Frank - O Caçador #128: "A Caçada de Sua Vida"

Os olhos de íris azuladas dos vampiros encaravam fixamente a extinção da luz, seja nas ruas ou acima dos prédios para ter vista privilegiada. As bocas ensanguentadas salivavam de expectativa, a sede entorpecedora atiçando o instinto mais selvagem da espécie. O astro-rei se mitigava, um triste ponto vermelho num horizonte rosa-escarlate que era tomado pelo breu celeste. Eileen bem que gostaria de estar contemplado tal espetáculo, mas se ocupava se atracando com Lilith num embate furioso. 



A demônia usava suas garras em golpes que eram desviados habilmente por Eileen com sua agilidade e reflexos ampliados por sua condição de baronesa recém-adquirida. A vampira a chutou fortíssimo contra a parede, mas Lilith surgiu atrás dela em teleporte a imobilizando pelo pescoço e o quebrando em seguida. Eileen caiu de frente, dura como pedra.



— Engraçado como osso de vampiro quebra tão fácil, faz um som que é música pros ouvidos. — disse Lilith que virou de costas e saiu andando até o elevador aberto. Porém, Eileen reergueu-se subitamente e em supervelocidade avançou, logo empurrando-a para dentro da cabine.



— Não faz ideia do quão forte me tornei pra ganhar de alguém como você!



— Vem me pegar, se puder! — disse Lilith apertando botões do elevador cujas portas fecharam-se antes que Eileen alcançasse.



— Tá fugindo por que? É pra me testar? Eu espero que sim! Não me fortaleci tanto pra lutar com covardes!— disse Eileen que empreendeu força máxima para abrir as portas facilmente. Viu o elevador descendo e pulou no poço, pousando no teto do qual arrancou uma parte. Entrou chutando Lilith com os dois pés. As duas novamente se atracaram. Lilith tentava afundar seus dedos nos olhos da vampira que impedia movendo a cabeça enquanto fazia arranhões na face da demônia que logo desapareceu.



— Sua vagabunda covarde! Aparece! 



Lilith reapareceu sobre o teto, cortando imediatamente o cabo de sustentação. O elevador sofria a queda vertiginosamente mortal até o térreo. Eileen tentava de equilibrar no cubículo que tremia e balançava, flexionando as pernas e executando um impulso que a fez pular destruindo o resto do teto. O salto reto parecia um voo superveloz. Pegara Lilith que havia se segurado no cabo e a manteve agarrada até retornarem ao andar onde estavam. Rolaram no chão até que Lilith a chutou contra o teto mostrando seu rosto demoníaco.



Eileen voltou ao chão numa posição animalesca, logo avançando super-rápido para tascar uma mordida profunda no pescoço de Lilith. A demônia a tirou puxando pelos cabelos e por  batera a cabeça da vampira contra uma coluna repetidamente. Em revide, Eileen pegara o extintor de incêndio antes fixado aquela coluna e o bateu forte no rosto de Lilith.



— Agradeça pelos supressores! São eles que me impedem de te rasgar em pedaços!



Eileen seguiu batendo o cilindro vermelho contra Lilith nos dois lados do rosto. 



— Por que não vai enterrar seu filhote e me deixa em paz? Eu tô perdendo um momento histórico!



Antes do próximo golpe, Lilith bloqueou cravando suas garras no cilindro e o derrubou, a fumaça do extintor vazando abundantemente.



— Você me lembrou dos limitadores instalados nessa pocilga. — disse Eileen recuando devagar — Que graça tem lutar com nossas forças reduzidas, né? Você acabou de dar a minha deixa!



A vampira usou o conteúdo do extintor como cortina de fumaça para escapar em velocidade sobrenatural. Lilith a procurava obstinada, tentando dissipar o vapor branco, mas deu-se conta dela ter se retirado.



— Quem é a covarde agora, queridinha? — disse a demônia, sentindo ter ganho a luta pelo recuo da oponente.



A líder vampírica chegava a uma sala com janela panorâmica e observou o findar do sol chegando a tempo.



— Que a era dos mosntros comece!



Na sala de reuniões, Frank e os demais se planejavam.



— Como estão em maior número, por enquanto, vamos nos concentrar no exército de chupa-sangue. — definiu o detetive — Natasha e eu vamos atrás da Eileen enquanto vocês dois dão um jeito de manter... — pausou, o coração apertando ao olhar tristemente para Fred Jr. morto nos braços de Miyako —... o cadáver do neném em segurança. Sendo a Agnes a bruxa mais poderosa que conhecemos, ela é nossa única salvação pra trazer o Fred Jr. de volta.



— Mas... não seria mais seguro esperarmos Jack enfiar aquela espada no Chernobog pra depois consultarmos alguma força celestial que possa fazer isso mais simples? — sugeriu Nathan — Ressuscitar pessoas ainda é proibido. Vamos estar condenando o Fred Jr. ao Limbo. 



— Putz, nem lembrava que era uma das infrações universais. É, não tem jeito, mas a ESP tem que se apressar na carona pro Jack até a catedral.



— Verdade, o corpo de um bebê recém-nascido se decompõe mais rápido, em poucas horas. — reforçou Natasha — Frank, a vadia é toda minha.



— Não, sem exclusividade só porque você caça vampiros e agora tem um barão a solta. É meu sobrinho, faremos justiça por ele juntos.



Miyako ainda chorava de soluçar com a morte de Fred Jr. sendo amparada por Nathan



— Isso não é justo. — lamentava ela — Por que tinha que ser assim? Por que?



— Calma, calma... — disse Nathan abraçando-a de lado — Vai ficar tudo bem. Ele só tá dormindo. — falou o híbrido, a voz embargada.



— Vejam... — apontou Natasha para a janela — Serão os espectros querendo revanche? 



Frank se aproximava estreitando os olhos para visualizar melhor apesar da escuridão absoluta estar se totalizando. Avistou criaturas voando como morcegos numa revoada numerosa.



— Todo mundo pro chão, agora! —  bradou Frank que logo correu se escondendo embaixo da mesa. Natasha e Nathan o fizeram. Miyako tomou cuidado ao se abaixar segurando o corpinho ensanguentado de Fred Jr., ficando sob a mesa. A horda de seres do Limbo chegava ao centro de Los Angeles e passou avassaladora pelo prédio do DPLA, quebrando vidraças de janelas. Cerca de cinco atravessaram a sala de reuniões.



— Acho que passaram todos. — disse Frank olhando em volta — Vamos nessa, cair fora daqui e ir atrás da Eileen. Vambora.



Os quatro foram correndo até a porta, porém uma espécie de língua desceu do teto, grudando em Fred Jr. e o tomando dos braços de Miyako. O órgão pertencia a uma criatura que ficou por ali, semelhante a um pterodactilo tendo uma pele aparentemente carne viva num tom de vermelho bastante intenso. 



— Não! — gritou Miyako desesperada com o perigo do bebê ser devorado. Frank rapidamente sacou uma lista de grosso calibre e abriu fogo implacável. A criatura largou o bebê e caiu entre as cadeiras se debatendo na parede. O cadáver de Fred Jr. caiu ao chão, mas próximo o suficiente do monstro para ser novamente apanhado. A criatura voraz, sua boca jurássica repleta de dentes finos e pontiagudos, tentou fazê-lo, se arrastando ferida, mas Frank barrou seu caminho disparando seis vezes na cabeça.



Miyako recolheu o cadáver do bebê, aninhando-o nos braços aflita.



— Frank, checou se o matou? — indagou Natasha, incerta da morte da criatura.



— Sim, tá mortinho. — confirmou Frank a chutando de leve — São ferozes, mas bem vulneráveis.



— Essa coisa veio do Limbo, reconheci de cara. — disse Nathan.



— O portão foi aberto. Vamos antes que mais outros desses dinossauros apareçam no caminho.



Ciente da passagem dos seres nativos do Limbo, Hoeckler reunia três conselheiros-sênior da fundação numa sala de paredes negras e iluminada por uma pálida luz meio azulada.



— Concentrem-se. — orientava Hoeckler usando seu habitual terno azul índigo com gravata vermelha — Permitam que eles acessem o íntimo de suas almas para que o elo se estabeleça o mais firmemente.



Os conselheiros, dois homens e uma mulher, estavam dispostos em triângulo diante das células-matriz que comprovava as entidades regentes do misterioso Antiverso em seus slots de armazenamento onde se encaixavam naquele ambiente criado adequadamente para salvaguarda-las.



— Você nos assegurou de que poderíamos nos libertar quando quiséssemos. — disse a conselheira da ESP, uma mulher de quase sessenta anos e cabelos castanhos com uma franja — Temos essa garantia ou não?



— Dou minha palavra. Eles atenderão meu pedido.



— E quando foi que cumpriu com sua palavra nesta vida, Theodor? — questionou um dos conselheiros — Pelo que nos constam, você sempre usou como instrumento aqueles de quem pretendia se desfazer.



— Há um abismo entre o homem que fui ontem e o que sou hoje. — declarou o chefe da fundação — Eu não premeditei uma sabotagem. Vocês são os mais competentes de que tenho conhecimento. Por isso os escolhi.



— Está morrendo? — indagou o outro — Câncer terminal? Quanto tempo lhe resta até o mundo virar uma terra de ninguém?



— Eu não estou fazendo isso pra me redimir dos meus erros, pois disso eu já cuidei. Tudo que preciso é que confiem em mim. Aliás, confiem neles.



O trio fechou os olhos deixando serem possuídos pelas entidades ao tocarem nas células com as duas mãos. Os casulos emitiram brilhos nas suas respectivas cores - azul, vermelho e verde. Em seguida, os conselheiros reabriram os olhos, estes brilhando por inteiro.



— Diga-nos sua necessidade. — falou Abosmath, a luz azul.



— Estamos cientes da atividade constante de Chernobog ainda que enclausurados. — disse Sephirath, a luz verde.



— Não temos obrigatoriedade de atender a desejos materiais e egoicos de insetos como você. — disse Keternath, a luz vermelha, possuindo a conselheira.



— Mas teremos o bom grado de prestar nossa longânima caridade se for unicamente em detrimento de Chernobog. — ressaltou Sephirath.



— Está bem. — disse Hoeckler, um tanto nervoso — Meu desejo não visa beneficiar somente a mim. Eu sei que possuem uma visão macro de tudo o que vem ocorrendo. As criaturas oriundas do Limbo... os filhos de Khaleido... estão se propagando a uma determinada área. Se pudessem... erguer um muro, uma barreira que consiga impedi-los de cruzar as fronteiras...



— Ele parece duvidar da nossa amplitude existencial. — disse Keternath.



— Discordo. — disse Abosmath — Ele está fragilizado espiritualmente, mas inclina sua fé a nós. Atenderemos sua súplica. Então Khaleido e Chernobog estão pactuados. Era de se esperar, aquele tolo foi o único a contestar a sentença condenatória.



— Estão todos de acordo? Keternath? — indagou Sephirath.



— Embora estejamos presos a esses invólucros degradáveis, é de dois irmãos renegados que estamos falando. Eu não facilitarei seus esforços de sobrepujar a justiça de Belobog.



No prédio do DPLA, Frank recebia a notícia por Carrie no celular, andando por um corredor às pressas ao lado de Natasha após deixarem Nathan e Miyako seguirem sozinhos.



— Uma redoma? Em toda Los Angeles? 



Aquilo chamou a atenção da caçadora que o olhou curiosíssima.



— Tá certo, diz pro Hoeckler que agradeço por ter lembrado do trio parada dura alienígena. Falou, tchau. — dizia Frank que logo encerrou a chamada.



— Frank, que história é essa de redoma isolando a cidade? 



— A história pra explicar isso é longa pra cacete, mas pra tranquilizar... Essa redoma é de alta qualidade pra frear os imigrantes ilegais. Los Angeles virou a alfândega que vai barra-los.



O detetive seguiu na frente, mas Natasha permaneceu intrigada.



— Mas alienígenas? Eles existem?



A dupla enfim adentrava na sala onde viram Eileen observando o ápice do crepúsculo pela janela, excitada e altiva. Uma grande parte da comunidade vampírica aguardava os segundos restantes para a última réstia de solar. Quando a contagem regressiva chegou a zero e a fina brecha de luz se fechou, dando lugar ao cair total da escuridão, os sanguessugas vibraram de comemoração em gritos a plenos pulmões enquanto correram em ataque as forças da ESP como vespas saindo do criadouro.



— Chegaram tarde pra contemplar o por-do-sol mais belo da história. — disse Eileen virando-se para Frank e Natasha — Só vocês? Eu não valho apenas por dois caçadores.



— Podemos ser dois gatos pingados... — disse Frank destacando seu facão — Mas valemos por cem vampiros. 



Eileen sentiu-se desafiada e avançou, mas recebeu uma chuva de balas de prata por Natasha que a fez recuar uns passos.



— Vamos aproveitar que você ainda tá em transição de baronesa pra explorar suas fraquezas exatamente como elas são. — disse a caça-vampiros. Eileen abriu a boca mostrando as presas e os olhos azuis, pulando sobre Frank qie bateu as costas na mesa. O detetive a chutou e brandiu o facão, mas a vampira o agarrou nos ombros, jogando-o contra a parede ao lado. Natasha veio usando golpes de sua espada de prata, mas Eileen esquivava, logo a pegando pelo braço e a virando contra uma mesa de vidro violentamente.



Frank avançou ameaçando decapita-la, mas a vampira o desarmou num chute com giro, depois dando uma bofetada. Frank iria desferir um golpe, mas a líder vampírica velozmente o virou de costas agarrando os braços e o prendendo colado a parede.



— Hora da degustação. — disse Eileen crescendo suas presas, logo cravando-as no pescoço de Frank vorazmente. Mas a vampira tiveram seu cabelo puxado por Natasha atrás dela, interrompendo a refeição. Eileen revidou numa cabeçada, mas foi agarrada por Frank. A vampira pisará em seu pé, logo o derrubando com um empurrão. Achou uma barra de aço pontuda no chão. Apanhou e a mirou em Frank.



— Eileen, você tinha aquele jeitinho doce, meigo... certinho... mas eu devia ter aberto meus olhos desde que você usou um cupido pra enfeitiçar a mim e a Carrie pra salvar a vida do seu namorado sem se importar que fôssemos morrer no processo. Toda essa maldade que você exala agora... já havia dentro de você.



— Devia me deixar morder você um pouco mais. O vampirismo desperta partes suas que você nem imaginava que existia. A mim... foi uma autodescoberta completa e o ritual somente elevou isso a um outro nível. Lamento que você não viva pra experimentar essa dádiva.



— Não... Lamente por você mesma. — disse Frank.



Eileen fora muito bem distraída. A vampira tivera sua cabeça decepada por Natasha con sua espada prateada.



— Essa foi pelo bebê. Vadia. — disse Natasha que dera uma cuspida. Frank levantou-se.



— Se tivesse pior que eu, não teria ficado no chão esperando você agir. Essa espada é da boa hein.



— Por falar em espada... Melhor irmos ver como anda lá embaixo a situação do Jack. Espera... E esse rombo no seu pescoço?



— Não, tô de boa, ela só deu uma chupada. — amenizou Frank cobrindo a ferida da mordida com a gola do sobretudo.



— Tem certeza? Sentiu as presas cravando fundo na sua veia?



— Acredita, eu não me sinto estranho. Ela apenas bebeu.



— Ótimo, pois se ainda quiser ter um filho com a Lucy é bom mesmo que continue assim.



— Tá legal, vamos lá pro térreo. — disse Frank andando para sair da sala — O Nathan protege a Miyako enquanto ela protege o corpo do bebê.



— Será que o Dynno e os outros despacharam todos os reféns? — indagou Natasha seguindo-o pelo corredor e limpando a espada no seu casaco preto-azulado de couro



— Eles não entraram mais em contato... Mas não deve ter acontecido nada grave. Vem, vem, depressa, vamos! — disse Frank acelerando.



Escolhendo a casa da floresta como um porto seguro para o Necronomicon, Chernobog adentrou destruindo a porta que foi arremessada com telecinesia. Trazia Dante acordado, mas aconchegado emitindo curtos gemidos estando nos braços do corpo que foi de seu pai. Explorou a casa mais adiante com curiosidade, o vento soprando forte pelas janelas.



— Aqui está adequado. — disse ele encontrando o quarto no qual se viam a cama de casal e o berço — Acho que está no seu período de descanso. — percebera vendo Dante bocejar longamente. Pusera o bebê no berço, porém ele soltara gemidos que prenunciavam um choro persistente para permanecer no colo, fazendo o típico biquinho — Relaxe, não quero que me aborreça com seu pranto insuportável. — num simples mover de mão, o fizera cair no sono instantaneamente — Me será útil mais tarde.



Abrira o grimório bem na página do feitiço de invocação definitiva a Khaleido e o fez levitar próximo da cama. Com os olhos fechados, estendeu a mão direita frente ao livro e começara a pronunciar as palavras corretas de conjuração no dialeto registrado. Com o avanço da mágica sombria avançada, o grimório passou a ser envolvido por uma aura escarlate misturada a energia umbral emanada do próprio, os caracteres progressivamente se preenchendo de luz vermelha. Um tremor se acentuava, não arriscando, todavia, despertar Dante de sua profunda soneca relaxante.



Chernobog elevava o tom de voz nas repetições até o limite determinado para chamar por seu irmão que, num evento sem precedentes, movia seus tentáculos robustos e negros, de ventosas brilhantes e piscantes, atravessando um portal nas nuvens tempestuosas num formato de disco. Um abismo celeste sobre o terrestre onde um dia fora conhecido como Danverous City.



Os tentáculos desciam balançando rumo à imensidão de trevas da cratera visando alcançar uma profundidade desconhecida.



***



A van que conduzia Jack - utilizando como seu novo corpo uma armadura medieval de cavaleiro com capa - cruzava a rua do centro de Los Angeles em que localizava-se o prédio do DPLA a alguns metros. O veículo, com seus faróis ligados, passava desviando de obstáculos como carros e ônibus virados e incendiando. Dentro, Jack incomodava-se com o balançar constante dada a velocidade.



— Ei, excesso de velocidade pode causar acidentes, sabiam? — reclamou, segurando em alças. A espada ia e voltava no chão, seu portador parando-a com o pé — Fica aqui, espadinha! Não saia de perto do papai.



Repentinamente, um enxame de morcegos viera seguindo a van e a cercou rapidamente, bloqueando a visibilidade. 



— Merda, agora apareceu esse monte de morcegos! — disse o agente da ESP que dirigia. Ligou os limpadores de parabrisa, afastando-os.



— Não são morcegos! — disse o companheiro detectando assinatura paranormal no seu leitor.



O enxame se movia batendo fortemente no veículo que ziguezagueava freneticamente. Vários deles quebraram os vidros das portas, invadindo e atacando a dupla de agentes, fazendo perder-se o controle da direção. A van bateu numa das barricadas criadas pela polícia e capotou sucessivas vezes até parar proxima ao prédio do departamento policial. Jack acabou criando para fora com o abrir das portas devido ao acidente e rolou pelo chão. Os morcegos se dirigiram para o prédio quebrando vidraças.



— Ah, tá enganado se pensa que vai se esconder! — disse Jack que levantou-se e apanhou a Flamígera. Correu para dentro do edifício cujas portas da frente foram destruídas.



Enquanto isso, Miyako se refugiou num banheiro com uma luz precariamente acesa e foi para se fechou num box com o cadáver de Fred Jr. no colo. Seu abalo emocional permanecia inalterado. Arriscou dar uma olhada, retirando parte do pano sujo. Fred Jr. estava pálido e com os lábios arroxeando na boquinha aberta com a língua para fora.



— A sua vida não acabou desse jeito. Vamos te trazer de volta, anjinho. Eu prometo. — disse ela tocando na bochecha não mais corada, sentindo a pele gélida. Respirou fundo de olhos fechados, logo cobrindo novamente o rostinho do bebê.



Nathan enfrentava vampiros no corredor, socando e chutando todos que se aproximavam.



— Você não bate como um humano! — disse um dos vampiros com a boca suja de sangue, mas do próprio sangue. Mostrou as presas selvagemente.



— É porque não sou um. — respondeu Nathan, os olhos logo brilhando em vermelho, petrificando o vampiro antes dele avançar. O híbrido chutou a estátua, quebrando-a em múltiplos pedaços juntando-se as dos demais sanguessugas também destroçadas — Se meteram com o caçador errado, idiotas.



Os morcegos desceram até o amplo saguão de luzes acesas e se amontoavam dando forma a uma figura humanoide dos pés a cabeça. Não era ninguém menos que Zaratro se reconstituindo após se subdividir. O bruxo se completou, os braços abertos numa postura triunfante, seu manto negro com capuz evidenciando o temor que transmitia.



— Frank, apareça! Sei que resolveu fugir até aqui para proteger sua estimada arma celestial!



O detetive chegava ao saguão acompanhado de Natasha. Ambos pararam ao vê-lo.



— Aí está você! O que me diz de um último duelo? Veremos se maneja a espada pomposa dos anjos com maestria.



— Ele é todo seu. — disse Natasha ao detetive. Dynno finalmente comunicava-se. A dupla tocou nos pontos eletrônicos nos ouvidos.



— Fala, Dynno! Ainda estamos aqui no DPLA. — informou Frank.



— Como é que é?! Já cuidamos dos reféns e saímos faz uns quinze minutos! Estamos conduzindo alguns pra abrigos seguros, outros foram encaminhados pro hospital, muitos mordidos pelos desgraçados! Cara, Los Angeles virou uma terra selvagem, os monstros decretaram estado de sítio, tá tudo dominado!



— Tem vampiros a torto e a direito por aqui, não vamos sair enquanto não tivermos dizimado todos. Mas já liquidamos com a líder da facção. O pior mesmo são as criaturas do Limbo, já estão pintando o sete!



Dynno freou bruscamente ao ver os seres dantescos voando pelas esquinas.



— Chamem a segurança, parece que abriram as portas do Jurassic Park! — disse ele, atônito, dando a marcha ré — Caraca, que bichos são esses?! Vou tentar um atalho! Depois que deixarmos essas pessoas seguras, vamos até o perímetro que a polícia e a galera da ESP criou pra formar um bloqueio que impeça os vampiros de chegarem na usina de força pra causar um blecaute geral! Mas vocês devem sair daí já!



— Por que? Tem vampiros e seres do Limbo espalhados por toda parte pra eliminarmos. — disse Natasha. 



— Armamos explosivos em todo o prédio! Vão explodir dentro de... — disse Dynno conferindo no seu celular — ... dez minutos! Vocês tem até dez minutos pra caírem fora antes da implosão!



— Vou avisar a Miyako e o Nathan. — disse Natasha que disparou no trajeto de volta.



— Agora que encerrou sua falação irritante com seus amigos, podemos retomar nosso embate. — disse Zaratro — Mostre-me a espada e seu sacro fogo!



— A espada não tá comigo. O cara certo não sou eu.



— Como não? Era você naquele transportador, não era? Você é o guerreiro potencial que os anjos contemplavam! Não faça joguinhos comigo!



— Não será eu quem vai te dar uma bicuda com a Flamígera, não sou digno dela. Mas ele é.



Zaratro virou-se deparando com Jack empunhando a espada atrás dele.



— Então é você o safado que me incumbiram de transformar em churrasquinho. — disse Jack, a espada logo incendiando — Vixe, acendimento automático, gostei!



— Não, Jack, esse daí não é o Chernobog! — avisou Frank — É o mordomo dele, mas tá mais pra cachorrinho que só come dos farelos. Ah, e gostei do novo visual, lembra muito aquele dia.



— Pois é, parei pra dar um trato e ficar em forma. O de hoje tá pago. — disse Jack se aproximando de Zaratro — Então você é só o serviçal ou o bobo da corte? De qualquer forma, tô vendo que vai ser moleza.



— Isso é algum tipo de piada?! — disse Zaratro sentindo-se ultrajado. O bruxo estendeu a mão direita para Jack que parou largando a espada. Colocou as mãos na cabeça como se sofresse uma dor terrivelmente aguda, caindo de joelhos.



— Aaaaaahh! Socorro, faz isso parar! Frank... 



Zaratro fechara rápido a mão, logo a cabeça de abóbora de Jack explodindo em vários pedaços.



— Jack! — berrou Frank, aturdido. Antes que corresse para ajuda-lo, Zaratro o empurrou com telecinesia contra uma coluna o imobilizando. 



A alma de Jack escapou pairando no ar como uma nuvem pequena de energia amarela. Porém, Zaratro a travou com sua energia umbral, reduzindo-a ao absoluto nada.



— Nããããooo! — gritara Frank, inconformado.



—  Era esse sujeito jocoso que escolheu como favorito a brandir a espada celestial contra meu mestre?! Se isso me envergonha, imagine seus amigos anjos vendo isso! — disse Zaratro que o lançou violento ao chão perto da Flamígera — Agora pegue essa espada e enfrente-me!



Frank tocou na empunhadura, chegando até a cogitar fazer o juramento, porém voltara atrás ao lembrar que o feitiço de Agnes expirou.



— Levante-se, Frank, e teste a si mesmo! Ou está com medo da incerteza de sua dignidade?



— E daí se eu estiver? Por aqueles que eu amo, arrisco minha vida se for pra tê-los comigo! — rebateu Frank, levantando-se com a espada.



— Nunca saberá a resposta se persistir nesse sentimentalismo incapacitante. Então que seja sem sabê-la! — disse Zaratro criando uma esfera umbral que pretendia arremessar contra o detetive. Porém, um raio púrpura escuro o atingiu vidno da esquerda, lançando-o ao chão.



— Agnes! — disse Frank — Chegou em boa hora.



— Frank, fuja daqui com a espada. — disse Agnes, vestindo o mesmo traje roxo que usara na ocasião em que enfrentou Zaratro no prédio do Conselho de Segurança em Danverous City. A bruxa baixou os olhos para o corpo que Jack usava — Pelo visto, o seu campeão não teve nenhuma sorte. Eu lamento por ele.



— Que maravilha, acabou de chegar a minha velha aprendiz para servir de escudo ao descendente de Orion! — disse Zaratro levantando-se — Ou será que veio recair no mesmo erro? Não esperaria menos de você.



— Garanto que desta vez não será um erro. — afirmou Agnes, a autoconfiança pulsando da face com sorriso de canto.



Bruxas e bruxos pertencentes convenção necronomiana surgiam como fantasmas cercando Zaratro. Frank foi afastando-se, surpreendido pela quantidade trazida por Agnes que recitava quase que em sussurros o feitiço de drenagem mágica juntamente com seus confraternos em coro fechando o cerco em torno do bruxo. Os olhos de Agnes brilhavam em púrpura vibrantemente.



— Não! Parem, seus impertinentes! — vociferava Zaratro vendo buracos abrirem-se pelo corpo, nas pernas e nos braços pelos quais saía uma fumaça com uma luz arroxeada tremendo e subindo em ajuntamento — Sua herege, eu juro que a farei pagar! Todos vocês pagarão!



Zaratro caía ajoelhando-se sentindo a magia ser drenada de todos os poros. A nuvem de fumaça crescia acima dele relampejando. A drenagem consequentemente fazia sua pele branca como cal retornar a tonalidade morena de origem. O bruxo caiu de frente após seu corpo ser sugado até a partícula de magia concentrada na nuvem que foi alçada pelo grupo. Miyako e Nathan passam por um corredor, mas pararam ao ver a nuvem subindo e atravessando depressa do chão ao teto.



— Nossa, o que foi aquilo? — indagou Miyako.



— Parecia... Ah, esquece, não há tempo pra pensar, mas sim agir. Vem! 



O híbrido correu pegado na mão de sua amada. Antes que dobrassem ao corredor da direita, Natasha surgia, dando-lhes um tremendo susto.



— Meu Deus! — disse Nathan com a arma apontada à caçadora — Quase puxei o gatilho! Natasha... Cadê o papai?



— Lá embaixo lidando com o subordinado do Chernobog. — disse ela, a fala rápida e o rosto bastante sujo de sangue respingado — Cortei umas cabeças pra chegar até aqui. Temos que fugir. Dynno entrou em contato.



— E o que ele disse? — indagou Miyako.



— O prédio vai ser implodido daqui há pouco.



A nuvem mística tinha uma rota traçada previamente, saindo do edifício e dirigindo-se como um tornado deitado até um apartamento. Nele encontravam-se dois bruxos aliados que juntos seguravam um grande e robusto jarro de cerâmica preto aberto. A magia adentrou no recipiente que foi selado com a tampa rapidamente.



— Caramba, já estavam todos aqui de prontidão? — perguntou Frank se aproximando de Agnes.



— Seguimos a assinatura mística de Zaratro conforme Theodor nos orientava. São apenas projeções astrais, estão reunidos no bunker.



— E pra onde mandaram a magia dele? 



— Dois dos meus aprendizes usaram um prédio residencial para atrair a nuvem até uma ânfora enfeitiçada para sela-la. Uma vez tampada, a ânfora só liberta a magia caso seja quebrada.



— Nem pensa em quebrar se deixando levar pela sede de poder. Também cheguei a pensar que você faria aquilo de novo. Não pensou nisso, né? 



— É errando que se aprende a acertar. E para mim uma única vez basta. — respondeu Agnes, sincera. Olhou para seus discípulos — Podem ir, me esperem voltar. 



— Não é mais que nossa obrigação agora. — disse uma bruxa jovem de cabelos cacheados — A sua você já sabe. Volte com vida. A subsistência da irmandade depende disso.



A convenção desaparecia magicamente. As atenções de Agnes e Frank voltaram-se a um frágil e choroso Zaratro.



— E quanto a ele? Arrancaram toda a magia necronomiana, mas ele ainda é um bruxo.



— Não mais. — afirmou Agnes — Toda a mana que habitava em seu espírito foi drenada.



— Quer dizer então que... — disse Frank que se inclinou removendo o capuz do manto, expondo o rosto encharcado de lágrimas do bruxo — Ele é só um homenzinho chorão agora. Você falou em vergonha... Imagina o Chernobog olhando pra você nesse momento. — sacou uma pistola — Completamente inútil pra ele. — pressionou o cano na cabeça — De volta a estaca zero. Humano, de carne e osso, que nem eu. E que também sangra vermelho como todo mundo. Leva esse peso na consciência pra você carregar lá no inferno.



Atirou friamente, a bala fazendo um expressivo buraco saindo pela testa com o sangue esparramado no piso branco.



— Reunião urgente. Espero você e os outros no anfiteatro.



— OK, até porque temos uma missão importante a cumprir. Vou chamar o Adrael. — disse Frank que fechara os olhos — Adrael, dá um pulo aqui.



— Frank, cheguei. — disse o serafim aparecendo atrás dele — Este é o...



— Zaratro. Riscado da lista. Vai atrás da Natasha, da Miyako e do Nathan, traz eles pra cá. Faremos uma reunião no anfiteatro.



— Está bem. — disse o anjo logo teleportando-se. Alguns segundos depois, retornou trazendo-os.



— Pai, o que houve aqui? Por que tá com a espada? — perguntou Nathan que logo reparou na armadura de Jack largada com os pedaços da abóbora espalhados — Não pode ser...



— O Jack... — disse Natasha, sentida pela morte do decaído.



— Ele falhou. — declarou Frank pesaroso — Aliás, mal teve a chance de tentar.



— E agora? É sua vez de fazer o teste, pai, tem que ser você!



— O feitiço que anulava o castigo do fogo santo esgotou. — revelou Agnes.



— Não dá pra fazer de novo? — questionou Nathan.



— Infelizmente não, em um artefato de extremo poder como esse, é aplicável por uma só vez.



— Vamos resolver essa parada num lugar mais reservado. Esse lugar inteiro vai pelos ares.



As primeiras bombas já detonavam nos andares mais elevados estremecendo o térreo.



— Todos tocando no Adrael, agora! — mandou Frank que baixou sua mão ao ombro do anjo. Assim que todos o fizeram, o serafim os teleportou ao anfiteatro que estava as escuras, exceto no palco.



O prédio do DPLA sofria as desastrosas implosões que o demoliam em ágil ritmo. Os agentes da ESP nos arredores se afastaram léguas junto a policiais quando a estrutura cedeu inteiramente, gerando uma densa nuvem de poeira que se expandia.



Já na casa da floresta, Chernobog prosseguia se nutrindo do poder bruto de Dante, o feixe de luz amarelo saindo do peito do bebê diretamente a mão direita aberta da entidade. Até aquele instante tudo transcorria sem transtornos com o híbrido permanecendo dormindo. Porém, de repente, Dante despertou num choro soando como um grito agudo.



— Não pode ser... — disse Chernobog, atônito. Dante emanou sua aura dourada com o escudo vibratório que respondendo ao seu choro estridente desencadeou na onda psiconica que desestabilizou os querubins e ofanins caídos, ambos os grupos ainda na catedral preparando-se para guerrear.  Os anos caídos foram sofrendo a tortura psíquica até que Chernobog desfizera a drenagem rapidamente ao ser minimamente afetado como da primeira vez.



Com o cessar brusco do processo, Dante caiu no berço, chorando mais intensamente com movimentos agitados de mãos e pernas, também pelo impacto das costas e da cabeça no colchão que certamente o havia assustado.



— A reação adversa retornou... Isso significa que Zaratro está morto, logo o feitiço de neutralização da dor se perdeu. Mas que lástima de perda... — disse Chernobog tentando controlar sua cólera e não desconta-la no bebê — Eles pagarão caro por me subtraírem meu melhor acólito. E agora? O que farei com você, pobre criatura indefesa e desprezível?



Olhou em volta e mirou sua atenção numa espécie de caixa de madeira perto do roupeiro, similar a um baú ou arca com madeira revestida em couro. Um dos pertences deixados pelos antigos moradores do local.



— Venha, vou mantê-lo em segurança, apesar de sua utilidade apagada. — disse Chernobog pegando o bebê híbrido no colo — Mas antes devo acalma-lo para que não propague sua onda psíquica e fragilize meu exército. — fizera o movimento de adormecer, porém Dante seguia desperto e chorando de soluçar — Provavelmente, o feitiço de inibição deixava você mais propenso ao adormecer forçado. O pior é que Zaratro era o único capaz desse encantamento, afinal ele próprio o criou! 



Foi andando até o baú e levantou a tampa com telecinesia fazendo menção de depositar Dante dentro do recipiente. Mas o fitou brevemente.



— Eu podia despedaça-lo até sua alma ser consumida e reduzida a poeira estelar. Mas confio na sua boa-aventurança futura de modo que se curvará ao seu único deus, este que o carrega nos braços tão piedosamente quando poderia rasgar sua carne imatura neste exato momento. — dissera, logo o deixando no interior do baú. Fechou a tampa que abafou o choro inconsolável — Preciso fixar uma barreira neste invólucro que impeça sua manifestação de poder, bem como lhe provenha ar respirável.



Voltou-se ao Necronomicon, folheando algumas páginas na busca de um feitiço que torne um ambiente fechado e exíguo sem limitação de oxigênio combinado ao bloqueio de expansão da onda psíquica caso Dante explodisse sua aura conforme seu estado emocional. O uso dos feitiços não comprometeria em nada o andamento daquele que permitia Khaleido influenciar fisicamente no mundo terreno.



No anfiteatro, Nathan e Miyako se dirigiram a Agnes para encarecidamente fazerem um pedido.



— Agnes, poderíamos contar com sua magia pra trazê-lo de volta? — perguntou Nathan.



— Por favor, é só um bebezinho que foi usado num ritual maldito de sacrifício. — disse Miyako.



— Esse é um dos filhos de Fred? Nossa... — disse Agnes, surpresa ao ver a criança morta — Sinto muito que ele tenha tido esse destino. E sinto ainda mais por não poder fazer nada.



— Não pode ou não quer? — desafiou Nathan, exasperado.



— Ei, Nathan, segura a onda aí. — repreendeu Frank tocando no ombro — Se ela disse que não pode, talvez não seja mesmo possível, não pra ela.



— Frank, seu pescoço está ferido... — disse Adrael que imediatamente colocou uma mão sobre o ferimentos e o sarou com sua luz.



— Valeu, Adrael. Te devo essa.



— Não deve nada, nunca deveu. A única dívida que temos um com o outro é de mútua gratidão.



— Estão me pedindo pra efetivamente reviver um ser humano. A magia necronomiana é muito abrangente, mas não para burlar as leis universais. E também não usaria necromancia, muito menos numa criança de tão pouca idade.



— Mas você viajou no tempo com aquele feitiço. — disse Nathan, insistente.



— Não foi uma viagem temporal propriamente dita. — corrigiu Agnes — Lamento, não há como, por maior que seja o leque de opções da magia.



— Será que um anjo não poderia reviver alguém sem ser punido? — questionou Natasha.



— Para o nosso descontentamento, não. — disse Raziel aparecendo inesperadamente — A proibição de ressurreições permanece, isso é ainda mais passível de penalidade aos anjos.



— Eu vou te implorar... — disse Nathan aproximando-se do ofanim, comovido — Sei que pode fazer isso. Abre uma exceção, pelo menos pra ele.



Dynno e os demais caçadores chegavam e subiram no palco.



— Captamos sinais daqui. Nem imaginava que vieram pra cá. — disse o líder da Insurgência — O que é isso que a Miyako tá segurando?



— É um dos filhos que o Fred teve com a Lilith. — disse Frank, desalentado.



— Aquele que o Adrael trouxe hoje cedo? O meio a meio?



— Não, o humano. Sacrificado por vampiros.



— Oh meu Deus... — disse Dynno com dó — Coitadinho do neném... Mas pra quê fizeram essa atrocidade? Cadê o filho da puta do líder da facção?



— A líder, no caso. Já acabamos com a raça dela. Aliás, a Natasha é quem merece o crédito. A vagaba almejava virar a nova líder suprema dos vampiros. Mas acabamos com a festa dela.



— Não, Frank, nós dois juntos fizemos justiça, como você determinou. — dissera Natasha, modestamente.



Miyako ajoelhou-se diante de Raziel aos prantos.



— Eu suplico, por favor! Traz ele de volta.



Hoeckler e alguns agentes da ESP vinham chegando ao palco.



— O que está havendo aqui? — perguntou ele vendo Miyako curvada ante a Raziel.



Agnes contava tudo ao amado que se estarreceu com o trágico ocorrido. Raziel encarava Miyako condescendentemente. Levantou o rosto dela e enxugou suas lágrimas.



— Vejo que expressam um afeição muito grande por ele. Agora sabendo que a vida desse rebento foi ceifada tão cruelmente... posso me abrir a quebrar uma terceira regra. Uma vida tão precoce interrompida assim é por si só uma afronta a ordem natural, o que dá margem para restaura-la.



— Raziel, sabe que o entendimento da corte não é bem esse. — alertou Adrael — Não que eu concorde com as implicações de uma ressurreição, mas estará arriscando sua reputação que é uma das mais ilibadas.



— Eu já me autocondenei enviando humanos ao mundo celestial para reaver a Flamígera. Um outro crime não fará diferença alguma no que for acontecer a mim.



Carrie fazia uma chamada de vídeo para Natasha ficando a par. A caçadora mostrou o celular, a assistente na tela com os olhos molhados.



— Carrie tem algo a dizer.



— Raziel, seja piedoso. Você é um ofanim, sua misericórdia deve se espelhar na do Altíssimo. Revive esse anjinho, por favor.



— Eu o farei de muito bom grado.



Miyako levantou-se. O ofanim fechara os olhos numa expressão séria, baixando a mão direita sobre o corpo de Fred Jr., a luz dourada emanando da palma e envolvendo o bebê. A expectativa era partilhada entre todos ali, os olhos fixos no pequeno cadáver embrulhado no pano branco ensanguentado.



A luz angelical de Raziel se desfez e o ofanim reabria os olhos. Um silêncio perturbador se fizera.



— Acorde, pequena vida. — disse o anjo.



Miyako mudara drasticamente de semblante ao sentir a respiração do bebê retornando bem como os batimentos cardíacos. Fred Jr. logo foi emitindo seu choro que aumentava aos poucos, movendo os bracinhos, tendo o rosto descoberto por Miyako. O bebê chorava como se tivesse acabado de sair do útero.



Os caçadores e agentes suspiraram aliviados, alguns batendo palmas pela nobre ação. Frank não conteve uma lagrima que escorreu e um sorriso emotivo ao ver a felicidade compartilhada de Nathan e Miyako. Natasha a abraçou de lado, olhando afável para o bebê.



— Shhhh, calma, amorzinho, foi só um pesadelo. — dizia Miyako o balançando calmamente.



— Era assim que eu falava pra acalentar ele quando acordava chorando. — disse Lilith saindo das sombras dos bastidores do palco.



— Você... é a mãe dele?



— Eu fui. — disse ela que parecia tristemente decidida a algo. Voltou-se para Raziel — Acho que é uma boa hora pra engolir meu orgulho de demônio e... agradecer pelo que fez. Obrigada.



— Eu poderia rejeitar sua gratidão considerando sua impureza infernal. Mas... dada a circunstância, eu a aceito. Presumo que a vida maternal tenha sido corretiva, de certa forma.



— Os planos que tive com o Fred foram pra colocar minha vida num novo eixo. Ele me fez redescobrir a humanidade que eu havia perdido, ou pelo menos uma parte dela latente, me dando a chance de ser mãe. O Fred Jr. apenas fortaleceu esse sentimento. — declarou Lilith que virou-se emocionada para Miyako — Pode me dar ele? Esse choro com certeza é de muita fome.



— E de saudade também. Ainda mais depois desse sono bem profundo. 



A caçadora entregou o bebê aos braços da demônia que deu a ele o seio, calando o choro.



— Cara, isso foi lindo demais. — disse Dynno, limpando lágrimas — O que tá olhando? Não posso me emocionar mais?



— Agora que o Fred Jr. renasceu, só resta nos preocuparmos em resgatar o Dante. — disse Frank.



— Mas ele não estava com os serafins? — indagou Lilith, afligindo-se — Adrael, ele era sua responsabilidade! Como isso aconteceu?



— O bruxo profano encontrou uma maneira de rapta-lo para devolver ao poder de Chernobog. Além disso, Dante despertou seu lado obscuro, a metade que carrega o seu sangue. Creio que por razão ele se expôs, estar fora do radar vem da sua essência angelical.



— Faz sentido. Nessa altura o trevoso deve estar se empanturrando do poder dele. — disse Frank.



— Vocês anjos precisam agir antes que ele acabe matando Dante de tanto sugar o poder até a última gota. — pressionou Lilith — O que ainda estão fazendo aqui? 



— Estamos organizando nossas posições para deflagrar a guerra santa. — disse Adrael — Os querubins e ofanins caídos devem estar dando curso a isso neste exato momento.



— Guerra Santa? — quis saber Nathan.



— Um evento apoteótico tal qual o crepúsculo dos tempos. — disse Raziel — Mas não temos provisões suficientes para pravelecer, nossa desvantagem não é apenas numérica.



— Eu não diria isso com tanta certeza. — disse Lisbell vindo com seu pequeno grupo de bruxos.



— Lisbell?! — disse Frank meio surpreso — Reuniu sua antiga turma pra vir somar ao fronte?



— Não íamos ficar de braços cruzados achando que isso não nos interessa. — disse a bruxa.



— Os problemas dos caçadores agora são nossos também. — disse Naomi, amiga de Lisbell.



— Sabia que viria. — disse Agnes dando as mãos para sua aprendiz.



— Eu nunca perderia uma festinha dessas. O fim do mundo tem que ser vivido perigosamente.



— Espero que nós também não tenhamos sido esquecidos. — disse uma voz com a qual Frank era bastante familiarizado. O detetive virou-se olhando para uma área opaca do palco de onde vinha um jovem esguio, alto, caucasiano e de olhos hererocrômicos verde e azul.



— Não tô acreditando nisso... — disse Frank.



— Nem eu. — falou Carrie através da chamada de vídeo do celular de Natasha, chocada.



— Olá, Frank. Bom rever você. — disse Atticus, o esper mais poderoso que existiu.



— Mas... é o esper-X?! — disse Hoeckler, pasmo — Ressurgiu do Limbo junto com seus irmãos?



— Esqueceu que ele tinha criado uma dimensão exclusiva pós-morte pra espers? — relembrou Frank — Mas fiquei curioso. Você tá aqui como fantasma que pode interagir fisicamente? Você nunca havia aparecido pra mim em espírito.



— Eu me encarreguei de uma função que requeria minha presença o tempo inteiro. — disse Atticus, a postura amigável — Você sabe, eu me tornei uma espécie de deus que recebe seus fiéis quando morrem.



— Pai, você nunca me falou desse cara. — sussurrou Nathan perto de Frank — Já ouvi falar de espers, mas histórias bem negativas. Ele é confiável?



— Costumava não ser. Mas são águas passadas. Ele tá afim de nos dar uma força.



— Não somente eu. — disse o esper sorrindo confiante. Mais alguns espers surgiram vindo por detrás dele. Uma saudosa figura em particular abrilhantou o olhar de Frank.



— Virginia?! — disse ele emocionado com o retorno da esper que mantinha suas madeixas loiras, mas agora bem lisas. Ela sorriu abertamente ao detetive — Que satisfação te rever depois... de ter deixado você morrer.



— Frank, não precisa se culpar, não por mim. Você não tinha como impedir, ninguém poderia. Mas encontrei uma paz melhor do que jamais imaginei um dia ter. Eu também tô feliz de te rever, senti saudades.



— Digo o mesmo. Você e essa galera só vão adicionar mais peso a nossa artilharia.



— Atticus nos escolheu a dedo. — disse Virginia.



— Os mais próximos do meu nível, sem querer me gabar. — reforçou Atticus, bem-humorado.



— Queria que a Lucy tivesse vindo só pra ver a carinha dela vendo essa conversa. — brincou Carrie fazendo Natasha dar uma risadinha. 



— Mas como ficaram sabendo da situação geral? — perguntou Hoeckler.



— Surgiram sinais de interferência extradimensional. — informou Atticus — Procuramos a origem e paramos aqui.



— É Khaleido. — citou Agnes — Chernobog conjurou o pior dos feitiços ocultos. O Necronimicon deve ser destruído, é a única forma de interceptar a ação de Khaleido.



— Eu tive visões dessa entidade quando Sephirath me tinha como eleito. — revelou Atticus, sério — Ela me mostrou eventos anteriores a criação do Antiverso.



— A condenação de Khaleido que foi sujeitado a uma eternidade de isolamento numa dimensão criada unicamente para prende-lo. — disse Raziel.



— E está saindo dela em direção a alma do planeta. Ele deve ser imediatamente parado. — disse Thaumiel aparecendo com mais dois ofanins, dentre eles uma centuriã.



— Thaumiel, que prazer reencontra-lo. — disse Adrael — Pensei que tivesse se filiado a Raguel.



— Eu idolatrava Raguel como um servo fiel ao seu rei. Mas não a ponto de tão cegamente me desvirtuar do que fui instruído só por oposição ao destino de Azrael e todos os corrompidos. 

— O que é essa alma do planeta? — indagou Dynno.



— Mundos como esse também são dotados de alma. — contou Raziel — A essência etérea que sustenta a fertilidade da vida biológica, bem como ligada à almas de todo e qualquer ser vivo. Se os tentáculos de Khaleido torcerem-na, estarão todos sob o controle opressor dele.



— Talvez não todos. — especulou Agnes — Frank ainda pode ser o alvo.



— O que nos leva ao motivo de termos vindo. — disse Thaumiel — Raziel, precisamos que convença Frank a ser o receptáculo do Altíssimo.



— Belobog? Se for a única alternativa pra me isentar do teste da Flamígera, eu tô dentro. — disse Frank, aberto a sugestão.



— Pensa bem, cara. — disse Dynno — Vai deixar uma entidade usar seu corpo como um terno pra macetar o Chernobog sem você levar nenhum crédito?



— Essa entidade é o próprio deus criador do universo, a luz personificada. — retrucou Frank — Tô me lixando pra crédito, quero mais é que esse desgraçado se afogue na própria escuridão. Além do mais, com ele podemos ter uma chance de exorcizar o Fred.



Lilith engoliu a saliva, tentando não se iludir com a otimista possibilidade.



— Mas se engana ao pensar que o Altíssimo detém a propriedade máxima da criação primordial. — contrariou Raziel — No princípio, Belobog e Chernobog foram um único ser, mas devido a uma crescente instabilidade de poder, se dividiu em dois. O Altíssimo era a metade dominante que ejetou sua malignidade, a qual assumiu uma existência autoconsciente.



— Chernobog. — disse Frank, atento — Pode-se dizer que ele tava com um câncer maligno que adquiriu vida própria e foi expulso.



— A condição não era análoga a uma enfermidade, mas a sede constante de poder adoecia a razão e o intelecto supremo da antiga versão do Altíssimo.



— Então o antigo deus supremo estava se tornando... um tirano obcecado por poder? — perguntou Natasha.



— Exato. Mas graças a intervenção das demais entidades, ele foi forçado a se dissociar do mal que ameaçava cobri-lo. No entanto, a divisão deu início a uma inimizade cujo maior conflito foi determinante para a existência do todo que nos rodeia. O choque desses poderes deu origem ao que os humanos denominam de Big Bang, desencadeando a alvorada dos tempos. — contava Raziel tal qual um orador solene.



— E se houve uma alvorada, deve haver um crepúsculo. — disse Thaumiel — Estamos nele agora.



— E por que Belobog permite isso? — indagou Miyako — Não é querendo blasfemar, mesmo eu vindo de uma família com uma crença diferente, mas... Ele poderia intervir pra dar um fim nisso.



— O crepúsculo dos tempos é um evento apoteótico que não pode ser impedido, mas o Altíssimo não proíbe que forças inferiores possam reverte-lo. Entretanto, receio que ele não aceitará ser assimilado. Teríamos que passar pela corte arcangelical, o que, convenhamos, é um obstáculo intransponível.



— Nesse caso, o escolhido deve fazer o juramento. — disse a ofanim.



Frank deixou cair os ombros em desânimo. Dynno tocou nele amigavelmente.



— Só restou essa opção, parceiro. As vezes ficamos sem escolha no final das contas.



— Frank ainda pode ter resquícios que o conectem a Khaleido, embora o instinto ancestral tenha se esvaído? — questionou Adrael.



— A limpeza que fiz não deixou sobras, mas não impede que Khaleido possa afeta-lo já que através da alma cósmica ela poderá acessar todas as almas humanas que selecionar. 



— Na profecia de Zaratro, constava que Khaleido transformaria o mundo em algo semelhante ao Limbo num pacto firmado com Chernobog por um feitiço que anula a condenação, mas apenas disso que temos certeza. — disse Agnes — A história de Orion se entrelaça a de Frank. A demanda de sacrifícios a Khaleido foi a mesma, ambos corriam o mesmo risco.

— Significa que essa vinda de Khaleido poderia ter acontecido lá nos tempos do Orion se ele tivesse passado no teste? — perguntou Frank.



— Provável, seria a única alternativa de Khaleido em se apossar dele para caminhar sobre a Terra e reinar como está tentando agora. — explicou Agnes. 



— Zaratro pode ter forjado uma falsa profecia? — conjecturou Hoeckler — Ou previu errado?



— Eita, podíamos ter perguntado antes de eu meter uma bala nele. — disse Frank sorrindo nervoso.



— Você o matou? — disse Nathan.



— Não sozinho. — respondeu Frank apontando para Agnes com o polegar — Vinguei o Jack. Ah, Lilith, vingamos o Fred Jr. também. Mas agradeça a Natasha, nossa experiente matadora de vampiros.



— Não sei se devo estar grata ou com inveja. — disse a demônia.



— Quando tiver decidido, me avisa. — disse Natasha, levantando uma sobrancelha. 



— Precisamos articular uma estratégia, já estamos há tempo demais aqui. — disse Adrael — As criaturas do Limbo se aproximam.



— Os serafins podem se manter na retaguarda contra os querubins, assim diminui o alto risco de baixas. — disse Thaumiel — Assumimos a linha de frente, mas abrindo caminho para que Frank possa chegar em segurança ao inimigo.



— Raguel ostenta seis legiões. Não levaremos vantagem. Ele pode ordenar um ataque generalizado. — supôs Raziel.



— Eu sei como facilitar pra vocês. — disse Lilith aproximando-se dos ofanins, fechando seu peito após Fred Jr. se satisfazer — Atraindo a atenção dos querubins.



— O que pretende com isso? — indagou Adrael. 



— Pegue-o. — disse ela entregando o bebê ao anjo. Adrael estranhou, mas o aninhou — Ele tá mais calminho, aceita qualquer colo.



— Lilith, tá pensando em fazer o quê? — questionou Frank — Acho que um demônio do nosso lado não vai ser de muita utilidade.



— É claro que vai. Com uma boa armadilha.



— Mas é o seu filhinho, fica com ele até isso tudo acabar. — disse Miyako.



— Ele já não me pertence mais. — disse Lilith o olhando melancólica. Voltou-se a Raziel — Sei que vocês ofanins tem uma arma secreta, algo como uma granada que pode ser introduzida.



— Quer abrigar o pomo de ouro em si mesma? — disse Thaumiel.



— Pra exterminar aqueles idiotas, me abro a esse sacrifício.



— Eu tô de cara com o que acabei de escutar. — disse Frank — Um demônio se dispondo a um plano kamikaze? E sendo logo você, Lilith?! E o Fred? E os nenéns?



— Vamos encarar, Frank, perdemos o Fred. Devia estar conformado.



— Posso tentar arranca-lo do Chernobog de algum jeito, eu acredito numa solução.



— Não há como salva-lo! Vê se larga desse otimismo fajuto, bem lá no fundo você sabe que é impossível! — disse ela que se conteve ao ouvir Fred Jr. gemendo em tom de choro. Beijou a testa do bebê — Eu sempre vou te amar, Fredzinho.



— Ele estará seguro no cortiço. — asseverou Adrael — Há soldados reservas que irão protegê-lo com suas vidas. Eu... agradeço a confiança.



— Sem ressentimentos. — disse ela, sorrindo de canto. 



— Se está mesmo disposta... — disse Raziel mostrando a pequena esfera dourada — Venha. 



Lilith aproximou-se mais, logo o pomo de ouro sendo introjetado em sua barriga fazendo-a sentir um desconforto. Frank veio até ela.



— Tá carregando uma bomba... precisa do detonador. — disse Frank entregando a lâmina sacerdotal.



— Não errou na escolha. — devolveu ela pegando a espada pelo cabo — Adeus, Frank.



O detetive fazia que sim devagar com a cabeça.



— De todas as coisas ruins que você foi, mártir era o que eu menos esperava. Mas apesar de toda a monstruosidade, consigo enxergar o amor verdadeiro que você cultivou pelo Fred e pelos bebês. Não tem nada mais humano do que morrer por quem mais ama.



A demônia baixou a cabeça, controlando as lágrimas.

— Salva o Dante por mim e pelo Fred.



— Ele será salvo. Te prometo. 



— Eles vão saber que foram muito amados pelos pais verdadeiros. — disse Miyako.



— Será que falta mais alguém do passado pra aparecer? — indagou Nathan.



Assim que dissera, viu uma sombra vigorosa sair das trevas. Tratava-se de Nero tendo ficado sua alma num corpo ainda mais robusto. Dynno e os amigos sacaram as armas e miraram. Frank se colocou na frente, apaziguador.



— Podem baixar, ele tá conosco!



— Ele é um daqueles amaldiçoados das górgonas! — falou Otto — Confia nele?



— Papai tá certo. — disse Nathan olhando para o ex-algoz — O Nero quer somar ao time. Não é?



— E que escolha eu tenho senão lutar pela comunidade que dediquei quase toda minha vida? Me desculpem pela aparência pouco convidativa.



— Gostei da nova estátua. — disse Frank — Como soube que estávamos aqui?



— Lucy me notificou via ligação psíquica.



— Agnes me manteve atualizada e repassei a Lucy. — esclareceu Carrie.



— Contem comigo pro que precisarem. 



— Tem um exército? — perguntou Raziel.



— Criarei um. 



— Já que está com a espada, Frank... — disse Adrael — É tempo de abraçar o inevitável. Todos aqui presentes acreditam que é digno.



Frank olhou em volta, ainda inseguro. Baixou os olhos para a arma de luxuoso tom dourado. Não haveria mais subterfúgios ou desculpas para livra-lo da predestinação, não importando como ela se revelasse na avaliação do teste.



— Frank, olha pra mim. — disse Carrie — Depois de tudo que passamos sendo parceiros de trabalho, só concluí o quanto a nossa ligação impactou na minha perspectiva de vida. Você me apresentou um novo mundo repleto de perigos, mas me fez acreditar que ele podia ser superado. Sabe por que? Porque você me provou que um homem devotado a esse propósito de vida pode vencer o medo da perda.



Frank a fitou emocionado com aquelas gratificantes palavras. Sua mão segurou mais firme o cabo da Flamígera.



— Pai, toda a fé que sou capaz de elevar me diz que você é totalmente digno. Não só da espada como também de vencer a batalha. Um caçador não pode ter medo da arma que segura, mesmo que ela não garanta a vitória. Você se move e luta, porque o processo importa mais que o objetivo e...



— Tá legal, agora todo mundo resolveu pagar de coach motivacional? Tudo bem, recebo e agradeço o encorajamento, mas...



— Mas o quê, Frank? — disse Natasha — A sua melhor amiga e o seu filho tentaram te convencer e ainda assim não bastou? O Frank de quem me tornei amigo se colocava frente aos riscos por ser quem ele é. A situação é caótica, é diferente e é demais pra você e pra todos nós, mas é preciso acreditar que a esperança não foi abandonada. Você simboliza essa esperança, Frank.



Os olhares transmitiam toda a confiança.



— Só tem um jeito de saber, né? — disse ele erguendo a espada. Respirou fundo e fechou os olhos gerando alta expectativa — Ó santíssima espada, eu juro servir incondicionalmente ao seu resplendor se eu digno for.



As labaredas inflamaram a lâmina rapidamente da base para a ponta. O acender da Flamígera gerou calorosos aplausos entre todos, inclusive os anjos. Carrie sorria de alegria como nunca.



— Admite agora que estava errado? — disse Hoeckler.



— Pois é, eu desdenhei da fé que tinham em mim, me desculpem. Eu tô incendiando por dentro, nem acredito.

— Muito bem, agora precisamos nos mobilizar. — decretou Nathan, empolgado — E daí que pode ser nossa última noite na Terra? Ao menos estaremos lutando pra salva-la. Não é, pai?



Frank abraçou o filho de lado, orgulhoso.



— Não consegui rastrear a localização do Necronomicon. — disse Lisbell.



— Será que não está no mesmo lugar onde foi aberto o portão do Limbo? — especulou Natasha.



— Ou onde Khaleido vem entrando. — disse Miyako — Peraí, essa coisa tá vindo literalmente pra cá?! Mas onde vai acessar a alma da Terra?



— O abismo. — disse Frank, pensativo — Pelo abismo de Danverous City, sem dúvida. O Chernobog planejou isso desde antes de voltar.



— A casa da Lilith. — deduziu Nathan — É um lugar reservado e discreto pra manter o grimório.



— Dante pode estar lá também, por isso não deu pra localizar. — afirmou Lilith.



— Eu cuido disso. Mas como se destrói um grimório tão poderoso? — se habilitou Nathan.



— Com uma arma igualmente poderosa. — disse Miyako desembainhando a katana Raikiri. Entregou a espada para ele — Faça bom uso.



— Não, Miyako, essa... é a espada mística que você ganhou de presente, você sempre quis usa-la. Vai precisar mais do que eu.



— Deixa que eu me viro com minha velha katana normal. As bruxas não podem duplicar a Flamígera, então essa é a única arma forte o bastante que resta pra destruir o livro.



O híbrido pegou-a, grato pela consideração da amada. 



— Lembre-se de evocar sua força interior pra despertar o poder dela. E o mais importante: tentar sobreviver. — disse Miyako. O casal beijou-se — Não vamos fazer disso uma despedida. Temos um futuro... um longo futuro juntos pela frente.



— Não vou te desapontar.



— Aí, Nero, desculpa a má recepção. — disse Dynno — Toda ajuda é bem-vinda. Isso vale pra vocês também. — apontou aos espers.



— Ficaremos dispersos ajudando todas as frentes. — disse Atticus.



— Mas vocês dão conta? — indagou o caçador.



— Não é uma preocupação pra quem já está morto. — disse Virginia.



— Parece que todas as tribos se juntaram. — disse Frank — Hoeckler, se vencermos, como vai fazer pra apagar a memória de todo mundo?



— Não precisaremos de amnésicos pra isso. Na verdade, quase sempre nunca precisamos. — disse ele olhando para Agnes — Quando se tem uma bruxa do lado, a vida é facilitada.



— Quer dizer que... a Agnes pode usar um feitiço de amnésia geral?! Aí sim hein.



— Mas dessa vez exige o sêxtuplo de mana, recorrerei aos meus aprendizes.



— Vou deixar o bebê no cortiço. — disse Adrael, logo desaparecendo em milissegundos.



— Iremos nos agrupar. Até mais. — disse Raziel que logo subiu com Thaumiel e os demais.



— Frank, já chamei uma van exclusiva pra você. — disse Hoeckler — Muito bem, agentes, reúnam as tropas, hoje será um longo dia de trabalho. — os homens armados se retiravam — Talvez o último de muitos de vocês.



— Vamos nos restringir aqui. — planejou Lisbell.



— Agnes. — chamou Lilith abordando a bruxa — Pensei na melhor maneira de atrair os querubins, mas sem sua ajuda é impossível. Um último favor?



— Estou ouvindo. — disse a bruxa, interessada.



Frank adentrava na van não largando da espada.



— Cadê a Agnes? 



— Ajudando Lilith com o plano suicida dela. Uma carta coringa.



— Ela não vai até o portão do Limbo desfazer o feitiço, né? O Nathan tá indo destruir o grimório. Dois coelhos numa paulada.



— Ela me disse que o portão não é fechado automaticamente com a destruição do grimório.



— Você vai com ela?

— Mas é claro, esses monstros estão em toda parte e a redoma só os farão se aglomerar conforme mais deles saem do portal. — disse Hoeckler que estendeu a mão para Frank — Boa sorte, amigo.



— A todos nós. — disse Frank que apertou a mão firmemente. Ambos se entreolharam por um breve instante. Um agente corria alarmado.



— Estão vindo! São centenas! Montgrow, vai pra dentro! Chefe, a contenção dos vampiros saiu do controle, já contabilizamos muitas baixas.



— A Insurgência prestará reforço. Vamos circular! 



As portas traseiras da van foram fechadas pelo agente, deixando Frank solitário com a espada. Um helicóptero pousava frente ao anfiteatro. Agnes subiu a bordo com Hoeckler. A aeronave logo voltou ao ar rumando até o portão.



Outro helicóptero aterrissava, este pegando Nathan levando a Raikiri consigo. Com todas as frentes encaminhadas, a guerra santa iniciava-se em definitivo. Serafins e ofanins se posicionaram no alto de um prédio de arquitetura arcaica observando os querubins marcharem pela área aberta onde havia praças e carros danificados.



— É uma honra cortejar a morte ao seu lado, Raziel. — disse Adrael a direita do general.



— Idem, meu caro irmão.



Alguns serafins espalhados alçavam esferas de luz branca para amainar a escuridão agoniante após Los Angeles sofrer um blecaute com a invasão dos vampiros à usina de força. Os querubins caídos lançaram suas rajadas de fogo azul em conjunto.



— Ataquem! — bramiu Adrael que liberou suas asas simultaneamente aos demais e desceu voando com eles em colisão aos inimigos. O batalhão de Raziel podia ver adiante Raguel e a tropa de ofanins caídos voando até eles.



***



A casa em que Fred sonhava em viver ao lado de Lilith com os bebês deveria estar minimamente distante do caos urbano, de preferência numa área residencial tipicamente americana. O nefilim chegava num carro esportivo preto naquela manhã agradável de sol. Lilith recebeu-o amorosamente na varanda Dante e Fred Jr. que foram pelos e colocados em bebês-confortos no carro um por vez.



— Quietinhos aí, hein. Vou só ter uma palavrinha com a mamãe e volto rapidinho. Dante, nada de choro. — disse Fred que ajeitou a posição do bebê híbrido que fazia biquinho para chorar — Prontinho, prontinho. Você odeia essa manta, né? Coisa da sua mãe.



Voltava para Lilith que parecia serenamente tranquila. A beijou na testa e nos lábios.



— Cuida bem deles, tá? Quero os três de volta as sete da noite de domingo. E não divide os culpados com o Frank, OK? 



— A quem acha que tá pedindo pra ter cuidado? Olha, pega essa manta, não deixa mais o Dante com ela, pode sufocar ele. O mesmo pro Fred.Jr.



— Tudo bem, mas anda logo, você deixou ele sozinhos lá...



— Só mais um beijinho...



— Fred, eu falo sério. Volta pra eles, estão chorando...



O nefilim virou para olhar o carro e avistou um homem encapuzado passando próximo do veículo. Lilith pontuou:



— Quando estão chorando juntos é sinal de que se sentem ameaçados. Quem é aquele cara?

O homem tirara o capuz, virando o rosto a eles. Fred viu a si mesmo fisicamente, mas não interiormente. Aquela sua versão exibia um olho esquerdo negro de íris vermelha e lançou um sorriso ardilosamente malicioso. Fred correu com urgência de volta ao carro enquanto seu eu sombrio afastava-se. Porém, assim que chegou a pouco mais de um metro, o veículo explodira tremendamente, a onda de choque o empurrando. Fred soltara um berro estridente que se prolongou sobressaltado numa cama de casal. Com suas roupas comuns, viu-se num quarto de casal com papel de parede vinho de listras douradas.



— Mais um dia ruim sendo pai de duas crianças tão trabalhosas? — disse Chernobog sentado na cadeira num canto escuro.



— Cala a boca. Cadê meus filhos? O que fez com eles?



— Um deles se encontra em minha total posse.



— É o Dante, né? Tá drenando a energia dele. Mas sei que no fundo você morre de medo de ser superado pelo que ele é.



— De fato, ele provou-me ser uma força disruptiva na hierarquia. Mas não se preocupe, vou apadrinha-lo para que sirva obediente a mim.



— Tá achando que leva o Dante como troféu pra ver ele crescer como seu escravo? Poder não significa tudo. — saíra da cama — E para de manipular meus sonhos. Quero sair daqui.



Olhou por uma janela afastando a cortina. Reviu uma de suas mais felizes lembranças: brincando com seus pais adotivos na grama em meio aos irrigadores ligados.



— Não era minha intenção acorda-lo. Eu deveria ter suavizado o conteúdo. Talvez vendo eles morrerem asfixiados naquele carro.



— É assim que quer me manter aqui? Um paraíso das melhores memórias? Eu passo. Prefiro onde eu tenho o controle da minha mente. — disse Fred que cravou os olhos na porta — Voi sair daqui nem ele seja... — tocou na maçaneta tentando abrir — Do meu jeito, então. — tomou certa distância e estendeu sua mão direita manifestando o seu poder nefilim, porém mostrava-se fraco — Não vou desistir.

Los Angeles encontrava-se sitiada pela variedade mais aterrorizante de criaturas. Agentes da ESP, numa avenida importante, cuspiam balas de metralhadoras contra lobisomens e vampiros ao passo que recuavam por segurança. Já os caçadores da Insurgência levaram o confronto para uma agência bancária cujas portas de vidro foram estilhaçadas com a van do grupo invadindo. Saíram todos, abrindo fogo contra seres do Limbo que possuíam forma canídea, sendo menores que cães infernais, mas altamente letais.

Lobisomens também juntavam-se aos cães vermelhos, vorazes e selvagens. Dynno pulou para o outro lado do balcão de atendimento usando como trincheira para atirar. Um cão do Limbo pulou sobre o balcão, seus múltiplos dentes rangendo, masofo foi abatido por Miyako com sua katana. A caçadora transpassava cada criatura que a cercava com a espada de forma rápida e implacável. Chegou a empalar um lobisomem da mandíbula até a cabeça.

Natasha encontrava-se encurralada, mas Miyako saltou pulando de algumas cadeiras. Desferiu golpes mortais nos monstros. Porém, um lobisomem veio pro trás da caça-vampiro, mas Miyako a empurrou logo atravessando sua lâmina no meio da cabeça do lobo e o empurrou contra uma coluna. Um dos caçadores jogou uma granada de gás, repelindo parte deles.

Um Zeta surgira ali e apanhou Jasper como sua vítima num ataque surpresa com o gás alucinógeno saindo dos buracos das mãos. O caçador recuou aos berros sentindo ter tido os olhos pulverizados. Começou a visualizar seis piores medos: aranhas negras, peludas e gigantes. Seu grito de horror aumentou enquanto atirava a esmo.

— Jasper! Se controla! — disse Jamal tentando contê-lo, ambos caindo ao chão. Os tiros acertaram outros, mas nada grave. As vidraças próximas se estilhaçaram. Um caçador veio com um lança-granadas, disparando no Zeta antes que escapasse. Com a explosão, partes do corpo da criatura saíram voando.

— Otto, não vai por aí! — alertou Tristan. Dando voltou a atenção para onde o amigo estava: a cabine de portas giratórias com detector de metais — Droga, ele tá preso! — disse enquanto atirava em mais lobos e cães do Limbo, alguns dos quais invadiam a cabine.

— Vou usar o brinquedinho que os caras da ESP me emprestaram! — disse ele que virou-se olhando para os amigos — Galera, foi um prazer!

Deixou-se ser abocanhado pelos cães no exíguo espaço, logo detonando um dispositivo cuja explosão não liberou fogo, mas um pulso eletromagnético que transformou-os em carne semi-liquefeita, o sangue e os pedaços banhando o vidro. 

— Otto! Nãããooo!!! — berrava Dynno aos prantos e caiu ajoelhado, socando o chão. Miyako e Natasha se abalaram.

Enquanto a Insurgência lidava com suas perdas graduais, a van que transportava Frank sofrera um bruto ataque de ofanins caídos lançando fogo amarelo. As rajadas fizeram o veículo tombar. As portas abriram e Frank saía quase engatinhando, dando de cara com demônios fora de hospedeiros correndo até ele. O detetive reergueu-se, a Flamígera se inflamando. Com os movimentos ágeis de corte, os demônios eram instantaneamente vaporizados e incinerados.

Adrael enfrentava querubins ali perto.

— Frank está com problemas! — viu o exército de demônios se aglutinando em torno dele. Mas a ajuda veio oportunamente.

— Recebam a vida como suas preciosas armas! — bradou Nero tocando em estátuas de gárgulas numa suntuosa igreja gótica e lhes concedendo vida própria. Os monstros de pedra caíam de pé ao chão e marchavam — Frank, é sua deixa!

— Você e seus truques hein! — disse Frank em tom de alegria, afastando-se da zona de perigo. 

— Eu disse que criaria um exército! 

As gárgulas vivas colidiram com os demônios, atacando furiosamente numa guerra selvagem. Frank correu por uma rua ao dobrar, mas ofanins caídos juntos de Raguel o cercaram.

— Me entregue a espada e o pouparemos, Frank. — exigiu Raguel.

— Um amiguinho querubim seu me disse a mesma coisa quando fui rouba-la! — rebateu Frank, impetuoso — Você quer de volta? — a espada incendiou — Vem tirar ela de mim!


— Se insiste... — disse Raguel, friamente — Matem-no!


Os ofanins lançaram suas rajadas flamejantes que acertariam-o em cheio se não fosse por Raziel pousando frente a ele em proteção e lançando uma onda de luz que empurrou os caídos, mas Raguel resistira.


— Fuja!


— Mete o aço nesse traíra! — pediu Frank que tornou a correr. 


— Raziel se ausentou de seu posto, aproveitem! — ordenou Raguel aos subordinados que alçaram voo com suas asas negras — Cometeu um erro largando sua tropa a própria sorte, irmão!


— É o que você faria se estivesse à sombra da morte! — replicou Raziel savando sua espada luminosa. Os irmãos ofanins avançaram prestes a colidirem-se.


Frank corria por um beco freneticamente, mas fora barrado por cães do Limbo que dobraram para ataca-lo. A Flamigera reacendeu e Frank baixou a espada que lançara uma onda de fogo, incinerando as criaturas ao mínimo contato. Novamente ele se surpreendia com o poder devastador daquelas chamas e seguiu adiante.


Paralelamente, no prédio da Globemax, um demônio acólito de Chernobog, possuindo um homem esguio e calvo de terno, manuseava um computador na sala anteriormente ocupada por Elton Hartley, entrando em um sistema criptografado, o qual decifrou para liberar o acesso. No topo da página estava escrito a expressão Deus Vult. Apertou enter. Na tela via-se uma espécie de gráfico sendo preenchido em sentido horário mostrando um percentual crescente.


No helicóptero que sobrevoava uma área de vasta vegetação, Hoeckler comentava com Agnes acerca de uma operação extra da ESP. Raios vermelhos rasgavam os céus.


— Invadir a Globemax? Mas o que precisa ser feito lá pra reforçar que vocês estão fora? — perguntou Agnes sentada frente a ele.


— Uma força-tarefa adicional. Precisamos interceptar um processo que pode fortalecer Chernobog como uma segunda fonte de poder. Enquanto a parceria vigorava, extraímos arquivos sigilosos armazenados num nível restrito e criptogragados. Nosso supercomputador, infelizmente, não fez milagre. Mas havia informações descritivas.


— O que era essa trama oculta?


— Um protocolo chamado Deus Vult que tinha como base os chips antivírus. Se ativado, esse sistema desbloquearia o software alternativo que substituiria o padrão. O chip é uma máquina e como tal passa por atualizações. Os adeptos as fizeram, estando sujeitos ao sistema oculto que submete um transe mental de adoração e culto. Adrael me revelou que Elton Hartley antecipou esse evento quando esteve sob custódia dos anjos.


— Sim, claro... — disse Agnes imaginando a gravidade — Como uma divindade, não seria estranho Chernobog se utilizar de um canal que converta adoração e louvor em poder bruto.


— Eu sempre soube que Elton Hartley não foi um completo inútil. Ele não sairia dessa não dando ponto sem nó.


Em diversos lares, pessoas se ajoelhavam com os olhos negros como se estivessem infectadas pelo vírus miasma, proferindo palavras de veneração a Chernobog, um surto massivo de lavagem cerebral. Agentes da ESP invadiam, quebrando tetos de vidro ao descerem em cordas e armados com metralhadoras. Demônios surigam no caminho, abandonando seus hospedeiros para ataca-los selvagens. Os homens atiravam com balas batizadas.


Um agente arrombava a porta do gabinete no qual o demônio responsável pela ativação não estava mais. Ele aproximou do computador girando o programa secreto e nefasto e avisou Hoeckler via rádio. 


— Instale o mini-processador pra quebrar esse código imediatamente! 


— Inimigo à vista! — alertou o piloto vendo criaturas aladas do Limbo voando como abutres famintos. O helicóptero possuia armas acopladas que disparavam, o que, contudo, não impediu que uma delas batesse na cauda, a destruindo. A aeronave rodopiou até uma queda brutal que desprendeu as hélices.

A queda deixara um rastro fundo na área aberta e gramada, a aeronave em frangalhos com focos de incêndio. Os abutres carniceiros do Limbo seguiam sobrevoando em grande número. Hoecller e Agnes forçosamente saíam andando de quatro tendo ambos sofrido nas amais que algumas escoriações.


— Jordan! — chamou Hoeckler pelo piloto ao levantar e caminhar meio manco — Agnes... Vocês está bem?


— Alguns arranhões, nada demais. — disse a bruxa reerguendo-se — O portão está logo ali...


Hoeckler conferiu a cabine do piloto ao se debruçar sobre a janela devido a aeronave ter caído de lado. Estarreceu-se ao ver Jordan preso às ferragens e sem vida, os olhos abertos no rosto com bastante sangue escorrendo. O fogo elevou-se por dentro.


— Jordan... Ele não sobreviveu. Perdi um dos meus melhores pilotos. Será um milagre termos escapado?


— Se aporte existe e conspira a nosso favor... não podemos abusar dela. Vem, estamos quase lá, não podemos parar... — disse Agnes que foi andando.


— Cuidado! — disse Hoeckler ao pular sobre ela. Ambos caindo antes que a língua esticável de uma das criaturas acertasse a bruxa. O monstro alado horrendo baixou o voo para abocanha-los. Antes tomara a frente de braços abertos.


— Invisiable!


A dupla desapareceu da vista dos monstros, a criatura voando rente a eles crendo que suas presas sumiram.


— Estamos ocultos, por enquanto.


— Não ppde manter durante o fechamento do portão?


— Toda escolha é uma renúncia e na magia não é diferente, Theodor. — disse ela que logo levantou e o ajudou — Vamos, depressa.


Frank subia um prédio pela escada de incêndio. Ao alcançar o terraço, avistou luzes de helicópteros da ESP que sobrevoavam a zona do perímetro mais crítica. Perto de um parapeito, acendeu um sinalizador de luz rosada e o balançou correndo pelas beiradas. Uma dupla de pilotos notara o pedido de socorro e se dirige até lá rapidamente. Já próximos do detetive, liberaram uma escada na qual ele subia com a espada presa ao cinto. 


— Notícias do Hoeckler e da Agnes?


— Sofreram um acidente. — disse um deles — Mas estão vivos, se encaminhando ao portão.


Nas ruas, Dynno metralhava com furor, dentro do compartimento traseiro da van da ESP, vários cães do Limbo que os perseguiam. O caçador berrava efusivamente, sua adrenalina em alta concentração manejando aquela metralhadora giratória cuja munição parecia inesgotável. Noutra rua, também numa van, Atticus utilizava seu poder psicocinético, estando na traseira do veículo tal qual Dynno, pada fazer ceder o asfalto e soterrar os cães num terremoto, o que resultou em sucesso.


Nathan encontrava-se na metade do trajeto rumo a casa de Lilith, desviando das árvores e suportando a semi-escuridão - parcial gracas a uma esfera de luz angelical pairando metros acima. Criaturas do Limbo de corpo robusto num tom e pele preto-arroxeado, de envergadura similar a de rinocerontes tendo cabeças de formato meio oval e meio cilíndricas privadas de olhos, se ouriçavam já que guiavam-se somente pela audição. Os passos de Nathan serviram de chamariz para aqueles seres abomináveis correrem visando sua presa.


— Até que demorou. — disse ele que disparou.


Nathan alcançou a casa, arrombando a porta num chute, logo avançando até o quarto onde o Necronomicon foi visto levitando com sua aura suja emoldurando-o. Porém, não via sinal algum de Dante.


— Ele deve ter levado o bebê... — supôs ele, focando no grimório. Os seres bestiais se aproximavam velozes. Nathan virou-se sentindo as ameaças encurtarem o caminho até ele — Muito bem, você talvez tenha uma só chance...


Ergueu a espada sobre a cabeça e fechou os olhos. Tentou reunir seu poder interior no âmago. Mas a espada não esboçava reação.

— Qual foi? Funciona! Será que ela confundiu as espadas? Não, conheço a Miyako, ela não seria tão distraída... — disse o híbrido, se afligindo olhando para a lâmina — Meu poder interior... canalizado. — tentara novamente, desta vez ignorando o perigo iminente em máximo foco.


Faíscas elétricas piscavam na lâmina até se acentuarem com raios expressivos envolvendo-a. Nathan preparou-se para o golpe, tenaz.


— É agora! 


Baixou ardorosamente a lâmina tempestuosa contra o grimório, o partindo em dois, os raios poderosos se dispersando no recinto. Parecia difícil processar a visão do Necronomicon caindo chamuscado em duas partes. Chernobog estava sentado na elevada borda da cratera de Danverous City sob o céu vermelho e preto. Um pequeno exército das forças armadas americanas havia passado nas proximidades, mas foram vitimados por demônios e vampiros. 


Diante dos corpos mutilados dos soldados, Chernobog segurava a cabeça decepada de um deles, fazendo uma análise crua da fragilidade humana.


— Eu nunca desperdiçaria uma partícula do meu poder criando seres tão atrasados, obtusos e vulneráveis. — dizia ele conforme deteriorada a pele da cabeça até a carne se expor — Será que o desgosto causado por eles não lhe faz experimentar nenhum arrependimento, Belobog? — a corrosão desmanchou a carne, expondo os ossos cranianos — Você um dia se curvará a mim clamando meu perdão como eles fazem ao seu dispor. — o crânio se mostrava inteiro — E eu terei o imenso enlevo de negar o seu pedido. — o crânio se esfarelava em cinzas, logo sendo esmagado com uma mão.


Chernobog sentira uma preocupante mudança e levantou-se. Virou para trás, sua expressão tomada de assombro.


— Não! — vociferou ao ver os tentáculos de Khaleido se recolherem de volta ao Limbo no portal — Frank... — disse, a fúria intensificando.


No anfiteatro, os cães do Limbo viam-se numerosos sendo combatidos pelos Filhos de Merlin que lançavam rajadas de magia sonares a fogo num verde esmeralda. Os espers auxiliavam ativamente na frenética luta. Uma criatura do Limbo de corpo vermelho e carnudo, um ser de aspecto tanto humanoide como bestial, adentrava invasivo. Era monocular, seu único olho amarelo que brilhava forte.


Lisbell o alvejou lançando sua magia diretamente nele enquanto terminava com alguns cães do Limbo. Passou a usar as duas mãos, fortalecendo a rajada de "fogo" esverdeado, mas a criatura dantesca resistia avançando a passos lentos para detê-la. A bruxa ruiva cerrou os dentes, levando-se ao limite, um filete de sangue escorrendo de uma narina. 


Mas de repente o monstro fora envolvido e paralisado por uma espécie de escudo quase invisível que tremulava em vibrações. Uma mão amiga recebida com gratidão. Virginia fez que sim para ela, engajada em combinar suas forças as dela até eliminarem aquela besta. Lisbell retribuiu positivamente, ainda mais motivada.


— Mire no olho! — avisou a esper — Os cães ficaram atordoados, ele os controla!


— Acha mesmo que é o ponto fraco? Vamos descobrir. — disse Lisbell que elevou sua rajada na altura do olho único da criatura que se inflamou em chamas que se espalharam pelo seu corpo que explodiu em pedaços voando pos lados. Ambas se abaixaram em proteção. Os cães caíram duros e sem vida. Os bruxos encararam o cenário num instante silencioso.


Lisbell e Virginia levantaram olhando o espaço em volta. Sorriram uma para outra. Um dos espers subiu num assento e ergueu o punho cerrado, bradando um grito de vitória. Os bruxos foram contagiados, fazendo coro em júbilo.


— Obrigada. — disse Lisbell num sorriso cansado.


— Você também. — devolveu Virginia, ofegante. Se orgulharam de seus grupos que davam as mãos e se abraçavam.

***


Uma voz soou repentina nas mentes de cada querubim caído, fazendo-os cessar o confronto de lâminas com os serafins. Tal voz deu-lhes um genuíno alento e uma esperança reacendida.


— Estão ouvindo? Essa voz... — disse Jeliel travando seu embate contra um serafim que irritou-se com a distração.


— Não baixe a guarda comigo! — disse ele, brandindo sua espada para aplicar um golpe, porém seu oponente desaparecera, fazendo-o cortar apenas o ar — Estão batendo em retirada?


Todo o exército querubim surgiu em teleporte na na nave da catedral sem os assentos. A figura de Malvus com seu traje combatente padrã os deixava ávidos e fascinados.


— É um imenso prazer estar cercado dos meus honrosas irmãos depois de um tempo me fingindo de morto.


— Mas como? O mestre atestou sua morte através do Olho Que Tudo Vê. — disse um deles.


— Foi empalado pelo tridente de Ariel. — disse uma querubim caída — Estamos todos eufóricos, mas também confusos. Aquele tridente era, em tese, uma arma aniquiladora. 


— Ah, meus caros irmãos, querem saber mesmo como voltei?


— Estamos atentos. Sempre o ouviremos.


— Eu voltei... — disse Malvus que sacava de seu cinto uma lâmina ligeiramente distinta. O assombro foi partilhado quando a aparência de Malvus, dos pés a cabeça, metamorfoseava-se em alguém também familiar — ... para me fazerem companhia no Limbo, não vou padecer sozinha lá! — dissera Lilith apontando a lâmina para sua barriga — Vocês perderam, seus imbecis!


A demônia apunhalou-se sem hesitação, seus olhos e boca emitindo um brilho dourado. A explosão resplandeceu, desintegrando cada um dos querubins, destruindo também boa parte do teto, assim deixando uma gigantesca nuvem de fumaça que fora observada por serafins.


— Não sinto energia de mais nenhum querubim. — disse Jofiel — O que foi aquilo?


— Um genuíno ato de redenção. — definiu Adrael, satisfeito.


***


Uma chuva torrencial de sangue fresco e quente caia sobre Los Angeles, dificultando um pouco o voo do helicóptero no qual Frank estava a bordo. Vampiros entraram em êxtase bebendo da chuva sangrenta que os abastecia. Natasha e Miyako voltaram a batalha ao ar livre, desferindo golpes impiedosos de suas lâminas em cada vampiro que as atacava insanamente. Hoeckler e Agnes cruzavam a floresta, o portão do Limbo estando mais perto. A bruxa divisou figuras ainda mais grotescas prestes a atravessar a luz vermelha, seres de altura e proporção maiores.


— Aqui estamos. — disse ela vendo o púlpito com os glifos místicos — O códice para abrir e fechar o portão! 


— Se sabia que havia uma senha, por que não arrancou de Zaratro quando o tinha sob poder?


— Ele mentiria, independente de estar forte como bruxo ou fraco como humano.


— Eu tentaria força-lo contando com Frank. Mas entendo, ele já não tinha mais nada a perder. Consegue adivinhar?


— Posso testar possíveis combinações, mas num tempo limitado demais até...


Rosnados foram ouvidos da floresta. Hoeckler virou-se em alerta. Destravou sua submetralhadora.


— Estão vindo pra cá. Já que não pode compartir a invisibilidade, eu...


— Não, Theodor! Ainda temos tempo, fique aqui...


— É o único jeito! — esbravejou Hoeckler mais do que decidido a fazer — Não quero ver você sendo devorada por esses monstros falhando na sua missão e eu sozinho tentando sobreviver. Por isso que vou atrai-los pra longe daqui.


Se entreolharam tristemente, uma sintonia lacrimosa e mórbida se estabelecendo.


— Mas... e quanto a nós? O que tínhamos prometido um ao outro?


— Levarei comigo. De onde quer que eu esteja, vou torcer pra que cresça cada vez mais naquilo que faz de você a mulher incrível por quem me apaixonei perdidamente. Até que a morte nos separe, lembra? Seja forte e aceite que aqui é onde terminamos nossa jornada.


Agnes transbordava pelos olhos, desconsolada. Deram um último beijo ardente. Hoeckler a fitou no fundo dos olhos e lhe sorriu satisfeito.

— Amo você. Sempre vou ama-la. 


O chefe da ESP correra até a floresta. Tentando focar-se na tarefa árdua, Agnes voltou-se as placas de pedra, ainda num pranto inconsolável, a luz escarlate banhando seu rosto molhado.


— Invisiable. — disse ela, baixinho.


Enquanto isso, Nathan barrava os seres bestiais que adentraram na casa, transformando-os em pedra. Seu poder expandiu a uma altura considerável, tamanha sua raiva. Os olhos do híbrido brilhavam intensos em vermelho, berrando como um grito de guerra. As criaturas eram massivamente petrificadas, muitas delas enquanto corriam chegando a bater umas nas outras e se despedaçarem.


O híbrido foi para fora, olhando para o alto, assim vitimando as criaturas aladas que caíam como rochas se espatifando aos montes no solo a sua volta. Fechou subitamente os olhos, não suportando o ardor pungente. Sua audição apurada detectou um choro abafado.


— O bebê... Dante... — disse ele entrando novamente. Voltando ao quarto, identificou a origem — Não pode ser... — se agachou frente ao baú e rompeu a tranca, logo abrindo a tampa. Lá estava o bebê aos berros estridentes e agitando os braços e pernas. Carinhosa e cuidadosamente, Nathan o pegou no colo — Shhhh... Já passou, ja passou... Aquele miserável colocou você nesse lugar tão apertado e escuro... Não sei como não morreu sufocado. Ah, lembrei, você não é um bebê qualquer.


Chorando um pouco menos, Dante foi posto na cama.


— Tenho que conferir se não vem mais monstros horrorosos. Não demoro, fica aí...


Mas assim que Nathan virou-se, o bebê voltou a chorar aos gritos.


— Ah, entendi, você odeia ficar sozi... — interrompeu a fala ao encarar atônito Dante flutuando enquanto emanava uma aura dourada com ondulações em torno — OK, agora tô assustado. Espero que isso não indique que você vá explodir ou... — de repente sentiu agulhadas no cérebro que o fizeram por as mãos na cabeça e grunhir de dor. Assim como ocorria aos ofanins caídos, atordoados com o som agudo do choro de Dante, o que facilitou serem apreendidos pelos ofanins puros e serafins.


Durante sua luta contra Raziel no interior da capela gótica, Raguel se ajoelhava perante o irmão, torturado pela onda sonora.


— Vamos, o que espera? Me mate! 


Raziel encostou a ponta da espada no pescoço do irmão corrupto numa menção para golpea-lo inclemente. Porém, apenas o chutou ao chão. 


— A liberdade do Limbo é um regime semiaberto que torna a morte boa demais para você. 


O puxou por uma perna. Raguel foi sendo arrastado como qualquer coisa enquanto sofria a dor do peso do fracasso doendo mais que a atormentadora dor física. Na floresta, Hoeckler deixou para trás seu paletó azul e a gravata, a camisa branca suada de tanta correria. Os seres do Limbo da mesma espécie que atacou Nathan vinham em peso. Ele parou frente a base de um rochedo, considerando ali seu fim da linha. 


— Não morrerei como um covarde. — apontou a arma para a horda monstruosa — Adeus, Agnes. — eles se aproximavam — Adeus, meus nobres soldados. — deu um passo adiante — E... Adeus, Frank. Deixo o resto com você.


Abriu fogo contra as criaturas, abatendo várias, mas eram tantas que não refreava o exército. Cada bala disparada era uma lágrima contida. A multidão de monstros prevaleceu, o encurralando no rochedo e partindo para cima.


Drones cruzavam os céus com altos travados no centro de Los Angeles, disparando mísseis que atingiram vampiros, lobisomens e seres do Limbo em áreas nas quais os caçadores se viam afastados, as explosões praticamente simultâneas. A ação gerou um frissom de comemoração entre agentes e caçadores.


— Chefe, taxa de eliminação em 90%! Estamos progredindo. — informou um agente via rádio para Hoeckler. Mas havia apenas estática — Chefe? Por favor, responda! Ah não...

Chernobog retornava a catedral observando a destruição provocada pela explosão de Lilith. Foi andando entre os escombros com labaredas em meio a poeira levantada. Reparou num pedaço de malha de ferro azul das vestes dos querubins e o apanhou, não tendo mais dúvidas.


— Mas quanta tolice se autodestruir.


O helicóptero que trazia Frank vinha aproximando-se.


— Ele tá logo ali.— disse o piloto — Parece que já nos viu! Montgrow, se prepara!


— Tô preparado desde bem cedo! — disse Frank abrindo a porta de passageiros da aeronave — Quando for a hora, me manda pular! 


— Sem para-quedas?! Talvez precise!


— Nessa altura, meus joelhos aguentam! Tô com cinquenta mais um, mas isso é só um número! 


Chernobog alvejou-os, o olhar colérico. Criou uma esfera sombria nulificadora na mão direita e a lançou contra a aeronave.


— Pula! — dissera o piloto.


— Valeu pela carona! — disse Frank que logo saltou da altura considerada segura por ele. O detetive caiu rolando pelo chão acima da entrada que precedia a entrada da catedral. Levantou depressa, sentindo leves dores, e testemunhou o helicóptero sendo atingido pela esfera que o envolveu e o seguiu em queda reta, mas não tocou o solo pois a aeronave foi tragada para o vazio junto ao valente piloto.


— Adeus, amigo. — disse Frank, abalado com a morte do funcionário da ESP. Correu até a catedral onde encontrou Chernobog sozinho meditando sentado.


— Não entre com tanta altivez, seu débil. — insultou a entidade reabrindo os olhos.


— Por que não? Eu tenho isso aqui. — disse Frank sacando a Flamígera antes presa ao cinto.


Chernobog levantou-se, ficando frente ao caçador.


— Espera minha rendição sem uma luta apenas pelo privilégio de segurar tamanha arma? 


— Não, até porque pra se vencer uma luta não depende da arma, mas de quem a tem. A única garantia é que sou digno dela e nada mais.


— Por que prorrogou tanto esse nosso tão esperado momento? 


— Não estava pronto.


— Este olho esquerdo me assegura de que está faltando com a verdade. Você sentiu medo, natural da sua espécie, não irei julga-lo. Mas se fez uma escolha, deve se conscientizar das implicações que ela reserva.


— A espada me escolheu. Não vim fazer mais que minha obrigação.


— Mas é óbvio que veio. Ou acreditou que eu não deduzi que sua intenção secundária fosse relacionada ao seu caro irmão? Lamento por você e por ele, mas a reunião de familia foi cancelada.


— Se eu soubesse de um meio pra arrancar você desse corpo, eu não teria me sujeitado a essa espada! A Agnes e a turma dela cuidariam do resto.


— Seria uma tremenda estupidez, até para você, abrir mão da única arma que pode me destruir. Mas em ambos os casos o resultado seria invariavelmente uma causa vã.


— Do que tá falando?


— Não veio aqui para discussões extensivas e sim salvar seu irmão nefilim que está desperto e se esforçando inutilmente em reassumir o controle. Mas ele se encontra fraco subconscientemente.


— Talvez ele recupere a força... — disse Frank caminhando até ele, a Flamígera na mão direita se incendiando — ... se você for enfraquecido.


Frank fizera um movimento ofensivo com a espada, lançando um corte de fogo, mas Chernobog sumira em teleporte, logo ressurgindo bem a frente e lhe dando uma bofetada de dorso que o jogou contra uma parede. O detetive não largou da espada e se reergueu, logo sendo atacado por várias esferas sombrias de Chernobog que anulava com golpes vigorosos a medida que se aproximava.

O ritmo de sequência de esferas disparadas aumentava, desafiando a eficácia dos reflexos de Frank manejando a espada. Uma das esferas acabou acertando-o na barriga, fazendo-o largar a espada pela dor lancinante como se seus órgãos internos tivessem sido esmigalhados. Sem a proteção da Flamígera, Frank recebia vários socos com as mãos de Chernobog cobertas por esfera sombrias.

Fred, em sua mente, persistia em sair com seu poder, chegando a fazer alguns rombos na porta. Os olhos do nefilim brilhavam mais intensos e seus dentes cerrados quase trincando. "Eu tô quase lá! Me aguarda, Frank... Eu tô chegando!"


Os socos ininterruptos em Frank deixavam machucados graves como hematomas e cortes sangrentos. Contudo, a Flamígera pareceu ter adquirido vida senciente e saiu do chão se lançando direto a Chernobog que desviou, mas grubhiu ao levar um corte de raspão no peito. A espada cravou a ponta no chão.


— Toma essa, imundo. — disse Frank cambaleante, a face bastante ferida. Soltou uma risadinha como se seu corpo tivesse anestesiado a dor.


— Qual a razão desta alegria? As pancadas o deixaram insano?


— Não, é que... Você não contava com isso, né? A espada e eu temos uma ligação simbiótica. Mexeu comigo... mexeu com ela.


A Flamígera retornou a mão de Frank quando ele estendeu o braço, segurando com as duas mãos.


— Você levou o primeiro round mas no segundo eu viro a mesa! — a espada se inflamou novamente.


— Chega, chega, pare! — disse Chernobog as mãos na cabeça, aturdido — Eu sabia, por sua causa não pude mata-lo de imediato!


— Como é que é? — indagou Frank, franzindo a testa, curioso — O que é isso? O Fred tá pressionando você?


— Esse nefilim insolente... tem influenciado minhas decisões neste embate! Do contrário, você já estaria aniquilado sem a menor chance de encostar em mim com esta espada!


— Então o  Fred tá interferindo... Fred, tá me ouvindo? Se puder se comunicar por telepatia ou coisa parecida, tenta ao máximo, não desiste!


"Frank, acaba com ele! Aproveita que eu tô deixando ele o mais vulnerável possível!", disse Fred telepaticamente a Frank "Consegue me ouvir?"


— Sim, tô te ouvindo, alto e claro, dentro da minha cabeça! Tenta voltar ao comando e depois expulsar ele pra nós dois lutarmos!


"Não, me dei conta de que é exaustivo demais pra mim! Eu prefiro ser morto com ele do que fazer você desperdiçar essa chance!"


— Pensa realmente ser capaz de sobressair a mim? — disse Chernobog, resistindo — Ouça aqui, sua criatura aberrante, eu sou um deus! Inatingível e perpétuo! Aaaaahh!


Chernobog contra-atacou lançando uma esfera sombria contra Frank que foi aprisionado na mesma e depois engolido até se reduzir ao nada. Fred se afligiu ao não mais ouvi-lo.


— Frank? Frank! Não... Não pode ser... — disse ele quase chorando, minimizando suas forças e caindo ajoelhado, desestimulando.


Em frente a catedral, o grupo se reunia quase num todo. Nathan veio com agentes trazendo Dante, em seguida Natasha, Miyako, Dynno e os outros insurgentes e depois os serafins e ofanins.


— Nenhum de vocês se atreva a entrar lá. — orientou Raziel — Ele está exponencialmente mais forte do que quando o prendemos.


— Mas e o meu pai? Temos que ajuda-lo de algum jeito! — disse Nathan.


— Não sinto a energia de Frank. — disse Adrael, tenso.

— Como assim não sente? — indagou Natasha — Ele está lá enfrentando o Chernobog, não é?


— A presença física dele se foi. — reforçou Thaumiel.


— Se for o caso... — disse Raziel.


— Ele ainda tá vivo! Pode ser um truque da espada ajudando nele numa estratégia! — disse Nathan, aborrecido.


— A Flamígera não possui truques, apesar de se conectar intimamente com seu portador e fazer suas vontades. — disse Thaumiel.


Carrie surpreendentemente corria até eles na companhia de dois serafins.


— Carrie?! O que ela tá fazendo aqui? — indagou Nathan.


— Ela me chamou por prece. — revelou Adrael — Mas transferi a tarefa de leva-la a Israfil e Samriel, também para escolta-la até aqui.


— Cadê ele? Já acabou? — perguntou Carrie, afoita. A assistente sentiu o coração estrangular com as expressões desalentadoras.


— E a mamãe? — perguntou Nathan.


— Lá no bunker. Orando constantemente pela vida do Frank.


— Então peça para que tais orações cessem. — disse Chernobog no alto da escada de concreto — Pois foram insuficientes.


— Maldito, o que fez com o Frank? — quis saber Carrie, petulante.


— Frank Montgrow jaz morto. — declarou a entidade, soberba — Obliterado ante meu inquestionável poder. Derramem suas lágrimas de pesar à vontade, não há mais nada a ser feito que possa intercalar sobre os meus propósitos.


Carrie se boquiabriu em abalo devido ao modo com que a mensagem foi transmitda.


— É mentira! — vociferou Nathan sendo barrado pelos ofanins — O que você fez?


— Eu me nego a dar satisfações a meros escravos. — rebateu Chernobog que estendeu as duas mãos, lançando uma onda psíquica torturante contra todos. Mesmo os ofanins se curvavam expressando dor fortíssima.


— O que é isso? — dizia Miyako — Dói... tanto!


— Minha cabeça... parece que vai explodir! — disse Nathan — Para!!!


A entidade dava uma risada contida e infame com o sorriso de Fred enquanto mantinha-os subjugados. Paralelamente, em um lugar de escuridão aterrorizante, Frank despertava como de um pesadelo deitado de bruços naquele solo meio arenoso meio rochoso. A Flamígera permanecia com ele.


— Pra onde é que aquele desgraçado me mandou? — questionou ele, levantando — Que terrinha de ninguém é essa? — olhou ao redor, observando a vastidão desértica sob o céu negro com uma linha dourada sombria no horizonte num amanhecer que jamais ocorria — Será que foi aqui que Judas perdeu as botas?


— Frank...

— Quem disse isso? Não basta esse lugar ser assustador pra caramba, ainda tenho que ouvir vozes vinda do escuro.


— Sou eu... — disse um homem corpulento de barba preta espessa e usando um boné saindo das trevas — ... filho. 


— Pai? — Frank chocou-se — Ma-mas... Eu sei que não fui mandado pra Eternidade, nem pro mundo espiritual... Também não é o inferno... Então que fim de mundo é esse aqui? E por que você tá aqui? Você é mesmo meu pai ou...


— Frank, acredite piamente, sou eu mesmo. Em alma e espírito. Alguém nos trouxe aqui porque observava você na difícil batalha que tava travando.


— Alguém que nos honra pelo que escolhemos ser. — disse Robert Montgrow surgindo ao lado do neto.


— Vovô?! O que tá havendo aqui? Alguém me explica, por favor, tô quase num surto.


— Tecnicamente uma reunião de família. — disse Archibald Montgrow.


— Bisavô... 


— Para mandarmos você de volta ao duelo. — disse Nathaniel Montgrow, sorrindo educado.


— Agora meu trisavô... A propósito, tenho que te dizer, você ferrou com a nossa linhagem quando traiu a Dorotheia, a bruxa com quem se envolveu. 


— Nunca é tarde para se pedir perdão, certo?


Frank o fitou fixamente, sério.


— Tudo bem. Não vou guardar mágoa de quem morreu, pagou e se arrependeu. Tá perdoado sim. A Flamígera, essa espada... fez o mesmo por mim, é um símbolo de graça divina.


— E foi exatamente ela que o salvou da aniquilação. — disse um homem forte de pele parda usando a cabeça de um cervo como elmo  e a pelagem de diversos animais como uma roupa.


— Você... quem é? 


— Este é Herne, filho. — disse Klaus — O deus dos caçadores.


— Adivinhou que o Chernobog me mandaria pra cá pra reunir todo mundo?


— Não haveria lugar mais óbvio para o qual alguém como você fosse enviado. — disse Herne aproximando-se — Ouça, Frank: estamos todos aqui para saudar seu propósito. 


— E quando ele diz todos... — ressaltou Nathaniel — ... são todos mesmo.


Frank foi cercado com os vários de seus ancestrais surgindo, sendo o último Orion cuja presença  rapidamente chamou a atenção do detetive.


— A sua luta não termina aqui. — disse Herne mais próximo dele — Agora, todos vocês, formem a corrente.


Klaus tocara no ombro do filho seguido de Ronald e Archibald. Os demais tocavam uns nos outros, os olhos brilhando em verde claro com a emanação do poder de Herne que compartilhava com eles.


— Como isso vai me fazer voltar?


— A corrente transferirá a energia espiritual em carga necessária para que você canalize à espada e a reacenda. Erga-a!


Frank levantou a Flamígera o mais alto que pudera. 


— Tô sentindo... É agora!


A lâmina dourada se inflamou em chamas e disparou fogo para cima criando um pilar. 

— Sua passagem de retorno. Este pilar rompe o véu da realidade e o levará com ele. — asseverou Herne envolto na sua aura energética.


Uma luz alaranjada refulgiu intensamente de dentro da catedral, fazendo Chernobog interromper sua tortura ao virar o rosto.


— Essa luz... — disse Adrael — Frank voltou, posso senti-lo novamente!


— Seu mentiroso de uma figa... — disse Carrie se recompondo — Pra onde você tinha mandado ele?


— Provalvemente o Oblívio. — disse Raziel — Como ele regressou de lá... não faço ideia. 


— Ele intencionava obliterar Frank, mas a Flamígera evitou. — disse Thaumiel — Sem dúvidas que com a ajuda dela ele escapou.


Chernobog caminhou de volta, furioso.


— Pai... acaba com ele. — disse Nathan olhando a luz reduzir. 


Adentrando novamente, Chernobog viu Frank triunfante com a Flamígera mais incandescente.


— Desta vez farei com que essa espada o abandone no seu leito de morte!


— Você foi testemunha. A conexão dela comigo me salvou duas vezes! Isso nem seu poder é capaz de apagar! 


— Veremos na prática. — disse Chernobog ainda mais obcecado em sair vitorioso — Como será que sustenta toda essa valentia lidando com seu pior medo?


A entidade se metamorfoseou numa aura sombria, sua aparência assemelhando-se besta de Vanderville - a pele negra como ébano e o rosto canino como o de um lobisomem, mas com olhos humanos. O porte físico também adquiriu robustez intimidadora. Frank não conteve os flashes na memória da ocasião em que matou a fera que fora seu pai amaldiçoado.


— Pra sua informação... Eu já superei esse trauma! — afirmou Frank, inabalável — Desiste, você perdeu tudo! O seu bruxinho, o seu exército... e até seu irmão asqueroso que tentou se apoderar do meu corpo! 


— Meça suas palavras! — disse Chernobog com uma voz monstruosa que criou com as duas mãos uma esfera sombria, a qual foi aumentando. A lançou com toda sua fúria contra Frank. O detetive, porém, defendeu-se com a espada em chamas. O fogo sagrado parecia absorver a esfera que reduzia rapidamente no contato com a ponta da lâmina.


Frank revidou brandindo a espada e em seguida a baixando vigorosamente, disparando uma potenre onda de calor e labaredas que atravessou veloz o piso e cercou Chernobog num círculo de fogo.


— Tire-me daqui! — disse a entidade que batia numa parede invisível estando presa no círculo — Como um inseto feito você foi capaz de tal feito? É inadmissível!


— Ainda não entendeu? A Flamígera e eu estamos ligados. — enfatizou Frank se aproximando — E quando um usuário se torna amigo de sua arma, ambos são como se fossem um só organismo!


O detetive atravessou o fogo, os olhos de audácia cravados no adversário que reagia com histeria e exasperação.


— Não! Afaste-se! Não vou permitir que uma criatura tão reles me submeta!


— Ah, quem tá com medo agora? Não pode usar seus poderes nessa rodinha, né? Pra onde quer que você vá... — disse Frank que ergueu a espada apontada para ele. Chernobog tentou desferir um soco no detetive, mas Frank esquivou se abaixando e com agilidade fincou a lâmina na barriga dele — Se lembre eternamente que foi esse reles aqui que te deu uma bicuda!


— Maldiçãooooo! — esbravejou Chernobog com sua face lupina, os olhos arregalados e cuspindo saliva entre as presas. O fogo sacro se introduzia com enorme fulgor. Frank aprofundou a lâmina duas vezes com toda a força. O aspecto baseado na besta de Vanderville se perdia rápido, regredindo a aparência de Fred. Chernobog começara a flutuar, a espada e seu fogo lhe fazendo experimentar uma dor inefável.


Frank recuou um pouco vendo os olhos de Fred brilharem como se estivessem queimando. Não, estavam queimando, podia-se ver nitidamente. O berro de Chernobog foi ouvido de fora, trazendo um alento esperançoso. Os daevas anteriormente absorvidos saiam da mesma forma que entraram: como abelhas que ali abandonavam a colmeia. As criaturas submundanas se ejetavam e espalhavam-se no céu.


— O que são essas sombras? — indagou Natasha, abismada.


— Daevas. — respondeu Raziel — Ele havia os assimilado para retomar seu poder na escala original. Estão voltando ao submundo, não irão nos atacar. E se eles foram expulsos... 


— Isso só indica que Frank pode ter ganho a batalha. — disse Adrael contendo um sorriso.


— Ele não só venceu a batalha... mas toda a guerra santa. — concluiu Raziel.

O enxame de Daevas cessou e o corpo de Fred caiu bruscamente ao mesmo tempo que o círculo de fogo se desfez. A Flamígera apagou seu fogo. Frank se aproximou devagar, logo desencravando a espada. Porém, a lamkna de repente ganhou um peso de toneladas que ele não segurou por mais que cinco segundos.


— Caramba... — disse, largando a espada que caiu pesadamente, quase afundando no piso. As mãos de Frank doíam e tremiam — É assim que você termina nossa relação, espada fresca? Agora só um anjo pra tirar daí... — uma tontura acompanhada de indisposição o acometeu de súbito. Frank caiu pensando que seu corpo sofria efeitos colaterais com o uso da espada.


— Frank... Você ainda tá aí? — indagou Fred, os olhos apenas órbitas vazias e queimadas.


— Fred... Peraí, só um instante... — disse Frank se arrastando até ele devido a fraqueza — Desculpa, eu falhei contigo... 


— Não falhou nada... Você é um campeão, o herói que essa guerra merecia.


— Mas minha prioridade era salvar você... Era pra ser nós dois deitando o maldito na porrada.


— Sem mim influenciando as decisões dele... Teria sido mais difícil. Tinha que ser assim.


— São essas encruzilhadas que... tornam essa nossa vida de caçador um fardo mais pesado. A gente pensa que não aguenta, mas... a vida dá um jeito. Os seus olhos... estão queimados.


— Se fossem só os meus olhos... Mas tô resistindo ao máximo pra termos esse último momento juntos. Eu queria muito chorar agora, mas não consigo. — disse o nefilim, a voz embargada — Mas só de estar ouvindo sua voz... me reconforta. Sabe qual a última coisa que eu gostaria de ouvir? 


— O que é? — perguntou Frank, sofrendo antecipadamente, mais próximo.


– Os gemidos dos meus bebês. Ou até o choro deles. Onde estão?


— Vivos. Mas rolou uma parada muito cabulosa com o Fred Jr., foi um baque pra todos...


— Mataram meu filho? — disse Fred o tom choroso.


— Sim, ele morreu. Mas... Raziel trouxe ele de volta. Você teria se detonado de chorar de tanta emoção. Foi como se ele tivesse acabado de nascer. Só que... você perdeu sim um filho pra sempre.


— Não me diga que... O Donald... Não, Frank, não mente pra mim... Me diz que isso não aconteceu... 


— Eu sinto muito por suas perdas, muito mesmo.


— Perdas? Quem mais morreu?


Frank fechou os olhos, comovido.


— A Pamela. 


Fred caía aos prantos mesmo sem nenhuma lágrima. 


— E noivo dela, o Derek, também. O Malvus queimou todos eles. Minha mãe também. Meu tio... e alguns amigos. Mas eu os vinguei. 


— Derrotou o Malvus?


— Com um tridente ainda mais forte que aquele que você cravou nele só com um rugido de Godzilla.


— Você não tem ideia... do quanto eu me sinto grato por você agora. Segura a minha mão, por favor.


Frank o fizera com firmeza.


— Meu tempo tá esgotando... Pra onde será que eu vou? O mundo celestial? Como é lá?


— É o lugar mais tranquilo que existe... Parece até a terra dos Teletubbies.


Os irmãos deram uma risada conjunta.


— Mas... — disse Frank retomando a seriedade junto ao lamento — ... não pra lá que você vai. Nem pra Eternidade ou o inferno.


— O Limbo, não é?

— É. Vai reencontrar a Lilith.


— Ela... também se foi? Ah não... 


— Ela se sacrificou pra levar os querubins com ela. Loucura. Mas foi muito nobre da parte dela. A redimiu. Só cuidado pra vocês não toparem com o Malvus por lá.


— O que vai ser do Dante e do Fred Jr.? Não deixa mandarem eles pra um berçário ou orfanato.


— Talvez eu e a Lucy ficaremos com eles.


— Promete pra mim... que vai cuidar deles com todo o amor de um pai?


— Prometo. Eu cuido sim. 


— Obrigado, Frank. — disse Fred em seus últimos e cansados suspiros — Amo você.


— Também te amo, irmão. — retribuiu Frank, as lágrimas escorrendo. A boca de Fred via-se semiaberta, mas nenhum sopro de respiração saía — Fred... Fala mais um pouco... por favor. — o detetive caiu num choro de soluçar e se debruçou sobre o corpo do meio-irmão como fizera ao seu pai quando o matou sem conhecimento.


As atenções foram voltadas para Frank descendo lentamente a escada ao sair da catedral e carregando o cadáver de Fred nos braços em pesaroso expressão. Logo, deixou-o no chão.


— Tio Fred... — disse Nathan, atônito — Pai, ele...


Frank, ainda em prantos, fez que sim com a cabeça. Carrie fechou os olhos indo as lágrimas e fora abraçar o amigo para consola-lo.


— Ele se foi. — disse Frank sendo afagado nas costas. Nathan se junto ao abraço dividindo seu choro.


— Lamentamos por sua perda, Frank. — disse Raziel — Mas era o curso a ser seguido.


Agnes vinha em retorno devastada.


— Agnes... — disse Natasha — E então? Você... fechou o portão do Limbo?


— Sim. — disse a bruxa tentando não expor tanto seu luto.


— E o Hoeckler? — indagou Frank.


A bruxa balançou a cabeça negativamente, não mais suportando conter a dor, a tristeza e o choro preenchendo sua face.


— Oh meu Deus... — disse Carrie, abalada, indo abraça-la. Natasha e Miyako deram os pêsames a Frank com abraços apertados. Os agentes da ESP choravam, muitos deles abraçados. 


Dante foi trazido por um agente enquanto Fred Jr. por Fana.


— Acordou há pouco. — disse a serafim — Acabou? O Grande Mal foi extinto?


— Sim, acabou. — respondeu Adrael.


Nathan pediu para ficar com Dante nos braços. Miyako pediu por Fred Jr.


— Os nenéns são responsabilidade minha e da Lucy agora. — definiu Frank.


— Não, pai. — contrariou Nathan — Miyako e eu... cuidaremos deles. Eu já tinha contado a ela antes que... minha condição de híbrido impede de ter filhos. Fiz um teste de fertilidade sendo doador de esperma e... a receptora não engravidou. Foi mal esconder, queria que todos soubessem na hora certa. 


— Você é estéril... — disse Frank.


— Sou, pai. Mas não significa que o legado de caçador morreu. Eu ainda tô aqui. E temos esses dois bebês incríveis que o tio Fred nos deixou.


Frank fitou o filho sentindo orgulho paterno no mais alto grau, sorrindo ao conter a emoção.


— Legado não é apenas sangue. É mérito. E você vai torna-los merecedores.


— Minha maior promessa. — ressaltou Nathan.

— Nossos filhos? — indagou Miyako olhando-o.


— O que você acha?


A caçadora sorriu risonha, meio nervosa, e o beijou apaixonadamente. Um agente da ESP veio até eles.


— Enquanto vocês ajeitam as coisas pra oferecer todo o conforto que eles merecem, podem deixá-los conosco. Estarão sob os cuidados mais rigorosos, podem confiar.


— Está bem. — disse Nathan entregando Dante ao agente. Miyako entregou Fred Jr. a outro — A maioria de vocês devem ser pais, então...


— Eu tenho uma de dois meses. — revelou o agente, simpático, segurando Dante com toda a delicadeza — Fiquem despreocupados, eles ficarão bem até que vocês achem um lar.


— Frank, aonde você vai? — perguntou Carrie.


— Atrás do Atticus, da Virginia... e da Lisbell também, ela sumiu...


Um buraco nas nuvens se formou acima de Frank. De repente, uma luz branca e angelical descera sobre ele, contemplando-o. O detetive olhou para cima, banhado pela luminosidade celestial.


— Carrie... — disse ele olhando com urgência para a amiga antes de ser abduzido pela luz, desaparecendo diante de todos.


— Frank! — gritou Carrie, perplexa.


— Pai! — berrou Nathan correndo para onde estava Frank — Cadê ele? Que luz foi aquela?


— Sr. Montgrow... — disse Miyako, paralisada de assombro.


— O que aconteceu com o Frank? — interrogou Natasha aos anjos — Parece até que... um disco voador abduziu ele! Por que estão tão tranquilos?


— Frank receberá o galardão pelo cumprimento de seu propósito aqui neste mundo. — esclareceu Raziel.


— A missão dele chegou dele ao fim. — reforçou Thaumiel.


— Como Enoque, ele foi arrebatado sem experimentar a morte.— disse Adrael que olhou um tanto triste para o céu — Sentirei saudades.


Nathan estava visivelmente inconformado. 


— Não, não... — se prostou no chão baixando a cabeça quase a ponto de arrancar os cabelos — Nããããooo!


Subitamente, o híbrido foi tomado por uma dor excruciante nos olhos.


— Nathan! — disse Miyako correndo para ampara-lo — O que foi?


— Miyako... — disse ele, desesperado, com os olhos esbranquiçados — Não enxergo... Não enxergo nada... Eu tô cego! — desabou em choro — Exagerei no olhar de petrificação!


— Não devia ter se esforçado tanto! — disse Miyako que chorava abraçada a ele. Carrie, Natasha e os anjos sentiam empatia por ele. 


— Pode ser temporário. — disse Carrie, sentida pela situação do híbrido.


— E se não for? — indagou Miyako, a face molhada.


— Já perdi minha família... Não vou perder você e nem nossos filhos. — disse Nathan, firme.


— Vejam. — disse Afnes apontando para o horizonte. O sol pareceu retornar mais resplandecente do que jamais foi um dia. Adrael veio até Carrie.


— Ele foi para um lugar melhor. O Altíssimo nunca erra.


— Eu sei. — disse Carrie que parecia consolar-se aos poucos. Ciente do que Adrael lhe disse, sabia que a aceitação viria em pouco tempo, embora a saudade empre tentasse lembrar do quão mal faz uma perda. A assistente assistiu o renascer do sol e sorriu com uma lágrima descendo.

Frank estava numa espécie de espaço celestial em meio a brancas nuvens que ocultavam o suposto chão que pisava. 


— Eu tô... literalmente no céu?


— Não, mas terá sua recompensa como se estivesse nele. — disse um garoto atrás dele usando uma túnica branca.


— O que... — disse Frank chocado pelo menino ter exatamente sua aparência quando tinha dez anos — Você... sou eu?


— Eu sou o todo. — disse o garoto identificando-se claramente — Chegou a sua hora, Frank.


— Você... é ele? Belobog?


— Possuo vários nomes dentre minhas últimas criações. Agora lhe farei desfrutar do que você tanto ansiava buscar em sua vida. — disse ele que mostrou um cristal de dimensão de bolso.


— Eu nem tive tempo de me despedir dos meus amigos... Do meu filho... A minha recompensa é estar com eles, eu me sinto satisfeito. Por favor, me manda de volta.


— A decisão cabe a mim. Eu sei o que é melhor para você. — disse o Altíssimo, serena e enfaticamente. A esfera de cristal brilhou uma branca que fizera Frank cobrir os olhos.


***


Em sua nova residência, alugada e financiada com a ajuda de Natasha - que retornou a Londres três dias depois da batalha por Los Angeles -, Carrie estava frente a um laptop digitando tranquilamente um texto as vésperas da conclusão. A assistente havia mudado o corte e a cor do cabelo - estando meio ondulado, mais comprido e nunca castanho escuro, abandonando o chanel ruivo acastanhado com franja - e usava uma camisa cinza similar a um moletom.


"A parte mais desafiadora de se escrever uma história... é determinar o seu final.", pensou ela enquanto escrevia. "Mas o final nem sempre e o desfecho absoluto, uma porta que você fecha e tranca para sempre. Muitas vezes é o terreno fertilizado para uma fase subsequente ... um capítulo inicial de um outro ciclo de histórias. Sim, a história dele não termina com uma partida súbita e inesperada. Ela apenas... recomeça."


Frank acordava num amplo jardim de flores belíssimas, ouvindo cantos de pássaros e sentindo um aroma perfumado que acreditou ser jasmim. Uma paz inestimável lhe invadiu ao se dar conta de onde estava quando levantou. 


Teve a impressão de ver alguém passando correndo pelos grandes arbustos. 


— OK, não tô sozinho. Mas será que aqui é onde eu tô pensando que é?


Se lançou a perseguir a figura misteriosa.


Nathan e Miyako tiveram êxito na compra de uma casa com uma quantia guardada por Frank numa conta bancária. O casal aproveitava o primeiro dia com os bebês após um tempinho organizando tudo para acomoda-los.


Dante e Fred Jr. partilhavam do mesmo berço, ambos acordados movendo os bracinhos e gemendo.


— Pois é, rapazinhos, a partir de hoje vocês vão dividir o bercinho, pelo menos enquanto não compramos um novo. Até lá vão ter muito que se aturarem. — disse Miyako, tamvrm de visual alterado - o cabelo mais curto ao estilo chanel - inclinada com os braços apoiados na grade do móvel. 


— E não queremos ver disputa de território hein. — disse Nathan se aproximando e brincando com eles fazendo coçadinhas nas barrigas.


— Mas pra quem daremos o berço novo? — questionou Miyako.


— Considerando que esse daqui era o que ficava na casa da Lilith e foi onde o Dante mais dormiu... 


— O Fred Jr. também dormiu nesse por um certo tempo. Temos que ser justos.


— Ah, lembrei. O berço onde eles ficaram lá no cortiço em que os anjos se refugiaram.


— Eles voltaram pro mundo celestial, não? Isso seria roubo.


— O Adrael e eu temos nos falado. Ele contou que alguns resolveram ficar pra se adaptarem ao mundo humano sem faltarem com os deveres angelicais. Aquela serafim que cuidou deles, a Fana, também está lá.


— Podíamos contratá-la de babá. 


— Boa ideia, vou dar um pulo lá hoje.


— E... nada sobre a sua mãe?


Nathan silenciou por um instante, sério.


— Ela não pode ter ido embora sem mais nem menos. Não viraria as costas pra mim e pro papai. Eu vou encontra-la, não passa um dia que eu pense em desistir.


Miyako conferiu uma mensagem no celular.


— É a Carrie. Confirmou o mêsversário dos bebês pra amanhã a noite na casa dela. Pena que a Natasha não ficou mais um pouco pra participar. 


Dante começava um choro insistente.


— Conheço essa cara... — disse Nathan o tirando do berço. 


— E esse cheirinho também. Me deixa eu trocar ele.


— Não, deixa comigo. Combinamos assim, lembra? Eu troco o Dante e você o Fred Jr.


— Tá bom, papai coruja, mas anda logo antes que ele fique mais estressado. — disse Miyako que sorriu orgulhosa para o amado que foi depressa colocar Dante na cama para substituir a fralda — É, Fred Jr., você e seu irmão ganharam um novo pai sensacional.


Pelo jardim, Frank seguia no afã de descobrir quem mais perambulava por ali e se escondia.


— Quem será você? Eu só quero conversar!


A sombra parara. A figura imediatamente se revelou.


— Você?!


Num outro dia, Nathan saía as pressas de casa levando uma caixa de papelão média.


— O Dante já dormiu?

— Já, dei o leite dele primeiro. Aonde vai? — perguntou Miyako sentada no sofá com Fred Jr. nos braços dando leite na mamadeira.


— Fazer um favor a um velho novo amigo.


— O que tem aí dentro?


— A cabeça da Medusa. — informou Nathan, decidido. Miyako assentiu.


— Sei que não vai se arrepender. Tá fazendo a coisa certa.


Nathan fez que sim com a cabeça, logo saindo. No bunker da ESP, Agnes caminhava por um corredor puxando uma mala de rodinhas.


— Tem vaga pra acompanhante? — indagou Lisbell vinda de outro corredor atrás dela. A bruxa virou-se tirando os óculos escuros. 


— Tem certeza disso? E seu grupo, simplesmente vai deixá-los para trás?


— A facção ficou pra trás. — disse Lisbell aproximando-se — Decisão de comum acordo. Sem a liderança de um descendente de Merlin, não tem nexo manter as coisas como se tudo fosse voltar a ser como era antes.


— Então resolveu definitivamente seu futuro?


— Agnes, você é o porto seguro que me restou pra fugir dos fantasmas que me assombram. Com você eu sei que... posso levar uma vida superando as faltas do Darius e da Tanya.


— Seremos refúgios uma da outra. 


A dupla caminhou lado a lado. 


— Isso soou estranho pra você?


– Admito que... um pouco. — respondeu Agnes com ares de riso — Somos irmãs de consideração.


— Sempre fomos.


Num bar, Nathan sentava-se ao lado de um homem no balcão. O sujeito usava boina cor creme e usava colete verde oliva por cima de uma camisa branca.


— Curtindo a nova vida?


— Até que não tem sido tão difícil voltar ao antigo estilo. Diria que... nostálgico.


— Voltou a caçar?


— Assim como o mundo voltou a ser um lugar permeado de ignorância e medo. — disse Nero tomando um gole de bebida — Essa época tem suas evoluções, mas... pelo amor de Deus, o uísque foi na contramão. — reprovou a bebida.


— Nada dura pra sempre. — disse Nathan, rindo — Era só o que eu queria saber. A gente se vê, Nero. — levantou dando um tapinha nas costas dele.


— Espere, Nathan. — disse ele virando-se mostrando seu rosto de homem na meia-idade com olhos verdes — Obrigado.


— Já me agradeceu antes. Mas só estaremos quites se... você se juntar a Insurgência.


— Vou pensar no assunto, embora eu tenha ponderado a aposentadoria.


— Escolha o que achar mais adequado pra você nesse recomeço.


— Poderia... me chamar pelo meu nome real de agora em diante?


— Claro. — atendeu Nathan, compreensivo — Até mais, Desmond. — virou-se para sair dali sendo observado com satisfação pelo caçador regenerado.

A bordo do voo para a Irlanda, Agnes e Lisbell estavam sentadas de perto. 


— Quer mesmo encontrar essa tal lápide? Aliás, acredita que isso exista? — perguntou Lisbell.


— Vivemos um apocalipse pra nos convencer de não duvidar de mais nada. — contestou Agnes — Está entre os itens de leilão, não é?


— É essa? — Lisbell mostrou a imagem no celular em uma página do catálogo do leilão.


— Sim. — confirmou Agnes olhando com certa tensão — Há outras como ela. Mas esta... quis ser encontrada. 


— Ele não pode voltar, pode?


— Talvez sim, talvez não... Esses monolitos devem ser um mistério até para os anjos. Me dá licença, vou no banheiro.


— OK. — disse Lisbell dando passagem a ela. 


A bruxa necronomiana entrara no toalete onde realizou um teste de gravidez. Ao verificar o resultado, sua reação fora neutra, mas engoliu a saliva.


Carrie vivenciava uma nova etapa após largar a investigação criminal e se matricular num curso de literatura onde conhecera um novo alguém para dividir sua rotina diária como aspirante a  escritora de romances.


— E... terminei. — disse ela dando o ponto final na história que não era nada mais que uma biografia não-autorizada com o título de "Frank, O Caçador" — Oh, obrigada, amor. — agradeceu pela xícara de café entegue por um robusto homem afro-americano meio careca e que usava óculos. Carrie retribuiu com um beijo.


Um homem de terno e gravata batia a porta da casa de Nathan e Miyako. O híbrido atendera é o deixou entrar para ouvir acerca de algo relacionado a Fundação ESP.


— O Hoeckler... deixou um testamento? — indagou Nathan, incrédulo.


— Exato, mas originalmente era para ser lido pelo seu pai. Na verdade, foi dedicado a ele. Temendo que fosse perder a vida na guerra, Theodor deixou uma herança.


— Que tipo de herança? — indagou Miyako segurando Dante enquanto Fred Jr. dormia no berço moisés sobre o sofá sendo balançado por ela.


— Leia o último parágrafo.  — disse o homem entregando o papel a Nathan que leu o texto na íntegra e se estarreceu.


— Nathan, o que diz aí?


— Se estivesse aqui... o papai receberia a posse da fundação.


— Mas como ele está ausente... O que me diz? É o cargo de presidente. Ninguém recusaria.


Um breve instante de silêncio e ponderação depois...


— Meu pai me passou o bastão pra que eu fosse um caçador melhor do que ele jamais foi um dia. Eu discordei dele, claro. Frank Montgrow é uma lenda insuperável. Todos que se propõem a lutar contra o sobrenatural saberão disso.


O homem dera uma caneta a ele que pareceu hesitar.


— Não farei isso pra me sentir melhor que ele, mas pelo futuro dos meus filhos que vão me honrar assim como eu o honro. — disse ele olhando para os bebês. Pegara a caneta e assinou na última linha sobre a mesa de jantar.


— O novo presidente da ESP tem alguma mudança prévia a implementar?


Nathan virou-se devolvendo a caneta e o papel.


— É, eu tenho sim. — disse ele com certa empolgação — Vamos começar mudando esse nome.


Já no jardim, Frank se aproximava da pessoa que perseguia.


— Não acredito... Parece até um sonho.


— O sonho realista ainda nem começou. — disse Lucy que foi abraça-lo, colando seus lábios aos dele. 


O casal saíra do jardim de mãos dadas, chegando ao alto de uma formação rochosa quase a beira de um penhasco.


— Então quer dizer que Belobog quebrou sua maldição?

— Perfeitamente. Falou que eu era parte fundamental da recompensa dada a você.


— Olha isso. — disse ele maravilhado com a imensidão de beleza natural.


— É lindo. — disse Lucy — Mas será que somos os únicos neste mundo alternativo?


— Só vamos descobrir se cruzarmos além daquelas montanhas. Tô sentindo um cheiro de poluição daqui. — virou-se para ela — Mas antes temos que planejar como será daqui pra frente a nossa nova vida a dois.


— Na verdade... a três. — disse ela acariciando a barriga. A emoção tomara conta do semblante de Frank.


— É sério? Ah meu Deus...


— Arrisco dizer que... você ganhará uma herdeira.


— Uma princesinha, será? Meu coração não aguenta mais de tanta surpresa. Não importa se é herdeiro ou herdeira... Que venha com saúde porque vamos receber esse bebê com um amor maior que esse mundo sem vampiros ou lobisomens pra encher o saco.


— Vai sentir falta de bater em monstros?


— Tô dividido ainda. Mas o Nathan tá lá. Aguenta o tranco. Supre a minha ausência.


Tornaram a olhar para a paisagem de mãos dadas.


— O que faremos agora?


Frank sorriu de leve em contentamento.


— Recomeçar.


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*A imagem acima é prioridade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

*Imagem retirada de: https://presentepravoce.wordpress.com/2012/11/27/a-armadura-de-deus/

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