O alvorecer nasceu embalado em uma bruma densa naquele cemitério quase que totalmente preenchido de lápides sofisticadas com adornos em esculturas de anjos. O cortejo funerário de Giuseppe se direcionava a sepultura cavada meia hora antes. Não havendo velório, partiram diretamente a cerimônia de sepultamento contando com presenças essenciais de familiares, amigos de longa data e colegas de trabalho do Departamento Policial de Los Angeles.
Carrie, Hoeckler e Amelia, esposa do respeitado e dedicado comissário de polícia, acompanhavam mais a frente a condução do caixão feita por quatro policiais. Sobre o recipiente, uma bandeira americana grande para simbolizar o respeito expressivo à pátria que o falecido honrava em seu compromisso irrestrito com a segurança pública do estado. Agnes, Lisbell, Natasha, Miyako, Nathan, até mesmo os integrantes da Insurgência vieram prestar suas condolências em reverência à memória ao homem devotado a lei... Menos uma pessoa, uma única pessoa que obrigatoriamente deveria estar ali participativa somando aos últimos adeus e dizendo as palavras que não pudera emitir enquanto o homem, a quem passou a chamar de amigo quando segredos mantidos a sete chaves foram partilhados, estava em vida.
Durante a descida do caixão, o corpo de policiais homenageou a figura de Giuseppe. Apoiada num púlpito havia um quadro com a foto do comissário policial, a qual a esposa encarava com olhos fitos e chorosos. Foi consolada por Carrie e Hoeckler quando ela se ajoelhou em sofrido pranto.
— Apresentar armas! — bradou o chefe de polícia interino aos homens devidamente fardados que ergueram suas armas e atiraram para o alto simultaneamente. A bruma se desfazia gradualmente quando o padre realizava discurso fúnebre lendo a Bíblia sagrada.
— "Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam".
Paralelamente, um matadouro de luzes meio avermelha estava recebendo cadáveres incomuns para o armazenamento. Sendo presos em ganchos pelas costas e elevados por correntes, os corpos pertenciam a lobisomens, todos capturados por um só caçador.
— "Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor". — proferia o padre.
O matador cruel usara de um afiado punhal para rasgar profundamente a barriga de um lobisomem, deixando derramar sangue em cascata. Abrira-a com as duas mãos e enfiou uma delas para remover o coração enquanto os demais órfãos foram expostos.
— "Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro nem dor, pois a antiga ordem já passou". — prosseguia o padre citando Apocalipse 21:4.
O caçador brutal colocava os órgãos dentro de uma caixa de madeira e a levantou ignorando o peso. Foi andando a passos calmos até uma área mais aberta do abatedouro, precisamente o ponto onde se sacrificavam os animais.
— "Bem-aventurados os que choram, pois estes serão consolados". — declamou o padre quando o caixão havia descido completamente. A luz solar banhava o cemitério de forma amena, a bruma mais baixa e quase dissipada.
O indivíduo que tomara o matadouro desativado se dirigia a uma marca fixada no piso de concreto, uma insígnia que brilhava em intensa luz vermelha, segurando a caixa contendo os órgãos amontoados - as pontas dos intestinos grossos balançando para fora.
Este homem de porte atlético vestindo um sobretudo preto de couro por cima de uma camisa branca pisava forte com suas botas pretas deixando para trás uma trilha de pegadas sangrentas. Sua boca sussurrava palavras num dialeto incompreensível chamando por algo que saíra do círculo de luz em tentáculos negros com ventosas como pontinhos vermelhos luminosos que piscavam devagar em conjunto.
Este homem havia perdido sua alma e tudo que a enobrecia em dignidade e retidão.
Este homem se divorciou dos seus princípios.
Este homem... era Frank Montgrow.
***
A atmosfera predominante no bunker da Insurgência se resumia ao mais puro desalento num silêncio ensurdecedor dadas as buscas pelo paradeiro de Frank frustradas pela constante circulação de patrulheiros de aço nas ruas em tempo integral. Naquela manhã, uma semana após o funeral de Giuseppe, Dynno e seus parceiros de caçada retornavam de mais um insucesso. Carrie estava com laptop ligado navegando por diferentes sites, a pessoa mais bem atualizada e informada do local sobre a atividade da força-tarefa da Globemax que mesmo após a confirmação da morte de Elton Hartley manteve-se subserviente a sanção presidencial quando poderia simplesmente desmanchar a aliança com os dois irmãos do magnata assumindo o comando, os quais não simpatizavam nada com o atual chefe da Casa Branca.
Nathan se afundava em tristeza sentado à mesa, a cabeça baixa e apoiada pelo braços como se estivesse dormindo.
— Obteram mais pistas? — indagou Carrie aos caçadores, virando-se a eles.
Dynno se restringiu a balançar a cabeça negativamente, a cara de poucos amigos como os demais, expressando como a ausência de Frank os afetavam. A ínfima e ingênua expectativa que havia no olhar desapareceu num piscar, a assistente voltando o foco novamente ao computador, desconsolada.
— Mas que merda, o que deu naquele cara pra largar de mão da gente desse jeito? — questionou Otto pondo as mãos sobre a mesa — Nathan, meu chapa, eu sinto muito, mas...
— Ele vai ser encontrado! — disparou o híbrido reerguendo-se com irritação — Duvido que ele tenha fugido de Los Angeles com toda a fiscalização de identidade nas fronteiras, seria loucura, mesmo nas condições dele.
— Também não negamos isso. — afirmou Dynno sentando perto dele — Ele não foi preso, está agindo nas sombras com a mesma proficiência de um ninja abatendo suas vítimas.
— É sério que você usou ninjas como parâmetro? — desaprovou Nathan — O que ele se tornou não é nada comparável aos assassinos mais furtivos da história. Tá mais do que provado que o instinto ancestral dominou a mente dele, assumiu todo o controle, não é a toa que nesses últimos dias a Alcatraz registrou um índice abaixo da média pras prisões de monstros.
— Não apenas de monstros. — disse Carrie conferindo no laptop — Caçadores listados como procurados estão dados como desaparecidos. Frank não tá incluso nesse seleto grupo, pelo menos não pela Globemax.
— Como você tá por dentro disso? — perguntou Nathan — Teoricamente era pra ser confidencial.
— Não quando se tem o chefe da fundação ESP como aliado secreto dos inimigos do governo. Hoeckler me emprestou um drive contendo informações de status dos caçadores listados como procurados. Frank continua no topo como o mais procurado. No site do DPLA também consta, afinal é a informação mais publicamente disponível que eles permitem.
— Mas sobre esse lance de caçadores não estarem sendo presos no índice normal... — disse Jasper — Galera, isso não quer que...
— É exatamente o que todos nós estamos pensando. — disse Nathan olhando para todos — O papai tá assassinando caçadores. Ele declarou guerra pra ambos os lados. E não vai parar até que esteja satisfeito.
— Ou até que ele reste como o único caçador vivo da América. — disse Carrie, a preocupação efervescente — Bem que era previsto desde quando ele voltou do Limbo com o sangue do Orion no organismo. Ele se transformou no que mais temia, mas ao mesmo tempo uma parte dele queria alcançar esse estágio mental de agir como um caçador selvagem, frio e calculista.
— Deixa a sessão de psicologia pra quando capturamos ele. — disse Otto.
— Se por um milagre o capturamos. — corrigiu Dynno — Não é seguro pra nenhum de nós com o Frank sendo essa máquina mortífera sem freio e os robôs de merda fazendo ronda dia e noite.
— Tá sugerindo encerrar as buscas? Beleza, isso é com vocês, mas no que me diz respeito a coisa é bem diferente. — disse Nathan que logo levantou-se — Não vou desistir fácil por conta dessa lei escrota ainda em vigor.
— Nathan, seu pai não é mais o mesmo. — declarou Dynno.
— Você não o conhece como eu. Além do mais, sou um híbrido, o que faz de mim tecnicamente o mais bem preparado pra lidar com o poder que o instinto confere a ele.
— Jura que ganha do seu pai no mano-a-mano? Sem querer te ofender, mas, se esse instinto for tão poderoso quanto dizem, melhor apostar no prêmio acumulado da loteria.
— Não importa quais as chances eu tenha de ganhar ou perder uma luta com ele, eu vou acha-lo, aconteça o que acontecer, custe o que custar.
— E se por acaso encontra-lo e ele estiver armado com um lança-chamas? — conjecturou Carrie — Certamente ele deve estar pensando em múltiplas formas de impedir que qualquer um de vocês, inclusive você Nathan, o subjuguem, e com o instinto levado ao extremo... ele é indomável.
— Até você querendo jogar a toalha, Carrie? — repreendeu Nathan a olhando chateado — Logo você, a melhor amiga dele, simplesmente... o abandonando.
— Ele nos abandonou antes. E já foi muito pior, acredite. Não como ele estava, mas como ele fez. Quando Frank desapareceu da primeira vez, ele se exilou numa cidadezinha tão assombrada quanto Danverous City, cansado de carregar o peso do mundo como detetive paranormal. Claro, contraditório, mas era a sua cidade de nascença. Ele havia desistido de lutar. Mas eu não desisti dele. — contava Carrie, a voz embargada e os olhos lacrimejando — Agora é totalmente o inverso, olha como o destino ri da nossa cara. Ele tá vivendo o ápice como caçador e nós tendo que nos sujeitar a distância, ao medo e a angústia. Mas uma coisa não mudou: ele não quer ser achado. E vai se esforçar mais do que nunca pra isso se manter.
O discurso da assistente gerou um novo instante de silêncio desconfortável os caçadores, impotentes com os fracassos diários em coletar indícios e evidências da passagem de Frank nos locais diversos. Natasha e Miyako vinham a sala principal bem determinadas.
— Não podíamos deixar de ouvir. — disse a caça-vampiros — E já temos um posicionamento oficial. Fala pra ele, Miyako.
— Nathan, decidimos que... iremos com você onde quer que vá procurando pelo Sr. Montgrow. — decretou a caçadora nipo-americana que usava uma blusa preta de mangas curtas, calça cinzas e botas pretas.
— Não é pelo fato de estarmos vivendo tempos tão caóticos e sombrios que... devemos abolir a frase "a esperança é a última que morre" do nosso cotidiano. — disse Natasha — É, eu sei que isso parece discurso de palestrinha, mas representa o quanto é necessário seguir em frente não importando que dê certo ou errado.
— Temos que pagar pra ver. — complementou Miyako que sorriu esperançosa para o amado — Podemos ir, não podemos?
Otto resolveu se manifestar:
— Gatinhas, se pra gente em maior número não achamos nem um fio de cabelo dele, imagina...
— Sem querer duvidar da competência de vocês, mas acho que nós três podemos dar conta. — disse Natasha, preparada — Nathan tem o faro de híbrido, isso já ajuda bastante.
— Faro pra encrenca, isso sim. Mas vou fazer o possível. Vocês me encorajaram ainda mais. — disse o híbrido, grato pela cooperação delas. Fora até Miyako e a beijou na testa — Eu vou sozinho. Se a coisa azedar, eu me viro.
— Não, mocinho, o protocolo é nos ligar pra virmos salva-lo. — brincou Miyako.
— Nada de competição sobre quem caça com mais afinco e excelência. — disse Natasha.
— Vocês vão mesmo? — indagou Carrie levantando — Musa do rock... japinha favorita... e quase-filho... Cuidado redobrado.
— Pode deixar, quase-mãe. — disse Nathan que dera um rápido abraço carinhoso na assistente.
***
Uma das tavernas mais requisitadas do subúrbio era gerenciada por um caçador fugitivo da Alcatraz, Falcon, que abriu seu espaço para servir a novas alianças seladas no cárcere. Dentre elas estava um antigo parceiro de Frank, anteriormente preso pelo assassinato de uma jornalista com intuito de expor o detetive. Era Marcel, capitaneando um grupo de caçadores para executar não apenas sua retaliação por Frank tê-lo denunciado, como também impor um limite as ações hediondas que o ex-amigo pepretrava há sete dias contra seus colegas.
Os homens organizavam o arsenal, seja carregando armamentos variados ou fazendo checagens internas. Estavam todos sentados as mesas quando chegara um dos comparsas, Vince, apressado em reportar algo.
— Por que demorou? Tava assistindo filme pornô no carro de novo? — perguntou Marcel largando o que fazia para fita-lo severo. Vince vinha com o laptop e o pôs sobre a mesa, logo abrindo-o — Não vê que estamos ocupados, Vince? Ainda tá cedo...
— Não é pornô, mas vai deixá-los excitados. Invadi o sistema das câmeras desde ontem e passei a acompanhar quase em tempo integral.
— Câmeras de trânsito? — indagou Falcon.
— A partir delas, tive a suspeita de ver nosso cara, especificamente numa rua onde fica uma loja de conveniência. Desencritpei o sistema do circuito da loja para garantir uma visão privilegiada. De ontem a noite. É ele ou não?
Vince reproduziu o vídeo que era um pedaço da filmagem na qual se via Frank passando no caixa. Marcel pausou bem no segundo que melhor o focalizava.
— Pelo jeito que ele conversa, parece amigo da moça do caixa.
— Sinal que faz dias que ele pinta por lá.
Marcel sorrira aberto.
— Amigos, isso também pode ser um sinal... de que comeremos traíra no jantar.
***
No bunker da ESP, Agnes incentivou Lisbell a realizar uma aula prática para fazer com que a bruxa ruiva se distraísse em meio a névoa de luto que a sha vivuez precoce causava e teimava em não desvanecer. Estavam elas na sala reservada para as sessões de treinamentos místicos. Naquela ocasião, o ensinamento consistia em criar uma esfera umbral de pequeno porte dado que era uma nova modalidade a ser aprendida do mais simples nível.
— Vamos lá, concentre-se. Respiração controlada. — dizia Agnes cercada de velas — Procure canalizar até o centro da palma das mãos. Quando estiver pronta para liberar, abra os olhos.
Lisbell tentava ao máximo dar plenitude ao seu esforço, mas flashes de memórias lhe torturaram com imagens de Tanya atingida pela flecha na barriga e dando a sua própria vida no feitiço de reestruturação da barreira espiritual. A sequência se repetia, devagar e veloz, dentro e fora de ordem, muda e barulhenta...
— Isso mesmo, a energia umbral incidiu. Agora... respire mais lentamente e concentre-se em dar forma esférica flexionando os dedos e afastando as mãos uma da outra. — instruiu Agnes olhando com apenas o que a aprendiz desempenhava. Contudo, a esfera de Lisbell subitamente tomou forma numa proporção enorme com um considerável peso. Agnes tratou de acalma-la.
— Lisbell, esvazie sua mente! Afaste qualquer pensamento que interfira no processo! — disse ela tocando-a nos ombros — Eu devia ter avisado antes, me desculpe!
— Não dá... — falou Lisbell, a expressão triste e a postura de cansaço. Se deixou cair de joelhos, a esfera reduzindo e desfazendo — Toda vez que fecho os olhos, vejo ela morrendo nos meus braços... — lamentou, desatando a chorar.
— Não se culpe, fez o que esteve ao seu alcance. — disse Agnes pegando seu baralho de tarô e embaralhando as cartas — Que tal uma sessão de cartomancia.
— Não, por favor...
Hoeckler adentrava na sala.
— Aconteceu algum acidente no treino? Você parece estafada, Lisbell.
— Não, eu tô bem. — disse Lisbell de pé ajeitando os cabelos — Foi só um deslize de aprendiz. Mágica nova.
— Tem certeza que não quer saber o que as cartas predizem? — insistiu Agnes.
— Você não verá nada além de uma névoa escura. Esse é a representação do meu futuro.
Agnes voltou-se a Hoeckler.
— Venho tentando fazê-la superar o luto.
— Por que fala como se a morte da Tanya tivesse sido apenas um artifício pra restaurar a barreira espiritual? Acho que é fácil pra quem era importante demais pra se sujeitar àquilo.
Lisbell saíra enfezado da sala, Hoeckler dando passagem a ela.
— Era disso que eu tinha medo. — disse Agnes, triste — Que nossas formas de encarar o luto se divergissem ameaçando nos separar.
— Ela ficará bem, há uma equipe psicoterapêutica da fundação cuidando pra que ela passe dos seis estágios com as feridas tratadas. Eu teria vindo antes, mas achei que...
— Tudo bem, não iria atrapalhar. Veio informar alguma coisa sobre o Frank?
— Sim, mas nada sobre paradeiro, embora saibamos o que ele tem feito pela cidade. Rastros bem expressivos, trilhas de sangue por locais em que caçadores e monstros estiveram. Isso significa que o instinto ancestral caçador foi levado ao limite, certo?
— Creio que sim. Disse caçadores... Ele também tem feito vítimas humanas?
— A Globemax trata alguns como desaparecidos e colhemos amostras de DNA nas cenas dos crimes que batem com eles, além de evidências que comprovam a presença de Frank.
— Ele matou o próprio diabo possesso de vingança, sem dúvidas. — dissera Agnes, séria.
— Óbvio que sim, dentre as vítimas dele estava a mãe de Frank. E daí?
— Daí que o instinto age como um interruptor de humanidade quando somado a uma conduta vingativa. O deixa psicologicamente suscetível a interferências que podem molda-lo de acordo com as vontades daquele que detém o poder.
— Daquele quem?
— Khaleido. — respondeu Agnes, o tom de seriedade aumentando — Na época da convenção sob a mentoria de Zaratro, ele nos contou da história de Orion. O caçador passou a matar com o propósito de saciar não apenas seu desejo de vingar a família morta como também a fome de Khaleido após a entidade fornecer o instinto.
— Se a família de Orion foi massacrada... Como a linhagem se sucedeu?
— Algum herdeiro sobreviveu desaparecido. Não se sabe se ele tinha irmãos. Mas voltando a Frank... — disse a bruxa sentando à mesa arrumando as cartas — Ele deve ser impedido antes que Khaleido fique satisfeita. A história de Orion se entrelaça com a dele. Mas o final pode ser diferente.
— Como? — indagou Hoeckler, curioso.
— O livramento de Orion foi ter passado pelo teste da Flamígera e morrido por indignidade. Obviamente, os anjos não recairão nesse erro.
— Mas livramento de quê, afinal?
A bruxa o encarou com seu olhar penetrante transmitindo a gravidade da situação.
— Uma união inviolável.
***
Após conferir mais um volume de comida para Khaleido com cabeças de vampiros, Frank ouvira ruídos de algum ponto nos fundos. Olhou em volta e sorriu consigo mesmo.
— Já chega de brincadeira. Esconde-esconde até que é legal, mas fica enjoativo. Prefiro pega-pega. — disse ele limpando o facao no sobretudo e andando — Anda, aparece. Sinalizar e continuar no escuro é coisa de covarde, sabia?
Escondida numa parede estava Lucy que o observava. Acompanhada dela, Nero lhe encorajava.
— Você tá estimulando ele a caça-la, será pior.
— Eu não sei o que fazer. Quero me mostrar, mas... Não me sinto pronta. Vamos embora.
Frank aguçou seus sentidos amplificados.
— Fugiu, né? OK, uma hora te pego.
***
Na catedral angelina, Chernobog aproximava-se do berço de Dante colocado na sacristia para que repousasse tranquilamente. A divindade suprema das trevas cravou os olhos de Fred no bebê que dormia com os bracinhos para cima.
— Chegou a tão crucial hora de iniciarmos nossa vinculação, pequeno ser. — disse ele pondo as mãos na lateral do berço e observando-o — Seu pai se encontra neste mesmo estado. Absorto e imerso em visões oníricas que eu criei para mantê-lo entretido, por ora. Será que você também? — tocou dois dedos na cabeça de Dante e sondou o inconsciente do bebê ao fechar os olhos. — Pois continue com estas visões atentadoras. A sua alma a mim pertence.
Estendeu a mão direita apontada a Dante cujo corpo emitiu um brilho dourado. O bebê foi submetido a uma força aspiradora vida daquela mão perversa. O poder inestimável do pequeno híbrido começava a ser sorvido na forma de um feixe de luz branca e amarela até aquela mão. Chernobog cerrou os dentes e revirou os olhos em êxtase.
— Sinto minha essência energizada como nunca... Se nutrindo abundantemente!
Aumentou a potência de absorção daquele poder desmedido, chegando a fazer Dante levitar. O bebê, porém, criou uma espécie se escudo de luz enquanto despertava chorando alto. Tal escudo vibrava mais intenso com ondas quase invisíveis conforme o choro aumentava. O som chegara aos ouvidos dos querubins e ofanins caídos que estavam reunidos na torre. Todos eles se atordoavam pondo as mãos na cabeça sentido como se múltiplas agulhas espetassem seus cérebros.
Raguel descia a escada trôpego suportando a dor lancinante que aquele choro provocava.
— Mas... Mas quem está reproduzindo esse som terrível? Mestre, ajude-nos! — dissera, caindo pelo degraus.
Chernobog sentira a onda sonora afeta-lo mentalmente em menor proporção, mas o incômodo o fez recuar e cessar a drenagem. Dante voltou a deitar, caindo de leve com as costas no travesseiro sem cessar o choro que intensificou-se, embora não estivesse antes numa altura que oferecesse risco.
Zaratro entrara, alarmado.
— Mas o que houve? Mestre, os anjos entraram numa espécie de surto, como se suas cabeças fossem explodir, pareciam sentir muita dor!
— Não há nada com o que se preocupar. Diga a eles que não passou de um imprevisto com a drenagem que fiz neste rebento. Foi apenas o começo, ele irá se adaptar.
— Então ele reagiu agressivamente. — disse Zaratro se aproximando — Mestre, não quero que pense mal a meu respeito, mas... creio que ele sentiu uma dor tão atormentadora quanto a que infligiu nos anjos. E ainda sente. Acho que não parará de chorar enquanto ela não sumir.
— O que você me sugere para contornar este problema? Não posso anular este plano pelo sofrimento que causa reagindo ao meu poder! — disse Chernobog ameaçando atacar Dante — Se não aprender a me respeitar desde cedo, aprenderá a me temer. — ergueu a mão direita, mas fora parado por Zaratro.
— Mestre, acalme-se!
— Solte-me, Zaratro! Farei essa criança me prestar obediência e se curvar ante a minha presença sem questionar minhas ações!
— Mas ele não possui entendimento apropriado, senhor! A reação dele foi meramente instintiva, a dor fizera isso! Da mesma forma que quando sofremos uma agressão física, reagimos com queixa. Com perdão pela pergunta indiscreta, mas... O senhor nunca sentiu dor?
Chernobog se enfurecia por dentro ao saber que a onda psíquica do choro de Dante lhe afetava em menor escala, sendo esse o motivo para seu descontrole e intenção de instruí-lo dolorosamente. Omitiu o fato, envergonhado.
— Sou uma divindade. Portanto, imune a fragilidades que somente seres insignificantes e obtusos estão sujeitos a sofrer, jamais duvide disso. — afirmou Chernobog olhando severo para o bruxo, depois voltando a olhar Dante — Acho que... superestimei a natureza dele, não é desprovido da humanidade de seu pai.
— Posso criar um feitiço para neutralizar a sensibilidade a fim de que a drenagem seja totalmente indolor. — propôs Zaratro — Enquanto isso, o que fará, milorde?
— Uma visita casual ao meu caro hospedeiro. — disse Chernobog virando as costas e andando para sair — Trate de chamar qualquer um dos caídos para dar assistência ao rebento.
— Não vai simplesmente fazê-lo dormir?
— Ele já dormiu por horas a fio. Um ser neste estágio necessita de atenção e cuidados para se manter saudável, é imprescindível ao meu objetivo com ele. — disse a entidade, saindo da sala. Zaratro ficara observando Dante um instante.
— O que você é, afinal? O maior dos milagres ou a pior das danações? É uma escolha que futuramente deverá fazer, queira ou não. — disse o bruxo que dialogando com o asustado bebê o fazia parar de chorar aos poucos.
***
Em Highland Park, Nathan entrara numa cafeteria um tanto lotada, a qual fazia visitas frequentes, especialmente nos últimos cinco dias. Sentou ao balcão pedindo um café ao atendente e olhou diretamente para a mesa em que habitualmente um grupo de homens se reunia discutindo algo acerca de Frank.
Ignorou o café entregue e se dirigiu aos caçadores, dentre eles Marcel.
— Olá, eu me chamo Nathan, sou caçador... Ahn, qual de vocês é o Marcel?
— Tá olhando pra ele. — disse o líder, soberbamente — O que você quer?
— Ouvi vocês mencionando Frank Montgrow. Ele... é meu pai. Me falou uma vez de você, é amigo de longa data, parceiro de caçadas.
— Que mundo mais pequeno. — disse Marcel com risada — Eu ansioso pra rever meu grande e velho amigo e de supetão dou de cara com o herdeiro do sangue real dele! Quantos anos você tem, rapaz?
— Faço trinta em novembro.
— Nossa, tudo isso!? Frank nunca me falou de um filho, eu até desconfiei assim que você disse, mas olhando bem você me lembra ele. Sem querer ofender, mas ele era meio brocha, não pegava nem velhinha de baile da terceira idade, até pensávamos que fosse gay.
Os demais caçadores riram com infâmia.
— Mas era tudo piada interna, a gente se divertia muito, bebendo e caçando na maior curtição. Bons tempos aqueles. — disse Marcel de servindo de um hambúrguer. Deu uma mordida e falou de boca cheia — Quero traze-lo de volta.
— Eu também. Se quiserem um novo membro pra equipe, tô a disposição. Tenho um bom time comigo, podíamos combinar esforços. Tem ideia de onde ele possa estar?
— Acreditamos que ele esteja perambulando por Atwater Village. — disse Falcon.
— Onde há um matadouro desativado por reprovação da vigilância sanitária. — disse Marcel — A fiscalização passou lá ontem. Deu até no jornal dizendo que foram expulsos por um homem extremamente violento e insano.
— Sabem que ele vem matando caçadores, não sabem? — indagou Nathan — O meu pai tá doente, pode crer que ele não tá causando essa carnificina por livre e espontânea vontade.
— Sim, claro, sabemos. Provavelmente é lá onde ele armazena os corpos. Mas queremos ter absoluta certeza, não vamos nos expor a toa com toda essa patrulha de robôs. Parece até que estamos no mundo dos X-Men. — declarou Marcel.
O leitor EMF de um dos caçadores apitou. Ele retiro o aparelho que indicava máxima leitura.
— Essa coisa endoidou? Não, espera... — notara que a origem era Nathan ao afasta-lo — Tá vindo de você.
Os outros entreolharam-se sérios.
— Deve estar com defeito. Esses leitores improvisados normalmente apresentam falhas. — disse Nathan, nervoso.
— Esse é um original. — enfatizou o homem — Qualquer caçador que se preze saberia distinguir. — estreitou os olhos, desconfiado — Mas já tenho ele há um bom tempo, talvez seja defeito na captação.
— Então... Eu posso me juntar a vocês?
— Firmeza. Bem-vindo ao time, Nathan. — disse Marcel tomando um refrigerante e encarando o híbrido com segundas intenções. Nathan saíra junto deles até a van branca pela qual vieram — E então? Que tipo de problema afetou o Frank? Possessão?
— Bom palpite. — disse o híbrido junto deles frente a lateral do veículo cuja porta foi aberta — Mas não, eu creio que... seja ele mesmo, mas se esqueceu de quem realmente é. Algum plano pra atrai-lo?
— Acabei de inventar um. — disse Marcel abrindo a porta do carona — Se Frank apenas pirou, então existe uma mínima possibilidade dele recobrar o juízo.
— Como? — indagou Nathan que foi cercado pelos homens.
— Negociando a vida do filhinho dele. — definiu Marcel. Falcon tentou socar Nathan, mas o híbrido desviou e dera um chute na barriga do caçador com o joelho. Outros dois o chutaram no mesmo local em ambos os lados, o fazendo cair. Will vieram por trás dele, efetuando um golpe de mata-leão fortíssimo.
Nathan resistia com o rosto avermelhado e os dentes cerrados.
— Quer que eu quebre seu pescoço? — ameaçou Will. O apertou mais forte, enfraquecendo a resistência. Nathan caíra inconsciente e foi levantado pelas braços e pernas, sendo agressivamente jogado para dentro da van.
***
No matadouro, Frank posicionou os caçadores que capturou lado a lado, todos ajoelhados, algemados e temerosos com seus destinos, alguns até clamado providência divina em orações desesperadas.
— Esse é o último. — disse Landon, um caçador coagido a auxiliar no ajuntamento, fazendo o restante se ajoelhar com um chute na canela.
— Eu sei. — disse Frank, mau-humorado — Agora vaza, seu serviço acabou.
— Ahn... Não é pedir demais uma recompensa, né? Você até disse que pensaria no assunto.
— E pensei. — Frank veio aproximando-se dele com arrogância — Aliás, você foi pago adiantado.
— O quê? Não tô entendendo, cara, fala na minha língua.
— O seu salvo-conduto. Acha pouco?
— Eu tô falando de grana, meu irmão. Tenho três filhos e uma patroa esperando o quarto. Qual é? Descola aí, eu fiz tudo o que me obrigou baixando a cabeça sem dizer nada.
— Não combinamos pagamento. Te arranca daqui, Landon... se é que esse é seu nome.
— Não saio daqui sem pelo menos um dólar no bolso. Tá vacilando feio.
— Eu te dei garantia de sair vivo da minha aba e tá reclamando. Olha, sua esposa merece ter esse filho. — disse Frank sacando discretamente o facão — Mas não com um mala feito você por perto.
Frank surpreendeu-o com o facão, decepando a cabeça dele num único e brutal golpe, o sangue do pescoço esguichando para cima. Os caçadores se apavoraram. O detetive sacou a arma focando nos prisioneiros.
— Como é que eu faço? Da esquerda pra direita ou da direita pra esquerda?
— Vai se ferrar, seu bosta...
— Ah, obrigado. — disse Frank logo atirando na cabeça do caçador petulante. Seguiu atirando, da sua direita para a esquerda, nas cabeças dos homens por trás deles sem escrúpulos, um por um caindo com buracos no centro da testa.
Em seguida, alimentara Khaleido com os cadáveres. Após descer o último preso a um gancho e uma corrente aos tentáculos, a entidade se comunicou com flashes de seu olho medonho e amarelo, proferindo algo num dialeto compreensível ao seu servo.
— Você quer se fartar... da coisa mais poderosa que existe, né? Seu de uma que vale por um banquete. — prometeu Frank tendo em mente a única criatura capaz de realizar o desejo.
***
Nathan acordava enfim num banheiro horrivelmente sujo. Estava amarrado no fio da lâmpada no teto, os pés suspensos. Um dos capangas de Marcel entrava. Pegou o celular e falara:
— Liga a força. Voltagem máxima.
O hibrido logo sofreu um choque elétrico que o fez se debater e grunhir alto.
— Íamos usar isso pra te fazer acordar, mas achamos mais divertido assim.
— Ah, é? Mas eu nem tava dormindo. — revelou Nathan que num impulso usou as pernas para prender o pescoço do capanga. Empreendeu força máxima de modo que produziu um som de fratura óssea, fazendo-o cair morto. Se desprendeu do fio após forçar bastante. Saiu do banheiro e foi se esgueirando num corredor ouvindo vozes, incluindo a de Marcel.
Esperou o instante certo para se expor. Todos se aprontavam para sair quando o híbrido revelou-se liberto.
— Será que vocês poderiam dar uma olhadinha no parceiro de vocês? Acho que teve um torcicolo.
Os homens sacaram as armas cercando-o. Nathan pehara uma cadeira e jogara num deles, depois rolando para um lado no chão recebendo balas. Usava as mesas como trincheiras até que ergueu-se contra-atacando com seus tiros, alguns acertando três deles em pontos vitais. Nathan chutou uma mesa contra Falcon que caiu. O caçador só leitor EMF aparentemente defeituoso avançou.
— E aí, consertou o medidor? — perguntou Nathan enquanto desviava dos socos. Desferiu uma cabeçada que deixou-o zonzo.
— Não, tava funcionando perfeitamente!
Outro viera enfiando um taco de sinuca na barriga e o empurrando contra o balcão onde bateu as costas derrubando garrafas de bebida sobre ele. Ao desviar de um tiro, a faísca fez con que entrasse em combustão. O fogo se alastrou pelo braço, desesperando-o.
Um deles pegara um botijão de gás e acendeu um isqueiro. Porém, Marcel o barrou.
— Tá maluco? Quer explodir todos nós?
— Ele é sobrenatural, a fraqueza dele é fogo!
— Disso aqui ele não escapa! — disse Will, o mais forte do grupo, armado de lança-chamas. Nathan se livrou das labaredas e ficou na janela mais próxima. A rajada de fogo da arma disparou violenta, mas o híbrido fora rápido em correr até a janela e pular quebrando o vidro.
— Merda, escapou... — disse Falcon. Mas vira algo largado no chão — Peraí... — apanhou o celular — É de algum de vocês?
Os parceiros negaram. O fogo foi apagado por um extintor usado por Vince. Marcel pegara o celular, enxergando uma robusta vantagem.
— É dele. E nos será muito útil.
***
Frank fizera uma parada na floresta onde situava-se a casa na qual Lilith se instalara. Com um binóculo, espionou o interior da casa focando na janela do quarto, ocultando-se entre arbustos. Viu uma das amigas demônias de Lilith ninando Fred Jr. No meio de um monte de árvores magrinhas, fechou os olhos e juntos as mãos para fazer uma prece.
— Adrael, voa pra cá, eu... quero te pedir um singelo favor, não vai te tomar muito tempo.
O serafim surgira prontamente atrás dele com sua expressão sisuda e dura.
— Pois não, Frank? Em que posso ajudar?
— Cheguei a pensar que não viria por eu... você sabe, não tenho estado no meu normal ultimamente, eu andei pirando completamente.
— Não, eu não sei. Caso não se lembre, o mundo celestial sofreu um golpe arrasador avalizado pelo Grande Mal. — disse o anjo se aproximando — Fomos expulsos de nosso lar, Frank. Banidos como ímpios rebeldes e escarnecedores.
— É, eu vi, é claro que lembro... Todas aquelas bolas de fogo caindo, as pessoas alardeando que era uma chuva de meteoros global. Já tem um bocado de seita religiosa anunciando o armageddon pra daqui há poucos dias, tá todo mundo louco. Mas pelo menos vocês não perderam suas essências.
— Um anjo banido de seu lar é como se perdesse suas asas. Como se sentiria se fosse defenestrado de sua própria casa?
— Pode-se dizer que Chernobog me expulsou da minha casa antes de engolir minha cidade.
— Exato, e como se sentiu depois disso?
O detetive imergir em pensamentos, relembrando o dia fatídico em que por pouco não morrera pelo terremoto dentro de sua casa durante a destruição medida na escala máxima do megassismo. Mas o sentimento de melancolia que se esperava não veio.
— Olha, o assunto que temos a discutir não diz respeito a mim. Vamos focar no favor que eu vou pedir a você agora. — fez uma pausa breve antes de proferir — Preciso que troque os bebês.
— O quê? Troca-los? Isso é muito vago. O que realmente você planeja fazer com os rebentos do nefilim?
— O bebê número um, o Dante, a criatura mais poderosa existente, tá sob a tutela do Chernobog que sem dúvida vai tentar fazer do moleque um ratinho de laboratório, ou seja, tirar uma casquinha do poder imenso que ele tem. Tá, não uma casquinha, acho que ele vai espremer o neném até a última gota que nem uma laranja pra deixar só o bagaço e a casca.
— É alguma alegoria para... extração forçada de poder?
— Isso aí mesmo. O que você deve fazer é bem simples: você substitui o Dante pelo bebê número dois, o Fred Jr., mas com cautela pra não chamar atenções indesejadas.
— Frank, o que está me obrigando a fazer é de um risco desnecessário para o bebê humano. — ressaltou Adrael, contrapondo-se veemente — Uma vez que o Grande Mal constate a farsa, será tomado pela fúria e provavelmente matará a criança sem a menor misericórdia.
— Não tô te obrigando, favores podem ser recusados. Então se é isso que você quer, pode voltar pra seja lá qual buraco onde se enfiou.
— Encontramos um lugar temporário, passei os últimos dias organizando e adaptando meus subordinados e irmãos civis, não está sendo nada fácil. Por isso não acompanhei sua rotina, nem ao menos o visitei.
— Legal, mas você tá dentro ou fora da jogada?
— Eu não vou arriscar a vida de um inocente indefeso. — dissera Adrael categoricamente.
— Então vai deixar o Chernobog ficar com a mina de ouro que é aquele bebê? Se fartando de poder até estourar? Quer vê-lo se fortalecer?
— Se bem que... a extração, quando levada ao limite, é potencialmente letal. Fomos autorizados por Raguel a proceder nisso na época em que Fred era bebê, mas levaria tempo em demasia, então ele optou por morte imediata. Não quer que eu assassine a criança, quer?
— Resolveria todo o problema, mas não, vou mante-lo longe do Chernobog por enquanto.
— Por enquanto? E a seguir, o que fará?
— Adrael, vai ou não colaborar nessa? Quanto mais ele suga o bebê, mais forte fica. Não tem discussão, o único modo é arrancando ele de lá.
Adrael olhara para a casa, temendo o resultado final do audacioso plano.
— Estamos muito expostos aqui. Há demônios circulando nas redondezas, podem nos sondar. A mãe dos bebês não está presente?
— Observei a uma distância segura. Lilith tá fora, a barra tá limpa. Só a babá fazendo o neném dormir. Ela saiu do quarto, vou aproveitar a deixa.
— Como sabe disso? — indagou Adrael com olhos estreitados.
— Instinto de caçador. — disse Frank caminhando diretamente a casa.
— Entendi. — falou Adrael, desconfiando da postura pouco empática do detetive.
Frank seguiu até a janela do quarto quase abaixado, logo bisbilhotando por cima do peitoril. Se ergueu e adentrou passando pela janela aberta, andando vagarosamente até o berço guardado por um cão do inferno sob a pele de um doberman com uma coleira de espinhos prateados. O animal dormia ao pé do berço, um sono igualmente profundo ao de seu protegido. Porém, a babá retornava ao cômodo para verificar se o bebê dormia tranquilo e travou ao se deparar com a figura de Frank pego em flagrante na intenção de roubar Fred Jr.
— O que pensa que tá fazendo? A Lilith esqueceu de colocar uma placa de "proibido caçadores". — disse a demônia que piscou seus olhos e os exibiu totalmente pretos, logo atacando o detetive com golpes de karatê, os quais foram sobrepujados facilmente por ele. Frank não perdeu tempo, sacando a lâmina sacerdotal e a fincando na barriga dela. O preto dos olhos da demônia desapareceu.
— Da escolinha de karatê que você veio eu fui professor. E dos melhores. — disse ele, desencravando a lâmina rápido e largando o corpo antes possuído. O cão infernal logo vieram ao ataque, partindo com tido para cima numa mordida no braço esquerdo de Frank que caiu. O animal mostrava o brilho vermelho e macabro de seus olhos enquanto afundava mais as presas no braço do detetive. Frank sacou uma pistola e disparou na barriga do cão que removeu os dentes e foi chutado em seguida.
Frank levantou-se depressa e o pegou antes que ele avançasse novamente e o jogou na parede atrás de si. Com a pistola carregada de balas embebidas de água santa, atirou incontáveis vezes no cão que se debatia e emitia ganidos com os tiros esburacando seu corpo. Com a criatura morta, Frank guardou a arma e voltou-se ao berço de Fred Jr. que chorava agitadamente por se assustar com os estampidos.
— Vem com o titio aqui... — disse ele retirando o bebê do berço — Calma, rapaz... Deixa de choro, foi só um susto. — tentou balança-lo com chiados e ruídos para acalma-lo — Quer saber? Melhor darmos o fora antes que a mamãe leoa chegue. Tenho o calmante perfeito pra você.
Retornava até Adrael que guardava sua espada média na bainha após um brutal embate contra os demônios parceiros de Lilith e os cães.
— Tô vendo que você não ficou entendiado.
— Ouvi muitos tiros. Matou o demônio travestido de cuidadora?
— A babá vadia e um cãozinho brabo do inferno. A vadia-chefe parece que deu uma saída, talvez fazendo comprinhas pro bilu-bilu aqui.
— Sua mão esquerda está sangrando.
— O sarnento me tascou uma mordida daquelas pra vingar a morte de uma das donas dele.
— Sabe que a mordida de um cão infernal é altamente infecciosa a humanos, pode levar a óbito em poucas horas. É transmissível pelo sangue também, pode passar ao rebento.
— Relaxa aí, doutor, vou me limpar e me curar depois, além do mais a mordida não vai me matar enquanto eu estiver com o instinto do meu ancestral. — garantiu Frank tranquilamente enquanto Fred Jr. chorava sem interrupção — Hora da sua parte, mas primeiro cala a boquinha dele, por favor. Não sei pra quê esse chororô.
— É claro que ele devia chorar, nesta fase são muitos sensíveis a barulhos intensos, deveria ter conduzido sua ação com menos estardalhaço. Frank, não posso leva-lo, esse plano é de uma tamanha imprudência que...
— Você pode, só não quer! — insistiu Frank engrossando o tom — Basta usar o toque sonífero angelical e ele dorme como se estivesse nas nuvens pro plano sair nos trinques. Vai lá, Adrael... O coitadinho tá tremendo, o coraçãozinho dele tá acelerado...
O serafim soltou o ar pela boca se permitindo ser paciente. Sensibilizado com o estado emocional do bebê, acatou o pedido de Frank. Ao tocar dois dedos na testa de Fred Jr., calara o choro instantaneamente.
— Ótimo. Quanto dura essa soneca? — indagou Frank, entregando o bebê aos braços do anjo.
— Talvez pelo resto do dia, a menos que um barulho extremamente alto o acorde. Me espere aqui, não demoro. — declarou Adrael que logo se teleportou em milissegundos até a sacristia da catedral de Los Angeles. Lá estava o berço no qual Dante dormia coberto por sua manta azul claro. Cuidadosamente, Adrael pusera Fred Jr. ao lado do irmão, logo retirando o outro com igual delicadeza e lentidão. Cobriu Fred Jr., que passava a dormir de lado, com a manta.
O serafim escutou passos se avizinhando e tratou de se retirar com o bebê meio anjo e meio demônio. Um querubim caído entrava no recinto, desconfiando de uma presença além de Dante. Frank sorriu de canto ao ver Adrael retornar segurando o último sacrifício para Khaleido.
— Me assegure que cuidará dele responsavelmente. — exigiu Adrael.
Frank dera uma risadinha.
— O que acha que eu vou fazer? Sacrifica-lo a um deus pagão? Vai ficar tudo bem com ele, Adrael. Chernobog vai ficar com cara de tacho.
— Frank, eu temo que isso será o mínimo que vai ocorrer. Mas não vou me responsabilizar. Preste suas contas com Lilith, eu não fui nada mais que um instrumento. — disse Adrael em tom meio baixo, dando o bebê aos braços de Frank.
— Ela que se dane. Não vai usar o toque angelical nele?
— Não é necessário. Está dormindo muito profundamente. Como vai transporta-lo em segurança?
— Tô com o ninho redutor lá no carro, deixa ele bem confortável. Valeu mesmo, Adrael. Fico te devendo mais essa, amigão. — agradeceu Frank que virou as costas e saiu caminhando com Dante. Porém, tivera a atenção chamada.
— Frank, posso não estar ciente das suas reais intenções, mas sei o que ocorre no seu interior. Não é mais o caçador potencial que meus irmãos ofanins contemplavam. Mais do que isso, não é mais a quem eu depositava tanta fé e apreço. Você mudou e receio que isso pode não terminar bem para sua estrutura mental.
O detetive olhava-o por trás, mas optou pelo silêncio, tornando a caminhar com Dante rumo ao BMW. Minutos depois, Lilith voltava com sacolas de compras e as pusera na mesa de jantar na sala.
— Becky, cheguei! Me avisa se ele tiver acordado, vou apenas... — interrompeu-se ao notar a calmaria estranha — Becky? — chamou, indo até o quarto. Ao chegar lá, tivera uma súbita aflição vendo o corpo-hospedeiro de Becky largado e esfaqueado, além do cadáver baleado do doberman. Foi até o berço e assombrou-se por não ver Fred Jr. ali dormindo — Não... Não, não, não... — se teleportou a cozinha e nada de vestígios do filho, até chegou a abrir o forno do fogão temendo que Becky, pouco confiável, tivesse tentado mata-lo, mas não teria ficado menos desesperada se encontrasse o corpo do filho tostado. Retornou a sala num piscar de olhos, as mãos na cabeça a ponto de arrancar os cabelos — Nãããããoooo!
Com seu poder telecinético, abriu os braços afastando móveis numa intensa agressividade e destruindo o vidro das janelas. Lilith enegreceu totalmente os olhos, a fúria assassina que estava um tanto dormente desde o nascimento dos filhos regressando com a força de um tsunami.
***
O BMW estacionou num posto de gasolina no qual Frank rapidamente abastecera o veículo. Dante continuava ouvindo a canção de ninar pelo celular, mas não dormia. Após terminar de encher o tanque do carro, Frank abriu a porta para pegar o bebê.
— Não tá mesmo com sono hein. Mas pelo menos as musiquinhas te acalmaram. Vem comigo comprar um leitinho pra você.
Removeu ao fones dos ouvidos de Dante e o retirou do ninho redutor.
— Opa, vê se não abre o berreiro de novo. — advertiu Frank por conta dos gemidos do bebê. Fechou a porta e se encaminhou até a loja de conveniência.
Vince se posicionou num apartamento desocupado apontando um fuzil sniper para a janela aberta. Com a mira telescópica, viu o carro de Frank e prontamente avisou a Marcel.
— Alvo quase na mira. Tô vendo o carro dele no posto de gasolina. Acabei de entrar e ele pode ter acabado de chegar também. Tá olhando aí pelas câmeras da loja? — disse ele pelo comunicador Bluetooth.
— Peraí, tá acontecendo um lance esquisito aqui.— disse Marcel frente ao laptop e junto com outros dois capangas em cada lado — Algumas câmeras estão com interferência, quase cegas, outras com delay, o áudio não sincroniza com a imagem, que merda!
— Mas nos pontos normais não dá pra ver nada que indique a presença dele? — perguntou Vince.
— Não, justo as câmeras boas não focalizam ele. Tem certeza que ele ainda não tá no carro? — questionou Marcel, a ansiedade subindo.
— Ninguém. Os vidros das portas do motorista e do carona estão abertos. Ele tá dentro da loja. — constatou Vince após aumento do zoom da mira — Eu tô em propriedade privada, tem um fiscal checando a estrutura, foi barra passar despercebido. Se me pegam aqui, tô fudido.
— Sério? Talvez não, podem achar que você tá olhando as estrelas com um telescópio. — ironizou Marcel, se aborrecendo — Escuta, faz o seguinte: manda o carro dele pros ares.
— Lança-foguetes agora? Sem nem esperar ele voltar?
— Tá, espera ele ficar bem exposto.
Enquanto punha as coisas de que o bebê necessitava na cesta de compras, Frank notou-o olhando fixamente para ele.
— O que foi? Tá me achando bonito, é? — indagou o detetive que afagou o narizinho dele com o indicador. O bebê tocara o dedo de Frank que sentiu uma torrente de poder invadir sua mente, o fazendo vislumbrar um futuro breve deles saindo da loja. Na visão, Frank retornava ao carro com Dante, contudo algo vinha veloz na direção deles partindo da janela de um apartamento, mais precisamente do terceiro andar do condomínio. Frank percebeu ser um míssil de bazuca e se abaixou protegendo o bebê. O projétil atingiu a bomba de propano que explodiu levantando o carro, a onda se fogo acertando os dois em cheio.
A visão terminou e Frank ter despertado de um pesadelo. Surpreendeu-se ao ver os olhos de Dante brilhando em dourado inteiramente. O bebê piscou, voltando ao normal, e deitara a cabeça sobre o peito de Frank bocejando.
— Gostei desse superpoder novo. Sinistro, mas útil. — disse Frank que retomou as compras.
Ao passar pelo caixa, a atendente, uma moça de cabelos loiros escuros e amarrados, lhe sorriu educada e simpática, passando os produtos.
— Olá, não esperava ver você tão cedo hoje. — disse ela — Eu... sou a Charlotte. — baixou os olhos para o crachá — Ahn... Ah, eu sou meio desligada. Tá bem no meu uniforme. — dera uma risada — Que idiota se apresentar desse jeito, né?
— Não, de boa, muita gente comete esse erro. — respondeu Frank, gentilmente — Me chamo Frank.
— Ah sim, oi Frank. E quem é essa fofurinha? Príncipe ou princesa?
— É um príncipe, mimado pra caramba. — disse ele, segurando Dante para ficar mais visível.
— Oh, ele é lindo. Seu filho?
— É como se fosse. O papai foi tirar um dia de folga e eu, o tiozão, fiquei encarregado de segurar esse rojão aqui.
— Mas é estranho o pai tirar folgar sem dar toda a atenção ao filho. Quantos meses ele tem?
— Nasceu há pouco mais de duas semanas.
— Desculpa a sinceridade, mas... Seu irmão é um péssimo pai. Qualquer um largaria tudo pra ficar mais perto do filho num dia livre. Digo, os pais amorosos com filhos recém-nascidos.
— É, tentei um monte de vezes convencer ele de que não se garante nem um pouco nisso, não mais do que a mãe. Né, garotão? — disse Frank que arqueou as sobrancelhas fazendo uma careta para Dante.
Ao saírem em retorno ao carro, Frank olhou sisudo na direção do condomínio levando a sacola com as compras numa mão e segurando Dante com a outra. Vince mirava a bazuca, mas ao visualizar pela mira que Frank trazia um bebê no colo, sua percepção alterou drasticamente.
— Ele tá saindo, Vince. Dispara!
Mas o capanga não respondia, largando a arma.
— Foi mal, Marcel. Mas não posso, ele... tá com um bebê...
— Um bebê?! Era só o que faltava. — resmungou Marcel passando as mãos no rosto.
— Parece que esse desgraçado sabe que vigiamos ele e armou essa pra se safar! — disse Will, o mais forte fisicamente do grupo.
Vince ficou parado pensando em abortar a missão. Porém, Marcel cruelmente insistira:
— Atira mesmo assim!
— Não dá, isso é loucura! — retrucou Vince — Meu negócio é com gente grande, não bebês! Quer saber? Tô caindo fora. Se quiser, manda toda a rapaziada vir atrás de mim. Fui!
Frank abriu a porta do carro olhando o prédio.
— É daquela janela que viria o míssil. Mas cadê?
De repente, um rastro de gasolina incendiou ameaçando chegar ao propano. Frank urgentemente foi apagar, deixando a cesta no chão. Pisava nas labaredas que apagavam. Em seguida, uma ventania correu por toda a rua, arrastando lixo e balançando árvores. Frank foi voltando ao carro lutando contra o vento. A corrente cessou rapidamente.
— Você que fez tudo isso? Caramba, é uma força da natureza mesmo. — disse Frank colocando a sacola no porta-malas — Bom que seu poder de premonição não acertou. Mas é uma pena que você não vai viver pra me mostrar os números da loteria. — o fitou — Vamos embora, vou cuidar de você até o anoitecer.
***
Com o carro estacionado na esquina com o posto de gasolina em Arwater Village, Natasha e Miyako discutiam os passos da busca.
— Os relatórios da polícia não são conclusivos, ele pode estar instalado em qualquer lugar e transitar por toda a cidade. — disse Natasha duvidando das teorias — Frank não seria idiota. Caçar é extremamente fácil pra ele, mas ser caçado...
— Mas não seria impossível ele fazer morada nesse bairro e frequentar locais específicos. – contrapôs Miayko.
— É o que ele talvez quer que pensemos. Podemos estar perdendo tempo.
— Não custa checarmos. Confio na apuração da polícia, já colheram relatos que forneceram descrições correspondentes. Alto, porte atlético, caucasiano meio bronzeado, cabelo grisalho...
— Tá bom, eu sei onde conferir primeiro. — disse Natasha olhando bem a frente — Loja de conveniência.
— Vai sozinha?
— Alguém tem que vigiar o carro. — falou a caça-vampiros saindo do veículo — Volto logo.
— Mas tem alarme. — disse Miyako — Ah, esquece, a auxiliar fica de guarda. — revirou os olhos, chateando-se com a postura da parceira.
Entrando na loja, Natasha fora até a operadora de caixa, Charlotte.
— Olá, poderia me dar uma informação, por gentileza? Eu tô procurando um homem, ele tem cabelo grisalho, usa um sobretudo preto...
— Qual o nome dele? — indagou Charlotte desconfiada.
— Frank. — respondeu Natasha, atenta. Charlotte engoliu a saliva.
— Voce não é da polícia, é?
— Não. Sou caçadora, amiga dele. Me parece saber quem é. Ele passou por aqui hoje?
— Hoje e nos últimos sete dias, até ficamos meio que amigos. Sei que ele é o caçador mais procurado do estado, mas não sou a favor dessa iniciativa do governo em punir pessoas que são heróis independentes. Vem correndo no plenário um plebiscito de anulação da lei e já inclui minha assinatura...
— Olha, eu tô com pressa. Sabe me dizer pra que direção ele foi?
— Não sou paga pra espionar quando os clientes saem. — respondeu Charlotte contando dinheiro.
— OK, outra abordagem. — disse Natasha que logo a agarrou pela gola do uniforme a assustando — Sete dias, é bem provável que ele tenha dito a você onde mora já que se deram bem.
— Não sei, mas como ele ta de viagem, acho que num desses motéis baratos, tem vários aqui perto. Faz meia hora que ele saiu. Me larga.
— Ele tava sozinho?
— Não, hoje ele veio segurando um bebezinho de colo, sobrinho dele cujos pais moram aqui em Los Angeles, veio visita-los.
— Um bebê? — indagou Natasha, imaginando quem pudesse ser — Como ele é?
— Como quase todos os recém-nascidos, meio carequinha e olhinhos quase abertos.
— O que ele comprou?
— Leite em pó, fraldas, coisas de bebê. Ficou de passear com ele enquanto o pai tirou um dia de folga. Estranho, né? Da mãe eu não sei.
— Tudo bem, obrigada. — disse Natasha imersa em dúvidas, soltando Charlotte e saindo.
Vendo-a retornar, Miyako notou a expressão da amiga denotando suspeita e tensão.
— O que foi? Você parece meio... nervosa.
— Frank passou na loja. — disse Natasha fechando a porta do veículo — Não sozinho. Ele tava com um bebê... E sabemos que nasceram dois em particular recentemente.
— Os filhos do Fred? Um deles, o híbrido de anjo e demônio, tá sob custódia do Chernobog. O outro é o humano...
— Fred Jr., o que vimos no dia do casamento, mas o que a atendente descreveu não condiz a ele. Frank passou lá meia hora atrás trazendo um bebê carequinha. O Fred Jr. tem cabelo.
— Bem lembrado. Então o Sr. Montgrow... resgatou o Dante?
— Com o instinto ancestral de caçador possivelmente no máximo, diria que foi moleza pra ele. Pra quem tá ligando?
— Nathan. Não deu notícias desde que saiu.
O celular do híbrido tocara na mesa onde Marcel e os capangas se reuniam.
— Não atende. — advertiu o líder — Rastreia a ligação.
O comparsa que assumiu a função de Vince localizava a área de cobertura da ligação pelo laptop, facilmente detectando.
— Atwater Village, esquina com a Super Wonder.
— Quase encostando na gente. — disse Falcon.
Marcel pegara o celular ainda tocando e o arremessou na parede. O aparelho se espatifou em alguns pedaços.
— Quem quer que seja, vai rastrear o telefone.
Miyako reagiu com estranheza.
— Nossa... Parou de chamar, mas nenhuma mensagem de fora da área ou caixa postal. Combinamos de manter nossos celulares ligados pra manter contato, é o básico.
— Mau sinal. Vou usar o aplicativo de rastreamento. — disse Natasha usando seu celular. Digitou o número de Nathan, mas o radar não captou — Inexistente. Destruíram o celular dele. Vou ligar pro Hoeckler.
— Por que a ESP não cuida de rastrear o Sr. Montgrow?
— Soube que a Globemax vetou a ESP que anda bem ocupada com as aberrações espalhadas. Acho que a parceria tá azedando.
— Se rescindirem o acordo, Hoeckler pode formalizar um pedido de revogação da lei. — anteviu Miyako, otimista.
— Hoeckler, aqui é a Natasha. Vocês daí teriam como rastrear um celular destruído?
— Se estiver grampeado, sim. É sobre o Frank? Desista, ele se livrou do dele há dias.
— É o Nathan, ele saiu na busca separado de mim e da Miyako, mas descobrimos que o celular dele morreu. E quanto ao Frank... Tenho uma possível pista e uma teoria.
— Pois então fale. — disse Hoeckler no quarto com Agnes lhe fazendo massagem nos trapézios. Foi ouvindo a caçadora — Ele está com o filho sobrenatural do Fred, o híbrido?! Mas... — levantou-se, deixando a bruxa curiosa — Mesmo dotado do instinto, seria impossível ele adentrar despercebido no covil do inimigo, inimigo esse capaz de detectar sua presença a um nível divino.
— Ah é, esqueci que o Chernobog tem uma espécie de semi-onisciência com o tal Olho Que Tudo Vê. Mas se nada escapa ao radar dele, já não teria pego de volta o bebê?
— Meu palpite é que Dante consiga ocultar a si mesmo e quem está tomando conta dele. Sendo assim, pode-se dizer que ele se apegou a Frank. Aquele bebê é um ser que transcende a todo e qualquer ser paranormal conhecido. Espere...
Agnes tinha algo a declarar.
— Esse bebê é o descendente híbrido do nefilim, certo? Na profecia diz que Khaleido saciaria sua fome quando o caçador lhe trouxesse a criatura mais substancial e elevada em poder.
Hoeckler sentiu um frio correr pela espinha.
— Se puderem, achem-no antes que algo terrível aconteça.
— O quê?
— Frank pretende sacrificar o bebê à entidade que governa o Limbo.
Ambas se estarreceram entreolhando-se ao ouvirem.
— E depois? O que acontece se ele conseguir?
— Ele será possuído. — avisou Hoeckler as deixando intensamente ansiosas.
***
De volta ao seu quarto de motel barato em Dowtown Culver City, Frank adentrava segurando um escandaloso Dante que proporcionava mais uma dose de estresse.
— E quando pensei que você finalmente tinha se aquietado, você resolve chorar por mais da metade do caminho. — disse ele deixando a sacola sobre uma mesa — Epa, peraí... — o colocou de frente para ele segurando pelas axilas — Encheu a fralda, né? Pelo menos foi numa boa hora.
Tinha-se início a maratona de cuidados que seria levada até a noite. O detetive cumprira suas obrigações devidamente: limpara o bumbum de Dante, passara pomada anti-assaduras e trocara a fralda colocando, de narinas tampadas, a suja na lixeira de pedal.
— Ótimo, neném tá zerado. — disse o tirando da cama cuidadoso — Acho que você tá limpinho demais pra precisar de um banho. Melhor pularmos pro leitinho, aqueles monstros devem ter te feito passar a maior fome.
Organizou travesseiros para formar barreiras ao redor dele na cama, assim evitando uma possível queda. O deixou deitado enquanto fazia o leite. A fome o fizera cair no choro novamente.
— Já vai, já vai... — dizia Frank que notou a luz do abajur e a do teto acendendo e piscando — Se já faz isso desse tamanho quando tá irritado, imagina quando crescer. — mas recordou de sua missão — O que eu tô dizendo? Esse pestinha nem vai crescer... — fitou Dante com certo dó, mas logo afastou a ideia de revogar o sacrifício — Não posso me desviar do propósito. Tem que acontecer.
O retirou da cama para alimenta-lo. O bebê emitiu um som entendido como "angu".
— Angu? É, acho que isso conta como primeira palavra. — disse Frank agitando a mamadeira.
Após a refeição, Dante recebia tapinhas suaves nas costas para arrotar. Quando enfim soltou os gases, passou a fitar Frank.
Dante gemia parecendo desenhar um sorriso no rosto ao mesmo tempo que fechava os olhos com a sonolência. Frank entendera que ele só precisava de alguém conversando para se sentir plenamente bem.
— Agora é a parte mais difícil. Como é que vou te ninar? Meu celular descarregou, então sem musiquinha. OK, uma historinha. Deixa eu ver... Era uma vez, um caçador de tesouros subordinado a uma entidade cósmica que se alimentava dos tesouros que ele trazia. Um dia ele trouxe o mais valioso dos tesouros que já encontrou na vida. E a entidade saciou sua fome se tornando a criatura mais poderosa. Legal, né?
Já anoitecia e Frank havia posto Dante já adormecido na cama rodeado dos travesseiros.
— Isso aí, dorme bem tranquilo... até a gente dar um outro passeio. — disse apagando a luz do abajur o olhando dormir. Foi até a janela contemplando a estrada deserta — O último que teremos juntos. — as íris dos olhos brilharam em vermelho, a influência de Khaleido mantida.
Na ESP, Lilith surgia diante de Hoeckler antes que ele saísse do quarto. A demônia o jogou à parede com telecinesia e o sufocou.
— Agnes, confio mais na sua palavra. Cadê o meu filho, o Fred Jr.?
— Espere, não o mate! — alardeou Agnes, afoita.
— Ele vive se me disser onde colocou meu bebê!
— O seu filho humano não está aqui! Mas... Dante não está mais com Chernobog.
Lilith abrandou a asfixia de Hoeckler ouvindo o nome do filho.
— Como não? E com quem está?
— Ficamos sabendo que Frank está com ele.
— Frank... De alguma forma, ele o resgatou. — conjecturou Lilith.
— Acho difícil, não sabemos o que realmente ocorreu. Mas garantimos que seu outro filho não foi levado para cá. Acredite em nós.
A demônia libertou os pulmões de Hoeckler, o tirando da parede ao baixar o braço.
— Nunca... sequestraríamos a criança humana sabendo que ela vive num lugar magicamente protegido contra anjos caídos. — justificou ele, ofegante, afrouxando a gravata vermelha — Mas o próprio Chernobog pode tê-lo levado.
Pensando em tal possibilidade, Lilith teletransportou diretamente até a catedral onde Chernobog estava diante de Fred Jr. ainda dormindo no berço na sacristia.
— Muito bem, Zaratro me assegurou que o feitiço o privaria da dor. — disse ele apontando a mão direita para o bebê e abriu exercendo seu poder de absorção. Entretanto, nada ocorria. Tentou repetidas vezes até a paciência esgotar — O que está havendo? Ele deveria brilhar.
Um querubim caído chamado Jeliel o acompanhava. Observou a fisionomia do bebê.
— Mestre, há algo errado. A aparência do rebento. Este é um pouco menor e tem mais fios de cabelo.
— Substituíram os bebês... — disse Chernobog rangendo os dentes — Quem teria a audácia de fazer isso pelas minhas costas?
— A serpente do Éden. A maior suspeita. Ademais... Ouço a voz dela, está aqui.
Na nave, Lilith fazia um escândalo.
— Me deixem passar agora! Sei que ele tá aqui, sinto a energia dele!
Com a aproximação de Chernobog, os querubins abriram passagem e se curvaram.
— A quem devo a honra da sua incompreensível visita?
— Me devolve o Fred Jr., agora.
— Primeiro devolva Dante. — exigiu Chernobog secamente — Você os trocou, não foi? Apenas para se vitimizar reivindicando o outro.
— Por que eu trocaria o Dante com o Fred Jr.? Meus próprios filhos, nunca faria isso!
— Não vejo porque não faria, Dante é seu favorito. Fred acredita piamente nisso. Segurem-na!
Dois querubins agarraram Lilith pelos braços.
— O que farão comigo? Eu juro que não fiz nenhuma troca! Amo meus filhos igualmente, me larguem!
— Não, você prefere Dante pelo que é e representa para o futuro. Fred reconhece isso e tolera. — disse a entidade, provocadora.
— Não fale do Fred! Sai do corpo dele!
— Deixem-a no porão. Irá criar seus rebentos lá após recuperarmos o híbrido.
— Mestre, não! — disse Kezabel intrometendo-se. A querubim olhou para Lilith — Ela é inocente. Eu fiz a troca.
— Kezabel, para! É mentira... — dizia Lilith, aflita pela posição da amiga — Dante está com Frank, ele o pegou!
— Eu quem o entreguei nas mãos dele.
— Não faça isso por mim, não vale a pena!
Chernobog a fitou austero.
— É uma traidora que vejo? Assim como em prol do seu neto, o fez pelo rancor por eu ter me apossado do corpo de seu filho. Uma sabotagem que não seria infalível se eu estivesse fora do meu estado meditativo.
— Eles foram duas das criaturas que mais amei. Era meu dever manter Dante a salvo do risco de morrer enquanto fosse drenado através o âmago de sua alma. — declarou Kezabel, impetuosa.
— O processo o mataria se levado além do limite, mas graças ao feitiço inibidor de sensibilidade criado por Zaratro.
— O seu cachorrinho enfeitiçou o Dante?! — indignou-se Lilith.
— Para evitar uma morte súbita durante a drenagem, mas voltando a você, cara serva... ou deveria dizer herege?
— Ainda tem dúvidas de que lado estou? Já confessei meu pecado e minha insubordinação foi atestada. Posso não ter meu filho de volta, mas mão fico de mãos atadas vendo Lilith sofrer a ausência do dela.
— Neste caso... — disse Chernobog virando as costas num ar misterioso —... considere-se... banida do reino. — lançou uma esfera sombria nulificadora contra a querubim que foi envolvida pela bolha de energia umbral e consumida até ser reduzida ao nada.
— Kezabel, não! O que fez com ela? Pra onde a mandou?
— Para lugar nenhum. É o destino inevitável aos que se impõem à minha grandeza. Se alguém aqui coaduna com a rebelde, se apresente!
Todos os querubins curvaram-se temerosos. Raguel veio notificar seu rei.
— Mestre, o bruxo acabou de comunicar o resultado da vistoria a partir de uma magia que permite visualizar momentos passados num único dia. Identificou o autor do sequestro: Adrael.
— Hum... Lamentável, ela morreu por nada. — disse Chernobog, enfurecendo Lilith — E quanto ao paradeiro do rebento? Ela alega que esteja com Frank.
— O bruxo diz ser impossível, crê que o híbrido criou um ponto cego eficaz.
— Eu posso acha-los, mas com a ajuda de Adrael. — sugeriu Lilith vendo uma brecha — Se me deixar retaliar contra ele e me devolver Fred Jr., trago ele aqui pra que façam dele o que quiserem e vou atrás do Frank recuperar o Dante. Por favor.
— Concedido. Mas traga o anjo vivo e depois o híbrido para que se submeta ao cárcere. São termos justos, não acha? Soltem-na.
Lilith foi liberada, correndo aos fundos do templo.
— Ele se encontra na sacristia. — avisou Chernobog cuja atenção foi novamente chamada por Raguel.
— Tem mais: o bruxo pressagiou algo relacionado a Frank. Um vislumbre dele envolvido por tentáculos.
— Meu irmão... Khaleido. Frank realizará o último sacrifício antes de ser assimilado. Ainda é cedo.
Na sacristia, Lilith entrava ansiosa, indo diretamente ao berço onde Fred Jr. emitia um choro lento e manhoso.
— Cheguei, eu tô aqui... Vem pra mamãe, vem... — disse ela dando o colo que ele tanto pedia. O abraçou — De agora em diante, vou ficar sempre pertinho de você, cada segundo.
— Assim espero. — disse Chernobog surgindo ali — Porque permanecerá aqui provendo sustento aos dois.
— Eu já sei, não precisa me lembrar. Vou apenas amamentar e coloca-lo pra dormir.
— Mas seja rápida ou perderemos nosso belo filho.
— O meu filho! Por que me preocuparia? Ele está com Frank.
— Que está submisso a Khaleido, meu irmão, e fornecerá Dante como sua oferenda mais apetecível.
Ouvir aquilo fizera uma queimação em Lilith que a induzia ao ato desesperado em salvar Dante.
***
Estacionando frente ao matadouro, Frank olhara para Dante dormindo no ninho redutor no banco de trás.
— Tá na hora de você conhecer alguém.
Tirou o bebê cauteloso, mas quase o fazia acordar com gemidos chorosos.
— Ei, não acorda... Engole esse choro, pirralho.
Seguiu ao local balançando suavemente o bebê.
Adrael retornava ao cortiço abandonado no qual ele e todos os serafins refugiaram-se. Imperava um forte silêncio.
— Jofiel? Fana? Pelo visto, devem ter ido todos batizarem os pequenos. — disse Adrael parado no meio do átrio — Por que não me esperaram?
Virou-se dando de cara com Lilith o fitando audaz.
— Talvez porque você odeie bebês. — disse ela, logo dando um bruto empurrão no serafim que caíra a uns metros sobre uma mesa com objetos de vidro — Então você e o Frank tinham mesmo um complô contra um dos meus filhos!
— Eu cuidei daquele bebê, como poderia odia-lo? — questionou ele, levantando.
— É do Dante que falo! O despreza por ter meio sangue de duas espécies inimigas, por isso entregou para que Frank o sacrificasse!
— Eu normalmente não reajo quando sou atacado sem motivo aparente, mas acusações infundadas eu não tolero! — rebateu Adrael, brilhando seus olhos e avançando contra ela. A demônia desviou dos golpes e cresceu suas garras desferindo arranhões ferozmente, depois chorando o anjo. Adrael reergueu-se, sacando sua espada e a brandiu, porém Lilith usou sua termocinese esquentando a lâmina numa temperatura extrema. Adrael a largou e recorreu a força física, dando um pesado soco em Lilith que a mandou para perto da fonte cheia. A demônia levantou e avançou para ataca-lo, mas Adrael pegara-a pelo pescoço e a mergulhou na água da fonte visando afoga-la.
Lilith debatia-se enquanto Adrael, seus olhos luminosos, fazia a água ferver e borbulhar. Por dois minutos isso se sucedeu, até que Lilith desfaleceu. O serafim a deixou boiando e virou as costas. Contudo, Lilith subitamente emergiu da fonte pulando sobre ele. Adrael a tirou jogando-a contra uma parede na qual ela bateu de ponta a cabeça, mas logo levantou empurrando-o fortemente com telecinesia contra uma coluna. Resistindo, Adrael cerrou os punhos e deu um passo adiante, mas Lilith infligiu mais força o prendendo e telecineticamente arremessou a espada.
— Não, espere! — berrou Adrael, a ponta da espada um milímetro da sua garganta — Me deixe explicar.
— Eu não ia te matar por mais que eu quisesse. O chefão quer você vivo, mas não pense que virei a casaca. Só o fiz acreditar numa promessa que não vou cumprir. Última chance: cadê o Frank? Pra onde ele levou o Dante?
— Não tenho ideia. Ele apenas me disse a parte que ele queria que eu soubesse. Troquei os bebês de bom grado pensando evitar que Chernobog o drenasse. A princípio, fui contra, mas ele me forçou.
— Então... ele enganou você. — disse Lilith deixando cair a espada e libertando Adrael — Não disse nada do sacrifício.
— Se eu soubesse, o impediria nem que fosse preciso mata-lo.
— Ele será morto sim por alguém: eu. Consegue rastrear?
— Sinto uma energia abominável irradiando... Está próximo daqui.
Frank trazia Dante nos braços rumo aos tentáculos de Khaleido. O bebê híbrido já não dormia, chorando em alto volume. O detetive caminhava indiferente ao choro assustado e desesperado de Dante que se movia agitado.
Poucos segundos depois, surgia Lilith a esquerda andando lentamente.
— Tinha que aparecer a mamãe tigre pra interromper.
— É claro, não vou deixar meu bebê ser devorado por essa coisa. Frank, me devolve o Dante, ele tá chorando de medo desse monstro.
— Faça o que ela diz, Frank. — disse Adrael vindo a direita — Acredite, alimentar essa criatura hedionda não vai beneficia-lo em nada.
— Aí que se engana! Em todo esse tempo que eu tenho trazido montanhas de cadáveres... eu nunca me senti mais vivo e mais forte.
— Não apela pra discurso pacífico, arranca o Dante dele agora! — pediu Lilith, exasperada.
— Por que você mesma não faz isso, hein Lilith? Ah, tá com medo de ferir o seu filhotinho, né?
— Frank, pare ou eu o pararei! — ameaçou Adrael sacando sua lâmina.
— Você vai me matar, Adrael? Olha que eu uso o neném aqui de escudo. Tanto faz pro meu imperador, mas ele gosta mais de servido vivo.
Lilith se aproximou com os olhos pretos para ataca-lo e Adrael foi adiante brilhando os olhos.
— Larga o meu filho!
— Vou largar ele sim... — disse Frank ameaçando jogar Dante aos tentáculos no círculo de luz vermelha. Adrael brandiu a espada com mais proximidade. O instinto fizera Frank reagir, jogando Dante para o lado sem piedade e sacando uma arma para morar no serafim. Atirou no peito do anjo que recuou com dor — Balas anti-anjo! Achou que eu não teria?
A queda de Dante levou Lilith a disparar para apanha-lo. O bebê, chorando ainda mais intensamente, foi pego no colo por sua mãe.
— Shhh... Shhh... Calma, meu amor, calma... A mamãe tá aqui, já passou... Vamos pra casa, seu irmãozinho tá te esperando.
Um dardo contendo um líquido similar a vinho atingiu a nuca de Frank que se desestabilizou fisicamente, caindo de joelhos e zonzo.
— Frank... — disse Adrael removendo a bala e indo até ele. Logo viu Nathan, com agentes da ESP na sua retaguarda, se aproximando devagar pedindo silêncio num gesto. Adrael assentiu enquanto Frank era levado a inconsciência.
— O que fizeram com ele? — indagou Lilith tentando acalmar Dante balançando-o — Dardo tranquilizante?
— Mais do que isso. — respondeu Nathan. Frank caiu vendo o filho como um vulto e tentou pronunciar seu nome, mas apagou. Khaleido recolhia seus abomináveis tentáculos e o círculo se desfez — Caramba... Isso me traz lembranças bem amargas.
— Nem me fale. — disse Lilith. Adrael se aproximou dela.
— Ele está bem?
— Tá. Não machucou nem quebrou nada. Shhh, tá bom, Dante, hora de dormir.
Os agentes tentavam cerca-la.
— Nos entregue o bebê, ele estará em total segurança na ESP.
— Nada disso, sumam daqui! — reprimiu ela recuando abraçada ao filho — Ele vem comigo, sei que ele oculta a localização não importa onde ele estiver, assim ele protege a mim e o irmão dele!
— E se ele estiver com anjos? — sugeriu Adrael — Temos um lar como refúgio, mas a qualquer momento Chernobog pode ordenar um ataque de querubins num massacre. O poder de Dante nos colocaria fora de vista.
— É uma ideia melhor. — disse um agente.
— Os serafins são maioria entre os bons anjos. Nosso fronte vai se desfalcar feio se os perdermos. — argumentou outro.
Lilith debulhava-se em lágrimas cruzando olhares com Dante que estava mais calmo. Adrael estendeu os braços encarecidamente.
— Por favor. Eu prometo que vou protege-lo assim como ele fará por meus irmãos.
— Não... — dizia Lilith aos prantos.
— Iremos cuidar dele com todo o amor que ele merece. Eu imploro.
Cedendo ao pedido penosamente, Lilith entregara o filho aos braços de Adrael que o segurou com exemplar eficiência.
— Se falhar, juro que tiro sangue de você.
A demônia sumiu em teleporte. Os agentes cercaram Frank. Nathan vira alguém sair dos fundos escuros. Sorriu ao ver quem era.
— Mãe?! — andou depressa até ela. Ambos deram um forte e longo abraço — Eu não acredito...
— Estive seguindo seu pai. Pra onde vão leva-lo? Como foi que simplesmente derrubaram ele?
— Engenhoca de bruxa. Mas esse soro vai mante-lo sob controle. Olha, que tal você ir com eles pra van e esperar que tudo isso acabe? Eu tive uma ideia pra traze-lo de volta.
Carrie também viera. A assistente corria até eles.
— Como nenhum tiro foi disparado, não pensei duas vezes. — reparou na górgona — Lucy... — as duas deram as mãos em cumprimento — E o Frank? Como fica?
Nero espiava escondido, logo indo embora se misturando as sombras. Mais tarde, Frank foi sentado numa cadeira dentro de uma sala que aparentava ser o escritório do ex-proprietário do frigorífico. Nathan estava ao telefone com Agnes.
— Tá legal, eu vou tentar. Tchau. — disse ele, logo desligando.
— Tentar o quê? O que Agnes disse? — quis saber Carrie.
— Papai tá numa espécie de estado em que a consciência dele tá maleável, como num sonho, passando por cenários ligados a memórias dele. Ela acha que é a chance perfeita de dissolver o instinto com minha interferência.
— Você entrando no subconsciente do Frank? Como isso vai funcionar?
— Não faço ideia, mas precisa de uma força poderosa o bastante pra convergir nossas mentes.
— Um anjo. — sugeriu Carrie pronta lada fazer uma prece — Irei chamar Adrael.
— Não é melhor um ofanim? Adrael é um serafim, não vai segurar por tempo suficiente. — disse Lilith que aparecia ali.
— O que faz aqui? — indagou Carrie.
— É meu cunhado, estou preocupada.
— Você preocupada com o Frank? Corta essa.
— Não fomos apresentados. Sou o Nathan. Se estiver mesmo do nosso lado, coopere. Carrie, vai chamar pelo Adrael?
— Vou chama-lo pra que ele chame um ofanim. E quanto a Natasha e a Miyako? É verdade o que elas disseram?
— Sim. Elas invadiram o bar onde o Marcel e a gangue dele se reuniam. Mas antes acharam um tal de Vince que era do grupo e se dissuadiu, ele deu a localização achando que eu ainda tava preso. — contou Nathan não tirando os olhos do seu pai — Estão vindo pra cá acertar as contas com o papai. Dynno e os outros já estão aqui.
— Deviam tê-lo levado pro bunker da Insurgência.
— Fica muito longe, era arriscado ele acordar.
Em alguns pontos do matadouro, membros da Insurgência eram apanhados em guarda baixa com coronhadas, socos e até degolados. Dynno mandou agrupar todos na área principal onde haviam inúmeras caixas de madeira e corpos de bovinos ensacadls e pendurados. Marcel aparecia tendo um inimigo como refém apontando uma arma a cabeça dele.
— Se ninguém aparecer, ele sai daqui com a cabeça esburacada!
Dynno cerrou os dentes.
— Atenção, galera! Agora!
Os caçadores abriram fogo contra os criminosos que usavam os animais ensacados como trincheiras. O bang-bang fora ouvido do escritório. Adrael examinava Frank.
— Já começou. — disse Nathan — Adrael, depressa.
O serafim fizera uma prece a Raziel.
— O que ele tá fazendo? Orando? — cochichou Nathan com Carrie.
Raziel aparecera diante do irmão angelical.
— O que se passa? Por que Frank está aqui?
— Precisamos da sua ajuda. — disse Nathan.
Devido a perdas de munições, o confronto chegava às vias de fato, caçadores e bandidos se atracando numa brutalidade tremenda. Raziel avaliava a consciência de Frank. Em um dos sonhos, o detetive via-se numa fábrica prestes a explodir. Estava armado e usando seu velho sobretudo creme do DPDC.
— Sei que você tá aí! Aparece!
Ao virar, deparou-se com uma antiga presa: Zeta. O ser de pele meio aladisparou seus gás alucinógeno verde dos buracos das mãos. Frank inalou bastante e lidava com seu pior medo atual.
— Fred? — indagou, cambaleando grogue.
— Não. — disse, a figura se esclarecendo entre a fumaça. Chernobog sorria cinicamente — Eu.
— Cacete. — xingou Frank que tentou escapar.
— Não pode fugir do você mais teme. — disse a ilusão.
No mundo real, Nathan sentava-se ao lado de Frank, preparado para começar.
— Está pronto? — perguntou Raziel — Vou criar uma ponte entre suas consciências.
— Manda ver. — disse Nathan fechando os olhos.
— Boa sorte com eles, Raziel. Preciso verificar o bebê. — disse Adrael.
— Acho bom mesmo. — reforçou Lilith encarando-o. O serafim retirou-se — Aí Carrie, o filho do Frank... tá disponível?
— Ah, como é safada. Mas que pena pra você, ele tem compromisso. Sabe... em vez de ficar só olhando, podia dar uma mãozinha lá fora.
Lilith dera um sacana sorriso de canto.
— Achei que nunca fosse pedir.
Num outro sonho, Frank sabia estar no prédio das Indústrias Crissman. Um Devorador saiu rapidamente do escuro, andando como um gorila, sua bocarra abrindo. Frank lançou uma granada ultravioleta que explodiu sua luz no ar, o repelindo. Disparou com a pistola várias vezes na abeça da aberração. Na realidade, Lilith intrometia-se no confronto, pegando homens de Marcel e os estripando com suas garras selvagemente. A cada golpe um respingo de sangue no seu rosto demoníaco.
— Ela... é um demônio?! — disse Otto, atônito.
Ao terminar, Lilith voltou-se a eles.
— A maior. — gabou-se, a face quase toda coberta de sangue — Eu não me delicio assim faz séculos. — lambeu do sangue — A maternidade não me enferrujou, que bom. O resto é com vocês, tenho um bebê pra alimentar.
A demônia sumira deixando-os surpresos.
— Por que deixou ela ir? — questionou um deles.
— Ela tá conosco. — afirmou Dynno — Por mais bizarro que seja.
Frank estava noutro espaço onírico. Um local aberto, escuro e repleto de tonéis de aço.
— Conheço esse lugar... Foi aqui que...
Da escuridão saíra um Ambroz, correndo até ele.
— Ah é, o projeto de Alien do Riddley Scott.
O detetive se viu com um lança-chamas e lançou uma rajada impiedosa contra a criatura parasitária, incinerando-a. Nathan aparecera, mas seu pai virou-se penando ser perigo.
— Não, não, não! Sou eu, pai! Vira essa coisa pra lá!
— Nathan!? Entrou de gaiato no meu sonho como?
— Não dá tempo de explicar! Você tem que rejeitar o instinto! Se deixou ser escravizado por uma entidade que quer possui-lo!
— Me possuir... — disse Frank aparentando estar caindo em si — Ele não faria isso comigo. Precisamos um do outro.
— Ele te deu uma falsa noção de autonomia! É isso que quer? Perder o controle de quem você é? Não, isso você já tinha perdido. Agora ela quer se apoderar do seu corpo pra completar o processo!
Uma porta metálica abriu-se com uma luz vermelha invadindo. Tentáculos negros saíram e agarrou-os, logo os tomando para dentro. Frank despertou sobressaltado.
— Onde eu tô? — indagou, vendo seus braços amarrados a galhos de árvores ao redor — Não, tá de brincadeira... Quem tá aí?
Um indivíduo corpulento se aproximava. O mesmo usava a pele de um lobisomem como vestes - a cabeça servindo de capuz. Um relâmpago vermelho esclareceu a face do sujeito. Frank reagiu perplexo.
— Orion.
Raziel expressou incômodo preocupante.
— O que foi, Raziel? — perguntou Carrie.
— Eu os perdi. Khaleido intercedeu com sua fúria e os apanhou. A única coisa que os mantém vivos é a ponte.
Um olho amarelo brotava da testa de Frank.
— Meu Deus... Apareceu um olho... na cabeça do Frank, tá olhando pra mim.
— É Khaleido. Está vendo tudo. Tentando manter Frank sob seu jugo. Se eu tirar minhas mãos deles... permencerão eternamente no Limbo.
Na área central, inúmeros círculos com o sigilo de invocação surgiram em pontos aleatórios refulgindo suas luzes vermelhas. Dynno e seu grupo viu-se cercado num campo minado. Logo, tentáculos de Khaleido saíram agressivos como um monstro marinho enfurecido. Os comparsas de Marcel eram pelos ao estarem próximos, sendo tragados aos círculos.
— Corram! — bradou Dynno ao seu grupo tentando esquivar dos tentáculos negros e robustos ao mesmo tempo atirando com as submetralhadoras. Um dos insurgentes acabara recolhido pelas pernas, gritando ao ser arrastado — Bolivar!
Mas era tarde para salvamentos. Aparentemente, todos do grupo criminoso haviam sido capturados pelos tentáculos. No Limbo, Frank sofria constantes torturas, seu corpo nu da cintura para cima repetições feridas das quais escorriam sangue em cascata. Orion ficou uma faca no peito e a desceu até o abdômen. Frank grunhiu em dor e resolveu tentar um diálogo.
— Por que tá fazendo isso? Responde! Olha, se é por causa do instinto... Eu sinto que nem cheguei no seu calcanhar. Agora, por favor, para com essa tortura sem sentido e me tira daqui!
Mas o primitivo caçador parecia não entendê-lo ou ignorava sua súplica. Nathan o procurava pela mata semi-escura.
— Não basta ter visto aquilo, eu tinha que voltar pra cá matar as saudades. Pai!
Ouvindo a voz do filho, Frank tentou um último apelo:
— Eu não roubei seu instinto. Somos parentes. Sei que sofreu, perdi também pessoas que eu amava, pessoas que me importavam. Aprendemos da pior maneira que salvar quem merece as vezes é impossível. O instinto nos fortaleceu, mas continuamos o que sempre fomos: humanos, de carne e ossos, filhos e vulneráveis emocionante. Você entende o que quero dizer? De nada vale ser o caçador mais forte se por dentro não controla seus sentimentos.
Orion baixou sua mão e o fitou.
— Você tem que pagar. — proferiu ele — Ele me obriga.
— Mesmo sem o instinto... ainda continua servindo a Khaleido?
— Ele é deus aqui. Não posso escolher, só obedecer.
Uma pedra acertou forte a cabeça de Orion que rosnou procurando de onde veio. Frank vira Nathan aproximando-se.
— Aí, grandalhão! Vamos ver se é tão durão quanto parece!
— Nathan, não! Me deixa aqui, procura uma saída!
— Sem você daqui eu não saio, pai!
Orion avançou rugindo com um machado vigoroso. Nathan desencadeou uma reação, sua arma secreta. Os olhos do híbrido brilharam vermelhos d foram encarados por Orion que foi rapidamente se petrificando, brandindo seu machado. Nathan piscou, normalizando a visão.
Após libertar Frank, seguiu com ele pela floresta agoniante.
— Parabéns por ter transformado o bichão em estátua.
— Tava louco pra voltar a usar a parte que puxei da mamãe.
Uma projeção de Raziel os chamava ali perto.
— Essa luz... é tão intensa. — disse Nathan protegendo os olhos com uma mão.
— É o... Raziel?! Vambora, ele tá nos chamando!
Os dois acordaram simultaneamente, arquejando. Carrie se aliviou.
— Ainda bem que voltaram. Estão bem?
— Me dá um tempinho pra me reorientar aqui. — disse Frank olhando em volta piscando — Raziel...
— Olá, Frank. Eu os havia perdido, mas mantive a ponte crendo que os encontraria. Assim que detectei suas auras, me projetei no Limbo.
— Que parada louca foi essa? Olha, melhor nem tentar me explicar, minha cabeça tá ferrada de dor. — disse Frank, levantando.
— Pai, o que Khaleido significa pra você?
Frank franziu a testa.
— Uma coisa medonha e horrorosa que tá mancomunada com Chernobog. Mais um inimigo pra vencer.
Carrie disparou dando um abraço apertado nele.
— Bem-vindo de volta. — disse ela, sorrindo.
— De volta donde? Só se for do Limbo.
— Me refiro... ao instinto. Você o perdeu, né? Raziel usou o poder angelical pra dissolver o sangue de Orion.
— Não fui eu. — revelou o ofanim — Nathan deveria conduzi-lo até minha projeção pra que o desintoxicasse, mas não foi o que ocorreu.
— O Orion. Ele me torturou e... enquanto eu sangrava, sentia o instinto ir embora. Foi essa a punição que ele me deu a mando de Khaleido, já que não cheguei ao ápice do instinto.
— Então não tem mais nenhum traço do instinto que ligue você a Khaleido? — indagou Nathan.
— Ele está limpo. — asseverou Raziel — O poder ancestral se esvaiu conforme a carne era flagelada.
— Nossa, você conheceu o seu mil vezes tataravô? Ele é mesmo sua cópia? — perguntou Carrie.
— Fidedigno. Mas ainda sou o mais bonito.
— Comprovado: ele voltou. — disse Nathan — Ué, cadê o Raziel? Não gosta de ouvir obrigado?
— Anjos são assim, vai se acostumando. — falou Frank.
Dois membros da Insurgência entraram na sala de inesperado, ambos carregando Marcel pelos braços.
— Jamal, Tristan... Tá todo mundo aqui? E o Dynno? — questionou Frank curioso quanto ao custodiado quase irreconhecível pelos hematomas roxos na face.
— Tá com o resto do pessoal na van. — informou Jamal.
— Você voltou a ser nosso parceiro, né? — indagou Tristan.
— Sim, fui curado. Conto mais quando chegarmos.
— Ah, que ótimo. Vocês estavam aqui desde que chegamos, viemos conferir se tinha dado certo. — disse Jamal.
— E esse aí? — indagou Frank.
— Marcel?! — identificou Nathan — Te deram a surra que você merecia, né, desgraçado?
— Marcel... — disse Frank, surpreso ao fitar o ex-parceiro. Flashes explodiram na memória.
— Não tá me reconhecendo, velho amigo?
— Agora tô. Penny Carter. Lembra desse nome?
— É claro, sempre guardo nomes de quem eu mato.
Numa ação súbita e ousada, Marcel deu cotoveladas nos caçadores, libertando-se, e sacando uma arma com a qual atirou fatalmente neles.
— Se esquecem de checar meus bolsos e ainda se dizem caçadores? Vergonhoso. E quanto a nomes... — pegou Carrie pelo braço, tornando-a refém — Acho me dizer o dela.
— Solta ela! Eu devia saber que era você querendo minha cabeça por vingança. Ia me explodir com um míssil, né?
— E o nenenzinho também. Como sabia? Sexto sentido de super caçador?
— Não importa, larga ela! Vamos resolver entre nós, ninguém mais tem que morrer!
— Soa piada dizer isso sendo que você matou mais do que a cota de um Jack estripador da vida. — fez uma pausa apertando o cano da arma no pescoço de Carrie — Eu implorei seu perdão, Frank. Não faça igual se já souber a resposta.
— Tem razão, não mereço ser perdoado, não tem nada que me absolva. Mas me arrependo amargamente.
— Essa sempre foi nossa diferença. Não me arrependo do que acho certo fazer!
Um buraco despontou no meio da testa de Marcel com um alto estampido. O caçador caiu morto de frente.
— Nathan... — disse Frank olhando o filho que havia atirado por trás — Como você foi parar aí?
— Furtividade de caçador. Tá no meu sangue.
Os três cercaram o cadwver de Marcel.
— Antes um olho do que uma bala na testa. — disse Carrie.
— Olho? — indagou Frank.
— Na sua testa.
— Tem um olho na minha testa?!
— Tinha.
— Tinha um olho na minha testa?!
— Pai, relaxa. Será que podemos finalmente... comemorar? — virou o pai de costas a Carrie para cochichar algo — Treze de julho.
— Putz, tinha esquecido...
***
No meio da noite, o clima de descontração dominava com Carrie sendo levada às cegas até a sala principal do bunker da Insurgência.
— Frank, se for pegadinha naquele seu estilo, juro que...
— Por que seria pegadinha? — indagou Miyako.
— Ele já aprontou comigo uma vez nessa mesma data pra me deixar paranoica e não fazer que fique tão óbvio quando tivesse uma surpresa genuína. — disse a assistente sorrindo.
— Danadinho. — brincou Natasha.
— Mas funcionava. — retrucou Frank.
A venda foi retirada dos olhos dela. Mas nada de surpresa, por enquanto...
— Tá vendo? Não falei? Tudo as escuras como na última vez. — disse ela vendo a sala mergulhada em escuridão total.
Natasha ligara o interruptor. Com o acender das luzes, vieram os calorosos parabéns em coro alegre dos caçadores batendo palmas. Um gracioso bolo sobre a grande mesa redonda teve suas velas acesas por Nathan. Carrie se emocionava com as congratulações e abraçou Frank.
— Feliz quatro mais nove. — disse Frank.
— Ei, não fala tão alto. — advertiu, brincalhona.
— Feliz aniversário, Carrie. — disse Natasha a abraçando — Os problemas, por mais terríveis, não nos fizeram esquecer.
— Mas não é só a Carrie que ganha surpresa. — disse Nathan.
— Por que? Tem mais alguém aqui fazendo aniversário hoje? Algum de vocês? — perguntou Frank aos rapazes.
Eis que detrás de Dynno surgia uma visão que abrilhantou o olhar do detetive. Lucy, ainda com o esfarrapado manto pardo, veio sorridente a ele celebrar seu retorno.
— Lucy... Não tô acreditando...
— Nem eu acreditei quando vi ela depois que apagamos você. — disse Nathan.
— Carrie, você sabia?
— Fui a primeira. — disse ela, contente.
— Frank, fico... muito feliz de ver que se livrou daquilo que te afastava de quem você era.
— Foi por isso que tava hesitando, né? Sentiu que eu tava poucas ideias.
Os dois partilharam risos.
— Esse foi um dos motivos. Mas foi o maior.
Frank e Lucy selaram a retomada num ardente beijo que promoveu aplausos de todos.
— Mãe, quero que conheça a Miyako, sua futura nora.
— Muito prazer. — disse Lucy dando as mãos a ela.
— O prazer é todo meu. Vamos ser amigas, não vamos?
— As melhores, eu prometo.
— Também tenho uma promessa a fazer: te comprar roupas novas.
Ambas desataram a rir.
— Somos família de novo? — perguntou Nathan, entusiasmado.
— Levando em conta o cenário atual, diria que... somos todos uma só família. — disse Carrie tocando nos ombros de Frank e Nathan.
— Fica à vontade pra fazer um pedido. — disse Frank — Não é coisa de criança, vai.
Carrie suspirou num sorriso leve e voltou-se ao bolo. Inclinou-se, fechando os olhos e mentalizando o desejo. Soprara enfim as velinhas, tendo desejado algo do mais profundo recôndito de seu coração.
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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
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