? Parabéns, paizão. — disse Frank dando um tapinha nas costas de Fred.
— Valeu, mas... O que Adrael falou por último não vai sair da minha cabeça até eles nascerem. — disse Fred, refletindo seriamente.
— Eu fico pensando se ao longo do dia eu não assisti a versão campestre de Debi e Loide. — disse Lilitj em tom de critica.
— Tá falando do quê? — indagou Frank, rude.
— Primeiro você, Frank, indo na contramão da operação "Mantenha o Fred longe de encrenca". E depois você, Fred, caindo na armadilha do seu irmão que te arrasta pra toda caçada que o instinto dele conduz.
— Para de ser hipócrita, olha você aqui pertinho dele e ferrando com a meta. — contrapôs Frank.
— Vim excepcionalmente pra revelar sobre os bebês. Queria que fosse por telefone? Meio injusto, concorda?
— Concordo. — disse Fred que recebeu um olhar estreito e mordaz de Frank.
Um tiro de espingarda soou, assustando as galinhas. Frank e Fred foram à janela do celeiro e viram uma multidão de cadáveres marchando alvoroçados.
— Deve ter sido a Anna. — disse Frank — Atirou pra atrair os mortos-vivos enquanto não saímos.
— Mas vão nos atrasar. E a Ulishitsa? Se ela atravessar a zona, já era. — alardeou Fred — Lilith... — virou-se para trás, não vendo-a ali — Ótimo, também não queria mesmo a ajuda dela.
— Esquece a Lilith, temos uma família pra salvar.
A dupla saíra do celeiro atirando nos mortos-vivos aleatoriamente mirando a cabeça. Frank disparava com duas pistolas Beretta .40, mas todos que abatiam retornavam como se nada tivesse os atingido. Um grito apavorado foi ouvido da casa dos Romanov.
— A Anna tá lá dentro, corre pra lá! — disse Fred não cessando o bang-bang — Eu distraio eles!
Frank acatou a sugestão correndo, mas ainda atirando em alguns mortos-vivos infectados que o perseguiam. O detetive arrombou e destruiu a porta num chute violento. Acabou se deparando com Florence e Vladmir brutalmente mortos na sala, suas barrigas abertas.
— Não! — abalou-se Frank, atordoado — Merda... Anna! — correu casa adentro — Anna! — chamava Frank buscando sinais da Ulishitsa indo para a cozinha. Munido de uma lanterna, vira pegadas de sangue, mas de pés humanos. Ao chegar na cozinha, Anna irrompeu de dentro do banheiro, abraçando-o fortemente — Anna... Bom trabalho ver viva. Agora os seus pais... Eu lamento por eles.
A jovem caíra num pranto de luto e inconformidade. De repente, ela vira um ser espectral erguendo-se por trás do detetive.
— Cuidado! — bradou ela, fazendo Frank empurra-la para o lado, virar-se e logo depois esquivando para escapar do golpe da foice da Ulishitsa que seria fatal. A criatura avançou novamente, mas Frank levantou-se num outro desvio, o ruído da lâmina batendo no piso soando alto.
Frank não perdera tempo e empurrara a mesa de jantar contra ela a prendendo pela cintura na parede, o que fez largar a foice. Anna apanhou rapidamente a arma segurando-a para que não fosse tomada de volta. Frank subira de joelhos na mesa.
— Vamo arrancar esse laço... — disse ele alcançando a fita vermelha enquanto ela tentava barrar seu braço e se libertar do aperto. Tentou com as duas mãos, mas optando por levar a direita aos olhos da Ulishtsa, usando dois dedos para afunda-los nos olhos dela dos quais jorrava sangue enquanto com a mão esquerda removia calmamente a fita aproveitando que com os olhos esmagados não reagiria em defesa para impedir que seu ponto vulnerável fosse retirado.
A Ulishitsa virou e empurrou a mesa com Frank ainda em cima, mas o detetive levantou sem ferimentos. Antes que ela pudesse encostar em Anna pata recuperar a foice, Frank sacou depressa o isqueiro e o acendeu, aproximando a chama à fita vermelha que foi incendiando. A Ulishitsa voltou sua atenção à Frank e com velocidade sobrenatural o pegou pelo pescoço e o jogara no balcão. As costas deslizaram e ele caíra do outro lado. Ardendo em chamas tal qual sua valiosa fita, a Ulishitsa tombava paralisando aos poucos, seu grito terrivelmente agudo reduzindo. Anna estava encolhida, agachada e encostada na parede, segurando a foice com os olhos fechados e lacrimosos, amedrontada.
— Ela se foi. — disse Frank, sem dúvidas — Achou certo quanto a fita ser o seguro de vida dela. Anda, vem cá.
Anna fora até Frank, soluçando de chorar.
— Cadê o Fred? — perguntou ela. O nefilim vinha correndo.
— Olha ele aí. — disse Frank — E a manada de mortos-vivos?
— De repente... se dispersaram, acho que voltaram pras suas covas. Eram todos infectados pelo miasma.
— É um dos vários cemitérios criados pras vítimas da pandemia. — informou Anna — Acho que vou enterrar os dois lá mesmo.
— Anna, eu sinto muito pelos seus pais, de verdade. — disse Fred que abraçou, compadecido. De inesperado, luzes foram apontadas para a casa entrando pelas janelas aliadas ao som de dois helicópteros que sobrevoavam a área.
— Tá de sacanagem... — disse Frank, congelado de nervosismo — Sujou, pegaram a gente. A ESP rastreou as ligações da Carrie e da Natasha... a partir do seu celular que tava grampeado! Fred, você deu muito mole.
— Antes do fim do ano, fiquei uns três dias morando de favor naquela masmorra da ESP, não foi? Tempo mais que suficiente pra pegarem meu celular "emprestado". Me distraí, OK? Não me culpa, não vi na minha bola de cristal que teríamos um péssimo ano novo atolados nessa merda!
Uma voz bramiu autoritária de cima através de um megafone.
— Saiam de onde estiverem pacificamente e os levaremos sob custódia até a base da fundação! Frank e Fred Montgrow, saiam agora ou seremos autorizados a invadir a propriedade!
— A gente tem que meter o pé. — disse Frank, decidido a fugir.
— Anna, quer vir conosco? — sugeriu Fred pegando nas mãos dela.
— Que ideia é essa? Não vamos arrasta-la. Vambora! — contrariou Frank abrindo a janela.
— Adoraria, mas... prometi que não abandonaria a fazenda nem depois que meus pais morressem. Não posso, desculpe. Mas gostei de te conhecer, Fred. Você também, Frank. Andem logo, salvem-se, eu me escondo no abrigo de tempestades.
— Ela ficará segura se eles nos perseguirem no milharal. — disse Frank — Obrigado, Anna.
— Não me agradeçam, não fiz nada por vocês.
— Por mim, sim. — disse Fred a olhando fundo nos olhos. Beijou as mãos juntas dela — Não vou me esquecer de você. Adeus, Anna.
— Adeus, Fred. Cuidem-se. — despediu-se ela, o semblante inteiramente triste.
A dupla saíra correndo da casa e se embrenhou no milharal, os helicópteros junto a um equipe de agentes e patrulheiros de aço que haviam descido iniciando a perseguição. Frank corria avassalador pelas plantações sem olhar para trás. Isso até sentir a ausência de Fred.
— Ah não... Fred. Merda... — disse ele olhando em volta. Com sua audição super-apurada, ouviu um pequeno vozerio. Correu até onde vinham as vozes, detestando o que via — Não... — parou bruscamente e se abaixou observando entre as plantações Fred ser agredido pelos agentes da ESP e androides de Elton Hartley sendo capturado. A promessa forçada retornou como uma pancada na cabeça. Como se definia um homem de palavra, Frank, com esforço emocional absurdo, virou as costas correndo e deixando para trás lágrimas amargas de culpa.
XXXX
*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://fantasia.fandom.com/pt/wiki/Espantalho_Premonit%C3%B3rio
.jpeg)
Comentários
Postar um comentário