San Diego
Não haviam placas advertindo quanto a limites de velocidade que impediriam Frank de chegar o mais rápido que o BMW permitia à casa de sua mãe após uma ligação feita pela mesma pedindo socorro. Mesmo não especificando a ameaça, nada importava mais para Frank que a segurança da mãe que vivia sozinha naquela casa e tinha apenas conhecidos na vizinhança. O BMW preto passara como um míssil pelas estradas que percorreu até a cidade. Ao dobrar para a rua onde se localizava a residência, Frank ligou por mais uma incontável vez que novamente não lhe conferiu resposta.
Freiou barulhento, saindo correndo do veículo, chegando até a esquecer de fechar a porta. Naquela noite, a casa estava às escuras como de costume, apenas a luz da varanda acesa. Frank vira a porta entreaberta e sentiu o ácido gástrico queimar no esôfago. "Mãe!". Entrou como um touro invadindo, acendendo depressa a luz com o interruptor. Viu a mãe sentada no poltrona reclinável com uma máscara de repouso preta dormindo. Heather a tirou, estranhando ao ver o filho ali parado a fitando.
— Mãe... A senhora tá bem, ufa. O que era?
— Eu não lembro de ter ligado pra você, filho. – disse Heather levantando — Será que não foi algum fantasma te passando um trote?
— Não, mãe, eu ouvi claramente a voz da senhora ligando pra mim pedindo ajuda urgente, acreditei que pudesse ser um assalto, bandidos fazendo você de refém ou incendiando a casa.
— O que bandidos viriam fazer aqui? Não existe nada de valor que valha a pena roubar.
— Existe sim, a sua vida. Não dá pra entender...
— Sei que está confuso, querido. — disse Heather aproximando-se do filho com olhar condescendente — Mas se alguém ligou, estava simulando a minha voz perfeitamente.
— Isso... não faz o menor sentido.
— Eu sei, meu anjo. — disse Heather acariciando o rosto de Frank — A vida também não faz.
De repente, o corpo de Heather foi tomado por labaredas azuis dos pés a cabeça, as chamas desfazendo sua imagem inteiramente. Frank recuou dois passos, reagindo terrificado àquilo. O sorriso sereno permaneceu até a face dela ser consumida pelas chamas. A luz apagou-se e uma imagem horrenda se esclareceu para Frank com a ajuda do luar azul que atravessava a janela. O detetive sentiu o ar lhe escapando dos pulmões ao ver aquele corpo deitado no chão completamente carbonizado sem uma única célula de pele humana restando. A imagem de Heather não era nada mais que ilusória. O cadáver tostado era sua mãe após a ligação.
— Não... Isso não pode ter acontecido. — disse Frank em plena negação — É um truque. Malvus... Aparece, seu maldito! — gritou olhando em volta. Tornou a olhar abismado para o corpo de Heather reduzido a carvão, sentindo a garganta dar um nó e o coração sangrar — Meu Deus... Mãe... — seus olhos marejaram ao se aproximar. Se agachou e viu o colar relicário que sua mãe possuía desde que vivia ao lado de seu pai, Klaus, o pingente se abrindo com fotos de ambos. Frank apertou o colar na mão direita frente a testa, fechando os olhos e cerrando os dentes na tentativa de conter a fúria e a dor.
Depois, percebeu algo escrito na parede adiante. Pegara sua lanterna, ligou-a e mirou o facho nas palavras escritas a sangue. A mensagem dizia o seguinte: "Infelizmente ela morreu sabendo que o filho era incapaz de salva-la. Você não vai querer que todos os próximos estejam certos disso, não é? Portanto, encontre aquela vadia e traga-me a cura!".
Frank desligou a lanterna, boquiaberto, quase sem ar. Não conseguia mais fixar os olhos na imagem da mãe que fora queimada viva sem chance de despedir-se do próprio filho. Pôs as mãos na cabeça andando pela casa de um lado para o outro, uma perturbação incontrolável causada pelo tom ameaçador da mensagem macabra. Sob a influência destrutiva do instinto de Orion, tivera um assomo de cólera, virando os sofá, quebrando vidraças e objetos de vidro e eletrodomésticos pela sala, soltando urros intensos e raivosos que traduziam o tamanho de seu luto inconsolável.
Terminada a quebradeira, o detetive saiu da casa a passos largos em retorno ao carro. Malvus estava encostado numa árvore, quase escondido da vista dele, e o viu entrar no veículo. Sorriu consigo mesmo com sua malícia ardilosa. Ao voltar para o bunker da Insurgência bem cedo da manhã, Frank fechou a porta de ferro com força bruta. Carrie estava sentada à mesa junto a Nathan, Miyako e Natasha tomando café.
— O andarilho da noite chegou. — disse Natasha.
— O bom filho à casa torna. — falou Nathan passando margarina no pão.
— Sr. Montgrow, ficamos sabendo que tinha saído às pressas de madrugada... — disse Miyako notando o abalo na face dele — O que houve? O senhor... não tá com uma cara boa.
— Frank, deu pra chegar em San Diego? — indagou Carrie. O detetive fez um meneio positivo de cabeça andando vagarosamente com um olhar distante.
A assistente levantou-se, a curiosidade insuportável.
— E então, Frank, cadê sua mãe? Ela tinha ligado pedindo que você viesse, né? Que tipo de emergência foi essa?
Frank se encostou numa parede, pensativo e com os olhos novamente querendo transbordar.
— Não era ela. — respondeu ele.
— Como assim não era ela?
— Era o Malvus. — revelou Frank sentando-se e roçando as costas na parede, se deixando cair.
— Pai, você se encontrou com ele? — perguntou Nathan levantando, o semblante sério.
— Não. — disse Frank, secamente — Mas encontrei ela. — a imagem do corpo causticado voltara na mente junto ao soluçante choro.
— E como ela estava? — indagou Miyako.
— Morta. — disse Frank desabando com as mãos no rosto, tremendo ao chorar. Carrie cobriu a boca, pasma. Natasha e Miyako se entreolharam surpresas. Nathan se aproximou do pai, incrédulo e arrasado.
— Minha avó... que eu nunca sequer conheci... foi morta pelo próprio diabo? Não... Não pode ser, o senhor deve ter caído numa armadilha...
— Era real! Ele me deu a ilusão de que ela tava viva, mas não... — disse Frank aos prantos, baixando a cabeça — Queimou ela até os ossos.
Miyako fechou os olhos, pesarosa. Nathan encostou o braço esquerdo na parede, atônito.
— Ele vai pagar caro... Juro por Deus que vou faze-lo pagar! — prometeu o híbrido que socara a parede.
Carrie se aproximou do amigo, derramando lágrimas e se agachando. Dera um abraço, encostando a cabeça do detetive em seu peito e chorando junto a ele como se aquela perda fosse repartida para despedaçar o coração.
— Eu sinto muito. — disse ela, dividindo seu choro enquanto Miyako, Natasha e Nathan vinham coletivizar o luto naquele abraço.
***
No meio da manhã seguinte, uma reunião melancólica ocorria no principal cemitério de San Diego, um amplo espaço gramado com lápides lindamente esculpidas. Sob um céu de nuvens cheias que ora cobriam o sol ora o deixavam brilhar fracamente, Frank despedia-se de sua mãe amparado por Carrie, Nathan e os demais. O detetive estava mais contido em seu pesar, apenas fitando o caixão com uma apatia que não expressava a superação que as fases do luto exigem quando se as atravessa.
Tal apatia significava algo mais intenso e profundo, fervendo como uma fornalha em seu peito. Após a breve oração fúnebre do padre, Frank prestou seu último adeus jogando terra sobre o caixão, bem como depositando sobre a tampa o colar que recusou como herança. As lembranças que gostaria de manter de seus pais felizes como um casal estavam enclausuradas na sua memória e nada poderia retira-las. O colar não passava de um mero objeto perdível, uma materialidade insuficiente comparada ao amor familiar sustentado por anos de lembranças inapagáveis.
Carrie abraçou o amigo ao seu lado, a assistente trajada de preto num vestido, também usando óculos escuros. Nathan e Miyako acompanhavam o sepultamento abraçados lado a lado, as faces entristecidas tal qual a de Natasha que se autocobrava em demonstração sentimental. Dynno, Jasper, Otto e o resto dos caçadores da Insurgência assistiam ao funeral com pesos nos corações por boa parte deles terem perdido seus pais e familiares de grande importância. Agnes e Lisbell permaneciam enlutadas e compadecidas ao detetive, tendo a morte de Tanya ainda como uma ferida jorrando sangue.
"Adeus, mãe. Obrigado por nunca ter deixado sua fé em mim morrer e ter sido essa mulher tão valente quanto um caçador pode ser. Não se prenda a mim e a mais nada desse mundo, só reencontra o papai e... diz que farei justiça pela nossa família como o homem que fui ensinado a me tornar", pensou Frank vendo o caixão descer.
Minutos depois, vinha Hoeckler juntamente a agentes da ESP trazendo belas flores vermelhas, brancas, violetas e amarelas. O presidente da fundação vestia um terno preto com gravata cor vinho. Tirou os óculos escuros ao caminhar até Frank. O abraçou longamente dando-lhe as mais sinceras condolências. Frank o agradeceu. Carrie abriu o guarda-chuva e chamou Nathan e Miyako para ficarem sobre, após uma garoa começar. O céu parecia prestes a chorar o que Frank derramou em lágrimas até aquele momento.
— Frank, eu sei que não é nem de longe a melhor hora pra te informar isso, mas... — disse Hoeckler frente ao detetive.
— É sobre a Lucy? Rastrearam o paradeiro dela? Pode falar, não tem problema.
Nathan virou o rosto aos dois por ouvir a menção a mãe e ficara curioso.
— Ela continua desaparecida. — disse Hoeckler ao que Nathan escutou fechando os olhos em desalento — Na verdade, diz respeito à um prisioneiro que capturamos ontem a noite.
— O que isso tem a ver comigo?
— Ele pediu insistentemente pra chamarem por você. Diz conhecer o caçador mais procurado do país, Frank Montgrow. Mais do que isso, diz ser seu parente. É um lobisomem. — revelou Hoeckler com olhar estreitado — Quer vir conosco fazer o reconhecimento?
Frank assentiu firmemente olhando para o nada com os pensamentos fixos nesse homem.
— Vamos nessa. Sei bem quem é.
Após um longo caminho até o bunker, Frank foi seguindo com Hoeckler pelos corredores da ala carcerária das criaturas apanhadas em décadas de contenção eficiente. Ignorou as anomalias, apenas queria ver o específico prisioneiro.
— E aqui está ele. — disse Hoeckler mostrando-o. Digitou um código, abrindo a grande porta de vidro temperado e reforçado que deslizou para cima concedendo passagem ao detetive — Tem outra coisa urgente que eu pretendo te mostrar, então vou te dar um tempo-limite. Venha até meu gabinete em cinco minutos.
Sem objeções, Frank fizeram que sim com a cabeça, o luto endurecendo o seu semblante que parecia atrofiado.
— Frank! Meu Deus, você tá vivo e parece... bem nutrido pra um caçador com a cabeça mais cara. — disse Steve que usava uma camisa cinza, calças creme e botas de segurança, tudo fornecido pela fundação após encontra-lo transformado em lobisomem num depósito de lixo. Estava algemado e sentindo-se sufoxado naquela cela de paredes brancas.
— Tio Steve... — disse Frank o abraçando — É um tremendo alívio saber que você ainda tá por aqui.
— Eu lhe digo o mesmo. Por um instante, achei que tivessem jogado você à cova dos leões, totalmente as favas. Mas não entendo, você parece até parceiro daquele homem que chefia essa masmorra.
— O Hoeckler, esse cara que me trouxe até aqui... é um amigo meu, somos aliados numa causa em comum, então isso faz de mim uma exceção à regra. É muita coisa pra explicar da nossa relação em apenas cinco minutos.
— Bem, não vamos desperdiçar nosso tempo. Eu tô muito feliz de rever meu sobrinho amado mais vivo do que nunca. — disse Steve sorrindo com seu bigode grisalho — Mas... tem algo diferente em você.
— E o senhor continua o mesmo, sempre ansioso e tenso. — disse Frank tentando fazer um sorriso se desenhar no rosto, mas era incapaz — Eu também tô feliz de te reencontrar depois da temporada que passou no Limbo. E... me desculpa por ter te matado.
— Frank, não carregue essa culpa, por favor. Era eu morto ou Heather morta. A propósito, tem visitado ela nos últimos meses? Como ela está?
A pergunta fizera o coração doer como se tivesse levado uma espetada.
— Tio... Eu não sei como te dizer isso...
— Não diga mais nada. — disse Steve afastando-se de Frank com um olhar abalado para o vazio.
— Olha, eu devia ter ido direto ao ponto, meu tempo é curto... Mas o que tenho pra falar...
— Frank, eu já entendi. A sua cara não me enganou e nem seu tom de voz. — salientou Steve sentando-se na cadeira de aço cromado, visivelmente chocado — Heather morreu. A última matriarca da família... partiu. Quando foi?
Frank suspirou com a boca, fechando os olhos uns segundos.
— Hoje de madrugada. Eu sinto muito... por nós dois termos que viver outra morte na família assim de repente como se um furacão veloz passasse destruindo tudo. A mamãe morrer do jeito que morreu... faz eu me sentir menos merecedor de estar vivo. — desabafou Frank, a cabeça baixa, uma lágrima brotando e caindo
— A mim também. — disse Steve, o nó na garganta o sufocando — Como isso foi acontecer, Frank? A minha irmãzinha... — desabou em pranto abraçado ao sobrinho que o amparou. Um agente viera chama-lo.
— Montgrow, o chefe quer você no escritório dele agora mesmo. O tempo da visita expirou.
— Já vou, só um segundo. — disse Frank em tom rude, olhando por cima do ombro direito. Voltou-se a Steve — Tio, tio... Calma, eu juro que vou trazer justiça a memória dela. Mamãe foi assassinada sem poder se defender e sei exatamente quem a matou e também como fazê-lo pagar, só preciso ganhar tempo.
— Então é ele? Acabe com a raça desse calhorda desgraçado, Frank, pelo amor de sua mãe. Mas se pudesse, eu mesmo o faria.
— Acredite, não pode. Mas me prometa que vai aceitar o confinamento, tá mais do que seguro, o bunker é a prova de invasões e fugas de coisas paranormais. Já perdi a mamãe, não me faz perder você também, não de novo.
— Prometido. — disse Steve enxugando o rosto — Vou me comportar direitinho, daqui eu não vou sair jamais. Eles revogaram minha transferência pra Alcatraz, menos mal.
— Vou indo, tio. Foi bom conversar com o senhor depois de tudo que passamos. Se cuida.
O detetive virou as costas, saindo da sala.
Chegava ao gabinete de Hoeckler que foi logo virando o laptop para mostrar a ele um vídeo perturbador.
— Hoje cedo da manhã. — disse o chefe da ESP — O orfanato Estrela do Amanhã, que, como você sabe, havia sido refundado aqui em Los Angeles há dois anos, sofreu um incêndio supostamente criminoso. Digo, supostamente numa perspectiva jornalística.
Frank se embasbacou assistindo a filmagem do local inteiramente ardendo em chamas azuis que lhe remeteram ao único indivíduo a ser autuado do crime.
— Filho da mãe! — disse Frank, enfurecido de tal forma que batendo o punho direito sobre o teclado do laptop. O golpe fizera a tela apagar e trincar. Hoeckler levantou-se depressa.
— Frank, controle-se! Não vai se beneficiar em nada agindo como um troglodita com sede de vingança!
— E o que você quer que eu faça? Ficar de mãos atadas quando eu tenho esse instinto caçador fervendo no meu sangue?
— Você sabe como isso pode terminar muito pior pra você do que pra quem for morto. — argumentou Hoeckler visando orienta-lo — Passou o caminho inteiro parecendo ter feito voto de silêncio, agora preciso que me fale. Sabe quem é esse tal filho da mãe que você tanto deseja eliminar?
— Não sacou pelo fogo azul? É a porra de um anjo caído! Adivinha quem. — disse Frank, exasperado, os olhos insanos.
— Malvus, o autoproclamado diabo?
— Nada de autoproclamado, ele é o tinhoso em pessoa, foi o primeiro dos anjos a se rebelar contra a vontade de Deus. — disse Frank, andando pela sala afoito — Ele não tava blefando quando disse que mataria todos que me conheceram nessa vida. Ele não disse claramente isso, mas deu a entender e provou isso incendiando o orfanato. — virou-se para Hoeckler — Tem alguma irmã Valerie entre as vítimas?
— Frank, confirmaram que... todos os residentes do orfanato morreram. Não houve a mínima escapatória. Um massacre total.
— Nenhuma criança sobrevivente?
Hoeckler respondeu balançando a cabeça em negação. Frank parecia não ter estrutura psicológica para assimilar a fatalidade.
— Aquele maldito tá afim de me testar... Deve ser a mando do Chernobog... que deve estar se sentindo a entidade mais fodona do universo agora que tá usando o corpo e o poder do Fred.
— Frank, o que mais encontrou na casa de sua mãe além do corpo dela?
— Uma mensagem... feita com o sangue dela ainda por cima. — disse o detetive, a voz embargada — Ele exige que eu entregue a cura do veneno que a Lilith fez ele tomar junto com o sangue dela no casamento.
— Não podemos rastrea-la, Agnes tentou e constatou que as runas que ela fixou na casa e bloqueiam a visão localizadora são necronomianas, não magia negra convencional.
— Ela conhece boa parte dos feitiços do Necronomicon. Fez isso pra escapar do radar do Malvus e manter o Fred Jr. a salvo.
— Quem é Fred Jr.? — indagou Hoeckler franzindo a testa.
— O segundo filho dela com o Fred, o cem por cento humano. Ao menos ele tá meio fora de perigo, não é útil pro Chernobog. Se o Malvus encontra aquela casa, mata ela e o bebê caso não obtenha a cura diretamente dela. Mas a demônia tá bem escondida, enquanto as runas funcionarem, não tem como o Malvus acha-la.
— Então você vai até lá pedir a ela?
— Seria a primeira coisa a se fazer, mas com o Malvus a solta feito um tubarão faminto num mar cheio de presas, torna tudo mais difícil.
— Talvez deva considerar a hipótese de não haver uma cura. — especulou Hoeckler pondo uísque num copo — Se existisse um antídoto, ela o entregaria ontem mesmo durante o casamento e sairia de lá com o bebê de volta a sua tutela. No caso de ser algo realmente mortal, ele cederia o bebê imediatamente com a evidência de um antídoto, o que ela não mostrou. Ela foi mais egoísta do que esperta.
O alarme de intruso berrou alto nos ouvidos de ambos.
— Ah não, esse é o alerta de intruso! — disse Hoeckler pondo depressa o seu fone bluetooth para se comunicar com os agentes mais próximos da ala carcerária — Me dê status!
— Senhor, o monitoramento entrou em contato! Parece que o ESP-3107 ganhou um colega de cela! Um cara de asas negras... é um anjo caído!
Hoeckler olhou temeroso para Frank.
— O que é que foi? — perguntou o detetive.
— Seu tio está com uma péssima companhia.
Um pequeno exército de agentes se moveu rapidamente pelos corredores, armados com metralhadoras munidas de balas derivadas das espadas angelicais dos serafins. A movimentação alarmada chegou em frente e junto dela participava Frank que viu seu tio agarrado pelo pescoço contra a parede.
— Malvus... Solta ele, seu desgraçado! É o meu tio, não vou deixar você tirar ele de mim! — disse Frank sendo barrado por agentes ao tentar ultrapassar — Abram a cela! Me deixem entrar!
— Não temos ordem expressa, Montgrow! Acalme-se! — disse um agente.
— Me acalmar nada, ele vai matar outra pessoa da minha família! Façam alguma coisa ou eu faço!
Hoeckler entrava em contato.
— Atenção, permissão pra atirar caso o alvo seja hostil. Repetindo: permissão pra atirar caso o alvo seja hostil!
— Não podemos, senhor! — disse um deles.
— O alvo foi subjugado, podemos acerta-lo. — disse outro — Montgrow quer entrar na cela e agir por conta própria!
— Se estiverem o barrando, soltem-no. Não há nada que ele possa fazer.
— O chefe negou autorização pra abrir a cela. — disse um dos agentes que barravam Frank.
— Parece que você foi rebaixado a espectador, Frank. — disse Malvus olhando para o detetive de soslaio com um sorriso infame — Esse aqui é o seu tio? Suponho que irmão da sua mamãezinha.
— Não fala da minha mãe, seu miserável... — disse Frank, novamente indo as lágrimas aliadas a fúria. Steve olhara para Frank com um leve sorriso de contentamento.
— Frank... Você é o filho que eu nunca tive e sempre desejei. Eu sei, isso é bem clichê vindo de um tio. Acho que já até falei isso antes. Mas esse é um momento conveniente pra reafirmar isso. Nunca se sabe quando será dito o último "eu te amo". Mas agora tenho certeza... — dizia Steve, o aperto de Malvus no seu pescoço o asfixiando — Eu sempre quis agradecer a Heather por ter criado você... depois que o Klaus se foi. Mas nunca aproveitei, nunca valorizei.
— Agora tem a chance de agradece-la pessoalmente. — disse Malvus criando uma esfera de fogo azul na mão direita — Abra bem a boca... — enfiou-a goela abaixo brutalmente em Steve que tivera os olhos explodidos pelo fogo azulado junto a pele e a carne que eram queimadas camada por camada.
— Nããããooo!!! — gritava Frank empurrando os dois agentes e correndo até o vidro da porta, socando persistente e não fazendo mais que meras rachaduras superficiais — Canalha! Eu vou te matar!
Malvus largou o corpo carbonizado de Steve reduzido a ossos em brasas azuis.
— A cura, Frank. O meu tempo se esvai conforme o dos meus alvos. Apresse-se. Nem imagina quem será a próxima vítima. — disse o anjo caído numa expressão maliciosa que efervesceu seu sangue. Malvus desapareceu em milissegundos deixando Frank arrasado se abaixando enquanto seu rosto deslizava pelo vidro fitando o que sobrou do cadáver de Steve.
***
Retornando ao bunker da Insurgência, Frank se encaminhava para além da sala principal visando ir para seu quarto meditar ou pensar em alguma estratégia.
— Frank, peraí, tá indo pro seu quarto? — indagou Carrie na mesa principal com seu laptop — O que aconteceu lá na ESP? Lisbell me mandou mensagem avisando que um alarme disparou.
Frank virou-se para ela, mas não escondera sua perturbação e tristeza. Carrie levantou-se, preocupada, e caminhou até o amigo.
— Frank, fala pra mim o que houve. Quem o Hoeckler pediu pra você ver?
— Era... Era meu tio Steve. Ele era um lobisomem, lembra?
Nathan vinha chegando com Miyako e Natasha e ouviram o lamento de Frank.
— Sim, eu sei, lembro. — disse Carrie, tensa — Não vai dizer que...
— O Malvus tá cumprindo a agenda que ele prometeu. Mamãe tinha sido apenas o começo. Agora foi meu tio... Perdi ele outra vez. Ele morreu frustrado por não se despedir da irmã que amava mais que tudo na vida.
— Pai, o tal do Malvus atacou de novo? — indagou Nathan se aproximando.
— Dessa vez, foi o seu tio-avô. — informou Frank, pesaroso — Malvus invadiu a cela onde ele tava na ESP, tinha sido capturado por ser um lobisomem.
— Pai... — disse Nathan não conseguindo processar a ideia de toda sua família ser dizimada — Eu sinto muito por essa perda... mesmo eu nunca tendo visto ele. Sabendo que ele morreu nas mãos desse monstro assim como a vovó, me deixa perturbado aceitar que nunca vou conhecê-lo, ainda mais sendo um membro sobrenatural da família.
— Você, ele e o Fred formariam o trio parada dura das ovelhas negras. — disse Frank na intenção de quebrar a atmosfera mórbida. Nathan deu uma risadinha enquanto os olhos vazavam.
— Sr. Montgrow, o que estiver ao nosso alcance pra ajudar... — disse Miyako, engajada.
— Não, Miyako, pode deixar, você e a Natasha fiquem fora dessa. — disse Nathan.
— Eu não vou insistir e forçar utilidade contra uma ameaça que tá fora da minha alçada. — disse Natasha — Qualquer um de nós, exceto você Frank, pode ser a próxima vítima. É do próprio diabo que estamos falando, já provou ser imprevisível. Mas o que ele quer, afinal?
— A cura pra um veneno que a Lilith fez ele tomar com o sangue dela na hora do casamento num pacto que fizeram. — informou Frank.
— Não pode ir até o esconderijo dela e pedir? — indagou Carrie.
— Como posso ir pra lá com esse instinto queimando na minha alma me dizendo pra caçar o desgraçado do Malvus e impedir que ele mate mais alguém? Me diz, Carrie! Você não tem sempre soluções mirabolantes pra me salvar? Pois então, fala aí. — disse Frank explodindo de raiva com a assistente.
— Ei, o que é isso, pai? A Carrie só fez uma pergunta, fica frio aí. — disse Natham tocando no ombro do detetive.
— Não encosta em mim. Ninguém vai me dizer o que fazer pra resolver essa situação. — disse Frank tirando rudemente a mão do filho.
— Frank, tá permitindo o sangue do Orion dominar você, vai se deixar sucumbir ao desejo de caçar como um selvagem. — disse Carrie — Eu, Nathan, Natasha, Miyako e qualquer um que tenha vínculo com você... todos nós estamos a mercê. Mas você é experiente o suficiente pra aceitar o fato consumado de que não é possível salvar todo mundo!
— Eu não posso deixar mais ninguém morrer... — disse Frank pondo as mãos na cabeça em aflição.
Natasha se sentiu no direito de opinar.
— Não quer que ninguém mais morra, mas o que fala mais alto no seu coração? Salvar ou matar? Admita que sua ânsia está toda voltada a caçar o Malvus como se não houvesse amanhã. Por isso não vai pedir a cura pessoalmente a Lilith. Tudo por causa dessa obsessão que instintivamente você obedece.
— Acho que precisa de alguém pra te acompanhar e te manter na linha. — disse Nathan se oferecendo — Pai, sou o melhor com quem pode contar caso você perca o controle.
— E você é quem? O meu grilo falante? Não, não e não! — disse Frank confrontando o filho — Nessa briga só existe eu e o Malvus, ninguém mais se envolve.
— Faz isso porque tá se submetendo ao instinto. — contrapôs o híbrido.
— Faço isso pra proteger você! — rebateu Frank, mais severo que nunca — Então, por favor, parem de se preocupar comigo e deem valor às suas vidas.
— E quanto a sua? — indagou Carrie, atordoada.
— Se desvalorizou há muito tempo. — respondeu Frank friamente. O celular do detetive tocara. Ao ver o número, sentiu um gelar na espinha.
— Quem é? — indagou Nathan.
— Minha tia Sally, a irmã mais velha. Ela é distante, era meio tretada com a mamãe, mas se dava bem com o tio Steve. Nunca tive uma relação muito próxima com ela, mas no pouco que nos vimos ela me tratava bem, me apelidava de ogrinho porque eu era meio marrento na infância. Apesar da distância, sinto falta dela.
— E por que você não atende? — perguntou Natasha.
— Porque ela nunca me telefonou. — revelou Frank transmitido sua tensão. Apesar da desconfiança, apertou no ícone verde e pondo no viva-voz — Alô? Tia Sally?
— Frank, é você? Eu não lembrava de como era o som da sua voz desde a última vez que nos falamos. Já faz tanto tempo, né?
— E põe tempo nisso. A senhora tá em casa?
— Onde mais eu estaria? Fiquei sabendo de Heather e Steve. Oh, meu Deus, eu nem consigo imaginar a dor que você sente.
— Como... a senhora sabe que a mamãe e o tio Steve morreram?
— Um passarinho me contou. Um pássaro de asas negras exuberantes que possui uma voz encantadora... e sedutora. — disse Malvus que mudou para sua voz original na última palavra. O sangue de Frank voltara a ferver.
— Eu sabia que era bom demais pra ser verdade uma parente que nunca me ligou simplesmente fazer isso hoje! — disse o detetive — Cadê ela?
— Lamento, Frank, mas sua doce e gentil Sally foi tirar uma soneca por tempo indeterminado.
Nathan estava visivelmente pasmo.
— Ele copiou a voz dela, foi isso?
Frank fez que sim com a cabeça.
— Mentira, doce e gentil uma ova. — disse Malvus — Ela era o maior pé no saco, você tinha que agradecer por ela se distanciar. — falou olhando para o cadáver de Sally que foi queimada ao ponto extremo e o chutou violento.
— Dessa vez pegou mais pesado imitando a voz dela, seu canalha. Vou atrás de você e te arranco o couro!
— Ou prefere esta? — disse Malvus mimetizando a voz de Heather — Oh, Frank, meu filho, salve-me! Sinto meu corpo ardendo em chamas como se estivesse no próprio inferno, socorro!
Frank fechou os olhos arduamente tentando conter a fúria. Carrie lhe dizia baixinho para manter a calma e a compostura. Malvus simulava um grito de dor com a voz da matriarca.
— Para com isso seu bosta!
Malvus retomou sua própria voz com uma risada.
— Eu só quis estimular sua imaginação. Vendo a própria mãe ser fritada até os ossos como frango passando do ponto no forno. Foi exatamente assim que ela gritou. A sua tia Sally, por outro lado, não fez tanto barulho. Acho que foi por ter eu começado pela cabeça.
— Como você sabia onde ela, a mamãe e o tio Steve estavam?
— O bruxo que meu mestre tem como ajudante especial me passou as coordenadas. O mestre e seu olho que tudo vê reforçaram a precisão. E já estou recebendo a próxima encomenda.
— Então é isso, Chernobog tá facilitando pra você. Por que não espera eu trazer a cura?
— Porque tenho ordem de manter você bem ocupado com esse nosso joguinho de gato e rato. Você é o Tom e eu o Jerry. E deve saber que o Jerry, um mísero ratinho esperto, sempre vence. A presa se sobrepõe ao seu predador.
— Eu ligo pra Lilith, mando ela vir me entregar a cura e acabamos com isso. Ninguém mais precisa morrer.
— Ah, precisa sim, Frank. Você tem muito mais a perder do que pensa. Tic-tac, tic-tac, o relógio voltou a correr. Quem será o próximo? Faça sua aposta com seus amiguinhos.
O anjo caído encerrou a chamada.
— Ele tem uma voz arrepiante... e sedutora também. — disse Miyako que recebeu um olhar reprovador de Nathan — Sedutora num sentido diabólico, é claro.
— Quem poderia ser o próximo? — perguntou Natasha — Será que não tem uma lista pré-definida?
— Não sei, não sei... — disse Frank andando de um lado para o outro, afobado — Carrie, me ajuda a pensar.
— Há mais algum parente distante na fila? — questionou a assistente.
— Tá perguntando isso por que? Conhece minha família nome por nome.
— Eu não sabia dessa sua tia Sally. E sinto muito que tenha a perdido sem nem ao menos um último contato presencial.
— Então da família restam apenas eu e o papai. — disse Nathan — O tio Fred se foi bem antes.
— Seu tio não tá morto, só dormindo. — salientou Frank veemente — Meu pai não tinha irmãos e a mamãe não tem primos ainda vivos. Acho que da árvore genealógica sobram mesmo eu e o Nathan.
— E o bebê humano da Lilith? Não conta também? — apontou Carrie.
— O Fred Jr., pois é... — lembrou Frank passando a mão no rosto — Mas ele tá fora do radar com a Lilith. O Malvus deve partir agora pra pessoas fora da família, no caso algum de vocês.
— Mas esse bunker é a prova de invasões de seres como anjos, né? — quis saber Miyako.
— Esqueci de perguntar ao Dynno. Mas não acho que ele vai colocar vocês na mira nesse momento. Quem está lá fora é que corre perigo.
— Giuseppe. — citou Carrie, alarmada, indo até o laptop no qual digitou rapidamente.
— Tá fazendo o quê? — indagou o detetive.
— Mandando um e-mail pra ele, precisa ser avisado de antemão.
— E se o Malvus já tiver chegado lá no DPLA? — especulou Frank.
— Vai ter que ir até lá pra descobrir. — disse Carrie olhando aflita para o amigo.
Frank pensara na enorme possibilidade de Giuseppe ser o alvo seguinte. Confiando na hipótese desesperadora, caminhou veloz até a porta para sair rumo ao departamento policial.
Na casa de Sally, Malvus limpava os restos colocando pedaços do corpo num saco preto de lixo. Após fecha-lo e colocar numa lixeira, foi andando pela sala sentindo a visão enturvar. Segurou-se numa estante, tentando manter o equilíbrio das pernas fatigadas.
— Não... Agora não...
Tombou e foi arrastando-se até bater a cabeça numa cômoda, derrubando um porta-retrato que caiu com o lado da foto virado para baixo. O anjo caído pegara-o e conferiu a fotografia por trás do vidro quebrado. A figura de Sally quando jovem ao lado do marido lhe fez recordar de um anseio da sua antiga vida pura. Algo que em seu caráter atual jamais despertaria novamente. Ocorrera anteriormente a fatídica insurreição.
A rememoração o levou ao dia em que visitou uma mulher chamada Elda, a quem se vinculara além do que foi proposto. Sob a ordem divina executava o papel de anjo guardião em estrita relação protetora que, no entanto, evoluía para um afeto significativamente especial. Ela entrava na sua casa trazendo uma cesta com mandrágoras. Azrael aparecera de surpresa das sombras trajando roupas de um homem civil daqueles tempos bíblicos.
— Ai, Azrael! Que susto, não esperava que viesse. O que faz aqui? Não me entenda mal, mas...
— Tudo bem, erro meu, me desculpe. Prometo bater à porta na próxima vez, como um bom homem civilizado.
— Mas você não é um homem. — disse Elda, condescendente, olhando as vestes dele — E essas roupas... não acho que mudem alguma coisa. Você é quem você é naturalmente, o meu anjo protetor.
— Meu desejo vai além das minhas obrigações celestiais com você, Elda. — declarou Azrael tirando a cesta das mãos delas e as pegando para beija-las — Levei tempo demais pra fazer essa confissão. Tudo que eu ansiava foi que ficasse mais à vontade com a minha presença. Desculpe, estou assustando você...
— Não, de jeito nenhum. Então... Você me ama?
— Mais do que qualquer ser na face deste mundo.
— Mas e a lei celestial? Não é proibido anjos se relacionarem com mortais, principalmente protegidos? Azrael, não sei, parece errado...
— Errado está quem promulgou esta lei como se nós anjos fôssemos desprovidos de alma e sentimentos. Também sou à imagem e semelhança do meu Pai, logo também sou capaz de amar da mesma forma que qualquer um de seus últimos filhos, senão melhor.
— Você está certo. Não é justo que anjos sejam recriminados por expressarem amor pelas criações de Deus da forma que quiserem. Mas me preocupo em manter isso entre nós. Poderíamos ter um filho?
— Vários, é perfeitamente possível. Mas o nascimento de uma prole que herda aspectos angelicais e humanos é passível de punição. Mas se for preciso, vou até as últimas consequências lutando por nós dois.
— Já que não deve haver segredos... Preciso retribuir. O destino do que sentimos um pelo outro vai depender de como reagirá.
— Estou pronto para tudo que quiser que eu saiba sobre você. Não tema minha resposta. Eu direi sim a você sempre.
Ela recuou dois passos, respirou fundo e dissera uma palavra em língua arcaica fazendo algumas velas sobre a mesa acenderem com chamas altas. Azrael quase boquiabriu de surpresa.
— O que me diz? — indagou ela com expectativa.
— Nada. — disse ele aproximando seu rosto ao dela — Eu prefiro mostrar. — tocou seus lábios aos dela em um beijo ardente, apaixonado e prolongado.
***
Departamento Policial de Los Angeles
Giuseppe, sentado a sua mesa no gabinete conferindo relatórios, quase derramou seu café sobre a camisa azul esbranquiçado com a entrada abrupta de Frank.
— Frank, mas o que... — disse o comissário de polícia segurando o copo pela tampa para que a bebida não caísse devido ao susto — O que faz aqui? Está destituído... Como foi que concederam passagem?
— Entrei furtivamente, não tenho tempo pra explicar, coisa do instinto do Orion.
— Não precisa explicar, isso já basta. — disse Giuseppe levantando — O que foi? Por que parece tão inquieto? Devia estar no seu refúgio descansando depois de uma perda tão trágica...
— Giuseppe, eu tô vibrando de alegria só de te ver vivo, mas preciso te levar embora daqui agora. — avisou Frank aparentando cansaço — Eu não subi uns cinquenta lances de escada pra ouvir não como reposta.
— Quer me tirar daqui? Frank, caso não tenha notado, estou em pleno horário de serviço no meu escritório, você nem deveria estar aqui.
— De fato, não devia, mas vim pra te salvar de um perigo que ronda todos os que conheço e conheci nessa vida. A mesma coisa que matou minha mãe e há poucas horas o meu tio tá vindo atrás de você provalvemente.
— Mataram seu tio?! Aquele que era lobisomem? Mas já não estava morto? — questionou Giuseppe, confuso.
— Aquela mulher demônio, a Lilith, conjurou um feitiço que trouxe os monstros mortos de volta, todos eles, inclusive os que eu matei e... nisso incluía o meu tio, antes acabei matando ele na forma de lobo pra salvar minha mãe e hoje... perdi os dois como se fosse numa tacada só.
— Eu sinto muito, Frank. Coitado, mal retornou do além e já foi mandado de volta pra lá. Ao menos se despediu dele?
— Ele morreu na minha frente. Assassinado exatamente como a mamãe.
— Por quem? Afinal, quem está vindo me matar sem nenhuma razão aparente?
— Un anjo caído, o nome dele é Azrael, mas todos os demônios o chamam de Malvus. E a única razão que ele precisa pra levar essa onda de morte até o fim é as vítimas saberem que Frank Montgrow existe. — disse Frank pegando um copo descartável para tomar água do bebedouro do recinto.
— Nesse caso, Carrie, as garotas caçadoras, o seu filho...
— Estão todos marcados pra morrer. — disse Frank logo tomando da água — Até o neném humano da Lilith que ela teve com o Fred.
— Matar um bebê? Radicalmente cruel mesmo pra um ser das trevas. — comentou Giuseppe horrorizado ao pensar na eventualidade.
— Do próprio diabo se espera qualquer atrocidade. — disse Frank jogando na lixeira de pedal o copo descartável.
— Se é o próprio diabo que vem vindo carregar minha alma, o nome dele não deveria ser Lúcifer?
— Quer ficar aqui matutando sobre isso esperando ele chegar pra te assar no fogo infernal dele? Não temos tempo a perder, vambora arredar daqui! — determinou Frank o pegando pelo braço direito. Mas o chefe policial recusou, soltando-se.
— Frank, raciocine, por favor! Como acha que pode me tirar daqui da mesma forma que entrou? Sou o comissário, darão falta de mim num instante e serei penalizado por descumprimento deliberado.
— O emprego ou a sua vida! Tem certeza que quer escolher?
O rádio transmissor de Giuseppe chiou, o levando a atender.
— Comissário Aristone, na escuta. — disse, logo fazendo uma pausa ouvindo um policial reportar uma ocorrência — Entendido. Mandarei unidades de reforços e vou prestar cobertura. Câmbio, desligo. — voltou-se à Frank — Tenho que ir, o dever chama. — fora até o seu armário.
— Não pode estar em outro lugar que não seja o bunker da Insurgência. O Malvus tá chegando pra tirar de mim mais alguém que me importa.
— Não tem certeza se eu serei o próximo. — disse Giuseppe vestindo um colete a prova de balas.
— Você é o único mais próximo de mim que tá fora do bunker. Eu acho que ele tá seguindo uma lógica, primeiro meus familiares e depois meus amigos, dos mais íntimos aos mais distantes.
— E se for Hoeckler? Frank, talvez esteja no lugar errado e na hora errada. Esse monstro só está jogando com suas emoções pra aflorar ainda mais seu instinto primitivo de caçador, está caindo numa armadilha.
— Quer saber? Vou recorrer a uma proteção celestial. — disse Frank fechando os olhos e juntando as mãos — Raziel, aqui é o Frank, pela primeira vez tô te pedindo o favor de proteger um amigo da ameaça do Malvus... O Azrael, ele vem matando todos que conheço e promete derramar mais sangue. Te imploro, vem aqui.
Um silêncio ensurdecedor se fizera. Frank olhou um volta não vendo nenhum indicativo da presença do ofanim.
— Qual foi? É um anjo de elite, não pode recusar chamado. OK, vou tentar com o Adrael.
— Frank, vá embora, volte pra casa e pense com mais cautela. Se eu estiver sob risco fatal, vou te ligar pra que mande o seu amigo anjo.
Mas Frank já havia feito o chamado para Adrael em voz baixa como numa oração noturna. O serafim surgira no meio da sala com semblante preocupado.
— Ainda bem que me contatou, Frank. Algo seriamente grave está ganhando forma, uma trama sendo costurada por baixo.
— Adrael, não é hora pra contar dos problemas do seu mundo, meu amigo aqui requer proteção irrestrita. Cadê o Raziel? Chamei por ele e nada.
— Está ocupado apaziguando os ânimos das comunidades angelicais. Há pouco um anjo do batalhão dele, infiltrado no grupo de Raguel, informou que Chernobog corrompeu mais da metade dos ofanins com hóstias profanadas. E isso é apenas o começo.
— O que pode ser pior do que ofanins caídos? Eles não eram os paladinos da moral e da virtude, os incorruptíveis? Como traíram os próprios princípios assim tão fácil? — questionava Frank tentando digerir o fato.
— Sendo guiados por Raguel que simpatizava com a causa rebelde dos querubins devotados a Azrael, julgava injusta a punição que ele sofreu no dia em que se rebelou. Raguel expressava essa posição de maneira ambígua, mas Raziel sempre viu nele uma ética controversa.
— E agora? O miserável do Raguel puxou o tapete do próprio irmão e traiu todo mundo se aliando ao sociopata do Chernobog. O que vem depois pra piorar?
— De acordo com o informante de Raziel, Chernobog planeja um banimento em massa com um feitiço que o mago sombrio executará.
Enquanto isso, o zelador entrava no almoxarifado com todo o material de limpeza trazido num carrinho. Ao apertar o interruptor, a luz não acendera e tentou várias vezes. De repente viu um ponto azul luminoso no escuro. Tal ponto tornou-se maior a medida que se aproximava na direção dele. O zelador assombrou-se com a rajada de fogo azul vindo em peso lhe incinerar.
— Sinto uma manifestação. — disse Adrael.
— Meu sensor também tá apitando. — revelou Frank, concentrado — Deve ser o Malvus...
— É a energia de um anjo caído. Precisamos nos certificar. — disse Adrael que virou-se para Giuseppe — Venha conosco se quiser viver. — estendeu a mão direita a ele.
Giuseppe fizeram que sim com a cabeça, acatando a fuga. O trio saíra pelos corredores a procura do rastro de Malvus.
— Ele está logo adiante. — disse Adrael na frente do detetive e do comissário.
— Ei, Adrael, tem que conferir na minha mente pra onde o Giuseppe vai. — solicitou Frank.
O anjo o fizera tocando dois dedos na têmpora do detetive e visualizando o interior do bunker. Subitamente, a onda flamejante irrompeu de uma porta a alguns metros no corredor dobrando para atingi-los.
— Segurem em mim! — pedira Adrael, tenso. Frank e Giuseppe o tocaram nos braços e foram teleportados por pouco não sendo queimados vivos pela rajada avassaladora. O trio surgiu na sala principal do bunker da Insurgência, espantando Carrie, Natasha, Miyako, Nathan e Dynno.
— Nossa, será que não dá pra um anjo mandar sinais paranormais pra indicar que tá se deslocando na velocidade da luz? — perguntou Natasha, afetada pelo susto.
— Não temos esse poder. — respondeu Adrael.
— Caramba, uma fração de segundo a mais e teríamos virado churrasco pro banquete do Malvus. — comentou Frank — Como não ativou o alarme de incêndio?
— Aquilo não é um fogo comum. — ressaltou Adrael.
— Giuseppe, que bom ver você inteiro! — disse Carrie indo abraçar o amigo — Estão bem os dois?
— Estamos crus graças ao Adrael. — declarou Frank, grato.
— O senhor é o antigo diretor do DPDC, né? — perguntou Nathan — Tinha o visto uma única vez, mas reconheci um pouco.
— Sim, prazer em conhecê-lo. Você é o Nathan, filho de Frank, certo? Cara de um, focinho do outro. — disse Giuseppe, simpático, apertando a mão do híbrido.
— Bem-vindo ao nosso Q.G., fique a vontade. — disse Dynno, hospitaleiro — Sempre cabe mais um e se é amigo do Frank é meu amigo também.
— Sem querer parecer grosseiro, mas... não é aqui que eu devia estar.
— Não é aqui que você gostaria de estar! — enfatizou Frank.
— Se eu tiver que morrer que seja ao lado da minha esposa! — confrontou Giuseppe, exasperado. Frank tomara uma medida drástica: sacou rápido uma algema e prendera o chefe policial no braço de uma cadeira perto — Mas Frank... Tem ideia do que acabou de fazer?
— Sim, isso se chama salvar a sua vida, seu velho ingrato! — disparou Frank, irritadiço.
— Já perdi meu posto de comissário e posso perder minha esposa também!
— Relaxa, eu não conheço ela, isso a exclui da lista negra. Ela não vai ficar viúva se você permanecer quietinho aqui sem fazer manha.
— Por que acha que eu mereço salvação?
— Porque você é nosso amigo e é importante pra mim. Quer motivo mais claro?
— Eu não fiz nada pra merecer ser salvo. Seria um peso a menos nas suas costas se me deixasse arder no fogo implacável do diabo. — desabafou Giuseppe, desalentado — Tudo que servi foi pra preencher espaço, nunca contribuí ativamente na resolução dos problemas que você, Frank, querendo ou não, atrai envolvendo a todos.
— Mas você foi útil muitas vezes. — disse Carrie — Lembre-se que tinha todo o poder pra impedir Frank de exercer o cargo de detetive lidando com paranormalidades, mas decidiu mantê-lo.
— E talvez esse tenha sido um dos meus piores erros. Quando descobri seu segredo, Frank, me senti na obrigação moral de converte-lo pra uma jornada profissional onde sua vida corresse menos riscos e não afetasse tanto quem estava à sua volta.
— Tá me culpando por todas as consequências do meu trabalho, é isso?
— Sim, estou! Pense racionalmente, se tivesse seguido minha orientação, nada do inferno que vivemos hoje teria acontecido. A entidade que almeja destruir tudo o que é bom não seria libertada.
— Frank cometeu um erro, não sabia que eu não era forte o bastante pra manter o Grande Mal selado. — disse Adrael, apoiando o detetive.
— E tinha chance de morrer dignamente, um mártir para a sua linhagem, isso honraria seus antecedentes. — argumentou Giuseppe — Como seu amigo, é doloroso dizer isso, mas é a verdade!
— A minha vida e como faço meu trabalho já honram o legado! — disse Frank que virou as costas, bufando.
— Que honra tem em não aceitar que é humanamente impossível salvar a todos? Você é tão arrogante a ponto de não levar em conta que suas ações podem desencadear efeitos terríveis nessa vida que você segue? Aposto que sua mãe era veementemente contra isso. Se não a obedeceu, porque faria isso por um amigo?
— Não fala da minha mãe! — explodiu Frank, desferindo um soco pesado em Giuseppe que caiu preso a cadeira. Nathan e Dynno o contiveram prontamente — Se fosse mesmo meu amigo, como o Ernest foi, reconheceria meu valor! Eu devia ter te deixado queimar até os ossos, você sempre foi um peso morto!
— Pai, se controla, não tá pensando direito!
— Me larga! — disse Frank batendo o cotovelo na barriga do filho. Dynno assumiu a contenção o pondo contra a parede — Dynno, me solta, senão...
— Senão o quê, Frank? Vai me encher de porrada? Tem eu e mais uns vinte aqui pra você descer o cacete. É o que você quer? Enfrentar todo mundo achando que ninguém pode te ajudar nessa?
— Dynno tem razão, pai. — falou Nathan — Tá levando isso a ferro e fogo, deixando o instinto controlar você quando devia ser o contrário. Agir nessa obsessão vingativa não vai desfazer as mortes da vovó e do tio Steve.
Frank foi recompondo sua calma sendo solto por Dynno. Carrie ajudava Giuseppe a levantar.
— Eu tô legal, me desculpem... Esse instinto tá ferrando com a minha cabeça. Eu não sei o que faço primeiro: se tento impedir a próxima morte ou vou até a Lilith logo pegar essa cura.
— Como ficou nítido, esse local não dispõe de proteção contra anjos. — disse Adrael — Malvus poderia aparecer aqui e matar todos vocês se quisesse. Ele é imparável, está desesperado por estar à beira da morte.
— Podemos pichar as paredes. Existem glifos específicos pra isso, né? — disse Dynno.
— Deixa que eu cuido de fornecer. — disse Carrie inclinada frente ao laptop — Agnes me enviou algumas runas anti-anjos extraídas do Necronomicon, talvez as mesmas que Lilith fez na casa dela.
— Ótimo, copia e chamo o pessoal pra começar a blindar o bunker. — definiu Dynno — Cada polegada quadrada.
— Malvus talvez parta pra um alvo que não seja tão óbvio. — disse Natasha — Alguém que não seja lembrado de imediato.
— Bem pensado. — disse Miyako — É o diabo em pessoa, a astúcia torna ele muito imprevisível.
— Ele fugiu a regra quando incendiou o orfanato Estrela do Amanhã depois que matou a mamãe.
— Ele incendiou um orfanato? E logo esse? — surpreendeu-se Carrie.
— Sim. Morreram todos. Mas a partir de agora serão amigos que ganhei ao longo da minha carreira que ele vai marcar alvo. Quem seria? — disse Frank tentando presumir — Ah, lembrei! A Bertha e o Isaac. Aposto alto que serão eles. Carrie me passa o endereço, ligeiro. O sobrenome deles é Thompson.
— Calma aí... — disse a assistente invadindo o banco de dados — Pesquisando... Pronto, achei. — verificou o endereço atual — Eles estão aqui em Los Angeles, Silver Lake, rua 134, casa 1038. Sabia que tinham se mudado?
— Eles mudaram antes do Big One, pouco tempo depois do Adrael restaurar a visão da Bertha. Vou puxar o carro.
— Pai, e se já for tarde demais? Parece até que esse cara é onipresente. — disse Nathan.
— Tenho que acreditar que não. — respondeu Frank — Adrael, valeu pela ajuda.
— Frank, eu me encontrarei com Lilith. — decretou o anjo — Vi nas suas memórias vestígios da localização. As runas que ela utiliza podem ser contra anjos caídos, consigo sentir a energia e rastrear.
— OK, se é assim... Me entrega a cura assim que tiver nas mãos. — disse Frank que virou para Dynno — Não deixa meu amigo suicida fugir hein.
— Deixo o Otto de vigia. — confirmou Dynno — Cuidado, parceiro. Não exige muito de si. — Frank assentiu e saíra — Ué, cadê o anjo?
— Ele já foi. — disse Natasha — E mal percebi.
— Que pena, ia chamar ele pra tomar uma cerveja e conversar sobre como ele conseguiu aquele shape quase igual ao meu. Será que eles treinam pesado no céu?
***
Adrael surgira na casa da floresta, bem no meio da sala, esquadrinhando o ambiente. Deu passos cuidadosos a direção em que ficava o quarto onde Fred Jr. dormia. Porém, foi interrompido por uma voz feminina atrás.
— Foi só eu virar as costas que aparece um enxerido. — disse uma demônia possuindo uma mulher de belos e ondulados cabelos castanhos com luzes emoldurando um rosto moreno e esguio, além de vestir um casaco feminino branco por cima de uma blusa preta, calcas jeans e botas. Mostrara seus olhos negros demoníacos para intimidar o anjo, o que não foi bem-sucedido — Vê se cai fora.
A demônia estendeu seu braço lançando uma onda telecinética que apenas empurrou Adrael alguns centímetros. Ela esforçou-se mais, avançando.
— Não vim pra conflitos! Onde está Lilith?
— Não sou paga pra dar satisfações a invasores. — retrucou ela ao que Adrael respondeu na base da força, sumindo e reaparecendo bem perto dela e a pegando pelo pescoço para coloca-la contra a parede.
— Onde ela está?
— Mesmo que eu soubesse, não diria. Tem sorte de eu estar aqui. Ela iria depenar as suas asas.
— Eu duvido muito. — disse o serafim autoconfiante — Se não vai me dizer aonde ela foi... Fale ao menos se ela guardou algum frasco contendo uma substância, algo como um antídoto para um veneno.
— Não sei do que você tá falando. Me larga!
Adrael fizera os olhos brilhar em sinalização de ameaça.
— Eu juro que não sei, tá legal? Eu sou apenas a babá do pirralhinho que tá lá dentro dormindo. Não vai deixar um pobre e indefeso bebê sozinho, vai?
O anjo apagou o brilho celestial dos olhos e a soltara, virando de costas.
— Agora faz o favor de sair. Se quiser briga, veremos isso lá fora pra não acordar o bebê. Lilith confiou muito em mim nessa tarefa, não vou deixar você estragar tudo.
— Ela já estragou. — afirmou Adrael voltando-se a ela — Encarregando você. — disse, logo agarrando o rosto da demônia e infligindo sua luz angelical que a fez gritar enquanto queimava.
Logo ouviu o choro de Fred Jr. Se dirigiu ao quarto cuja porta estava entreaberta. Foi adentrando devagar, mas deteve-se ao ver um cão infernal como um valente sentinela para o berço. O cão sob a pele de um pastor alemão rosnou feroz mostrando seus olhos vermelhos brilhantes e salivando. A resposta de Adrael fora emanar sua luz branca mostrando sua imponência de anjo que acabou por fazer o cão se retrair e afastar de maneira dócil.
Verificou o interior do berço. Lá estava o pequeno Fred Jr. emitindo seu choro alto. O pegou no colo delicadamente, o balançando com calma, o que tranquilizava o bebê espontaneamente.
— Nem precisei recorrer ao meu toque de anjo. — disse Adrael cruzando olhares com o bebê que logo fechava seus olhos para voltar a dormir — Uma vida tão frágil e inocente não merece estar aos cuidados de seres tão deploráveis. Estou aqui agora, não deixarei que nada de mal lhe aconteça.
A casa onde Bertha e Isaac viviam como um pacato e estável casal de idosos situava-se perto de uma colina em que rotineiramente iam para contemplar o por do sol.
— Acho que perdeu alguns minutos do horário do seu remédio, não? — disse Bertha vindo até a a cozinha — Será que eu devo chamar a polícia? Tem um ladrão de comida na minha casa.
— Oh, você tá aí. — disse Isaac retirando algumas coisas do refrigerador — Eu pensei em tirar essa tarde pra limpar a geladeira. E já tomei a pílula. O que estava fazendo?
— Nada demais, só fazendo umas anotações. — disse ela arrumando a mesa.
— Outra lista de compras?
— Essa farei hoje a noite.
— Querem ajuda? Parece um trabalho exaustivo pra dois humanos tão velhos. — disse Malvus aparecendo na entrada da cozinha.
— Você... — disse Bertha o olhando mordaz — Apareceu no meu sonho.
— E faço questão de realizá-lo. — disse o anjo caído que baixou sua mão sobre os olhos de Bertha, queimando-os impiedosamente. A esper caiu gemendo alto de dor. Se arrastava chorando, a sensação de fogo no olhos novamente assombrando-a.
— Bertha! — disse Isaac que avançou para ajuda-la, mas Malvus o empurrou com telecinesia contra a despensa — Não! Não a mate, leve a mim!
— Lamento, mas devo seguir o protocolo que me foi... designado. — disse Malvus que pisara sobre o pescoço de Bertha e o quebrou.
— Não, Bertha! — atormentava-se Isaac ao ouvir o som do pescoço de sua amada quebrar. O sacerdote chorava em luto — Não, não, não!
— Por que está orando? Ninguém vai ouvi-lo! Seu poder de sacerdote foi revogado após escapar do submundo. Tudo bem, continue. Sua esposa morreu cega, então nada mais justo que você morrer silenciado... com meu mascote comendo a sua língua!
Malvus assoviou com dedos na boca, chamando por um cão do inferno na forma de um Pitbull Terrier branco que veio correndo. A fera subiu na mesa com seus olhos vermelhos brilhantes rosnando para avançar em Isaac.
— O almoço está servido, aproveite.
O cão pulou sobre Isaac, tascando mordidas ferozes e profundas que esguinchavam sangue nas paredes. Malvus ria sadicamente, o olhar de desdém para o pobre homem. Minutos depois, chegara Frank batendo na porta. Olhou pela janela e sentiu uma presença sobrenatural. Arrombou a porta e adentrou invasivo, chamando pelo casal. Deparou-se com os corpos de ambos. Isaac havia sido triturado pelos dentes do cão e Frank não tivera estômago para olhar por muito tempo.
— Não... Ai meu Deus, não... — se agachou pondo as mãos na cabeça aos prantos. Lilith surgiu atrás dele.
— Você tem que se mover pra impedir o próximo massacre, não ficar aí parado choramingando.
O detetive levantou-se e a encarou.
— Aí está você...Por que desligou a merda do celular? Preciso da cura pra agora, seu segundo esposo tá passando o rodo em todo mundo!
— Porque me abriguei noutro refúgio onde o sinal é precário, mas deixei uma babá tomando conta do Fred Jr, só enquanto sigo os rastros do Malvus, quero ver até onde ele é capaz de ir.
— Ah, você tá pagando pra ver, né? Por que em vez disso não apareceu lá no bunker e me entregou a cura? Já tô de saco cheio!
— E cabe a você entregar? Eu dei a sentença de morte, ele que comerá na minha mão.
— Ele determinou que eu desse a cura já que você tá "fora do mapa". O maldito tá ceifando cada pessoa que já teve contato comigo. Chegou a matar minha própria mãe!
A informação deixara Lilith um tanto surpresa.
— Sua mãe? Eu...
— Não vem dizer que sente muito senão te dou uma estocada com a lâmina sacerdotal. — ameaçou Frank dando as costas e andando pela sala aturdido.
— Não sinto, mas não sabia que ele iria tão longe pra afetar você. Achei que ficaria só entre mim e ele, não previ essas mortes em série.
— Era pra ter feito o pacto de sangue como manda a tradição. — ressaltou Frank.
— A essa altura, Dante não é mais parte da negociação. Aliás, acho que não há nada negociável. A tutela dele tá com o Chernobog.
— Então acabou o acordo com o Malvus?
— Ele é traiçoeiro, não faz acordos. Mas tive que forçar a barra ao meu estilo. A possessão de Chernobog em Fred invalidou meu ultimato.
Frank notara um papel dobrado sob um vaso na mesinha de centro. O retirou e lera os dizeres. Nele constavam nomes um sobre o outro.
— Uma lista. São nomes das vítimas do Malvus.
— Será ele quem escreveu?
— Nunca que ele me daria essa colherzinha de chá. Foi a Bertha, ela é uma esper com poder premonitório, previu a ordem das mortes... e quis me avisar.
— Preciso voltar pra ver se tá tudo bem com o Fred Jr., você já tem um guia, boa sorte.
Porém, Frank agarrara o braço direito dela, sendo teleportado junto a casa da floresta.
— Por que grudou em mim feito um carrapato? — perguntou Lilith se afastando ríspida.
— A cura! Ou você quer que eu espere ele matar mais gente até ele morrer?
— Ele tem pouco tempo, não vai chegar a matar quem está no bunker. Só até a meia-noite.
— Tempo de sobra pra ele fritar umas dez pessoas! Você tem ou não essa cura?
A demônia voltou sua atenção para o corredor que levava a cozinha.
— Tô ouvindo o Fred Jr. gemer. Vicky! — disse se dirigindo ao cômodo. Frank logo a seguiu. Ambos se depararam com Adrael alimentando o bebê com leite na mamadeira.
— O que você tá fazendo aqui? Cadê a Vicky?
— Não sei a quem se refere. — disse Adrael.
— A babá! Deixei o Fred Jr. sob os cuidados dela!
— Ela não era a pessoa adequada. Eu me encarreguei de assumir a responsabilidade.
Lilith olhou desconfiada para o anjo e o detetive, tirando uma precipitada conclusão. Pegou uma faca no porta-facas ao alcance dela e a fincou no dorso da mão direita de Frank que se apoiava na mesa, chegando a girar. O detetive urrou de dor, mas aguentou firme sem se deixar cair de vez. Lilith ainda usou uma tortura psíquica.
— Sua... neurótica desgraçada...
— Então esse é o planinho: conspirar com seu amigo emplumado pra tirar o Fred Jr. de mim!
— Se enganou, aqui é o local mais seguro pra ele, apesar das más companhias. — disse Adrael balançando Fred Jr. levemente.
— O Adrael... veio só pegar a cura com você...
Lilith começava a abrandar ao entender.
— Foi isso? Então tá... — disse Lilith que logo removeu a faca da mão de Frank e o livrou da cefaleia terrível. Frank expirou sonoramente. Fred Jr. desatou a chorar.
— Não entendo, acabei de alimenta-lo. O que mais ele quer?
— Ele ouviu minha voz. — disse Lilith indo pega-lo — E ele não toma leite na mamadeira, faz ele gorfar. Como agora. — o bebê voltara aos seus braços — Seu porquinho, vai já se limpar, calma.
— Já estava aqui quando cheguei. — disse Adrael.
— Espera, vai fazer o quê? E a cura? — indagou Frank contendo o sangramento na mão com um pano de prato.
— Vou trocar a roupinha dele. Você tem a lista, mas... Eu não tenho a cura, não ainda.
— Já devia imaginar. — disse Frank nada surpreso.
— Falei que não sabia que ele iria tão longe.
— Ele tá nessa vibe de serial killer a mando do Chernobog, uma distração pro que tá por vir .
— E o que vem aí? — indagou Lilith.
— Um feitiço hediondo que bane todos os anjos puros do mundo celestial. — informou Adrael.
— Inteligente. Não é uma encruzilhada se não houver como impedir.
— Talvez haja. — disparou Frank — Até o feitiço chegar no ápice, o Malvus pode ser morto. Um tridente novo, como o anterior ou até mais poderoso. Adrael, será que pode arrumar?
— Aquela arma era singular, forjada unicamente para mata-lo. Ariel é o ferreiro de todo o arsenal dos batalhões, não sei se ele vai se dispor.
— Tem quer ser hoje, quem sabe matando o capeta antes do feitiço chegar no auge podemos ir a catedral e pegar o grimório, levar pra Agnes e interromper o processo.
— Eu e você? Não fale como se fosse tão simples. Há ofanins caídos agora, não temos a menor chance. — contrapôs Adrael.
— Mas é Zaratro quem possui o Necronomicon, posso arregaçar com ele tranquilo enquanto você leva o grimório pra Agnes.
— Não! — bradou Lilith, assustando Fred Jr. e o fazendo chorar mais — Fora de questão. Meu pacto de sangue com Malvus implica que nossas vidas estão ligadas. Se ele morrer, também morro. Mas... é possível desfazer. Só não sei como ou a quem vou recorrer.
— São dois votos a favor e um contra. Vencemos eu e Adrael. Malvus leva tridentada hoje e ponto final.
— E se eu não conseguir um meio seguro de desmanchar o pacto? O que vai ser do Fred Jr.? Nem pensar que ele vai pra um orfanato.
— A Lisbell ou a Agnes devem saber como. — garantiu Frank — Tira o bebê daqui, o pobrezinho tá até vermelho de tanto chorar.
Lilith saíra levando o filho que berrava estridente.
— Eu não concordei inteiramente com o plano. — afirmou Adrael — Para que o tridente seja funcional, é necessário coletar o sangue de Malvus. Mesmo com o instinto, você não...
— Consigo sim, ainda mais no estado em que ele tá. — disse Frank olhando a lista — Ele tem que ser morto antes da meia-noite se a Lilith não fizer a cura.
— Por que? — indagou Adrael.
— A última vítima... é o Fred Jr.. — revelou Frank, tenso.
***
Ainda padecendo de sua enfermidade, Malvus recordava-se novamente de Elda. O dia que marcou em seu coração o ódio mais profundo que já existiu.
A multidão se aglomerava para invadir a casa da bruxa após o flagrante de suas ações como wiccana, tendo apenas ajudado a população. Azrael a encontrou arrumando suas trouxas.
— Venha comigo, fugiremos juntos a um lugar livre de toda essa intolerância. — disse o anjo.
— Não posso, Azrael. — dizia Elda aos prantos — Está me dando mais valor do que mereço.
— Quer que eu simplesmente desista de você?
— Quero que desista de nós dois! Sinto muito, acabou, nossa vida juntos é uma ilusão.
— Sou seu anjo guardião, é minha obrigação protege-la!
— A decisão não é sua. Não vou mais fugir. — disse Elda, largando a trouxa. Tochas invadiram a casa pelas janelas, incendiando rapidamente — Vai embora!
Azrael recuava, inconformado. O mutirão revoltado invadira a casa, homens a puxando pelos cabelos e a agredindo. Elda foi arrastada até uma estaca onde foi amarrada. Em meio às vozes alteradas e até risos maldosos, foi vitimada pela fogueira. Azrael observava friamente do alto de uma casa, trajando sua roupa formal de querubim, a feiticeira gritar com seu corpo queimando.
— Por que não a salvou, tenente? — indagou Amandriel atrás dele.
— Ela merece. Todos eles merecem pagar por essa ingratidão inerente. Fui um tolo.
O despertar veio súbito. A figura de Elda parecia estar diante dele sorrindo.
— Elda... — disse tentando levantar e alcança-la.
Entretanto, a figura da antiga amada se distorceu na visão turva, transformando-se em Lilith.
— Pausa pro descanso?
— Vá embora, sua vagabunda. — rebateu raivoso — Se não veio trazer a cura, o que quer além de regozijar da minha miséria?
— Quero saber se Dante ainda é uma moeda de troca.
O anjo caído riu infame, suportando a dor do seu corpo seminu repleto de veias negras. Lilith o pegara, colocando-o de frente a parede pressionando e imobilizando os braços.
— A cura será dada a menos que garanta devolver meu filho!
— Tarde demais. O mestre pegou ele emprestado.
— Pra quê? O que ele fará com o Dante?
— Pode ir perguntar, se quiser rever o bebezinho da mamãe... pra se despedir.
— Prefiro ficar aqui vendo você apodrecer do que desperdiçar meu tempo e a minha vida com uma tentativa inútil de reaver o Dante, afinal ele tem um irmãozinho que não pode ficar só.
— Eu ficaria ao lado dele se fosse você. — avisou Malvus, metade do rosto colado na parede — Raguel logo virá pra me nutrir de sangue ofanim, retardando minha morte. Todos que eu puder matar serão mortos antes de mim. Isso inclui seu outro filhinho. Tão pequeno, tão frágil, tão insignificante...
— Cala a boca! — disse Lilith cravando e descendo suas unhas nas costas dele, fazendo-o sangrar — No Fred Jr. você não encosta um dedo. — sussurrou no ouvido — Essa é a nossa lua de mel. — prosseguiu nos arranhões, o querubim grunhindo alto de dor.
***
Giuseppe era atentamente vigiado por Otto, apesar do caçador estar mexendo no celular com os pés sobre a mesa. Um olho no gato e outro no peixe.
— De repente... me bateu a vontade de urinar. — disse Giuseppe quebrando o silêncio.
— Boa tentativa. — negou-se Otto, incrédulo.
— É verdade, minha bexiga tá cheia. Sabe quais os efeitos terríveis de não queimar o ácido úrico? — fingiu sofrer ao segurar. Otto largou o celular, o olhando com preocupação.
— Tá tão apertado assim?
— Pode confirmar isso esperando ver minhas calças molhadas daqui alguns minutos.
O caçador levantou-se pegando a chave da algema. Libertara-o, mas advertindo:
— Você tem um minuto pra voltar. É por ali.
Quando o caçador virara de costas, Giuseppe segurou a cadeira onde estava, a ergueu e com toda a força possível golpeou Otto. O caçador caiu a beira da inconsciência.
— Me desculpe. — disse Giuseppe pegando um molho de chaves no cinto de Otto e correndo até a porta de entrada. A abriu e fugira subindo a escada.
A mil por hora na busca desesperada de evitar as mortes seguintes, já estando noite, Frank recebia um telefonema urgente de Carrie.
— E aí, fala. Antes pedi que só me ligasse quando fosse urgente.
— E agora é, pois... Giuseppe escapou. Otto o vigiava, ele pediu pra ir ao banheiro, mas não passou de um truque batido de fuga. Pegou Otto na guarda baixa e deu uma cadeirada nele. Pra onde você tá indo?
— Ah não... — disse Frank passando a mão no rosto em apreensão — Tô na estrada rumo às próximas vítimas.
— E quem mais tá na lista pra você salvar agora?
— Pamela, Donald e o Derek. A terceira família do Fred. Não necessariamente nessa ordem. Mas tô com um trunfo em mente. Lembra do tridente que mata o diabo?
Paralelamente, Lisbell recebia uma surpreendente visita em que seu quarto enquanto fazia anotações sobre a penteadeira. A bruxa olhou de soslaio para sua direita vendo Lilith parada a fitando.
— Você!? O que veio fazer aqui? — perguntou, fechando o caderninho depressa.
— Que recepção mais rude pra quem você prestou um nobre favor. Quer tentar de novo?
— Olá, Lilith, que prazer em revê-la. No que posso ajuda-la? — disse Lisbell ironicamente.
— Melhorou. Preciso de outro favorzinho, mas só você pode ajudar. Ainda tem o anel de esmeralda que comporta almas de bruxos?
Lisbell a encarou fixa e seriamente diante do pedido, antevendo a finalidade. Na catedral, Zaratro se dirigia a Chernobog que estava sentado numa espécie de trono próximo ao altar.
— Milorde, o feitiço acabou de entrar na sua fase preliminar. Dentro de poucas horas alcançará o pináculo.
— Avise a todos para que apreciem o espetáculo celeste quando chegar a hora. — disse a entidade que segurava Dante no colo deitado. O bebê híbrido, chupando um polegar, o fitava achando estar vendo seu pai.
Frank chegava a área residencial onde situava-se a casa de Pamela, porém foi interrompido bruscamente por Lilith quase atropelando-a.
— Tá doida?! Se batesse, ia brecar na hora, só um reboque pra tirar! — reclamou, saindo do veículo — O que foi?
— Quero que coopere comigo, depressa. Consultei uma das bruxinhas disponíveis.
— Qual delas?
— A ruivinha galesa.
— A Lisbell?! Ela executou um feitiço pra cancelar o pacto?
— Neste anel. — disse Lilith mostrando a joia no dedo anelar esquerdo — Pegue a sua lâmina sacerdotal, você precisa me matar.
— O quê? Olha, melhor deixar isso pra depois que eu salvar as próximas vítimas que são a ex-esposa do Fred, o filho dele e o noivo dela.
— Não vai tomar tempo, anda logo, me mata!
Frank resolveu ceder sacando a lâmina de dentro do sobretudo.
— Já que você pediu... — disse ele, logo enfiando a lâmina na barriga dela profundamente. Os olhos da demônia reviraram antes dela cair — OK, e agora? Deixo seu corpo num freezer?
Um minuto depois, Lilith despertou sobressaltada, arquejando.
— O que é bom dura pouco. — resmungou Frank.
— Pronto, o pacto foi desfeito. Lisbell enfeitiçou o anel de modo que minha alma fosse abrigada nele após minha morte e voltasse ao meu corpo. — disse Lilith levantando-se.
— Mas quem se vincula ao anel não pode tira-lo a luz do sol. Você também é uma bruxa. Quer dizer que você agora é tecnicamente imortal?
— Essa mágica inibe o efeito colateral de tirar o anel, mas a ressurreição só acontece uma vez. Devia me agradecer por te dar o privilégio porque isso também não vai se repetir.
— Se você andar na linha, talvez não. Continua nessa versão de mãe dobrada e amorosa que dá certo. — disse Frank voltando ao carro.
— Ei, pega! — disse Lilith jogando um frasco contendo o sangue de Malvus. Frank o pegou — Não é a cura, mas já vou produzi-la. Dê isso ao anjo, é o sangue do moribundo.
O detetive assentiu e entrou no veículo.
Giuseppe estava num táxi falando com a esposa ao celular.
— É que o expediente acabou mais cedo hoje. Me espera na cama que tô a caminho. — disse ele que desligou e conferiu a caixa de mensagens que constava mais de dez enviadas por Carrie não respondidas. Escreveu em resposta: "avise ao Frank que estou bem, embora minha credibilidade não".
Frank adentrava afoito pelo fundos da casa de Pamela. No corredor, deparou-se com Derek morto com os olhos queimando em brasa.
— Derek... Ele era o primeiro dos três... Merda.
Seguiu adiante ouvindo choros baixos. Na sala de estar, Malvus segurava mãe e filho em cada mão pelos pescoços.
— Uni, duni, tê... Frank, você apareceu. Será que pode me salvar dessa indecisão?
— Larga eles, Malvus! Tenho balas anti-anjo, você não se safa do jeito que tá!
— Errado, o sangue de ofanim me mantém vivo e ativo por tempo limitado, mas o bastante pra riscar todos da lista. Escolha: o menino ou sua mãe. Ah, sim... Não são dois, mas três.
— Frank, diz pro Fred... que eu sou grata por ele ter me feito feliz. — dizia Pamela cuja bolsa havia estourado — Ah não, o bebê...
— Malvus, ela tá entrando em trabalho em parto... Poupa ela e o neném.
— Sábia escolha. — disse Malvus que olhou para Donald. Queimara o garoto com seu fogo azul.
— Não, Donald! – disse Pamela chorando sofridamente ao ver o corpo tostado do filho ser largado. Frank se culpava por falar.
— Como não posso arrancar esse rebento de você... Nosso joguinho acabou. — decretou Malvus que logo incendiou Pamela cruelmente. A ex-mulher de Fred gritara altíssimo em dor.
— Nããããooo! — disse Frank que disparou com sua pistola. Malvus se deixou cair pelos vários tiros, sentindo-se fragilizado novamente. Adrael apareceu atrás dele.
— Frank, solicitei uma visita a Ariel, está nos esperando, vamos!
— Cedo demais... — disse Malvus, debilitado.
— Posso mata-lo aqui e agora. — disse Frank apontando a arma — Parece que a sobrevida encurtou, né?
Porém, ele desaparecera em milissegundos. Frank se agachou chorando pelas perdas.
— Ela tava grávida, quase pra dar à luz... Se o Fred estivesse aqui...
— Frank, ainda quer persistir com o tridente? Ele vai morrer naturalmente, podemos deixar assim.
O detetive levantou-se e virou para Adrael.
— É menos do que ele merece.
A dupla enfim se encontrava no mundo celestial indo diretamente a oficina de Ariel.
— A forja fica após esse átrio. — disse Adrael caminhando rapidamente ao lado de Frank.
Ariel era um ofanim de aspecto envelhecido com uma barba branca espessa e cabelos lisos também brancos. Usava vestes comuns de ofanim como o peitoral dourado em armadura.
— Hum... Um tridente ainda mais mortal do que o anterior. Meu material está quase escasso...
— Por favor, é uma emergência, Azrael vem causando danos significativos. — disse Adrael.
— Aquele não é mais Azrael! — afirmou Ariel, categórico — Não mais o general querubim que eu saudava e respeitava com toda a minha irmandade. Portanto, não se refira a ele assim na minha frente nunca mais.
— Mas e o tridente? Pode ou não ser forjado? — questionou Frank. Ariel fez um suspense.
— Se eu não desaparecer em breve, é possível. Alguns serafins estão sofrendo o banimento aos poucos, logo serei eu. Vou preparar a forja.
O metal do tridente, na sua forma líquida, foi derramado de um vaso de alabastro sobre uma plataforma de pedra que possuía um encaixe no formato do tridente.
— O sangue do caído!
Frank entregou o frasco a Ariel que logo misturou o sangue ao metal. O ofanim recitou palavras em dialeto celestial. Uma nuvem tempestuosa se formou sobre o teto aberto e dela disparou um poderoso raio caindo no tridente que solidificou-se. A arma recém-criada levitou e voou direto a mão de Frank cujo sangue também foi utilizado. O detetive fizera movimentos ágeis com o tridente, logo virando-se a Adrael batendo a ponta do cabo no chão.
— Testado e aprovado. Vambora.
Ambos foram a casa de Lilith perguntar da cura. A demônia dava o frasco contendo o antídoto.
— Não tive tanto trabalho.
— Sabe que teria evitado muitas vidas perdidas se fizesse isso antes, certo? — repreendeu Adrael.
— Não teria. — discordou Frank — Curado ou não, ele continuaria a matança até o banimento. Na lista tem os horários das mortes. O Fred Jr. tá marcado pra morrer à meia-noite. Já são quase onze. Cadê ele?
— Dormindo, tomou um banho bem relaxante. As runas que fixei são contra anjos normais, não dá pra usufruir dos dois tipos ao mesmo tempo. — olhou para Adrael — Sem ofensa, suspeitei que vocês planejavam roubar meu filho me julgando uma ameaça a ele.
— Nunca pensaria em afastar uma criança de sua mãe, mesmo ela sendo um demônio.
— Fica de sentinela hein. Vamos, Adrael. Mas antes vamos dar uma passadinha no bunker da ESP, tive uma ideia.
— Quem é o próximo? — indagou o anjo.
— Giuseppe. — respondeu Frank, sofrendo por antecipação no interior.
O comissário caminhava a pé faltando poucos metros para chegar em casa. Porém, um ruído de asas batendo o fez olhar para trás desconfiado. Mas ao virar-se, dera de cara com Malvus - com seu sobretudo negro e camisa verde escuro. Gesticulou com o dedo pedindo silêncio.
— Se gritar, mato você e sua esposa na frente dos seus herdeiros.
— Me leve pra onde quiser, mas não toque nela.
Frank e Adrael estavam defronte a um galpão abandonado em meio a vapores de gás freon.
— Vem daqui, sinto pulsar. — disse o anjo — Acho que quis nos atrair. Está pronto?
— É meu estado de espírito. E você?
— Ficarei bem, apesar da catástrofe que vai ocorrer. Tem certeza que seu plano é funcional? É o diabo que irá enfrentar.
— Meu instinto diz que vai funcionar.
— Está confiante demais.
— Se eu não estiver... Eu perco essa luta. E se eu perco, todos os outros perdem. Confio no poder disso aqui. — disse Frank segurando firmemente o tridente.
Dentro do bagunçado e sujo galpão, Giuseppe era levado a força por Malvus.
— Nessa altura, Frank já deve estar com a cura. Depois de testemunhar a família do Fred queimando nas minhas mãos, não é possível que ele não tenha ido atrás daquela vadia.
— Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco... — rezava Giuseppe, amedrontado. Malvus o agarrou no rosto e o virou para ele.
— Não me provoque. Ninguém está ouvindo!
— Mas eu tô. — disse Frank chegando com o tridente e o frasco do antídoto — Liberta ele, Malvus, seu remedinho tá aqui. Temos um acordo?
— Chegou o seu salvador. Frank Montgrow, o caçador mais disciplinado. E vejo que me trouxe um presente.
Malvus abrira o frasco sem temer a nenhum efeito adverso por não suspeitar de uma fraude, considerando as posições de todos os envolvidos. Tomou do antídoto, virando num único gole a ponto de inclinar para trás a cabeça. Giuseppe foi indo vagarosamente até Frank.
— Vem Giuseppe, tá livre. O pesadelo acabou.
— Frank, quero me desculpar por envolver sua mãe naquela nossa conversa problemática, fui infeliz. É a única coisa da qual me arrependo de ter falado, sendo bem franco.
— Sem crise, eu me excedi também, o instinto me deixou reativo. Foi mal ter chamado você de peso morto. Você é meu amigo, nunca te desconsideraria.
Malvus erguera a mão direita após tomar o antídoto e fizera um movimento leve, mas que afetara Giuseppe fatalmente. Um som de ossos quebrando soou enquanto o comissário virava o pescoço e travava. Caiu duro como pedra, os olhos abertos e a boca salivando.
— Não, Giuseppe! — berrou Frank, consternado — Seu filho da puta traiçoeiro desgraçado!
— Agora sim é um peso morto. Não tínhamos mais um trato, Frank. Havia passado da meia-noite quando chegou. Era meu tempo-limite, segundo a vadia, mas Raguel me proveu mais sangue dele. O lado ruim é o retardamento do sangue no veneno ser reduzido a cada dose. Em contrapartida, uma retenção foi criada, dobrando meu poder a uma escala superior.
— Sabe esse homem que você matou? Era bom, honesto, leal, um verdadeiro amigo que tive! Descumpriu sua promessa de não matar mais ninguém após ser curado.
— Homens como ele existem para alimentar uma subserviência imposta fingindo não quererem nada em troca! O que eu faço com demônios? Eles me seguem por escolha própria, nunca foi imperativo. Nunca ambicionei ser como mei pai como narra o seu livrinho de histórias cultuado. Propus algo diferente. Ele é como suas criações superestimadas: ser uma ovelha negra do rebanho é contraproducente, é despachada ao abate! — disse Malvus que chutou o corpo de Giuseppe — Agora quero ver do que é capaz com esse garfo de espaguetti, acabei de dar uma boa razão pra usa-lo.
— Não, você deu várias. — declarou Frank, raivoso.
Malvus acendeu seu fogo na mão direita, lançando uma rajada poderosa contra Frank. O detetive usou o tridente defensivamente, as três pontas esquentando ao criar um escudo quase invisível bloqueando o fogo azulado. Frank seguiu adiante a passos firmes, segurando o tridente com as duas mãos e refreando a rajada. Malvus impunha mais força, mas Frank fora empurrando até correr. Malvus abriu os braços expandindo a onda destruidora de choque, urrando. O pulso intenso estilhaçou as vidraças de todas as janelas. Com a tamanha força do detetive se atracando com ele, Malvus voou junto dele contra uma parede sendo empurrando e segurando o tridente para impedir um golpe, suas mãos ardendo e fumaçando.
Chutou Frank que, caindo, girou no ar e firmou-se no chão. Malvus sumiu e reapareceu diante dele desferindo socos pesados, mas Frank usara o cabo do tridente para defender-se de alguns golpes, chegando a atacar, usando a arma de ponta a cabeça como apoio para chuta-lo e derruba-lo a alguns metros. As pontas do tridente aqueceram e liberaram fogo laranja numa rajada potente. Malvus rolou esquivo, mas chamas pegaram no seu sobretudo, o qual tirou rapidamente ao levantar. Também tirara a camisa, exibindo suas asas negras. Disparou em voo contra Frank que posicionou o tridente na defensiva e foi empurrado a uma parede.
Repeliu Malvus num chute e avançou, porém o anjo caído revidou lançando uma onda telecinética que jogara o detetive até a parede. Contudo, Frank dera impulso com um pé, desferindo um profundo corte no rosto de Malvus com o tridente. O anjo caído contra-atacou lançando fogo de sua boca. Frank esquivou por baixo deslizando seus joelhos para um golpe direto na barriga de Malvus que, porém, desapareceu e reapareceu por trás do detetive o chutando nas costas. Frank virou-se tentando um novo golpe, mas Malvus desviou e num chute mandou o tridente para cima, a arma fincando as pontas no teto. Seguiu-se um duelo de socos enérgicos e vigorosos.
— Ultrajante uma barata feito você se igualar em força comigo! — atacava Malvus que esmurrava Frank. O detetive defendia-se hábil dos socos e logo revidava numa sequência de cruzados de direita que fazia Malvus recuar. O querubim tentou contragolpear, mas Frank barrou depressa e dera uma cabeçada seguida de um chute com os dois pés feito num giro inclinado.
Após Malvus se reorientar, ele não viu mais o oponente em parte alguma.
— Quer brincar de gato e rato? Invertemos os papéis então! — dizia ele, o rosto machucado e sangrando — Pode se achar um caçador incomparável com esse instinto queimando nas suas veias, mas não é tudo que basta pra me derrotar!
Uma rajada flamejante do tridente saiu de um canto escuro do galpão. Malvus exerceu um controle sobre o fogo usando as mãos, o dividindo em duas rajadas que foram erguidas sobre ele e logo transformadas em duas ferozes serpentes de fogo azul que mandou diretamente contra Frank já novamente visível. As serpentes o tiravam do chão voando e atacando. Por fim, Malvus as empurrou telecineticamente contra a área de depósitos do galpão causando uma explosão que aparentou matar Frank.
— Eu disse que não era tudo.
Entretanto, Frank veio por trás dele fincando certeiro o tridente cujas pontas atravessaram o centro do tórax. Com balbucios entrecortados, Malvus tomava ciência de sua derrota.
— Dizem que pra vencer o diabo, é preciso ser mais esperto que ele. — disse Frank que chutou-o numa canela, fazendo ajoelhar-se — Resolvi aplicar essa teoria.
Uma fúria extrema em Malvus foi extravasada num grito retumbante, os olhos do querubim fumegantes em chamas. Seu corpo enegrecia e apodrecia a partir da ferida rapidamente. Frank se inclinou a esquerda dele.
— Por que? Eu o matei! Estava esperando o grande momento... Com quem eu lutei?
— Comigo quase o tempo todo. Aproveitei a hora que me escondi pra trocar de lugar com meu gêmeo falso. Cortesia de uma certa bruxa.
— Aquela maldita... Ela tramou com você...
— Não foi ela.
— Mas... eu não teria sido pego em guarda baixa tão facilmente com os meus sentidos.
— É, não teria. Mas o instinto ancestral facilitou. Pude controlar meus batimentos cardíacos, reduzir minha respiração, silenciar meus passos...
Frank o agarrou pelo cabelo.
— Eu quero que olhe nos meus olhos antes de você voltar pro buraco de onde nunca devia ter saído, o seu inferno... que ainda é pouco pra te fazer pagar!
— Não voltarei ao Limbo... Anjos como eu... são sentenciados ao Oblívio uma vez que... retornam da morte. Mas não há ninguém como eu. Reinarei por lá mesmo humilhado!
— Mesmo no calvário, não larga dessa soberba. — disse Frank — O que é isso no seu rosto? Uma lágrima? Será de quê? De tristeza? De arrependimento? Conheço teu passado, Malvus. Você era um filho pródigo, mas escolheu desvalorizar tudo o que tinha por uma ambição do tamanho do seu ego. No fim, a maior ingratidão foi sua.
Frank foi afastando-se enquanto Malvus definhava completamente, rachando em fissuras de luz. O corpo do querubim explodiu numa fumaça preto-azulada. Frank correu, mas foi empurrado para fora do galpão pelo impacto, rolando pelo degraus de uma escada. Naquele instante, o espetáculo celeste aguardado por Chernobog enfeitava o céu noturno. Inúmeras bolas de fogo caindo como uma chuva de meteoros. As quedas catastróficas atingiam pontos renomados como o anfiteatro e o letreiro de Hollywood - sendo totalmente destruído. Frank se levantou olhando com assombro. Los Angeles se equiparou a Sodoma e Gomorra.
Adrael estava num morro perto de um bosque observando seus irmãos serem trágica e massivamente banidos. Derramava uma lágrima de lamento e desesperança. Na torre da catedral, Chernobog assistia junto aos ofanins e querubins, abrindo os braços em comemoração.
Lilith via pela janela do quarto. O estrondo da queda de um anjo ali perto estremeceu a casa e acordou Fred Jr. que chorava assustado, sendo pego no colo por sua mãe que o balançava. Os meteoros causavam devastação em locais despovoados.
Uma menina saía de sua casa correndo para contemplar a tempestade de estrelas cadentes. Apontou para um em especial.
— Vou fazer um pedido! — disse ela, fascinada. Porém, seu sorriso foi se desfazendo à medida que a estrela envolta de fogo se aproximava diretamente à ela.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://www.uai.com.br/app/noticia/trends/2021/03/30/interna-noticia-trends,270422/a-profecia-do-anjo-da-morte-que-mexeu-com-a-internet-brasileira.shtml
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