Correr pela floresta com aquela criança em seus braços havia exaurido a disposição de Lilith a uma medida que assustou a própria. Se sentia fisicamente limitada como se sua humanidade estivesse sendo devolvida gradualmente com o nascimento de Dante. Entrou as pressas na casa e balançava o bebê que iniciou uma nova sessão de choro.
— Shhh... Calma, meu amor, você tá longe do perigo, já passou, já passou.
— Nossa, é a voz da sanguinária, cruel e temível Lilith que ouço? — perguntou um demônio possuindo uma mulher jovem afro-americana de cabelo raspado na lateral. Ela vinha da cozinha junto de seu parceiro, um demônio que usava um homem caucasiano com barba por fazer e cabelo preto em topete.
— Eu tô realmente impressionado. Não sei se vou me acostumar com essa nova roupagem maternal e fofinha.
— Samara... Fergus... O que fazem aqui?
— Esperando você trazer o novo membro da família. — disse Samara aproximando.
— E fazer uma boquinha também lá dentro. — disse Fergus deitando no sofá pulando por trás — A sua geladeira esvaziou, a propósito.
— Desculpa virmos sem permissão, estávamos ansiosos. Não nos avisou pra onde ia, sabíamos que estava pra dar a luz. — disse Samara curiosa em ver Dante — Posso dar uma olhadinha nele?
Lilith mostrara o rosto do bebê já acalentado movendo suas mãozinhas.
— Que lindinho. A sua cara. — disse a demônia.
— Que nada, herdou mais traços do pai. Em todos os sentidos. — revelou Lilith acariciando-o.
— Você... ainda é a mesma Lilith, né? — indagou Samara meio desconfiada.
— Eu só disse aquilo pra ver se ele parava de chorar. Funcionou, por enquanto. O que posso fazer? É meu filho, tenho a obrigação moral de agir como uma mãe amorosa e cuidadora. Mas não se preocupem, depois que ele estiver mais crescidinho, volto a ser a má e velha Lilith.
— Qual o nome dele? — perguntou Samara.
— Dante. — respondeu Lilith o balançando levemente enquanto andava pela casa — O ser mais magnífico do universo.
— Se ele for tão poderoso quanto o pai, os demônios serão imbatíveis quando ele herdar o trono do inferno. — disse Fergus.
— Ele herdará certamente. — afirmou Lilith, categórica — O rei mais majestoso de todos. Ninguém está preparado pra ele.
— Impressão minha ou você entrou pela porta da frente? — questionou Samara.
— Estive na Alcatraz pra libertar o Fred. Há supressores de atividade paranormal. Acho que fiquei tempo demais lá, por isso não pude me teletransportar diretamente pra cá. — disse Lilith virando-se para a parceira — Ele dormiu. Mas onde o coloco? Não temos um berço.
— Não pode deixa-lo na cama? — sugeriu Fergus.
— Perigoso, ele pode rolar e cair. Samara, segura ele pra mim um instante? Tô sentindo a energia do Fred e a do irmão dele, o Frank, preciso esclarecer uma coisa a eles.
— O outro bebê já vai nascer? — quis saber Samara.
— A bolsa pode estourar a qualquer momento. Fica com o Dante enquanto vou até eles, não demoro.
— Pode deixar. — disse Samara tocando em Dante. Porém, a demônia subitamente afastou-se sentido uma ardência terrível que logo tornou-se uma combustão espontânea cujas chamas subiam pelo braço esquerdo dela.
— Não! Ah, não! — berrava Samara sacudindo o braço desesperadamente — Nããããooooo!
— Fergus, levando daí, faz alguma coisa! — bradou Lilith com o parceiro que estava rindo maldosamente e fazendo piada.
— Não, fica longe de mim! — recusou Samara afastando de Fergus — Não quer apagar! — dizia ela batendo com a outra mão nas chamas que de espalhavam pelo corpo — Aaaahhh!
Dante recomeçava o choro com os gritos e Lilith o balançava apreensiva com sua amiga.
— Abre a porta! Abre a porta! — pedia Samara, o rosto do receptáculo incendiando. Fergus abrira, deixando-a sair correndo floresta adentro como uma fogueira ambulante aos berros.
— Caramba, foi esse pirralho que fez isso? Olha, nem me pede pra segurar ele hein...
— Então trata de arranjar logo um berço! — bradou Lilith, explosiva. Fergus ficou parado, expressando medo com o poder mortal de Dante — Tá esperando o quê? Sai daqui!
O demônio sumira em milissegundos para roubar um berço. Lilith fazia mais esforço em tranquilizar o bebê que chorava alto após seu ato inconsciente e instintivo que era parte de seu mecanismo de defesa.
— É, parece que você não simpatiza muito com estranhos. — dizia ela que começou a refletir quanto aquela aparente fração do poder imensurável de Dante, preocupando-se com uma perspectiva de futuro.
***
Carrie contara as caçadores, na sala de jantar, acerca do micro-rastreador, inspirando uma drástica alteração nos planos.
— Grampearam você?! Olha, Carrie, não é querendo desmerecer seu talento investigativo, somos amigas, e você sabe que pode contar comigo pro que quiser e isso vale também pra umas críticas de vez em quando. — disse Natasha, aproximando-se.
— Não, pode rasgar o verbo, eu mereço tomar uma bronca por ferrar com nosso esconderijo. — disse Carrie sofrendo o peso da culpa na consciência.
— Até eu que não conheço você há tanto tempo fiquei surpresa de como isso te passou despercebido. — declarou Miyako sentada a mesa.
— Pois é, meu sensor falhou, estava com pressa de voltar a respirar o ar da superfície. Me perdoam? — perguntou, o semblante triste.
— Até as melhores mentes detetivescas cometem deslizes. — disse Natasha, flexível — Podia ter prestado mais atenção, mas entendemos que a urgência de abandonar aquele lugar dificultou bastante.
— Festa do pijama cancelada? — indagou Miyako.
— O que você acha? Melhor aprontar suas coisas, eu vou me trocar.
— Vocês tem uma rota de plano B, não tem? — perguntou Carrie, temerosa pela resposta.
— Se tivéssemos não ficaríamos a beira de uma crise nervosa sabendo que agentes da ESP podem estourar a porta a qualquer instante. — respondeu Miyako, contendo a tensão.
— Opa, fale por você. — disse Natasha pegando algumas coisas da geladeira — Eu tô plena, um exército de caras imitando a SWAT não me faz tremer um músculo.
— Cuidado com o que diz, tá minimizando a eficiência daqueles marmanjos. — apontou Carrie — Se já caçam um monte de bizarrices paranormais com facilidade, imagina "reles humanos" — fizeram as aspas com os dedos —, ainda mais com aqueles robôs assustadores como reforços.
— Acho que esses daí sim não devemos subestimar. — concordou a caça-vampiros fechando a geladeira — Não vem conosco?
— Eu fico. — decidiu a assistente firmemente — Antes eu do que vocês. Eu vou ficar bem, apesar de voltar pra masmorra do dragão.
As caçadores haviam se preparado o mais rápido possível para deixarem o refúgio para trás. Natasha usou uma arma disparadora que lançou uma linha de aço presa a uma garra que cravou no prédio à frente, a janela da cozinha sendo o ponto de partida para a tirolesa. Uma van preta da ESP parou freaindo alto, dela saindo alguns agentes. Carrie veio correndo avisa-las.
— Já estão vindo. Cuidado, as duas.
— Você também, Carrie. — disse Natasha tocando na mão dela — Separadas no mundo, mas no coração ligadas.
— Assim meu coração derrete, musa do rock. — disse Carrie, emotiva. A caca-vampiro logo pulou da janela e desceu a linha inclinada com tirolesa.
— Entramos em contato se encontrarmos o Sr. Montgrow e o Fred. Tchau, Carrie. — disse Miyako que a abraçou.
— Tchau, querida. Vai lá. — disse Carrie que logo a viu descer a tirolesa. Estremeceu ao ouvir a porta ser arrombada e foi correndo esconder no closet do quarto. Os homens fizeram a varredura por alguns minutos, acabando por acha-la — Olá... – falou com a luz da lanterna apontada a sua cara.
— Com quem mais estava? Obviamente não conseguiu um apartamento disponível em poucas horas numa cidade como essa. — disse o agente.
— Apenas eu, foi uma negociação rápida.
Um outro agente veio ao colega informar algo.
— A vistoria coletou duas amostras de DNA no ar. Parece que pertencem àquelas caçadoras, a japinha e a caça-vampiros.
Carrie fechou os olhos em frustração.
— Pra onde elas foram?
— Só falo quando tivermos voltado ao bunker. Peraí... Você não é aquele agente que me revistou hoje a tarde?
— O próprio. Você é feroz hein, me deixou um puta galo na cabeça. Parece que o jogo virou agora, né? Venha.
***
Enquanto isso, Agnes e sua sofreguidão com a doença perniciosa literalmente se arrastava para fora da cama a fim de alcançar o suporte onde estava o Necronomicon similar à um porta-partituras. A bruxa usava os cotovelos pois suas pernas já não mais respondiam a quase nenhum esforço. Sua visão se enturvava a cada centímetro de proximidade. Forçou-se a levantar segurando no suporte, mas acabou derrubando o grimório. O desmaio a abateu em seguida.
Lisbell e Tanya se esclareceram no quarto, tendo antes ambas ficado invisíveis para observar secretamente Agnes na espera paciente de que ela ficasse inconsciente.
— Finalmente. Aqui vamos nós, né? — disse Lisbell — Será que ela vai ficar brava e magoada a ponto de nunca nos perdoar.
— Ela irá nos agradecer, queira ou não. — disse Tanya andando a levanta-la e deixando-a para Lisbell segurar — Próxima fase: pegar o elemento crucial. Deixa comigo.
— Cuidado pra não faze-lo dormir pra sempre. — disse Lisbell pegando o grimório e o fechando — Sala de reuniões, certo? Te espero lá.
Na sala de pesquisa, os irmãos foram surpreendidos com a aparição de Lilith após a luz apagar por um segundo. Frank recuou uns passos ao vê-la bem na sua frente.
— Filha da... — disse o detetive — Não tenho nem mais nome pra te xingar, zerei a cota!
— Se quiser, te passo uma lista. — retrucou a demônia, o olhar e sorriso cínicos. Fred levantou do sofá de uma vez e a virou rudemente para ele tocando-a nos ombros com as duas mãos.
— Cadê o Dante? Deixou ele sozinho?!
— Relaxa, ele tá seguro na casa da floresta. Mas não sozinho. Tenho amigos meus de guardiões.
— Amigos seus... no caso, demônios, né? — indagou Frank — Quanta segurança.
— Eles são confiáveis pra mantê-lo salvaguardado como uma relíquia inestimável. E de certa forma, ele é sim. Desculpa ter fugido. Tive medo que aqueles miseráveis da tal fundação levassem meu bebê.
— É meu bebê também. — rebateu Fred.
— Mas não tive intenção de fugir pra também mante-lo longe de você, se é o que pensou, por mais que você precise disso pra equilibrar suas metades. — disse a demônia se justificando numa postura amena — E como você não alcançou o equilíbrio, me coloca num dilema.
— Não tem dilema nenhum, é um filho meu que acabou de nascer, não quero passar um longo tempo sem tocar nele. Não podemos compartilhar a guarda? Dia sim, dia não. Na ausência da Pamela, eu que cuidava do Donald. Trocava fralda, dava banho, fazia papinha... Me dá uma chance de vivenciar isso de novo com o Dante e com o próximo que vai sair.
— Por falar nisso... Ele tá chutando forte. — disse Lilith tocando na barriga meio cheia e se queixando de dores — Eu acho que... lá vem!
— Ah não... — disse Frank, preocupando-se — Fred, ela não pode dar à luz aqui. Pra começar, nem era pra estarmos aqui!
— Você acha que os hospitais agora têm vagas? Me ajuda a deitar ela no sofá, rápido. — pediu Fred, a aflição retornando para tortura-lo.
***
Já na ampla sala de reuniões, Agnes recobrava a consciência, a fraqueza corporal fazendo o reerguer da cabeça uma luta hercúlea.
— Onde estou? — perguntou ela olhando em volta, a visão embaçada enxergando dois custos ao seu lado direito e outro sentado a sua frente.
— Ela tá fraca demais pra se orientar... — disse Lisbell.
— Então vamos iniciar logo. — disse Tanya conferindo o feitiço no Necronomicon sobre a mesa — A morte dela é mais iminente nesse momento.
— O que está havendo? Onde estou? — questionava Agnes, grogue e lenta — Espera, mas... aqui é a sala de reuniões do conselho da fundação. Lisbell... Tanya... O que significa isso? — olhou para sua frente onde estava Zaratro desacordado e amarrado na cadeira — Não pode ser... Por que trouxeram ele? Suas idiotas...
— A idiotice aqui é sua. — disparou Lisbell — Descartar a própria vida numa fase crítica a que essa guerra tá chegando não é uma opção.
— A decisão não cabe a nenhuma de vocês... É minha vida, eu decido o que faço dela...
— Sair de cena como uma mártir quando mais precisamos de você? Sem essa. — retrucou Tanya — Pode soltar impropérios contra nós, agora é tarde pra voltarmos atrás. Queremos você viva e forte por nós e pelo mundo.
— Como aprendizes dedicadas, não vamos permitir que nossa mestra parta dessa forma tão humilhante. — afirmou Lisbell, convicta.
— Vocês não entendem... Estão cometendo um erro gravíssimo... — disse Agnes que tossira bastante — Minha morte se aproxima... Deixem seguir o curso natural...
Zaratro despertava aos poucos e sentiu uma dor excruciante no peito. Havia um ferimento a bala sangrando. Lisbell tratou de mostrar a arma carregada com bala anti-magia e atirou três vezes na barriga do bruxo que grunhiu alto.
— Pra garantir que você se comporte. Tanya, acho que é agora. — disse a bruxa ficando ao lado da companheira.
— Não... Não façam isso... Parem! — disse Agnes tentando se livrar das amarras que prendiam seus pulsos nos braços da cadeira.
— É o que estou imaginando que é? Que visão mais brilhante você nesse estado deplorável como punição por usufruir de algo que não lhe pertence. — disse Zaratro, sorrindo de canto com os dentes a mostra — Que pena sua devolução me privar de contemplar sua morte.
As duas bruxas recitavam o feitiço de transferência mágica especificado essências místicas que foram drenadas sem permissão. Uma fumaça preto-arroxeada parecia sair dos poros de Agnes que sofria espasmos análogos a uma convulsão a medida que a conjuração alcançava o apogeu. A dupla de bruxas elevava as vozes, o poder místico causando interferência elétrica nas lâmpadas que tremeluziam. A fumaça saiu mais depressa, direcionando-se a boca de Zaratro como um tornado em posição horizontal.
Ao fim do procedimento, Agnes baixou a cabeça rápido enquanto Zaratro recuperava sua aparência medonha com a pele embranquecendo tal como cal e as tatuagens místicas pretas se redesenhando nos braços.
— Transferência completa. — disse Tanya — Agnes... — disse ela indo até a bruxa para desamarra-la — Diga alguma coisa...
— Ela tá respirando? — indagou Lisbell que temia pelo feitiço resultar em óbito.
— Sim, só está desorientada. Agnes, fale conosco. — disse Tanya fazendo o rosto da bruxa voltar-se a ela e afastando mechas do cabelo preto e liso que cobriam a face.
— Garotas... Vocês vão se arrepender do que fizeram. — disse Agnes levantando da cadeira.
— Você está bem. — disse Lisbell, contente em vê-la restabelecida de saúde — As chagas no corpo... sumiram todas. Bem-vinda de volta.
— Não me papariquem. Merecia uma morte honrosa do jeito que eu decidi que fosse.
— Será que dá pra você mostrar nem que seja um pouquinho de gratidão? — disse Tanya franzindo a testa com a postura da amiga.
— A morte da qual salvamos você era tudo, menos honrosa. — contrapôs Lisbell — É indiscutível, você tinha que sobreviver. Já pode parar com a autopiedade, fica feio pra uma mulher britânica e elegante de quase cinquenta anos.
Agnes as olhava com certo remorso pela teimosia que desvalorizava seu mérito de vida.
— Ótimo, dou o braço a torcer, vocês venceram. Mas eu perdi. Voltei a ser a bruxa necronomiana padrão, estamos niveladas.
Zaratro se desprendeu das amarras agressivamente. As três bruxas se alarmaram e recuaram o encarando.
— O que acham de eu testa-las? Avaliação periódica. — disse Zaratro, seu manto com capuz cobrindo metade de seu rosto pálido — O que há? Não mereço também boas-vindas de retorno a minha antiga forma?
— Meninas, hora de mostrarmos a ele o que aprenderam em apenas alguns dias comigo usando do poder dele. — disse Agnes entre elas. O trio emanou energias místicas necronomianas das mãos formando esferas de sombras com uma centelha de luz púrpura. Tamanha era o poder manifestado que a sala tremia com as luzes explodindo em faíscas — Agora!
As três bruxas lançaram as esferas a partir de raios diretamente contra Zaratro. Instantaneamente, as esferas sombrias se unificaram ao serem mandadas contra o bruxo que segurou o ataque com as duas mãos e era empurrado arrastando os pés com a força empreendida e combinada. Notaram que Zaratro mitigava o poder, reduzindo vagarosamente a esfera de tamanho. O bruxo bateu suas palmas, esmagando a bola de magia, provocando uma onda de impacto avassaladora que as atingiu e jogou longe - Lisbell, por sinal, batendo as costas na parede.
O alarme de atividade paranormal soou barulhento e agoniante na base subterrânea. Na sala de pesquisa, Lilith sentiu as contrações diminuírem.
— Mas o que é que foi isso? Eu ouvi estrondo, as paredes tremeram! Sentiu, Fred? — disse Frank.
— Esse tremor veio de alguma parte do bunker, não é terremoto natural. — disse Fred que levantou Lilith — Tem certeza que foi alarme falso?
— Absoluta. Mas esse alarme aí certamente não é. Eu vou usar uma olhada, sinto de onde veio.
— Vamos com você. — ditou Frank.
— Não, fiquem aqui se não quiserem ser pegos e enquadrados. O que quer que tenha acontecido, vai servir pra distrair os soldadinhos. — determinou Lilith — É uma assinatura... de magia. E é necronomiana.
Um outro alarme, de conceito mais agravante, ressoava, este que Frank sabia bem qual.
— Ah meu Deus... Esse é o alarme de fuga de prisioneiros. — disse o detetive, aflito — Se foi magia necronomiana que disparou o primeiro... Puta merda, é o Zaratro!
— Tinha esquecido que mantinham esse cara numa cela especial. — disse Fred — Como ele deve ter sido solto? Até onde eu sei, a magia dele foi tirada pela Agnes, né?
— É o que vou descobrir. — disse Lilith que desapareceu num piscar de olhos.
— A gente não vai ficar aqui pra sermos os últimos a saberem, né? — questionou Frank.
— Tô com você e não abro. — disse Fred, disposto a arriscar uma saída.
A dupla percorria às pressas o labirinto de corredores.
— A sua bússola normalizou? — indagou Frank.
— A única coisa que não deu defeito. — respondeu Fred. Os irmãos não tardaram a se deparar com agentes caídos e mortos pelo caminho — Nossa... Ele passou por aqui feito um furacão.
— Passou o rodo em geral. — disse Frank olhando atemorizado para a trilha de cadáveres ensanguentados — Ele já deve ter metido o pé. Isso só indica que... ele pegou o grimório.
Alguns minutos de correria depois, chegavam a sala de reuniões. Agnes, Lisbell e Tanya ainda se encontravam fragilizadas pelo contra-ataque de Zaratro. Frank ajudou Lisbell enquanto Fred reerguia Tanya já que Agnes se recompunha primeiro, apoiada na mesa.
— Agnes, você tá curada? — indagou Frank — O que aconteceu aqui?
— Nós a curamos... — disse Lisbell — ... com um feitico de transferência pra devolver a magia do Zaratro.
— Então foi isso que libertou ele. — disse Fred — Beleza, adicionaram mais um inimigo no tabuleiro, parabéns às envolvidas.
— Não iríamos perder a Agnes pro que estava matando ela, a magia de Zaratro era nociva. — justificou Tanya engrossando o tom — Era um risco que estávamos dispostas a correr.
— Mas o Zaratro escapou com o livro de receitas de vocês e matou dúzias de agentes. — informou Fred.
— Não, ele não levou o grimório. — disse Agnes virando-se para eles — Enquanto restituía minhas forças depois de perdermos a luta, ouvi Zaratro conversando com alguém...
— Também ouvi, mas as vozes pareciam distantes, eu tava ainda meio zonza... — disse Lisbell.
— Uma voz feminina. — disse Tanya — Escutei claramente, mas me fingi de morta como Agnes.
— Lilith? — especulou Frank — Claro, sem dúvidas que era ela, disse que viria pra cá ver o que tava acontecendo.
— Mas pelo menos o grimório não foi levado pelo Zaratro, vocês continuam com a arma dele. — disse Fred.
— Eu quis dizer que não foi ele quem levou. — esclareceu Agnes olhando para as bruxas e os irmãos seriamente — Pelo que pude ouvir, ambos conversavam como se fosse uma negociata, tecnicamente um pacto pelo uso compartilhado do Necronomicon.
— A Lilith barganhou o Necronomicon... — disse Fred, um tanto chocado — Mas pelo quê? Por que ela faria um trato com um bruxo ligado ao Chernobog?
— Não importa, ela fez! — esbravejou Frank — Ela é um demônio e demônios louvam o patife do Chernobog! Eu pensava que você sabia somar dois mais dois.
— Jura que a Lilith nos traiu pra pegar o livro?
— Acorda, Fred. Ela abocanhou a oportunidade perfeita pra tomar posse do grimório original, esse era o plano-mestre dela. — disse Frank.
— No dia que a invocamos pra marca-la com a insígnia de bloqueio, notei um certo interesse dela pelo Necronomicon. — apontou Tanya.
— O que será que ela vai fazer? — questionava Fred, as mãos na cabeça, desesperado.
— Se eu puder adivinhar... — disse Agnes antecipando algo terrível — Com a parceria entre ela e Zaratro, o que vier a seguir pode ser... desastroso a uma escala sem precedentes. Só podemos esperar pelo pior.
***
Na casa da floresta, Lilith, acompanhada de Zaratro, fora até o seu quarto onde também se encontrava o berço de Dante no qual o bebê dormia profundamente. A demônia sentou-se na lateral da cama com as pernas cruzadas folheando o grimório rapidamente.
— Se isso é uma aliança promissora, devia me revelar que feitiço procura. — disse Zaratro que logo virou o rosto para o berço, interessado.
— Acha que não consigo ler as páginas ocultas? Tenho experiência com magia necronomiana desde antes de voltar a vida no submundo, mas nunca havia tocado no grimório original. Por sinal, foi um feitiço necronomiano que me reviveu. E é desse que preciso.
— Antepenúltima página. — contou o bruxo que se dirigia ao berço, curioso.
— Nem ouse encostar um dedo nele. — advertiu ela erguendo o olhar perigoso.
— Eu só ia vê-lo. Sua cria?
— É. — respondeu ela de má vontade — Nasceu hoje e com muita saúde, até demais.
O bruxo viu que o bebê acordara com sua presença espectral, abrindo os olhos e o fitando, não sentindo medo. Zaratro levara sua mão direita até o bebê que em resposta, brilhou seus olhos numa luz amarela, criando uma aura energética que fizera arder os dedos do bruxo. Zaratro recuou depressa, sacudindo a mão.
— Como queima!
— Por isso avisei pra não toca-lo. — disse Lilith ficando de pé sem tirar os olhos do livro aberto na página com o feitiço requerido — É uma versão ampliada da ressurreição de demônios. Mas gostaria de trazer uma única pessoa em particular.
— Impossível. — disse Zaratro ainda sofrendo com a queimação na mão — O feitiço não permite incluir nomes. Ele anula todas as mortes em conjunto.
— Então... — disse Lilith o olhando com certo nervosismo — OK, entendi. Bem, voltando aos meus velhos tempos outra vez.
A demônia começava o recitamento do feitiço em voz alta e latim arcaico. Como efeitos climáticos, o chão sofria um tremor moderado, ventania e nuvens carregadas e trovejantes se formavam acima da casa, os raios vermelhos iluminando a floresta. Após ser dita a última palavra, os fenômenos cessaram subitamente. Porém, a agitação levou Dante ao choro.
— Consumado. — disse Lilith fechando o grimório e o entregando a Zaratro — Ah não, esse som é a coisa mais estressante de ser mãe. — reclamou indo ao berço pega-lo.
— Nunca imaginei que um demônio pudesse expressar sentimentos parentais. Com quem você gerou essa abominação?
— Não é da sua conta. Agora saia, nosso acordo encerrou. — decretou Lilith, acalentando o filho e dispensando o bruxo.
— O mestre saberá da existência dessa criança. — disse Zaratro.
— Isso foi uma ameaça? — perguntou Lilith virando-se, mas o bruxo desaparecera — É, acho que sim. — baixou os olhos para o filho que amamentava — Como você é lindo, Dante. Tem os olhos do seu pai. Só uma pena que... a participação dele acabou muito cedo.
Enquanto isso, Miyako e Natasha prosseguiam na fuga tentando se manter o mais distante que podiam dos conflitos armada entre policiais e criminosos fugitivos pelas ruas escuras.
— Vai pela sombra, Miyako.
— Mas tá meio difícil de enxergar. Não podíamos roubar um carro?
— Um carro que pode ser rastreado caso o dono fique ciente do roubo. Aqui é a América, esqueceu? A maioria, senão todos, são rastreáveis. Sem falar nos alarmes.
— É, podemos ter o azar de fazer uma escolha ruim, a coisa mais fácil. Mas aqueles androides do Elton Hartley estão todos por aí rondando, eles tem um banco de dados sobre todo e qualquer caçador, vão nos identificar de cara.
— Eu sei, mas vamos continuar como estamos. Ao menor sinal deles, alteramos o trajeto.
— Trajeto pra onde? A Alcatraz?
De repente, ambas foram paradas por uma picape cujos faróis as intimidaram vindo má direção delas. Um homem negro, careca e robusto, tendo várias tatuagens tribais no braço esquerdo que se estendiam a metade do rosto, descera do veículo junto à amigos.
— Mãos onde eu possa ver! — bradou o corpulento homem, o líder do bando. Todos estavam equipados com metralhadoras apontadas a elas. A dupla ergueu as mãos.
— Quem são vocês? — indagou Miyako, tensa.
— As perguntas quem faz sou eu. — disse o líder aproximando-se — Vieram da Alcatraz?
— Estamos tentando não ir pra lá. — disse Natasha.
— Somos caçadoras. — disse Miyako — Acho que eu não devia ter dito isso...
— Por que não? É uma sorte encontrar duas belas mulheres do nosso ramo, coisa rara.
— O que querem de nós? Nos sequestrar e estuprar? — indagou Miyako, apreensiva — Sou faixa preta em cinco artes marciais, só um aviso.
— Miyako, espera... — disse Natasha reparando no braço direito do líder — Essa marca... É a insígnia da Insurgência. — olhou para ele pasma — Não acredito, nunca imaginei que houvesse uma filial em solo americano.
— Do que tá falando, Natasha? Me situa! Conhece esses caras? — queria saber Miyako, ansiosa.
— A Insurgência é uma fraternidade de caçadores que existe desde tempos imemoriais. — revelou Natasha, confiante — Ouvia sempre dizerem que haviam ramificações do grupo fora da Europa, mas achava que era lenda.
— Então podemos confiar neles? — indagou Miyako.
— Se quiserem viver. — disse o líder — Meu nome é Dynno.
— Natasha, prazer.
— Miyako Yamazaki.
— Uma herdeira do clã Yamazaki? Tiramos a sorte grande. — falou Dynno sorrindo para ela.
— Conhece minha família?!
— Os melhores caçadores da Terra do Sol Nascente. — elogiou Dynno — Venham conosco, temos um bunker a uns vinte quilômetros daqui. Depressa... — disse ele olhando para cima vendo luzes de um helicóptero virem — Vamos!
Ambas correram para a picape, ficando na carroceria cobertas por uma capa. O veículo saíra dali, não sendo pego pela luz da aeronave que passava na rua.
***
Frank transitava por uma terra desolada e de terra seca e infértil, rodeado por uma neblina densa procurando por Fred. Gritava o nome do irmão, sua voz grave ecoando naquele estranho e execrável mundo. Uma parte da névoa foi se dissipando e Frank pôde divisar a silhueta de um ser enorme e forte diante de alguém menor ajoelhado. O detetive avançou, vendo Fred acorrentado diante da sua versão maligna e monstruosa de nefilim. Frente a criatura estavam Pamela, Donald e Dante, ajoelhados também e prestes a serem esmagados.
— Não faz isso! Deixa eles em paz! — implorava Fred aos prantos — Eles significam tudo pra mim, são a minha razão de viver!
Pamela e Donald o encaravam com sorrisos e olhares tristes enquanto Dante apenas dormia enrolado num pano branco. O nefilim maligno baixou seu pé direito sobre Pamela que virou fumaça, depois Donald sofreu o golpe brutal.
— Nãããããooo! — berrou Fred altíssimo. O monstro pusera o pé sobre Dante — Ele não, o Dante não! Por favor, não faz isso, ele é só um bebê, acabou de nascer, pelo amor de Deus!
— Fred! — chamou Frank correndo até ele — Se liberta dessas correntes, você é mais do que capaz. Tá em pé de igualdade com essa coisa, acredita nisso!
— Não, Frank, não tô. Sou um inseto na frente dele e agora... ele vai destruir a última vida que dá sentido a minha.
— Você é fraco. — disse o nefilim horrendo — Não sente fúria.
— Ah, ele sente sim! — contrariou Frank que se agachou perto de Fred — Só que essa fúria deve ser usada para o bem. Sou seu irmão, Fred, tô aqui porque acredito na sua força. Você não é menor do que ele apenas por ser humano. O importante é o tamanho do que existe dentro de você... que é um poder imenso e divino. Se... eu não significo nada pra você, se ser meu irmão, mesmo pela metade, não dá sentido a sua vida... pode me mandar embora. Porque mesmo pela metade, você faz eu me sentir completo.
Fred voltou o olhar choroso para Frank tendo uma epifania. Quebrou as correntes dando um grito furioso e encarou seu lado obscuro. Dante desapareceu antes que fosse esmagado.
— Não vou deixar machucar ninguém que eu amo! — disse Fred que brilhou seus olhos e resplandeceu uma aura de luz azul que crescia absurdamente.
Ambos despertaram na sala onde as bruxas praticavam magia, um sentido atrás do outro em cadeiras.
— Essa foi a primeira e última vez que entro num sonho por hipnose. — disse Frank levantando.
— Está chorando... — reparou Agnes — Não conseguiu?
— Foi só a luz angelical dele... — disse Frank limpando a lágrima que escorria — ... que quase me cegou.
— Para de mentir. — disse Fred de pé frente a ele — Tava chorando sim que nem uma menininha.
Os irmãos caíram na risada e abraçaram-se gratos mutuamente.
— Valeu, Frank. Provou seu amor de irmão. Não que não tivesse feito isso antes.
— Salvou minha vida hoje. Estamos quites.
— Como se sente, Fred? — indagou Tanya.
— Balanceado, de corpo, alma e espírito. A gangorra se equilibrou.
— Pessoal, vejam. — disse Lisbell aumentando o volume da TV. Um plantão de notícias ao vivo mostrava uma multidão enfurecida indo em direção ao prédio da Globemax.
— Segundo órgãos de saúde, muitos relataram efeitos colaterais com o chip antiviral após poucos meses de utilização, motivando uma revolta popular contra Elton Hartley e antecipando uma possível repetição do trágico episódio de dezembro passado. — enunciava a repórter.
— Outra guerra civil. — disse Agnes.
— Na verdade, só uma entre várias ocorrendo pela cidade. — disse Hoeckler entrando — Agnes, amor, não sabe o quão feliz eu tô desse pesadelo ter acabado. — a abraçou e beijou.
— Mas Zaratro voltou a ativa mais forte, era disso que eu tinha medo.
— E se mancomunou com a Lilith. — disse Frank — Mas ela é o menor dos nossos problemas. Chernobog vai triturar esse povo e é bem mais que no ano passado. Hoeckler, tem que deixar eu e o Fred acabar com essa zorra.
— Conseguem estar em todos os lugares ao mesmo tempo? Grande parte dos bairros vem sendo assolada por bandidos e monstros da Alcatraz, mas...
— Mas o quê? — indagou Frank.
— O número de pontos de atividade paranormal excede ao que foi encarcerado. E continua subindo, minuto a minuto. — disse Hoeckler olhando no seu Ipad — Nossos radares vão colapsar detectando tantas assinaturas simultaneamente.
— Chega, hoje isso tem que acabar. — disse Fred, determinado — Equilibrei meus dois lados. Me sinto mais forte do que nunca. Posso aniquilar com o Chernobog... ou morrer tentando, mas preciso de uma chance.
— Certo. — concedeu Hoeckler — Mas ao terminarem... isto se terminarem... voltem pra cá e se rendam.
Frank assentiu junto a Fred.
— É uma troca justa. — disse o detetive.
***
Do alto de seu escritório na Globemax, Chernobog observava a rebelião dos cidadãos argelinos coléricos se avizinhar até o prédio. Na pele do magnata, tomaba um uísque caro num copo de vidro fazendo pouco caso da manifestação. Fora até o espelho e sorriu para seu reflexo - no caso, Hartley sem olhos pretos de demione.
— Os seus discípulos estão insatisfeitos. — disse Chernobog — Quer assumir o comando? Porque honestamente não tenho o menor interesse em abrandar toda essa revolta. Como será? Do meu jeito ou do seu?
— Da primeira vez mandei meus patrulheiros de aço controlar a situação, mas estava tão louco de sede por sangue que... autorizei força letal. — disse Hartley do outro lado — E isso piorou a minha imagem pra maioria dos humanos. Quer um conselho? Fuja. Deixe que destruam tudo o que construí com meu suado esforço. Não tenho mais nada a perder ligado a você.
— Por acaso quer se rebelar, Hartley?
— Eu quero minha vida de volta! — disse Hartley batendo no espelho — Tínhamos um pacto, você não respeitou os termos e agora vivemos essa maldita relação unilateral! Uma alternância, foi isso que propus! Mas você simplesmente cuspiu na minha cara, fez eu me sentir inferior!
— Mas você é, em síntese, um ser inferior. Olhe pro seu corpo. Se degradando a cada dia como se estivesse sendo comido pelos vermes. Então não se preocupe, logo retomará sua vida de regalias e luxos. Mas será que consegue aproveitar tudo antes de apodrecer e morrer?
— Não... Você não faria isso comigo. Se vai procurar outro corpo, restaura o meu ao normal. Eu sabia que não podia confiar em você, mas a tentação da minha natureza demoníaca me atraiu pra esse abismo. Quando eu voltar, todos vão saber que não passei de um bode expiatório!
— Se tiver tempo suficiente, quem sabe. — disse Chernobog sorrindo cinicamente.
— Seu cretino, canalha... Não vire as costas pra mim! — vociferou Hartley, o ódio pulsando.
Zaratro adentrava na sala para reportar sua descoberta.
— Bem-vindo de volta, meu caro aprendiz.
Uma pedra média foi arremessada atingindo a janela panorâmica do recinto.
— Alguma ideia do que fazer a respeito da insurreição, mestre? — perguntou Zaratro — Deseja que eu intervenha?
Chernobog dera um gole ardente da bebida.
— Não, não se exponha, por enquanto. Deixarei as criações do meu sócio brincarem um pouco com suas presas. — disse a entidade ativando um código de emergência pelo celular.
— Mestre, tenho uma séria notícia a partilhar. Há um ser que supera quase que totalmente os poderes de um anjo ofanin vivendo entre nós. Irradia uma energia angelical e sombria ao mesmo tempo.
— Um nefilim? Nunca tive a benção de encontrar com um espécime desta raça tão temida.
— Diria que é muito além. Nefilins possuem uma essência humana como faceta, neste ser em questão não senti absolutamente nada parecido. É incomensurável, depois do senhor, é claro.
— E onde ele está?
— Ainda é um simples bebê. Mas representa perigo ao se aproximar.
— Perguntei onde ele está. — insistiu Chernobog, irritando-se.
— Numa casa em meio a uma floresta. Um demônio chamado Lilith é a mãe. Quanto ao pai... ela se omitiu.
— É um nefilim, sem dúvidas. Ache-o pra mim. Mas deixe que eu conduza o resto.
O BMW rasgava o asfalto das ruas tomadas pelo medo e intimidação. Fred foi permitido a dirigir como presente pela sua conquista. O detetive via pelo celular, através de um aplicativo desenvolvido pela ESP, sinais de atividade paranormal surgindo em peso em todo o território de Los Angeles.
— O que você tanto vê aí, Frank?
— É um aplicativo de radar, tá mostrando uma porrada de sinais paranormais na cidade. Los Angeles tá virando uma casa da Mãe Joana pra monstros. Não param de aparecer. O meu sensor de caçador também tá tinindo.
— O instinto tá te induzindo a caçar com todas essas aparições por aí?
— Tá, mas seguro a onda até chegarmos na Globemax. A propósito, um teletransporte seria mais econômico pro meu carrão aqui, né?
— Gasta mais nível de energia do que litros de gasolina, vai por mim. Tô sentindo uma atmosfera pesada, muito ruim, é como se... o mal fosse onipresente e não tô falando só do Chernobog. — disse Fred acelerando — Você viu a situação nas ruas, é guerra em toda parte. Los Angeles pode ser sitiada a qualquer momento.
— É um sinal de que a coisa azedou de vez. — disse Frank, apreensivo — O apocalipse do Chernobog chegou no ápice, o céu vai desabar nas nossas cabeças!
— Frank, escuta: se for nossa última caçada, só queria dizer que... foi um enorme prazer ser seu irmão, aprender e evoluir com você nesse tempo que passamos juntos como uma família. Eu te amo. Cuida de um dos meus filhos pra mim, se a Lilith deixar, caso eu perca essa batalha.
— Não diz isso agora. Não diz mais isso nunca. A gente vence essa parada. De nada adianta eu ter fé no seu poder se você não tiver.
— Frank tem razão. — disse Adrael surgindo inesperadamente no banco de trás. Com o susto, Fred quase perdeu o controle da direção, o carro ziguezagueando.
— Adrael, quer matar nós do coração?! — reclamou Frank.
— Me desculpem, mas preciso repassar um aviso urgente. Aonde vão?
— Globemax. Tem uma arruaça rolando por lá agora e a gente tá indo enfiar a cabeça do Chernobog no traseiro dele. Fred tá equilibrado pra isso.
— Eu receio que a situação fique ainda mais crítica. Uma distorção dimensional ocorreu abrindo frestas neste mundo.
— Frestas de onde? — indagou Fred.
— Do Limbo. — respondeu o anjo.
— Talvez isso explique a louca no radar. — disse Frank — Chernobog trouxe os monstros do Limbo pra cá, será?
— Não, sinto energias familiares. — contou Adrael soando tenso — Querubins. Os mortos voltaram a vida. O Grande Mal faria isso sem restrições, mas num receptáculo ideal.
— Hartley não é a roupa que cai bem nele? Então de que outro jeito se revive um condenado ao Limbo? — questionou Frank.
— Bruxaria. — disse Adrael o olhando.
Os irmãos se entreolharam atônitos.
— Zaratro? — indagou Fred.
— Ou a vadia. — disse Frak referindo-se a Lilith.
O carro foi acertado na lateral direita numa batida intensa e violenta, fazendo-o capotar várias vezes e ficar de ponta à cabeça.
— Frank... Tá tudo bem? — perguntou Fred, os caquinhos do vidro caindo ao seu lado.
— Minha cabeça tá dando voltas, mas tô legal. — disse Frank ferido na cabeça e sangrando.
— Não consigo tirar o cinto de segurança... — disse Fred, afoito — Cadê o Adrael?
— Se mandou. Temos que sair... — disse Frank vendo patas caninas de pelo negro rodeando. A cabeça de um lobisomem se enfiou no carro tentando morder Frank. O detetive socara-o no focinho, repelindo-o. Ambos quebraram as portas do veículo, saindo depressa.
— Lobisomens... E nem é lua cheia. — disse Fred.
— Se voltaram do Limbo, acho que não voltam à forma humana pois morreram transformados. — especulou Frank sacando uma arma — Fred, vai direto pra lá, eu fico de macetar esses pulguentos!
— Nem pensar, tenho balas de prata comigo e vou usa-las aqui e agora. Quatro contra um é covardia. — disse Fred destravando sua pistola.
— Eu já valho por dez, tenho a merda do instinto!
— Não é desculpa pra recusar minha ajuda!
Um dos lobos avançara contra Frank, porém ele se deteve olhando para o lado. Os demais sentiram os pelos arrepiarem com algo vindo do céu e que os amedrontou ao ponto de afugentarem-os como cães assustados.
— Ué, caíram fora... — estranhou Frank.
— Frank... olha ali. — disse Fred apontando para uma bola de luz azul que se aproximava no céu.
— Estrela cadente?
— Antes fosse! Se abaixa!
O meteoro de fogo azul veio na direção deles, caindo com explosiva impacto atrás deles. Após a fumaça da explosão se dissipar, uma figura desagradavelmente familiar emergia da cratera enquanto eles levantavam. As asas do indivíduo se recolhiam devagar, o fogo atenuando.
— Tá me tirando... — disse Frank vendo a forma esguia do anjo caído que levitava com os olhos fumegantes.
— Não pode ser... — disse Fred, embasbacado — Ele não.
— Ah, Fred... Eu sim. — dissera Malvus que voou hiperveloz contra eles, primeiro jogando Frank contra o carro virado e depois pegando Fred pelo pescoço. O anjo voltará como havia morrido: o peito nu com três pequenos orifícios e apenas de calças e botas — Feliz em me rever, velho amigo?
— Vai se ferrar. — disse o nefilim a voz forçada pelo estrangulamento — Se eu fosse você, não mexeria comigo e nem com o Frank, péssima época pra você voltar dos mortos, Malvus.
— Me dê só uma razão pra não terminar o que comecei naquela igreja. Onde paramos mesmo?
Frank atirou nas costas do querubim caído.
— Na parte em que você leva uma estocada tripla no peito!
— Frank, parece em ótima forma. Não no sentido físico exatamente. O que andou bebendo?
— Larga o Fred e vem descobrir aqui comigo. — disse Frank aproximando-se corajosamente.
Fred brilhou seus olhos, chutando Malvus que foi afastado mantendo os pés no chão alguns metros.
— Não tinha saída, era te matar ou ser morto! — disse Fred disposto a lutar.
— Eu nem guardo rancor por ter fincado aquele tridente em mim. — disse Malvus criando uma esfera de fogo azul na mão direita — Você matou meu cachorro! — vociferou, os olhos em chamas.
Antes que o querubim lançasse uma rajada sobre o nefilim, Lilith surgia bradando:
— Não! Não machuca ele. Fui eu, Malvus, eu te trouxe de volta, mas não pra se vingar.
— Quem é vivo sempre aparece. Agora quem esteve morto também. — disse o próprio diabo indo até a demônia — E quem seria você a essa altura pra me dizer o que fazer?
Lilith lançou un olhar de lamento para Fred.
— A mulher com quem você escolheu passar a eternidade reinando no inferno.
— Como é que é? Lilith, o que você tá dizendo? — disse Fred, franzindo a testa, contrariado.
— Fred e eu tivemos um filho. O nome dele é Dante. Mas... ele não tá em condições de me ajudar nos cuidados.
Fred balançava a cabeça em negação, chocado. Malvus chegou perto dela apertando-a pelo pescoço em fúria, mas amenizou até que a beijou na boca demoradamente.
— Tenho a posse do inferno, posso te transferir. — disse Lilith.
— Não muda o fato de ter me traído, ainda mais gerando um filho. Como ele é?
— Extraordinário. — respondeu ela, serena.
— Se acredita que Fred não é apto por sua... instabilidade emocional... — disse Malvus olhando maldoso para o nefilim — ... então assumo este rebento. Se quer voltar a realeza, terá que cria-lo junto a mim.
— Não, Lilith! Por que? — esbravejou Fred.
— Pra facilitar sua busca! — disse Lilith.
— Eu já consegui! Equilibrei minhas metades...
— Tarde demais, eu estou aqui e ela aceitou meus termos. — disse Malvus — Espero que tenha aproveitado bem seu filhotinho, pois nunca mais o verá. Belo nome ele tem.
O querubim sumira com a demônia em milissegundos. Desolado, Fred mal conseguia respirar tamanha sua raiva.
— Eu sinto muito, Fred. — disse Frank, entristecido — Acho que devia... deixar pra lá. Aqueles dois bostas se merecem.
Fred virou-se ao irmão e o tocou no ombro.
— Eu não tô mais nem aí, quero que esse mundo exploda!
— Peraí, Fred, o que tá pensando em...
O nefilim teletransportou-se até o palco da guerra entre manifestantes e patrulheiros de aço que ainda incendiava brutalmente. Em maior número, os robôs metralhavam impiedosamente seus alvos, derramando sangue inocente.
A dupla apareceu no alto de uma encosta íngreme gramada numa área segura observndo o conflito. Fred foi descendo, os olhos brilhando.
— Frank, melhor fechar os olhos! A noite virará dia. — disse o nefilim emanando de todo seu corpo a luz azul majestosa. O detetive foi fechando aos poucos os olhos, os protegendo com os braços da claridade que se intensificava. Uma horda de demônios renascidos do Limbo viera correndo contra Fred, selvagens — Me tragam Chernobog! — falou com uma voz trovejante, sua aura de pura luz se expandindo e vaporizando todo e qualquer demônio que se aproximava a menos de dez metros. O exército de robôs se derretia com o calor daquela luz implacável que destruía tudo a volta, inclusive queimava os olhos dos sobreviventes.
— Ali está. — disse Chernobog, fascinado. A entidade se teletransportou para o campo de batalha ignorando os cidadãos gritando de dor. Foi se dirigindo à Fred que ainda tinha demônios ao redor desintegrando a todos — Fomos destinados um ao outro. Você a vida e eu a morte. Você a luz e eu as trevas.
— Pronto pra sentir toda a extensão do meu poder? — perguntou Fred.
— Como quiser. — disse Chernobog — Sei que fará a escolha certa.
Fred tocara-o no peito e a luz incidiu mais poderosa até criar um pilar que perfurou as nuvens. Frank foi reabrindo os olhos com o passar da claridade e correu até o irmão. Elton Hartley caiu sentado, assustado.
— O que tá esperando? Some daqui. — mandou Fred.
— Me fez um grandíssimo favor. — disse Hartley levantando — Mas o que fez a si mesmo... é loucura. Por que não o destruiu com todo aquele poder?
— Não preciso justificar minhas decisões pra você. Tô te dando uma chance de ficar vivo. Quer que eu mude de ideia?
Hartley correra ao ver Frank se aproximando.
— O que aconteceu, Fred? Pensei que tinha transformado o trevoso em poeira cósmica junto com o Hartley. Por que deixou ele vivo?
— Não matei nenhum dos dois.
— Se aquele era o Hartley fugindo que nem uma gazela... Cadê o Chernobog?
O nefilim parecia tranquilo ao olhar para o irmão exalando um sentimento de vitória.
— Aqui dentro. Tranquei e joguei a chave fora.
— Tem certeza? — indagou Frank, desconfiado.
— A mais absoluta que eu já tive.
— A Natasha me ligou enquanto você tratorava os demônios e os robôs. Ela disse que encontrou um grupo de caçadores membros de uma antiga irmandade, eles tem um bunker super-secreto aqui em Los Angeles. Já me passou a localização. Vamos nessa?
— Mas prometemos ao Hoeckler...
— Ele que se lasque! Nós somos caçadores, nascemos pra sermos livres. O nome desse grupo é Insurgência. Não acha que é sugestivo?
— Tá bom, eu tô dentro. Nada como fazer novos amigos. — concordou Fred que acompanhou Frank em meio ao cenário de devastação.
No apogeu daquela noite de verão na capital californiana, a temperatura decaiu bruscamente numa área onde situava-se uma linha férrea em desuso que logo foi tomada por um nevoeiro denso. A neblina de formação rápida bloqueou a visibilidade do lado em em que vinham os trens rumo à estação. Um opulento trem de aspecto semelhante a uma locomotiva datada dos anos 1920 irrompia da névoa sobrenatural, chocando um mendigo que dormia ali ao relento com alguns tijolos de concreto simulando travesseiros.
O pobre e velho homem olhou para sua garrafinha de conhaque pensando ser efeito do álcool a visão surreal. O trem parara fumaçando. Dele desembarcou um rapaz na faixa dos vinte anos que saiu olhando para os lados ansioso em explorar o mundo.
— Sinto que vou gostar daqui. O futuro deve ser...
Mas interrompeu-se ao sentir o peito sendo atravessado por trás. Baixou os olhos vendo mão pedregosa e ensanguentada segurando seu coração ainda pulsando. O jovem caiu de joelhos após aquela mão pesada e cruel sair, até que tombou de frente, morto. O assassino qie também fora passageiro do trem vestia um manto pardo esfarrapado que lhe cobria dos pés ao pescoço. Tinha uma lele constituída de pedra num tom próximo ao do carvão e algumas protuberâncias similares a chifres na cabeça.
Encarou sua vítima com frios e desdenhosos olhos vermelhos.
— Não há futuro pra você, meu jovem companheiro de viagem. — disse o indivíduo que atendia pelo nome de Nero — Mas posso claramente vislumbrar o meu. — olhou para frente sorrindo com confiança em relação ao motivo de ter vindo àquela época.
Mais tarde, Hartley se trancara no seu gabinete, ainda aterrorizado.
— Nunca vou querer medir forças com aquele cara.
— E conosco? — indagou uma voz do escuro. Um relâmpago com trovão iluminou Adrael com um grupo de serafins brilhando seus olhos. Hartley apenas os encarou sem resistir.
Depois, alguém caminhava entre os corpos dos angelinos e dos robôs derretidos. Parou. Tal homem usava botas pretas, calcas jeans escuras e casaco preto meio longo por cima de uma camisa cinza.
— Cadê você, pai? — se perguntou Nathan olhando paciente à sua volta.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://aminoapps.com/c/otaku_rpg/page/item/fogo-azul/avpe_qEc8Ixg2Q0wjvaB2eNnmw4p7kLaE
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