A chuva torrencial que caíra naquela manhã tornou penosa a viagem à casa da floresta por Frank e Fred, solicitados urgentemente por Lilith que ligara avisando que o segundo bebê estaria prestes a nascer sem sinais de um alarme falso - algo que Frank desconfiava veementemente.
A dupla correra embaixo da chuvarada até a casa de fachada modesta para uma residência localizada em meio a vegetação. Entraram invasivos, encharcados.
— Lilith! — chamou Fred – Frank, tô ouvindo ela gemer...
— Sera que não tá afogando o ganso com o Malvus e quer fazer seu chifre crescer mais?
Fred bufou de incômodo e se dirigiu ao quarto sendo seguido por Frank. Encontraram a demônia na cama, mas felizmente sem Malvus lhe fazendo companhia.
— Por que demoraram tanto? — indagou Lilith em posição semi-sentada com joelhos flexionados e pernas abertas, a respiração pesada com suor frio. O cobertor branco estava molhado de água da bolsa estourada.
— Não tá vendo esse toró caindo? Fora o trânsito que tava de enlouquecer. — respondeu Frank em tom ríspido.
— E o Dante, cadê ele? — indagou Fred indo até o berço — Ah que bom, aí tá ele.
— Não mexe nele, acabou de dormir. — disse Lilith sofrendo com as dores agudas.
— Ele tá acordado e... fazendo beicinho pra chorar. — disse o nefilim debruçado ao berço sorrindo de leve — Frank, pode segurar ele um instantinho?
— O quê? Eu segurar essa bombinha que pode explodir na minha mão? Melhor deixar ele aí.
— É o seu sobrinho. Anda, vem, pega.
— Veio pra ser útil ou só ficar assistindo eu sofrer? — perguntou Lilith.
— Te ver sofrendo nessa peleja é mais divertido que ser babá. — retrucou Frank com uma expressão sarcástica — E por que você tá sentindo dor? O bebê é humano... Não devia nem te fazer gemer.
— Realmente dói menos do que quando foi com o Dante, mas... não faz tanta diferença. — disse Lilith sentindo a dor intensificar — Fred!
Frank pegara Dante e o segurou enquanto Fred voltou-se a Lilith para realizar o parto.
— Pensei que Malvus tivesse levado ele embora com você daqui. — disse ele sentando-se na cama.
— E eu pensei que não viria por estar magoado. – confessou Lilith que lacrimejava — Me perdoa. Eu acreditava que você não iria alcançar o equilíbrio em pouco tempo depois do nascimento do Dante, o que me forçou... a reviver o Malvus pra preencher a lacuna.
— Sem pesar as consequências? — indagou Fred expressando sua chateação — Eu tinha todas as razões desse mundo pra deixar você aqui tendo esse bebê sozinha, mas não. Isso não prova que sou alguém melhor que ele?
— Agora é tarde. — lamentou a demônia — Malvus é controlador e vai querer a tutela sobre o Dante, não importa o que você diga.
— Nem se eu ameaçar mata-lo de novo?
— Se liga, Fred, ela não trouxe apenas o Malvus. Certamente toda a cambada de anjos caídos tá fazendo turismo em Los Angeles. Por isso o Adrael tava tão aflito. O mundo celestial deve tá passando o maior rebuliço com essa notícia.
— Usei um feitiço... que revive todos os monstros do Limbo... aquele bruxo disse que a mágica impedia trazer alguém específico. — disse Lilith — Fred, não tive escolha. Se fosse possível trazer somente o Malvus, eu o faria.
— Teve sim. — contrariou Fred, severo — Um pouco mais de paciência e estaríamos aqui nessa casa, como uma família, sem ninguém interferindo e ameaçando me afastar dos meus filhos pra sempre.
— Não tinha um pai postiço melhor, não? — perguntou Frank dando tapinhas leves nas costas de Dante — Opa, neném, que arroto hein.
— Em minha defesa, não tinha como eu saber que naquela altura você já estava a um passo do equilíbrio. — disse Lilith empurrando com mais força.
— Bastava você ter ignorado o Zaratro e voltado pra nós. — disse Fred — Mas deixou a sede de poder... ser mais forte que o nosso amor... se é que isso um dia existiu. Então não, Lilith, não há perdão pro que fez e ponto final.
— Se justifica mais e o Fred desiste desse parto. Continua, tô amando essa DR de vocês. — disse Frank — Se tivesse visto como ele ficou depois que viu você indo embora com o Malvus... Tava possesso, com vontade de destruir o mundo.
— Frank, sossega aí, dá um tempo. — pediu Fred focado em concluir o parto — Não vou desistir de ver meu filho nascer, ele não tem culpa das ambições venenosas da mãe dele.
Lilith derramava lágrimas abundantes, mais pela dureza e inflexibilidade com que Fred a tratava do que pelo parto em si. A demônia impunha mais de seu esforço para ejetar o bebê sob incentivo do nefilim. Dera um grito que foi sobrepujado pelo choro da criança nascida. Fred pegara-o, a emoção paternal retornando na mesma proporção que nas vezes anteriores.
— Seja muito bem-vindo. — disse Fred olhando para o bebê que chorava e logo foi entregue a Lilith enrolado num pano já sem cordão umbilical. Minutos depois, o nefilim trocava a fralda de Dante enquanto Lilith amamentava o segundo recém-nascido e Frank trazia os pacotes do carro após a chuva dar uma trégua.
— Essa é a última leva. — disse o detetive pondo a última caixa com pacotes de fralda empilhada — Acho que todo esse lote rende pra até uns... cinco meses, no máximo.
— Prontinho. — disse Fred terminando de trocar a fralda de Dante — Ah, gostou, foi?
— É a primeira vez... que o vejo sorrir assim. — disse Lilith, aparentando cansaço na face, embora satisfeita em ver o sorriso do filho — Ele se conectou com você.
— E podemos fortalecer essa conexão. — disse Fred tirando o bebê da cama e o segurando — Me deixa passar esse fim de semana com ele lá no novo bunker onde eu e o Frank nos instalamos com outros caçadores. Prometo que não saio de perto dele um segundo sequer.
— Não, só se passaram quatro dias desde que ele nasceu, ainda precisa de mim vinte e quatro horas por dia. — contrariou Lilith — E muito menos vou deixar levar o número dois. Nenhum deles pode respirar novos ares, por ora, não é seguro pra saúde.
— Até parece que aqui é um lugar super-protegido contra germes, doenças e acidentes. — disse Frank se aproximando da cama para olhar o bebê mais de perto.
— Pois é, olha isso aqui. O que são esses pontinhos vermelhos no Dante? — questionou Fred analisando o corpinho do filho.
— Picadas de pernilongos, nada demais. Tentei velas aromáticas pra espanta-los, mas não deu muito certo. — disse Lilith fechando seu seio com a camisola — Número dois acaba de dormir após sua primeira refeição.
— E o Dante parece não ter gostado muito da última dele. — disse Fred vendo que o bebê gorfou leite na sua camisa — Que feio, rapaz. Só por isso vai de volta pra sua toca, tá de castigo. — colocara-o no berço.
— Já decidiram um nome? — indagou Frank.
— A essa tarefa eu encarrego o seu meio-irmãozinho. — disse Lilith olhando para Fred.
— Logo eu que sou péssimo em nomear. — disse Fred tentando vasculhar na mente o nome ideal — Vamos ver... Que tal... Fred Junior?
— Ou Fred Montgrow Dois, mais criativo. — ironizou Frank.
— OK, Fred Junior. — decretou Lilith — Provisoriamente.
— Até ir no cartório e registrar, teremos pensado num nome definitivo. — disse Fred não tirando os olhos serenos do filho — Minha vez de segura-lo, né?
— Tá dormindo, vai acorda-lo. Pode vir dar um beijinho nele, se quiser.
O nefilim se aproximou devagar e inclinou-se, beijando a bochecha do filho que dormia profundamente. Observando, Frank tivera um pensamento que saiu das profundezas. O detetive se imaginou ali com Lucy celebrando o nascimento de Nathan num futuro onde constituiria uma família feliz sem mais nenhum grão de pedra envolvendo Nero que os impedisse de vivenciar uma vida plena. Não mentia para si mesmo quanto a inveja.
— Mas como fica a situação geral? — perguntou Frank — É o Malvus no pedaço. Ele não vai deixar vocês em paz nem por um dia.
— Falando no diabo... — disse Malvus surgindo próximo da porta — ... ele aparece. — o anjo caído sorria cinicamente com seu olhar malicioso aos três.
— Tá fazendo o quê aqui, seu desgraçado? — perguntou Fred, o encarando raivoso — Fica longe dos meus filhos, vai embora!
— Calma, papai coruja. Eu vim apenas fazer uma proposta a minha consorte.
— Ah não, já tô até imaginando. — disse Frank, temendo qual fosse a intenção de Malvus, quase adivinhando.
— Se pensou em relacionamento aberto, errou. — disse o anjo caído — Mas formar uma tríade não seria uma má ideia, aprecio o conceito.
— Cai fora, nunca que eu dividiria meus filhos com alguém feito você. — rebateu Fred.
— Então tudo bem pra você se eu tê-la ao meu lado? — questionou Malvus mirando em Lilith.
O nefilim emudeceu diante da questão, incerto sobre seus sentimentos após a escolha dela.
— O que você quer, Malvus? — pressionou Lilith.
— Oficializar nossa união. — revelou ele, tomando seriedade — De preferência, hoje mesmo num espaço que aluguei com a ajuda dos meus confraternos. Não exatamente alugado, mas... Enfim, você decide.
— Ele não tá te dando esse poder, Lilith, não cai nessa. — disse Fred.
— Nos casarmos? Um casamento oculto, é isso?
— E você sabe que tradição milenar isso acompanha. Quer que eu refresque sua memória? — disse Malvus com expressão canalha.
— Não precisa. — disse Lilith, aborrecida — Não faremos um pacto de sangue.
— Nesse caso... — disse Malvus desviando o olhar para o berço de Dante. O anjo caído sumiu num piscar de olhos, reaparecendo próximo do berço e pegando o bebê, logo ressurgindo onde estava inicialmente — Seu filho será o convidado de honra. Ele já é meu favorito.
— Tira as mãos dele! – bradou Fred avançando para arrancar o filho dos braços do inimigo. Frank prontamente o conteve.
— Fred, calma, não faz nada!
— Não me pede pra ter calma, Frank! Não tá vendo que ele vai sequestrar o Dante?
O segundo bebê despertou chorando, desesperando Lilith que tentava acalenta-lo. Dante também começara a chorar, desconfortável pela maneira desajeitada que seu "pai adotivo" lhe segurava com as duas mãos como se fosse um mero objeto.
— Decida, Lilith. Minha visita se deu por esse rebento emanar uma energia inigualável. Quando me deixou vê-lo pela primeira vez, pude sentir o pulsar de todo o poder latente que ele abriga. Se una a mim e vamos cria-lo juntos para ser o próximo príncipe do inferno, uma linha de sucessão no reinado.
— Você já tem de volta a posse do inferno? — perguntou Frank — Não dá pra entender. O demônio que detinha ela, o Agares, foi morto. E, pasmem, por um bebê anjo.
— Fred transferiu a mim... e passei para Agares... que passou de volta a mim após morrer. — explicou Lilith — Simples assim. A posse retorna ao antecessor em caso de morte do sucessor.
— E se você morresse? Não, melhorando a pergunta: se o Fred tivesse te matado depois de transferir a posse pro Agares? — indagava Frank, impaciente.
— Voltaria pro Fred. Por isso ele não me matou. Daí fomos nos entrosando mais a fundo e... o resto você já sabe.
— Por que ele te mataria se foi ele quem te trouxe de volta?
— Foi Kezabel quem me reviveu. — revelara Lilith para a surpresa — Nós mentimos. Surpreso, Frank? Aquela vadia teve um acesso de compaixão pelo filho e resolveu curar a solidão dele sabendo que tínhamos um vínculo.
— Verdade. — confirmou Fred, a cabeça baixa relembrando o passado recente. — Ela me mandou ir atrás do Necronomicon, sabia que tava escondido no submundo o mais secretamente possível. Não fazia ideia de pra quê ela queria o grimório, mas quando soube... eu fiquei confuso. Vi ela matando a Lilith daquela forma tão brutal. Eu só queria mesmo fugir, não uma companhia pra amenizar a dor.
— Mas graças a nossa ligação sentimental, ele aprendeu a me aturar. E aqui estamos com nossos herdeiros.
— Não comigo de volta a existência — disse Malvus sorrindo de canto — Ela sabia que o submundo necessitava de ordem após ser esvaziado com o ressurgimento do mestre. Esse sou eu de volta ao comando ditando as regras. Façamos assim: você, Lilith, pode conceder a Fred a guarda do filho humano se tiver interesse em criar somente o pequeno Dante comigo.
— Esse é o seu jogo sujo, né, salafrário? Fazer eles sofrerem com a ausência de um dos filhos. — disse Frank fazendo uma leitura certeira — É uma vingança dupla, assim que você faz.
— Bem observado, Frank. — disse Malvus — Preciso apenas da resposta da mamãezinha querida.
— O que vai fazer se eu disser não?
— O entrego ao mestre, o que pode ser um destino um tanto desagradável pra ele. Sem casamento com pacto de sangue, sem reinado perfeito com um herdeiro perfeito ao título de rei. O que será, Lilith? Quer o príncipe de volta aos seus braços? Aceite ser novamente coroada rainha.
— Malvus, me devolve meu filho, tá machucando ele segurando desse jeito! — implorou Fred.
— Assim tá melhor? — provocou Malvus segurando o bebê com uma única mão pelos pés de ponta à cabeça, o que intensificou o choro dele e a fúria do nefilim ao ver o filho se debatendo.
— Para, seu maldito! — berrava Fred, agoniado, sendo contido por Frank — Vai mata-lo!
— Ele é chorão de nascença ou puxou ao pai? Vou conserta-lo emocionalmente.
— Me devolve... o Dante, Malvus. — insistiu Fred corajoso em se aproximar vagarosamente — No meu filho nem você ou Chernobog tocam.
— Eu já estou o tocando. E ele não é mais seu filho. — disparou Malvus ao que Fred pareceu engolir em seco, abalado — Contente-se com o que tem menos graça e valor. — disse ele olhando para Fred Junior que seguia chorando em sincronia com seu irmão — A propósito, ele é a sua cara.
O anjo caído desapareceu com Dante, fazendo Fred ajoelhar-se aos prantos.
— Não, não... Dante... — lamentava o nefilim transbordando em lágrimas — Meu Deus...
— Tá satisfeita agora? — perguntou Frank a Lilith, zangado — O cara que você ama de verdade sofrendo horrores por conta do erro que você cometeu!
— Eu sinto muito...
— Não sente nada! — esbravejou Frank — Vambora, Fred, deixa isso pra lá. — foi saindo do quarto. O nefilim levantou, ainda derramando lágrimas, mas não se deu ao trabalho de olhar para Lilith e pedir que ela negasse a proposta.
— Fred, não me deixa aqui... — disse a demônia inutilmente. Se lamuriava enquanto tentava acalmar Fred Junior que não cessava o choro.
De volta ao BMW, Frank fitava o irmão que estava com as mãos coladas no rosto.
— Só desapega que isso logo passa, tudo que fizemos aqui foi pura perda de tempo.
— Que papo é esse, Frank? Você me aconselha a deixar tudo pra lá como se as vidas dos meus filhos fossem descartáveis. Aconteça o que acontecer com a Lilith, eles são valiosos. Não imagino mais meu futuro sem o Dante. Antes tudo estava claro como o dia, chegou o Malvus e tornou tudo cinza.
— Mas você teria o Fred Junior sendo pai solo.
— Você não entende, droga, não é isso que eu quero! E nem a Lilith. Não quero ser pai deles pela metade. — disse Fred tentando conter o sofrimento — Mas ela estragou tudo... e vai escolher o Malvus. Mesmo depois... de equilibrar meus dois lados em perfeita harmonia... parece que eu não mereço o mesmo com a vida que eu planejei com eles.
O celular de Frank tocara.
— Fala aí. Ah, é você, Dynno? — fez uma pausa, ouvindo o líder da Insurgência — Beleza, estamos a caminho. Nós topamos. Falou.
— Nós o quê? Frank, agora não... hoje não...
— O Dynno e a galera dele descobriram uma parada envolvendo homens petrificados, trabalhavam num prédio em obras. Acham que o autor do crime tá dentro desse prédio, estão captando assinatura fortíssima vinda de lá. — disse Frank visando convence-lo — Quer ir? Vai servir pra você extravasar essa amargura.
— Pisa fundo, vamos dar o fora daqui. — disse Fred enxugando o rosto.
***
Na região suburbana de Los Angeles, um prédio de promissora construção se encontrava com as obras paralisadas pro tempo indeterminado após os engenheiros civis serem vistos como estátuas nos arredores. Dynno já estava por ali junto com seu bando no aguardo. O BMW preto estacionava na entrada da área que continha placas amarelas indicando a obra em curso.
— Tá mais calmo? — indagou Frank preocupado com o estado emocional de Fred.
— A cabeça tá latejando um pouco, mas logo passa. O que não vai passar é esse aperto no meu peito sabendo que o Dante tá sendo manipulado pelas garras daquele monstro. — lamentava o nefilim, inconsolável — Frank, devia ter me deixado dar a surra que ele merece, ainda mais pelo jeito que ele segurou o Dante...
— Olha, me leva a mal não, se ali fosse meu filho eu também ficaria irado vendo aquele filho da puta do Malvus segurando ele que nem uma galinha, mas com ou sem seus poderes eu ficaria impotente... como você também ficou. Queria voar pra cima dele, só que machucaria o bebê também. — disse Frank abrindo a porta do veículo — Fora a casa, né? Um arranca-rabo entre vocês dois ia mandar aquele muquifo pros ares.
Fred saíra em seguida e ambos se dirigiram até onde a picape de Dynno estava.
— Os sinais do meliante ainda continuam? — perguntou Frank aproximando-se do grupo.
— Arrisco dizer que há um segundo ocupante. — disse Dynno conferindo seu leitor EMF avançado — E aí, vamos entrando?
— Ótimo, mas seria bom levarmos todo tipo de munição disponível, mal sabemos o que se enfurnou lá dentro. — disse Fred.
— Nós trouxemos basicamente todo o arsenal: balas de sal, anti-magia, anti-demônio, anti-vampiro... — disse Jasper, um caçador jovem caucasiano de rosto meio redondo, barba por fazer e cabelo castanho curto não muito bem penteado — Não que suspeitamos de vampiros causando esse surto de estátua, mas só por precaução, as facções adoram ocupar lugares assim quando perdem seus esconderijos.
— A coisa que fez isso tem um lance parecido com o da Medusa dos mitos gregos. — disse Otto, caçador de porte atlético, pele morena e com uma cabeça brilhante assim como a de Dynno.
— Talvez seja a própria. — especulou Frank olhando os trabalhadores petrificados com expressões de pavor.
— Já encarou uma górgona? — indagou Dynno, incrédulo.
— Duas. — respondeu Frank, lacônico — Mas faz alguns anos, diria que tá até meio recente ainda.
— Caramba, você tem que escrever uma autobiografia, Frank. Pra que as futuras gerações saibam da lenda inimitável que você foi. — disse Dynno, bem-humorado.
— Não puxa muito meu saco porque pode grudar e não soltar mais. — brincou Frank gerando risadas entre os parceiros. Mas Fred foi o único que não esboçou riso na face ainda em desalento estampado.
— Qual foi, Fred? Que cara de enterro é essa? — perguntou Dynno — Morreu alguém que você conhecia?
— Não. — respondeu o nefilim, abatido — Mas provavelmente vai. Nunca se sabe.
Frank fitou o irmão que já sentia um pesar antecipado por Dante e por Lilith caso Malvus tivesse ideias dantescas em mente. O grupo cruzou a área de serviço onde estavam os operários petrificados. Adentraram no edifício cautelosamente, armados com munição cheia.
— Que tal nos separarmos em três grupos? — sugeriu Frank — Vai eu e o Fred pro segundo andar. Dynno, você, o Jasper e o Otto vão pro terceiro enquanto a Nya e o Bart averiguam aqui no térreo mesmo.
— Fechado, mas na iminência de um ataque ou um único tiro for disparado, os outros times vem dar reforços. — complementou Dynno, favorável ao plano — Tomem muito cuidado. Eles ou elas estão deixando a assinatura muito instável, podem estar se movendo.
— OK, vamos lá, Fred. — disse Frank virando as costas se direcionando ao segundo andar junto ao nefilim enquanto a equipe da Insurgência se subdividia. A dupla foi subindo num ritmo nem muito rápido e nem tão vagaroso as inacabadas escadas de concreto, alcançando o segundo andar que parecia quase concluído.
Dynno pegou outra escada com seus colegas para chegar ao terceiro andar, esta num aspecto bem menos convidativo para pisar degrau por degrau. Cruzando o labirinto de corredores numa parte mais fechada onde a luz do sol não atravessava uma nesga, o trio se dirigiu a um compartimento que requeria o uso de lanternas. Dynno, Otto e Jasper foram passando os fachos de luzes em cada canto.
Ruídos de passos foram ouvidos atrás. Jasper se virou depressa apontando a lanterna e chegando a ver um vulto correr para as sombras.
— Dynno... — disse ele meio tenso — Não estamos sozinhos.
O vulto retorno passando por onde Otto apontava com a lanterna. O caçador atirou com a pistola, mas os disparos acertavam a parede. A criatura surgiu caindo de pé do teto proxima a ele, o socando no nariz e o derrubando. Dynno e Jasper dispararam com suas armas, mas o ser parecia invulnerável e avançava desferindo socos e cotoveladas para desarma-los, o brilho dos tiros iluminando sua face de pedra a cada movimento agressivo.
Frank e Fred escutaram os disparos ecoando.
— Merda, cedo demais. — disse Frank olhando para cima.
— Se for mesmo uma górgona, não deveriam estar atirando. — disse Fred — No máximo correndo às cegas de olhos fechados.
— Deve estar bem escuro lá pra encarar olho no olho. — supôs Frank que sacou a lanterna e a ligou — Seja o que for, mandamos bala se topar conosco, não quero nem saber.
— Não é assim que um detetive deve falar. — retrucou Fred.
— Mas é como um legítimo caçador fala. Vambora. — rebateu Frank, aborrecendo-se.
Porém, Fred detectara algo passando veloz pelo corredor perpendicular e virou-se apontando a arma na mão direita e a lanterna na esquerda.
— Frank, vai indo na frente. Parece que o segundo mau elemento passou por ali. — disse o nefilim que disparou correndo. Dobrou a esquerda, procurando atentamente num ritmo quase s frenético que lhe sorveu fôlego — Cade você? Aparece, covarde!
Ficara entre um corredor e outro quando fora empurrado de frente contra a parede violentamente, seu rosto sendo pressionado ao concreto.
— Escolheu a palavra errada, amigo. — disse o agressor sussurrando no ouvido do nefilim que logo reagiu com uma cabeçada para trás acertando-o no meio do rosto, depois virando-se e o chutando na barriga.
— E você o cara errado pra intimidar. — disse Fred que brilhou seus olhos em luz azul angelical ameaçadoramente.
— O que diabos você é? — perguntou o atacante, recuando.
— A última coisa que você verá. — disse Fred que agarrou pela gola do casaco preto do rapaz — Vai ser rápido, mas... não indolor. — ergueu a mão esquerda emanando a luz ofuscante. Frank chegara rápido apontando a lanterna que focou direto no rosto do jovem subjugado por Fred.
— Fred, para, baixa essa mão! — pediu Frank, alarmado. O detetive correu até eles, atônito.
— O quê? Frank, por que... Por que tá me pedindo pra poupar esse cara? Ele me atacou, era o borrão que eu vi passar naquela hora!
— Ele é mais do que isso. — disse Frank aproximando-se com um olhar de serenidade.
— Pai. — disse Nathan olhando para Frank, surpreso.
— Pai?! — disse Fred franzindo a testa, confuso.
— Nathan. — falou Frank tentando segurar a comoção inundava seu coração. Fred o soltou, olhando estrango para o meio-sobrinho.
— Quer dizer que... esse aqui é o... meu sobrinho? O filho que você disse ter vindo do futuro?! — dizia Fred o olhando de cima a baixo, atônito.
— E você deve ser o Fred. O meio-a-meio. — disse Nathan o fitando num misto de estranheza e alegria — Sem ofensas.
Frank abraçara fortemente o filho que retribuiu com todo o seu afeto que esperava tornar a expressar desde que voltara dos mortos. A confusão na cabeça de Fred persistia.
— Você me empurrou com uma força tremenda, não em níveis humanos... — disse o nefilim desconfiado e logo voltou-se a Frank — O que ele é?
— Um híbrido, assim como você. — afirmou Frank tocando o filho no ombro — Só que a história é meio longa pra explicar aqui e agora.
— Mas com quem você se relacionou? Aliás, com o quê?
— Você não é intolerante, né? Desculpa se eu causei uma impressão ruim. — disse Nathan, pacífico com o tio.
— Não, tá tudo bem, mas... foi estranho você me atacar de repente. Quem pensou que fosse?
— Nos últimos dias, desde que voltei pra ser exato...
— Voltou... do Limbo? Os híbridos também descem de tobogã pra lá? — questionou Fred, receoso.
— Quem dera fosse um tobogã. — respondeu Nathan recordando de quando foi arrastado ao portal — Você só é literalmente puxado pelos tentáculos da coisa que governa aquele purgatório onde só existe medo e angústia. Injusto, né?
— Nem me faz lembrar daquela hora em que vi seu espírito sendo arrastado pra aquela luz vermelha. — disse Frank — Mas nesses últimos dias lembrei que você poderia estar entre os que voltaram, afinal o feitiço trouxe todos que fossem monstros de volta, daí meu coração ficou menos apertado.
— E nos últimos dias passei a procurar pelo senhor, mas me resguardei quando soube que os caçadores foram expostos e viraram as novas bruxas de Salem graças a uma iniciativa do governo. Talvez eu quase tenha chegado perto de ser fisgado, tem uns robôs esquisitos espalhados achando que mandam em tudo... — disse Nathan parecendo não acreditar no que o mundo havia se tornado — Agora tô com a certeza de que... não havia momento pior pra voltar à vida. Onde que isso vai parar? Não vou mentir pra vocês, eu tô com medo de verdade.
— Se ficarmos de braços cruzados, isso chega no ápice do fim do mundo. — avisou Frank — Mas você conosco nessa só vai somar ao time.
— Não estão sozinhos? Quem mais veio? Cadê a Miyako? Ela é caçadora, pai, me diz que nada aconteceu com ela.
— Fica tranquilão, ela tá ótima, segura num bunker de alta segurança de um grupo de caçadores que conhecemos. — informou Frank.
— Pode-se dizer que você é o mais novo membro da Insurgência. — disse Fred.
— Insurgência... A fraternidade dos maiores caçadores do sobrenatural da história? Ouvi dizer que Van Helsing e até os irmãos Grimm tiveram passagens. — disse Nathan com certo entusiasmo — Se esses caras com quem se juntaram forem metade do que os lendários foram, estamos bem arranjados. O meu mentor, John Reese, me contava histórias desse grupo.
— A reunião de família tá boa, mas temos uma emergência pra cuidar. — disse Frank — Dynno e os outros precisam da gente, o combinado era todo mundo se juntar quando o bicho pegasse.
— Vou com vocês. — disse Nathan os acompanhando.
— Tem uma arma? — indagou Fred.
— Só uma pistola mequetrefe que roubei.
— Toma essa. — disse o nefilim entregando uma das suas ao sobrinho — Tô sentindo que vamos nos dar bem, Nathan. Se tudo der certo, vou querer você como parceiro e chutar o seu pai que vem sendo um menino muito mau ultimamente.
— Ué, que conversa é essa? O papai tá sendo problemático pra trabalhar em dupla? — perguntou Nathan sorrindo de canto, curioso.
— Essa é outra longa história. Não esquenta, Nathan, ele te passa um dossiê completo dos últimos eventos pra te situar. — disse Frank indisposto a entrar no assunto — Vamos depressa, a galera deve tá na maior agrura.
— Nathan, sabe dizer o que andou petrificando os homens que trabalham nesse prédio? — perguntou Fred.
— Não fui eu, se tiver pensado nessa teoria, hein pai.
— Relaxa, eu sei que você não faria isso nem coagido por uma górgona.
— Peraí, como assim você poderia ser suspeito, Nathan? — indagou Fred, a testa franzida.
— Por que... — disse Nathan olhando para Frank sério — Minha mãe é uma górgona.
Fred lançou um olhar de assombro ao meio-irmão, um ceticismo imediato bloqueando o processamento da informação reveladora.
— Frank, você... transou com um monstro? E depois eu que era a ovelha negra da família. Bem, ainda sou, mas nunca imaginei que pudesse dividir esse título logo com você.
— Foi mal não ter contado antes. Mas isso não é conversa pra agora. Foco na caçada.
— Pai, me promete uma coisa. — disse Nathan.
— O quê? — indagou Frank olhando por cima do ombro.
— Que vai procura-la. — pediu o filho encarecidamente — Nós merecemos recomeçar, não acha?
O detetive se fechou no silêncio ante a pergunta, axelernado mais o ritmo dos passos. A indiferença de Frank inspirou um grave ponta de desesperança em Nathan que previa decepção. Ao chegarem no compartimento onde Dynno, Otto e Jasper estavam, Frank e Nathan se surpreenderam com quem o trio havia capturado. A janela da sala foi descoberta, antes bloqueada por portas soltas grandes, deixando entrar a luz solar que amedrontava o cativo.
— Chegaram atrasados. — disse Dynno — Mas boa notícia: pegamos o pedregulho aqui. E ele não parece gostar muito de dia ensolarado.
— Pelas caras de vocês... — disse Jasper olhando-os — São conhecidos dele?
— Peraí, quem é o novato? — indagou Otto apontando para Nathan.
— É meu... Esse é meu filho, Nathan. Prometo explicar tudinho em detalhes mais tarde.
— Filho?! O legado da família Montgrow continua se entendendo. — disse Dynno.
— É melhor não deixarem esse maluco aí muito perto do sol. — avisou Frank fitando o prisioneiro com rigor — Ele tem uma séria doença de pele como vocês podem ver. — aproximou-se — Não é, Nero?
O homem-gárgula virou o rosto encarando furiosamente Frank olho a olho. Enquanto isso, Nya e Bart investigavam o térreo sem muitos indícios encontrados. Bart separou-se da amiga entrando numa sala meio pequena, suja e de baixa iluminação ambiente. Afastou um vaso sanitário que estava sobre um alçapão.
— Nya, vem aqui dar uma olhada! — chamou o jovem caçador. Abriu a porta de ferro. O alçapão parecia um túnel em vez de um porão como se supunha. Bart passou a lanterna inclinado para frente. A luz iluminou uma mão grande e pedregosa que emergiu do buraco e puxara rapidamente Bart pela cabeça abafando o grito do caçador. Mas não impediu Nya, a jovem caçadora de mechas rochas e que tinha um estilo alternativo meio gótico de se vestir, de ouvir o parceiro. Ela entrou correndo os olhos pela sala. Viu o alçapão e se aproximou.
— Bart? — chamou ela, a vizinha ecoando no buraco — Bart, você tá aí? Responde! Se for pegadinha, não tem graça, aparece.
Mas a ausência de resposta levou-a a descer. Foi explorando o túnel até deparar-se com Bart, porém não como esperava. Alguém acima fechara de repente a porta.
— Não! — disse ela, tentando empurrar a porta, mas em vão. Voltou-se a Bart.
O caçador estava petrificado e caído. Nya tapava a boca, tensa. Mas logo ouvira sibilos que remetiam a serpentes se movendo. Várias serpentes. A caçadora virou-se para ver o que havia atrás. Enfim, soltara o grito vendo dois brilhantes olhos vermelhos.
Após o interrogatório, Frank foi para uma salinha próxima liga para Carrie. A assistente estava na sala se pesquisa do bunker sentada a mesa comendo nachos enquanto navegava pela internet no laptop acompanhada de Lisbell e Tanya que estavam no sofá.
— Frank, enfim lembrou que tinha uma amiga desesperadamente sedenta por novidades. E aí, como tá indo a operação das estátuas mortas-vivas?
— Você tinha sacado desde o início, né?
— Que pudesse ser uma górgona com base no retorno de todos os monstros sentenciados ao Limbo? Pois é, pra mim estava meio na cara.
— Pois segura o queixo que lá vem bomba. Pegamos um peixe graúdo perambulando no prédio e o nome dele... é Nero. — disse Frank dando uma olhadela na sala onde o ex-caçador se via preso junto ao seu gêmeo inerte.
— O quê? O Nero?! Aquele caçador antigo que foi amaldiçoado pelas górgonas e arrancou a cabeça da Lucy?
As bruxas tiveram suas atenções chamadas ao olharem para trás vendo a reação da assistente.
— Verdade, mas eu meio que já sentia que esse reencontro ia acontecer já que... o Nathan também mostrou as caras. Carrie, meu filho voltou. — disse Frank expressando alegria contida.
— Nossa... Que bom, tinha esquecido que ele fosse um híbrido e foi apanhado pelo Limbo. Não é coincidência figuras de um mesmo passado voltando pra te assombrar.
— Já trocamos uma ideia com o Nero. Na verdade, há dois deles.
— Dois? Como assim?
— O primeiro que foi achado é o Nero que explodi com um lança-foguetes, ele se apossou do corpo de um dos soldados dele. Do outro não sabemos nada, mas o Nero 1 acha que esse gêmeo veio de outra linha do tempo. Achamos ele petrificado por causa da luz solar... Você lembra, o lance de maldição...
— Sim, lembro bem, mas... Você perguntou de uma certa pessoa?
Frank suspirou e expirou profundamente.
— Olha, tá difícil confessar isso pro Nathan... mas quero manter a Lucy no passado. Tudo bem se eu chegar a revê-la, só que o garoto tá cravando que vamos ser uma família feliz se sairmos vivos dessa guerra contra o Chernobog.
— O nome disso é otimismo, Frank. — pontuou Carrie — Deve respeitar isso e encontrar a forma menos dolorosa de rejeitar o pedido dele. E eu sei que na condição em que você tá, se torna ainda mais difícil. Será que não é sua humanidade inibida pelo insitnto que tá convencendo você a adotar essa postura?
— Eu não sei mais se tô agindo por mim ou por esse poder. O Nathan tá por fora, mas ele vai me dar uma força assim como o Fred. Mas ele já sentiu uma diferença. Mas quem tá se sentindo péssimo mesmo é o Fred, coitado. Depois que nasceu o segundo bebê, apareceu o Malvus e... levou o Dante.
— O bebê anjo-demônio?! Ah não... O que vai ser dessa criança? Chernobog vai usa-la pra algum experimento? É só um bebê, a vida de um inocente. Será que nem mesmo uma entidade cósmica do mal teria piedade ciente disso?
— Se nem o Malvus teve, por que um chefão como ele teria? Seja lá o que for acontecer, uma coisa é certa: Fred perdeu esse filho. E tem que aceitar. — disse Frank sendo ouvido pelo nefilim que estava da parede perto da entrada — Como desgraça pouca é bobagem, o capiroto ainda obrigou Lilith a casar com ele se quisesse reaver o bebê, mas pra cria-lo como um futuro herdeiro do trono infernal.
— Lilith e Malvus vão se casar?! Meu Deus, é muita informação bombástica pra processar, mas de todas essa foi de abalar as estruturas. — disse Carrie, tamanha surpresa que levantou.
— Aquela demônia vai se casar? — indagou Lisbell ficando de pé com curiosidade máxima.
— E com o próprio diabo? — quis saber Tanya que já estava a par do ressurgimento de Malvus e todos os egressos do Limbo.
— A Lisbell e a Tanya estão aqui comigo... Elas ficaram interessadas na história.
— Diria que... inspiradas. — disse Lisbell.
— Fale por si mesma. — retrucou Tanya — Conheço esse olhar de quem acabou de ter uma ideia brilhante.
— Mais que brilhante, perfeita. — disse a bruxa ruiva pegando nas mãos da amada — Tanya Hughes Bennet, aceita se casar comigo amanhã a tarde? — mostrara um anel de diamante.
A bruxa de ascendência egípcia encheu o peito de emoção, os olhos marejando.
— Por que fazer uma pergunta cuja resposta já sabe?
— Dizem que fazer o pedido à moda antiga traz boa sorte na mesma medida que má sorte quando o noivo vê a noiva vestida antes do tempo. E não vamos cometer esse erro.
— Eu... aceito. Mas é claro que aceito. — declarou Tanya sorrindo, logo a beijando.
— Onde faremos?
— Concordamos que seria ao ar livre, certo? Parque ou cemitério?
— Um cemitério é mais simbólico pelo que somos. Decidido. De amanhã não passa. — decretou Lisbell — Carrie, avisa pro Frank e o Fred que estaremos organizando nosso casamento pra hoje a tarde.
Carrie arqueou as sobrancelhas.
— Ahn, Frank... Iremos a um casamento amanhã.
— Que tal uma invasão furtiva no casório da Lilith e do Malvus pra pegar o bebê de volta? — sugeriu Frank, algo que injetou ansiedade em Fred.
— Não esse casamento. Lisbell e Tanya marcaram o delas pra amanhã a tarde e estão todos os convidados. — disse Carrie dando uma piscada para as bruxas — Vocês dois virão, né?
— Ahn... OK, vou falar com o Fred. A gente se fala.
— Tá legal, tchau. — disse Carrie, logo encerrando a ligação — Vão mesmo trocar alianças amanhã? Faz tempos que não participo de um casamento.
— Não me diga que está indecisa em qual ir. — disse Tanya se aproximando dela.
— Não, lógico que irei... no de vocês. — disse Carrie.
— Ela é a madrinha, esqueceu? — recordou Lisbell.
— Ah, é mesmo. Desculpe duvidar da sua preferência, Carrie. Resgatar esse bebê enquanto o pai adotivo malvado está distraído seria um plano viável. Fiquei sensibilizada.
— Vamos torcer pra que fique ileso. E então? Cadê os preparativos? Melhor começar logo, né?
— Vou agora mesmo atrás do Hoeckler. Me aguardem. — disse Lisbell andando para sair.
Frank atendera a ligação em espera e foi tomado por um arrepio súbito com a voz.
— Alô?
— Frank? É você? — indagava a voz de Axel na linha com interferência de sinal.
— Axel? Mas... Então você renasceu também?
— Por telefone não dá pra explicar, desculpa. O sinal tá com ruído e pode cair. Só te peço pra vir onde eu tô agora, te mandei mensagem com a localização. Eu sei onde a Lucy tá agora e ela...
Infelizmente, a ligação caíra devido a falha. Frank ficou a imaginar como Axel teve acesso a Lucy, mais pairava uma dúvida sobre sua condição existencial. Dynno viera até ele para relatar algo grave.
— Frank, má notícia: Nya e Bart desapareceram. Otto foi lá no térreo e não achou nenhum vestígio deles. Algum palpite?
— Medusa, provavelmente. Pode haver alguma passagem secreta pro subsolo onde ela possa estar escondida. Ela não sumiria com as estátuas dos dois se estivesse no térreo, até seria achada pelo Nero que tá acordado.
— Vou chamar seu filho pra ajudar na busca.
— Olha, é que surgiu uma emergência. Um velho amigo ligou pedindo ajuda e isso requer a participação do Nathan.
— Vou participar do quê? — indagou Nathan chegando próximo — Convite pra uma caçada? Eu que não vou recusar, tenho que tirar o atraso.
— Frank, com quem mais tava falando? — indagou Fred vindo — Que amigo é esse?
— Se vão os três, então... Eu e os rapazes cuidamos de procurar a Nya e o Bart. — determinou Dynno.
— Beleza, a gente volta pra interrogar o outro Nero quando ele acordar. — garantiu Frank.
Dynno assentira desejando sorte e voltando para onde estavam Otto e Jasper. À vontade, Frank se colocou mais perto de Nathan.
— Foi o Axel quem ligou.
— O quê? O Axel?! Mas ele tá... Espera, ele morreu como um gárgula assim como o Nero... — disse Nathan, surpreso.
— Agora eu não tenho certeza se ele tá vivo como renascido do Limbo ou morto como um fantasma. A ligação tava com estática.
— Tem sido assim nos últimos quatro dias. — informou Fred — Os sinais telefônicos estão intermitentes, alguma coisa de fora tá influindo.
— Ele mandou as coordenadas de onde podemos encontrá-lo. — disse Frank verificando no celular — Nathan, você vem?
— Tá brincando? É claro que sim, Axel é meu amigo também, sinto falta dele.
— Fred? — indagou Frank olhando meio sisudo para o nefilim — Seria melhor você ficar pra ajudar o Dynno e os outros na busca dos desaparecidos, você rastreia a Medusa.
— Eu vou com vocês, eles dão conta. Improvável a Medusa vir atrás de um dos Neros ou dos dois a essa hora, talvez ela queira atacar a noite.
— Aposta segura. — disse Nathan.
— Então vambora. Pelo tom de voz do Axel, não é uma coisa tão animadora. — falou Frank caminhando para finalmente ir ao encontro.
***
Na catedral, Malvus se dirigia a pia batismal carregando Dante nos braços. O bebê não cessava seu choro por nenhum instante.
— Ora, mas que fedelho mais irritante. Vamos, cale-se, sua mãe logo estará de volta.
O colocou de bruços ao encostar na pia cheia d'água. Malvus mordeu o pulso e gotejou seu sangue na água que adquiriu tom escarlate. Kezabel o flagrara atrás dele.
— O que pensa que está fazendo? Esse aí... por acaso é o meu neto?
— O melhor dos dois. Aquele que me sucederá no trono. — revelou Malvus — E sim, o outro rebento já veio, o genérico e inútil.
— Deixe-me vê-lo. — pediu Kezabel. A contragosto, Malvus virou-se para ela — Você é um bárbaro. Não se segura uma criança recém-nascida desse modo.
— Eu iria batiza-lo. — afirmou Malvus entregando-o — Imergi-lo no meu sangue para que absorva minha essência e me assuma como pai futuramente.
— É cedo demais. E não acho que ele tenha esse poder. Você iria mata-lo afogado se insistisse. — repreendeu Kezabel segurando o neném que silenciava.
— Como fez pra cala-lo?
— Uma coisa chamada carinho materno. Eu nunca perdi isso. Como está Lilith?
— Por que pergunta? Não deixaram de ser parceiras de crime?
— Ela tentou me enganar usando meu filho e me vinguei a matando. Fomos inconsequentes. — disse ela que foi andando com Dante.
— Ei, aonde vai? É comigo que ele deve ficar?
— Vou providenciar conforto a ele. Está mais seguro aos meus cuidados. Não confia em mim? — indagou o olhando com suspeita.
— Está bem, ao menos pra mante-lo quieto, não tinha parado de chorar desde que o levei. Mas saiba que estarei aqui em tempo integral, portanto se minimamente tentar devolvê-lo a sua amiguinha...
— Não precisa me contar o resto. Essa velha piada já perdeu a graça. — disse Kezabel que logo virou-se para levar Dante a sacristia — Vamos, queridinho, está em boas mãos agora.
Malvus a encarava com desconfiança máxima, logo virando-se para a pia lançando uma labareda azul que incendiou toda a água. As chamas se apagaram rapidamente, removendo o sangue diluído.
***
O BMW parara frente a uma cabana para aluguel no meio de uma reserva florestal. O trio saíra do veículo depressa, Frank e Nathan extremamente ansiosos em rever Axel e ouvir respostas. O interior do local soava organizado na decoração.
— Axel? — chamou Frank abrindo a porta, logo entrando seguido de Nathan e Fred — Axel, chegamos.
— Frank, e se for pregação de peça do Malvus? — temeu Fred — Podemos estar perdendo tempo.
A aparição do espírito de Axel como uma projeção holográfica de alta qualidade contrariou a especulação.
— Frank! Nathan! — disse o homem meio gorducho de cabeça meio raspada, sorrindo ao revê-los. Se encaminhou a eles.
— Axel, parceiro... Que saudade, cara. — disse Frank dando um toque na mão do amigo e a apertando. Depois foi Nathan que o abraçou — Peraí, você tá morto ou revivido?
— É que parece que... — disse Nathan tendo a mesma percepção que o pai — ... você tá em carne e osso diante de nós, apesar de ter aparecido como um fantasma.
— Nem com aquela transparência leve você tá. — disse Frank o analisando.
— Não sei explicar, todos os fantasmas com quem cruzei até agora parecem mortos-vivos. Eu posso ser tocado, mas ainda tô morto e sem sentir sede, nem fome ou sono. — declarou Axel.
— Achávamos que por você ter morrido como um gárgula teria voltado do Limbo assim como Nathan. — disse Frank.
— Como o Nathan? — indagou Axel, confuso.
— É, eu... Eu morri pouco depois de você e fui parar numa espécie de purgatório dos monstros. Sorte sua não ter passado umas férias lá, não recomendo. Nunca viu uma luz vermelha te perseguindo?
— Não, eu... só permaneci vagando por aí arrastando correntes e fazendo amigos e inimigos. Os inimigos, inclusive, estão me seguindo pra me corromper.
— Nero ter voltado também quer dizer que a maldição não classifica como monstro condenável ao Limbo. — aferiu Nathan.
— Encontrei o Nero. — revelou Axel — Mas ele parecia diferente, não sabia o que eu dizia quando falei da morte dele.
— Então você topou com a versão dele de outra linha do tempo. — disse Frank — A que achamos presa nuns cabos e em estátua.
— Eu fiz aquilo. — disse Axel — Esbarrei com ele, discutimos, lutamos e eu venci. Não foi tão difícil.
— Só que ele voltou em dose dupla. — avisou Frank o que deixara-o pasmado — Capturamos o Nero que morreu junto de você. Ele possuiu um subordinado e tá atrás da Medusa. O outro também, eu acho.
— Mas Medusa tá morta. — lembrou Axel.
— Não mais. — dissera Nathan — Todos os monstros voltaram do Limbo, incluindo a mim.
— Então você não é um fantasma? Foi ressuscitado? Mas como?
— Eita, história longa pra ti. — falou Frank — Sabe, é até chato você não ter ido pro Limbo.
— Pai, qual é? O que eu passei naquele lugar não se deseja nem pro pior inimigo.
— Mas o Axel estaria fisicamente aqui conosco, apesar do Nero também.
— Tecnicamente estou. Mas não sei o que tá havendo, o mundo espiritual tá uma loucura. Bem, só pra ficarem sabendo, o fato de eu e o Nero sermos fantasmas errantes quer dizer que a maldição de gárgula é quebrável por retermos nossa humanidade. Ahn... — Axel se inclinou para o lado vendo Fred sentado no sofá lendo um livro — O amigo de vocês tá bem a vontade.
— Ah, esse é o Fred, meu meio-irmão. Te falei dele uma vez, lembra?
— O meio-irmão... que é um monstro poderoso e governava o inferno? — indagou Axel, tenso.
— Ex-monstro. — disse Fred levantando-se — E também ex-diabo. Prazer, foi mal, é que voces três tinham tanto pra conversar e...
— Não, sem problema. O prazer é meu. — disse Axel simpático, apertando a mão dele.
— Mão gelada hein. — apontou Fred.
— Estar morto é assim. Fora que tô nervoso.
— Agora vamos pro principal motivo de você ter me chamado: Lucy. — disse Frank — Cadê ela?
— Sabe onde a mamãe tá? — questionou Nathan ouriçado — Por que não me contou, pai?
— Queria que fosse surpresa.
— Olha, não tenho muito mais tempo... — dizia Axel recuando e esquadrinhando a sala com olhar amedrontado — Frank, a Lucy, eu encontrei ela. Quer que você a ache numa usina de força desativada que fica a dez quilômetros daqui.
Um espírito sombrio surgira na sala. Era um homem maltrapilho e magérrrimo que babava ectoplasma e estava armado de faca. Ele avançou contra Frank que desviava dos golpes afastando-se. Segurou o braço do homem e com uma joelhada para cima quebrara-o, os ossos partindo, depois deu uma cotovelada na cara e o jogou à parede. Axel já havia sumido. O fantasma tornou a avançar furioso, mas Fred tomou a frente. Com a mão direita estendida, o nefilim lançou uma esfera de energia sombria que envolveu o fantasma e o tragou como um buraco negro. Frank encarou abismado.
— Como foi que você fez isso?
— Frank... Eu te garanto que tô tão surpreso quanto você, mas não é o que parece.
— Não pareceu, foi exatamente o que eu vi! — disse Frank aborrecendo-se — Aquele poder era energia maligna do Chernobog!
— Calma, Frank! Eu não sou ele! Esse que tá aqui na sua frente é seu irmão, Fred! Se ainda estiver duvidando, sua data de aniversário é sete de maio e sua comida favorita é burrito.
— Não tem nada sobre mim que você não saiba! Anda, desfaz desse teatrinho, Chernobog!
— Nathan, me ajuda aqui. — pediu Fred acuado.
— Pai, para, é o tio Fred! Acredita nele, por favor. — disse Nathan se interpondo.
— Seu tio tá aprisionando uma entidade sobrenatural no próprio corpo! Como vou acreditar que tô interagindo com o meu irmão desde a hora que ele prendeu a coisa, ainda mais depois de fazer essa demonstração?
— Vai por mim, Frank. Foi automático, eu... queria expulsar aquele fantasma com minha luz, mas saiu aquilo.
— Confio nele, pai. Ele é incrivelmente forte, segura esse Chernobog tranquilo.
Frank foi recompondo a calma e caminhou até a porta, logo abrindo-a. De repente, sacou uma arma e dera uma coronhada forte na nuca de Fred. O nefilim tombou desacordado.
— Pai, por que fez isso? Ele já se explicou...
— Cala a boca e acha uma corda firme pra amarrar ele e põe sentado numa cadeira . Depois vem pra gente encontrar sua mãe.
— Mas pai, não podemos deixar ele...
— Amarra ele que eu tô mandando! — bramiu Frank num tom ríspido e autoritário. O detetive saiu enquanto Nathan fitava Fred detestando ser obrigado a prende-lo.
***
A dupla chegara a usina hidroelétrica procurando com os olhos qualquer indício da presença física de Lucy naquele lugar de odor metálico e repleto de poças d'água
— Sente alguma coisa? — indagou Nathan — O senhor não tem esse tal instinto primitivo de um ancestral da nossa linhagem?
— Estranho... Tá como se não tivesse ninguém. Talvez górgonas não estejam inclusas no catálogo do radar. Ou preciso me aprimorar.
— Só ouço o eco das gotas caindo. Axel pode ter se enganado, ele parecia perdido...
— Não, eu nunca o faria se enganar. — disse Lucy se expondo a alguns metros. A górgona usava um manto pardo e exibia seus cabelos ruivos ondulados e lisos. Frank sentiu um arrepio na barriga ao rever sua amada.
— Lucy. — disse ele meio travado.
— Mamãe... — Nathan se aproximava deixando a emoção dominar. O abraço entre mãe e filho foi inevitável — Nem sei o que dizer...
— Não fale nada, só me abrace... Eu sonhei esperançosa com esse dia.
— Era esperança demais, pelo visto. — disse Frank — Porque eu não tive nenhuma.
— Filho, volta pro seu pai. — disse Lucy o afastando levemente e deixando-o confuso.
— Mas mãe... Não vem conosco?
— Nathan, tem alguma coisa errada. — suspeitou Frank — Se eu conhecia bem sua mãe, ela não agiria desse modo depois de um tempo sem ver as pessoas que mais ama.
— Tá insinuando o quê, pai? Essa é a mamãe, em carne e osso, não uma impostora!
Dardos tranquilizantes atingiram as costas do híbrido que caiu para frente. Repentinamente, quatro homens desceram em cordas do teto e um deles, usando uma camisa sem manga verde pântano, golpeou fortemente Frank na cabeça com sua metralhadora. O detetive caíra, mas não imediatamente desmaiou, somente a visão turva.
— Lucy... Que armação é essa?
— Axel não pôde me contar onde Nero está, então precisei recorrer a você. — disse Lucy.
— Por que... tá atrás do Nero?
— Não eu. Mas eles.
O líder do grupo, o de camisa verde, agarrou o rosto de Frank. O mesmo possuía uma aparência similar a um homem-gárgula, os olhos vermelhos lhe encarando.
— Se quiser você e seu filhote livres, embora meio grogues, acho bom dizer algo.
— Vai se ferrar.
— Você que sabe. — disse ele que dera outro golpe com a arma, desta vez levando-o a inconsciência. Nathan reagiu levantando e socando um dos gárgulas, mas logo fora chutado no peito, caindo sentado sobre um bloco de pedras. Outro deles veio e afundou os polegares nos olhos do híbrido que jorrava sangue. Lucy se desconfortava ao ouvir o filho gritar em dor, a inércia maltratando junto a culpa — Ele vem também. Ponham aquela coleira.
— Se mata-los irão se ver comigo.
— Nossa única vítima fatal é sua irmãzinha pelo que fez conosco. Trato é trato. — disse o líder — Mas vamos nos divertir com eles.
***
Fred despertava gradualmente com o pescoço latejando. Lembrou que o golpe fora efetuado por Frank de maneira covarde. Amarrado com firmes cordas numa cadeira, o nefilim se via sozinho na cabana quase às escuras, apenas o luar atravessando as janelas.
— Frank... Seu grandíssimo imbecil. — xingou controlando a vontade de dar o troco — Achando que me prender nessas cordinhas... vai me excluir da diversão. — tentou desatar os nós.
Sentiu uma presença atrás, mas não humana.
— Quem tá aí?
— Fred, querido... Sou eu. — disse Kezabel colocando-se diante dele com sorriso sereno.
— Mãe?! Mas... O que faz aqui? Por que veio me ver?
— Senti saudades e sua energia oscilava, então... Por que está preso?
— Frank me prendeu desconfiando que Chernobog me possuiu. Mas não, eu o absorvi e trancafiei. O mundo está salvo por pelo menos uns... trinta anos, não sei quanto tempo tenho.
— O bruxo servil pode assumir o comando, ele sempre foi um trunfo. Me deixe solta-lo...
— Não, mãe, talvez... seja bom eu ficar aqui nessa penitência refletindo sobre como consertar minha vida arruinada até o Frank voltar pra me desamarrar, ele me quer longe por enquanto. Peraí... Se você tá aliada ao Chernobog, então tá com o Malvus, né? Cadê o Dante? Cadê o meu bebê?
— Azrael não havia me contado o nome. Lilith fez uma linda escolha.
— Mãe, me fala: cadê o meu filho? Como ele tá?
Kezabel desapareceu num piscar de olhos, frustrando o filho que se abalou na emoção. Mas logo seu coração voltou a bater tranquilo com o reaparecimento da mãe atrás dele trazendo Dante nos braços.
— Deixa eu ver ele, por favor. — disse Fred de olhos fechados e sorrindo leve ao ouvir os gemidos do bebê. Kezabel se pôs frente a ele, mostrando Dante bem próximo — Oi, amigão. Volta pro papai, volta... Não sei mais o que significa viver sem você. Eu te amo tanto...
Kezabel se sensibilizava ao ver o filho indo as lágrimas. Fred o beijou na testa demoradamente, a lágrima caindo sobre o rostinho do bebê.
— Preciso ir. Azrael foi categórico...
— Não, me devolve ele, mãe, por favor.
— Não posso, fiz Azrael me prometer que não o batizaria com o sangue dele se eu não saísse da catedral com ele. Lamento, filho.
— Lilith é sua amiga! Não faria isso por ela?
Dante começara a chorar com o tom bravo do pai.
— Você o assustou, tenho que leva-lo de volta. Mas foi ótimo rever você, filho. Até breve... ou não.
O desaparecer de Kezabel com Dante resgatou a dor emocional de Fred amplificada.
— Não... Eu não aceito isso... — disse Fred, irritando-se. Seus olhos brilharam — Não aceito!
Abruptamente, rompera as cordas numa força tremenda chegando a destroçar a cadeira ao levantar. Paralelamente, Frank se via já acordado com os pulsos amarrados por cintos sobre os braços de uma cadeira de ferro. Uns três metros adiante estava Nathan preso noutra cadeira igual, mas submetido a uma coleira com espinhos que perfuravam seu pescoço. O híbrido ainda tinha os olhos seriamente danificados com marcas de sangue escorrendo.
— Legal, vocês são subalternos do Nero e querem revê-lo. Nós poderíamos levar vocês até ele se não quisessem fazer do jeito difícil. — disse Frank.
— O fácil não me atrai. — disse o líder frente a ele, comendo uma maçã — Me chamo Mason. E não, não somos servos do Nero. Aliás, queremos conhecê-lo.
— Então não vieram de Gargóvia? — indagou Frank.
— Que troço é Gargóvia? O nome soa bem mitológico. É lá onde ele morava?
— Uma cidadela. — disse Lucy aparecendo na entrada daquela sala da usina — Localizada no subterrâneo. Mas não há nada lá, foi destruída.
— Não lembro de ter pedido sua opinião, cadela. — replicou Mason dando uma mordida na maçã.
— Olha como fala, é a mãe do meu filho. — repreendeu Frank, severo.
— E por falar nele, sugiro que o senhor, Frank, seja cooperativo para que ele sobreviva.
— Você como híbrido será que é imune a dor? — perguntou o capanga de Mason com cordas ligadas a coleira envolvendo seus antebraços. Puxou forte, levando Nathan a gritar — Não é, que decepção. O lado humano enfraquece.
— Para com isso, deixa ele em paz! Lucy, vai ficar aí calada vendo nosso filho ser torturado?
— Ela não pode fazer nada por vocês. Não enquanto se negarem a dizer onde está o Nero! — determinou Mason.
— Se não são amigos do Nero, quem diabos são vocês?
— Fugitivos da Alcatraz.
— Pai, não são caçadores! — avisou Nathan.
— É, já percebi. — disse Frank olhando torto para Mason — Mas como abordaram a Lucy?
— Fizemos algumas alianças lá dentro que nos forneceram uma visão bem positiva do ramo da caça a monstros como a sua namorada. — dissera Mason — Quando vimos indícios de uma criatura cuja cabeça vale a pena guardar como troféu, não paramos mais.
— Medusa? — indagou Frank.
— Ela mesma, a víbora que nos lançou uma maldição após dias sendo perseguida. Escorregadia e sorrateira como uma cobra. Daí achamos sua namoradinha que está de mal com a irmã e prometeu nos levar até Nero, o amaldiçoado caçador veterano que quase esfolou a vadia e sabe como quebrar a maldição usando a cabeça dela.
— Lucy, se queria ajudar eles a achar o Nero, bastava ter falado com o Axel, não usado ele pra meter a gente nessa!
— Eu tentei, mas... Axel vem sendo constantemente caçado por espíritos malignos, nos encontrávamos e ele tinha que ir embora depressa pra afasta-los de mim, nunca havia tempo pra revelar o paradeiro de Nero.
— Vocês pra mim não parecem quererem ser curados, mas sim formar um exército maior através do Nero. — especulou Frank.
— O líder aqui sou eu! — salientou Mason socando Frank — Acha que nos orgulha viver nesse estado? Sem nem poder andar à luz do dia? É humilhante, nos iguala as escórias que você caçou a vida toda!
O capanga de Mason puxara novamente as cordas, inflingindo mais dor em Nathan.
— Na próxima puxada, a cabeça do seu filho sai voando, então melhor me contar onde Nero está! — ameaçou Mason — Dex, tira ela daqui.
Um deles levara Lucy embora a força. Frank olhava para Nathan, compadecido.
— Uns amigos meus capturaram ele num prédio inacabado, fica na rua Dinkler, 1256.
Mason fizeram um sinal para se moverem ao local informado. O capanga que torturava Nathan se encarregou de soltar Frank.
— Tentem negociar a custódia do Nero. — sugeriu Frank tocando nos pulsos libertos.
— Não daremos nada em troca. — afirmou Mason armando-se — Se nos atacarem, vamos revidar, simples assim. É nossa natureza. — saíra da sala com o capanga, apressado.
Frank fora remover a coleira de Nathan que ainda sofria com dores agudas no pescoço.
— Consegue enxergar?
— Ainda não, meus olhos se recuperam por mais tempo. — disse o hibrido sendo carregando pelo pai ombro a ombro — Temos que ir atrás deles, vão matar todos.
— Nessas horas que me arrependo de ter deixado o seu tio fora da brincadeira.
***
Paralelamente, no prédio inacabado, o Nero egresso da linha temporal alternativa recuperava sua mobilidade total.
— Já pode se mover livremente? — indagou o Nero 1.
— Livremente? Isso é uma piada?
— Só tentei ser amigável.
— Que tal tentar sair do meu caminho? Só um de nós arrancará a cabeça da Medusa e serei eu, não uma imitação barata feito você.
— Imitação que teve êxito em obter a cabeça de uma górgona e conjurar o feitiço petrificador, ainda com bônus de assumir um corpo mais vigoroso e imbuído de magia.
— É o que eu teria feito. Mas chama isso de corpo vigoroso? Se olhe no espelho, somos idênticos.
— De corpo sim, não em poder. A mágica que fortaleceu meu corpo anterior se ligou a minha alma,as não pude sustentar a residência e acabei derrotado por um simples míssil. Mas ainda sou mais forte e posso nos tirar daqui sozinho.
— Eu não sofreria uma derrota tão humilhante.
— Vamos mesmo competir? Você sou eu e eu sou você. Cometeríamos as mesmas atitudes, certas e erradas.
— Touché. Não faz sentido brigarmos enquanto estamos aqui presos.
— Finalmente entendeu minha proposta. Agora, quer, por favor, me ajudar a romper esses cabos? Aquele híbrido reforçou com o sangue dele.
— Não consegue nos libertar sozinho? Se esforce, quero ver.
— Só estava provocando você.
— Que jeito estranho de fazer amizade.
— Que jeito estúpido de rejeitar.
A dupla empreendeu toda a força conjuntamente, o que promovia rupturas significativas nos cabos mais espessos.
Minutos depois, Dynno verificou os corredores, se deparando com algo tenebroso.
— Ah não... Deu merda. — disse ele vendo alguns de seus parceiros caídos no chão, petrificados e despedaçados. Correu para conferir a sala onde os demais estavam vendo vídeos nos seus celulares e se divertindo.
— Graças a Deus, vocês estão aí.
— O que foi? A górgona tá na área? — perguntou Jasper.
— Aparentemente, sim. Dock e Foster foram abatidos. — disse Dynno. O grupo saiu armado a caça de Medusa pelos corredores. Otto fora até a sala onde os Neros estavam cativos e se afligiu ao ver apenas os cabos largados nas cadeiras.
— Putz! Dynno! — correu para alertar.
Na usina, Frank e Nathan prosseguiam na fuga, logo encontrando Lucy no caminho.
— Esperem! Vão precisar disso. — disse ela jogando um pote contendo sangue a Frank — Lembra como se mata um homem-gárgula?
— Acho que pra um punhado de gatos pingados daqueles vai servir. — disse Frank — Obrigado, Lucy.
— De nada. Adeus, Frank.
— Não, mãe! Vem conosco, nos unirmos como uma família. Antes de voltar pra Miyako, quero ver vocês dois voltando um com o outro!
Frank e Lucy se entreolharam meio tensos com as incertezas que pairavam.
— Nathan, meu filho, é complicado... — disse Lucy.
— Por que? Papai sofreu sua perda...
— Mas eu segui em frente. — disse Frank olhando-a fixamente — Porque a vida tem que andar pra frente.
— E quanto a mim... Eu perdi o bebê. Acho que fiquei tão atordoada e perturbada momentos antes da minha morte que devo ter sofrido um aborto espontâneo. Eu sinto muito.
Frank fez que sim devagar com a cabeça, conformado.
— Vamos, Nathan. — disse ele tornando a andar.
— Não, pai, deixa ela vir! Por favor, mãe... Não! — dizia Nathan a voz ecoando a medida que se afastava de Lucy que se afundou em lágrimas.
Mason e seu bando enfim chegavam ao prédio, as metralhadoras com lanternas acopladas.
— Deve ser aqui. — disse Mason.
— Pra uma prédio inacabado, até que tem uma instalação já bem formada. — disse um dos capangas olhando para os andares de cima.
— Se espalhem quando eu mandar. — definiu o líder caminhando pelo térreo onde havia pouca iluminação. Porém, um a um os membros da gangue eram subtraídos por algo se movendo na escuridão. Dynno e os demais ouviam tiros.
— Tá vindo lá de baixo. — disse Otto.
— Logo onde a luz é precária. — reclamou Lou, um dos que foram chamados pra reforçar.
— Não podemos enfrentar essa coisa de olhos abertos, né? — disse Jasper — Uma boa hora pros óculos de visão noturna.
— Que você esqueceu de trazer, seu mané! — retrucou Dynno dando um pescotapa nele — Não tem jeito, vamos encarar de peito aberto.
— Não era pro Frank, o filho dele e o Fred já terem voltado? — indagou Otto.
— Aconteceu algo com eles, sem dúvida. Vambora pra luta! — bradou Dynno.
Os Neros se encontravam na sala do alçapão por onde um deles saiu.
— Empurre esse sanitário, vamos fugir. — pediu o Nero 2.
— Sermos iguais não significa que não devemos decidir por nós mesmos. — rebateu o Nero 1.
— Sinto presença de outros como nós!
— Mas o único sobrevivente do meu povo é o dono deste corpo! Não é um resgate.
— Fique e diga "oi" pra eles. Não tenho mais obrigação de cultivar servos quando perdi a chance de erigir meu império!
Nero 1 mergulhou em reflexão. Mas logo ganharam companhia.
— Atrás de você! — disse o 2 lançando uma onda psíquica dos olhos contra Medusa que exibia suas madeixas como serpentes. A górgona recuou um pouco, mas resistiu.
— Foi quase. — disse ela — Mas não o bastante.
— Medusa. — falou Nero 1 a olhando de cima a baixo — Odeio admitir que continua tão linda mesmo com essas serpentes.
— Um prazer revê-lo, Desmond. — disse a górgona que usava um vestido de seda verde — Será uma noite duplamente apaixonante.
— Vamos fazer nossa última dança? — indagou Nero 2 — Eu começo. — com o pé levantou uma pá e atacou-a, mas os golpes mal afetavam-na. Medusa mostrou seus olhos vermelhos petrificadores assim como suas serpentes que o envolveram fazendo buracos no corpo pedregoso paralisando. Nero 2 fora destroçado com a força das cobras.
Um tiro acertara Medusa de costas a fazendo de frente. Era Frank com as balas embebidas com sangue de Lucy. Nero 1 afastou o vaso sanitário para abrir o alçapão.
— Frank, rápido! Jogue ela aqui dentro!
— Não sem arrancar essa cabeça nojenta! — disse ele sacando o facão. Nero a agarrou por trás, mas a górgona batera sua cabeça e o jogou a parede. Frank andou silencioso para pega-lá enquanto focava-se em Nero, mas a górgona virou sua cabeça para trás, os olhos brilhando e a face selvagem com o sibilar das serpentes.
— Por que? O que faz de você tão especial pra não ser petrificado?
— Se eu contasse não ia acreditar. — disse Frank, destemido com ineficácia do poder sobre ele. Nathan chegava a sala — Cadê o Dynno e os outros?
— Combatendo o bando do Mason. Dei balas com o sangue da mamãe. — disse o híbrido que se aproximava.
— Não vem, ela é minha! — advertiu Frank. Medusa fizeram suas serpentes capilares atacarem Frank que as decepava com notória destreza e agilidade. O detetive a chutou forte, mandando contra a parede — Manda a galera cessar fogo, já tô quase resolvendo...
— Pai, cuidado! — disse Nathan que sacou uma pistola ao ver Medusa avançar furiosamente. Disparou certeiro nos olhos dela. A górgona enlouquecera gritando.
— Boa, garoto. — disse Frank que logo se aproximou de Medusa.
— Esse rapaz é o híbrido que Esteno gerou? Com quem?
— Comigo. Adeus, cunhadinha. — falou Frank, logo decapitando-a brutalmente, o sangue jorrando do pescoço como um gêiser em erupção. O detetive tentou golpear a cabeça dominado pelo instinto de Orion, mas fora contido por Nathan.
— Pai, não! Vamos deixa-la intacta pra curar Mason e os amigos dele!
Frank se reorientava, voltando a razão. Nathan apanhou a cabeça segurando pelas serpentes.
— Cadê o espelho?
O detetive pegara o espelho do carro que arrancou, logo fazendo Medusa encarar o reflexo de seus olhos aterrorizados. A cabeça da górgona petrificava instantaneamente.
— Peraí... O Nero não tava aqui? Ou um deles? — perguntou Nathan.
— Um deles virou pedra esfarelada. Não sabia que a Medusa era tão poderosa. — disse Frank vendo os restos de Nero 2. Foi até o alçapão olhar o buraco.
— Algo me diz que ainda vamos vê-lo. — previu Nathan ao lado do pai.
— Com certeza. — concordou Frank que recebeu mensagem no celular e verificou — A bela adormecida acordou.
Logo mais, a dupla foi parar na beira de uma estrada vendo Fred acenar iluminado pelos faróis.
— Devia ter me deixado picar e fatiar a cabeça da Medusa.
— Acho que sua fala é: Nathan, você foi um tremendo irresponsável em não sair pra avisar ao Dynno que era possível curar os gárgulas. — disse ele imitando o modo de falar do pai.
— Se importava com aqueles fanfarrões? Torturaram você. Eram bandidos da pior espécie, não mereciam sair vivos e humanizados.
— Mas o Nero tá por aí. Se ele tiver uma recaída, sabe o que pode acontecer. Tio Fred tá com o poderoso chefão do mal trancado no corpo. Não acha que isso dá margem pro Nero reconsiderar?
— Quanto menos ele souber, melhor pra nós. — disse Frank abrindo a porta e saindo.
— Tio Fred, desculpa pelo que seu irmão brutamontes me obrigou a fazer...
— Olha essa língua. — disse Frank ao filho.
— Não, acho que... devo até agradecer. — afirmou Fred.
— Ué, por que? Te dei um baita golpe pelas costas, é um ato bem traiçoeiro. Mas me desculpa, eu tava neurótico.
— Tudo bem. Isso aqui é prova cabal pra você de que sou eu, Fred Montgrow, que controlo esse corpo? — perguntou, levantando a mão direita e a acendendo com a luz angelical, intensificando-a mais e mais.
— Tá, tá, me convenceu, apaga isso aí. Mas toma cuidado, o maldito pode estar selado, mas ainda influenciar o uso dos seus poderes.
— E o lance do Nero, resolveram?
— Já, agora vamos a missão de encontrar minha mãe.
— Já encontramos ela, Nathan. Você entendeu o recado. Concordamos eu e ela de...
— Só que eu não! Não entendo porque querem desistir assim um do outro, vocês se amam. Mas eu vou convence-la a fazer a coisa certa!
O híbrido fez menção de seguir sozinho, mas Frank o agarrou pelo braço.
— Me solta, pai. Vou trazer a mamãe pra ficar segura, Nero pode querer machuca-la.
— Ela tomou sua decisão!
— E posso reverter. Com ou sem você. — disse Nathan que resolveu caminhar solitário.
— Nathan, volta aqui. Nathan! É perigoso andar a pé sozinho nessa estrada! — ordenava Frank que foi tocado no ombro por Fred.
— Frank, dá um tempo, tá tratando ele como se tivesse dez anos. Deixa ele ir, sabe se cuidar.
Frank melancolicamente o observava partir como um notívago errante. Com a cabeça pesando, retornou ao carro com Fred.
— Dirige você. Tô cansado. — disse Frank — Não entendi porque tá grato por deixar você preso.
— Conta a sua história primeiro que eu conto a minha. — disse o nefilim girando a chave — Cadê o espelho interno?
O BMW saiu dando a meia-volta enquanto Nathan caminhava na direção oposta, a expressão de insatisfação pura que, todavia, não escondia a esperança de consertar seus pais.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://mitologia.guru/seres-mitologicos/medusa/

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