Numa casa da área suburbana, um grupo de quatro amigos médiuns realizava uma sessão de projeção astral reunidos em uma mesa na sala de jantar da residência. Dois homens e duas mulheres que fisicamente seguravam as mãos uns dos outros enquanto cumpriam uma espécie de inspeção rotineira no mundo espiritual sem serem vistos graças à corrente. Se um elo sofresse quaisquer interferências externas, comprometeria o sigilo da missão.
— Sinto um desequilíbrio... — disse Tom, o anfitrião — Toda essa escassez pode ser um reflexo desse provema.
— Os espíritos perdidos talvez estejam sendo atraídos pelos espectros a serviço da força maligna que destruiu Danverous City.
— Mas não dependeriam de uma anomalia pra que fossem atraídos. Confio na análise do Tom, tem algo distorcendo o equilíbrio.
— E esse algo está aqui ou lá fora?
— Eu consigo sentir rastros... Acho que é magia de bruxaria, exala uma podridão horrível, a pior que já senti espiritualmente. A influência do mal supremo chegou até aqui e vai fazer morada se não fizermos nada. Está se expandindo muito rápido.
— Vamos desfazer a corrente antes que algum efeito inesperado desse distúrbio nos afete em ambos os lados.
Os quatro soltaram as mãos simultaneamente. Mas a vela apagou-se como por um soprar do vento. Depois, reacendeu mais forte. O anfitrião fora possuído, os olhos revirando.
— Identifique-se. — exigiu Dehlia.
— Sou eu, John Cober. Numa época dessas, mão deixaria pra depois reencontrar velhos amigos ainda encarnados. Mas não trago boas notícias.
— Ficaremos mais tranquilos se não for nada além do que sabemos.
— A barreira entre os mundos está a beira do colapso, caindo pedaço por pedaço. As larvas astrais que vi espalhadas por toda parte prenunciam.
***
Naquela manhã de sol ameno, Fred havia saído cedo do bunker sem avisar previamente a Frank, o que deixara-o um tanto chateado pois nunca tomara tal atitude. Já o detetive se debruçava numa caçada frenética num hospital psiquiátrico inativo juntamente com Dynno e os membros da divisão americana da Insurgência. A interdição do local se deu por frequentes manifestações paranormais relatadas por funcionários, anteriormente ignoradas visto que os pacientes denunciavam as ações incomuns de início.
Com a migração dos ocupantes, o hospital se manteve inutilizável sem apoio do governo californiano para reformas de infraestrutura, não sem antes o mal sombrio que lá habitava ser expurgado definitivamente. Afrontando a sanção presidencial que marginalizava a atividade de caçadores, endossada pelos irmãos de Elton Hartley - ainda tido como desaparecido —, o grupo se movia pelos corredores do hospital armados com balas enchidas de sal grosso. Frank entrou numa sala de reuniões e foi calorosamente recebido por cadeira sendo atraídas contra ele.
O detetive entrou correndo para um lado e rolou para ficar embaixo da mesa, as logo o móvel foi sendo destruído pela fúria do espírito, forçando-o a se arrastar até a outra extremidade antes que a força esmagadora o alcançasse. Frank virou de barriga para cima e atirou com sua metralhadora. A mesa foi virada, o deixando exposto e lá estava o fantasma vingativo de um homem de família campestre babando ectoplasma, levitando com olhar de cólera. Frank foi arremessado contra a parede por telecinesia, mas reergueu-se e sacou uma granada. Porém, o pino emperrou.
— Sai... Merda! — disse Frank que recebeu status de Dynnl via comunicador no ouvido.
— Frank, parece que os métodos tradicionais não funcionam como antigamente! Precisamos do último recurso!
— O Fred?
— Não, o Beetlejuice!
— Não faço ideia de onde ele se meteu! — disse Frank ficando apreensivo com mais fantasmas surgindo a cada segundo e enchendo a sala para encurrala-lo — Quero testar a granada de óleo santo, mas... a merda do pino travou!
— Se o pino sair, jogue e não fique pra assistir! A não ser que queira ser fritado junto!
— Certeza que vai mante-los afastados até purificarmos o hospital?
— É um hospital não muito grande, acredito que sim. Tenta sair daí depressa e liga pro teu irmão!
— Eles me cercaram... — o pino da granada saíra de uma vez — Agora! — jogou o explosivo que rolou pelo chão. O detetive mirou na janela próxima e de ombro pulou contra ela, estilhaçado todo o vidro. Ao cair, ficara sob a janela destruída protegendo a cabeça da explosão intensa que ocorreu cujo fogo somado a fumaça impactaram para fora. Levantou e conferiu a destruição da sala incendiada.
Enquanto isso, Fred seguia na sua caçada que acreditava-se ser solitária, mas não era. O nefilim adentrou num restaurante tendo Nathan como seu parceiro. Ambos entraram armados com rifles munidos de balas contendo sal. O jovem atendente estava em posição fetal atrás do balcão e teve sua atenção chamada.
— O que aconteceu aqui? — indagou Fred.
— Tiveram que evacuar todo o estabelecimento. — disse o rapaz tremendo de medo — Achei que fosse vazamento de gás, mas tinha ocorrido um assassinato...
— E por que você ficou? — perguntou Nathan.
— Eu não sabia pra onde correr. Estavam por toda parte. Talvez ainda estejam... Eu tô preso! Eles vão me matar se eu tentar fugir!
— Tio Fred, cuidado! — disse Nathan pegando o tio pela gola do casaco e o afastando da trilha de querosene que incendiava na direção dele. O fogo alcançou o balcão tomando-o por inteiro. Quatro fantasmas com faces horrendas surgiram diante deles que agiram rápido ao atirar ferrenhamente. Os espíritos sumiam ao serem acertados, sendo mandados temporariamente de volta ao mundo espiritual — Cadê o extintor?
Fred correu os olhos por todo o espaço e avistou o cilindro vermelho perto da entrada do balcão. Pressionou a válvula e liberou a fumaça sobre o balcão. Contudo, o atendente fora tomado pelas chamas e pulou para o outro lado gritando desesperadamente.
— Depressa, não deixa ele chegar perto de mim! — disse Nathan recuando com aflição. Fred mirou a mangueira no jovem, porém o conteúdo havia esgotado. O híbrido caiu batendo numa mesa enquanto o rapaz seguia as cegas em chamas perigosamente se aproximando dele.
— Merda, acabou! — disse Fred que largou o cilindro raivosamente — Vou buscar água!
— Tarde demais! — disse Nathan que acabou sacando uma arma e atirando quatro vezes no jovem envolto em fogo que tombou para trás. Abalado e boquiaberto, o híbrido baixava a arma tomando consciência do ato — Tio, eu... Eu não tive escolha...
— Nathan... — disse Fred indo até ele — O que acabou de fazer foi... muito impensado. Por que não pegou uma dessas toalhas de mesa e jogou nele?
— Me desculpa... Eu agi por mim mesmo.
— Tentando se salvar quando podia tê-lo salvo.
— Ele tava agitado, não me deu brechas! — retrucou Nathan rispidamente — Até porque ele já tinha praticamente morrido com quase todo o corpo incendiando. Eu livrei ele do sofrimento.
— Não, Nathan, isso não é desculpa. Qualquer caçador nessa situação teria pensado numa solução muito melhor que essa. E é chocante vindo de alguém relativamente experiente como você.
— OK, eu omiti um pequeno detalhe sobre mim que fez toda a diferença. — afirmou Nathan, enfezado — A minha maior fraqueza, como híbrido, é o fogo. Para as górgonas também.
O nefilim passou a enxerga-lo com uma compreensão flexibilizada.
— Por isso você tava nitidamente assustado.
— Admito, me desculpa por ser uma completa decepção como parceiro e caçador. Conta isso pro papai, pela primeira vez ele vai concordar plenamente com minha autoindulgência.
— Do jeito que o seu pai anda, capaz dele te cobrir de elogios pelo que fez. Entendo, você só se protegeu, embora pudesse evitar esse fim. — disse Fred pegando seu celular que tocava — Alô?
— E aí, seu fujão! Atendeu só agora, por que?
— Frank, eu agi mal em não te contar da minha saidinha esperta hoje cedo. Meu objetivo era encontrar o Nathan e por sorte consegui.
— E sem me consultar, né? Mandou bem. — ironizou Frank saindo do hospital com os integrantes da Insurgência — Cadê ele?
— Nathan, seu pai quer falar com você, toma. — disse Fred entregando o celular. O híbrido se recusou, andando para sair dali. Fred retomou a ligação — Ele não tá afim. Ainda chateado por você se fechar pra oportunidade de reatar a relação com a Lucy, o grande amor da sua vida pelo qual você desistiu de lutar.
— Eu só quero incluir a Lucy nos meus planos depois que essa guerra acabar, isso se eu sobreviver. — determinou Frank se encostando na picape.
— Mas tecnicamente acabou. Zaratro é fichinha pra Agnes e a convenção dela. Chernobog tá selado em mim, sou a prisão mais segura da Terra, mais que Alcatraz e Azkaban.
— Azkaban? Onde fica essa?
— Nos livros do Harry Potter, seu iletrado. — disse Fred que saía do restaurante — Eu sei que perguntar isso pode ser um gatilho pra reativar meu estado de pai depressivo e solitário, mas... A Lilith mandou alguma mensagem ou ligou?
— Nada. — respondeu Frank, lacônico — Aceita que dói menos. O Dante nunca voltará pros seus braços. Odeio admitir, mas o filho da puta do Malvus te deu um conselho a ser seguido.
— Frank, para, voce não odeia admitir mais do que eu odeio a ideia de passar o resto da minha vida sem um filho meu. Amo o Fred Jr., mas... O Dante é especial num nível que eu nem sabia existir. Não consegui dormir direito pensando em como o Malvus cuidou dele, se é que ele sabe o que significa cuidar de alguma coisa.
— Mas sua mãe, a Kezabel, está lá, deve ter se encarregado de protegê-lo. — disse Frank — Por mais que soe estranho um anjo caído cumprir essa tarefa.
— Ela provou que conserva sentimentos maternais quando apareceu pra mim ontem. Aliás, provou bem antes quando trouxe a Lilith de volta pra me reconfortar sabendo que ela tinha um vínculo comigo. Mas ela teve a chance de me devolve-lo, Frank...
— Calma, não começa a remoer a saudade que isso te causa, vê pelo lado positivo.
— O único lado positivo que consigo ver é voltar a segurar o Dante.
— Onde você e o Nathan estão?
— Na zona norte contendo um surto de fantasmas. Estão espalhados como baratas.
— Que coincidência, nós também aqui lidamos com uns fantasmas da pesada. O Dynno ficou irado por você não ter aparecido. Vou pedir pra ele nos levar até aí. Me fala o endereço.
Após um tempo de espera, Fred avistava a picape verde escuro chegando. Nathan estava dentro do restaurante limpando a bagunça.
— Alguma teoria pra toda essa infestação de fantasmas? — indagou Fred.
— Nunca vimos manifestações como essa. — disse Otto.
— Em Danverous City aconteceu algo parecido, mas os fantasmas estavam sob um feitiço poderoso que os aprisionava em pessoas. — disse Frank recordando da ocasião em que Clancy, líder dos Filhos de Merlin, ficou almas vingativas em pessoas aleatórias como parte do plano de libertar Malvus do submundo. O grupo entrou no restaurante.
— Vamos vistoriar de cabo a rabo. — disse Dynno com seu grupo.
— Nathan. — chamou Frank indo até o filho — Foi mal pela minha postura ontem. Eu quero reconstruir meu laço com sua mãe, mas agora não é o tempo certo. Você a achou?
— Não. — disse o híbrido pondo objetos manchados de ectoplasma numa sacola de lixo.
Frank o olhou tristemente.
— Eu ainda a amo. A perda mais inaceitável que eu sofri foi a dela. Mas você precisa respeitar a decisão dela caso... ela prefira não recomeçar.
— Tudo bem, pai. É infantilidade minha forçar vocês a se tornarem a família que eu desejo. Tô sendo egoísta. — disse Nathan olhando-o finalmente — Ela tem a última palavra.
O detetive fizera que sim com a cabeça, de pleno e firme acordo. O celular de Frank tocara sendo Carrie na linha.
— E aí, Carrie? O casório das bruxinhas vai rolar mesmo?
— Se vai? Hoeckler tratou de organizar uma estrutura completa no cemitério onde vai acontecer a cerimônia. Eu tô no spa, mais precisamente na banheira de hidromassagem. Brincadeira, tô no meu banheiro, mas já me aprontando. Você e o Fred não vão furar, vão?
O Fred obrigatoriamente tem que vir, ele é o padrinho.
— É claro que vamos, só preciso acertar aqui umas coisas com o Dynno. Temos andado bem atarefados nas últimas horas. — disse Frank um tanto preocupado.
Na cozinha do restaurante, Frank fora reportar a Dynno acerca do casamento de Tanya e Lisbell.
— E é isso, ficaremos fora hoje a tarde, mas depois que voltarmos da festa retomamos a patrulha anti-fantasma.
— OK, sem problema. Ficamos de prontidão se um novo surto de aparições rolar, tô sentindo um clima estranho... É que sou meio sensitivo, sabe, pressinto coisas ruins.
— Então me diz um bom pressentimento.
— O único bom pressentimento meu agora é que... você me trará muitos doces dessa festa. — brincou o líder dando uma risada.
— Pode deixar. — garantiu Frank sorrindo de canto com bom-humor.
— Pai, vem aqui. — chamou Nathan — É o tio Fred... Ele tá mal.
Frank veio conferir na sala onde Fred estava sozinho, sentado encostado no balcão no lado do atendente, chorando copiosamente.
— O que houve? Tava atrás dele e encontrei ele assim na maior fossa. — disse Nathan baixinho.
— Te conto depois. Vai lá ajudar o Dynno a recolher o resto do lixo. — mandou Frank. O detetive foi se aproximando do irmão — Qual é, Fred? Sai dessa.
— Frank, eu tentei, mas não consigo. — disse Fred, levantando, a face molhada e abatida — Eu quero meu filho de volta. — soluçava.
Frank abraçara o nefilim para reconforta-lo, mas não encontrando as melhores palavras para convence-lo de uma vez por todas que Dante era uma luta perdida.
***
Um estalar de dedos acordara Elton Hartley subitamente naquele galpão desativado e sem energia elétrica - deixando ao encargo da luz solar atravessar entre os buracos do teto sob um dos quais o magnata via-se sentado numa cadeira e amarrado por cordas de aço. Ainda se reorientando, o demione encarava alguns serafins em volta, dentre eles Adrael, que liderou a operação para custodia-lo.
— Qual de vocês quer começar primeiro?
Adrael se colocou adiante dos demais.
— Eu estou no comando, portanto compete a mim interroga-lo. Meus irmãos apenas vieram pra que eu não suje minhas mãos caos você se reucse a delatar Chernobog e seu serviçal.
— Ah, vão fazer fila pra amassar a minha cara até virar patê? Vão em frente. Imaginem a manchete na primeira página: Elton Hartley reaparece após ser sequestrado e torturado por anjos. E nem pensem que irão me tachar de louco porque... — dizia Hartley que fez uma pausa por incômodo com o sol sobre seu rosto — ... todos vão endossar minha credibilidade ilibada. Bem, não sem ativar um certo modo de programação do chip antiviral...
— Isso é parte da agenda do Grande Mal? — questionou Adrael severamente o agarrando pela gola da camisa branca.
— O que importa se eu disser? Ele se foi.
— Mas há o bruxo que é o discípulo mais proeminente dele, é previsível que ele dê continuidade aos planos nefastos até o fim. Eu ordeno que diga se o que mencionou a respeito da falsa prevenção ao vírus miasma tem relação direta.
— Você não entendem, me matando ou me deixando viver, isso vai acontecer, independente do que...
— O quê? — perguntou Adrael, engrossando a abordagem.
— Um culto! — respondeu Hartley, aturdido — Ah, que droga, o que tem nessas cordas? Tá me dando a maior urticária!
— Uma mistura de óleos sagrados e unguentos. Agora fale, que tipo de culto os seguidores do Grande Mal estão premeditando?
— Que bobagem, falem o nome dele, já não está mais aqui mesmo.
— Ele deve estar tentando nos distrair. — disse Avalah, uma centuriã que sacou sua espada — Vamos fazê-lo levar isso um pouco mais a sério.
— Avalah, não, me deixe prosseguir sozinho. — repreendeu Adrael que voltou-se novamente a Hartley — O Grande Mal realmente foi obliterado pelo nefilim? Você confirma isso com exatidão?
— OK, me pegou na mentira, não dá mais pra sustentar. Ele se foi... e ao mesmo tempo, não. Digamos que aquele cara fortão fez uma desintoxicação... mas ficou com toda a sujeira. Se o virem, digam que sou muito grato.
— Ele o assimilou. — compreendeu Adrael — Então ele o contém como se seu corpo fosse uma prisão inviolável.
— Inviolável? Eu duvido. Aquele cara pode ser incalculavelmente poderoso, mas não o bastante pra mantê-lo trancado até o fim.
— O nefilim tendo sua parcela humana envelhece no ritmo natural. — apontou Emanuel, um anjo de aparência afro-americana, tal qual Adrael, e porte robusto — Quando sua resistência enfraquecer devido a idade ou ele morrer antes disso, o Grande Mal se libertará.
— Não me refiro a expectativa de vida. Falo de tempo contado, a curto prazo. Ele não faz ideia da bomba que plantou em si mesmo. Eu sei, eu senti... A escuridão dele é a mais absoluta do universo. Ele é o próprio desespero personificado. — disse Hartley aos poucos removendo as amarras — E se ele me ensinou alguma coisa... É que luz e trevas são faces de uma mesma moeda. Nesses tempos atuais... você joga cara ou coroa... e o lado escuro vence.
Hartley exibiu seus olhos negros com íris vermelhas intimidadores aos anjos e rompera os fios de aço. Ao se levantar ligeiro, estendeu as mãos inflingindo um poder telecinético num tipo de onda vibratória contra os serafins que foram empurrados pesadamente. Adrael resistiu bravamente sem se deixar cair e sacou sua espada, avançando e desferindo golpes que eram desviados habilmente pelo demione. Hartley o socou no rosto e virou para tentar correr e encontrar uma saída, mas dois serafins o barraram brilhando seus olhos e o pegaram pelos braços para carregarem-no, mas Hartley exerceu força e os derrubo inimigos as mãos nos peitorais dos anjos protegidos e afundou-as, fazendo sangue espirrar no seu rosto.
Adrael usou uma corrente para estrangula-lo por trás, corrente essa bancada com a mesma junção de óleos santos. Hartley deu impulso para trás, voando com Adrael que bateu as costas numa coluna. O anjo chutou as costas Hartley segurando a corrente firmemente.
— Acha que vou ser seu cachorrinho de estimação? — indagou o demione levantando — Metade de mim é humana, mas não me torna menos forte que nenhum de vocês! — disse, puxando a corrente e Adrael para perto dele e o segurou pelo pescoço. Avalah e Emanuel vinham com suas espadas.
— Solte-o, miserável! — disse Emanuel que desferiu um corte vienlento nas costas de Hartley que grunhiu alto e virou-se ao anjo para segurar a cabeça dele e bater contra a sua.
— Avalah, Emanuel... Saiam já! — ordenou Adrael que brilhou seus olhos retirando aos poucos os dedos de Hartley que pressionavam seu pescoço. A centuriã reergueu o parceiro e ambos desapareceram em teleporte, confiando no potencial de Adrael em contornar a situação. O serafim o perfurou na barriga com a espada, fazendo-o solta-lo, em seguida desferindo socos pesados contra o híbrido e uma joelhada no queixo seguida de um empurrão fortíssimo que o mandou direto a uma parede. Adrael se moveu em alta velocidade para fincar a espada no peito de Hartley, mas o demione impediu o golpe segurando antes que a ponta da espada penetrasse na sua carne.
Naquele duelo ferrenho de forças, Hartley busca a provar a si mesmo que seu potencial estava em pé de igualdade com relativa chance de suplantar. Porém, Adrael botara sua mão esquerda sobre a cabeça do híbrido, baixando sua luz castigadora.
— Quando chegar ao Limbo quero que se lembre desta dor eternamente. — disse ele fincando a espada no peito de Hartley que boquiabriu — E também desta. — intensificou a luz que fizera Hartley gritar com seu corpo queimando até os ossos carbonizarem.
Virou as costas para a ossada queimada e presa a parede para olhar os corpos dos irmãos assassinados. Mas uma chegada o fez temer por reprimenda. Raziel viera checar a operação.
— Que resultado mais lamentável. — criticou o ofanin — Se eu soubesse que culminaria em baixas, teria solicitado que o conduzissem até o calabouço celestial.
— Ele se libertou, não tínhamos opção a não reprimi-lo. — justificou Adrael — Se ele subtraiu membros da operação, era cabível reprimi-lo. Disso não pode me recriminar.
— E não vou. Não agora com tantos rumores de uma nova guerra santa circulando em todas as comunidades. Raguel está prospectando isso com cooptação de legiões com o possível golpe, especialmente agora com os querubins caídos livre do Limbo. Quem provocou essa distorção, afinal? Se sabe, me dê um nome.
— Lilith, de acordo com Frank. Mas puni-la não reverterá a situação. Talvez o bruxo sim, as encobre seus rastro. O que faremos quanto ao nefilim?
— O que tem ele? O híbrido compartilhou algo sobre seu exorcismo?
— Disse que ele vai fraquejar no seu esforço en segurar o Grande Mal. Por que não agrupa o seu batalhão para fixar o selo da prisão nele?
— Foram necessárias sete legiões para aprisiona-lo. Raguel assumiu o controle de seis — Receio que teremos de esperar pra vermos. Como nefilim, ele é altamente imprevisível. Devemos estar preparados para a pior de todas as hipóteses.
***
Na casa da floresta, alguém batia à porta. Um dos demônios serviçais de Lilith fora atender a visita com relutância. Este possuía um jovem rapaz universitário. Abrira a porta, descobrindo ser Fred.
— A Lilith tá aí?
— Só tem eu aqui, volte mais tarde. — disse o demônio que rapidamente fechava a porta, mas Fred barrou com o pé direito.
— Vim ver o meu filho.
— Ela saiu com o bebê. Pra onde eu não sei. — disse o demônio que logo insistiu em fechar a porta, porém Fred forçou abertura com o braço, entrando e jogando-o longe com telecinesia. Seguiu até o quarto onde viu Fred Jr. acordado mordendo as mãozinhas — Tá cometendo um erro!
O demônio exibiu seus olhos pretos e se reergueu para ataca-lo, mas Fred virou-se para ele com os olhos tomados de luz celestial, intimidando-o.
— Se quiser continuar sendo a babá, melhor não me impedir.
— Ela foi fazer compras pra esse bebê idiota, tá legal? Você como pai devia colaborar mais nisso, não acha?
— Eu sei como exercer meu papel. — disse Fred tirando Fred Jr. do berço — Ele tá bem alimentado?
— Esse aí chupou o peito da mãe por umas três horas seguidas.
— Ótimo, tá abastecido. Bateu o recorde do seu irmão hein, espertinho. — pusera a alça da bolsa com enxoval num ombro.
— O que vai fazer?
— Leva-lo pra um passeio. Se contar pra Lilith, você já era.
— Ela vai atrás de você assim que souber. O que tá fazendo é sequestro. E ainda se acha com moral pra criticar o Malvus? Que patético.
Fred tivera um instante de reflexão, julgando-se um tanto hipócrita.
— Pelo menos tenho boas intenções. — disse ele que logo saíra da casa.
***
Num cemitério angelino escolhido a dedo por Agnes, os preparativos para o casamento de Lisbell e Tanya seguiam de vento em popa quase próximos da conclusão. Mesas, cadeiras e um painel em arco ornamentado com rosas brancas além de um altar foram postos como decorações principais. Miyako e Natasha, com elegantes vestidos, vinham receber Frank e Fred - que trazia Fred Jr. nos braços.
— Imaginei que preferissem ficar no trabalho. — disse Natasha tomando um taça de champagne antecipada — Tá tudo sob controle?
— O Dynno e a galera dão conta, nós tínhamos que vir, principalmente o Fred que é o padrinho.
— Hum, tinha esquecido. — disse Natasha olhando para o nefilim.
— E olha quem ele trouxe. Convidado supresa. — disse Frank referindo-se a Fred Jr que usava uma touca verde claro.
— Oh, quem é esse fofucho? — indagou Miyako se derretendo ao ver o bebê.
— Um dos meus novos herdeiros. — respondeu Fred mostrando-o a caçadora que o paparicava.
— Ele não herdou a natureza da mãe, né? — perguntou Natasha.
— Felizmente não. — disse Fred, sério ao pensar em Lilith. Carrie vinha com entusiasmo. A assistente usava um vestido violeta.
— Não acredito. Qual deles você trouxe?
— O cem por cento humano.
— Então você não recuperou o Dante?
Frank fizera um sinal com a mão movendo sob o queixo para ela cortar aquele assunto.
— Acho que nunca mais vou tê-lo nos braços.
— O que aconteceu? Sequestraram seu outro bebê? — perguntou Miyako.
— Pois é... Minha namorada demônio simplesmente me trocou pelo próprio diabo em pessoa e ele raptou meu filho para obriga-la a casar com ele e juntos serem uma família estável e feliz com o novo príncipe do inferno.
— Você parece bem com isso. — apontou Carrie — Eu tenho esperança que essa situação vai virar ao seu favor, Fred, de um jeito ou de outro.
— Queria partilhar dessa esperança, mas não dá, perdi o Dante, talvez pra sempre, e não vou medir forças com o Malvus quando o que eu mais quero é ficar em paz, pelo menos enquanto a guerra não volta já que o Zaratro pode assumir a dianteira e atacar em breve.
— Vai tentar seguir em frente apenas com ele? — questionou Carrie.
— É a saída que me resta. — disse Fred com o emocional menos reativo — E o Fred Jr. tá querendo participar da conversa. — falou quanto aos gemidos altos do bebê, tornando a sorrir.
— Fred Jr.? — disse Natasha.
— Nome provisório. — respondeu Fred — Mas ainda vou decidir se mantenho esse ou mudo.
— Tá com pressa de falar, é, coisinha linda da tia? Posso segura-lo um tempinho, por favor? — pediu Carrie, encarecidamente — Assim como não vou a casamentos, também não interajo com bebês faz séculos.
— Fica à vontade pra dar um rolê. Mas não deixa apertarem muito as bochechas dele. — brincou Fred entregando-o. A assistente fora andando com Fred Jr. até as amigas de Agnes — Tomara que não aconteça nenhum acidente.
— Relaxa, a Carrie já perdeu um filho, mas não a experiência maternal. Uma vez mãe, sempre mãe. — afirmou Natasha que tomou um gole do champanhe.
— O casório mal começou e você já tá bebendo. — reparou Frank.
— Convidados vips tem autonomia. — respondeu a caçadora bem-humorada, erguendo a taça.
— Será que eu sendo padrinho tenho direito?
— Tem uma sidra britânica trazida pelos amigos da Agnes que é a melhor de todas. Quer experimentar?
— Só não conta pras noivas. — disse Fred seguindo-a — Ah, Miyako, tá vindo aí uma surpresa daquelas pra você.
— Supresa... pra mim? O que é? — indagou a caçadora nipo-americana, ansiosa.
— Se quiser uma dica, só pedir. — disse Fred.
— Natasha, tira ele daqui. — pediu Frank em tom de brincadeira. O nefilim foi conduzido a mesa de comes e bebes pela caça-vampiros — Tá preparada? Vai ser um choque. – disse ele a Miyako que elevava sua curiosidade.
— Ah, Sr. Montgrow, eu fico toda nervosa em situações como essa. Acaba com essa aflição, por favor?
Frank voltou-se para o BMW e bradou:
— Pode vir!
Nathan enfim saía do veículo pela porta defronte a Miyako. A caçadora foi tomada de perplexidade ao ver a figura do seu amado em carne e osso regressado dos mortos. O sol da tarde passou a brilhar mais intenso para ela.
— Não acredito... — disse ela, sorrindo cética e maravilhada.
— Pai, melhor segurar ela, tá com cara de que vai desmaiar. — falou Nathan sorridente se aproximando. Miyako correu para abraça-lo e o híbrido a segurou e levantou girando com risos. Frank sorriu aberto vendo ambos se beijarem apaixonadamente — Não havia um minuto preso naquele inferno que eu não tivesse pensado em você. Foi meu pior castigo.
— Idem. Eu sofri tanto... mas tanto... com a sua falta depois que fiquei sabendo um pouco tarde que você tinha morrido. — disse ela chorando emocionada — Mas desse dia em diante... só até que a morte nos separe.
— Espera pelo pedido de casamento, né, apressadinha. — disse Nathan novamente a beijando — Acredita que devemos gratidão a um demônio por estarmos juntos de novo?
— Nesses tempos bizarros... acredito sim. — respondeu Miyako rindo com o amado — Vem, a cerimônia vai já começar. Não vem, Sr. Montgrow?
— Vou esperar o Fred. Os pombinhos podem aproveitar a volta do namorico.
Nathan e Miyako foram de mãos dadas até as fileiras de cadeiras, ávidos por fazer da relação algo definitivo. Agnes se aproximava atrás dele.
— Estou feliz que reencontrou seu filho.
— Opa, oi Agnes. — disse ela virando-se para ela — Pois é, meu garotão tá de volta a minha vida, espero que pra nunca mais sair outra vez. Aliás, até que eu saia, porque os filhos devem enterrar os pais, não o inverso.
— De pleno acordo. Não sabia que ele e a Miyako tivessem um relacionamento. Aprova sua nora?
— Claro, ela é a areia certa pro caminhão dele. Olha, desculpa por eu e o Fred não termos vindo com nossos trajes de gala. Estávamos no meio de um caso. Ainda estamos, na verdade. Só fizemos uma pausa pra marcar presença aqui.
— Carrie me falou. Sem problemas, é uma cerimônia modesta para os padrões bruxos.
— Trouxe sua caravana inteira? — perguntou Frank olhando em volta — Pra um casamento marcado quase de última hora, tá bem cheio.
— Uma boa parcela já estava aqui em Los Angeles. Os demais vieram por magia de teleporte e acompanhados de amigos.
Fred vinha até eles tomando a sidra britânica.
— E aí, Agnes. As noivas andam na maior expectativa, né?
— Elas não são as únicas. — revelou ela, séria.
— O que quer dizer? – indagou Frank.
— Lilith me procurou há poucas horas pedindo um novo favor, dessa vez um feitiço de proteção física. Ela... — olhou meio triste para Fred — ... decidiu que se casará com Malvus ainda hoje.
O nefilim não manifestou queixa, apenas virou o resto da sidra num único gole e se afastara.
— Vou ficar na cola dele pra não fazer besteira. — determinou Frank.
Minutos mais tarde, o casamento tivera início com Hoeckler exercendo a função de padre usando um smoking preto. Carrie estava sentada a direita de Giuseppe enquanto Frank e Fred estavam lado a lado na mesma fileira. O detetive viu Nathan com Miyako no outro bloco de cadeiras à esquerda e sorriu dando um joinha e uma piscadela para o filho que retribuiu.
— O que foi? — indagou Fred.
— Nada, é que... ainda tô processando a volta do Nathan. E vendo ele e a Miyako assumindo de vez a relação, a chance de me acertar com a Lucy e o Chernobog fora de cena... me dá uma sensação de que as coisas vão se ajeitar.
— Menos pra mim. — disse Fred, pessimista.
Hoeckler finalizava o discurso.
— Enfim, eu as declaro... casadas. — disse ele gerando salvas de palmas — Hora das alianças. Cadê a dama a honra?
Miyako saiu depressa para levar as alianças, passando pelo tapete vermelho e jogando pétalas de rosas de uma cestinha. Entregou sorridente as alianças. Lisbell e Tanya as puseram uma no dedo anelar da outra, vivendo o que consideravam o dia mais feliz de suas vidas. Selado o matrimônio, beijaram-se, fazendo todos levantarem em aplausos. As bruxas olharam sorrindo para os convidados, suas cabeças tocando-se em pose às fotos.
Enquanto isso, na catedral de Los Angeles, Zaratro e Malvus protagonizavam um bate-boca ferrenho sobre o papel do bruxo.
— Eu não admito ouvir tamanha calúnia! — reclamou Zaratro.
— E vai ouvir mais caso o poder suba a sua cabeça achando que pode usurpar a autoridade do mestre. — rebateu Malvus.
— É meu dever como servo de elite conduzir o que ele planejou. Se o nefilim o mantém trancado, eu assumo daqui.
— Tem muito a agradecer. Se não fosse pelo mestre, seria mais um zero à esquerda.
— Capaz de fazer você agonizar queimando no próprio fogo. — retrucou Zaratro aproximando-se. O anjo caído andava adiante.
— Por que não testamos isso agora?
— Ei, nada de conflitos! — disse Kezabel aparecendo entre eles e apartando — Basta dessa discussão. Vão assustar mais meu neto.
— Já que é a avó, por que não fez esse fedelho calar a boca? — questionou Malvus.
— Já que você é o novo pai, por que não se conecta a ele? — contrapôs Kezabel — Ah claro, não tem o traquejo paternal do meu filho.
— É justo o seu filhinho que tem o mestre como cativo. O bruxo poderia exorciza-lo?
— Facilmente. — garantiu Zaratro — Mas não posso faze-lo sem antes um receptáculo novo e tão forte quanto ser escolhido. Ah, lembrei, aqui estou eu disposto a me oferecer.
— Você sendo a casca do mestre!? Que ultrajante. — criticou Malvus.
— Posso trazer Fred pra cá, ele não desconfiaria da própria mãe. — disse Kezabel.
— Ah, desconfiaria. — disse Lilith surgindo perto do berço onde estava um choroso Dante.
— Nem pense em leva-lo. — disse Malvus categoricamente.
— Eu... — disse Lilith pegando o filho no colo — ... vou só amamenta-lo. Ele está com fome.
— Lilith... — disse Kezabel.
— Kez, há quanto tempo. — disse a demônia calando o choro do filho ao dar-lhe o seio — Como está o placar entre nós? Um a um?
— Dois a um. Pra mim. — respondeu, altiva.
— Tomou sua decisão? — perguntou Malvus.
— Já. — disse Lilith, firme — Aceito.
O anjo caído se deixou sorrir malicioso ao ouvir a resposta que aguardava.
Mais tarde, o cair da noite tornou a festa mais agradável. Muitos dos convidados, bruxos e bruxas, dançavam como num baile aristocrático. Mas para Fred a festança era motivo para encher o seu tanque de álcool.
— Eu sinto falta de escutar... o choro do Dante. São os meus garotos, ela não pode afasta-los de mim... — disse o nefilim tomando uísque direto da garrafa, quase embriagado. Estava sentado à mesa com Nathan.
— Mas você tem o Fred Jr. ao seu alcance.
— Não é o suficiente, quero os dois comigo, criar eles como irmãos próximos.
— Olha, tio, desencana, por enquanto. O Dante está e vai ficar bem, apesar das circunstâncias.
— Sabe que foi esse o conselho que seu pai me deu hoje cedo? Mas você tem mais tato que ele. Teu pai anda numa corda bamba... e não tá com medo de cair não, hein. — tomou outro gole.
Frank confabulava com Agnes acerca do irmão.
— O Fred tá disfarçando bem o sentimento de conservar uma entidade do mal dentro de si.
— Ele é um nefilim poderoso, vai segurar por um tempo considerável.
— Sei não, ele tá fingindo bem demais, é um ótimo ator.
— O Frank é um péssimo ator. — disse Fred ao sobrinho — Quer me fazer pensar que ele é o mesmo que conheci tendo esse instinto maldito. Mas não, Nathan. Ele tá diferente. Ele é uma bomba-relógio. Se alguma coisa acontecer comigo... cuida dele por mim? Eu amo esse cara, mas ele tá se mascarando demais.
— Deixa comigo, eu cuido sim. Mas e você? Que coisa tão ruim te aconteceria? Você é bem superpoderoso, mais que qualquer anjo.
— Te contar um segredinho: eu tô ferrado. Por dentro assim como o Frank. Mas muito pior.
— E se for o Chernobog? — especulou Frank — Se o Fred tiver caído na lábia dele? Eles mal trocaram socos na hora H. Poderia ser uma estratégia pra se infiltrar, a velha arte do "mantenha seus inimigos ainda mais perto".
— Não seria implausível. — disse Agnes, pensativa — Mas não fique remoendo isso ou pode ficar paranoico. Não devia estar com ele?
— O Nathan tá tomando conta dele.
— Tenho que ir, as recém-casadas estão me chamando pra maratona de fotos. — disse Agnes vendo as bruxas acenarem, levantando.
— Cadê o papai hein? — indagou Nathan.
— Deixa ele onde estiver, bom que não me enche o saco. — disse Fred tomando outro gole. Miyako vinha pegando Nathan pela mão.
— Me concede a honra desta dança, meu nobre cavalheiro?
— Com prazer, minha cara dama. — disse Nathan sendo puxado — Tio, até mais, gostei do papo, mas modera aí na bebida. Ah, tá aí o papai. Ele é todo seu. — falou a Frank.
— Fred, me passa essa garrafa.
— Me deixa afogar as mágoas em paz, Frank.
O detetive avistou alguém familiar um pouco distante da área da festa. Era John Cober, seu velho e falecido amigo.
— Chega, me dá isso aqui. — tomou a garrafa de Fred e a esvaziou.
— Você é um chato, sabia? — disse Fred, irritado, levantando — Onde é que você vai?
— Falar com alguém do passado.
Carrie vinha devolver Fred Jr. que adormecera.
— Fred, toma ele aqui. Acabou de dormir depois de tantos paparicos.
— Demorou hein. — disse Fred pegando-o de volta — Não chorou com fome?
— Nenhum minuto. Acho que ele se divertiu.
— Ele não é como o Dante que se estivesse aqui teria chorado uns cinco minutos depois de chegarmos e não pararia. Vou nessa botar ele no ninho redutor lá no carro.
— Cadê o Frank? Parece que ele evaporou.
— E eu sei lá pra onde foi aquele imbecil.
— Você tá bêbado?
— Depois passa. Acredite se quiser, minha embriaguez é temporária. Sou estranho, esqueceu?
— Ah bom, mas cuidado quando for coloca-lo, não esqueça de trancar as portas e ligar o alarme.
Frank foi passando entre os convidados com os olhos cravados no médium. A aproximação deles culminou num longo abraço.
— Você me pegou desprevenido, porque é estranho... dar de cara contigo quando tinha alcançado a eternidade. Mas tô feliz de você aparecer.
— Há quanto tempo hein, Frank? Mas a razão desse nosso reencontro tem ligação com um problema gravíssimo. Notou que também estou mais palpável? Como se não tivesse desencarnado?
— Tem razão, senti o teu abraço menos fantasmagórico do que eu esperava. Foi pra isso que me procurou? Tá rolando alguma disfunção no mundo espiritual? Porque do meu conhecimento, mao era pra você aparecer como se fosse um errante, por isso congelei quando te vi, afinal você tinha falado que conquistou a paz naquele dia em que fui julgado pelo Radamanto.
— Falei sim, mas esse distúrbio me permitiu cruzar as fronteiras. Da eternidade ao mundo espiritual, do mundo espiritual pra cá. Só não cheguei ainda ao Oblívio porque não morri três vezes e quero permanecer aqui sem arriscar cruzar a fronteira pra lá.
— Oblívio? É outro plano metafísico?
— É pra onde Radamanto condena almas que são revivida ao limite de três vezes, desrespeitando a ordem natural. Pra ser mais preciso, ele nem mesmo as julga, encarrega soldados das trevas para matá-las. Daí são imediatamente sentenciadas e do Oblívio jamais podem voltar a esse plano, não importando por qual meio.
— Esses soldados devem ser os cavaleiros sombrios. Eram servos do Rei Arthur que foram corrompidos pelo miasma do Chernobog. Eles foram derrotados. Sem querer me gabar, mas já me gabando, todos eles por mim. Digo, a maioria.
— Esse miasma deve ser a essência que vem desestabilizando o véu que separa os mundos físico e espiritual. Se a barreira ceder por completo, toda e qualquer alma alçada à paz será tragada pelo Oblívio assim como os errantes bons e ruins. Toque em mim, vou lhe mostrar algo.
Hesitantemente, Frank tocara no ombro de Cober. Ao fazê-lo, foi teletransportado com o médium para uma rua aleatória.
— OK, mas... Parece tudo muito tranquilo.
— Aí que se engana. — disse Cober que cobriu os olhos de Frank por um segundo lhe conferindo uma habilidade temporária. O detetive recuou meio assinado ao ver a poucos centímetros dele uma criatura grotesca semelhante a um verme com um aspecto também remetido ao carrapato. Era cinzenta e com segmentações no corpo, havendo várias espalhadas pela rua, seja no asfalto, nos postes ou nas casas.
— Argh, que bichos nojentos são esses, John?
— Larvas astrais. Só fantasmas as veem. Se nutrem de ectoplasma e, especialmente, energia negativa, o que há de sobra. Uma vez que grudam num espírito mau, não soltam até drenar todo o fluido e a alma definhar. Essa proliferação delas é decorrente da queda da barreira.
— Então é melhor chamar o controle de pragas espiritual. Os caça-fantasmas iam se amarrar nesse trabalho.
— Frank, preciso que chame alguém forte o bastante pra restaurar a barreira antes que j.a horda de fantasmas vingativos espalhe o caos. Ela não vai se restaurar sozinha.
— Desde quando isso começou?
— Quatro dias, aproximadamente.
— Há quatro dias, um feitiço de bruxaria pesada trouxe de volta todos os monstros do Limbo. Talvez tenha sido isso. É de uma bruxa que precisamos. Estamos com sorte, tenho três disponíveis.
— Pois então avise a elas. O tempo está se esgotando, com a barreira por um fio os dois mundos se colidem e será um desastre.
— Não se afoba, vai correr tudo bem. — disse Frank que o tocou no ombro emotivamente — Pena essa ser talvez nossa última conversa.
— Se for digno da Eternidade, não se esqueça de me procurar. — disse Cober, sorrindo leve e tocando no braço do detetive — Conto com você.
Frank foi repentinamente mandado se volta a festa. Piscou os olhos se reorientando em meio às pessoas e logo saiu buscando as bruxas.
Na festa, a tradicional jogada de buquê estava prestes a ocorrer tendo Lisbell sido a escolhida para o sorteio da suposta futura noiva. Frank passava por entre os convidados para chamar Agnes, mas a mesma participava da brincadeira junto a Carrie, Miyako, Natasha e outras bruxas da convenção.
— Três... Dois... Lá vai! — disse a bruxa ruiva que jogou o buquê para trás entusiasticamente. A felizarda fora ninguém menos que Miyako numa pegada certeira e sem muita disputa. A caçadora sorriu emocionada em meio aos calorosos aplausos, gritos e assobios. Ela olhou para Nathan que veio até ela e ambos beijaram-se apaixonadamente. Frank finalmente fora tratar com Agnes.
— Ei, preciso de um favorzinho seu.
— Problemas?
— Dos grandes.
Repentinamente, uma névoa baixa e gélida encobria parte do espaço causando interrogações nos bruxos. Em seguida, uma ventania intensa que balançava as árvores e até derrubava as mesas e cadeiras soprou da direção de onde se avizinhavam presenças espectrais correndo de encontro ao festejo. Um bruxo tivera a cabeça acertada por um grande machado arremessado de frente sendo o estopim para o alarido de pânico. Homens de faces horrendas montados em cavalos pretos esqueléticos com ossos da costela expostos e olhos vermelhos chegavam invasivos atacando com armas brancas e de fogo.
Outros que vinham a pé agrediram bruxos de várias formas, degolando, esquartejando, estripando etc. Frank foi correndo até Carrie e Giuseppe no meio da celeuma sangrenta.
— Frank! O que é isso? O que é isso? — gritava Carrie ao lado de Giuseppe, aterrorizada.
— Vamos por aqui, por aqui! — disse o detetive os conduzindo para uma rota que os distanciasse da algazarra — Nathan! — viu o filho com Miyako lutando contra os indivíduos.
— Tira eles daqui, pai! A gente dá cobertura! — disse o híbrido que socou forte um algoz. Natasha viera com sua espada de prata, golpeando sem misericórdia cada um que se aproximava.
— Bem precavida você hein! — disse Nathan.
— Disicplina de caçadora. — disse Natasha que perfurou outro inimigo vindo por trás sem precisar virar-se — São muitos! Desvantagem numérica numa situação dessas nunca acaba bem!
— Tem uns bruxos lutando, mas... — disse Miyako observando e usando uma mesa como trincheira — A maioria deles tá sendo dizimada!
— Esses caras não são amadores! Cuidado! — avisou Nathan que corria atirando em alguns deles, especialmente nos cavaleiros, abatendo-os.
Agnes e algumas bruxas lançavam ondas vibratórias de energia sombria que repeliu cinco dos assassinos. A bruxa viu que Lisbell e Tanya arriscavam uma fuga juntas, mas pareciam perdidas. Correu para auxilia-las. Um assassino a cavalo veio até elas, o cavalo relinchando, erguendo os cascos dianteiros e soltando jatos de fogo pelas narinas, encurralando-as. Lisbell usou sua magia manipulando o fogo para fechar um círculo protetor. Tanya reforçava a redoma recitando o mesmo feitiço.
— Corram! — avisava Agnes — Magia não os afeta! — mas a bruxa fora pega pelos cabelos por um deles e jogada contra uma pilastra. As duas noivas ignoraram o alerta, mas uma delas pagou o preço.
— Não! — gritou Lisbell ao ver que uma flecha acertara a barriga de Tanya manchando o vestido de sangue. Agentes da ESP vinham massivamente dispersando os malfeitores. O círculo de fogo apagou-se com Lisbell aninhando Tanya em seus braços, chorando — Não me deixa... Aguenta firme.
— Parece que... era um dia perfeito demais pra terminar bem. — disse Tanya.
Frank deixava Carrie e Giuseppe atrás do BMW.
— De onde saíram esses bárbaros? Das sepulturas? — indagou Giuseppe, atemorizado.
— Do próprio inferno. — disse Frank — É a Caçada Selvagem. Deve ser obra do Zaratro, já fez isso antes em Ylon quando rolou aquela praga de vírus Orek. Invocou essa galera e acho que não só pra tocar o terror.
— A ESP já veio dar reforços. — apontou Carrie.
— E vou dar uma mãozinha. Não saiam daí! — disse Frank que correu a procura de Fred — Fred! Peraí... — veio voltando — E o bebê, cadê?
— Dentro do carro. — informou Carrie — Está dormindo, pedi que Fred colocasse ele aí.
Frank verificou o bebê dormindo no ninho redutor nos bancos de trás, logo tornando a correr freneticamente.
O nefilim queimava alguns daqueles caçadores terríveis com sua luz azul tocando-os, intercalando com luta corporal.
— Frank, cuida de salvar quem tá mais vulnerável! O Fred Jr. não acordou, né?
— Ele tá bem lá no carro, dormindo como se o mundo não estivesse acabando ao redor dele! — avisou Frank que socou um dos espíritos.
— Beleza! Tô reunindo energia pra um ataque final!
— Vê se não explode tudo! — disse Frank que tornou a correr, mas assassinos barraram o caminho o forçando ao combate mano a mano. Paralelamente, Hoeckler fugia guiado por agentes até a capela do cemitério.
— Fique abaixado, senhor. Aqui é seguro. — disse um agente. Porém, o mesmo fora jogado a uma parede por uma força telecinética. O outro também, arremessado contra um vitral.
— Mas o que... — disse Hoeckler recuando — Esteja quem estiver aí... Apareça!
Esbarrou num homem de terno preto e gravata vermelha com uma familiar face esguia contendo barba grisalha por fazer e cabelo social também grisalho.
— Não pode ser... Ernest!? — disse Hoeckler, atônito — Finalmente veio resolver suas pendências.
— Não sou o único. Mas cada um com a vingança que lhe cai bem. — disse o ex-diretor do DPDC que agarrara Hoeckler pelo pescoço e pôs contra a parede, ameaçando atravessar seu peito com a outra mão — Não sei porque justo hoje me encorajei ao que devia ter feito há muito tempo, mas não importa! Eu estou pronto.
— Ernest, por favor... Só me ouça atentamente. Eu fui uma vítima também. Era subserviente demais ao meu chefe na fundação!
— A morte veio lhe buscar hoje, Theodor!
Um tiro fora disparado ao alto. Ernest virou o rosto a sua direita vendo Frank ali parado.
— Ernest, não se mova, ele é inocente.
— Frank... Você enlouqueceu, por acaso? Esse facínora encomendou a minha morte em meu momento de glória! O que inocenta ele da maior queima de arquivo da história desse país?
— Fala pra ele. Só vai acreditar se ouvir da sua boca. — pediu Frank a Hoeckler.
— Eu... fui coagido pelo presidente da fundação. A ordem partiu diretamente dele, eu... apenas acatei sem objeções. Sugeri que não usasse força letal, mas ele rejeitou e... apenas repassei o comando. Me perdoe, Ernest. — disse Hoeckler indo às lágrimas — Me perdoe. Eu era outro homem, um egomaníaco sem limites.
— Ele diz a verdade. — disse Frank aproximando-se — Chega, segue em frente, você terá uma eternidade de paz se aceitar o perdão. Vingança nenhuma vale o mesmo que isso.
Ernest fora se deixando esclarecer sua compreensão, afastando-se do seu alvo. A epifania que fazia cair por terra o desejo sombrio de vingar a própria morte. Um ato igualmente egoísta ao de Hoeckler na época. Carrie e Giuseppe chegavam ali.
— É quem tô pensando que é? — indagou a assistente — Ernest?
— Carrie. — se emocionou Ernest. Os dois se abraçaram — Que prazer rever meus dois grandes parceiros. E... olá, ex-substituto.
Giuseppe apenas acenou com sorriso nervoso, ainda chocado.
— Você parece estar... limpo de toda a mágoa. — disse Carrie que olhou para Hoeckler — Você o perdoou?
— Sim. A verdade veio à tona. Mas estive tão cego que não me dispus a ouvir.
— Então... Cadê a luz da Eternidade alçando o seu espírito? — indagou Carrie.
— Meu perdão foi genuíno. Por que não subi?
— É a distorção. — disse Frank — Tá fazendo a barreira entre os dois mundos cair.
— Isso explica todos esses fantasmas assassinos causarem um tremendo massacre. — disse Hoeckler — Aquela deve ser a Caçada Selvagem, certo? Só costumam aparecer como presságios de mortes e desastres.
— E é exatamente o que tá acontecendo. — disse Frank — Mas creio que o Zaratro esteja manipulando essa manada de escrotos.
Uma luz refulgiu intensamente que adentrou na capela.
— O que foi isso? — perguntou Carrie.
— É o Fred! — falou Frank.
— Seu irmão explodiu essa luz sobrenatural?! — dissera Giuseppe, terrificado.
Após se despedirem de Ernest, foram conferir os danos da batalha. Fred se juntou a Nathan, Miyako e Natasha para se encontrarem com Frank e os demais. Em volta, haviam corpos de bruxas e bruxos brutalmente executados.
— Estão bem? — perguntou o nefilim.
— Sim, mas... Os miseráveis passaram o rodo num monte. — analisou Frank.
— Afugentei eles com minha luz. — informou Fred cansado — Mas antes pedi pros meus ajudantes aqui fecharem os olhos e se abaixarem.
— Até que formamos um bom time. — disse Nathan.
— Onde estão as noivas? — perguntou Natasha — Pelo que percebi, aqueles fantasmas eram invulneráveis a magia. Como isso é possível?
— Controlados pelo Zaratro. — informou Frank.
— Talvez ele quisesse me capturar pra arrancar Chernobog de mim. — supôs Fred.
— Estão ali! — disse Hoeckler — Venham! Acho que uma delas se feriu gravemente!
Um agente veio até eles.
— Senhor, temos muitos feridos. Mas o número de mortos é superior.
Viram Tanya, já sem a flecha, deitada no colo de Lisbell que chorava copiosamente. Agnes amparava-a. O grupo aproximou-se.
— A ambulância tá a caminho. — disse um agente.
— Então cancele o chamado. — disse Tanya, fragilizada — Minha hora chegou.
— Não diz isso! Vamos ficar bem... Era pra ser nosso dia épico. — disse Lisbell.
— Valeu a tentativa. Bruxas são indignas de felicidade. Fomos ingênuas e orgulhosas em negar esse fato. — declarava Tanya.
— Agnes, lembra o favor que pedi? Era basicamente sobre esse arrastão de fantasmas. — disse Frank — A barreira entre os dois mundos tá caindo que nem o muro de Berlim. O feitiço que reviveu os monstros e anjos caídos foi que causou essa bagunça. A única forma de restaurar a barreira é com a mesma magia que a destruiu.
— Só tem um detalhe. — disse Agnes, o semblante de profunda tristeza — Esse feitiço... requer um sacrifício.
— Eu faço. — disse Tanya, corajosamente disposta.
— Não, eu vou! — disse Lisbell — Se tinha alguém merecido a pagar com a própria vida aqui era eu!
— Olhe bem pra mim! — disparou Tanya agarrando o rosto da amada — Tentamos feitiços de cura, todos que sabemos, e nada adiantou. Aquelas armas estavam canalizando magia necronomiana pra nos incapacitar. Mas tenho força restante pra reconstruir o véu espiritual.
Inconformada, Lisbell era amparada por Carrie e Agnes. Tanya olhou para Frank e Fred.
— Podem me ajudar a levantar?
Os irmãos o fizeram, carregando-a em ambos os lados.
— Ótimo, já posso seguir sozinha até aquele ponto. Obrigada.
— Tanya, eu... — disse Fred, comovido — Eu sinto muito que precise acabar assim, o casamento de vocês tava maravilhoso, estavam tão felizes...
— Não preciso de consolos, Fred. Só me deixem ir. Sou grata a todos por virem.
— Adeus, Tanya. — disse Frank, desconfortável com aquele desfecho — Nem sua vida ou sua morte foram em vão. Gostei de te conhecer, é uma bruxa dura na queda.
Tanya apenas sorriu emocionada, apesar da dor excruciante. A bruxa seguiu até o local onde conjuraria a magia restauradora. Frank, Agnes, Carrie, Natasha, Lisbell, Miyako, Nathan e Fred ficaram a assisti-la recitar o feitiço. Uma luz desceu dos céus sobre Tanya como uma espécie de onda vibrando sobre seu corpo. A bruxa soltara um grito que expressava a dor sacrificial, o que elevava o sofrimento interno de Lisbell.
O celular de Frank tocara sendo uma ligação de Dynno avisando do que ocorria no prédio.
— Quem era? — perguntou Fred.
— O Dynno. Parece que a rebelião dos fantasmas tá ameaçando chegar no centro da cidade. Nathan, vambora!
— Ei, espera, o Fred Jr. tá lá dentro, nem pensar que vamos leva-lo junto! — alarmou Fred.
— Claro que não, a Carrie toma conta dele. Carrie! — disse Frank indo até a amiga.
— Pra onde vocês vão? — perguntou ela.
— Fantasmas a solta adoidado. — dissera Frank — Temos que controlar a situação até a barreira se restaurar, senão muita gente vai de arrastar pra cima.
— Carrie, toma. — disse Fred dando o controle do carro à ela — Tira o Fred Jr. do carro, ele acordou, tô ouvindo ele chorar bastante faz um tempo.
Foram até o carro do qual tiraram Fred Jr. chorando alto.
— Tadinho, parece que odeia ficar sozinho. — disse Carrie segurando-o e balançando-o para acalma-lo — Boa sorte.
Os três, bem munidos de suas armas, adentraram no veículo que partiu em disparada. Paralelamente, o casamento oculto tivera início no espaço de eventos. O local foi decorado à luz de velas negras com chamas azuis. Lilith, sendo vista pelos anjos caídos, se avizinhava com um vestido e uma máscara pretos trazendo um buquê de rosas vermelhas.
Malvus, trajando um terno preto com gravata vermelha, sorriu infame para a noiva, ansioso para o momento crucial. Como "padre", Zaratro conduzia o discurso cerimonial. Um querubim caído tocava magistralmente uma melodia sinistra no piano.
— Cadê o Dante? — indagou Lilith em voz baixa lado a lado com o futuro marido.
— Repousando no ninho lá dentro. Por que não aproveitamos e o batizamos a seguir?
— Você pensa demais no futuro. Um evento de cada vez.
— Bem, estamos aqui em profano matrimônio... — iniciava Zaratro com o Necronomicon no púlpito aberto na página do feitiço de ligação sanguínea.
Percorrendo uma rua, o BMW era um alvo fácil.
— A Agnes te contou onde o Malvus organizou o casamento? — questionou Fred.
— Tá pensando o quê? Em chegar na hora do "fale agora ou cale-se pra sempre"? Estamos numa missão urgentíssima, não vamos perder o foco! E não, ela não disse!
— Eu só queria saber mesmo, nervosinho. — disse Fred — Tá, tô mentindo, quero arrasar com a festa deles como arrasaram com a minha vida. Mas que se dane, já devem ter consumado.
— Não sei como a Lilith não veio atrás do filhote.
— Ela deve ter levado numa boa.
— É isso? Acabou? Vocês não vão ter uma briguinha que preciso apartar? — questionava Nathan.
Mas antes que Frank respondesse, um grupo de fantasmas odiosos bloqueava a rua.
— Passa por cima, pai!
Porém, os espíritos impuseram telecinesia para refrear o veículo cujas rodas faziam atrito no asfalto e levantavam fumaça.
— Quero acelerar... mas eles não deixam! Vou dar a ré! Vão atirando!
Fred e Nathan disparavam com os rifles em qualquer fantasma hostil se aproximando para cercar o carro.
— Eles não somem! — disse Nathan baleando vários.
— É a barreira! Continuem! — disse Frank.
— Tá vindo centenas deles! Quanto mais atiramos, mais aparecem! — apontou Fred atirando afoito — Não adianta, Frank! Vamos ter que nos esconder!
O detetive concordou saindo depressa seguido de Nathan e Fred. Após abandonarem o veículo, entraram numa casa aleatória, rapidamente fazendo linhas de sal grosso nas janelas e portas trancadas. Fred viu os espíritos furiosos virarem o carro de ponta a cabeça.
— Imagina só se tivéssemos trazido o Fred Jr.
Com a proliferação fantasmagórica, Los Angeles foi tomada por um blecaute, as luzes dos principais bairros apagando-se quase que de uma vez só.
— Excelente. Nada como um blecaute pra facilitar as coisas. — disse Frank.
— Ninguém além de nós na casa. — informou Fred vindo de outros cômodos com lanternas.
— Pronto, sal em todo canto por onde se possa entrar. — avisou Nathan — Estamos presos até esse apocalipse de fantasmas acabar. Alguém tá afim de ouvir uma historinha de terror?
— Eu adoraria ouvir. — disse uma voz masculina grave. Frank reconheceu de imediato.
— Quem disse isso? — perguntou Fred.
A figura de um homem corpulento com barba cheia, rosto robusto e olhar sereno saíra da escuridão para a luz sorrindo cordialmente. Nas vestes usava camisa de flanela vermelha com uma jaqueta verde escura, além de um boné.
— Pai?! — disse Frank, não mais atônito que Nathan e Fred ao ouvirem-no.
No casamento oculto, era chegada a hora de selar o aguardado pacto de sangue. Lilith e Malvus tomaram dos frascos simultaneamente com os braços cruzados se entreolhando. Contudo, Malvus sofrera uma reação que o fez largar o frasco enquanto convulsionava.
— Lilith, o que está havendo? — perguntou Kezabel elegantemente vestida.
— Digamos que modifiquei um pouco a tradição. Aquele esquema era muito defasado. — disse Lilith olhando desdenhosa Malvus cair com veias negras surgindo na pele.
— Sua... vadia ardilosa miserável! — xingou ele — Como ainda está de pé?
— Hum, também aditivou seu sangue? Parece que nossa conexão é telepática também.
— Zaratro... Faça algo, um feitiço que me cure!
— Nada me daria mais prazer do que ver o anjo mais soberbo e petulante padecendo e me implorando por salvação — dissera o bruxo fechando o Necronomicon — Aqui eu me despeço. — caminhou até a saída.
— Ele vai morrer? — indagou um dos caídos — Faremos você pagar.
— Em vinte e quatro horas, o composto com o vírus miasma alterado e diluído no meu sangue o matará, a menos que ele aceite Dante e Fred Jr. sendo criados juntos por mim e Fred.
— E se ele tentou mata-la... Como não a afetou? — questionou Kezabel.
— Proteção mística. — disse Lilith mostrando uma marca no braço direito — Agora você decide, Malvus: viver comigo sem meus filhos ou morrer sem ver Dante ascendendo ao trono.
A demônia se retirou deixando Malvus a fita-la com ódio extremo. O anjo caído fora levado pelos irmãos e soltou impropérios contra a noiva que saboreava sua virada. Enquanto isso, Klaus Montgrow surpreendia ao trio com sua aparição meio brusca, mas muito bem-vinda.
— Fred, é ele. — disse Frank virando-se para o nefilim — Nosso pai.
— Seu pai. — enfatizou Fred, rude. Klaus o olhou com certo arrependimento — Já sabia como ele era, enviava fotos e cartas pro orfanato e a madre Valerie cuidava de organizar tudo. Dentre as fotos, houve uma em que ele brincava com um garoto no quintal com um dinossauro verde. No mesmo dia que vi a foto, lá estava o dinossauro, uma cópia. Aceitei, mas... não parava mais de pensar naquela foto desde então. Eu tinha um irmão que eu não conhecia. Mas o que me torturava mesmo... era saber que tal irmão desconhecido o tinha ao lado dele enquanto eu era apenas o bastardo esperando ser acolhido por um pai postiço. — desabafou, as lágrimas rolando. Klaus foi aproximando-se.
— Sei que sofreu. Mas não tive opção. Sua mãe foi morta no mesmo dia em que você nasceu. Eu não causaria sofrimento a Heather, ela não suportaria o choque de saber de um filho fora da nossa relação. Mas me arrependo das visitas que não pude fazer. Mereço perdão?
Nathan tocou o tio no ombro.
— Vai, tio, diz alguma coisa. Força.
— Você não é meu pai. Um pai divide a sua história com o filho não importa o que aconteça. Mas entendo que precisou priorizar o Frank, portanto o perdoo. Ele é uma versão melhor de você, digno do seu orgulho.
— Os dois são. — ressaltou Klaus — O legado nunca esteve tão honrado. E você rapaz...
— Nathan. — disse o híbrido apertando a mão do avô – Seu neto. É uma honra conhecê-lo.
— A honra é toda minha. — disse Klaus sorrindo.
Gotas de ectoplasma caíam sobre Frank que olhou para cima. Grudado no teto estava um fantasma enfurecido que urrou brilhando seus olhos na escuridão. Fred foi recuando e se armando novamente, acabando por esbarrar no espírito de uma mulher com expressão psicótica e rosto apodrecido atrás da cortina lhe sorrindo.
Mais fantasmas surgiam, arremessando objetos da sala nos quatro. Nathan foi salvo por Frank de um sofá que fora jogado. O detetive pulou sobre o filho, o móvel batendo na parede com impacto. Fred atirava a esmo e Klaus socava alguns que vinham provoca-lo.
— Pai, pega! — disse Frank entregando uma pistola a Klaus.
— De volta aos velhos tempos. — disse o caçador veterano que disparava habilmente nos fantasmas, repelindo-os — Não botaram sal suficiente?
— A queda da barreira fortaleceu eles! — avisou Frank que deu uma coronhada no rosto de um espírito — Tô sem munição!
— Esgotei também! — disse Nathan que usou um abajur de coluna para bater e afastar alguns. Fred largou sua arma e esmurrou uns fantasmas antes de decretar o plano B:
— Fechem os olhos!
Frank e Nathan o fizeram, menos Klaus. O nefilim emanou sua aura azulada angelical de alta luminosidade, amedrontando os fantasmas.
— Frédéric. — disse Klaus maravilhado — Eu o amo.
O trio foi saindo da casa envolto da intensa luz. No cemitério, Tanya se desfazia em cinzas com um sorriso de missão cumprida estampado. Carrie tivera um breve encontro com Arthur e Mark. Lisbell revira Darius e o abraçou fortemente. Uma noite que traria conforto a corações despedaçados pelo luto insuperado em meio ao caos de assuntos mal-resolvidos. A barreira se restituíra, os espíritos pacíficos alçando voo aos céus em formas esféricas de luz branca criando um espetáculo visual para poucos contemplarem na cidade as escuras.
— Adeus, pai. — disse Frank para Klaus que estava coberto de luz na entrada da casa.
— Até logo, filho. — dissera o caçador, logo retornando a Eternidade como globo de luz.
— Tanya conseguiu. — disse Fred olhando as bolas luminosas subirem junto a Nathan. A dupla desvirou o carro com as janelas quebradas — Levantou por si mesmo ou só segurou porque levantei?
— Um híbrido subestimando a força do outro, que deselegante. — brincou Nathan.
— A Carrie acabou de me ligar. — disse Frank — Fred Jr. quer ir pra casa e não parou de reclamar um minuto desde que saímos.
— OK, vou lá agora na velocidade da luz, literalmente. A gente se vê amanhã?
— É claro. — disse Nathan — Por que pergunta?
— É que... Nada, deixa pra lá. Hora de levar o ursinho carinhoso de volta pra nuvem.
***
Logo após colocar Fred Jr. de volta ao berço, Fred teletransportou-se até diante do local onde ocorrera o casamento oculto. Ao entrar no pequeno saguão, foi recebido por Lilith, mas nada amigavelmente. A demônia trazia Dante no colo e usou telecinesia para jogar Fred contra uma parede a esquerda.
— Onde tava com a cabeça em levar o Fred Jr. pra passear sem minha permissão?
— Calma aí, eu já devolvi ele! Só queria mostra-lo pro pessoal, fomos ao casamento das amigas da Agnes, não aconteceu nada com ele, o pus de volta no berço sem nenhum arranhão.
— Como assim sem nenhum arranhão?
— Um exército de fantasmas terríveis causou um massacre na festa. Obra do Zaratro pra me capturar e talvez arrancar o Chernobog de mim. Mas já passou, ele tá bem, até troquei a fralda antes de bota-lo pra dormir.
— Aquele bruxo metido ainda vai se ver comigo, colocou a vida do meu filho em perigo. — disse Lilith balançando Dante que chorava — Que droga, Dante, para! Meus ouvidos doem!
— Dá ele aqui. — pediu Fred que lidou com a relutância da demônia — Confia em mim, não vou rapta-lo.
Lilith o entregava, sabendo que o bebê acalmaria rapidamente nos braços do nefilim.
— Calma, calma... O papai tá aqui. — disse Fred beijando a cabeça meio carequinha de Dante que silenciava — Que saudade eu tava de te segurar, amigão. Dá nem vontade de largar.
— Ele pode voltar a ser seu. — garantiu Lilith.
— Mas ele é meu, não interessa o que o Malvus diga ou faça. Por que tá dizendo isso?
— Porque dei a volta por cima. Fizemos o pacto de sangue, mas ele saiu no prejuízo. Adulterei meu sangue com o vírus miasma cuja cura só eu sei onde está.
— Chantageou ele só... pra eu recuperar a guarda do Dante? Mas como assim? O vírus só afeta humanos.
— Apliquei uma mistura de ervas tóxicas do submundo e foi tiro e queda. Tenho ele sob domínio. Ele vai abrir mão do Dante pela cura e eu abro mão de ser rainha, apesar de casada.
— Um jeito astuto de ficar com os dois. Você é mesmo uma vadia.
— Em alguma coisa vocês concordam.
— Ele já se alimentou? — perguntou Fred sobre Dante, deitando a cabeça dele em seu ombro.
— Por cinco horas seguidas.
— Fred Jr. vai ficar chateado quando souber. Tá com soninho, é? — disse Fred, o bebê bocejando — Pois volta pra sua mãe maluca. — o entregara a Lilith que fora deixa-lo no berço improvisado. Mas ao retornar pada o saguão, a demônia tivera um susto.
— Fred?! — o viu grunhir de joelhos se apoiando numa coluna. Correu até ele, preocupada.
— Não, se afasta, fica longe de mim! — disse Fred mostrando o rosto se contorcendo de dor. Os olhos e o nariz do nefilim sangravam. Fechou os olhos intensamente, resistindo ao máximo.
— O que tá acontecendo, Fred? Me fala!
— É ele! Não chega perto... Avisa ao Frank... Diz pra ele que... — caiu de bruços. Lilith fora ajuda-lo a levantar.
— Tá tudo bem, você é forte, vai contê-lo até você morrer de velhice. Não vou deixar ele tirar você de mim. Eu preciso de você. Nossos filhos precisam.
— Verdade... Eu tô bem. Alarme falso. — disse ele recompondo a postura firme.
— Ótimo, então não passou de um susto.
— Mentira. — disse Chernobog a lançando violentamente contra a parede com telecinesia.
Lilith caiu sobre uma mesa de vasos que se destruiu.
— Seu amado Fred passou a tocha ao meu poder. Ele quase teve tempo pra se despedir apropriadamente, mas... estou com pressa, muita pressa. — disse a entidade, sorrindo, o olho esquerdo de seu novo receptáculo brilhando vermelho, o poderoso olho que tudo que vê. Lilith o encarou desolada.
— Traz ele de volta... Eu quero ele de volta!
— Lamento, mas ele decidiu me aprisionar acreditando ser forte o bastante. Bom, eu tive um grande papel nessa autoilusão. A vanglória é sempre o caminho mais curto para a ruína.
Chernobog se dirigiu até onde Dante fora deixado. Lilith reagiu, mas fora presa ao chão de barriga para cima.
— O que ele mandou dizer ao Frank?
— Que a jornada deles como irmãos tragicamente acabou.
— Se afasta do Dante...
— Seu rebento e eu seremos grandes amigos. Uma relação de cuidado mútuo. Como um pai para com seu filho. — disse Chernobog entrando no corredor.
— Não! — gritava Lilith, impotente e desesperada — Nããããooo!
Frank estava no cemitério com Nathan falando com Hoeckler acerca de Carrie.
— OK, apesar dos pesares... Está liberada. — disse o chefe da ESP — Avise pros seus novos amigos que receberão uma nova hóspede.
Carrie suspirou aliviada. Frank a abraçou de lado. O celular dele tocara.
— É a Lilith.
— Vai atender? — indagou Carrie.
— Deve ser algo sobre o casamento. — disse ele atendendo e pondo no viva-voz — Fala aí.
— Se não quiser vir, posso contar agora.
— Contar o quê?
— Depende. Você quer a má ou a péssima notícia primeiro?
— Tá legal, tô indo pra aí, a Agnes me falou onde fica. — desligou.
— O que será que houve? — perguntou Carrie.
— Um bagulho muito grave e sinistro pra ela falar como falou. Ainda bem que a Miyako tá distraindo o Nathan, senão ele vai querer ir também. Volto logo.
— Acho bom que volte mesmo. — destacou Hoeckler — Pode parecer que ela está do nosso lado, mas casada com Malvus se torna ainda menos confiável.
— Sei disso. — assentiu Frank, logo indo até o BMW.
Ao chegar no espaço de eventos, procurou apressado por Lilith. A demônia aparecera com a maquiagem misturada as lágrimas.
— Lilith, o que houve? E o neném, deixaram ele sozinho na catedral?
— Não, mas... Ele não está mais comigo. E nem o Fred.
— Por que? O que quer dizer?
A demônia se rendeu ao choro. Frank se dirigiu a ela e a tocou nos ombros.
— Fala pra mim!
— Eu sinto muito, Frank.
— Cadê o Fred? — esbravejou Frank sacudindo-a.
— Ele se foi! — vociferou Lilith aos prantos.
A ficha de Frank caía aos poucos, o detetive olhando para o vazio boquiaberto e perplexo.
— Ele veio aqui me avisar que o Fred Jr. estava bem e reviu o Dante... Mas depois tudo desmoronou quando o vi sucumbir ao poder do deus sombrio. Ele venceu, Frank.
— Não, isso não aconteceu... Você que perdeu ele, não eu!
— Nós o perdemos! — decretou Lilith — O jogo acabou. Vamos todos morrer.
Frank lutava contra a negação inexorável. O que lbe restou fazer além de chorar foi bater a cabeça na parede fortemente derramando suas amargas lágrimas pelo irmão.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://www.luzdosanjos.com/blog/como-saber-se-tem-um-espirito-maligno-perto-de-mim/
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