Os olhos de íris azuladas dos vampiros encaravam fixamente a extinção da luz, seja nas ruas ou acima dos prédios para ter vista privilegiada. As bocas ensanguentadas salivavam de expectativa, a sede entorpecedora atiçando o instinto mais selvagem da espécie. O astro-rei se mitigava, um triste ponto vermelho num horizonte rosa-escarlate que era tomado pelo breu celeste. Eileen bem que gostaria de estar contemplado tal espetáculo, mas se ocupava se atracando com Lilith num embate furioso.
A demônia usava suas garras em golpes que eram desviados habilmente por Eileen com sua agilidade e reflexos ampliados por sua condição de baronesa recém-adquirida. A vampira a chutou fortíssimo contra a parede, mas Lilith surgiu atrás dela em teleporte a imobilizando pelo pescoço e o quebrando em seguida. Eileen caiu de frente, dura como pedra.
— Engraçado como osso de vampiro quebra tão fácil, faz um som que é música pros ouvidos. — disse Lilith que virou de costas e saiu andando até o elevador aberto. Porém, Eileen reergueu-se subitamente e em supervelocidade avançou, logo empurrando-a para dentro da cabine.
— Não faz ideia do quão forte me tornei pra ganhar de alguém como você!
— Vem me pegar, se puder! — disse Lilith apertando botões do elevador cujas portas fecharam-se antes que Eileen alcançasse.
— Tá fugindo por que? É pra me testar? Eu espero que sim! Não me fortaleci tanto pra lutar com covardes!— disse Eileen que empreendeu força máxima para abrir as portas facilmente. Viu o elevador descendo e pulou no poço, pousando no teto do qual arrancou uma parte. Entrou chutando Lilith com os dois pés. As duas novamente se atracaram. Lilith tentava afundar seus dedos nos olhos da vampira que impedia movendo a cabeça enquanto fazia arranhões na face da demônia que logo desapareceu.
— Sua vagabunda covarde! Aparece!
Lilith reapareceu sobre o teto, cortando imediatamente o cabo de sustentação. O elevador sofria a queda vertiginosamente mortal até o térreo. Eileen tentava de equilibrar no cubículo que tremia e balançava, flexionando as pernas e executando um impulso que a fez pular destruindo o resto do teto. O salto reto parecia um voo superveloz. Pegara Lilith que havia se segurado no cabo e a manteve agarrada até retornarem ao andar onde estavam. Rolaram no chão até que Lilith a chutou contra o teto mostrando seu rosto demoníaco.
Eileen voltou ao chão numa posição animalesca, logo avançando super-rápido para tascar uma mordida profunda no pescoço de Lilith. A demônia a tirou puxando pelos cabelos e por batera a cabeça da vampira contra uma coluna repetidamente. Em revide, Eileen pegara o extintor de incêndio antes fixado aquela coluna e o bateu forte no rosto de Lilith.
— Agradeça pelos supressores! São eles que me impedem de te rasgar em pedaços!
Eileen seguiu batendo o cilindro vermelho contra Lilith nos dois lados do rosto.
— Por que não vai enterrar seu filhote e me deixa em paz? Eu tô perdendo um momento histórico!
Antes do próximo golpe, Lilith bloqueou cravando suas garras no cilindro e o derrubou, a fumaça do extintor vazando abundantemente.
— Você me lembrou dos limitadores instalados nessa pocilga. — disse Eileen recuando devagar — Que graça tem lutar com nossas forças reduzidas, né? Você acabou de dar a minha deixa!
A vampira usou o conteúdo do extintor como cortina de fumaça para escapar em velocidade sobrenatural. Lilith a procurava obstinada, tentando dissipar o vapor branco, mas deu-se conta dela ter se retirado.
— Quem é a covarde agora, queridinha? — disse a demônia, sentindo ter ganho a luta pelo recuo da oponente.
A líder vampírica chegava a uma sala com janela panorâmica e observou o findar do sol chegando a tempo.
— Que a era dos mosntros comece!
Na sala de reuniões, Frank e os demais se planejavam.
— Como estão em maior número, por enquanto, vamos nos concentrar no exército de chupa-sangue. — definiu o detetive — Natasha e eu vamos atrás da Eileen enquanto vocês dois dão um jeito de manter... — pausou, o coração apertando ao olhar tristemente para Fred Jr. morto nos braços de Miyako —... o cadáver do neném em segurança. Sendo a Agnes a bruxa mais poderosa que conhecemos, ela é nossa única salvação pra trazer o Fred Jr. de volta.
— Mas... não seria mais seguro esperarmos Jack enfiar aquela espada no Chernobog pra depois consultarmos alguma força celestial que possa fazer isso mais simples? — sugeriu Nathan — Ressuscitar pessoas ainda é proibido. Vamos estar condenando o Fred Jr. ao Limbo.
— Putz, nem lembrava que era uma das infrações universais. É, não tem jeito, mas a ESP tem que se apressar na carona pro Jack até a catedral.
— Verdade, o corpo de um bebê recém-nascido se decompõe mais rápido, em poucas horas. — reforçou Natasha — Frank, a vadia é toda minha.
— Não, sem exclusividade só porque você caça vampiros e agora tem um barão a solta. É meu sobrinho, faremos justiça por ele juntos.
Miyako ainda chorava de soluçar com a morte de Fred Jr. sendo amparada por Nathan
— Isso não é justo. — lamentava ela — Por que tinha que ser assim? Por que?
— Calma, calma... — disse Nathan abraçando-a de lado — Vai ficar tudo bem. Ele só tá dormindo. — falou o híbrido, a voz embargada.
— Vejam... — apontou Natasha para a janela — Serão os espectros querendo revanche?
Frank se aproximava estreitando os olhos para visualizar melhor apesar da escuridão absoluta estar se totalizando. Avistou criaturas voando como morcegos numa revoada numerosa.
— Todo mundo pro chão, agora! — bradou Frank que logo correu se escondendo embaixo da mesa. Natasha e Nathan o fizeram. Miyako tomou cuidado ao se abaixar segurando o corpinho ensanguentado de Fred Jr., ficando sob a mesa. A horda de seres do Limbo chegava ao centro de Los Angeles e passou avassaladora pelo prédio do DPLA, quebrando vidraças de janelas. Cerca de cinco atravessaram a sala de reuniões.
— Acho que passaram todos. — disse Frank olhando em volta — Vamos nessa, cair fora daqui e ir atrás da Eileen. Vambora.
Os quatro foram correndo até a porta, porém uma espécie de língua desceu do teto, grudando em Fred Jr. e o tomando dos braços de Miyako. O órgão pertencia a uma criatura que ficou por ali, semelhante a um pterodactilo tendo uma pele aparentemente carne viva num tom de vermelho bastante intenso.
— Não! — gritou Miyako desesperada com o perigo do bebê ser devorado. Frank rapidamente sacou uma lista de grosso calibre e abriu fogo implacável. A criatura largou o bebê e caiu entre as cadeiras se debatendo na parede. O cadáver de Fred Jr. caiu ao chão, mas próximo o suficiente do monstro para ser novamente apanhado. A criatura voraz, sua boca jurássica repleta de dentes finos e pontiagudos, tentou fazê-lo, se arrastando ferida, mas Frank barrou seu caminho disparando seis vezes na cabeça.
Miyako recolheu o cadáver do bebê, aninhando-o nos braços aflita.
— Frank, checou se o matou? — indagou Natasha, incerta da morte da criatura.
— Sim, tá mortinho. — confirmou Frank a chutando de leve — São ferozes, mas bem vulneráveis.
— Essa coisa veio do Limbo, reconheci de cara. — disse Nathan.
— O portão foi aberto. Vamos antes que mais outros desses dinossauros apareçam no caminho.
Ciente da passagem dos seres nativos do Limbo, Hoeckler reunia três conselheiros-sênior da fundação numa sala de paredes negras e iluminada por uma pálida luz meio azulada.
— Concentrem-se. — orientava Hoeckler usando seu habitual terno azul índigo com gravata vermelha — Permitam que eles acessem o íntimo de suas almas para que o elo se estabeleça o mais firmemente.
Os conselheiros, dois homens e uma mulher, estavam dispostos em triângulo diante das células-matriz que comprovava as entidades regentes do misterioso Antiverso em seus slots de armazenamento onde se encaixavam naquele ambiente criado adequadamente para salvaguarda-las.
— Você nos assegurou de que poderíamos nos libertar quando quiséssemos. — disse a conselheira da ESP, uma mulher de quase sessenta anos e cabelos castanhos com uma franja — Temos essa garantia ou não?
— Dou minha palavra. Eles atenderão meu pedido.
— E quando foi que cumpriu com sua palavra nesta vida, Theodor? — questionou um dos conselheiros — Pelo que nos constam, você sempre usou como instrumento aqueles de quem pretendia se desfazer.
— Há um abismo entre o homem que fui ontem e o que sou hoje. — declarou o chefe da fundação — Eu não premeditei uma sabotagem. Vocês são os mais competentes de que tenho conhecimento. Por isso os escolhi.
— Está morrendo? — indagou o outro — Câncer terminal? Quanto tempo lhe resta até o mundo virar uma terra de ninguém?
— Eu não estou fazendo isso pra me redimir dos meus erros, pois disso eu já cuidei. Tudo que preciso é que confiem em mim. Aliás, confiem neles.
O trio fechou os olhos deixando serem possuídos pelas entidades ao tocarem nas células com as duas mãos. Os casulos emitiram brilhos nas suas respectivas cores - azul, vermelho e verde. Em seguida, os conselheiros reabriram os olhos, estes brilhando por inteiro.
— Diga-nos sua necessidade. — falou Abosmath, a luz azul.
— Estamos cientes da atividade constante de Chernobog ainda que enclausurados. — disse Sephirath, a luz verde.
— Não temos obrigatoriedade de atender a desejos materiais e egoicos de insetos como você. — disse Keternath, a luz vermelha, possuindo a conselheira.
— Mas teremos o bom grado de prestar nossa longânima caridade se for unicamente em detrimento de Chernobog. — ressaltou Sephirath.
— Está bem. — disse Hoeckler, um tanto nervoso — Meu desejo não visa beneficiar somente a mim. Eu sei que possuem uma visão macro de tudo o que vem ocorrendo. As criaturas oriundas do Limbo... os filhos de Khaleido... estão se propagando a uma determinada área. Se pudessem... erguer um muro, uma barreira que consiga impedi-los de cruzar as fronteiras...
— Ele parece duvidar da nossa amplitude existencial. — disse Keternath.
— Discordo. — disse Abosmath — Ele está fragilizado espiritualmente, mas inclina sua fé a nós. Atenderemos sua súplica. Então Khaleido e Chernobog estão pactuados. Era de se esperar, aquele tolo foi o único a contestar a sentença condenatória.
— Estão todos de acordo? Keternath? — indagou Sephirath.
— Embora estejamos presos a esses invólucros degradáveis, é de dois irmãos renegados que estamos falando. Eu não facilitarei seus esforços de sobrepujar a justiça de Belobog.
No prédio do DPLA, Frank recebia a notícia por Carrie no celular, andando por um corredor às pressas ao lado de Natasha após deixarem Nathan e Miyako seguirem sozinhos.
— Uma redoma? Em toda Los Angeles?
Aquilo chamou a atenção da caçadora que o olhou curiosíssima.
— Tá certo, diz pro Hoeckler que agradeço por ter lembrado do trio parada dura alienígena. Falou, tchau. — dizia Frank que logo encerrou a chamada.
— Frank, que história é essa de redoma isolando a cidade?
— A história pra explicar isso é longa pra cacete, mas pra tranquilizar... Essa redoma é de alta qualidade pra frear os imigrantes ilegais. Los Angeles virou a alfândega que vai barra-los.
O detetive seguiu na frente, mas Natasha permaneceu intrigada.
— Mas alienígenas? Eles existem?
A dupla enfim adentrava na sala onde viram Eileen observando o ápice do crepúsculo pela janela, excitada e altiva. Uma grande parte da comunidade vampírica aguardava os segundos restantes para a última réstia de solar. Quando a contagem regressiva chegou a zero e a fina brecha de luz se fechou, dando lugar ao cair total da escuridão, os sanguessugas vibraram de comemoração em gritos a plenos pulmões enquanto correram em ataque as forças da ESP como vespas saindo do criadouro.
— Chegaram tarde pra contemplar o por-do-sol mais belo da história. — disse Eileen virando-se para Frank e Natasha — Só vocês? Eu não valho apenas por dois caçadores.
— Podemos ser dois gatos pingados... — disse Frank destacando seu facão — Mas valemos por cem vampiros.
Eileen sentiu-se desafiada e avançou, mas recebeu uma chuva de balas de prata por Natasha que a fez recuar uns passos.
— Vamos aproveitar que você ainda tá em transição de baronesa pra explorar suas fraquezas exatamente como elas são. — disse a caça-vampiros. Eileen abriu a boca mostrando as presas e os olhos azuis, pulando sobre Frank qie bateu as costas na mesa. O detetive a chutou e brandiu o facão, mas a vampira o agarrou nos ombros, jogando-o contra a parede ao lado. Natasha veio usando golpes de sua espada de prata, mas Eileen esquivava, logo a pegando pelo braço e a virando contra uma mesa de vidro violentamente.
Frank avançou ameaçando decapita-la, mas a vampira o desarmou num chute com giro, depois dando uma bofetada. Frank iria desferir um golpe, mas a líder vampírica velozmente o virou de costas agarrando os braços e o prendendo colado a parede.
— Hora da degustação. — disse Eileen crescendo suas presas, logo cravando-as no pescoço de Frank vorazmente. Mas a vampira tiveram seu cabelo puxado por Natasha atrás dela, interrompendo a refeição. Eileen revidou numa cabeçada, mas foi agarrada por Frank. A vampira pisará em seu pé, logo o derrubando com um empurrão. Achou uma barra de aço pontuda no chão. Apanhou e a mirou em Frank.
— Eileen, você tinha aquele jeitinho doce, meigo... certinho... mas eu devia ter aberto meus olhos desde que você usou um cupido pra enfeitiçar a mim e a Carrie pra salvar a vida do seu namorado sem se importar que fôssemos morrer no processo. Toda essa maldade que você exala agora... já havia dentro de você.
— Devia me deixar morder você um pouco mais. O vampirismo desperta partes suas que você nem imaginava que existia. A mim... foi uma autodescoberta completa e o ritual somente elevou isso a um outro nível. Lamento que você não viva pra experimentar essa dádiva.
— Não... Lamente por você mesma. — disse Frank.
Eileen fora muito bem distraída. A vampira tivera sua cabeça decepada por Natasha con sua espada prateada.
— Essa foi pelo bebê. Vadia. — disse Natasha que dera uma cuspida. Frank levantou-se.
— Se tivesse pior que eu, não teria ficado no chão esperando você agir. Essa espada é da boa hein.
— Por falar em espada... Melhor irmos ver como anda lá embaixo a situação do Jack. Espera... E esse rombo no seu pescoço?
— Não, tô de boa, ela só deu uma chupada. — amenizou Frank cobrindo a ferida da mordida com a gola do sobretudo.
— Tem certeza? Sentiu as presas cravando fundo na sua veia?
— Acredita, eu não me sinto estranho. Ela apenas bebeu.
— Ótimo, pois se ainda quiser ter um filho com a Lucy é bom mesmo que continue assim.
— Tá legal, vamos lá pro térreo. — disse Frank andando para sair da sala — O Nathan protege a Miyako enquanto ela protege o corpo do bebê.
— Será que o Dynno e os outros despacharam todos os reféns? — indagou Natasha seguindo-o pelo corredor e limpando a espada no seu casaco preto-azulado de couro
— Eles não entraram mais em contato... Mas não deve ter acontecido nada grave. Vem, vem, depressa, vamos! — disse Frank acelerando.
Escolhendo a casa da floresta como um porto seguro para o Necronomicon, Chernobog adentrou destruindo a porta que foi arremessada com telecinesia. Trazia Dante acordado, mas aconchegado emitindo curtos gemidos estando nos braços do corpo que foi de seu pai. Explorou a casa mais adiante com curiosidade, o vento soprando forte pelas janelas.
— Aqui está adequado. — disse ele encontrando o quarto no qual se viam a cama de casal e o berço — Acho que está no seu período de descanso. — percebera vendo Dante bocejar longamente. Pusera o bebê no berço, porém ele soltara gemidos que prenunciavam um choro persistente para permanecer no colo, fazendo o típico biquinho — Relaxe, não quero que me aborreça com seu pranto insuportável. — num simples mover de mão, o fizera cair no sono instantaneamente — Me será útil mais tarde.
Abrira o grimório bem na página do feitiço de invocação definitiva a Khaleido e o fez levitar próximo da cama. Com os olhos fechados, estendeu a mão direita frente ao livro e começara a pronunciar as palavras corretas de conjuração no dialeto registrado. Com o avanço da mágica sombria avançada, o grimório passou a ser envolvido por uma aura escarlate misturada a energia umbral emanada do próprio, os caracteres progressivamente se preenchendo de luz vermelha. Um tremor se acentuava, não arriscando, todavia, despertar Dante de sua profunda soneca relaxante.
Chernobog elevava o tom de voz nas repetições até o limite determinado para chamar por seu irmão que, num evento sem precedentes, movia seus tentáculos robustos e negros, de ventosas brilhantes e piscantes, atravessando um portal nas nuvens tempestuosas num formato de disco. Um abismo celeste sobre o terrestre onde um dia fora conhecido como Danverous City.
Os tentáculos desciam balançando rumo à imensidão de trevas da cratera visando alcançar uma profundidade desconhecida.
***
A van que conduzia Jack - utilizando como seu novo corpo uma armadura medieval de cavaleiro com capa - cruzava a rua do centro de Los Angeles em que localizava-se o prédio do DPLA a alguns metros. O veículo, com seus faróis ligados, passava desviando de obstáculos como carros e ônibus virados e incendiando. Dentro, Jack incomodava-se com o balançar constante dada a velocidade.
— Ei, excesso de velocidade pode causar acidentes, sabiam? — reclamou, segurando em alças. A espada ia e voltava no chão, seu portador parando-a com o pé — Fica aqui, espadinha! Não saia de perto do papai.
Repentinamente, um enxame de morcegos viera seguindo a van e a cercou rapidamente, bloqueando a visibilidade.
— Merda, agora apareceu esse monte de morcegos! — disse o agente da ESP que dirigia. Ligou os limpadores de parabrisa, afastando-os.
— Não são morcegos! — disse o companheiro detectando assinatura paranormal no seu leitor.
O enxame se movia batendo fortemente no veículo que ziguezagueava freneticamente. Vários deles quebraram os vidros das portas, invadindo e atacando a dupla de agentes, fazendo perder-se o controle da direção. A van bateu numa das barricadas criadas pela polícia e capotou sucessivas vezes até parar proxima ao prédio do departamento policial. Jack acabou criando para fora com o abrir das portas devido ao acidente e rolou pelo chão. Os morcegos se dirigiram para o prédio quebrando vidraças.
— Ah, tá enganado se pensa que vai se esconder! — disse Jack que levantou-se e apanhou a Flamígera. Correu para dentro do edifício cujas portas da frente foram destruídas.
Enquanto isso, Miyako se refugiou num banheiro com uma luz precariamente acesa e foi para se fechou num box com o cadáver de Fred Jr. no colo. Seu abalo emocional permanecia inalterado. Arriscou dar uma olhada, retirando parte do pano sujo. Fred Jr. estava pálido e com os lábios arroxeando na boquinha aberta com a língua para fora.
— A sua vida não acabou desse jeito. Vamos te trazer de volta, anjinho. Eu prometo. — disse ela tocando na bochecha não mais corada, sentindo a pele gélida. Respirou fundo de olhos fechados, logo cobrindo novamente o rostinho do bebê.
Nathan enfrentava vampiros no corredor, socando e chutando todos que se aproximavam.
— Você não bate como um humano! — disse um dos vampiros com a boca suja de sangue, mas do próprio sangue. Mostrou as presas selvagemente.
— É porque não sou um. — respondeu Nathan, os olhos logo brilhando em vermelho, petrificando o vampiro antes dele avançar. O híbrido chutou a estátua, quebrando-a em múltiplos pedaços juntando-se as dos demais sanguessugas também destroçadas — Se meteram com o caçador errado, idiotas.
Os morcegos desceram até o amplo saguão de luzes acesas e se amontoavam dando forma a uma figura humanoide dos pés a cabeça. Não era ninguém menos que Zaratro se reconstituindo após se subdividir. O bruxo se completou, os braços abertos numa postura triunfante, seu manto negro com capuz evidenciando o temor que transmitia.
— Frank, apareça! Sei que resolveu fugir até aqui para proteger sua estimada arma celestial!
O detetive chegava ao saguão acompanhado de Natasha. Ambos pararam ao vê-lo.
— Aí está você! O que me diz de um último duelo? Veremos se maneja a espada pomposa dos anjos com maestria.
— Ele é todo seu. — disse Natasha ao detetive. Dynno finalmente comunicava-se. A dupla tocou nos pontos eletrônicos nos ouvidos.
— Fala, Dynno! Ainda estamos aqui no DPLA. — informou Frank.
— Como é que é?! Já cuidamos dos reféns e saímos faz uns quinze minutos! Estamos conduzindo alguns pra abrigos seguros, outros foram encaminhados pro hospital, muitos mordidos pelos desgraçados! Cara, Los Angeles virou uma terra selvagem, os monstros decretaram estado de sítio, tá tudo dominado!
— Tem vampiros a torto e a direito por aqui, não vamos sair enquanto não tivermos dizimado todos. Mas já liquidamos com a líder da facção. O pior mesmo são as criaturas do Limbo, já estão pintando o sete!
Dynno freou bruscamente ao ver os seres dantescos voando pelas esquinas.
— Chamem a segurança, parece que abriram as portas do Jurassic Park! — disse ele, atônito, dando a marcha ré — Caraca, que bichos são esses?! Vou tentar um atalho! Depois que deixarmos essas pessoas seguras, vamos até o perímetro que a polícia e a galera da ESP criou pra formar um bloqueio que impeça os vampiros de chegarem na usina de força pra causar um blecaute geral! Mas vocês devem sair daí já!
— Por que? Tem vampiros e seres do Limbo espalhados por toda parte pra eliminarmos. — disse Natasha.
— Armamos explosivos em todo o prédio! Vão explodir dentro de... — disse Dynno conferindo no seu celular — ... dez minutos! Vocês tem até dez minutos pra caírem fora antes da implosão!
— Vou avisar a Miyako e o Nathan. — disse Natasha que disparou no trajeto de volta.
— Agora que encerrou sua falação irritante com seus amigos, podemos retomar nosso embate. — disse Zaratro — Mostre-me a espada e seu sacro fogo!
— A espada não tá comigo. O cara certo não sou eu.
— Como não? Era você naquele transportador, não era? Você é o guerreiro potencial que os anjos contemplavam! Não faça joguinhos comigo!
— Não será eu quem vai te dar uma bicuda com a Flamígera, não sou digno dela. Mas ele é.
Zaratro virou-se deparando com Jack empunhando a espada atrás dele.
— Então é você o safado que me incumbiram de transformar em churrasquinho. — disse Jack, a espada logo incendiando — Vixe, acendimento automático, gostei!
— Não, Jack, esse daí não é o Chernobog! — avisou Frank — É o mordomo dele, mas tá mais pra cachorrinho que só come dos farelos. Ah, e gostei do novo visual, lembra muito aquele dia.
— Pois é, parei pra dar um trato e ficar em forma. O de hoje tá pago. — disse Jack se aproximando de Zaratro — Então você é só o serviçal ou o bobo da corte? De qualquer forma, tô vendo que vai ser moleza.
— Isso é algum tipo de piada?! — disse Zaratro sentindo-se ultrajado. O bruxo estendeu a mão direita para Jack que parou largando a espada. Colocou as mãos na cabeça como se sofresse uma dor terrivelmente aguda, caindo de joelhos.
— Aaaaaahh! Socorro, faz isso parar! Frank...
Zaratro fechara rápido a mão, logo a cabeça de abóbora de Jack explodindo em vários pedaços.
— Jack! — berrou Frank, aturdido. Antes que corresse para ajuda-lo, Zaratro o empurrou com telecinesia contra uma coluna o imobilizando.
A alma de Jack escapou pairando no ar como uma nuvem pequena de energia amarela. Porém, Zaratro a travou com sua energia umbral, reduzindo-a ao absoluto nada.
— Nããããooo! — gritara Frank, inconformado.
— Era esse sujeito jocoso que escolheu como favorito a brandir a espada celestial contra meu mestre?! Se isso me envergonha, imagine seus amigos anjos vendo isso! — disse Zaratro que o lançou violento ao chão perto da Flamígera — Agora pegue essa espada e enfrente-me!
Frank tocou na empunhadura, chegando até a cogitar fazer o juramento, porém voltara atrás ao lembrar que o feitiço de Agnes expirou.
— Levante-se, Frank, e teste a si mesmo! Ou está com medo da incerteza de sua dignidade?
— E daí se eu estiver? Por aqueles que eu amo, arrisco minha vida se for pra tê-los comigo! — rebateu Frank, levantando-se com a espada.
— Nunca saberá a resposta se persistir nesse sentimentalismo incapacitante. Então que seja sem sabê-la! — disse Zaratro criando uma esfera umbral que pretendia arremessar contra o detetive. Porém, um raio púrpura escuro o atingiu vidno da esquerda, lançando-o ao chão.
— Agnes! — disse Frank — Chegou em boa hora.
— Frank, fuja daqui com a espada. — disse Agnes, vestindo o mesmo traje roxo que usara na ocasião em que enfrentou Zaratro no prédio do Conselho de Segurança em Danverous City. A bruxa baixou os olhos para o corpo que Jack usava — Pelo visto, o seu campeão não teve nenhuma sorte. Eu lamento por ele.
— Que maravilha, acabou de chegar a minha velha aprendiz para servir de escudo ao descendente de Orion! — disse Zaratro levantando-se — Ou será que veio recair no mesmo erro? Não esperaria menos de você.
— Garanto que desta vez não será um erro. — afirmou Agnes, a autoconfiança pulsando da face com sorriso de canto.
Bruxas e bruxos pertencentes convenção necronomiana surgiam como fantasmas cercando Zaratro. Frank foi afastando-se, surpreendido pela quantidade trazida por Agnes que recitava quase que em sussurros o feitiço de drenagem mágica juntamente com seus confraternos em coro fechando o cerco em torno do bruxo. Os olhos de Agnes brilhavam em púrpura vibrantemente.
— Não! Parem, seus impertinentes! — vociferava Zaratro vendo buracos abrirem-se pelo corpo, nas pernas e nos braços pelos quais saía uma fumaça com uma luz arroxeada tremendo e subindo em ajuntamento — Sua herege, eu juro que a farei pagar! Todos vocês pagarão!
Zaratro caía ajoelhando-se sentindo a magia ser drenada de todos os poros. A nuvem de fumaça crescia acima dele relampejando. A drenagem consequentemente fazia sua pele branca como cal retornar a tonalidade morena de origem. O bruxo caiu de frente após seu corpo ser sugado até a partícula de magia concentrada na nuvem que foi alçada pelo grupo. Miyako e Nathan passam por um corredor, mas pararam ao ver a nuvem subindo e atravessando depressa do chão ao teto.
— Nossa, o que foi aquilo? — indagou Miyako.
— Parecia... Ah, esquece, não há tempo pra pensar, mas sim agir. Vem!
O híbrido correu pegado na mão de sua amada. Antes que dobrassem ao corredor da direita, Natasha surgia, dando-lhes um tremendo susto.
— Meu Deus! — disse Nathan com a arma apontada à caçadora — Quase puxei o gatilho! Natasha... Cadê o papai?
— Lá embaixo lidando com o subordinado do Chernobog. — disse ela, a fala rápida e o rosto bastante sujo de sangue respingado — Cortei umas cabeças pra chegar até aqui. Temos que fugir. Dynno entrou em contato.
— E o que ele disse? — indagou Miyako.
— O prédio vai ser implodido daqui há pouco.
A nuvem mística tinha uma rota traçada previamente, saindo do edifício e dirigindo-se como um tornado deitado até um apartamento. Nele encontravam-se dois bruxos aliados que juntos seguravam um grande e robusto jarro de cerâmica preto aberto. A magia adentrou no recipiente que foi selado com a tampa rapidamente.
— Caramba, já estavam todos aqui de prontidão? — perguntou Frank se aproximando de Agnes.
— Seguimos a assinatura mística de Zaratro conforme Theodor nos orientava. São apenas projeções astrais, estão reunidos no bunker.
— E pra onde mandaram a magia dele?
— Dois dos meus aprendizes usaram um prédio residencial para atrair a nuvem até uma ânfora enfeitiçada para sela-la. Uma vez tampada, a ânfora só liberta a magia caso seja quebrada.
— Nem pensa em quebrar se deixando levar pela sede de poder. Também cheguei a pensar que você faria aquilo de novo. Não pensou nisso, né?
— É errando que se aprende a acertar. E para mim uma única vez basta. — respondeu Agnes, sincera. Olhou para seus discípulos — Podem ir, me esperem voltar.
— Não é mais que nossa obrigação agora. — disse uma bruxa jovem de cabelos cacheados — A sua você já sabe. Volte com vida. A subsistência da irmandade depende disso.
A convenção desaparecia magicamente. As atenções de Agnes e Frank voltaram-se a um frágil e choroso Zaratro.
— E quanto a ele? Arrancaram toda a magia necronomiana, mas ele ainda é um bruxo.
— Não mais. — afirmou Agnes — Toda a mana que habitava em seu espírito foi drenada.
— Quer dizer então que... — disse Frank que se inclinou removendo o capuz do manto, expondo o rosto encharcado de lágrimas do bruxo — Ele é só um homenzinho chorão agora. Você falou em vergonha... Imagina o Chernobog olhando pra você nesse momento. — sacou uma pistola — Completamente inútil pra ele. — pressionou o cano na cabeça — De volta a estaca zero. Humano, de carne e osso, que nem eu. E que também sangra vermelho como todo mundo. Leva esse peso na consciência pra você carregar lá no inferno.
Atirou friamente, a bala fazendo um expressivo buraco saindo pela testa com o sangue esparramado no piso branco.
— Reunião urgente. Espero você e os outros no anfiteatro.
— OK, até porque temos uma missão importante a cumprir. Vou chamar o Adrael. — disse Frank que fechara os olhos — Adrael, dá um pulo aqui.
— Frank, cheguei. — disse o serafim aparecendo atrás dele — Este é o...
— Zaratro. Riscado da lista. Vai atrás da Natasha, da Miyako e do Nathan, traz eles pra cá. Faremos uma reunião no anfiteatro.
— Está bem. — disse o anjo logo teleportando-se. Alguns segundos depois, retornou trazendo-os.
— Pai, o que houve aqui? Por que tá com a espada? — perguntou Nathan que logo reparou na armadura de Jack largada com os pedaços da abóbora espalhados — Não pode ser...
— O Jack... — disse Natasha, sentida pela morte do decaído.
— Ele falhou. — declarou Frank pesaroso — Aliás, mal teve a chance de tentar.
— E agora? É sua vez de fazer o teste, pai, tem que ser você!
— O feitiço que anulava o castigo do fogo santo esgotou. — revelou Agnes.
— Não dá pra fazer de novo? — questionou Nathan.
— Infelizmente não, em um artefato de extremo poder como esse, é aplicável por uma só vez.
— Vamos resolver essa parada num lugar mais reservado. Esse lugar inteiro vai pelos ares.
As primeiras bombas já detonavam nos andares mais elevados estremecendo o térreo.
— Todos tocando no Adrael, agora! — mandou Frank que baixou sua mão ao ombro do anjo. Assim que todos o fizeram, o serafim os teleportou ao anfiteatro que estava as escuras, exceto no palco.
O prédio do DPLA sofria as desastrosas implosões que o demoliam em ágil ritmo. Os agentes da ESP nos arredores se afastaram léguas junto a policiais quando a estrutura cedeu inteiramente, gerando uma densa nuvem de poeira que se expandia.
Já na casa da floresta, Chernobog prosseguia se nutrindo do poder bruto de Dante, o feixe de luz amarelo saindo do peito do bebê diretamente a mão direita aberta da entidade. Até aquele instante tudo transcorria sem transtornos com o híbrido permanecendo dormindo. Porém, de repente, Dante despertou num choro soando como um grito agudo.
— Não pode ser... — disse Chernobog, atônito. Dante emanou sua aura dourada com o escudo vibratório que respondendo ao seu choro estridente desencadeou na onda psiconica que desestabilizou os querubins e ofanins caídos, ambos os grupos ainda na catedral preparando-se para guerrear. Os anos caídos foram sofrendo a tortura psíquica até que Chernobog desfizera a drenagem rapidamente ao ser minimamente afetado como da primeira vez.
Com o cessar brusco do processo, Dante caiu no berço, chorando mais intensamente com movimentos agitados de mãos e pernas, também pelo impacto das costas e da cabeça no colchão que certamente o havia assustado.
— A reação adversa retornou... Isso significa que Zaratro está morto, logo o feitiço de neutralização da dor se perdeu. Mas que lástima de perda... — disse Chernobog tentando controlar sua cólera e não desconta-la no bebê — Eles pagarão caro por me subtraírem meu melhor acólito. E agora? O que farei com você, pobre criatura indefesa e desprezível?
Olhou em volta e mirou sua atenção numa espécie de caixa de madeira perto do roupeiro, similar a um baú ou arca com madeira revestida em couro. Um dos pertences deixados pelos antigos moradores do local.
— Venha, vou mantê-lo em segurança, apesar de sua utilidade apagada. — disse Chernobog pegando o bebê híbrido no colo — Mas antes devo acalma-lo para que não propague sua onda psíquica e fragilize meu exército. — fizera o movimento de adormecer, porém Dante seguia desperto e chorando de soluçar — Provavelmente, o feitiço de inibição deixava você mais propenso ao adormecer forçado. O pior é que Zaratro era o único capaz desse encantamento, afinal ele próprio o criou!
Foi andando até o baú e levantou a tampa com telecinesia fazendo menção de depositar Dante dentro do recipiente. Mas o fitou brevemente.
— Eu podia despedaça-lo até sua alma ser consumida e reduzida a poeira estelar. Mas confio na sua boa-aventurança futura de modo que se curvará ao seu único deus, este que o carrega nos braços tão piedosamente quando poderia rasgar sua carne imatura neste exato momento. — dissera, logo o deixando no interior do baú. Fechou a tampa que abafou o choro inconsolável — Preciso fixar uma barreira neste invólucro que impeça sua manifestação de poder, bem como lhe provenha ar respirável.
Voltou-se ao Necronomicon, folheando algumas páginas na busca de um feitiço que torne um ambiente fechado e exíguo sem limitação de oxigênio combinado ao bloqueio de expansão da onda psíquica caso Dante explodisse sua aura conforme seu estado emocional. O uso dos feitiços não comprometeria em nada o andamento daquele que permitia Khaleido influenciar fisicamente no mundo terreno.
No anfiteatro, Nathan e Miyako se dirigiram a Agnes para encarecidamente fazerem um pedido.
— Agnes, poderíamos contar com sua magia pra trazê-lo de volta? — perguntou Nathan.
— Por favor, é só um bebezinho que foi usado num ritual maldito de sacrifício. — disse Miyako.
— Esse é um dos filhos de Fred? Nossa... — disse Agnes, surpresa ao ver a criança morta — Sinto muito que ele tenha tido esse destino. E sinto ainda mais por não poder fazer nada.
— Não pode ou não quer? — desafiou Nathan, exasperado.
— Ei, Nathan, segura a onda aí. — repreendeu Frank tocando no ombro — Se ela disse que não pode, talvez não seja mesmo possível, não pra ela.
— Frank, seu pescoço está ferido... — disse Adrael que imediatamente colocou uma mão sobre o ferimentos e o sarou com sua luz.
— Valeu, Adrael. Te devo essa.
— Não deve nada, nunca deveu. A única dívida que temos um com o outro é de mútua gratidão.
— Estão me pedindo pra efetivamente reviver um ser humano. A magia necronomiana é muito abrangente, mas não para burlar as leis universais. E também não usaria necromancia, muito menos numa criança de tão pouca idade.
— Mas você viajou no tempo com aquele feitiço. — disse Nathan, insistente.
— Não foi uma viagem temporal propriamente dita. — corrigiu Agnes — Lamento, não há como, por maior que seja o leque de opções da magia.
— Será que um anjo não poderia reviver alguém sem ser punido? — questionou Natasha.
— Para o nosso descontentamento, não. — disse Raziel aparecendo inesperadamente — A proibição de ressurreições permanece, isso é ainda mais passível de penalidade aos anjos.
— Eu vou te implorar... — disse Nathan aproximando-se do ofanim, comovido — Sei que pode fazer isso. Abre uma exceção, pelo menos pra ele.
Dynno e os demais caçadores chegavam e subiram no palco.
— Captamos sinais daqui. Nem imaginava que vieram pra cá. — disse o líder da Insurgência — O que é isso que a Miyako tá segurando?
— É um dos filhos que o Fred teve com a Lilith. — disse Frank, desalentado.
— Aquele que o Adrael trouxe hoje cedo? O meio a meio?
— Não, o humano. Sacrificado por vampiros.
— Oh meu Deus... — disse Dynno com dó — Coitadinho do neném... Mas pra quê fizeram essa atrocidade? Cadê o filho da puta do líder da facção?
— A líder, no caso. Já acabamos com a raça dela. Aliás, a Natasha é quem merece o crédito. A vagaba almejava virar a nova líder suprema dos vampiros. Mas acabamos com a festa dela.
— Não, Frank, nós dois juntos fizemos justiça, como você determinou. — dissera Natasha, modestamente.
Miyako ajoelhou-se diante de Raziel aos prantos.
— Eu suplico, por favor! Traz ele de volta.
Hoeckler e alguns agentes da ESP vinham chegando ao palco.
— O que está havendo aqui? — perguntou ele vendo Miyako curvada ante a Raziel.
Agnes contava tudo ao amado que se estarreceu com o trágico ocorrido. Raziel encarava Miyako condescendentemente. Levantou o rosto dela e enxugou suas lágrimas.
— Vejo que expressam um afeição muito grande por ele. Agora sabendo que a vida desse rebento foi ceifada tão cruelmente... posso me abrir a quebrar uma terceira regra. Uma vida tão precoce interrompida assim é por si só uma afronta a ordem natural, o que dá margem para restaura-la.
— Raziel, sabe que o entendimento da corte não é bem esse. — alertou Adrael — Não que eu concorde com as implicações de uma ressurreição, mas estará arriscando sua reputação que é uma das mais ilibadas.
— Eu já me autocondenei enviando humanos ao mundo celestial para reaver a Flamígera. Um outro crime não fará diferença alguma no que for acontecer a mim.
Carrie fazia uma chamada de vídeo para Natasha ficando a par. A caçadora mostrou o celular, a assistente na tela com os olhos molhados.
— Carrie tem algo a dizer.
— Raziel, seja piedoso. Você é um ofanim, sua misericórdia deve se espelhar na do Altíssimo. Revive esse anjinho, por favor.
— Eu o farei de muito bom grado.
Miyako levantou-se. O ofanim fechara os olhos numa expressão séria, baixando a mão direita sobre o corpo de Fred Jr., a luz dourada emanando da palma e envolvendo o bebê. A expectativa era partilhada entre todos ali, os olhos fixos no pequeno cadáver embrulhado no pano branco ensanguentado.
A luz angelical de Raziel se desfez e o ofanim reabria os olhos. Um silêncio perturbador se fizera.
— Acorde, pequena vida. — disse o anjo.
Miyako mudara drasticamente de semblante ao sentir a respiração do bebê retornando bem como os batimentos cardíacos. Fred Jr. logo foi emitindo seu choro que aumentava aos poucos, movendo os bracinhos, tendo o rosto descoberto por Miyako. O bebê chorava como se tivesse acabado de sair do útero.
Os caçadores e agentes suspiraram aliviados, alguns batendo palmas pela nobre ação. Frank não conteve uma lagrima que escorreu e um sorriso emotivo ao ver a felicidade compartilhada de Nathan e Miyako. Natasha a abraçou de lado, olhando afável para o bebê.
— Shhhh, calma, amorzinho, foi só um pesadelo. — dizia Miyako o balançando calmamente.
— Era assim que eu falava pra acalentar ele quando acordava chorando. — disse Lilith saindo das sombras dos bastidores do palco.
— Você... é a mãe dele?
— Eu fui. — disse ela que parecia tristemente decidida a algo. Voltou-se para Raziel — Acho que é uma boa hora pra engolir meu orgulho de demônio e... agradecer pelo que fez. Obrigada.
— Eu poderia rejeitar sua gratidão considerando sua impureza infernal. Mas... dada a circunstância, eu a aceito. Presumo que a vida maternal tenha sido corretiva, de certa forma.
— Os planos que tive com o Fred foram pra colocar minha vida num novo eixo. Ele me fez redescobrir a humanidade que eu havia perdido, ou pelo menos uma parte dela latente, me dando a chance de ser mãe. O Fred Jr. apenas fortaleceu esse sentimento. — declarou Lilith que virou-se emocionada para Miyako — Pode me dar ele? Esse choro com certeza é de muita fome.
— E de saudade também. Ainda mais depois desse sono bem profundo.
A caçadora entregou o bebê aos braços da demônia que deu a ele o seio, calando o choro.
— Cara, isso foi lindo demais. — disse Dynno, limpando lágrimas — O que tá olhando? Não posso me emocionar mais?
— Agora que o Fred Jr. renasceu, só resta nos preocuparmos em resgatar o Dante. — disse Frank.
— Mas ele não estava com os serafins? — indagou Lilith, afligindo-se — Adrael, ele era sua responsabilidade! Como isso aconteceu?
— O bruxo profano encontrou uma maneira de rapta-lo para devolver ao poder de Chernobog. Além disso, Dante despertou seu lado obscuro, a metade que carrega o seu sangue. Creio que por razão ele se expôs, estar fora do radar vem da sua essência angelical.
— Faz sentido. Nessa altura o trevoso deve estar se empanturrando do poder dele. — disse Frank.
— Vocês anjos precisam agir antes que ele acabe matando Dante de tanto sugar o poder até a última gota. — pressionou Lilith — O que ainda estão fazendo aqui?
— Estamos organizando nossas posições para deflagrar a guerra santa. — disse Adrael — Os querubins e ofanins caídos devem estar dando curso a isso neste exato momento.
— Guerra Santa? — quis saber Nathan.
— Um evento apoteótico tal qual o crepúsculo dos tempos. — disse Raziel — Mas não temos provisões suficientes para pravelecer, nossa desvantagem não é apenas numérica.
— Eu não diria isso com tanta certeza. — disse Lisbell vindo com seu pequeno grupo de bruxos.
— Lisbell?! — disse Frank meio surpreso — Reuniu sua antiga turma pra vir somar ao fronte?
— Não íamos ficar de braços cruzados achando que isso não nos interessa. — disse a bruxa.
— Os problemas dos caçadores agora são nossos também. — disse Naomi, amiga de Lisbell.
— Sabia que viria. — disse Agnes dando as mãos para sua aprendiz.
— Eu nunca perderia uma festinha dessas. O fim do mundo tem que ser vivido perigosamente.
— Espero que nós também não tenhamos sido esquecidos. — disse uma voz com a qual Frank era bastante familiarizado. O detetive virou-se olhando para uma área opaca do palco de onde vinha um jovem esguio, alto, caucasiano e de olhos hererocrômicos verde e azul.
— Não tô acreditando nisso... — disse Frank.
— Nem eu. — falou Carrie através da chamada de vídeo do celular de Natasha, chocada.
— Olá, Frank. Bom rever você. — disse Atticus, o esper mais poderoso que existiu.
— Mas... é o esper-X?! — disse Hoeckler, pasmo — Ressurgiu do Limbo junto com seus irmãos?
— Esqueceu que ele tinha criado uma dimensão exclusiva pós-morte pra espers? — relembrou Frank — Mas fiquei curioso. Você tá aqui como fantasma que pode interagir fisicamente? Você nunca havia aparecido pra mim em espírito.
— Eu me encarreguei de uma função que requeria minha presença o tempo inteiro. — disse Atticus, a postura amigável — Você sabe, eu me tornei uma espécie de deus que recebe seus fiéis quando morrem.
— Pai, você nunca me falou desse cara. — sussurrou Nathan perto de Frank — Já ouvi falar de espers, mas histórias bem negativas. Ele é confiável?
— Costumava não ser. Mas são águas passadas. Ele tá afim de nos dar uma força.
— Não somente eu. — disse o esper sorrindo confiante. Mais alguns espers surgiram vindo por detrás dele. Uma saudosa figura em particular abrilhantou o olhar de Frank.
— Virginia?! — disse ele emocionado com o retorno da esper que mantinha suas madeixas loiras, mas agora bem lisas. Ela sorriu abertamente ao detetive — Que satisfação te rever depois... de ter deixado você morrer.
— Frank, não precisa se culpar, não por mim. Você não tinha como impedir, ninguém poderia. Mas encontrei uma paz melhor do que jamais imaginei um dia ter. Eu também tô feliz de te rever, senti saudades.
— Digo o mesmo. Você e essa galera só vão adicionar mais peso a nossa artilharia.
— Atticus nos escolheu a dedo. — disse Virginia.
— Os mais próximos do meu nível, sem querer me gabar. — reforçou Atticus, bem-humorado.
— Queria que a Lucy tivesse vindo só pra ver a carinha dela vendo essa conversa. — brincou Carrie fazendo Natasha dar uma risadinha.
— Mas como ficaram sabendo da situação geral? — perguntou Hoeckler.
— Surgiram sinais de interferência extradimensional. — informou Atticus — Procuramos a origem e paramos aqui.
— É Khaleido. — citou Agnes — Chernobog conjurou o pior dos feitiços ocultos. O Necronimicon deve ser destruído, é a única forma de interceptar a ação de Khaleido.
— Eu tive visões dessa entidade quando Sephirath me tinha como eleito. — revelou Atticus, sério — Ela me mostrou eventos anteriores a criação do Antiverso.
— A condenação de Khaleido que foi sujeitado a uma eternidade de isolamento numa dimensão criada unicamente para prende-lo. — disse Raziel.
— E está saindo dela em direção a alma do planeta. Ele deve ser imediatamente parado. — disse Thaumiel aparecendo com mais dois ofanins, dentre eles uma centuriã.
— Thaumiel, que prazer reencontra-lo. — disse Adrael — Pensei que tivesse se filiado a Raguel.
— Eu idolatrava Raguel como um servo fiel ao seu rei. Mas não a ponto de tão cegamente me desvirtuar do que fui instruído só por oposição ao destino de Azrael e todos os corrompidos.
— O que é essa alma do planeta? — indagou Dynno.
— Mundos como esse também são dotados de alma. — contou Raziel — A essência etérea que sustenta a fertilidade da vida biológica, bem como ligada à almas de todo e qualquer ser vivo. Se os tentáculos de Khaleido torcerem-na, estarão todos sob o controle opressor dele.
— Talvez não todos. — especulou Agnes — Frank ainda pode ser o alvo.
— O que nos leva ao motivo de termos vindo. — disse Thaumiel — Raziel, precisamos que convença Frank a ser o receptáculo do Altíssimo.
— Belobog? Se for a única alternativa pra me isentar do teste da Flamígera, eu tô dentro. — disse Frank, aberto a sugestão.
— Pensa bem, cara. — disse Dynno — Vai deixar uma entidade usar seu corpo como um terno pra macetar o Chernobog sem você levar nenhum crédito?
— Essa entidade é o próprio deus criador do universo, a luz personificada. — retrucou Frank — Tô me lixando pra crédito, quero mais é que esse desgraçado se afogue na própria escuridão. Além do mais, com ele podemos ter uma chance de exorcizar o Fred.
Lilith engoliu a saliva, tentando não se iludir com a otimista possibilidade.
— Mas se engana ao pensar que o Altíssimo detém a propriedade máxima da criação primordial. — contrariou Raziel — No princípio, Belobog e Chernobog foram um único ser, mas devido a uma crescente instabilidade de poder, se dividiu em dois. O Altíssimo era a metade dominante que ejetou sua malignidade, a qual assumiu uma existência autoconsciente.
— Chernobog. — disse Frank, atento — Pode-se dizer que ele tava com um câncer maligno que adquiriu vida própria e foi expulso.
— A condição não era análoga a uma enfermidade, mas a sede constante de poder adoecia a razão e o intelecto supremo da antiga versão do Altíssimo.
— Então o antigo deus supremo estava se tornando... um tirano obcecado por poder? — perguntou Natasha.
— Exato. Mas graças a intervenção das demais entidades, ele foi forçado a se dissociar do mal que ameaçava cobri-lo. No entanto, a divisão deu início a uma inimizade cujo maior conflito foi determinante para a existência do todo que nos rodeia. O choque desses poderes deu origem ao que os humanos denominam de Big Bang, desencadeando a alvorada dos tempos. — contava Raziel tal qual um orador solene.
— E se houve uma alvorada, deve haver um crepúsculo. — disse Thaumiel — Estamos nele agora.
— E por que Belobog permite isso? — indagou Miyako — Não é querendo blasfemar, mesmo eu vindo de uma família com uma crença diferente, mas... Ele poderia intervir pra dar um fim nisso.
— O crepúsculo dos tempos é um evento apoteótico que não pode ser impedido, mas o Altíssimo não proíbe que forças inferiores possam reverte-lo. Entretanto, receio que ele não aceitará ser assimilado. Teríamos que passar pela corte arcangelical, o que, convenhamos, é um obstáculo intransponível.
— Nesse caso, o escolhido deve fazer o juramento. — disse a ofanim.
Frank deixou cair os ombros em desânimo. Dynno tocou nele amigavelmente.
— Só restou essa opção, parceiro. As vezes ficamos sem escolha no final das contas.
— Frank ainda pode ter resquícios que o conectem a Khaleido, embora o instinto ancestral tenha se esvaído? — questionou Adrael.
— A limpeza que fiz não deixou sobras, mas não impede que Khaleido possa afeta-lo já que através da alma cósmica ela poderá acessar todas as almas humanas que selecionar.
— Na profecia de Zaratro, constava que Khaleido transformaria o mundo em algo semelhante ao Limbo num pacto firmado com Chernobog por um feitiço que anula a condenação, mas apenas disso que temos certeza. — disse Agnes — A história de Orion se entrelaça a de Frank. A demanda de sacrifícios a Khaleido foi a mesma, ambos corriam o mesmo risco.
— Significa que essa vinda de Khaleido poderia ter acontecido lá nos tempos do Orion se ele tivesse passado no teste? — perguntou Frank.
— Provável, seria a única alternativa de Khaleido em se apossar dele para caminhar sobre a Terra e reinar como está tentando agora. — explicou Agnes.
— Zaratro pode ter forjado uma falsa profecia? — conjecturou Hoeckler — Ou previu errado?
— Eita, podíamos ter perguntado antes de eu meter uma bala nele. — disse Frank sorrindo nervoso.
— Você o matou? — disse Nathan.
— Não sozinho. — respondeu Frank apontando para Agnes com o polegar — Vinguei o Jack. Ah, Lilith, vingamos o Fred Jr. também. Mas agradeça a Natasha, nossa experiente matadora de vampiros.
— Não sei se devo estar grata ou com inveja. — disse a demônia.
— Quando tiver decidido, me avisa. — disse Natasha, levantando uma sobrancelha.
— Precisamos articular uma estratégia, já estamos há tempo demais aqui. — disse Adrael — As criaturas do Limbo se aproximam.
— Os serafins podem se manter na retaguarda contra os querubins, assim diminui o alto risco de baixas. — disse Thaumiel — Assumimos a linha de frente, mas abrindo caminho para que Frank possa chegar em segurança ao inimigo.
— Raguel ostenta seis legiões. Não levaremos vantagem. Ele pode ordenar um ataque generalizado. — supôs Raziel.
— Eu sei como facilitar pra vocês. — disse Lilith aproximando-se dos ofanins, fechando seu peito após Fred Jr. se satisfazer — Atraindo a atenção dos querubins.
— O que pretende com isso? — indagou Adrael.
— Pegue-o. — disse ela entregando o bebê ao anjo. Adrael estranhou, mas o aninhou — Ele tá mais calminho, aceita qualquer colo.
— Lilith, tá pensando em fazer o quê? — questionou Frank — Acho que um demônio do nosso lado não vai ser de muita utilidade.
— É claro que vai. Com uma boa armadilha.
— Mas é o seu filhinho, fica com ele até isso tudo acabar. — disse Miyako.
— Ele já não me pertence mais. — disse Lilith o olhando melancólica. Voltou-se a Raziel — Sei que vocês ofanins tem uma arma secreta, algo como uma granada que pode ser introduzida.
— Quer abrigar o pomo de ouro em si mesma? — disse Thaumiel.
— Pra exterminar aqueles idiotas, me abro a esse sacrifício.
— Eu tô de cara com o que acabei de escutar. — disse Frank — Um demônio se dispondo a um plano kamikaze? E sendo logo você, Lilith?! E o Fred? E os nenéns?
— Vamos encarar, Frank, perdemos o Fred. Devia estar conformado.
— Posso tentar arranca-lo do Chernobog de algum jeito, eu acredito numa solução.
— Não há como salva-lo! Vê se larga desse otimismo fajuto, bem lá no fundo você sabe que é impossível! — disse ela que se conteve ao ouvir Fred Jr. gemendo em tom de choro. Beijou a testa do bebê — Eu sempre vou te amar, Fredzinho.
— Ele estará seguro no cortiço. — asseverou Adrael — Há soldados reservas que irão protegê-lo com suas vidas. Eu... agradeço a confiança.
— Sem ressentimentos. — disse ela, sorrindo de canto.
— Se está mesmo disposta... — disse Raziel mostrando a pequena esfera dourada — Venha.
Lilith aproximou-se mais, logo o pomo de ouro sendo introjetado em sua barriga fazendo-a sentir um desconforto. Frank veio até ela.
— Tá carregando uma bomba... precisa do detonador. — disse Frank entregando a lâmina sacerdotal.
— Não errou na escolha. — devolveu ela pegando a espada pelo cabo — Adeus, Frank.
O detetive fazia que sim devagar com a cabeça.
— De todas as coisas ruins que você foi, mártir era o que eu menos esperava. Mas apesar de toda a monstruosidade, consigo enxergar o amor verdadeiro que você cultivou pelo Fred e pelos bebês. Não tem nada mais humano do que morrer por quem mais ama.
A demônia baixou a cabeça, controlando as lágrimas.
— Salva o Dante por mim e pelo Fred.
— Ele será salvo. Te prometo.
— Eles vão saber que foram muito amados pelos pais verdadeiros. — disse Miyako.
— Será que falta mais alguém do passado pra aparecer? — indagou Nathan.
Assim que dissera, viu uma sombra vigorosa sair das trevas. Tratava-se de Nero tendo ficado sua alma num corpo ainda mais robusto. Dynno e os amigos sacaram as armas e miraram. Frank se colocou na frente, apaziguador.
— Podem baixar, ele tá conosco!
— Ele é um daqueles amaldiçoados das górgonas! — falou Otto — Confia nele?
— Papai tá certo. — disse Nathan olhando para o ex-algoz — O Nero quer somar ao time. Não é?
— E que escolha eu tenho senão lutar pela comunidade que dediquei quase toda minha vida? Me desculpem pela aparência pouco convidativa.
— Gostei da nova estátua. — disse Frank — Como soube que estávamos aqui?
— Lucy me notificou via ligação psíquica.
— Agnes me manteve atualizada e repassei a Lucy. — esclareceu Carrie.
— Contem comigo pro que precisarem.
— Tem um exército? — perguntou Raziel.
— Criarei um.
— Já que está com a espada, Frank... — disse Adrael — É tempo de abraçar o inevitável. Todos aqui presentes acreditam que é digno.
Frank olhou em volta, ainda inseguro. Baixou os olhos para a arma de luxuoso tom dourado. Não haveria mais subterfúgios ou desculpas para livra-lo da predestinação, não importando como ela se revelasse na avaliação do teste.
— Frank, olha pra mim. — disse Carrie — Depois de tudo que passamos sendo parceiros de trabalho, só concluí o quanto a nossa ligação impactou na minha perspectiva de vida. Você me apresentou um novo mundo repleto de perigos, mas me fez acreditar que ele podia ser superado. Sabe por que? Porque você me provou que um homem devotado a esse propósito de vida pode vencer o medo da perda.
Frank a fitou emocionado com aquelas gratificantes palavras. Sua mão segurou mais firme o cabo da Flamígera.
— Pai, toda a fé que sou capaz de elevar me diz que você é totalmente digno. Não só da espada como também de vencer a batalha. Um caçador não pode ter medo da arma que segura, mesmo que ela não garanta a vitória. Você se move e luta, porque o processo importa mais que o objetivo e...
— Tá legal, agora todo mundo resolveu pagar de coach motivacional? Tudo bem, recebo e agradeço o encorajamento, mas...
— Mas o quê, Frank? — disse Natasha — A sua melhor amiga e o seu filho tentaram te convencer e ainda assim não bastou? O Frank de quem me tornei amigo se colocava frente aos riscos por ser quem ele é. A situação é caótica, é diferente e é demais pra você e pra todos nós, mas é preciso acreditar que a esperança não foi abandonada. Você simboliza essa esperança, Frank.
Os olhares transmitiam toda a confiança.
— Só tem um jeito de saber, né? — disse ele erguendo a espada. Respirou fundo e fechou os olhos gerando alta expectativa — Ó santíssima espada, eu juro servir incondicionalmente ao seu resplendor se eu digno for.
As labaredas inflamaram a lâmina rapidamente da base para a ponta. O acender da Flamígera gerou calorosos aplausos entre todos, inclusive os anjos. Carrie sorria de alegria como nunca.
— Admite agora que estava errado? — disse Hoeckler.
— Pois é, eu desdenhei da fé que tinham em mim, me desculpem. Eu tô incendiando por dentro, nem acredito.
— Muito bem, agora precisamos nos mobilizar. — decretou Nathan, empolgado — E daí que pode ser nossa última noite na Terra? Ao menos estaremos lutando pra salva-la. Não é, pai?
Frank abraçou o filho de lado, orgulhoso.
— Não consegui rastrear a localização do Necronomicon. — disse Lisbell.
— Será que não está no mesmo lugar onde foi aberto o portão do Limbo? — especulou Natasha.
— Ou onde Khaleido vem entrando. — disse Miyako — Peraí, essa coisa tá vindo literalmente pra cá?! Mas onde vai acessar a alma da Terra?
— O abismo. — disse Frank, pensativo — Pelo abismo de Danverous City, sem dúvida. O Chernobog planejou isso desde antes de voltar.
— A casa da Lilith. — deduziu Nathan — É um lugar reservado e discreto pra manter o grimório.
— Dante pode estar lá também, por isso não deu pra localizar. — afirmou Lilith.
— Eu cuido disso. Mas como se destrói um grimório tão poderoso? — se habilitou Nathan.
— Com uma arma igualmente poderosa. — disse Miyako desembainhando a katana Raikiri. Entregou a espada para ele — Faça bom uso.
— Não, Miyako, essa... é a espada mística que você ganhou de presente, você sempre quis usa-la. Vai precisar mais do que eu.
— Deixa que eu me viro com minha velha katana normal. As bruxas não podem duplicar a Flamígera, então essa é a única arma forte o bastante que resta pra destruir o livro.
O híbrido pegou-a, grato pela consideração da amada.
— Lembre-se de evocar sua força interior pra despertar o poder dela. E o mais importante: tentar sobreviver. — disse Miyako. O casal beijou-se — Não vamos fazer disso uma despedida. Temos um futuro... um longo futuro juntos pela frente.
— Não vou te desapontar.
— Aí, Nero, desculpa a má recepção. — disse Dynno — Toda ajuda é bem-vinda. Isso vale pra vocês também. — apontou aos espers.
— Ficaremos dispersos ajudando todas as frentes. — disse Atticus.
— Mas vocês dão conta? — indagou o caçador.
— Não é uma preocupação pra quem já está morto. — disse Virginia.
— Parece que todas as tribos se juntaram. — disse Frank — Hoeckler, se vencermos, como vai fazer pra apagar a memória de todo mundo?
— Não precisaremos de amnésicos pra isso. Na verdade, quase sempre nunca precisamos. — disse ele olhando para Agnes — Quando se tem uma bruxa do lado, a vida é facilitada.
— Quer dizer que... a Agnes pode usar um feitiço de amnésia geral?! Aí sim hein.
— Mas dessa vez exige o sêxtuplo de mana, recorrerei aos meus aprendizes.
— Vou deixar o bebê no cortiço. — disse Adrael, logo desaparecendo em milissegundos.
— Iremos nos agrupar. Até mais. — disse Raziel que logo subiu com Thaumiel e os demais.
— Frank, já chamei uma van exclusiva pra você. — disse Hoeckler — Muito bem, agentes, reúnam as tropas, hoje será um longo dia de trabalho. — os homens armados se retiravam — Talvez o último de muitos de vocês.
— Vamos nos restringir aqui. — planejou Lisbell.
— Agnes. — chamou Lilith abordando a bruxa — Pensei na melhor maneira de atrair os querubins, mas sem sua ajuda é impossível. Um último favor?
— Estou ouvindo. — disse a bruxa, interessada.
Frank adentrava na van não largando da espada.
— Cadê a Agnes?
— Ajudando Lilith com o plano suicida dela. Uma carta coringa.
— Ela não vai até o portão do Limbo desfazer o feitiço, né? O Nathan tá indo destruir o grimório. Dois coelhos numa paulada.
— Ela me disse que o portão não é fechado automaticamente com a destruição do grimório.
— Você vai com ela?
— Mas é claro, esses monstros estão em toda parte e a redoma só os farão se aglomerar conforme mais deles saem do portal. — disse Hoeckler que estendeu a mão para Frank — Boa sorte, amigo.
— A todos nós. — disse Frank que apertou a mão firmemente. Ambos se entreolharam por um breve instante. Um agente corria alarmado.
— Estão vindo! São centenas! Montgrow, vai pra dentro! Chefe, a contenção dos vampiros saiu do controle, já contabilizamos muitas baixas.
— A Insurgência prestará reforço. Vamos circular!
As portas traseiras da van foram fechadas pelo agente, deixando Frank solitário com a espada. Um helicóptero pousava frente ao anfiteatro. Agnes subiu a bordo com Hoeckler. A aeronave logo voltou ao ar rumando até o portão.
Outro helicóptero aterrissava, este pegando Nathan levando a Raikiri consigo. Com todas as frentes encaminhadas, a guerra santa iniciava-se em definitivo. Serafins e ofanins se posicionaram no alto de um prédio de arquitetura arcaica observando os querubins marcharem pela área aberta onde havia praças e carros danificados.
— É uma honra cortejar a morte ao seu lado, Raziel. — disse Adrael a direita do general.
— Idem, meu caro irmão.
Alguns serafins espalhados alçavam esferas de luz branca para amainar a escuridão agoniante após Los Angeles sofrer um blecaute com a invasão dos vampiros à usina de força. Os querubins caídos lançaram suas rajadas de fogo azul em conjunto.
— Ataquem! — bramiu Adrael que liberou suas asas simultaneamente aos demais e desceu voando com eles em colisão aos inimigos. O batalhão de Raziel podia ver adiante Raguel e a tropa de ofanins caídos voando até eles.
***
A casa em que Fred sonhava em viver ao lado de Lilith com os bebês deveria estar minimamente distante do caos urbano, de preferência numa área residencial tipicamente americana. O nefilim chegava num carro esportivo preto naquela manhã agradável de sol. Lilith recebeu-o amorosamente na varanda Dante e Fred Jr. que foram pelos e colocados em bebês-confortos no carro um por vez.
— Quietinhos aí, hein. Vou só ter uma palavrinha com a mamãe e volto rapidinho. Dante, nada de choro. — disse Fred que ajeitou a posição do bebê híbrido que fazia biquinho para chorar — Prontinho, prontinho. Você odeia essa manta, né? Coisa da sua mãe.
Voltava para Lilith que parecia serenamente tranquila. A beijou na testa e nos lábios.
— Cuida bem deles, tá? Quero os três de volta as sete da noite de domingo. E não divide os culpados com o Frank, OK?
— A quem acha que tá pedindo pra ter cuidado? Olha, pega essa manta, não deixa mais o Dante com ela, pode sufocar ele. O mesmo pro Fred.Jr.
— Tudo bem, mas anda logo, você deixou ele sozinhos lá...
— Só mais um beijinho...
— Fred, eu falo sério. Volta pra eles, estão chorando...
O nefilim virou para olhar o carro e avistou um homem encapuzado passando próximo do veículo. Lilith pontuou:
— Quando estão chorando juntos é sinal de que se sentem ameaçados. Quem é aquele cara?
O homem tirara o capuz, virando o rosto a eles. Fred viu a si mesmo fisicamente, mas não interiormente. Aquela sua versão exibia um olho esquerdo negro de íris vermelha e lançou um sorriso ardilosamente malicioso. Fred correu com urgência de volta ao carro enquanto seu eu sombrio afastava-se. Porém, assim que chegou a pouco mais de um metro, o veículo explodira tremendamente, a onda de choque o empurrando. Fred soltara um berro estridente que se prolongou sobressaltado numa cama de casal. Com suas roupas comuns, viu-se num quarto de casal com papel de parede vinho de listras douradas.
— Mais um dia ruim sendo pai de duas crianças tão trabalhosas? — disse Chernobog sentado na cadeira num canto escuro.
— Cala a boca. Cadê meus filhos? O que fez com eles?
— Um deles se encontra em minha total posse.
— É o Dante, né? Tá drenando a energia dele. Mas sei que no fundo você morre de medo de ser superado pelo que ele é.
— De fato, ele provou-me ser uma força disruptiva na hierarquia. Mas não se preocupe, vou apadrinha-lo para que sirva obediente a mim.
— Tá achando que leva o Dante como troféu pra ver ele crescer como seu escravo? Poder não significa tudo. — saíra da cama — E para de manipular meus sonhos. Quero sair daqui.
Olhou por uma janela afastando a cortina. Reviu uma de suas mais felizes lembranças: brincando com seus pais adotivos na grama em meio aos irrigadores ligados.
— Não era minha intenção acorda-lo. Eu deveria ter suavizado o conteúdo. Talvez vendo eles morrerem asfixiados naquele carro.
— É assim que quer me manter aqui? Um paraíso das melhores memórias? Eu passo. Prefiro onde eu tenho o controle da minha mente. — disse Fred que cravou os olhos na porta — Voi sair daqui nem ele seja... — tocou na maçaneta tentando abrir — Do meu jeito, então. — tomou certa distância e estendeu sua mão direita manifestando o seu poder nefilim, porém mostrava-se fraco — Não vou desistir.
*A imagem acima é prioridade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.
*Imagem retirada de: https://presentepravoce.wordpress.com/2012/11/27/a-armadura-de-deus/

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