A ala destinada às criaturas sobrenaturais capturadas país afora na chamada Nova Alcatraz possuía corredores precariamente iluminados e celas ainda menos convidativas. Fred passava por um desses corredores repulsivos, segurado nos braços por dois truculentos guardas usando uniformes azul-acinzentado. O nefilim trajava a típica roupa laranja de detento com tênis brancos, sendo conduzido diretamente a cela que lhe determinaram para ocupar.
Durante o trajeto, recordações piscavam na mente, momentos descontraídos que passara com Frank nas horas que ambos não se envolviam em perigos distintos ao longo das caçadas paralelas as fugas incessantes da perseguição legalizada aos caçadores. Partidas de sinuca em bares, sessões de cinema em casa, shots de tequila, entre várias atividades que vivenciou saciando sua sede de colecionar instantes memoráveis como meio-irmão.
"Acho que aproveitei nossa irmandade ao máximo, me dou por satisfeito. Valeu, Frank. Por ter fechado a ferida que sangrava em mim estando longe da única família que me restou. E agora ela se reabriu... doendo como um tiro que não deixa você morrer... apenas te faz agonizar. Eu sinto muito ter te obrigado a prometer... mas foi preciso, a sua vida é valorosa, você tem que estar aí fora para cumprir o seu propósito... a sua verdadeira missão nessa existência.", pensou o nefilim, a melancolia estampada na face.
Enfim chegava a sua cela, sendo empurrado para dentro. No instante que um dos guardas trancava a porta, acabou esbarrando nas costas de um grandalhão que virou-se para ele. Era uma criatura humanoide e robusta usando uma jaqueta de couro, possuindo uma pele parecendo feito de carvão e um destacado terceiro olho na testa. Encarou Fred furioso.
— Bem-vindo ao inferno, amigo.
Fred olhou em volta enojado com a diversidade grotesca de criaturas apanhadas que escaparam do submundo após o Big One. Era um dos poucos visualmente humanos dali, mas o mais humano espiritualmente sem dúvidas. Sendo novato, tornou o centro das atenções indesejadas. De repente, virou-se para a porta.
— Guardas, por favor! Só uma palavrinha, um pedido simples, não é nada demais. — disse Fred batendo na porta.
Um guarda surgiu na pequena janela da porta, seu bafo embaçando o vidro.
— O que você quer? Tem a obrigação de permanecer em silêncio, não dirija a palavra a nenhum carcereiro!
— Gostaria de pedir encarecidamente uma transferência. As celas na ala dos caçadores, por favor. Não tem nenhuma com espaço pra mais um?
Os colegas de cela riram com escárnio.
— A ala dos caçadores vem sofrendo de superlotação, não havia tanto espaço disponível pra abrigar um número tão excedente. A direção tá avaliando como resolver esse problema, mas não espere que você seja incluso se eles quiserem estender a quantidade. Uma vez aqui, sempre aqui. E não chame mais a mim ou qualquer outro! — disse o guarda que finalizou batendo agressivo na porta, afastando Fred.
— Primeira vez que vejo um carcereiro dando satisfação pra um prisioneiro. — disse o monstro de três olhos.
— É o privilégio de ser o único com aparência cem por cento humana nesse calabouço. — retrucou Fred.
— Não respondeu as minhas boas-vindas, novato. — disse o monstro se aproximando intimidador — E eu não gosto de ser ignorado.
— Você é quem? O autoproclamado líder da cela? É a você quem devo me curvar?
— Você chegou ao inferno... e aqui eu sou o diabo. — disse a criatura mostrando seus dentes brancos pontudos. Agarrou Fred pela gola do uniforme laranja — E você, o que é?
O nefilim sorriu de canto fitando a face hedionda do implicante e arrogante monstro.
— Uma coisa muito pior.
As íris dos olhos de Fred avermelharam. O monstro de ébano foi empurrado violentamente contra a parede de uma forma que gerou comoção em todos os detentos. Abaixo daquela ala, habitava no subsolo em meio às tubulações uma criatura de pele cinzenta escura e enrugada com a parte abdominal absurdamente inflada como uma esfera gigante que pulsava e ameaçava explodir. Fissuras se abriram, deixando sair uma ninhada numerosa criaturas pequenas similares a minhocas ou vermes, indicando serem filhotes recém-nascidos daquele ser desconhecido que não pertencia ao grupo de monstros do submundo cativos.
***
Frank também sofria constantemente com reprises da traumática noite passada, tentando manter o sono em parcelas a cada vez que as lembranças retornavam nos sonhos. Acordou novamente, sobressaltado, mas aquela sendo a última vez. Estava dentro de um trailer abandonado e sujo no qual havia se instalado emegencialmente após mais uma perseguição de patrulheiros de aço que passaram a circular com mais concentração nas ruas, dia e noite.
Dormiu desconfortável encostado num balcão, se espreguiçando com dores agudas nas costas. A luz solar adentrava pelas janelas e conferiam à ele uma fagulha de esperança, pois enquanto houvesse o brilho do sol nada estaria irremediavelmente perdido. Pegara o celulardo bolso do sobretudo preto de couro e resolveu ligar para Carrie. O aparelho não era o mesmo, tendo sido obtido por um meio ilícito.
— Carrie... Por favor, diz qualquer coisa, só quero... ouvir a sua voz.
— Frank? É você mesmo? Número desconhecido...
— Troquei de celular, o grampeado joguei fora. Acabei de acordar, mas tive uma noite terrível de péssima, mas a dormida ruim é o de menos.
— Como conseguiu um novo telefone? É seminovo?
— Ahn... Expropriado. Olha a que ponto esse fundo do poço me fez chegar. — disse Frank sentindo-se um ser humano horrível pela atitude nada exemplar.
— Ah não, parece que a situação pra você e pro Fred só se agrava sem limites. Onde vocês estão agora?
— Eu me enfurnei num trailer largado as traças quase na beira de um lago próximo de um parque. Já o Fred...
— O que houve, Frank? Não deixa assim no ar, isso me apavora! Cadê o Fred? — quis saber Carrie, a voz de tom temeroso.
Frank fechara os olhos por um instante, remoendo o momento da prisão do nefilim no qual não pôde impedir dada a promessa feita.
— Pegaram ele, Carrie. E eu não pude evitar por aceitar uma promessa covarde. Mas promessa é promessa, ele nunca me perdoaria se eu contrariasse.
— Mas... Que promessa foi essa?
— Escolher salvar a si mesmo caso um de nós fosse capturado. Foi o que aconteceu, tentamos escapar juntos, fizemos um bom trabalho em equipe no caso da entidade assassina na fazenda dos Romanov, lidamos com perdas, mas no fim das contas encaramos o desafio que essa promessa previa. — disse o detetive se levantando.
— Meu Deus... — disse Carrie na sala de pesquisa sentando no sofá atordoada — Ele nem terá a chance de ver o filho dele com a Lilith nascer.
— Nenhum dos dois ele talvez não verá. — disparou Frank pegando-a desprevenida.
— O quê? Dois?! Você tá me tirando... Aquela ordinária tá grávida de uma dupla dinâmica?!
— Isso não é nada pra quem já pariu uma ninhada quase infinita de monstros demoníacos nas imediações do Jardim do Éden.
— Ah é, lembrei desse fato perturbador do passado oculto da princesa infernal. Mas e o Fred? Ele vai passar horrores naquela ilha, a Alcatraz já era o próprio inferno na Terra pra muitos que foram jogados lá, imagina agora com monstros dividindo espaço com caçadores. A não ser que ele vire o terror do presídio naquela forma monstruosa.
— Nem me fala... A gente tava seguindo certinho o combinado dele se restringir a investigação e sair de cena quando a caçada pegasse fogo, ele o cérebro e eu os músculos. Só nessa última que ele precisou dar uma ajudinha em campo. — lamentou Frank procurando pegar algumas coisas do armário de suprimentos — Quem descobriu a dupla gravidez da Lilith foi o Adrael. Fred se feriu e não conseguia se curar pelo terreno da fazenda ser santificado e o lado maligno dele ainda tava influenciando muito.
— Chega, as coisas estão saindo do controle, é como se estivéssemos numa Matrix, real mesmo apenas o ar que respiramos. Tô cansada, Frank. Passou dos limites, eu quero reivindicar minha liberdade.
— Peraí, tá planejando fugir ainda com a ajuda das bruxas? Cuidado com o Hoeckler, o faro desse miserável é absurdo, parece que lê tua mente, não subestima nem por um segundo.
— O que você sugere que eu faça? Giuseppe foi classificado como exceção e foi de mala e cuia voltar pra esposa hoje cedo. Não vou mentir, que inveja. Sei que é perda de tempo tentar convencer o Hoeckler de que não represento ameaça com você solto.
— Uma coisa ele reconhece: somos mais fortes quando estamos juntos. — afirmou o detetive que parou de mexer no armário ao ouvir vozes do lado de fora. Foi discretamente observar, meio abaixado — Carrie, vou desligar. Tem uns caras vindo pro trailer... não parecem que querem só olhar como é por dentro.
— Tenta sair daí sem que vejam. Aonde você tá exatamente? É lógico que deve ter corrido léguas de onde esteve na zona rural de Frankfort com os exterminadores do futuro no encalço.
— Peguei uns dois ônibus. Acho que saí do Kentucky. Ainda hoje pretendo voltar pra Los Angeles nem que seja montado num jumento. Tchau, a gente se fala mais tarde. — disse Frank que rapidamente encerrou a chamada, em seguida indo se esconder no exíguo banheiro. Mas o fechamento da porta deixava uma brecha que possibilitava espiar. Os quatro rapazes entraram no trailer fazendo piadinhas e gargalhando. Frank havia detectado a natureza dos delinquentes graças ao instinto primordial.
"Merda de vampiros.", pensou ele.
— Lugarzinho mais insalubre. — disse um dos vampiros, o que aparentava ser o líder da gangue, um homem de rosto magro com cabelo preto meio longo pentado para trás — Comecem a limpeza, amigos. Quero ver isso tudo aqui explodir em chamas. O imbecil não respeitou o prazo, não vamos retribuir de outro jeito.
Os outros três vampiros jogavam gasolina de galões em cada canto.
"Será que o dono dessa caranga tava devendo esses sanguessugas? Não sei pra quê se vingar, o cara com certeza meteu o pé", pensou Frank.
O líder do grupo vampírico acendeu um isqueiro.
— Se bem que aqui dá um bom refúgio pra caçadores. Acho que faremos um bem a sociedade... a menos que saia de onde estiver. — disse ele que olhou por cima do ombro direto ao banheiro tendo captado a presença de Frank.
O detetive saiu berrando furiosamente do banheiro com um facão. Desarmou o líder, o isqueiro caindo sobre uma mesa molhada de gasolina. O fogo iniciou sua propagação. Frank desferiu um ágil golpe vertical com o facão contra o líder, um corte profundo que fez respingar sangue, em seguida decepando a cabeça. Empurrou o corpo do vampiro para o lado, a expressão de fúria indomável fuzilando os demais com os olhos. Os vampiros exibiram suas presas e olhos azuis, avançando contra Frank. O detetive desviou de ataques, revidando com cortes brutais.
Pegara um deles, arrancando o colar protetor e o defenestrando como se jogasse uma mala fora. O corpo desprotegido do vampiro, que se debatia aos berros, queimou sob a luz solar em altas chamas instantaneamente até reduzir à um esqueleto carbonizado. O segundo vampiro tivera sua barriga apunhalada com Frank depois subindo a lâmina, ao mesmo tempo que o empurrava contra a geladeira, até o corte chegar a cabeça que por fim foi separada do pescoço num selvagem movimento. O último pulou por trás na tentativa de abocanhar as artérias carótidas de Frank na guarda baixa, mas o detetive dera uma pesada cotovelada que o fez bater a cabeça contra o vidro da janela. Frank arrancou o colar dele e o jogou para onde a luz solar passava por uma janela, logo o vampiro sendo incendiado pelas chamas brotadas do corpo e do trailer que se misturavam. Como o incêndio se alastrou sem chance de controle imediato, Frank se obrigou a sair do veículo.
Correu para a beira do lago, o fogo se externando no trailer que não demorou a explodir em várias partes. Frank caiu para frente com a onda de choque da explosão mais intensa, logo virando-se e lamentando a perda do refúgio consumido em fogo e fumaça.
— Só porque eu tava doido pra cair na estrada.
Na sala de pesquisa do bunker, Lisbell retornava para prestar seu auxílio a Carrie na decisão quanto à fuga desesperada. A assistente estava navegando na internet pelo laptop quando a bruxa veio.
— Já tomou sua decisão? — perguntou Lisbell, séria.
Carrie fechara o laptop e virou-se determinada para ela.
— É hoje. Não tem como não ser. Sou incapaz de permanecer aqui sabendo que o Frank tá passando apuros lá fora e como a melhor amiga dele estando proibida de dar um simples apoio moral por telefone.
— Então nós três iremos. — decretou Lisbell.
— Vão deixar a Agnes?
— Ela é a nossa única distração eficaz pro Hoeckler não nos pegar antes de cruzarmos a porta. — afirmou Lisbell aproximando-se — Só sairia de perto dela caso houvesse uma fuga mais alarmante, como a do Zaratro.
— Vamos mesmo usar magia de invisibilidade?
— Você tem um plano mais furtivo que esse?
Carrie engoliu em seco e levantou-se, disposta a abraçar o risco sem temer represálias.
— Pode chamar a Tanya, tô mais do que pronta.
Enquanto isso, na Alcatraz, o diretor do presídio foi solicitado para conferir os danos na cela onde se registrou uma balbúrdia violenta. O superior cruzava o corredor revoltado com a incapacidade dos guardas de averiguarem por si mesmos dada a insegurança elevada que os detentos transmitiam
— Inadmissível, deviam ter vergonha! Vocês tem armas tranquilizantes e permissão de usar força letal caso algum desses monstros queira rasgar suas gargantas! Alguém sobreviveu?
— Ouvimos dizer que apenas um, senhor. — informou um dos guardas, tenso.
Ao chegarem a cela onde ocorreu a desordem, o diretor soltou um arquejo, perplexo, ajeitando os óculos. Fred se encontrava sentado e encostado na parede abraçando os joelhos, nu e coberto de sangue da cabeça aos pés em meio a corpos mutilados de todos seus colegas. As paredes descascadas receberam pinceladas de sangue.
— Meu Deus... Logo você foi o único sobrevivente desse massacre? — perguntou o diretor, a boca trêmula.
— Mais do que isso. — respondeu Fred, o sangue fresco ainda pingando das sobrancelhas — Fiz tudo sozinho.
O diretor reagiu com ainda mais assombro olhando a chacina no chão nauseabundo.
— Tirem ele daí! Sedativo e enfermaria, já!
***
No início da tarde, Frank havia pego carona clandestina num caminhão cuja carroceria aberta levava motocicletas detonadas. Quando o veículo parara num cruzamento, o detetive saiu de cima da coberta, logo pulando.
— Valeu pela carona... seja lá quem estiver dirigindo. — falou ele em voz baixa. Correu pelas esquinas sabendo ter passado de Missouri e aportado no Kansas — OK, beleza, já tô no Kansas... — esfregou as mãos e apertou o passo naquela rua quase deserta — Tenho por mim que essa rua era mais movimentada... Parece que já aconteceu o arrebatamento e sou um desses que ficaram.
À medida que caminhava, foi sentindo-se mais solitário. Até que viu barricadas e placas ordenando não ultrapassar por ser uma área restrita. Se aproximou um pouco avistando num cruzamento a frente uma fila vindo da rua a direita. Ao olhar mais atentamente, percebeu serem dúzias de infectados do vírus miasma sendo conduzidos por patrulheiros de aço andando com seus esqueléticos corpos metálicos e armados com suas metralhadoras. Frank deu a volta correndo para ver onde iriam parar. Se deparou com um caminhão onde outros infectados presos a coleiras e correntes enfileirados entravam num caminhão que trazia um nome arrepiante estampado na carreta.
— Então o lance do campo de concentração não era teoria de lunático. — disse Frank vendo que se tratava de uma ação da Globemax em angariar infectados para leva-los a um abate massivo numa espécie de holocausto moderno — Se a Alcatraz superlotar, os caçadores serão os próximos da lista mais tarde...
O detetive deu passos adiante corajosamente. Sacou uma arma e disparou para o alto, chamando a atenção dos rovos humanoides que passaram por atualizações recentes, expondo faces mais humanas, mas não menos intimidadoras com a expressão fria e séria. Todos viraram e encararam Frank.
— Cheguei pra dar um basta nessa tremenda porcaria que estão fazendo. São vidas inocentes, não vale a pena causar mais sofrimento tratando elas como gado indo pro matadouro! Eu não concordo com isso, não!
Os robôs andaram em aproximação perigosa, o exército se aglomerando, mas uma pequena parte seguindo no recolhimento de infectados.
— Isso aí, venham todos e escutem meu protesto! Avisem pro chefe de vocês que isso pode ser exposto pra avacalhar com a reputação dele! O reinado do alecrim dourado não vai se sustentar depois que essa barbaridade vier a público! Se discordam, ótimo, venham cair matando no meu lombo! O que tenho a perder, afinal? Sou um reles caçador vagabundo sem eira nem beira!
Um dos patrulheiros a frente se pronunciou:
— Alerta de caçador detectado. Tem o direito de permanecer em silêncio. Renda-se ou morra.
— Cacete... Ninguém me informou que essas pragas falavam. — disse Frank surpreso com o androide verbalizando uma ordem de prisão — Se é pra escolher... Escolho a morte!
O detetive disparou a correr o mais depressa que suas pernas suportariam com a horda de patrulheiros o perseguindo incansavelmente. Como opção mais viável de salvação, roubara um caminhão ainda mais robusto do que aquele no qual embarcou. Subiu e fechou a porta, logo dando a partida dificultosa.
— Pega, sua desgraça, pega! — disse Frank insistindo em ligar o motor. Deu uma olhadela pelo espelho retrovisor, vendo o exército de androides alcança-lo. Começaram a disparar chuvas de balas, um tiro acertando o espelho.
O motor finalmente dera resposta positiva e o veículo saía adquirindo velocidade. Mas devido a aflição de ser perseguido pelos seres cibernéticos, Frank não mantinha uma direção segura, batendo a carroceria em postes. Ao dobrar para uma rua, quase virou para ocasionar um acidente. Os androides ganhavam proximidade, um dos correndo a um ritmo sobre-humano, podendo assim pular sobre a carreta do caminhão. Tal patrulheiro atravessou a carreta, surgindo no parabrisa e assustando Frank que dirigiu ainda mais descontrolado.
O androide quebrou o vidro com sua arma e preparou-se para atirar.
— Renda-se ou morra. — repetiu o robô.
— Eu já disse o que prefiro! São surdos?
Frank arriscou um movimento periclitante, levando o veículo a uma colisão com o andar térreo de um prédio. A batida destruidora tirou o robô do caminho, fazendo-o se desequilibrar e cair em meio a chuva de escombros. Frank deu a ré amassando o humanoide metálico. Os demais seguiam vindo atirando. O detetive saíra apressado do caminhão tentando se proteger dos tiros. Saiu pelos fundos do prédio e avistou a entrada para uma estação de metrô. Desceu rápido a escada, pisando no solo subterrâneo da linha metroviária cuja rota não parou para verificar, desde que o levasse para o mais distante possível dali.
O mutirão de patrulheiros chegou a estação, alguns persistindo em atirar. O detetive avançava para o túnel olhando para trás a cada três segundos. Os patrulheiros o encontraram do lado oposto a parada de embarque mirando suas armas. Frank se reconfortou ao ver que um trem se avizinhava. Deu um tchau para os robôs e audaciosamente pulara no metrô que passou veloz pelos robôs. Após o trem passar totalmente, os robôs pisaram nos trilhos procurando vestígios de Frank com lanternas acopladas as metralhadoras sofisticadas.
— Zero resíduos orgânicos. Captura mal-sucedida. — disse um deles — Retornar para campo de infectados.
***
No relógio marcava o horário padrão para a abordagem de averiguação de quem estava sob proibição de sair do bunker, procedimento que vistoriava à procura de quaisquer materiais que pudessem usualmente favorecer uma fuga. O agente já vinha entrando na sala de pesquisa onde Carrie, previamente avisada, já se encontrava de pé para ser revistada. Sorriu educada para o agente que preferiu manter a sisudez.
— Eu só... gostaria de entender porque não fazem isso logo pela manhã. — quis saber ela olhando-o curiosa.
— Levante os braços. — mandou o agente.
— Não seja grosseiro, só uma dúvida comum.
— Eu disse: levantei os braços. — insistiu ele.
Carrie lançou um olhar petulante à ele, erguendo os braços com a revista sendo iniciada.
— Pra quê nos tratar assim? Ah, deve ser exclusivo a mim já que represento perigo potencial de ajudar um fugitivo da lei que não tem ficha criminal.
— Será que dá pra calar essa boca? Acha que eu queria estar aqui fazendo esse protocolo ridículo? — perguntou o agente interrompendo a ação ao encara-la mal-humorado.
— Então conteste seu chefe, não se submeta aos caprichos autoritários dele.
— Não posso fazer nada se ele é tão metódico. Eu odeio de revistar quem não tem a menor chance de escapar do labirinto que é essa base.
— Já revistaram minhas amigas bruxas hoje?
— Por que tá perguntando?
— São amigas minhas, ora. Qual o problema?
— Chega, você tá limpa. Mas até que gostei. Tomara que eu seja escolhido amanhã de novo.
— Receio que não.
— E por que?
— Porque foi a última vez que me tocou indecentemente, seu porco. — disparou Carrie que aplicou uma joelhada nas partes íntimas do agente que caiu grunhindo alto de dor. A assistente pegara rapidamente o abajur com o qual golpeou o agente na cabeça repetidas e incontáveis vezes até fazê-lo sangrar. O chutou de leve na lateral da costela, não vendo ele esboçar sinais de consciência.
De repente, Lisbell, anteriormente invisível aguardando a hora perfeita de agir, reapareceu na sala, tornando-se visível segurando as duas malas da assistente.
— Você pegou pesado. — disse a bruxa aproximando-se.
— Espero que eu não tenha matado ele. — falou Carrie se afastando nervosa — Será que causei traumatismo craniano?
— Pra mim pouco importa. — opinou Lisbell — Eu mataria se fosse tocada como ele tocou você.
Tanya, com seu vestido amarelo mostarda, chegava preparada para completar o time.
— Já fez as malas?
— Prontas desde ontem. — respondeu Carrie — Antes de irmos, tenho uma perguntinha de milhões: vocês vão continuar sob o regime totalitário do Hoeckler?
— Se quisermos ver a Agnes curada, não vamos esperar por ele. — posicionou-se Tanya.
— Até agora ele não teve o menor sucesso em convencê-la a devolver voluntariamente a magia de Zaratro, nos obrigando a partir pro plano B. — declarou Lisbell decidida quanto a estratégia.
— Vocês não farão o que eu tô pensando que farão, né? — indagou Carrie.
Lisbell e Tanya deram piscadelas uma à outra.
— Entendi, uma intervenção de emergência mais que necessária. Podemos ir?
— Vamos dar o fora rápido. — disse Lisbell dando o braço esquerdo à assistente.
— Antes que deem falta do infeliz. — completou dando seu braço direito a Carrie que ficara entre as duas.
— Invisiable. — disseram as bruxas em uníssono. As três tornaram-se magicamente invisíveis e abriram a porta.
Enquanto isso, Hoeckler cuidava de Agnes que permanecia acamada com disposição extremamente limitada para se locomover.
— Por favor, não saia daqui nas próximas quarenta e oito horas.
— O que quer dizer?
— É o tempo que... estimo até a hora da minha morte. Quero que seus olhos sejam a última coisa que eu veja.
— À essa altura, sou capaz de largar meu posto de presidente só pra não sair de perto de você. Vamos, ainda há tempo, levo você a cela de Zaratro e damos um fim nesse martírio.
— Mesmo salva, não serei forte o bastante contra Zaratro, tampouco contra Chernobog. Se prepare pra minha partida, Theodor.
Hoeckler segurou as lágrimas e tocara no comunicador no ouvido esquerdo.
— Agente Gunn, já concluiu a abordagem?
Mas estranhou ao não obter resposta.
— Agente Gunn, responda.
— Acho que deve investigar.
— Pior que realmente devo. Eu volto em instantes, trago uma coisa pra você comer, faz horas que não se alimenta. — disse Hoeckler levantando-se depressa. Após sair do quarto de sua amada, percorreu alguns corredores até chegar à sala de pesquisa. Abrira a porta, deparando-se com o agente Gunn desacordado e ferido, o que fez seu sangue entrar em ebulição.
— Atenção, monitoramento! Acionar código Ômega! Fuga de prisioneiros executada! Carrie, Lisbell e Tanya violaram o confinamento!
— Como assim, senhor? E-elas estão nos seus aposentos.
— Estou na sala de pesquisa onde Carrie passa a maior parte do tempo e não a vejo em lugar algum! Ela está no quarto?
— Não, senhor... Eu vejo que ela está aí usando o computador dela... ou pelo menos deveria estar. O que significa isso?
— Malditas bruxas... Usaram magia pra falsificar as filmagens. Dispare o alarme. Tenho um agente agredido e inconsciente, elas aproveitaram o momento da abordagem.
O alarme foi disparado, seu som preenchendo os corredores com o adicional da luz vermelha. O trio se encontrava no salão de entrada e subia os primeiros degraus da escada espiral.
— Mas logo agora?! — disse Carrie.
— Que se dane, não podemos parar, estamos quase lá! — falou Tanya.
— Vai até a porta sozinha, distraímos eles! — pediu Lisbell.
— Distrair quem? — perguntou Hoeckler vindo com uma tropa de agentes armados — Um exército munido de balas anti-magia? Desçam, agora, ou abriremos fogo.
Carrie e as bruxas o fizeram, as mãos erguidas em rendição. O celular de Carrie tocara, ela logo sacando o smartphone para conferir e vendo ser Frank a ligar.
— Atenda. — ordenou Hoeckler friamente inexorável, a deixando altamente relutante.
***
Na ala de enfermagem da Alcatraz, o despertar de Fred se deu de forma um tanto vagarosa, a visão se ajustando com dificuldade ao ambiente do quarto hospitalar. Estava deitado numa cama inclinado da cintura para cima, porém amarrado nos pulsos e na base das canelas por cordas firmes. Movia os pés na tentativa de desatar os nós, mas o sedativo aplicado lhe subtraiu muito de sua força física descomunal.
— Merda... — disse ele tentando se desvencilhar nos braços — Por que não consigo... me soltar?
— Lamento, esteve sedado por ordem do diretor. — disse uma enfermeira cuja metade do rosto era coberta por uma máscara que entrava.
— Ah sim, o sossega-leão me enfraqueceu, ainda tô meio zonzo... Tenho alguma previsão de alta? Meus ferimentos nem foram tão graves.
— Sim, você terá alta hoje mesmo. — disse a enfermeira removendo o cateter de soro fisiológico do braço esquerdo do nefilim.
— A que horas? — indagou Fred.
— Agora. — respondeu a enfermeira que tratou de retirar a máscara e desprender o cabelo, deixando Fred embasbacado com a identidade.
— Lilith?! — disse ele arqueando as sobrancelhas, chocado — O que... Como foi que... Ah, esquece, você sentiu minha energia emanar quando me transformei, né?
— Na verdade, Frank me contou da sua prisão. Temos os números um do outro, mas não fica com ciúme, ele nunca fez meu tipo. — disse a demônia removendo as amarras — Tá, talvez ele fosse meu brinquedinho que realizasse minhas fantasias sexuais enquanto você o maridinho recatado e de fino trato. O melhor de dois mundos.
— Me diz que você não matou ninguém pra se disfarçar. — disse Fred, levantando da cama.
— Como acha que consegui essa roupa de enfermeira? Não reparou nas manchas de sangue? Meu instinto materno não anulou minha naturalidade demoníaca.
— Fui idiota de pensar que a gestação tornaria você um pouquinho menos sádica. — retrucou Fred pegando suas roupas de detento que estavam emboladas numa caixa de papelão. Puxou a cortina branca perto da cama para não ser visto se trocando — Espera só um minuto.
— Pra quê esse surto de puritanismo? — questionou Lilith afastando a cortina e vendo-o colocar a calça laranja — Não nos conhecemos há pouco tempo pra você se censurar pra mim.
— Talvez porque eu não me sinta à vontade diante de alguém que transou comigo, engravidou e agora nega acompanhamento. — disse Fred vestindo a camisa — Entendo a razão, mas sou o pai desses bebês e não tenho o direito de perder nada até o dia que nascerem.
A demônia estreitou os olhos para o nefilim, sentindo um assomo raríssimo de serenidade. Pegara de repente a mão direita dele e a aproximou de sua barriga levemente avolumada.
— Quer sentir eles chutando?
Fred expressou um olhar calmo com a oportunidade de vivenciar a experiência sensorial que todo pai merecia. A palma da sua mão tocara a barriga, sentindo os movimentos agitados dos bebês.
— Meus garotos. — disse ele, comovendo-se — Estão chutando um ao outro, acho que... serão da espécie de irmãos competitivos. — dera uma risadinha, uma lágrima escorrendo — Muito além disso, posso sentir a respiração deles, os corações... — fechou os olhos e reabriu fitando a demônia — Obrigado, Lilith. Nem que fosse uma vez só eu tinha que reviver isso.
— Podemos cortar essa cena dramática e partirmos pra nossa fuga intrépida?
— Tá legal, só vou calçar os tênis e...
— Não temos mais tempo, vamos. Consegue se teletransportar?
— Eu não sei, me sinto bagunçado. Pode ser sua presença que tá influenciando a instabilidade. Eu tentei enquanto acordava, mas acho que o efeito do sedativo tava reagindo.
— Então é uma combinação dos dois.
— Não pode nos tirar daqui?
— Há supressores de atividade paranormal em cada polegada desse complexo. O máximo que posso fazer é destrinchar manualmente qualquer guarda que vier pela frente.
— Elton Hartley pode ter mandado instalar equipamentos da fundação ESP com a ajuda do Hoeckler. Não vai ser tão simples quanto parece. Você aí carregando essas duas bênçãos...
— Se poupa, eu não fiquei mais fraca nessa condição. Não tiro licença-maternidade pro que eu continuo amando fazer.
— Eu sei que não. Mas vê se pega leve. — disse Fred andando para sair do quarto ao lado dela.
— Não dá, é meu desejo de gravidez. — rebateu ela, acompanhando-o para fora do recinto.
Paralelamente a fuga explícita do casal, um carcereiro que monitorava as celas não resistiu ao tédio do trabalho e adormeceu em pleno expediente. O que facilitaria para o verme cinzento e rastejante que saía pela grade do duto de ventilação. A criatura se arrastou pela parede e alcançou o ouvido direito do vigilante, abrindo sua boca circular com presas. Enfiou-se abruptamente no ouvido do homem que sobressaltou com a invasão cerebral.
Emitiu um grito desesperado com as mãos na cabeça num acesso psicótico, jogando a cadeira giratória preta contra os monitores cujas telas racharam e apagaram, além de derrubar tudo que havia sobre a mesa mantendo seu grito de descontrole. Urrou para o alto enquanto sofria uma metamorfose, a pele se preenchendo de veias negras e grossas bem como os olhos se tornando globos vazios e brancos contornados por manchas negras. Presas afiadas também cresceram a medida que a mandíbula se retorcia e alongava para baixo.
Um colega chegara à sala, se assombrando com o resultado da transformação grotesca do parceiro.
— Mas o que houve com você, Ryan? Meu Deus do céu! — falou no rádio preso na alça diagonal do uniforme — Código Vermelho! Solicito uma unidade imedia...
O carcereiro Ryan o impediu de finalizar o chamado com um salto selvagem contra o colega, derrubando-o e ficando por cima dele. Meteu suas presas na carne fresca, desfigurando horrivelmente o rosto do parceiro em mordidas loucas e profundas feito um animal, fazendo sangue espirrar nas paredes.
Na larga extensão dos corredores das celas, a infestação se propagava desenfreada entre os detentos, criando um pandemônio onde os parasitados vitimavam os que não tinham o azar de serem acessados pelos vermes cinzentos por qualquer buraco onde pudessem sair - especialmente os vasos sanitários. Dentro de poucos minutos, as grades haviam sido arrancadas e a contenção dos guardas apenas levou à pior na escala daquela matança que transformou a Alcatraz numa selva onde apenas os mais famintos é que sobrevivem.
Em paralelo, a situação de Carrie no bunker ainda não encontrava uma saída para o impasse. O celular tocava ininterrupto, a assistente hesitando atender.
— Atenda essa ligação, Carrie. Frank deve estar morrendo de saudades e você também. — pressionou Hoeckler.
— Baixem as armas primeiro e eu atendo. — determinou Carrie levando Hoeckler a dar uma risadinha de sarro.
— Não sabe mais contar? Olhe a sua volta, vantagem numérica capacitada pra impedir qualquer mínimo movimento que suas amigas bruxinhas fizerem e que suma com você.
— Não vamos arriscar nenhum truque na manga. — garantiu Lisbell odiando se acuar — Mesmo que fosse pra provocar uma morte cerebral em todos eles, incluindo você.
— Fico chocado com sua ideia, Lisbell, mas grato por reconhecer que não pode executa-la. Falou como uma exímia bruxa. — retrucou Hoeckler qie logo voltou-se a Carrie — Vamos, Carrie, atenda.
— Só quando baixarem essas malditas armas.
— Sou eu quem mando aqui! — vociferou Hoeckler sacando sua arma do bolso interno do paletó azul e a mirando na assistente — Atenda a droga desse celular, senão dou ordem pra atirar, está encurralada!
— Sem querer ofender a honra da instituição, mas isso tudo é um exagero. — opinou Lisbell.
— Acha exagero evitar a fuga da aliada de um fugitivo da lei que certamente facilitará pra ele ficar mais escorregadio do que já é? A existência da fundação depende da eficiência nessas capturas. Na próxima reunião com Hartley, não posso simplesmente justificar uma prisão não realizada pelo fato de Frank... ser meu amigo. — contrapôs Hoeckler, amenizando o tom ao avaliar sua relação com o detetive após tudo que passaram.
— Carrie, não parou de tocar um minuto. — disse Tanya — Deve ser muito importante, é o Frank, não o deixe preocupado.
— Prometo autorizar sua liberdade depois que p capturarmos. Dou minha palavra. — jurou Hoeckler, ansioso.
Relutantemente, a assistente tocou no ícone verde para a urgente chamada.
— Oi, Frank.
— Carrie, caramba, que demora foi essa? O que tá pegando?
— Onde você tá agora?
— Kansas, peguei um metrô fugindo dos homens de ferro do Hartley. — disse o detetive sentado numa parte vazia do vagão. O trem, no geral, estava menos ocupado.
— O que vai fazer?
— Me render. Pode mandar o Hoeckler vir me pegar e jogar no xadrez pra ver o sol nascer quadrado com uma cambada de monstros que vão tentar me virar do avesso. Tá bom, tô sendo dramático. Só vou me entregar pra poder resgatar o Fred, que se dane a porra da promessa, não se vira as costas pra um amigo, muito menos um irmão.
— Em qual linha de metrô?
— Ahn... — Frank olhara no painel de orientação a sua esquerda com todas as linhas — A que tá marcada aqui é a linha centro-oeste que vai de Hutchinson até Dodge City. Você tá falando meio estranho, robótica... Ah, saquei. Ele tá aí, né?
— Bem na minha frente. Fomos pegas com as mãos nas saias, mas valeu a tentativa. — informava Carrie, os olhos fixos em Hoeckler.
— Avisei que o faro desse miserável era infalível. Esse lugar é quase à prova de fugas, pior do que a Alcatraz. Passa pra ele, por favor.
— Frank, eu vou desligar e falar pra ele qual sua rota no metrô pra te pegar aí mesmo.
— Mas como você fica?
— Uma vez que você pisar na Alcatraz, ganho meu passe livre.
— Acho bom ele cumprir a palavra, senão depois que eu fugir com o Fred, volto aí pra te buscar e encho a cara dele de porrada. A gente se vê.
— Pena que não posso repetir isso. Tchau. — disse Carrie, finalizando a chamada — Ele pegou a linha centro-oeste indo de Hutchinson à Dogde City, no Kansas, tá tentando voltar pra Califórnia.
— Ótimo. Agradeço por eu não ter mandado ativar o viva-voz porque respeito o direito à privacidade... além de saber que era mera questão de tempo pra Frank se entregar agora que Fred é o mais novo detento. — disse Hoeckler guardando a arma.
— Mas Frank, até onde eu sei, não tem uma aliança com os anjos como alguém digno de enfrentar Chernobog decisivamente? — questionou Tanya, a testa meio franzida.
— Tinha. O sangue de Orion eliminou qualquer possibilidade. Ele, sozinho, já perdeu essa guerra. — declarou Hoeckler que virou-se para seus homens — Contatem a equipe localizada no Kansas pra interceptar o trem, depressa.
No metrô, Frank resolveu tirar uma soneca aguardando a parada obrigatória que o trem faria com na chegada da unidade de agentes da ESP que atuava no estado. Mas a sonolência foi quebrada graças a tremedeira agitada das luzes branco-esverdeadas do trem. O pisca-pisca foi aumentando quase na indicação de uma pane.
— Merda é essa? Ah não... Aqui não... — disse Franl levantando do assento e ficando parado de pé no meio do vagão olhando para os lados, vendo alguns passageiros indiferentes. Subitamente, o trem mergulhou nas trevas com o apagar súbito das luzes. Depois, acenderam numa baixa luminosidade que deixava a escuridão predominar. Frank divisou um novo e indesejável passageiro — Desgraçado...
Elton Hartley ali estava a alguns metros diante de Frank. Na verdade, Chernobog numa projeção astral. A entidade sorriu com a boca do magnata cinicamente, o poderoso Olho Que Tudo Vê piscando seu brilho vermelho.
— Faz um tempo que não nos encontramos, não é, Frank? Desde aquela noite memorável em que triunfei sobre os seus esforços.
— Veio falar o quê comigo? Eu sei que não é você aí fisicamente, mas se fosse eu arriscaria até a minha última gota de sangue pra te esfolar aqui dentro ou te arrancar dessa casca.
— Está começando a superestimar a força de Orion agindo no seu corpo. Cuidado, isso pode leva-lo a enganos que levam a atitudes irracionais. A menos que tenha a espada dos anjos, não há como você se nivelar a mim. Hum, lembrei, você não tem mais a dignidade, lamento tê-lo desapontado.
— Me fala de uma vez: eu vou me tornar uma fera irracional que nem o Orion? — perguntou Frank dando uns passos a frente.
— Se nutrir o instinto corretamente, sim, em pouco tempo você se tornará um completo animal com a única finalidade de abater suas presas. Sua mente estará focada nisso até que não reste mais a razão, a bondade, o caráter ambivalente, embora bem mais reto... Até que não reste mais Frank Montgrow. Será como se Orion ressuscitasse. Você é a versão dele que meu irmão, Khaleido, tanto anseia ver nascer.
— Só que isso não vai acontecer! Não sou igual o Orion, não vou virar um caçador louco que só pensa em sair por aí matando a torto e a direito.
— Quanto mais rejeitar a necessidade do instinto, mais intensa será a vontade. Você cede, não para e quando menos esperar e pensar terá aceitado esse destino de corpo, alma e espírito. Sei que vê Orion nos seus pesadelos a cada vez que dorme, isso é o instinto clamando por alimento.
— Eu vou matar esse animal dentro de mim, sufoca-lo com todas as minhas forças.
— Suas palavras são contrárias ao seu desejo, Frank. Quando vai perceber que sua ligação com Orion é fixa como se duas mentes habitassem um mesmo corpo, como eu e Hartley? Ele está em você, ele vive em você... sangue do seu sangue, separados pelo tempo, mas entrelaçados pelo poder que compartilham.
— Chega, não vou ficar mais ouvindo essa baboseira, eu faço o que der na telha! O Orion não tem poder sobre minha vontade.
— Mas não disse que ele diretamente influenciava suas ânsias. Esse papel cabe ao meu irmão, Khaleido. Deve saber que Orion selou um pacto com ele, infundiu o poder em seu próprio sangue para se transformar naquilo que foi predestinado e agora chegou a sua vez.
— Quer dizer que... eu também tô conectado a Khaleido? A história do Orion tá se repetindo na minha, é isso?
— De certa maneira, está. Mas o final pode ser diferente se não quiser chegar ao fundo da loucura contrariando o instinto. Faça sua escolha antes que seja tarde, Frank. O que acha de um desafio pra ajuda-lo a decidir?
As luzes normalizaram e Chernobog desaparecera. Porém, o detetive sentia uma atmosfera suspeita, logo captando o perigo. Os poucos passageiros do metrô se mostraram possuídos por demônios, exibindo os olhos pretos. Cercaram Frank com expressões maliciosas.
— Eu tava mesmo afim de esfaquear uns demônios. Podem vir, seus vermes. — disse ele sacando a lâmina sacerdotal.
Os demônios avançaram, mas Frank se movia rápido e vigoroso, apunhalando com brutalidade e matando cada um deles dentro de seus receptáculos. Um deles possuindo um homem robusto o agarrou por trás num golpe de mata-leão, mas Frank o empurrou com as costas contra uma barra de ferro, se desvencilhou e virou-se, logo cravando a lâmina, o preto dos olhos sumindo. Depois girou chutando outros dois e rugiu fincando a lâmina num e em seguida desencravando para enfiar na lateral da cabeça do outro. O último que sobrara possuía uma velhinha usando um xale cor-de-rosa iebk fez se deter por um instante.
— Não machucaria uma senhora frágil como eu, né?
— Ela não, mas você sim. — disse Frank que dilacerou com a lâmina enfiando bem no meio da testa. O corpo da senhora tombou, mas Frank, dominado pela sede que o instinto inspirava, efetuou uma sequência incontrolável de facadas, soltando gritos selvagens. Lembrou de uma vez que Fred tentou conte-lo quando destroçou com um patrulheiro de aço. Pensou na calma do irmão em faze-lo parar. A razão retornava impedindo outra facada — Ai meu Deus... O que eu tô fazendo? Já acabou, Frank. — levantou olhando os corpos caídos em volta, respirando pesado — Você matou todos, acabou. — sua expressão denotava apreensão e um certo medo de si mesmo em relação a passar dos limites.
Minutos depois, o piloto do metrô foi obrigado a parar pela equipe de agentes que sinalizava com bastões de luz Led vermelha. Os homens adentraram no trem, encontrando o vagão onde estava Frank.
— Montgrow, hora de se juntar ao seu irmão. — disse um deles trazendo as algemas — E essas pessoas? O que aconteceu aqui?
— Demônios. Fica um cheiro de enxofre no ar depois que você os mata. Não tá sentindo?
— Não. — disse o agente, algemando-o.
— Ah é, privilégio do meu instinto especial de caçador. — disse Frank vendo os pulsos serem presos.
***
Já era quase noite e a área da diretoria da Alcatraz parecia alheia a algazarra na ala carcerária. Frank recebera seu uniforme laranja e após vestir-se foi condição por um guarda a sua cela. Contudo, ao passarem por um corredor, bastante próximos de uma cela a direita, um detento pegara a cabeça e a batia contra as grades, detento este parasitado pelo verme cinzento. O guarda atirou seis vezes, derrubando-o.
— Você tá bem?
— Tô, só meio... tonto. Sabe dizer em que cela tá um cara chamado Fred?
Antes que o guarda respondesse, três detentos infectados surgiam dobrando do corredor de onde vieram e correram até eles ensandecidos. O guarda avançou e disparou, mas fora abocanhado por um deles. Os outros dois alvejaram Frank que desesperadamente tentava romper as algemas no máximo de sua força.
— Vai... — disse ele, forçando no limite, seu rosto vermelho e as veias da testa saltadas. Enfim, o elo das algemas quebrou-se, bem quando os parasitados se aproximaram. O detetive socou os dois fortemente, mas correu ao ver que seus punhos eram insuficientes. Pensando ter despistado-os, seguiu, ouvindo vozes alteradas mais adiante embaladas por tiros — O que é que tá havendo aqui? Rebelião de monstros?
Viu nas celas corpos horrivelmente mutilados.
— Aqueles eram detentos humanos... Deve ser alguma praga parasita.
Encontrou uma submetralhadora largada, chegando a se trombar com alguns parasitados e cuspindo balas contra eles mirando nas cabeças. Foi indo a procura de carcereiros ainda vivos, mas sentiu uma mão puxa-lo para trás. Frank virou quase apertado o gatilho.
CONTINUA...
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de:https://www.migalhas.com.br/quentes/277678/prisao-em-2--instancia-e-tema-polemico-com-muitas-idas-e-vindas
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