Frank - O Caçador #121: "Milagre do Nascimento"

 


— Cacete! Que susto você me deu, cara! Quase te faço virar peneira! 




— Pra chamar sua atenção foi o único jeito. — disse Fred — Frank, por que? Obviamente você não foi pego descuidado.




— Tá, confesso, tô aqui por livre e espontânea vontade pra te resgatar. Sabe por que? Não deixo ninguém pra trás, é a minha política!




— Não devia estar aqui, essa é a pior hora pra ser um prisioneiro dessa área. Foi mal te forçar aquela promessa, se te fez se sentir um covarde...




— Covarde? Me senti uma escória, o pior tipo de irmão e parceiro que alguém poderia ter! Pode apostar que eu não ia querer ver você arrependido e se culpando por me largar.




— Desculpa interromper a lavação de roupa suja, mas temos que nos apressar. — disse Lilith surgindo — Frank, que surpresa ver você chegando pra somar. Agora o time tá completo.




— Que surpresa digo eu! Se você veio pra resgatar o Fred, não tirou ele daqui logo ou ele não se teletransportou?




— Supressores em toda parte. A gente não sabe pra onde ir, tá tudo dominado pelos detentos que foram infectados.




— Infectados com o quê? Um parasita? 




— Ouvi de alguns guardas que é um tipo de verme saindo provavelmente das tubulações. Uma ninhada cheinha deles. Será que é um Ambroz?



— O Ambroz incuba seus filhotes na barriga dos hospedeiros e tem um período determinado. O que tá rolando aqui é uma coisa bem diferente e muito pior. Não é o único parasita sobrenatural que existe.




— E se for uma outra espécie? — especulou Fred.




— Pra mim é um cara novo, algo que nunca encaramos. Tudo que sei é que acertando os infectados na cabeça, eles capotam.




— Olá, ainda estou aqui, caso não tenham percebido! — disse Lilith, aborrecida em ficar sobrando — Achei uma sala onde podemos nos refugiar, por enquanto.




— Nós temos que achar uma saída, esse lugar vai vir abaixo com toda essa carnificina desenfreada! — contrariou Fred.




Nesse instante, filetes de sangue escorriam das pernas de Lilith.




— Acho que agora apareceu um bom motivo pra nos trancarmos lá. — disse a demônia que olhou para as pernas, o sangue gotejando no piso.




— Esqueceu o absorvente? — indagou Frank.




— Idiota, não é isso. — disse Lilith que queria formar um sorriso — Eu... vou dar à luz.



Fred ficara surpreso e tenso ao mesmo tempo. O trio se direcionou a tal sala que se assemelhava a um depósito de armas. Frank trancara a porta e pegara um kit de munições. Com o auxílio de Fred, Lilith sentava-se no chão encostando na parede quase deitada.




— Nada confortável pra uma grávida ter seu bebê. — disse ela, reclamando do chão. Soprava sentindo as contrações intensificarem.




— Continua assim, respira fundo e solta o ar bem devagar. — disse Fred acalmando-a — Abra bem as pernas. Eu serei o parteiro e o Frank o nosso sentinela.




A barriga de Lilith emitia um brilho fosforescente amarelo tremulando.




— É ele... O híbrido. Ele vem primeiro. — disse ela, arfando. Fred tomou serenidade no semblante, ansioso com a chegada do filho.




— Imponha mais força, não deve ser tão difícil pra você.




— Acredite, é mais do que difícil. Ele é muito forte... tá irradiando uma energia poderosa demais pra um demônio como eu suportar. Isso significa...




— Que existe a chance de você morrer nesse parto. — completou Frank destravando a arma. Fred o olhou aflito e voltou-se a Lilith.




— Torça pra que ao menos ele sobreviva. — disse Lilith, esforçando-se.




— Eu torço pra que os dois morram. — disparou Frank sem filtro. 



— Cala essa boca, Frank! Qual é? É meu filho!




— Espero que o outro nasça bem, esse sim vale a pena criar. — afirmou Frank.




— Você tá se ouvindo? Não disse pra mim uma vez que conheceu um filho meio humano e meio sobrenatural? Deixaria ele morrer junto à mãe?




— Ele tinha um lado humano, pelo menos. Seu filhote de cruz-credo tem dois lados opostos também, mas nenhuma humanidade, ele não vai ser como você! — argumentou Frank, ferrenho. 




— Não dá ouvidos a ele, se concentra em mim. — disse Lilith tocando no rosto de Fred — Eu te amo.




O nefilim a olhou fundo nos olhos.




— Também te amo.




A porta sofreu uma batida violenta. Depois outra e mais outra... sucessivos baques.




— Parece que temos visitas. — disse Frank fitando a porta com um olhar selvagem se fúria. Largou a metralhadora — Que seja, vou resolver isso à moda antiga. — estralou os ossos dos dedos das mãos.




A tranca da porta foi arrombada com a última batida.



A tranca da porta de ferro foi arrombada com a força descomunal dos vários infectados que tentavam incansavelmente adentrar no recinto sentindo o cheiro de presas suculentas e inescapáveis. Frank usou seu corpo como barreira para impedir a porta de ser aberta pela horda de parasitados, forçando seu ombro esquerdo no máximo que lhe cabia, as mãos dos selvagens na tentativa insana de atravessar.




— E eu achando que você ia com tudo pra cima deles! — reclamou Fred.




— Não tenho ideia de quantos são, mas não ia dar pra empurrar todos com vocês ainda nessa peleja! — retrucou Frank cerrando os dentes e fechando os olhos ao elevar seu esforço.




— Era mais fácil você empurra-los do que a Lilith empurrar o bebê. — disse Fred verificando se o bebê estava próximo de ser parido.




— Você é um péssimo parteiro, sabia? — insultou Lilith empreendendo mais força — Não se desencoraja uma grávida durante o momento mais crucial! Aaaaaahh!




— Fala menos e grita mais! Você é forte, consegue retira-lo, eu sei que consegue! — dizia Fred tentando motiva-la — Melhorou agora?




Frank sentia o ombro doer a medida que sua barreira corporal se mostrava ineficiente. 



— Não aguento mais... Fred, como é que tá aí? 




O nefilim conferiu, logo sorrindo levemente.




— Eu tô vendo... Vejo a cabeça dele! Lilith, mais força, ele tá vindo!




A demônia impôs mais de sua força ao ápice soltando um intenso grito que ecoou vibrante, logo dando lugar ao choro do bebê que finalmente vinha ao mundo nos braços do pai.




— Ele chegou... — disse Fred olhando-o emocionado, os olhos marejando. O recém-nascido emitia o brilho dourado, reluzindo como ouro. Frank desviou o foco para o nascimento da criança, consequentemente perdendo na disputa contra os parasitados que entravam alvoroçados — Frank, a porta! Cuidado!




O detetive soltou um urro de fúria contra aos inimigos carniceiros, usando do porte atlético e robusto de seu corpo para expulsa-los com os braços abertos e os punhos fechados. Empurro-os para fora como um touro indomável. Os socava pesadamente, dando também cotoveladas, mas principalmente arrancava seus corações e quebrava seus pescoços. Dois caíram de boca sobre ele mordendo suas costas, porém ele os pegou pelas cabeças e os jogou ao chão a sua frente. Pisou sobre a cabeça de um deles enquanto o outro levantou-se para tascar uma mordida fatal, mas o detetive batera com a cabeça dele na parede inúmeras vezes ao mesmo tempo que exercia mais intensidade na pisada na cabeça do outro parasitado que se debatia. As bateções foram tantas e de tamanha brutalidade que provocou um rombo na parede manchado de sangue.



Frank quebrara o pescoço do parasitado que foi batido contra a parede simultaneamente ao seu ato de esmagar a cabeça do outro deitado, espalhando sangue e pedaços de cérebro e ossos da caixa craniana. O detetive voltou depressa a sala limpando no chão o sangue na sola do tênis.




— Arrebentaram com a porta, hora de procurar a saída desse inferno.




— Olha pra ele, Frank. — disse Fred, em êxtase, com o filho no colo mostrando para o irmão — Você viu que ele brilhou, não foi?




— Sim, eu vi... Mas o que você quer que eu pense? Só porque ele saiu brilhando que nem uma lamparina isso indica que ele no futuro seja um garoto altruísta e exemplar? Tem tudo pra impedir que isso aconteça, a começar pela mãe dele. — criticou Frank gerando mal-estar.




— Eu quero focar no agora e agora eu tô comemorando o nascimento do meu filho. — rebateu Fred, severo — Para de ser tão inflexível, é injusto ficar de implicância com um bebê que acabou de nascer, independente de não ser humano. Não pode ficar feliz por mim?




Frank sentiu-se confrontado por um motivo plausível, revendo sua postura de como lidava com a existência da prole entre um nefilim e um demônio. Uma ponta de culpa o espetou.




— Tudo bem, eu... tô orgulhoso de você em ser pai pela segunda vez. Parabéns, você merecia. — disse Frank tocando-o no ombro — Mas e o outro? Não vai nascer agora?



— Dante. — disse Lilith sentindo-se um tanto fraca.




— O quê? — indagou Frank, franzindo a testa.




— O nome dele... é Dante. — respondeu Lilith fixando os olhos no rebento — Fred, dá ele aqui.




O nefilim entregara o pequeno Dante nas mãos da mãe que o acalentava chiando pedindo que fizesse menos barulho.




— Dante, é? E o outro vai se chamar como? Virgílio? — sugeriu Frank, sarcástico.




— Faça piadas o quanto quiser, Frank. — disse Lilith sendo ajudada a levantar — Daqui pra frente, você terá aturar sua extraordinária cunhada sendo parte da árvore genealógica da sua família.




— Apodrecendo a árvore, isso sim. — redarguiu Frank.




— Essa árvore já nasceu podre desde o seu ancestral, a máquina mortífera pré-histórica. Eu posso ter estado aqui me recompondo do parto, mas sei que você adorou o que acabou de fazer aí fora, não minta pra si mesmo... Esse instinto tá te deixando louco por matar. Eu sei como é, eu sinto isso o tempo todo desde que apunhalei meu primeiro amor e fui expulsa do Éden.




— Para de me atiçar, sua vadia, não me testa senão teu filho vai viver desmamado.



— Não comecem uma discussão, vão fazer o Dante chorar e isso vai atrair mais dos infectados! — disse Fred que mal notaria um verme cinzento sair de um cano acima dele prestes a cair — Temos que nos unir e pensar num plano de escapar. Eu não consigo me teletransportar direito por conta da minha instabilidade e dos supressores.




— Vai você com ela e o bebê, eu fico pra caçar a coisa que começou essa algazarra, tenho munição de sobra. — definiu Frank parecendo irredutível.




— E você acha que destruindo esse monstro, esteja onde ele estiver, vai minimizar os danos e as perdas? Isso é o instinto falando por você, a voz do Orion na sua mente, não escuta ele.




— Deixa ele ir, priorize a vida do seu filho. — disse Lilith favorável à ideia.




— Espera, não sente mais contrações, nem nada? O outro bebê não vai nascer agora? — questionou Fred.




— Ao que parece, não. Mas a qualquer momento, nunca se sabe.




— Ele ainda tá vivo? Será que o Dante não estrangulou ele com o cordão umbilical? — disse Frank insistindo em zombar.




— Ele tá vivo sim, consigo ouvir o coraçãozinho dele batendo... só esperando o grande momento. — disse Fred com sua audição sobre-humana de nefilim.



Frank percebera o verme caindo sobre Fred, se deslocando direto para o ouvido esquerdo dele e se introduzindo.




— Fred, cuidado! — disse o detetive, embora fosse tarde demais. Sem querer, Fred, aos gritos, empurrou Lilith com o bebê atordoado pelo verme que se enfiava no seu ouvido. Tentou tira-lo à força, mas a criatura nematoide parecia se igualar a ele na persistência. O nefilim arregalou de repente os olhos, tendo visões provenientes do contato da boca do verme com seu cérebro, imagens de vislumbres do ser que residia nas tubulações e originou a ninhada parasitária.




Frank pegara o verme pela ponta e o arrancou do ouvido de Fred de uma vez. Com a criatura rastejante no chão se debatendo feito peixe fora d'água, o detetive pisou impiedosamente nele.




— É essa coisa nojenta que tá causando o surto. — disse Frank que deu uma cuspida, enojado — Parece uma cruza de sanguessuga com piolho de cobra. Ei, Fred, tá tudo bem?




— O que foi? Você tá meio fora do ar. — disse Lilith tentando acalmar o bebê que chorava — Esse verme... me é familiar, mais do que eu gostaria que fosse.




— Que doideira, eu vi... imagens de um monstro, ele é peso-pesado, deve ter quase dois metros... 




— É o Draucma. — informou Lilith, séria. 




— Pra você tá com essa cara... — disse Frank desconfiado — O que é esse tal de Draucma? Ele te assusta, né? Veio do submundo?



— Imagina uma criatura que se reproduz assexuadamente e despeja milhares de filhotes parasitas que transformam todas as vítimas em escravos com apetite canibal capazes de dizimar toda uma população, seja de humanos ou demônios. Não te assustaria também?




— Peraí, os vermes dele podem afetar demônios também? — perguntou Fred — Como sobreviveram com ele a solta no inferno?




— O Draucma é uma das mais antigas criaturas a habitar o submundo, nada escapava dele quando estava na fase reprodutiva. —  contou Lilith, seu bebê ainda chorando — Nem almas humanas, nem demônios, nenhuma criatura nativa era imune, exceto os Daevas pois chegaram primeiro. Foi preciso uma legião numerosa de demônios pra prendê-lo numa jaula através de um feitiço. Mas a libertação de Chernobog e todo o distúrbio que causou no submundo rompeu a jaula. Em pouco tempo ele vai se reproduzir de novo, mas nunca o faz num mesmo lugar, sendo assim acho difícil que ele continue abaixo de nós nessa altura.




— Acha que ele migrou pra outro lugar subterrâneo? Imagina se ele chega ao esgoto de Los Angeles... — disse Fred temendo o cenário.




— Isso é pura teoria, ele deve ainda estar aqui. — discordou Frank.




— Nossa, quantas evidências nós temos disso. — ironizou Lilith — Como é que faz pra calar a boca dessa coisinha fofa e irritante?




— Amamenta ele, deve estar fome. — sugeriu Fred — É o que as mães normais fazem.



— Ou é esse clima de desordem e selvageria que tá deixando ele inquieto. — apontou Frank que andou até a entrada — A gente tem que sair. Essa parte não vai continuar tranquila por mais tempo. Fred, vem comigo pras tubulações macetar o bicho escroto?




— Cuidado com as más influências, Fred. — alfinetou Lilith levantando uma sobrancelha com sorriso cínico.




— Olha quem fala. — rebateu Frank lançando um olhar raivoso para a demônia.




— Não, Fred, você fica do meu lado, somos família agora. — pedira ela aproximando-se.




— Frank é minha família também. — declarou Fred, categórico — Ele pode muito bem se virar sozinho nessa, mas escolho ir junto dele pro caso de alguma coisa grave acontecer, eu não vou ser o jogador número dois da luta. Os supressores muito provavelmente não alcançam lá embaixo, então posso servir de suporte com meu poder curativo, pelo menos.




— Mas você tá instável, não sabe se vai funcionar. — contra-argumentou a demônia.




— Eu posso tentar. — disse Fred dando por encerrada a discussão com rudeza e indo para perto de Frank — Mas onde vamos deixar os dois?



— No meio do caminho a gente encontra outro abrigo pra manter a mamãe tigre e o bebê sãos e salvos. — definira Frank — Pode rastrear a coisa de boas?




— O meu faro tá meio travado. Conto com o seu instinto. E aí? Dá pra se guiar ou não?




— É, tem razão. Mas quando ligo meu detector de monstros... — disse Frank, divagando um tanto apreensivo — Essa porcaria começa a querer assumir o controle e não me sinto mais como eu mesmo. Se eu me exceder, você tem que estar lá pra me parar porque senão... 




— Vira a máquina mortífera descontrolada. — completou Lilith — Confesso que gostaria de ver atingindo esse patamar. Você enlouqueceria, se tornaria uma ameaça pra mim, pro Fred e pro Dante e finalmente sumiria das nossas vidas.




— Dá um fecho nessa vagaba. A sorte dela é que eu não tô com a lâmina sacerdotal. — disse Frank baixinho para Fred, logo saindo do recinto. Fred pegara uma metralhadora carregada de uma das caixas.




— Você vem ou vai seguir sozinha e desprotegida porque tá de birra com o Frank?




— Se você vai, eu também vou, lógico. Mas fica esperto: a última coisa que eu quero é o Frank criando um muro entre nós dois.




— Até onde vai levar esse seu ciúme doentio?



— Depende. Se ele sair da linha comigo ou com você, juro que o mato. — ameaçou Lilith, estreitando os olhos.




— Eu duvido que você conseguiria. — disparou Fred a deixando zangada — Vamos logo.




O trio seguiu por alguns corredores naquela zona aparentemente intocada pela celeuma sanguinolenta. Ainda se podia ouvir gritos e tiros abafados a uma certa distância. O pequeno Dante não cessava o choro um minuto.




— Fred, já dei de mamar, já tentei ninar... Não sei mais o que faço, tô quase perdendo as estribeiras. — disse Lilith, farta de ouvir o choro.




— Toma esse bebê dela antes que ela surte e cometa uma barbárie. — antecipou Frank a esquerda de Fred — Podia ter se livrado dela quando teve a chance, cara.




— E adicionar outra uma mulher grávida morta na minha conta? De jeito nenhum, especialmente porque os filhos são meus. — respondeu o nefilim.




Três detentos parasitados vieram dobrando um corredor e voltaram-se para suas presas, emitindo grunhidos animalescos estando loucamente famintos.




— Merda... — disse Frank, apontando a arma. Fred também o fizera. Quando os três monstros correram até eles, a dupla apertou os gatilhos, mandando chuvas de balas acertando-os brutalmente na cabeça e no torso. O bebê chorava mais alto com o barulho dos tiros.




— Ele se assustou... — disse Lilith soando alfita.



— Tenta acalmar ele, você talvez não tenha feito direito! — mandou Fred em tom de reclamação.




— Fiz o melhor que pude até agora! Se eu pudesse me teletransportar, estaria naquela casa da floresta e ele pararia de chorar!




— Vocês dois parem, deixem a briguinha de casal quando estiverem a sós! — bradou Frank, severo — Todo esse arrastão de parasitas tá chegando até aqui e cada vez que avançarmos ficamos com menos tempo pra chegar no subsolo onde tá o Draucma.




— Se é que ele ainda está. — retrucou Lilith.




— Não custa dar uma olhada. — devolveu Frank.




— Custa pro Fred, mas você pouco se importa como ele pode sair disso, vivo ou morto, tanto faz.




— Agora vocês dois é que devem parar, chega! — esbravejou Fred apartando a discussão — O choro do Dante é um chamariz pra eles. Me dá ele aqui, Lilith. 




A demônia entregara o choroso bebê ao nefilim que o segurou cuidadosamente e o balançava com calma chiando com a boca. Dante foi se tranquilizando aos poucos, acalentado.




— Ele parece gostar mais de você e com razão. — disse Frank novamente alfinetando Lilith que revirou os olhos sentindo uma certa inveja.



Fred viu um pouco mais a frente uma porta cuja placa dizia "suprimentos de emergência".




— Ali. Lilith, fica com o Dante escondida nessa sala. — disse o nefilim se aproximando e verificou a maçaneta — Tá aberta. Não tem ninguém, posso sentir. Entra aí e espera por nós.




— E se ele voltar a chorar? — indagou a demônia recebendo de volta sua cria.




— Não vai, a maioria das salas tem isolamento acústico e... ele tá quase dormindo.




— Voltem logo. Não posso estripar e segurar uma criança ao mesmo tempo. 




— Vem, Fred. Eles vão ficar bem. — disse Frank indo na frente. O nefilim beijara a testa do filho e acompanhara o detetive. Ao longo do trajeto, a dupla se deparava com parasitados, fossem caçadores ou monstros, e os metralhava sem clemência antes que dessem um passo para atacar.




***




Em seu modesto apartamento, Natasha comia sorvete direto do proe andando até a sala e vendo uma reportagem do plantão de notícias acerca da fuga em massa de prisioneiros da Alcatraz. 





— Só mesmo algo de outro mundo pra causar uma falha de segurança nesse lugar. — comentou a caça-vampiros.



A campainha tocou, deixando-a com um pé atrás sobre a visita ser indesejável ou não. Estava usando apenas meias, logo seus passos foram silenciosos. Verificou pelo olho mágico e tivera um assomo de alívio. Abrira a porta.





— Visita surpresa. — disse Carrie sorrindo ao rever a amiga — Desculpa não ter dito nada. Te assustei?





— Um tiquinho só. — respondeu Natasha fazendo o sinal de pouco com os dedos e rindo junto da assistente — Tava morrendo de saudades. — ambas se abraçaram forte.





— Pode apostar que a minha tava a ponto de explodir meu coração. — disse Carrie, entrando e se espantando ao ver Miyako, cindo da cozinha, trajando um baby doll rosa — Miyako?! Será que posso entrar pra sua festa de pijama?





— Nossa, Carrie?! E-eu... realmente acreditei que nunca íamos nos reencontrar. Que bom que me enganei.





— Vem cá, minha japinha favorita. — disse Carrie indo abraçá-la — Não é fácil se livrar de mim. Pelo jeito, vai passar a noite aqui também?





— Na verdade, eu moro aqui. — revelou a caçadora. 



— Não é de se estranhar, vocês duas viraram quase irmãs de consideração e agora devem se unir mais do que nunca.





— Nem vem, Carrie, seu ciúme é indisfarçável. — brincou Natasha.





— Sou sua fã número um, mas não do tipo louca obsessiva. Podemos ter um relacionamento aberto. — disse Carrie dando uma risadinha com Miyako.





— Você aí de mala e cuia, quer vir se instalar também? — convidou Natasha — Sempre cabe mais uma, ainda mais se for pra rachar o aluguel. Comigo e a Miyako tem sido aquela dureza.





— Sei como é dividir despesa com colega de quarto. Talvez eu fique por um ou dois meses, sei lá... Todo esse clima de incertezas tem me deixado louca, fora tudo o que vem acontecendo com o Frank, o Fred, a Agnes... 





— Então você foi liberada? O barba azul te deu a carta de alforria? — indagou Natasha.



— Não sem um preço. — revelou Carrie — Mas quem pagou foi o Frank. Ele se entregou, mas não só por mim.





— Precisou o Sr. Montgrow se render pra que você fosse solta? Qual é daquele engomadinho? — questionou Miyako.





— Frank tentava voltar pra Los Angeles na intenção de ser preso pelo Fred ter sido capturado e faria disso uma missão quase impossível meio suicida de resgate.





— E aparentemente ele conseguiu. — disse Natasha voltada para a TV que ainda exibia o noticiário da fuga. Carrie assistia a cobertura jornalística com o coração apertado.





— Com todo esse cerco de helicópteros, não sei, não. — duvidou Miyako — Alguma coisa sinistra rolou pra tantos presos fugirem nesse número.





— Vamoz rezar pra que aqueles dois travessos estejam entre eles. — falou Carrie mantendo a fé.




Ao entrar no quarto de hóspedes do flat de Natasha, Carrie deixara as bagagens sobre a cama, na qual sabia que não dormiria tranquila com os pensamentos lijotados a como Frank e Fred teriam usado da autopreservação em meio a fuga generalizada na penitenciária. Tirou o casaco, mas percebeu um minúsculo objeto caindo de um bolso. O apanhou do chão, analisando-o. 



Um pequeno disco de metal que emitia um bipe baixinho com um ínfimo ponto vermelho piscando. "Aquele crápula safado...", pensou, correndo nervosa para o banheiro. Imediatamente levantou a tampa da privada e jogou o rastreador, dando descarga, mas assumindo que tal ato fosse ineficaz àquela altura. 





***




Enquanto isso, a Alcatraz continuava a fervilhar com o banho de sangue dominado pelas vítimas dos parasitas do Draucma que seguiam fazendo novas presas. Mas como se isso não bastasse, a energia elétrica de todo o complexo caíra.




— Cacete, era o que faltava! Devem ter ferrado com os transformadores. — disse Frank, furioso e alarmado — Cadê lanternas quando precisamos?




— Espera... — disse Fred fechando os olhos e concentrando energia. Reabriu os olhos, os quais brilhavam em azul celeste uma luz angelical. O nefilim ergueu de leve a mão direita com a qual emanou a luz clareando o corredor.




— Ah bom... Com o blecaute, sem supressores. — disse Frank olhando-o confiante e satisfeito.




— Só uma pena que vai ser um farol pros desgarrados. — disse Fred que correu com o meio-irmão em busca da via de acesso às tubulações — Não tenho mais munição, então me cobre. — largou a sub-metralhadora.




— Fechou. Fica na minha cola, lanterna azul.



Durante a procura árdua e sofrida, Lilith adentrava no banheiro da sala de suprimentos que antigamente se tratava de um local voltado a exames hospitalares para funcionários e também funcionava como escritório do chefe de medicina e enfermaria da Alcatraz. A ida ao banheiro não foi para excretar, mas para uma ação hedionda que a demônia cogitava fortemente segurando o pequeno Dante.




Parou diante do vaso sanitário, olhando nervosamente para o bebê adormecido.




— Fred, eu sinto muito. — disse ela que ligara a descarga. Em seguida, estendeu os braços com o bebê nas mãos sobre a privada — Mas acho que eu estava enganada... sobre esse papel. Um monstro jamais será amado como uma mãe.




Virou o rosto de olhos bem fechados, derramando lágrimas de sofrimento interno como talvez nunca tenha feito na sua miserável existência. Seu pranto se intensificou ao pensar na reação de Fred ao saber que o filho foi deixado cair no vaso e levado descarga abaixo.




— Não... Eu me odiar como mãe é um problema só meu... — se recompôs, limpando as lágrimas e voltando atrás — Descontar esse ódio em você seria... a pior coisa que eu já teria feito. Continua dormindo, o papai já volta.




Finalmente, Frank e Fred descobriam a entrada para o subterrâneo onde se situavam as tubulações. Frank abriu a escotilha de metal e se emburacou primeiro. Fred pulou dentro depois, quase caindo desequilibrado, sendo ajudado por detetive. A dupla percorreu o túnel de iluminação precária, cujo chão era quase que totalmente preenchido de poças d'água. O caminho levava a uma área meio aberta que mostrava uma bifurcação.



– Legal, adoro quando o túnel se divide em dois. — disse Frank contendo sua impaciência.




Mas de repente o detetive tomara um soco fortíssimo de um punho enorme que o arremessou contra a parede a esquerda feito um boneco.




— Frank! — chamou Fred que olhou a direita e se abaixou esquivando de um golpe do Draucma com as mãos juntas. O monstro de porte musculoso, pele cinzenta absurdamente enrugada como se fossem finíssimas dobras, mãos e pés descomunais, chifres grossos e grandes, além de uma face similar ao resultado dos parasitados, chutara Fred com o joelho. O nefilim caiu sobre a água nauseabunda. 




Frank se reergueu partindo para cima do Draucma saltando para aplicar um chute de karatê, mas apenas virou o rosto da criatura e o fez recuar una poucos passos. 




— Duro na queda hein! Assim que eu gosto! — disse Frank que logo tornou a atacar com socos na barriga e no tórax do Draucma que resistia bem. Mas o monstro revidou a altura, fazendo discretamente uma garra afiada e retrátil sair de seu braço esquerdo como uma estaca e com ela desferir um corte diagonal no corpo de Frank que teve sangue seu derramado na água. O Draucma rapidamente fincou sua garra no meio da barriga do detetive que não se dera por vencido ao, no mesmo instante, agarrar a estaca com a mão esquerda e com a direita fechada parti-la ao meio e logo desenterrando a ponta da sua barriga e a fincando no peito da criatura e  igual profundidade. O Draucma rugiu em dor. 



Frank dera mais socos na criatura fragilizada, entre ganchos e cruzados, logo finalizando o round com um chute no abdômen que a jogou para uns três metros adiante. Fred levantava, assistindo quase boquiaberto a performance. O Draucma reerguera-se furioso, avançando com seis chifres frontais, mas Frank os agarrou e a partir disso torceu o pescoço até ouvir o som de ossos fraturando. A criatura caiu de bruços. Contudo, Frank também estava combalido.




— Frank, não! — disse Fred correndo e se agachando perto dele para pressionar a ferida — Fica comigo, aguenta firme... — deu uma olhadela para o Draucma — Você foi ótimo. Mas nem esse instinto que faz seu corpo de cinquenta parecer de vinte te impediu de tomar essa bicuda.




— Cala a boca... Não fica com invejinha. — disse Frank sorrindo fraco — Tenta fazer milagre...




O nefilim fechara os olhos com suas mãos sobre o ferimento sangrento e usou de sua força interior para despertar o poder curativo. No entanto, nenhuma réstia de luz acendeu.




— Ah meu Deus... Não tá dando certo. Frank, eu...




— Continua! Você tá só instável, não tá bloqueado como na fazenda Romanov. — disse Frank, suportando ao máximo a dor lancinante.




Ainda que temendo pelo pior desfecho, Fred investiu numa tentativa nova. Frustrou-se.




— Não! — disse ele, deixando os ombros caírem, seu semblante triste e choroso — Frank, me desculpa, mas... eu não consigo. A Lilith tava certa, a minha instabilidade...



— Não concorda com aquela demônia desgraçada, ela não sabe a força que você tem! — disse Frank com fervor — A força que você pode usar pra passar por cima desse obstáculo.




Com o encorajamento motivador do irmão, Fred de deu uma última chance. Fechou os olhos, buscando acessar o poder nos recônditos mais profundos de sua alma sem imposições limitantes. Ao reabri-los, a luz retornava. Sob as palmas de suas mãos ela brilhou milagrosa. A ferida se fechava, desaparecendo.




Frank levantou da cintura para cima, revigorado.




— Obrigado, Fred. Pensei que dessa eu não ia passar. Esse bicho pode ser pesado, mas é ágil.




— Me obrigou a ir até o fundo do iceberg. Tem que ser espontâneo, de modo que eu fique numa espécie de transe, desconectado do mundo a minha volta... 




Frank não ouvia nada que Fred dissera pois via o Draucma levantar ameaçador, removendo a garra do peito e intencionando golpear o nefilim.




— Fred, atrás de você! — disse Frank que subitamente pulou sobre o irmão e chutara o rosto do Draucma. Fred resolveu ajudar agarrando o monstro por trás com uma força equiparável a de mil jiboias. Aproveitando a vantagem, Frank sorriu de canto e girou para aplicar um chute fatal que



decapitou o monstro.




A cabeça do Draucma quicava e rolava deixando um rastro de sangue. Ofegando, os dois caçadores deram as mãos, comemorando.




— Vencemos. — disse Fred.




— Por enquanto. — disse Frank, menos otimista — Nos leva de volta pra Lilith.




— Não vou garantir. — disse Fred tentando focar. Quando o teleporte ocorreu, porém, ambos surgiram no espaçoso banheiro de presidiários onde haviam parasitados ativos se alimentando.




— Fui tapado de acreditar que derrotando o Draucma os vermes morriam junto, tipo numa ligação neural. — disse Frank olhando com tensão para eles.




— Tentativa e erro, sem problema... Uma hora acerto! — disse Fred que novamente acionou o teletransporte em milissegundos antes que os carniceiros os pegassem com suas bocas sujas de sangue. A dupla chegara enfim a sala de suprimentos vendo Lilith com o bebê sentada numa cadeira — Aleluia. Ele não acordou, né?




— Dormindo como um urso na hibernação. Acharam o Draucma?



— Não só achamos como também demos cabo do verminoso. — informou Frank que olhou para sua camisa laranja de detento manchada — Ah é, depois de eu quase morrer e o Fred salvar minha vida. Me lembrou de quando você destroçou com o Malvus na catedral...




— Ah, não fala esse nome... É o diabo, esqueceu? O "você-sabe-quem" tá proibido de ser mencionado. Mas sim, me lembrou também. — disse Fred, desconfortável. Lilith ficou pensativa um instante — Vamos nessa? Frank...




O detetive tocou no ombro do nefilim, os três prontos para a esperada fuga e torcendo que fosse bem-sucedido.




— Fora da Alcatraz... fora da Alcatraz... — dizia Fred, ansioso, a concentração aprofundada.




Enfim o teletransporte surtiu o efeito desejado para o destino correto. Contudo, a arra externa da Alcatraz se encontrava num caos cacofônico com os helicópteros da ESP sobrevoando ao redor da ilha apontando fachos de luzes em todas as direções de onde haveria prisioneiros fugindo flagrantemente.




— Isso é o mais longe que dá pra nos levar? — indagou Frank, aturdido.




— Eu disse fora da Alcatraz, não foi? 




— Podia ter sido mais específico! 



— E o resultado seria o mesmo! Eu tô quase no limite, a bateria tá esgotando! — berrava Fred tentando vencer os sons dos rotores. O bebê tornava a chorar devido a atmosfera caótica — Merda, e agora? O Dante acordou!




— Tenta mais uma vez! Tira a gente daqui! — disse Lilith, exasperada tentando acalmar o filho, seus cabelos pretos e o ondulados esvoaçando — Nos manda pra casa da floresta!




Porém, antes mesmo que Fred tomasse a iniciativa, um helicóptero da ESP pousava rapidamente a alguns metros defronte a eles. Hoeckler descia altivo da aeronave e se encaminhou até Frank e Fred correndo.




— Venham conosco! — exigiu ele.




— Ah não, tinha que ser... — disse Frank, sentindo que a presença de Hoeckler simbolizava o fim da linha — Não vamos a lugar nenhum com vocês e fim de papo!




— Então pretendem ficar e serem devorados vivos, seus idiotas? Agente Barnes, entregue a eles! — ordenou Hoeckler ao agente que jogou para a dupla as roupas habituais ensacadas num plástico.




— Qual é a tua, Hoeckler? Estamos livres ou não? — questionou Frank, ríspido.




— Não confundam as coisas, só entreguei suas roupas pra que fiquem encarcerados nas cadeias do bunker! Pelo menos enquanto a Alcatraz se recupera dos danos que sofreu!



— Não invadiram meu apartamento pra pegar minhas roupas, né? — suspeitou Fred.




— Você tinha esquecido essas ano passado! — contou Hoeckler — Depressa, não resta mais tempo pra ficarem expostos aqui, os detentos afetados pelo surto estão escapando também!




— Peraí, cadê a Lilith? — perguntou Frank virando-se e não vendo a demônia com o bebê atrás deles — Desgraçada, escapuliu com o menino!




— Ah não, não, não! — reclamou Fred que extravasou sua raiva jogando longe uma pedra do tamanho de uma mochila.




— Logo quando ela era nossa carona! — disse Frank revoltado com a atitude covarde. 




— Do que estão falando? Que menino? — indagou Hoeckler — Aquela que estava atrás de vocês era Lilith, o demônio que Fred escolheu como par perfeito?




— Era, mas a vagaba nos deixou quando podia ter nos tirado daqui! — respondeu Frank.




— Impressão minha ou... ela segurava um bebê? — desconfiou Hoeckler — Não pensem que não fiquei sabendo da gravidez dela tendo o Fred como genitor! Respondam e subam a bordo, estarão seguros no bunker!




— Acho que faz sentido ela fugir. — disse Fred ficando bem ao lado de Frank a esquerda — E tô com o Frank nessa: não iremos com vocês!



— Obrigado por devolver as roupas, parecem bem passadas! Liga pra Carrie e avisa que eu sobrevivi ao massacre dos parasitas zumbis!


Frank fora tocado no ombro por Fred que se teleportou com o irmão estando mais autoconfiante. Hoeckler tentou conter sua enervação.




— Ah, pode acreditar que iremos avisa-la, mas não do jeito convencional. — afirmou ele virando-se para os agentes — Força-tarefa extra de captura! — caminhou de volta ao helicóptero acompanhado dos soldados armados falando com uma equipe de agentes situada nas ruas ao tocar no comunicador preso ao ouvido — Frank acaba de ser declarado foragido novamente! Portanto, Carrie deve ser imediatamente apreendida, ambos não podem se cruzar sob nenhuma hipótese! Vamos, se movendo!




***




A dupla havia aparecido em milissegundos na casa de Pamela, a ex-esposa de Fred. Ambos surgiram no meio da sala de estar, ilumimada apenas luz da TV, quando Derek, noivo de Pamela, assistia a um jogo de basquete sentado no sofá maior. O homem afro-americano e de cabelo meio raspado os fitou de olhos arregalados, perplexo com o fenômeno, paralisado e incrédulo.




Pamela vinha da cozinha trazendo uma tigela de vidro contendo pipoca e se assombrou ao ver seu ex-marido e ex-cunhado ali parados. A tigela foi deixada cair com o susto, estilhaçando no chão.



— Ma-mas... Como vocês dois vieram parar aqui? Ah, lembrei, não precisa explicar, até porque não tem explicação pro que você é e nem do que é capaz de fazer, Fred. — disse ela os olhando com pasmo — Por que estão aqui?




— Estávamos fugindo da Alcatraz, se é pra resumir. — disse Frank.




Fred tentou justificar a causa.




— Pamela, desculpa por nós chegarmos assim, é que a situação por lá... 




— Tá a beira do colapso, eu sei, o jogo já foi interrompido umas mil vezes só com o noticiário avisando a população de toda a  Califórnia, não só a costeira. Estão temendo que esse exército de criminosos invada Los Angeles pra estourar uma guerra civil. — informou ela, preocupada — Ninguém sai de casa até segunda ordem, a polícia já passou aqui na rua dando o alerta.


— A coisa tá ganhando proporção mais rápido que incêndio em casa de palha. — disse Frank para o meio-irmão — Imagina aí: monstros mancomunados com bandidos e terroristas da pior estirpe tocando o terror nas ruas. Nem o exército americano segura esse pepino.




— Eu vejo como uma boa distração pra ESP, assim não corremos risco de perseguição. — avaliou Fred que virou-se pra Pamela — Podemos ir pro seu quarto nos trocarmos? Cadê o Donald?



— Sim, claro, fiquem à vontade. — permitiu Pamela varrendo os casos da tigela e a pipoca — O Donald tá jogando videogame no quarto dele.




Os irmãos se direcionaram ao corredor dos quartos.




— Ahn, Derek... Foi mal te assustar, cara, não fica traumatizado. — disse Fred dando um joinha.




— Aposto cinquenta pratas que os Lakers levam hoje. — disse Frank apontando para o jogo de basquete na TV. Derek voltou os olhos para a Pamela, não alterando a expressão de abalo emocional, acabando por gorfar a cerveja que tomava da garrafa. A dupla adentrou no quarto de Pamela sem acender as luzes, o que não era tão necessário já que a lua e a iluminação pública compensavam.




— Você viu a cara que aquele bundão do Derek ficou? — disse Fred, com ar de riso, tirando os sapatos e as calças laranjas — Teve um piripaque, espero que a Pamela tenha jogado água no rosto dele pra tira-lo do transe.




— Coitado, tava em estado de choque. Com aquela cara, deve ter se borrado todo nas calças. — reforçou Frank. Ambos se entreolharam e desataram a rir da reação do noivo de Pamela — Você não presta, cara. Se faz de amigo do maluco, depois tira sarro dele por trás. — comentou, ainda rindo, tirando a camisa. 




— É que eu ainda tô me acostumando com a substituição, meu casamento com a Pamela... não é totalmente página virada, não ainda. O Donald, ao menos, tá levando numa boa. Se ele estiver lidando bem com isso, como eu acho que tá, eu posso aprender a virar essa página. O nascimento do Dante deu um empurrãozinho.



— Falando nisso... — disse Frank sentando na lateral da cama calçando suas botas — Acha que a Lilith vai manter o filhote em segurança?




— Ela fugiu por medo da ESP arrancar o Dante dos braços dela. Eu também não permitiria. — disse Fred, reflexivo, pondo o cinto — Você não moveria um dedo pra impedir, né? Confessa.




— Por mais que me preocupe dele ser meio anjo e meio demônio cravando que ele é um perigo futuro... — disse Frank enfim vestindo o sobretudo preto de couro — ... consigo imaginar a equipe científica da ESP usando o pobrezinho como rato de laboratório. Isso, como pai, eu não ia permitir nem ferrando.

— Fico feliz em saber que o instinto do Orion não consumiu toda sua empatia com um ser sobrenatural indefeso. — disse Fred pondo o casaco preto por baixo da camisa verde escuro.




Sons de sirenes das viaturas da polícia de Los Angeles ficaram audíveis e aumentando. Frank foi até a janela, olhando meio escondido. Uma frota de viaturas passava veloz na rua, as sirenes piscando as luzes vermelhas.




— Arrisco dizer que as pragas saídas da Alcatraz já estão pintando e bordando por aqui.




— É um levante. — disse Fred — O banho de sangue agora será em nível estadual. Tá legal, eu tô pronto.



— Pronto pra quê? Não vai avisar pra Pamela que vamos passar a noite? Você nem parou pra ver seu primogênito.




— Em primeiro lugar: ela não vai deixar. Em segundo lugar: quero voltar pra casa da floresta. Só preciso de concentração máxima pra me transportar pro lugar certo.




— E se você falhar? Podemos, sei lá, acabar parando no meio do oceano ou no topo da Torre Eiffel. Ou pior: num banheiro feminino cheio.




— Me dá um voto de confiança nessa tentativa, vai. Desde o primeiro segundo que peguei o Dante no meu colo, eu não suporto a ideia de ficar longe dele por tanto tempo.




Frank demonstrou complacência com o irmão e o tocara na mão direta num aperto amigável.




— Manda ver. Se concentra.




Fred fechara os olhos, permitindo o poder fluir do âmago de sua alma para fora. O teletransporte ocorreu, mas novamente sem êxito desejado. Acabaram indo parar na sala de pesquisa do bunker da ESP.




— Puta merda, de novo! — disse Fred passando as mãos no rosto.




— Mas tinha que ser logo aqui?! Já é a segunda vez que você tenta chegar naquela casa e dá ruim! — disse Frank, a apreensão fervente.



— Frank, dá um tempo, não tô com cabeça pra ouvir sermão agora, me deixa. — disse Fred encostando de frente para a parede, batendo forte com sua cabeça sentindo-se inútil.




— Não tô brigando contigo, só acho muito estranho você focar num determinado lugar e não conseguir se transportar pra lá. A Lilith mexe com magia negra, deve ter enchido a casa de glifos místicos pra te impedir de estar com ela vendo que você tá instável e a saída pra curar isso é te afastando dela e do Dante.




— Ela não tem o direito de me distanciar do meu próprio filho, nem por esse motivo. — disse Fred batendo outra vez a testa na parede, mas pegando leve. O nefilim chorava, sendo amparado com Frank que tocava nos seus ombros — Não mereço esse castigo, Frank... Tem horas que... Dá vontade de parar de respirar até morrer. O Dante é a minha âncora, é ele que sustenta minha força de viver agora.




— Fica frio, ela não vai te afastar completamente, afinal resta a outra cria pra vir. — disse o detetive — É certo que ela vai querer você por perto pra ver o número dois nascer.


— Já não tenho mais tanta certeza. — disse Fred virando-se para o irmão enxugando as lágrimas e o nariz — E aí, como é que gente fica? Saímos de uma prisão pra cair em outra como o Hoeckler desejava.




— Pior que tem câmeras aqui, provavelmente já tem um punhado de homens de preto vindo pra cá armados até os dentes. — disse Frank, alarmando-se — Tem como você se teletransportar ainda, né? Diz que sim, cara...



— Frank, lamento. — disse Fred, baixando a cabeça em frustração — Minha energia já era. E mesmo do contrário, era arriscado outro erro.




— Merda... OK, ficamos aqui então. O jogo acabou pra nós. Mas não vou aceitar ser preso feito um dos monstros que eles pegam. Eles não podem conosco, temos força de sobra pra descer o sarrafo em meia dúzia deles, senão mais.




— Bem-vindo ao século XXI. Já ouviu falar em dardos tranquilizantes?




— Talvez afete você, mas a mim não. Se a força do Orion se ajustou a cada célula do meu corpo, nenhum sedativo de derrubar baleia pode comigo. — refletiu Frank, o que soou uma autoafirmação arrogante para Fred.




— Baixa essa bola. Você nem despertou o potencial total. Diria que você tá na metade da corrida. Mas a questão é: você quer cruzar a linha de chegada? Sabe que não será mais o mesmo Frank, né? O Frank detetive que eu conheci e passei a chamar de irmão.




— Eu já não sou o mesmo cara desde a hora que bebi o sangue do Orion. — declarou Frank olhando com um semblante meio triste para o irmão — Se eu chegar no limite, você... promete que vai investir toda a sua força pra me parar?




— Agora a promessa estúpida é com você? Não é do seu feitio. Não vou te matar caso vire um caçador insano, nem adianta me implorar.


— Como não tô afim de discutir, vou ligar pro Giuseppe pra saber da situação lá fora. — disse Frank pegando o celular e ligando para o amigo.



— Isso aí, bom garoto, eu também não tô nem um pouco afim de prolongar esse papo. — apoiou Fred andando devagar pela sala.




O comissário de polícia atendeu prontamente, mas num tom de voz alterado.




— Frank, é você? Hora ruim, amigo, muito ruim!




— Pelo que tô ouvindo ao fundo, é mesmo. As ruas já foram tomadas? Os fugitivos estão em Los Angeles?




— O centro de Los Angeles tá sendo atacado por um grupo rebelde que comemora a fuga dos prisioneiros! Estão transformando nossa viatura numa peneira, mas estamos inteiros!




— Me liga mais tarde pra dizer que tá tudo bem. Cuidado aí pra não tomar balaço na cara. Tchau. — disse Frank que logo encerrou a chamada — O crime organizado de Los Angeles se empolgou com a notícia da fuga da Alcatraz e começou uma guerra com a polícia. Tá o maior fogo cruzado no centro.




— E esqueceu de avisar que a tendência é piorar muito mais. — disse Fred sentando no sofá.




— Não precisa. O Giuseppe é de intuição afiada. Sabe que daqui pra frente... é só pra trás.

CONTINUA...

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