Frank - O Caçador #127: "Que Haja Trevas"

Cerca de dez dias após a traição de Lilith quanto a imposição de cativeiro para criar os bebês, Chernobog novamente estreitava laços com Khaleido quando impasses relacionados aos termos do acordo ocorreram. Os benefícios mútuos foram assegurados e uma ação imediata era requerida. A entidade se trancara na sacristia naquela madrugada, logo desenhando uma insígnia mística necromomiana com o sangue de Fred no chão do recinto - sem mais o berço onde dormiu Dante e Fred Jr., deixando livre o espaço.



Acendeu velas apenas erguendo levemente as mãos e fitou o ícone no piso, o rosto de seu hospedeiro absurdamente pálido com rachaduras agravantes no lado esquerdo onde se via o Olho Que Tudo Vê em sua cor escarlate cercado pelo preto da esclera. Recitou, numa tom de voz cavernoso, ecoante e medonho, palavras de invocação pronunciadas no dialeto constado no grimório escrito por Zaratro.



O símbolo emitiu um brilho amarelo alaranjado e foi preenchendo as linhas rapidamente a medida que o recitamento alcançava o fim. Chernobog inclinou a cabeça para trás, proferindo as últimas palavra ao alto. O brilho se intensificou e tremeluzia vibrando forte. No submundo, uma horda de incontáveis daevas vieram voando em peso até uma fenda, similar a insígnia, surgida no solo infértil daquele mundo de escuridão. 



Sugados aos montes para dentro daquele portal, as criaturas sombrias logo saíam para o outro lado, diretamente para Chernobog que as absorvia recebendo muitas delas em simultâneo. A entidade sentia a torrente lhe inundar de poder e amplificando o que já possuía. Os seus filhos regressavam ao antigo lar, tornando seu pai um completo ser supremo de volta a antiga forma que o fazia genuinamente temível. Os daevas não paravam de sair como um enxame de abelhas atraídas para uma única fonte de néctar.



A absorção de alto nível lhe fez externalizar um poder impossível de aplacar em seus resultados. Uma onda vibratória explodiu de Chernobog que se via em êxtase olhando para cima. Sorriu com o rosto de Fred, entorpecido daquele poder que tanto sonhava reaver, mas que até aquela hora não julgou necessário. Minutos depois, Lilith vivia a desafiadora experiência de alçaram um crise de choro inconsolável de Fred Jr., chamando a atenção de uma parceira demônia que fazia guarda.



— Será que eu preciso chamar por um anjo pra tocar em você e te fazer calar essa boca? Hein? Chega! — dizia uma impaciente e aborrecida Lilith que balançava o choroso bebê andando pelo quarto — Tá bom, mamãe não vai mais gritar com você... Só, por favor, para...



— O que houve? — indagou a demônia que possuía o corpo tonificado de uma mulher caucasiana na faixa dos trinta anos, cabelo meio cacheado e ruivo amarrado e usando casado de couro preto por cima de uma blusa roxa — Ele caiu ou se assustou?



— Não, faz mais de meia hora que ele abriu esse berreiro e não parou mais. Já tô a beira de enlouquecer... — disse Lilith, aturdida, balançando mais rápido Fred Jr. que movia os braços e as pernas agitado — Tentei de todas as formas, mas nada funciona, nem mamar ele quer. Ele tá muito afobado, parece até uma crise de ansiedade.



— Devem ser cólicas. — especulou a demônia.



— Ele já teve hoje à tarde. 



— Então é a famosa hora da bruxa. — apontou a parceira se aproximando.



— Não, Aélis, é algo bem mais grave. — disse Lilith quase se rendendo ao pranto — Não sentiu um arrepio do nada? Como se o vento da morte soprasse pra te avisar de que o fim está próximo.



Aélis engoliu a saliva, visivelmente tensa.



— Senti sim. Não é um mau presságio, é péssimo. O aviso de que um desastre terrível vai acontecer em breve.



— Ele também sentiu... Talvez por estar comigo ou ser meu filho, não sei, mas foi um arrepio anormal. Aquele desgraçado do Chernobog... alguma coisa tremenda ele aprontou.



— Ou irá aprontar. É só o começo de algo maior. — disse Aélis, a tensão latejando — Por que não leva ele pra tomar um ar fresco?



— Ótimo, acho que ele se sente preso e sufocado aqui dentro, também tá fazendo muito calor, ele tá suadinho... — disse Lilith andando para sair do quarto junto da amiga, fazendo ruídos brancos para acalmar o bebê.



As duas saíram para caminharem nas imediações, o luar iluminando a floresta. Fred Jr. silenciou o choro, aceitando uma nova mamada.



— Viu? Ele só precisava de um pouco de ar. — disse Aélis.



— O som dos grilos também acalma ele, o soninho tá vindo aos poucos... Acho que vou mudar sua função e dispensar a atual babá.



— Não faça isso com a Hope, ela vem se esforçando. Quem diria que um bebê chorão ganharia simpatia de um demônio como eu que... já esfolou tantos iguais a ele, sem falar dos abortos nas mamães de primeira viagem. Mas é só uma fase, somos quem somos. Não sei quanto a você.



— Com ou sem o Fred, eu acredito que... os meus filhos despertaram em mim algum resquício do que já fui um dia. Eu tô confusa, às vezes é medo de regredir, às vezes é expectativa de viver uma nova chance redentora, e isso, inclusive, vem gritando mais alto. Talvez seja essa a maior diferença entre mim e o Malvus.



Lilith logo notara um estranho fenômeno no céu noturno. A demônia estreitou os olhos, quase boquiabrindo-se com o que via. 



— O que foi? — perguntou Aélis acompanhado o olhar dela.



— As estrelas... — disse ela vendo os pontos luminosos no céu se subtraindo rapidamente — ... estão sumindo.



No cortiço em que os serafins se refugiaram, Fana era a centuriã encarregada de Dante. Tal qual seu irmão, o bebê híbrido bramia seu choro ininterrupto mesmo sua cuidadora o acalentando com todo o carinho. Fana o levou para perto dos anjos que estavam reunidos no pátio após todos terem experimentado a sensação arrepiante.



— Adrael, ele não se cala independente do quanto eu tente faze-lo dormir. — disse ela que possuía lisos cabelos loiros acobreados e um rosto jovial e branco com estonteantes olhos azuis claros — Ele deve ter tido a mesma experiência que nós, o deixou muito assustado, como se tivesse acordado de um pesadelo.



— É provável que até os demônios foram afetados. — disse Adrael — Como tentou acalma-lo?



— O toque sonífero foi o último recurso. Não adiantou. — relatou Fana que chiava com a boca o balançando — Não é fome, sono, nem cansaço... Ele apenas está com muito medo.



— Já experimentou cantar hinos de louvor? — indagou Miniel, um jovem serafim com voz soando infantil.



— Até agora não, mas boa ideia. Estão chamando por Raziel?



— Já tratei de chama-lo, mas nada. Deve estar ocupado. Leve-o de volta, cante para que ele se reconforte até dormir. — pediu Adrael tocando-a no ombro para encoraja-la a seguir firme nos cuidados a Dante. Raziel enfim surgira no meio da sociedade serafim — Até que enfim.



— Perdoem a demora. A manifestação que sentiram há pouco vem causando suas implicações. Estrelas estão sendo apagadas a uma grande extensão do universo. Sabem o que isso significa, não sabem? Devemos todos nos preparar. — disse o ofanim, sério.



— Para o quê? — indagou Adrael.



— O crepúsculo dos tempos. — respondeu Raziel, as palavras que mais temia anunciar.



***



Na manhã seguinte, Frank terminava de escovar os dentes após o banho. Lavou a boca, guarda a escova de dente, fechou a torneira e enfim saiu do banheiro. Porém, tomara um susto ao ver Lucy lhe aparecer com um sorriso enorme e lhe dar um beijo quente na boca.



— Ei, se diz bom dia primeiro. — disse Frank brincando.



— Podemos substituir por isso, você decide já que é um dos anfitriões. 



— Não vou morar nessa bat-caverna pro resto da vida e você não tá aqui como uma simples hóspede. Voltamos a nos firmar como estávamos de onde paramos, não quero mais retroceder nunca. Mas trocar duas palavrinhas por isso aqui... — a beijou rápido — ... Eu topo.



— E prolongar porque essas duas palavrinhas duram muito pouco. — disse Lucy que novamente selou seus lábios aos do detetive. O beijo demorado foi se tornando gradualmente uma preliminar sexual com Frank se deixando cair na cama com ela a beijando intensamente e fazendo movimentos na pélvis. Mas o momento romântico foi interrompido por Adrael que surgiu próximo da cama.



— Eu... não devo ter chegado numa hora oportuna...



— Ei, Adrael, que negócio é esse de aparecer assim sem avisar? — reclamou Frank levantando depressa. Lucy também surpreendeu-se, limpando a boca.



— Me desculpem se atrapalhei um momento íntimo de vocês.



— Tanto tempo livre pra vir falar comigo e você aparece justo agora... — disse Frank ajeitando o sobretudo.



— Frank, ele é seu amigo, deve ter uma notícia importante a dar. — disse Lucy o afagando.



— De suma importância. Requer total atenção de todos que residem aqui, mas Frank merece ser inteirado primeiro. — disse Adrael que voltou-se a Lucy — Posso pega-lo emprestado? 



— Fica à vontade. — permitiu Lucy, logo saindo do quarto. Enquanto fechava a porta, mandou um beijo para o amado que retribuiu.



— Estou feliz que acertou sua relação com a mãe de seu filho. — declarou Adrael aproximando-se — Imagino que planejam um novo herdeiro.



— Não sem antes uma troca de anéis na igreja. Pro casório ficar mais abençoado, tô cogitando oficializar você como padrinho. O que acha?



— Por mim tudo bem, fico grato que tenha pensado em meu nome pra essa função.



— Na verdade, é só pelo fato do Fred não poder participar. — confessou Frank com toda a sinceridade, o que fizera Adrael franzir um pouco a testa, chateado — Desculpa aí te magoar... Você atualmente é meu melhor amigo, que isso fique bem claro... 



— Estou ciente disso. E entendo sua posição quanto ao nefilim. Não vê uma mínima fagulha de esperança em salva-lo, não é?



Frank emudeceu, a cabeça meio baixa com expressão desalentada.



— Ele foi possuído pelo próprio mal na sua mais pura forma. Uma salvação que requer mais fé do que qualquer anjo pode elevar. — declarou Frank — Só espero que aquele desgraçado não esteja torturando ele no subconsciente ou em qualquer nível da mente dele...



— Lilith e eu temos interagido ultimamente. Ela relatou que Chernobog a avisou de que Fred descansa em sonhos vívidos.



— Talvez vivendo um faz-de-conta de uma vida feliz com ela e os bebês. Não esperava essa misericórdia toda do maldito. Mas enfim... O que você veio tratar comigo de tão importante?



— Acerca da Flamígera. — disse Adrael com toda a seriedade que poderia transmitir — O tempo urge, Frank, a hora mais crucial se aproxima.



— Não, nem vem com essa de teste da espada, eu não vou ser o He-Man celestial que você e todos os outros esperam nascer triunfando nessa guerra. Foi mal, Adrael, mas não vai acontecer.



— Mas por que se opõe? Sua conexão com Khaleido se desvaneceu completamente.



— Eu não tenho tanta certeza. Ele... ou ela, sei lá... tem tanto poder cósmico quanto o Chernobog, pude comprovar isso com as visões que ela me enviava pela mente. O Raziel fez a limpeza, mas não sei se deixou resquícios.



— Eu posso fazer uma inspeção ou chama-lo pra tanto. — sugeriu Adrael.



— Não, Adrael, esquece esse lance de caçador potencial. Com ou sem instinto, não há certificação absoluta de que sou o mais indicado pra empunhar essa espada e dar uma bicuda no Chernobog. Minha vida não vale esse risco, acabei de reatar com a Lucy, isso depois de me reaproximar do meu filho revivido.



O anjo comprimiu os lábios rendido a dificuldade de convencer Frank a abraçar seu possível destino heroico.



— Entendo que não queira causar sofrimento desnecessário a eles numa provável reprovação. Mas a ampulheta foi virada. Cada grão é um segundo que se vai até a batalha final.



— Não tô gostando desse teu tom. — notara Frank, olhando com desconfiança — Adrael, o que tá rolando? Esses últimos dez dias foram tranquilos demais pro Chernobog não ter se movido até agora.



— Estamos às portas de um evento cânonico astronômico. Chernobog deflagrou o Crepúsculo dos Tempos. A escuridão vai assolar o universo.



— O quê? Então... Ele partiu pro tudo ou nada?



— Isso é um eufemismo perto do que está por vir. Frank, reflita sua decisão, repense, pondere, nosso tempo está encurtando à medida que o crepúsculo avança. Toda luz que houver... morrerá em instantes. O que você fará?



— Se o apocalipse do Chernobog finalmente engatou pro ápice... Então é correr contra o relógio e arrumar um candidato que possa ser digno da Flamígera.



— Eu sei de um e está bem aqui na minha frente.



— Nem pensar, vamos encontrar alguém, fazer uma seletiva.



— E sujeitar inocentes à morte pela reprovação?



— OK, isso não é nada benigno da minha parte, mas podemos arranjar uma forma de cancelar essa regra de quem for indigno morrer fritado. A Agnes talvez saiba, a magia necronomiana pode nos dar uma garantia, nem que seja temporária.



— Se confia na feitiçaria obscura, vá em frente, mas não fique lamentando quando já for tarde demais caso tenha falhado. Confio em você pela força que detém, por todo o bem que fizera no cumprimento do seu dever.



— Você sabe que eu tô negando pra não me afastar da minha família. Não adianta tentar fazer minha cabeça. É minha mulher e meu filho, não vou abandona-los por esse risco.



— Raguel lhe deu um vislumbre da sua dignidade como guerreiro. — contrapôs Adrael recordando da ocasião em que o ofanim aprisionou Frank em uma dimensão de bolso na qual ele não existia.



— E olha de que lado ele tá hoje. — retrucou Frank perdendo a paciência com aquela difícil conversa — Sem falar que aquilo foi a merda de uma simulação. Raguel nunca teve boas intenções, é bem plausível que ele só quis me fazer acreditar que eu sou digno pra nessa altura do campeonato eu embarcar nesse teste na maior inocência e me ferrar.



Adrael fizera que sim com a cabeça lentamente, assentindo quanto a veracidade da teoria.



— Pense bem a respeito. — disse o serafim virando-se para a porta a fim de sair.



— Ahn, você não vai... sumir?



— Trouxe uma visita especial. — respondeu Adrael sorrindo discretamente.



O detetive acompanhou o anjo até a sala principal do bunker onde estavam Carrie, Natasha, Miyako, Lucy e Nathan. A assistente segurava um bebê meio careca, pele branca e bochechas coradas usando uma camisetinha regaat azul celeste e uma fralda nova.



— Olha só quem é o visitante. — disse Frank sorrindo contente ao ver Dante no colo da amiga tomando leite na mamadeira — Tá tomando o café da manhã? — se aproximou do bebê — E aí, rapaz? — cumprimentou levantando a mãozinha dele com o dedo indicador, o qual Dante apertou o olhando de soslaio — Opa, neném tá forçudo. Vai esmagar meu dedo, é? E esse olhar aí é de quê?



— É um olhar de "nunca vou te perdoar por ter quase me sacrificado a uma entidade sobrenatural". — disse Carrie em tom humorístico.



— Peraí, em minha defesa eu não tava no meu juízo perfeito. — disse Frank erguendo de leve as mãos — Mas ainda assim... a pouca humanidade que eu tinha serviu pra cuidar bem dele antes de cometer a loucura.



— Cuidou bem como? — indagou Miyako — É que sou meio cética com homens que se dizem bons cuidadores dos filhos na ausência da mãe.



— E quando tivermos nossos bebês? Não vai me deixar nem trocar a fralda? — questionou Nathan sentado ao lado dela na mesa redonda.



— Prometo te dar um manual completo. Presente de casamento. — disse a caçadora, logo dando um selinho na boca do híbrido.



— Por falar em fraldas, Adrael contou que o Dante já trocou umas cinco só hoje. — disse Carrie — Não foi, bonequinho da titia?



— Sério? Quando estive com ele sozinho, foi uma só, acho que o coitadinho não tinha sido bem alimentado lá com os asas negras. Mas sim, cuidei direitinho dele, apesar da minha mente ferrada. Tirando a parte que...



— Ai, meu Deus, o que houve? — indagou Lucy, ansiosa.



— Não deixou acontecer nenhum acidente, né? — perguntou Natasha terminando de tomar café.



— Bem, foi um acidente, mas... 



— Ah, não. — disseram as quatro praticamente em uníssono.



— Calma, deixa eu contar. — disse Frank achando engraçada a reação — Foi enquanto eu dava leite pra ele na mamadeira. Acabou de se engasgando por conta de um maluco que passou buzinando na moto, daí ele se assustou. Pesquisei na internet como se trata engasgos em bebês e escolhi um método meio rústico.



— Oh não, você não fez o que tô pensando. — disse Carrie, tensa.



— Foram três tapas bem sonoros nas costas dele. Chorou mais ainda, mas pelo menos resolveu.



— Se Nathan e Miyako tiverem um filho, já sabemos com quem ele não deve ficar quando estiverem fora. — implicou Natasha.



— Seu bárbaro. — disse Lucy dando um tapinha na mão direita dele.



— A pesquisa falava pra dar tapas e eu dei. Por ele ser um super-bebê, pensei que aguentaria.



— Oh, Frank, tadinho. — disse Carrie baixando os olhos para Dante — Ah, acabou. Não faz esse biquinho, por favor...



Dante desatou a chorar clamando por mais.



— Essa é a fome do filho de um nefilim? Caramba, haja grana pra sustentar. — comentou Frank. Adrael se aproximou para pega-lo.



— Me dê ele, deve estar sonolento.



— Não, é fome mesmo, abriu o berreiro assim que tirei o bico. — disse Carrie o entregando.



— Espere, será que... — disse Lucy levantando depressa — ... eu poderia passar um tempinho com ele? Frank e eu seríamos pais de um bebê, mas o perdi ainda no útero. Se um dia formos agraciados com um filho nascido, cuidar do Dante serviria como um ótimo treino.



Adrael lançou um olhar sereno a ela, logo entregando o bebê já acalmado nos braços dela.



— Vou leva-lo pro meu quarto pra fazê-lo arrotar.



— Ele parece ter gostado do seu colo. — disse Miyako — Own, ele é tão bochechudinho igual ao irmão, dá vontade de apertar.



— Pra um bebê de poucas semanas, ele parece bem grandinho. — apontou Natasha.



— Pois é, arrisco dizer que ele já completou um mês. — reforçou Frank — Vou até ligar pra Lilith e perguntar. — pegou o celular, telefonando — Lilith, por que o Dante parece maiorzinho pra idade dele? Ah sim, tem a ver com ele ser sobrenatural enquanto o Fred Jr. tem o tamanho normal de um recém-nascido. — fez uma pausa, ouvindo — Nossa, isso tudo o Dante pesa?! E qual a idade dele?



— Podíamos fazer um mêsversário. — sugeriu Carrie com certo entusiasmo.



— Tá legal, só isso mesmo que queria saber. E sim, o Dante tá aqui no bunker, mas seguro com o Adrael, logo ele volta pro berço dele. Por que quer ouvir ele gemer? O Fred Jr. não faz isso também? Todo bebê geme e chora igualzinho.



— Desliga na cara dela. — pediu Carrie, revirando os olhos.



O detetive o fizera, impaciente.



— Não tô pra ouvir chilique de demônio hoje. Mas ela falou: o Dante já tem um mês de vida, completou ontem.



— Faremos o mêsversário. — disse Carrie esfregando a mãos empolgada — Aqui mesmo. Vamos chamar Hoeckler, Agnes e Lisbell. Quem sabe convidamos até a Lilith com o Fred Jr..



— Eu cuido de comprar um bolo. — disse Nathan.



— E eu de comprar e encher as bexigas. — disse Miyako.



— Não acham que comemorar o primeiro mês de um bebê... é meio sem graça? — quis saber Natasha dando uma opinião impopular — Ainda não interage bem com o mundo ao redor dele, pode até se assustar ouvindo os parabéns. Não querendo ser estraga-prazeres, mas essa coisa de mêsversário é modismo estúpido. 



— Ah, minha musa, não me faz discordar plenamente de você... — disse Carrie fazendo uma cara tristonha.



— Vou leva-lo antes que comece a gorfar. — disse Lucy levando Dante consigo até o quarto.



— Eu temo que o momento não seja apropriado para celebrações. — disse Adrael — Tratei de contar a Frank primeiramente.



— Acho que essa festinha vai ter que ser adiada. — concordou Frank, sério no tom.



Raziel surgira ali de inesperado até para Adrael.



— Eles tem razão. O crepúsculo dos tempos já começou. Nada será capaz de impedir o processo, mas há um meio de refrear seus danos a longo prazo. Frank, reúna todos de sua equipe, devem ficar a par do que vou propor.



Alguns instantes depois, após os caçadores da Insurgência serem chamados para a reunião, a TV fora ligada e todos assistiam a um noticiário que cobria um fenômeno anômalo no sol reservando toda a programação para atualizar o grave evento ameaçador. Carrie estava de posse do controle, mudando os canais.



— Em todos os canais. — disse ela, contidamente aflita — Até nos infantis.



— Para nesse daí, é uma entrevista com astrônomos e astrofísicos da NASA. — pedira Frank, olhando atentamente.



Uma dupla de profissionais da astronomia concediam entrevista exclusiva para uma emissora focada em jornalismo vinte e quatro horas na rede via satélite.



— É uma alarmante adversidade que estamos vivendo em termos de exposição a fenômenos espaciais. Não, certamente a maior de todas. — disse um astrônomo, um homem de meia idade usando um casaco azul com estampa da logomarca da agência espacial tal qual seu colega ao esquerda — Em nosso último boletim, detectamos uma súbita redução na estrutura solar.



— A atividade vem caindo gradualmente, a coroa, a camada externa mais superficial, já se encontra altamente comprometida, a beira de se extinguir. — disse o astrofísico, um homem mais jovem de cabelo castanho — Nós estimamos que dentro de... — engoliu a saliva, nervoso — Me desculpe, eu tenho transtorno de ansiedade, ainda tô digerindo a possibilidade terrível de sermos vítimas disso. Enfim, o que prevíamos dentro de cinco bilhões de anos... pode ocorrer nas próximas quarenta e oito horas, senão menos, levando em consideração o ritmo acelerado e anormal que a atividade solar vai reduzindo sua energia camada por camada.



— Meio irresponsável falar desse jeito, não acham? — disse Natasha.



— É, vai causar o maior pânico generalizado em todo o planeta. — disse Miyako, apreensiva.



— Por que não anunciam logo que o sol está morrendo e nisso iremos todos morrer no escuro absoluto? Que merda. — resmungou Dynno. Tomou o controle de Carrie, desligando a TV.



— Ei, estávamos assistindo. — protestou a assistente de testa franzida.



— Mas já não veremos ao vivo? O anjo cavaleiro de ouro aí disse que é inevitável.



— Exato. Mas não se aflijam precipitadamente. — disse Raziel se aproximando e colocando-se a frente do time — Há uma esperança palpável.



— Não sou eu. — disparou Frank — Raziel, já falei isso com o Adrael, não vou ser obrigado a testar minha dignidade com a Flamígera.



— Flamígera? Que diabo é isso? — indagou Otto.



— Apenas a arma mais letal de todo o universo. — respondeu Adrael, surpreendendo-o.



— Se você não quer passar pelo teste, então quem vai indicar? — perguntou Carrie — O Nathan? Ele poderia ir?



— A espada, via de regra, confere seu uso única e exclusivamente a humanos. — pontuou Raziel.



— Tem pelo menos uns quinze voluntários aqui, comigo incluso. — afirmou Dynno, interessado — Como é esse teste? É tipo a Excalibur?



— Descarta esse voluntariado aí. — disse Frank, categórico — Em primeiro lugar, a espada aceita quem for digno de empunha-la. E em segundo, o fogo dela castiga quem não for. Não precisa arriscar sua vida por isso.



— Mas já arriscamos diariamente com nosso trabalho. — rebateu Dynno, irritado — Não seria diferente agora.



— Seria sim, jogar sua vida fora por algo que você não é merecedor.



— Como sabe se não sou? Me fala aí de outro jeito pra descobrir. Ah, é verdade, não tem. — devolveu o caçador afro-americano.



— E se você, Frank, é o favorito a inflamar essa espada, por que não tenta? — questionou Natasha.



— Porque ele tá sendo covarde. — insultou Dynno — Não dá pra ser merecedor assim.



— Olha lá como fala hein, Dynno. Eu não vou exatamente por ter uma esposa e um filho, além de que eu posso ter resquícios da minha ligação com Khaleido.



— Mas sua conexão foi revogada, eu lhe asseguro, o seu sangue está limpo. — garantiu Raziel.



— Se o Frank não quiser, eu vou. — ofereceu-se Dynno.



— Ah, não vai, não. — disse Frank o barrando.



— Você tem seus motivos pra amarelar, eu não. 



— Amarelar? E se fosse você tendo pessoas que ama? Escolheria o teste ou sua família?



— Um caçador legítimo não fraqueja diante dos riscos, independente do que seja. Eu não tenho ninguém que me forçaria a recuar.



— Você tem seus amigos! Não vou deixar você fazer isso, cara. Tá sendo arrogante, o ego subiu pra cabeça.



— Tenta me impedir que eu te arrebento! — ameaçou Dynno virando para Frank com menção de soca-lo. Nathan se interpôs, apartando a discussão.



— Ei, ei, ei! Chega vocês dois! — disse eu híbrido que voltou-se a Dynno — Esse teste é muito perigoso, então se você tiver um pingo de amor pela sua vida, melhor voltar atrás. O que é dignidade de caçador pra todos vocês, afinal? Aposto que todos aqui tem visões diferentes. Então eu pergunto: quantos de vocês se acham merecedores de ter essa espada?



Nenhum dos parceiros de Dynno levantara um dedo. Até Natasha e Miyako concordavam serem potencialmente indignas.



— É sério? Cadê o orgulho de caçador? — questionou Dynno, desapontado. 



— Não se trata de orgulho. — afirmou Frank — E isso ainda é bem relativo. Acho que o maior critério vai muito além do que chamamos de orgulho de caçador.



Dynno amenizou sua postura, suspirando em rendição.



— Eu acredito que você tenha esse dom.



— Não, não tenho. Não com o oceano de sangue jorrando nas minhas mãos. Vou achar um substituto digno, tá decidido.



— Sendo assim, sou favorável de isenta-lo do teste caso se lance na busca por um guerreiro potencial, embora o tempo seja curto. — definiu Raziel, compreensivo.



Lucy vinha voltando com Dante nos braços, se direcionando a Adrael.



— Aqui está, ele dormiu. — disse ela tomando máximo cuidado ao devolve-lo para o anjo — E arrotou bastante. — falou com ar de riso — Ouvi vozes alteradas, fiquei com medo de que acordasse ele.



— Não foi nada, apenas uma pequena discussão entre Frank e seu amigo caçador. Obrigado por tomar conta dele. — disse Adrael com o bebê no colo que dava uns gemidos enquanto dormia — Raziel, conto com você pelo que tem em mente.



— Agradeço a confiança, Adrael. Continue mantendo o rebento sob total cuidado. 



Adrael assentiu, logo teleportando-se com Dante em milissegundos.



— Ah, o Dantezinho já foi e nem tive chance de segura-lo. — lamentou Miyako para Natasha.



— Quem sabe na próxima. — disse a caça-vampiros, tocando-a no ombro.



— Pode não haver próxima. Olha o que tá acontecendo. — disse Miyako, preocupada — O sol tá apagando. Chegamos ao topo do fim.



— Frank, posso saber o que houve? — indagou Lucy se aproximando do detetive — Escutei sua voz exaltada, pensei que fosse acordar o bebê.



— É o tal teste da espada. — disse Dynno — Tivemos uma briguinha, mas já passou.



— Mas você é o escolhido a empunhar a espada. Os anjos não tinham certeza disso?



— Requer um teste de dignificação. — disse Frank — E eu não me sinto pronto, muito menos digno. Também não quero que ninguém saia perdendo por minha recusa. Por isso vamos escolher candidatos. A Agnes vai nos ajudar.



— Mas antes preciso incumbir ao menos quatro de vocês a uma missão. — declarou Raziel, solene — A Flamígera, infelizmente, não se encontra em posse dos anjos.



— Peraí, não chegaram a pega-la antes do banimento? — perguntou Frank.



— Não houve tempo hábil de salvaguarda-la. — disse o ofanim denotando frustração — O que significa que está em poder dos caídos.



— Ah, essa não... — disse Carrie fechando os olhos brevemente.



— Mas que missão é essa? Recuperar a espada? — questionou Nathan. 



— Precisamente. Quatro de vocês é o suficiente para uma entrada sorrateira no templo celestial.



— O quê? Meros mortais indo pro mundo celestial? — surpreendeu-se Dynno.



— Olha, eu não sei se aguentaria. O ar lá é bom de respirar? — disse Otto.



— E quem aqui tá chamando você, Otto? Se liga. — rebateu Dynno deixando o amigo com expressão azeda.



— É possível, já estive lá umas três vezes, duas fisicamente. — contou Frank ao líder da Insurgência — Inclusive, foi lá onde peguei o tridente pra matar o capiroto.



— Se não fosse você contando não iria acreditar. 



Carrie mostrava-se engajada em participar.



— Então, quem poderia ir? além do Frank, obviamente. Eu posso me arriscar.



— Não, você não. — negativou Frank, meio autoritário com a amiga — Tem querubins e ofanins caídos espalhados na morada celestial.



— Apenas querubins. Raguel e os outros ofanins estão em reunião com Chernobog, é um tempo oportuno. — informou Raziel.



— Não esquenta, só tava fingindo pra ver sua reação já que acordou disposto a tomar decisões pelos outros. — replicou Carrie levantando uma sobrancelha com sorriso de canto — Não leva pro pessoal, é brincadeira.



— Eu sei, só não quero te ver correndo perigo mortal. — disse Frank tocando-a nos ombros e beijando a cabeça — Já perdi a mamãe, meu tio, minha ex-cunhada, meu sobrinho e amigos... Não vou perder você. — voltou-se para Lucy.



— Não olha pra mim, eu nem pensei me oferecer a essa missão aparentemente suicida. — disse Lucy — Será que vale a pena se arriscar tanto por essa espada se nem temos um candidato ideal pra usa-la?



— Verdade, poderiam recorrer a outro meio. — disse Natasha — Por que não tentam novamente aprisionar Chernobog como antes?



— O número de ofanins disponíveis para fixar o selo numa nova prisão está muito abaixo do necessário. — revelou Raziel — Me esperem aqui, volto em instantes.



O ofanim sumira num piscar de olhos. Minutos depois, retornou trazendo quatro espadas de lâminas prateadas com empunhaduras douradas e colocou-as sobre a mesa.



— Os voluntários usarão estas espadas de treinamento ofanim durante a missão. — disse Raziel — Frank irá liderar outros três. Quais são?



Natasha deu dois passos adiante, determinada.



— Eu vou. — disse ela pegando uma das espadas.



— É uma missão que pode ser só de ida. — disse Carrie, temerosa pela amiga — Tem certeza?



— A mais absoluta que já tive. — respondeu a caçadora olhando fixamente para Carrie.



— Irei também. — disse Nathan pegando sua espada — O velho aqui precisa de cobertura.



Frank deu uma leve cotovelada no filho com uma risadinha.



— Se meu marido e meu sogro serão parte disso... — disse Miyako se aproximando e pegando sua espada — Por que a esposa e nora ficaria de fora? Sou uma caçadora jovem de um clã renomado, minha vida tá carecendo de ação.



Raziel sorriu satisfeito e sacou uma adaga dourada com a qual logo fizera uma fresta vertical no ar, um rasgo de luz dourada no fino e frágil tecido espaço-temporal. A fenda foi criada até o chão, na altura dos que a atravessariam. Dynno e sua turma se maravilharam com o poder de um ofanim.



— Agrupem-se, por favor. — pediu Raziel. Os quatro se posicionaram em linha reta, logo recebendo toques na cabeça pelo ofanim que transferia parte de sua energia a cada um.



— O que fez conosco? Sinto... como se uma corrente elétrica passasse por cada parte do meu corpo, mas sem eletrocutar. — disse Nathan.



— Lhes dei frações do meu poder para que canalizem às espadas, podendo também disparar como feixes.



— Das próprias mãos como um Hadouken? Caraca. — disse Dynno — Agora tô no maior pique pra ir junto.



— Fica aí chupando dedo. — disse Frank em tom de zoeira — E aí, podemos passar agora?



— Esperem, um aviso: a espada está na sala do relicário e o portal seguirá aberto por quinze minutos, no máximo. Mas a energia que partilhei com vocês é egostável em dez minutos. Apesar disso, servirá para aplacar as investidas deles. Não desperdicem. Quebrei duas normas da constituição celestial esperando não me arrepender disso. Boa sorte. 



O quarteto enfim se direcionava a fenda. Primeiro Frank atravessou, depois Natasha que foi seguida de Nathan e por fim Miyako. Esquadrinharam a vastidão da planície gramada sob o céu negro naquela noite interminável.



— Nossa, até que é bonita a paisagem, mas... — disse Natasha olhando em volta — Esperava algo mais olimpiano.



— Então é esse o Mundo Celestial? — disse Nathan, explorando — Uma experiência imersiva do protetor de tela do Windows XP, só que... a noite.



— Isso aqui não é noite. — corrigiu Frank andando na frente — A presença do Chernobog é tão maligna que o sol daqui se apagou num instante no dia que ele se libertou.



— E agora ele fará a mesma coisa no nosso mundo em doses homeopáticas. — disse Miyako — Cadê o templo?



— Logo ali. — apontou Frank com sua espada — Vamos nos separar. Se esgueirem pelas árvores. Nathan e eu vamos pelos fundos à direita e vocês duas a esquerda. Beleza?



— Como quiser, grande líder. — disse Natasha ao lado dele contemplando o templo angelical de maciça pedra branca numa arquitetura gótica que remetia a uma enorme igreja.



O plano foi executado fielmente. As caçadores adentraram numa sala por uma passagem secreta, alertas a qualquer sinal de inimigos.



— Olha esse museu, que fabuloso. — disse Miyako — Aqueles brasões na parede devem os emblemas das classes angelicais, são lindos.



— Achei que estivéssemos numa missão de espionagem, não numa excursão escolar.



— Não seja tão séria, tenta se divertir um pouco nesse clima de suspense. Mas é engraçado termos que usar espadas para roubar outra espada. 



A caçadora nipo-americana acabara derrubando uma pequena escultura de cerâmica que caiu se despedaçando inteira. Natasha a olhou com advertência.



— Cuidado, olha o que fez.



— Foi sem querer, me distraí, esse lugar tem coisas de ficar olhando fascinado por horas. Mas espera... E se usarmos isso a nosso favor? 



Dois querubins caídos passavam pelo saguão iluminado por tochas de fogo azul e escutaram um ruído suspeito.



— Quem está no museu? — perguntou um deles.



— Ninguém entra se não for para fazer a manutenção... que já foi realizada ontem. — disse o outro.



— Há possivelmente um intruso.



— Que teoria mais absurda. Ninguém a não ser nós e os ofanins de Raguel podem entrar.



— Mas ouvimos algo quebrando vindo do museu. Eu vou verificar. — disse o que inicialmente perguntou. O outro seguira-o.



— Não, Miyako, não nessa diretriz. Pode não funcionar na prática, eles são muitos. — recusou Matasha a seguir o plano segurido por Miyako.



— Mas isso daria tempo pro Sr. Montgrow e o Nathan chegarem aonde a espada tá guardada. Com os querubins focados em nos enfrentar, eles ficarão sem obstáculos.



— É um plano muito ingênuo, pensa com clareza. Podemos ter um décimo de poder ofanim, mas talvez não seja o bastante pra todos os querubins que caírem sobre nós. Quanto tempo temos?



— Se passaram... apenas três minutos. Senti que foram uns sete até chegar aqui.



— O tempo corre diferente nesse mundo.



Ambas ouviram sons de passos e viram sombras se aproximando da entrada. Natasha puxara Miyako pelo braço até uma tumba.



— Se esconde aqui dentro. 



— Nat, dá uma chance a essa estratégia. Por que você tem que ser tão pessimista?



— Não conseguiremos atrair a maioria deles até nós. — disse Natasha em voz baixa olhando as sombras — Eles ouviram o som da estátua quebrando. Somente dois deles. Devem ter comunicado os outros de uma possível invasão.



— Tá legal, você que manda. — disse Miyako, bufando ao entrar na tumba empoeirada — Sorte que tá vazia, mas é apertada, não sei se... — sua fala foi cortada com o fechar da tampa por Natasha.



A caça-vampiros escondera abaixo de uma mesa tomando cuidado para não fazer ruídos mínimos com a espada. A dupla de querubins enfim adentrava ao museu para uma varredura minuciosa, os olhares estreitados de suspeita. Eis que um espirro fora ouvido, bem abafado.



— De onde veio esse som? — perguntou um deles.



"Droga, Miyako!", pensou Natasha. O outro querubim intuiu a origem do barulho.



— Nestas tumbas, foi daqui. Mas não sei em qual...



A tumba em que Miyako estava fora aberta, de dentro dela saindo um ataque de energia que arremessou o querubim contra vários artefatos numa mesa. Miyako saíra da tumba atacando o outro com a espada. O anjo defendia-se ao mesmo tempo tentando revidar. Natasha se expôs virando a mesa com os itens diversos antes sobre caindo. Sua lâmina resplandeceu.



— Que a força esteja comigo. 



— Isso é energia ofanim... — disse o querubim atingido levantando — O que está havendo aqui, afinal?



Esse mesmo lançara uma rajada de fogo contra Natasha que se esquivou rindo por baixo e logo saltou chutando-o forte. O anjo caído bateu as  obras numa prateleira com vidraças que estilhaçaram, mas não intimidou-se e sacou usuário espada, movimentando-a num aquecimento. Avançou contra a caça-vampiros, um outro duelo ferrenho de espadas.



Miyako desarmou seu oponente, logo cerrando seu punho direito e o energizando. Desferiu um pesadíssimo cruzado de gancho, arremessando-o contra um armário.



— Derrotei um anjo?! Se meus pais vissem...



— Dá pra parar de se gabar e dar uma ajudinha aqui? Cairia bem! — pediu Natasha sendo dominada pelo peso da lâmina do querubim contra a sua tentando derruba-la. 



Miyako correu dando um pulo e baixando sua espada contra a do querubim, desarmando-o. Era a vez de Natasha avançar com a ponta da espada virada para ele que segurou a lâmina luminosa enquanto era empurrado. A energia ofanim abrilhantou os olhos da caçadora e ela rosnou empurrando mais forte. A lâmina penetrou no peito do querubim que foi incendiado até os ossos.



Enquanto isso, Frank e Nathan eram guiados pelas espadas acesas em luz por corredores.



— Ao que parece, a luz fica mais brilhante a medida que avançamos. — disse Frank usando a espada como bússola.



— Será que foi uma boa ideia nos separarmos das garotas? E se elas são pegas?



— Sossega, Nathan. Nós quatro seguramos a barra com o poder do Raziel dividido.



— Mas não é o poder total dele dividido em partes iguais, pai. Esqueceu o que é uma fração?



— Claro que não, eu entendi, mas dá conta, ele garantiu. O problema é o limite...



Frank e Nathan alcançavam a porta do relicário celestial, o brilho das espadas indicando.



— Tá esquentando... — aferiu Nathan.



— Acho que naquela porta ali no fim. — disse Frank andando mais depressa.



Os querubins mobilizaram-se para conter os invasores, espalhando-se pelo corredores e dependências do templo. As espadas da dupla intensificaram no brilho ao chegarem à porta.



— Pai, abre logo, minha retina tá queimando. — reclamou Nathan afastando a espada do rosto.



Frank chutou a porta trancada, descobrindo o interior do recinto. Avistou uma arca folheada a ouro puro correra até ela.



— Ali, vem! Nessa arca! 



— O que é isso? Parece a Arca da Aliança. Será que é mesmo? 



— Não sei e nem quero saber. Só quero pegar logo essa bendita espada pra gente meter o pé daqui. — disse Frank andando até a arca. A luz das espadas apagou-se assim que a arca fora aberta. Ambos encontraram a Flamígera impecavelmente conservada — Olha como reluz.



— Admirando a estonteante arma mortal? — indagou um querubim com um parceiro bloqueando a passagem.



Frank pegou a arma e se posicionou para lutar com as duas.



— Pai, corre na frente! — bradou Nathan que avançou bravamente contra os anjos que sacaram suas espadas e duelavam com o híbrido. Frank parecia incrédulo na hipótese do filho vencer a luta de dois contra um — Vai logo, eu dou conta!



O detetive correu por um lado quase roçando nas paredes, mas um dos querubins lançara fogo azulado. Frank se abaixou num pulo enquanto Nathan explodiu sua energia ofanim, os olhos brilhando depressa, numa mão contra esse querubim, o mandando contra a parede uns metros adiante. O outro seguiu atacando com sua espada mais ferozmente, o híbrido na defensiva. Logo, uma espada luminosa o atravessou por trás no peito.



— Valeu. Vamos nessa. — disse Nathan. A dupla saíra da sala, mas perseguida pelo ofanim repelido que disparou uma rajada flamejante. Dobraram para um corredor a esquerda, por pouco não atingidos. Encontraram-se com Natasha e Miyako no saguão central.



— Pegaram a espada? — perguntou Natasha.



— Bem aqui. — destacou Frank — Esse lugar é enorme. Onde que é a saída?



— Pergunta pra um deles. — disse Nathan em posição combativa.



— Sou Mizael, estou no comando desse batalhão! Exijo saber de que modo aportaram e sob qual autorização! — disse o querubim caído com um exército cercando-os.



— Estamos aqui com a benção de Raziel. — disse Frank, destemido.



— Pois iremos denuncia-lo a corte celestial.



— Ele disse ter quebrado duas regras nos trazendo pra cá e partilhando seu poder. Pode crer que ele não tá nem um pouco preocupado.



— Devolvam a Flamígera e sairão com vida! — negociou Mizael, altivo.



Frank voltou-se aos três parceiros.



— Que tal um ataque em conjunto? Se cruzarmos as espadas...



— Talvez criemos uma campo de energia expansivo o bastante pra derrubar todos eles. — anteviu Nathan. As caçadoras assentiram.



— Vamos lá, os quatro mosqueteiros. — disse Frank, erguendo sua espada — Um por todos...



— E todos por um! — disseram os demais em uníssono firmemente. As espadas cruzaram suas pontas no instante em que os querubins disparavam rajadas simultâneas. A energia liberada gerou um escudo bloqueando os jatos flamejantes. Os quatro brilhavam seus olhos.



— Agora! — disse Frank, logo o grupo levantando mais as espadas num pulso de energia que atingiu os querubins ao redor, todos caindo como pinos de boliche — Funcionou!



Correram ao máximo até o portal que estava prestes a fechar. Miyako conferiu no relógio.



— Só temos um minuto! Depressa!



No outro lado, a aflição se dividia entre todos com a diminuição da fenda. 



— Resta pouco tempo. — avisou Raziel — Eu temo que...



— Eles vão voltar! — disse Carrie, sem dar espaço para desesperança. Lucy juntava as mãos em apreensão, torcendo pelo sucesso do time que corria freneticamente pela planície. Porém, um querubim meio trôpego jogou sementes similares a feijões pretos no solo, as quais metamorfosearam em criaturas vermiformes e gigantes abaixo do solo. 



— Só faltava essa! — disse Frank olhando para trás vendo os quatro vermes negros com inúmeras presas perseguindo-os, dentro e fora da terra.



— O que são esses monstros? — indagou Natasha. 



— Devem ser do submundo! Sebo nas canelas! — berrava Frank acelerando. Chegavam enfim ao portal, Natasha pulando primeiro — Nathan, pega! — entregou a Flamígera ao filho quando virou-se para enfrentar os vermes.



— Mas pai... 



— Faz o que eu tô mandando! Corre! 

Um dos vermes lançou tentáculos que envolveram as pernas de Miyako, arrastando-a.



— Socorro! — gritou ela tentando cortar com a espada, mas sua energia esgotou. Nathan confiou que Frank a salvaria e pulou no portal com aperto no coração. Miyako segurou-se numa pedra e aliviou-se com Frank vindo — Sr. Montgrow!



Frank usou o que sobrou da sua energia, decepando os tentáculos num único golpe. Do outro lado, Nathan e Natasha aguardavam.



— Frank ficou pra lutar? O que ele tem na cabeça? — questionou Dynno.



— A Miyako foi pega, ele foi salva-la e me deu a espada. — disse o híbrido mostrando a Flamígera e pondo-a na mesa.



— O portal irá fechar em pouco segundos. 



— E se não conseguirem, você abre outra fenda! — dissera Nathan, exasperado.



— Não posso, uma ruptura que leve ao mundo celestial só pode ser aberta uma vez a cada mil anos. Eles podem permanecer lá pelo resto de suas vidas caso não alcancem a tempo.



Felizmente, Frank e Miyako retornavam caindo ao chão com o pulo. Não apenas eles como também um dos vermes, cuja cabeça irrompeu assustando a todos que recuaram de imediato.



Raziel se colocou a frente, estendendo suas mãos para manifestar seu poder ofanim, seus olhos brilhantes. O verme foi repelido de volta, o portal fechando numa réstia de luz.



— Imagina aquela coisa invadindo o bunker... — disse Otto, atemorizado com o verme.



— Vermes ctônicos. — disse Raziel — Seus embriões são como sementes, uma vez plantadas em solo fértil crescem a uma velocidade absurda.



— Tá tudo bem mesmo? — indagou Nathan amarrando Miyako.



— Tô ótima. Sr. Montgrow foi um verdadeiro herói. Não sei como ele não pode ser digno da espada.



— Pai, não seria melhor fazer o teste agora?



— Mudou de opinião? A Agnes vai remover essa punição de reprovado. É possível, né, Raziel?



— Se ela usufruir do grimório profano, pode forjar uma mágica que cancele temporariamente o castigo da indignidade.



— Foi o que eu pensei. — disse Frank mais otimista.



— Mas será que nem assim você fará o teste? — perguntou Natasha.



— Se o feitiço for possível... Olha, o que acham de trazermos um guerreiro digno do passado?



— Viajar no tempo? Nós acabamos de sair da terra dos anjos onde quase fomos devorados. — disse Natasha — Frank, ironicamente, pode ser uma perda de tempo. 



— Eu já fechei minha cota de viajante. — disse Nathan.



— A Agnes pode providenciar, ouvi uma vez ela dizer que existe um feitiço capaz de enviar alguém do passado para o presente só visualizando a época sem estar nela e selecionando a pessoa.



— Não basta ela simplesmente anular o castigo do fogo santo da espada e depois você fazer o teste? — indagou Carrie, incomodada com a postura do amigo — Tô começando a achar que essa sua resistência não tem a ver com medo da punição... mas de si mesmo.



— Eu vou chama-la. Ela vai me entender, talvez melhor do que todos vocês.

— Melhor até do que eu? — perguntou Lucy.



O detetive lançou um olhar de contrariedade a amada, logo saindo da sala a largos passos.



— Vamos dar um espaço pra ele. — disse Nathan —  A cabeça dele tá cheia de dúvidas. Ele tá confuso sobre o próprio valor.



— Então não é de uma bruxa que ele precisa, mas de uma terapeuta. — disse Dynno — Ele tá em negação, não sabe a chance literalmente de ouro que tem. — pegou a Flamígera, analisando-a.



***



Em uma das residências do cortiço, Fana cantarolava para Dante no quarto reservado ao bebê acalmando uma crise de choro. O balançava de maneira terna, esperando que ele adormecesse, mas somente o vendo tranquilo com os olhos semicerrados lhe era satisfatório.



— Quer ir pro bercinho? Tudo bem, só não volte a chorar, por favor. — disse ela indo até o berço mde o deitou confortavelmente — Já vou alimenta-lo, seja paciente.



Assim que a serafim virara as costas para dirigir-se a cozinha preparar o leite, Dante a fitou de modo que seus olhos bruscamente enegreceram por inteiro ao piscar. O bebê ergueu sua mãozinha direita aberta e depois a fechando. Fana de repente foi acometida por uma asfixia extrema que a fez apertar o pescoço e boquiabrir com os olhos tensos e arregalados. Virando-se para Dante, se deu conta de ser ele o responsável por tortura-la.



O bebê possuía uma expressão séria e dura, os olhos pretos como breu. Ergueu o braço, consequentemente tirando Fana do chão. A serafim tentava gritar com os pulmões privados de oxigênio, mas só saíam sons entrecortados. Jofiel entrara no quarto para vê-la.



— Fana, conseguiu fazê-lo dormir? Santo pai celestial! Fana! — disse ele, afligindo-se ao ver a irmã levitando sufocada. Correu a agarrando — O que está havendo?



Logo reparou em Dante com os olhos tingidos de preto. Prontamente, tocou dois dedos na testa dele, o levando a dormir. Fana caíra sendo amparada por Jofiel, ofegante e aturdida.



— Como conseguiu apaga-lo? Ele não tentou te sufocar?



— Acho que estava focado em matar você. Foi quem mais se apegou a ele durante a rotina de cuidados. Os olhos dele...



— Sim, eu sei, ele... despertou a essência impura. Mas não compreendo, ele está cercado de anjos, seres benignos e amorosos, deveria estar com seu lado sombrio inibido.



— Creio que ele se manifesta numa lógica inversa. — apontou Jofiel — E se o déssemos de volta a mãe por um tempo para que ele aprenda a equilibrar sua dualidade?



— Não sem o aval de Adrael, ele se proclamou guardião até que o Grande Mal seja derrotado. Além do mais, é apenas uma criança, não tem o controle pleno e consciente de seus poderes, talvez consiga o equilíbrio muitos anos depois de crescido. Sinto medo dele acordar com aqueles malditos olhos.



— Qualquer coisa, mande um sinal a mim em pensamentos. Ele vai dormir por algum tempo, não sei ao certo quanto.

***



Agnes iniciava sua primeira visita ao bunker da Insurgência com Frank fazendo questão de trazê-la.



— Bem-vinda ao lar dos caçadores. — disse Carrie a recebendo — Conheço essa cara. Adorou a carona por não precisar gastar magia pra vir num salto.



— Pode acreditar que sim. — disse Agnes simpática — Fico grata pela gentileza, Frank. Olá, garotas. — cumprimentou Natasha e Miyako que acenaram.



— Achei que nunca fosse dizer. E aí, vamos começar antes do último por-do-sol?



— Esse feitiço temporal exige um ambiente arejado, relativamente úmido e de capacidade limitada. — informou a bruxa avaliando a sala.



— Temos um porão onde normalmente fazíamos interrogatórios com tortura a demônios. — revelou Dynno — O Jasper pode te acompanhar.



— Vem comigo, tô ao seu dispor. — disse o caçador. A bruxa chegou a andar frente a ele que delineou as curvas dela com as mãos, logo olhando para trás fazendo um sinal de OK. Frank e Dynno riram brevemente.



— Esse Jasper... — disse Dynno que logo atendeu seu celular tocando — Alô, Gordon, diz aí o que tá pegando nas ruas. — foi ouvindo, expressando seriedade — Merda... Olha, mandarei reforços, o Otto lidera. Se a situação não mudar, vou com o Frank e os outros.



— Dynno, o que tá havendo? — perguntou Frank.



— O grupo do Gordon foi apanhado pelos vampiros, a maior facção de Los Angeles. Tomaram o prédio do DPLA, ninguém entra, ninguém sai. Nem sei como ele pôde ligar.



— Pensou que fosse mais um ataque comum? Olha o contexto. — disse Natasha levantando — A morte do sol está os tornando mais fortes. Existe uma profecia de que um novo barão vampírico ascenderia durante o final dos tempos. O crepúsculo, esse será o momento de glória dos vampiros se ganharem um líder.



— Como esse barão novo surge? — indagou Frank.



— Um ritual de sacrifício. — alarmou Natasha — Um sacrifício humano.



— Talvez o líder dessa facção já seja o soberano dos vampiros, alguém do grupo pode ter sido sacrificado. — teorizou Miyako.



— O ritual necessita de uma vida frágil e de pouco tempo... Ou seja, um bebê.



— O Dante tá seguro com os serafins. — ressaltou Frank.



— Mas e o Fred Jr.? — citou Carrie, aflita.



— Lá vou eu de novo ligar pra aquela vagaba. — disse Frank sacando o celular e ligando — Lilith, o Fred Jr. tá com você? Ah não, saiu pra passear, foi?



— É um bebê com pouco menos de 28 dias de nascido. Fala pra essa maníaca que é cedo pra passeios nas ruas, ele pode ter uma infecção respiratória. — repreendeu Carrie.



— Calma, vai ver nem estão na área dos ataques. — disse Miyako — É fácil pra eles conseguirem qualquer bebê aleatório, nada garante que será o Fred Jr.



— Mas um bebê é o alvo, isso por si só já me dá arrepio na barriga.



— A ligação caiu, o sinal lá é péssimo. A babá levou o Fred Jr. pra passear, ver se acalmava ele, tava chorando a beça. Vamos torcer pra que voltem logo. Enquanto a Agnes prepara o feitiço, vou ter uma DR com minha patroa.

***



— A partir de agora, devemos unificar nossa fé em oração nos prostrando diante daquele que pode nos conceder a misericórdia. Somos todos um só povo, uma só nação... uma só vida. — disse o presidente dos Estados Unidos em pronunciamento geral passando nos televisores de uma loja, assistido por uma multidão apavorada.



A babá de Fred Jr., Hope, uma demônia de cabelo loiro bem liso, conduzia o carrinho por uma calçada na esquina com a loja e olhava a aglomeração.



— Bom que o sol não tá tão quente pra você, né?



Fred Jr. recomeçara o choro quando um alvoroço iniciou-se com quebras de vitrines, invasões e saques em massa da multidão alarmada. A gritaria e os tiros da polícia amedrontavam o bebê cada vez mais.



— Vamos embora. — disse Hope correndo com o carrinho, atravessando a rua. Pensou ter sido avistada por homens mal-encarados, estes misturados ao povaréu, logo revelando-se vampiros que subitamente fincaram suas presas em vítimas aleatórias, dentre elas policiais, dando uma tônica mais horripilante ao furdúncio.



Se distanciando da celeuma destrutiva, Hope correu empurrando o carrinho para um beco molhado dando constantes olhadelas para trás.



— Para de chorar, para de chorar! — dizia ela balançando agressivamente o carrinho. De repente, alguém pulou da escada de incêndio do prédio ao lado, pousando bem próximo a ela — E você... Quem é?



— Alguém que tá louco pra te dar uns amassos. Qual sua parte favorita nas preliminares? A minha é mordidinha na orelha. — disse ele que mostrou olhos azuis e presas pontudas, logo agarrando a demônia e tascando uma mordida no pescoço — Ah, desculpa, errei o alvo. — ironizou, a boca suja de sangue — Sangue de demônio é tão amargo... Gostinho de uísque vagabundo. 



— Tem sorte de eu estar com um bebê, senão faria você sangrar pelos poros. Vampiros não atacam só a noite?



— Novo mundo, novas regras. Hoje é o dia em que seremos efetivados, gracinha.



Uma vampira viera por trás de Hope a esfaqueando nas costas.



— O que é isso? Ai! Não!



— Lâmina embebida de água santa, princesa. — disse a vampira. Ela assobiou com os dedos na boca voltada para o outro lado. Um carro vinha dobrando e em marcha ré. Grogue e desorientada, Hope se segurou na parede, mas foi puxada pelo vampiro.



— Me sinto tão fraca...



— A intenção é essa. — disse ele. A vampira tirou Fred Jr. do carrinho, o bebê elevando o choro ao ser levado para dentro do veículo. Hope fora empurrada para dentro do porta-malas.



— Não, não machuquem o bebê...



— Relaxa, o máximo que ele vai sofrer é de saudade da mamãe. — disse o vampiro, logo fechando o tampão.



***



O porão do bunker possuía uma estrutura razoável para se executar a tarefa proposta a Agnes que havia garantido a viabilidade. Paredes de um marrom escuro, uma escada de pelo menos dez degraus e um pequeno espaço no qual havia uma cadeira para prisioneiros na área de cima próxima a escada. A bruxa ficara ali onde também existia uma mesa na qual deixara o grimório aberto na página correta.



— Vai ficar aí em cima mesmo? — perguntou Frank que viera junto de Lucy, Carrie e Nathan, sentados em caixotes velhos, mas ainda firmes.



— Aqui está seguro para conjurar a mágica. Fiz o círculo com pó de quartzo.



— Ahn... Será que isso não infringe a lei que proíbe viagem no tempo? — questionou Nathan

— Fiquem tranquilos, o feitiço não viola as leis universais. Mas vale lembrar que Chernobog as promulgou, então no caso de apunhala-lo com essa espada tentadora...



— Viagens liberadas? — disse Nathan.



— Aí, se a vitória for nossa, nada de comprar areias do tempo pra sair de férias pela história da humanidade. — advertiu Frank.



— Seu pai tem razão, Nathan, a anulação das leis não significa que as consequências temporais deixem de existir. — reforçou Lucy.



— Vocês já fizeram as pazes? — perguntou Carrie — Então não houve briga, que bom.



— Carrie, do que está falando?



— Frank disse que vocês teriam uma DR pelo... dilema com a Flamígera.



— Foi maneira de dizer, só uma conversa séria de casal. Uma DF, discutindo o futuro. — disse Frank — Agnes, pode mandar brasa. 



A bruxa necronomiana fechou os olhos em máxima concentração. Recitou as palavras do feitiço em ótima pronúncia. O círculo de pó de quartzo foi se iluminando dourado em sentido anti-horário.



— Incrível, parece que o pozinho virou purpurina. — analisou Frank com a Flamígera em mãos. 



Agnes visualizava inúmeras épocas da história, passando um longo filme de imagens aceleradas focando em rostos de guerreiros legendários que atendessem aos requisitos.



O primeiro surgia dentro do círculo. Ninguém menos que o próprio Hércules - barbudo e cabeludo, mas de envergadura semi-divina.



— Quem em nome de Hades se julga no direito de remover Hércules, filho de Zeus, de seu aposento?



— Não é tão bonito quanto no desenho da Disney. — apontou Carrie.



— Onde eu vim parar? Estava no meio de uma caça importante.



— Deixa eu adivinhar: Leão de Nemeia. — disse Frank levantando num sorriso de canto.



— Não, Touro de Creta. Quem são vocês? Quem e por que me trouxe aqui?



— Lucy, você é uma figura mitológica grega, me diz: ele tem mesmo essa voz trovejante? — perguntou Carrie.

— Ele não é da época em que eu e minhas irmãs fomos amaldiçoadas. Nunca nos vimos, mas acredito que Euríale tenha tido um caso com ele quando fugimos do submundo e nos separamos, ouvia rumores de um semideus.



— Eu preciso que você segure essa espada e diga estas palavras. — disse Frank entregando a Flamígera e um papelzinho com o juramento escrito. — É por uma grande causa. Precisamos de um guerreiro digno de destruir o mal na sua pior forma que assola esta época.



— Sou filho do deus dos deuses, certamente que sou digno, passe o tempo que passar.



— E também não é um poço de humildade. — lamentou Carrie.



Convencido da tarefa, Hércules lera o escrito em voz alta. Porém, a espada não incendiou.



— Não aconteceu nada. — disse Nathan.



— Lamento, você não é digno. — disse Frank tomando a espada e o papel de volta — Mas foi uma honra conhece-lo, pensava que era uma lenda. Você é o cara.



Agnes o enviara de volta ao seu tempo, o que demandou certo esforço. Um confuso e perdido Hércules sumia num piscar de olhos. O próximo que veio fora o Rei Arthur, retirado em plena guerra. Passou pelo teste com as informações fornecidas por Frank. Porém, foi reprovado.



— Desculpe, a espada queima quando o guerreiro que a segura é digno. Mas foi uma honra conhecê-lo, vossa alteza. — disse Frank fazendo uma reverência enquanto recuava.



— Mas que vexame. — disse Arthur, revoltado, logo sendo enviado de volta. O candidato seguinte gerou estranheza pela sua aparência de homem-macaco com bares chinesas segurando um longo bastão.



— Agnes, a espada só aceita humanos, de acordo com o Raziel. — recordou Frank.



— Sun Wukong foi humano antes de ser enfeitiçado. — disse Agnes — Mas ainda conserva sua natureza original.



— A lenda da origem do Rei Macaco... é só lenda, então? — falou Nathan.



O ser híbrido lendário emitia palavras em chinês antigo, aparentemente reclamando de estar preso no círculo.



— Alguém traduz, por favor. — disse Nathan.



— Deixa comigo. — se habilitou Frank que, para o espanto dos três, explícou o teste falando chinês fluentemente. Contudo, Sun Wukong fora rejeitado. Frank se desculpou em chinês, mas foi respondido com rispidez pela figura mítica.



Após ele ser enviado, Frank se virou sendo encarado.

— O que foi? Nunca viram um caçador poliglota?



— Não sabíamos que falava chinês. — disse Carrie — Eu e a Lucy estamos pasmas.



— Eu também. — adicionou Nathan num sorriso brincalhão.



— Não fiz faculdade, mas fiz curso de línguas estrangeiras. — revelou Frank — Agnes, manda o próximo. — mas a bruxa pareceu ter sumido — Agnes? Cadê ela?



Frank subiu a escada seguido dos demais, descobrindo a bruxa caída e numa aparência absurdamente envelhecida, os cabelos brancos e a pele enrugada.



— Caramba. O feitiço consumiu a juventude dela. — disse Nathan.



— E ela não disse nada. Me ajuda aqui, Carrie. — disse Frank tentando levanta-la. 



Sentada na cadeira e se recompondo após acordar, Agnes falava e respirava com dificuldade.



— Não contei pra que... não fossem desencorajados a seguir o plano... por conta do preço a ser pago.



— E não tem como reverter? — perguntou Lucy.



— Sim... mas leva muitas horas... até que minha jovialidade... se restitua. E não resta tempo bastante... 



— Definitivamente não há tempo. — disse Carrie — Frank, faz o teste, deixa de hesitar.



— Eu concordei... — dizia Agnes —... pela incerteza de Frank vencer... a Flamígera por si não conduz à vitória... Isso cabe a quem a usa.



— Não vou desistir de encontrar o guerreiro ideal. — insistiu Frank.



— Pai, você pode ser esse guerreiro, a maior aposta.



— Duvido. Agnes, será que daqui umas duas horas você já terá forças pra um feitiço que leve ao submundo? 



— Sem problema. — assentiu Agnes.



— O que vai fazer no submundo? — perguntou Lucy, franzindo a testa.



— Rever um velho amigo. — disse Frank, confiando na prática da missão.



***



O berço de Dante foram coberto por uma tela de proteção contra possíveis incômodos externos. Mas não o imunizaria de invasões silenciosas, naturalmente. Mas por que preocupar-se quando o bebê híbrido ocultava sua posição geográfica, bem como a do espaço em sua volta? Jofiel e Fana estavam muito perturbados para presumirem implicações severas do despertar sombrio de Dante.



Uma delas beneficiou Zaratro que novamente tentava burlar o ponto cego. Seu radar esclareceu após tantos insucessos.



— Não posso acreditar... O encontrei. — disse ele, os olhos inteiramente brancos.

Uma projeção astral do bruxo surgia no quarto e afastava a tela protetora. Dante mantinha-se dormindo, os bracinhos para cima. À base do feitico que tornava a projeção física, porém também visível, Zaratro levou suas mãos ao bebê recitando o encanto. O tocou firme, retirando do berço. Jofiel o flagrara ao entrar.



— Você!? Largue-o! — o serafim sacou sua espada. Zaratro, porém, desapareceu com Dante no colo — Não! Quando Adrael souber...



— Quando eu saber o quê? — indagou Adrael atrás dele — Jofiel, o que há? Por que sacou essa espada? 



— Adrael, sinto muito, não pude evitar. O rebento foi levado. O bruxo profano esteve aqui. Não consigo entender, Dante estava fora de vista. 



— Disseram que ele despertou sua malignidade, certo? É provável que esconder sua localização seja um poder exclusivo de seu lado angelical que foi sobreposto. — disse Adrael que expressou angústia — Você será meu porta-voz, Jofiel. Decreto uma operação, é hora de agirmos.



***



No submundo, Frank e Nathan caminhavam numa direção que dificultava enxergar.



— Essa floresta é ainda mais escura do que aquela do Limbo. — disse o híbrido — Onde fica esse vilarejo, pai? Esses galhos cheios de espinhos estão acabando com meu casaco.



— Sem pressa, estamos quase lá.



— Sem pressa?! O mundo tá prestes a ver o anoitecer definitivo e você tá super-tranquilo?



— Você sabe que eu tô apavorado, tanto é que neguei o teste da espada mesmo com o feitiço da Agnes. Perdi o instinto do Orion e virei um frangote.



— Para com isso, eu sei que... tá com medo de perder feio pro Chernobog e fazer a mamãe sofrer, considerando todos os planos e sonhos.



Frank permaneceu silencioso até o fim do caminho. Passaram por um arbusto onde avistaram o vilarejo dos decaídos com casas modestas e postes com tochas. Seguiram pela trilha em meio às residências.



— Mesmo pra um ser sobrenatural, morar nesse fim de mundo é loucura. — opinou Nathan — Nem um demônio viveria aqui.



— O Jack é firmeza, vai gostar dele. Tem um senso de humor contagiante.



— E da última vez que se viram ele te disse o número da casa dele? Se é que tem... 



— Pior que não. Mas é aqui onde ele fez morada depois que encontrou outros como ele.



Repentinamente, ambos foram cercados por vários decaídos residentes que saíam de locais onde escondiam-se, armados com clavas e forquilhas numa furiosa recepção.



— Muita calma agora, essas devem ser as boas-vindas ao modo deles! — disse Frank costa a costa com Nathan.



— Se são as boas-vindas, nem quero saber como são as despedidas! — disse Nathan, aflito — Os decaídos são assim mesmo? É Halloween todo dia aqui?



— O Jack que procuramos não é o Lanterna. Peraí, pessoal, um minuto da atenção de vocês!



— Pai, nós já temos toda a atenção deles!



— Eu tô procurando alguém chamado Jack! — disse Frank fazendo-os pararem de se agitar em torno deles — Ele ainda vive por aqui? Sou amigo dele, um caçador!



— Amigo de Jack e caçador? Duas coisas que não esperava ouvir na mesma frase! — disse um decaído de corpo truculento.



— Não aceitamos visitas de humanos, tampouco de caçadores! — disse uma decaída com uma lança.



— É, deu pra perceber. — disse Frank mantendo o pacifismo — Mas não viemos causar problemas. Queremos apenas ver o Jack. Se ele estiver aí, chama ele e vão confirmar.



— Eles querem capturar nosso xerife! 



A revolta se intensificou. Porém, antes que aquele mutirão fervoroso caísse em cima da dupla, alguém passava por eles pedindo licença. A voz soou familiar a Frank.

— Licencinha, tô passando... Isso aí, valeu. — disse Jack que usava um chapéu texano sobre a cabeça de abóbora — Quem é vivo sempre aparece! Digo... Aqui é o inferno, então não sei se...



— Eu tô vivinho da silva. — disse Frank contente em revê-lo — E aí, Jack? Quanto tempo hein.



— Meus amados compatriotas, quero que conheçam meu nobre amigo, Frank Montgrow! E... esse outro aí quem é? 



— Nathan Montgrow. Meu herdeiro.



— Tá brincando! Parece que passou um tempão lá em cima desde que vim pra cá. Me perdoem por eles trocarem a receptividade pela hostilidade. Já recebemos forasteiros bem indesejáveis. Não querem entrar na minha taverna encher a cara? 



— Hoje não vai dar, Jack. Na verdade, viemos te levar daqui — disse Frank evocando novamente a fúria dos moradores —, mas pra cumprir uma missão e depois voltar. É urgente.



— Lamento, parceiro. Um xerife não abandona sua cidade. 



— Melhor do que salvar uma cidadezinha... é salvar o mundo. É isso que propomos a você. — declarou Nathan.



— O mundo? Mas que missão é essa? Devem estar muito desesperados pra recorrerem a mim. Sinal de que vocês não tem mais opções.



— Estamos quase sem esperança. Mas você pode representa-la. Vem com a gente.



No porão, um círculo de fogo foi feito por Agnes como portal para o submundo. As chamas elevaram-se e logo baixaram apagando-se, revelando o trio.



— Ótimo, voltaram. — disse Carrie — Olá, Jack. Ainda lembra de mim?



— A funcionária do Frank. E aí, como vai?



— Bem. — disse ela, desconcertada — E o Frank não era meu chefe, nunca foi.



Nathan deu a Flamígera a Jack e Frank o papel.



— Faz o seguinte: segura a espada enquanto lê essas palavras em voz alta.



— Beleza. Aqui vai. 



Jack proferira cada palavra do juramento. Para a surpresa de Agnes, Carrie e Nathan, a espada se incendiou numa chama majestosa.



— Não brinca... — disse Nathan, chocado.



— A espada tá pegando fogo! E agora? 



— Agora você é digno de combater nosso inimigo. — disse Frank o parabenizando — Parabéns, no fundo eu sabia que era você.



— Nossa, tô tão... honrado. Sinto que será o dia mais glorioso da minha vida. Esse fogo é coisa de outro mundo, sinto só de olhar. — disse Jack que ergueu a espada — Vou acabar com esse Cheira-Ovo. 



— Chernobog. — corrigiu Nathan. 



— Tô zoando.



— Falei que ele tinha senso de humor. — disse Frank tocando Jack no ombro sorrindo.

***



Na casa da floresta, Lilith estava a um passo de arrancar os cabelos andando pelo quarto de um lado para o outro devido ao passeio de Fred Jr. que estranhamente demorava. Evitava ligar para não parecer superprotetora e grudenta, mas naquela altura fazia-se necessário.



— Atende Hope, atende logo... 



Hope no porta-malas retirava o celular do bolso e atendera a chamada.



— Alô, Lilith... Desculpa, eu... 



— Desculpa pelo quê? Hope, não me assusta, o que aconteceu? Cadê ele? Pra que lado da cidade você o levou?



— O de sempre! Mas hoje... tá acontecendo uma revolta, estão anunciando o fim do mundo e tudo virou um caos! Eles me esfaquearam com lâmina santificada, fui abordada de repente quando tentei fugir com o bebê de toda aquela confusão, ele tava assustado...



— Hope, vai direto ao ponto! Você foi sequestrada ou o quê?



— Sim, fui, mas ele tá bem. São vampiros. Fui mordida e parece que... eles estão mais fortes, eu senti muita dor.



— De onde você tá falando?



— Me jogaram no porta-malas, não sei pra onde vamos. Mas fica tranquila, eu tô ouvindo ele chorar, mas ele tá bem.



— E se eles resolvem joga-lo pela janela irritados com o choro estridente dele? Já pensou? De qualquer forma, você é a culpada! Eu bem que devia ter colocado a Aélis de babá, ela saberia pra onde fugir. Mas não, tive que confiar numa demônia fraca e novata que caiu pra uma faca banhada a água santa! Você envergonhou a mim e toda a espécie.



— Me desculpa, Lilth, me desculpa! Eu não sei o que pretendem, mas acho que o Fred Jr. é importante. Senão teriam só a mim, eles são viciados em sangue demoníaco.



— Fica quietinha, eles podem te ouvir. Vou dar um jeito de resgatar vocês onde quer que estejam.

***



Frank retornava do porão com Nathan, Agnes - ainda recuperando sua juventude gradualmente - e Jack por um corredor que levava a sala central. Dynno vinha de encontro e assombrou-se.



— O quê que é isso? De onde você tirou essa coisa, Frank?



— Calma aí, ele é um amigo. — dissera Frank.



— Tô radiante em saber que o Frank juntou uma galera da boa pra travar essa guerra. — declarou Jack.



— E ele fala?! Frank, quem é esse maluco? Avisa pra ele que o Halloween ainda não chegou.



— O nome dele é Jack, é um decaído, acho que você não ouviu falar da espécie dele...



— OK, não há tempo pra explicar, temos que ir, todo mundo. A chapa esquentou pra valer no DPLA. Os vampiros fecharam um perímetro.



— O grupo do Otto foi dominado? Não é possível... — disse Nathan, incrédulo — A cada vez que o sol escurece, os vampiros se fortalecem, mas a ponto de todo um grupo não conseguir deter os que estão lá é absurdo.



— Natasha bem que avisou pra não subestimar a força dos sanguessugas. — disse Frank — Tá chegando a hora, Jack. Tá preparado?



— Preparo é o meu lema.



— Ele também vai lutar? — indagou Dynno.



— Sim, no meu lugar. — disse Frank deixando Jack mais a mostra.



— Você... chamou ele pro teste da espada? Ele é digno? Tá de zoação com a minha cara...



— Testado e aprovado, quer você goste ou não. Mas acredite, Jack é um ser imortal, mas já foi humano antes de ser aprisionado nessa abóbora.



— Me sinto com um diploma universitário. — disse Jack, a empolgação fervendo — Não julga meu corpo, tá bom, amigo? Eu só preciso de um físico sarado pra intimidar o chefão.



— Peraí, um novo corpo?



Frank removeu brevemente a cabeça leguminosa de Jack, fazendo Dynno reagir com pasmo.



— E eu pensava que isso só dava em desenho animado. Agora eu realmente não duvido de mais nada. — voltou a atenção a Agnes — O que houve com ela?



— Efeito colateral do feitiço, depois normaliza. — disse Frank — Tá todo mundo aprontado? Eu vou logo me armar até os dentes.



— Vou avisar a Miyako. — disse Nathan indo por outro corredor. Agnes estava ao celular com Hoeckler e passara a ligação para Frank.



— Theodor quer falar com você. 



— Diz, Hoeckler. Tô com um pacote aqui pra ser levado de encomenda pro Chernobog.



— Sinto informar, mas o destinatário não se encontra no momento. — disse Hoeckler caminhando com agentes fortemente armados por um corredor no bunker da ESP — Raziel apareceu pra mim pedindo que eu não mobilize meus homens até a catedral pra te escoltar pois Chernobog e Zaratro não estão lá agora. Adrael veio também e trazendo uma péssima notícia: Dante foi raptado por Zaratro.



— O quê? — disse Frank, a voz soando alta tamanha sua perplexidade — Mas como aquele imundo roubou o neném? Ele era irrastreável!



— Adrael supõe que é devido ao bebê ter despertado sua metade do mal hoje, quase matou sua babá asfixiada.



— Puta merda... — disse Frank desesperando-se — Olha, preciso de uma van que leve um amigo meu até Chernobog.



— Amigo?! Não era você quem iria usar a espada? Você é a promessa dos anjos.



— Tenho outras prioridades pra não me arriscar nessa batalha, você entende. Sabe o que é um decaído, não sabe?



— Um decaído é digno da Flamígera? É sério?



— Pode crer. O nome dele é Jack, já lutou ao meu lado antes e vai novamente, dessa vez pra salvar o mundo e dar orgulho pro povo dele. Trouxe ele do submundo pra dar a coça que o Chernobog merece.

— Frank, está arriscando mais em transferir sua carga pra outra pessoa do que na autoaceitação pra mergulhar nessa luta de corpo e alma.



— A decisão foi tomada, já era. Cadê o Chernobog e o cãozinho dele?



— Não faço ideia. Apenas os querubins e ofanins caídos estão por lá.



— Eu sei onde. — disse Agnes. Frank virou-se o celular para ela, a ligação posta no viva-voz — Eles foram abrir o portão do Limbo. Não imagino outro motivo pelo qual tenham saído nessa altura.



— Portão do Limbo... E existe uma porta que leva pra lá aqui na Terra? — questionou Frank.



— Não é uma localização específica, não aqui. Zaratro conjura um feitiço que cria uma cópia do portão original no lado de cá como um portal dimensional. Dele sairão as criaturas nativas, os seres mais hediondos e terríveis que existem.



— Um exército de criaturas a caminho de Los Angeles? — perguntou Hoeckler.



— Milhares. Los Angeles é o marco zero, se espalharão como uma praga de gafanhotos pelo mundo inteiro em pouco tempo.



— Deus do céu... O negócio só piora. — disse Dynno, preoocupadíssimo — Não tem como impedir?



— Não enquanto se ocupam com o levante dos vampiros. — afirmou Hoeckler — E quando o crepúsculo chegar ao pico, certamente muitos outros monstros daqui se aproveitarão.



— Verdade, vai ser a maior festa de arromba. — disse Frank — E aí? Liberam a van pro meu amigo aqui?



— Está a caminho, aguardem. Mas só iremos leva-lo assim que Chernobog retornar a catedral. Há uma contagem regressiva pra morte do sol em todos os canais de TV. Faltam menos de duas horas.



O celular de Frank tocara.



— Falou, Hoeckler. A gente se vê nas trincheiras. — disse entregando o celular a Agnes, logo pegando o seu para atender — Lilith? Que foi?



— Eita, essa cara não diz coisa boa... — disse Jack. Frank encerrou a chamada. Carrie vinha até eles.



— E aí, vocês vão agora? Quem vai conduzir o Jack?



— A ESP. — disse Frank visivelmente tenso.



— Frank, que cara é essa? Alguém ligou?



— Sim, a Lilith. Falou que o Fred Jr. foi sequestrado por vampiros junto com a babá. E o Dante... também foi, tá de volta ao Chernobog.



As duas horríveis notícias estarreceram Carrie que cobriu a boca com as mãos. Era chegada a hora de partir ao confronto decisivo. Miyako retirava sua espada mítica Raikiri da bainha, a lâmina katana brilhando de limpa. Nathan se imbuía do arsenal com cinto contendo facões, granadas ultravioleta e alça com balas de prata. Na sala principal, o time se reuniu para um discurso.

— Ainda que alguns aqui não possuam a marca da nossa irmandade, não é ela que define se você é parte dessa equipe. Agora todo e qualquer caçador que se unir a nós é um insurgente. Somos todos Insurgência. E hoje iremos mostrar o significado disso em honra à memória dos fundadores e ao legado!



Os parceiros de Dynno fizeram coro com gritos de determinação. Natasha, Miyako e Nathan aplaudiam. Frank tocou no ombro de Jack.



— Talvez seja aqui nossa despedida. — disse o detetive. Ele olhou para Lucy que estava insegura.



— Nunca diremos adeus, cara. Esteja ciente disso. — afirmou Jack.



— Vou tratar de arranjar um corpo ideal a ele. — disse Agnes — Quando eu estiver recomposta, convocarei meus alunos.



— Ah, de preferência, uma armadura pomposa de cavaleiro, combina mais comigo. — pediu Jack gerando uma risadinha em Frank que logo foi até Carrie dando as mãos a ela.



— Faço das palavras do Jack as minhas. — disse Carrie, os olhos marejando — Nunca diremos adeus.



Frank retribuiu num sorriso meio triste.



— Amigos nunca dizem adeus. — disse ele, logo a abraçando forte e longamente. 



— Vê se não morre. — disse ela.



— Vaso ruim não quebra.



— Sai desse surto autodepreciativo. Acredito na sua dignidade, sempre acreditei. Mas se você confia que o Jack é capaz... que seja. Não há nada que eu possa dizer que entre nessa sua cabecinha teimosa pra convencer do contrário.



Lucy se aproximava.



— Eu também iria. Mas só te deixaria distraído e vulnerável. Prometa a mim e a Carrie que não se fará de mártir.



— Eu faria... se essa espada me escolhesse. Mas promessa feita, eu vou voltar pra vocês... e por vocês.



Frank e Lucy deram sorrisos de conforto um ao outro e se beijaram. Nathan também se despediu da mãe num longo abraço emocionado assim como Miyako. O grupo inteiro saíra rumo ao embate. 



A expectativa também era considerável no DPLA entre os vampiros. Um deles estava numa sala de interrogatório tomando sangue numa bolsa hospitalar vigiando Fred Jr. que encontrava-se num berço Moisés com balançador sobre a mesa. O vampiro se aproximou do bebê que gemia choroso.



— O que é? Neném tá com sede? — perguntou, logo mordendo seu pulso esquerdo e gotejando sangue na boquinha de Fred Jr. que mostrava a língua lambendo — Gotoso, né?



Hope entrava na sala e alarmou-se.



— O que tá fazendo com ele? Sai daí! — disse ela o jogando ao chão com telecinesia.



— Só tava nutrindo ele com meu sangue. É parte do ritual. — revelou o vampiro, levantando.



— Sai daqui, vou ninar pra ele.



— Mas ele nem tá chorando pra dormir. 



— Sai logo daqui! — vociferou Hope, assim levando Fred Jr. ao choro — Droga de bebê, se assusta com qualquer coisa. Shhh... Shhh...



— A chefia é quem dá as ordens aqui. Não uma escrava. — provocou ele a olhando malicioso e saindo da sala com sua bolsa de sangue.



Nas ruas do centro de Los Angeles, imperava a balbúrdia dos vampiros pulando sobre pessoas inocentes com mordidas selvagens. Um deles subiu no teto de um carro e bradou de braço erguido e a boca encharcada de sangue.



— A cidade é nossa! 



Um tiro o acertou de costas, derrubando-o. Os sanguessugas se alertaram com o contra-ataque e avançaram ferozes. Os agentes da ESP iniciavam a contenção descendo das vans, abrindo fogo de forma implacável. Enquanto isso, a van da Insurgência chegava freiando barulhenta próxima do estacionamento interno do DPLA. Frank e os demais saíram rapidamente e foram invadindo por aquela área. Porém, se depararam com obstáculos.



— Shhh, todo mundo faz silêncio. — pediu Frank em voz baixa olhando fixamente para aqueles morcegos gigantes aparentemente sem olhos e com bocas de dentes pontudos abertas. As criaturas dormiam de ponta a cabeça tal qual morcegos comuns.

— Os vampiros... evoluíram pra essas coisas? — indagou Nathan.



— Apesar da ligação com morcegos... — disse Natasha, atenta — ... eles não se transformam, na profecia não há nada que indique metamorfose.



— É porque não são vampiros. — disse Frank — São espectros. Reconheci pela boca, eles ficam mostrando os dentes o tempo todo. Nunca mais tinha topado com essas pestes.



— E por que estão aqui? — perguntou Miyako.



— Eles costumam aparecer em locais onde muita gente corre perigo de assassinato. Como os vampiros estão dominando geral, eles assumem uma forma que remeta aos assassinos.



— Frank, vamos em fila. Eles estão dormindo, né? — disse Dynno.



— Estão. Só uma pena não termos balas de sal. 



— Mas sal não fere somente fantasmas? — questionou Nathan.



— Eles são os predadores naturais de espíritos pra corrompe-los. Dynno, melhor irmos juntos passando por entre eles.



— Eu tô no comando aqui, Frank. Portanto digo que iremos enfileirados.



— É mais rápido se todos passarem no meio deles sem fazer barulho. — retrucou Frank.



— Me digam que não vão começar outra briguinha. Fiquem a vontade se quiserem acorda-los. — repreendeu Natasha — Quem acha o plano do Frank mais efetivo levanta a mão.



Todos, exceto Dynno, o fizeram. O líder bufou, cedendo a ideia. 



— Puxa-sacos. Tá bom, vamos nessa.



Foram caminhando lentamente entre os espectros adormecidos, tendo que também ultrapassar por cima alguns carros no meio. Miyako passava por entre dois numa brecha muito estreita. O cheiro pútrido dos monstros a fez expressar nojo intenso, chegando a encostar levemente num deles que se moveu, deixando o grupo apreensivo.



Porém, a tranquilidade da travessia foi quebrada com um súbito espirro de Jamal. Todos o olharam atemorizados.



— Foi mal, galera.



— Puta merda... — disse Frank vendo boa parte dos espectros se moverem em despertar — Todo mundo correndo, vambora!



As criaturas bateram asas e começaram a voar caóticas pelo estacionamento. Os caçadores atiravam tremendamente a medida que corriam até o elevador. Miyako quase foi pega por um como se fosse presa de uma águia, mas Nathan disparou a libertando. Entraram no elevador, Dynno apertando os botões aflitivamente. 



— Não pode ser desperdiçar munição com esses bichos! — orientou Frank.



— Essa merda não sobe? Porra! — disse Dynno socando os botões. Os espectros ameaçavam adentrar ali. Miyako interveio com mais paciência, fazendo subir para o terceiro andar.



— É sua primeira vez com elevadores?



— Quase foi a última. — respondeu Dynno. A porta do elevador fechava-se, porém a cabeça de um espectro prendeu travando a subida. Frank atirou com a pistola, fazendo sangue espirrar e o afastando. Assim, o elevador seguiu.



Ao chegarem no terceiro andar, esbarraram com um grupo de vampiros e foram baleando-os tal como alternavam com os facões para decapita-los. Contudo, Frank e Natasha foram acertados por tiros de tranquilizantes nas costas num instante em que a equipe estava muito dispersa.



— Natasha... — dizia Frank caindo e vendo turvado a amiga tombar. Ambos foram capturados imperceptíveis.



A dupla acordara numa sala pequena de janelas fechadas, ambos amarrados por fitas adesivas cinzas de costas um para o outro em cadeiras giratórias.



— Pra onde foi que nos trouxeram? — perguntou Frank ajustando a visão — Natasha... É você?



— Só nós fomos atingidos. — disse ela meio grogue — Uma droga tranquilizante que virou mania entre as facções americanas pra capturar caçadores. O efeito tá passando...



— Isso é bom. — disse um vampiro careca com tatuagens na cabeça — A chefia tá louquinha pra trocar uma ideia com vocês.



Dois vampiros entravam acompanhados de uma jovem mulher loira de cabelos lisos com trancinhas laterais vindo quase atrás dele.



— Olha ela aí... — disse o vampiro careca.

— Já estão conscientes? — indagou ela.



— Acabaram de acordar.



— Pois bem... Vamos começar o jogo. — disse ela se aproximando mais da luz — Se me dissessem bem antes que uma liga de caçadores liderada por Frank Montgrow estaria vindo, eu teria montado um esquema de segurança mais sofisticado. 



— Se alvejaram Frank... Por que me trazer junto?



— Te achamos uma baita gostosa. — disse um dos vampiros passando o dorso da mão no rosto de Natasha que logo retribuiu com uma mordida no dedo — Ah! Vadia... — deu-lhe uma bofetada sonora — Por favor, chefia, me deixa cravar meus dentes nela, tô desidratado só de olhar e desejar...



— Se contenha porque depois do ritual vamos nos fartar a valer.



— Não vai sacrificar uma criança inocente... — disse Frank.



— E quem vai me impedir? — disse a vampira se esclarecendo na face para Frank. Um rosto que ele reconheceu após alguns segundos de identificação seguida de espanto — E aí, Frank? Lembra de mim?



— Eileen? — disse Frank, rememorando flashes da antiga médica legista do DPDC.



— Conhece ela? — perguntou Natasha.



— Trabalhava de legista no DPDC. 



— Frank e eu fomos bons colegas até o dia em que tive minha vida salva por ele. — disse Eileen inclinando-se a ele — Inclusive, sou muito grata. — falou ao pé do ouvido, as presas crescendo.



— Sai fora que não gosto de bafo de vampiro no meu cangote. Você sumiu quando marcamos de sair juntos depois de se livrar do Peste Sombria.



— Então viraram bem mais que colegas, pularam um nível. — disse Natasha.



— Não, íamos sair com o pessoal do trabalho.



— Depois que o Rogger morreu e de ter passado por aquela experiência bizarra, senti que Danverous City era perigosa demais pra uma vida como a minha se refazer. Larguei a criminalística para fazer o outro papel que dava sentido de existência a ela. Conheci um cara novo... e tudo mudou de uma forma épica.



— Onde foi parar aquela garota meiga e dedicada? — questionou Frank.



— Muita coisa acontece em quatro anos. Me tornar vampira fez renascer meu apetite pela vida.



— E bota apetite nisso. — insultou Frank.



— Chega de papo, o sol vai se extinguir logo mais e os vampiros reinarão em absoluto comigo sendo coroada em breve.



— Eileen, é só um bebezinho, não tem nem um mês... — implorava Frank.



— Requisito indispensável, lamento se isso te comove, Frank. Nos vemos depois. Vigiem eles.



Eileen saía da sala como se desiflasse numa passarela de modelo. Paralelamente, Chernobog e Zaratro cruzavam uma mata chegando a uma área aberta com uma trilha de terra.



— Aqui neste território está perfeito. — avaliou Chernobog — Inicie.



— Agora mesmo, milorde. — atendeu Zaratro dando alguns passos adiante com o Necronomicon aberto na última página. O bruxo proferiu as palavras requeridas naquela primeira etapa. Logo, uma estrutura parecida com um púlpito emergiu do solo diante deles. 



Na parte superior havia uma grade de quadrados com runas necronomianas entalhadas e brilhando em vermelho. Zaratro tocou em três delas como se digitasse um código. Um tremor sacudiu a área. Depois, uma gigantesca muralha subia da terra com duas portas de ferro. Uma outra combinação de ruas foi ativada, fazendo-as abrirem. Chernobog aproximava-se fascinado.



No DPLA, Eileen entrava na sala de interrogatório cravando os olhos em Hope que colocou Fred Jr. de volta no berço.



— Pegue. — disse a vampira deixando um grande um livro de capa preta descascada sobre a mesa.



— O que é isso?

— Que tipo de demônio não sabe o que é um grimório?



— Do tipo que nunca viu ou tocou em um.



— Vai dizer que não sabe executar magia pra salvar a pele do seu filhinho? Estranha essa afetividade.



— Ele não é meu. Mas saiba que a mãe dele o ama muito que seria capaz de exterminar todos vocês.



— Então espero ansiosamente por ela. Apresse-se, o feitiço está na página 135. E traga o bebê quando eu chamar. — disse Eileen que logo saíra da sala. 



Na casa da floresta, Lilith enfim detectara o paradeiro de Fred Jr. através de um feitiço. Um punhado de demônios leais a ela aguardava sua resposta.



— Já o achei. — disse ela, voltando-se a eles — Quem me acompanhar significa que se importa sobre o quanto me destruiria se eu perdesse um filho que verdadeiramente amo.



Aélis se manifestou.



— Sabe que iremos a qualquer lugar com e por você. Vida longa a rainha.



Limite esboçou um sorriso de satisfação. 



— Então... vamos arrancar umas cabeças de vampiros.



No cativeiro de Frank e Natasha, um ser invisível arrombara a porta e dera uma surra nos vampiros postos de vigia, petrificando-os por fim. Libertara ambos rapidamente.



— Nathan? — indagou Frank tirando o resto de fita adesiva. O híbrido tornou-se visível.



— Tcharam. Me agradeçam depois, temos que ir depressa. Dynno e os outros estão cuidando de escoltar os reféns até a saída.



— E a Miyako? — indagou Natasha.



— Detonando uns vampiros bem aqui no corredor.



— Descobriu habilidade nova, foi? Tá aí que eu gostei. — disse Frank.



— Clichê, mas bem útil. — comentou Natasha.



— Foi assim que salvei a Carrie há duas semanas. — revelou ele para orgulho do pai. 



A hora do ritual se aproximava bem como a da morte solar. O astro-rei se via já como um ínfimo ponto rubro rosado no céu gerando comoção mundial com a contagem regressiva nos telões.



Um subalterno de Eileen veio avisar Hope somente abrindo a porta da sala.



— Venha, iremos começar. Traga o bebê. 



— Mas ele tá quase pegando no sono... 



— A chefia quer agora. Anda logo.



Após o vampiro sair, Hope olhou para Fred Jr. com certa tristeza. O bebê gemia sonolento e aconchegado no berço.



— Vem... — disse Hope retirando-o com os membros agitados e emitindo sons de aflição — Vamos dar uma volta. — andou rumo a porta, o bebê soltando seu grito de choro.



Lilith e seus parceiros surgiam no saguão do prédio investindo furiosamente contra os vampiros. A demônia ouvira o choro de Fred Jr., correndo até as escadas.



— Droga de supressores.



O ritual ocorria na ampla sala de reuniões com vários dos subordiandoa de Eileen testemunhando a ascensão da baronesa. A vampira segurava uma adaga piramidal olhando Fred Jr. chorar estridente sobre a mesa meio enrolado com alguns cobertas. Hope recitava o feitiço cerimonial do sacrifício com um grimório num púlpito. A ansiedade fazia os vampiros suspirarem excitados.



Eileen brandiu a adaga apontada para Fred Jr. que não calava o choro como se gritasse por socorro. Olhou fixa e seriamente para o bebê, uma frieza crua e dolosa. Enfim, calara aquele choro ao fincar a adaga no coraçãozinho, que antes batia tão acelerado, chegando a girar a lâmina com força. Hope havia virado o rosto.

Lilith invadira no instante em que a adaga foi removida, o sangue respingando no ar. Encarou o momento como se ele corresse em câmera lenta. Sua força se converteu em gritar enfurecida, ajoelhando-se com as mãos abertas. A medida que o grito prosseguia, o rosto demoníaco de pele branca com dentes e olhos negros tomava a face. Tamanha fúria que descarregou um poder mortífero sobre os vampiros que tiveram suas cabeças explodidas ao mesmo tempo. Hope estava abaixada sentindo a sala tremer com o urro de Lilith.



Eileen encarou sua algoz sorrindo de canto em desfaçatez.



— Você é a mamãe? Que pena ter perdido tempo pra se despedir, pois enquanto você gritava ele ainda estava agonizando.



A nova baronesa lambeu o sangue da adaga, logo erguendo a cabeça com os olhos focados no alto ao sentir-se entorpecida com o novo poder recebido.



— Meu filho será vingado com a sua cabeça na minha parede! — disse Lilith.



— Eu tô mesmo afim de testar minha nova força. — disse Eileen caminhando até ela — Vem cá.



Lilith avançou a agarrando, mas desaparecendo com ela em milissegundos. Minutos depois, Frank e os demais chegaram até lá armados com facões.



— Cacete... Esses vampiros aqui sofreram hein. — disse Frank.



— Não foram decapitados. — apontou Natasha.



— As cabeças estouraram que nem melancia. — confirmou o detetive.



— Pessoal... Olhem. — disse Nathan que avistou o corpo de Fred Jr. com o buraco sangrando no peito. Os olhos marejaram — Chegamos tarde.



— Ah não... — disse Frank entristecendo ao ver o bebê morto de olhos arregalados e a boca aberta salivando — Meu Deus... — as lágrimas brotaram.



— Aquela maldita... — disse Natasha, comovida — Juro pela minha alma que vou faze-la pagar.



Miyako se abalava em pranto.



— Não! — disse, abraçando-se a Frank desconfortada em olhar o cadáver.



— Nathan... Fecha os olhinhos dele. — pedira Frank, as lágrimas escorrendo.



O híbrido baixou as pálpebras do bebê, não contendo a emoção dolorosa.



Hope se levantou na intenção de escapar.



— Ei, você! Pare aí mesmo. — mandou Natasha.



— Por favor, não sou vampira! Fui a babá, trabalhei pra Lilith, mas forçada a ajudar aquela vadia em troca da minha liberdade.



— Não pode desfazer a ascensão da Eileen, mas pode desfazer a morte do neném. — disse Frank.



— Não posso, é sério. Foi minha primeira experiência como bruxa e quero fazer dela também a última. — disse Hope que virou-se para ir. Porém, Frank a agarrou pelo braço. A demônia se enervou o repelindo e derrubando com telecinesia — Não sou empregadinha de caçador!



Hope correu fugindo. Enquanto Frank levantava, Miyako, ainda arrasada, enrolou Fred Jr. nos panos sujos de sangue. Foram olhar pela janela.



— Esse... — disse Frank olhando o pequeno ponto vermelho — ... talvez seja o último por-do-sol que vemos.



No horizonte avistavam-se criaturas aladas, horrendas e vermelhas voando diretamente à Los Angeles... criaturas estas saídas do purgatório mais abominável que existia.



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*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

*Imagem retirada de: https://pixabay.com/pt/photos/raio-vermelho-energia-eletricidade-572494/

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